sexta-feira, 17 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Jesus a Inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Oliveira - Cap. 22 - Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão



Ermance Dufaux - Livro Jesus a Inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Oliveira - Cap. 22


Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão


"Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz." João 11:1-10


Nos instantes de dúvida e tormenta, forma-se o quadro da noite interior. É o momento de parada e reflexão.

As decisões tomadas em clima emocional alterado podem atrair o remorso e a dor.

Na escuridão mental, o tropeço é quase inevitável.

Acenda a luz benfeitora da oração ou do diálogo que apazigua, antes de qualquer decisão sob o influxo da desordem nos seus pensamentos e emoções.

Nas trevas do desespero esconde-se a atitude irrefletida. 

Na escuridão da irritação brota o charco da violência. 

Na negrura da tristeza encontram-se os poços da amargura. 

Nos abismos do ódio aninham-se as víboras da maldade intencional. 

Na cegueira da mágoa ocultam-se as fantasias da vingança. 

Na noite da insegurança encobertam-se os impulsos sombrios da ansiedade destruidora. 

Busque a ajuda na luz quando você estiver nas noites emocionais da desarmonia interior, para que as suas decisões e escolhas não sejam as piores.

Jesus o alerta para não andar à noite, pois o tropeço acontece porque não há luz. O tropeço é o efeito natural de quem tenta caminhar sem condições.

Força, coragem e desejo de melhora não compactuam com precipitação e imprudência. Agir sob o impulso do descontrole é atear gasolina no intuito de apagar um incêndio.

Amanhã, aguardando com paciência e atenção, o quadro pode ser outro. Talvez você tenha mesmo que escolher e agir para que a luz se faça em meio à escuridão, mas se fizer isso com uma tocha de luz, será muito mais proveitoso.

Uma reação impensada é capaz de levar você ao tropeço da insanidade em querer resolver problemas graves em apenas alguns minutos.

Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão, se você realmente deseja a libertação.


Ermance Dufaux





Frase terapêutica

Mergulhe em sua mente. Faça contato com sua riqueza interior. Usufrua do seu poder pessoal. 





Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 2ª Parte - Cap. 3 - Da volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual - Perturbação que se segue à morte - Questão 165 (Miramez)



Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 2ª Parte - Cap. 3 - Da volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual


Perturbação que se segue à morte


165. O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração, mais ou menos longa, da perturbação?

“Influência muito grande, por isso que o Espírito já antecipadamente compreendia a sua situação. Mas, a prática do bem e a consciência pura são o que maior influência exercem.”

A.K.: Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso. De algum tempo precisa a alma para entrar no conhecimento de si mesma. Ela se acha como que aturdida, no estado de uma pessoa que despertou de profundo sono e procura orientar-se sobre a sua situação. A lucidez das idéias e a memória do passado lhe voltam, à medida que se apaga a influência da matéria que ela acaba de abandonar, e à medida que se dissipa a espécie de névoa que lhe obscurece os pensamentos.

Muito variável é o tempo que dura a perturbação que se segue à morte. Pode ser de algumas horas, como também de muitos meses e até de muitos anos. Aqueles que, desde quando ainda viviam na Terra, se identificaram com o estado futuro que os aguardava, são os em quem menos longa ela é, porque esses compreendem imediatamente a posição em que se encontram.

Aquela perturbação apresenta circunstâncias especiais, de acordo com os caracteres dos indivíduos e, principalmente, com o gênero de morte. Nos casos de morte violenta, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito fica surpreendido, espantado e não acredita estar morto. Obstinadamente sustenta que não o está. No entanto, vê o seu próprio corpo, reconhece que esse corpo é seu, mas não compreende que se ache separado dele. Acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não percebe por que elas não o ouvem. Semelhante ilusão se prolonga até ao completo desprendimento do perispírito. Só então o Espírito se reconhece como tal e compreende que não pertence mais ao número dos vivos. Este fenômeno se explica facilmente. Surpreendido de improviso pela morte, o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação de não estar morto. Mais lhe aumenta a ilusão o fato de se ver com um corpo semelhante, na forma, ao precedente, mas cuja natureza etérea ainda não teve tempo de estudar. Julga-o sólido e compacto como o primeiro e, quando se lhe chama a atenção para esse ponto, admira-se de não poder palpá-lo. Esse fenômeno é análogo ao que ocorre com alguns sonâmbulos inexperientes, que não crêem dormir. É que têm sono por sinônimo de suspensão das faculdades. Ora, como pensam livremente e vêem, julgam naturalmente que não dormem. Certos Espíritos revelam essa particularidade, se bem que a morte não lhes tenha sobrevindo inopinadamente. Todavia, sempre mais generalizada se apresenta entre os que, embora doentes, não pensavam em morrer. Observa-se então o singular espetáculo de um Espírito assistir ao seu próprio enterramento como se fora o de um estranho, falando desse ato como de coisa que lhe não diz respeito, até ao momento em que compreende a verdade.

A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem, que se conserva calmo, semelhante em tudo a quem acompanha as fases de um tranquilo despertar. Para aquele cuja consciência ainda não está pura, a perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à proporção que ele da sua situação se compenetra.

Nos casos de morte coletiva, tem sido observado que todos os que perecem ao mesmo tempo nem sempre tornam a ver-se logo. Presas da perturbação que se segue à morte, cada um vai para seu lado, ou só se preocupa com os que lhe interessam.


Allan Kardec



O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez

Questão 165 comentada


Certamente que a Doutrina Espírita exerce muita influência para diminuir o tempo mais ou menos longo da perturbação espiritual após a morte, no entanto, é preciso que o estudante do espiritismo coloque em prática os ensinamentos colhidos no Consolador prometido.

A perturbação que ocorre no transe da desencarnação, pela passagem de uma vida para outra, sem que esperemos essa mudança brusca, nos causa um impacto e, por vezes, perdemos a razão, cuja recuperação demora mais ou menos, de conformidade com a nossa evolução. Quando estamos dotados de uma pureza de consciência, essa não impede a nossa lucidez. Vale muito o conhecimento das leis naturais, principalmente quando vivemos essas leis, do modo que foi ensinado por Jesus no Seu Evangelho.

Depois da divulgação da Doutrina Espírita na Terra, os espíritas e os Espíritos encontraram maior facilidade de se libertarem da inconsciência depois da morte. Os que já se encontravam fora do corpo, vagando por aí, sem o verdadeiro conhecimento da verdade, foram esclarecidos, e muitos deles hoje trabalham nas fileiras dessa filosofia maravilhosa e santa, capaz de devolver a vida às criaturas mortas por ignorância. O Espiritismo, na sua profundidade, é o mesmo Cristianismo, e mostra, a todos, os caminhos do amor, que na Terra se transforma em caridade e passa a despertar os homens para a vida em Cristo.

O homem bom, paciente nas suas funções, alegre nos seus gestos, honesto na sua vida e que ama a verdade, ao abeirar-se do túmulo, cruza seu portal com tranqüilidade, por saber que os que já se foram com os mesmos ideais o estão esperando, como o bom combatente que venceu a si mesmo.

São duas forças imprescindíveis na vida da criatura: conhecer e praticar. Conhecer o valor do perdão, mas perdoar; conhecer as belezas da gratidão e ser grato aos benefícios recebidos; conhecer os frutos do trabalho com justiça e ser justo em todos os aspectos; conhecer os valores da fraternidade e ser fraterno; sentir e entender que o amor é a vida, mas amar sem distinção. Essas diretrizes nos levam à verdadeira libertação e, se praticarmos todos esses preceitos de Jesus, não passaremos pela morte, porque estaremos sempre na vida, e essa vida pulsa na vida de Deus.

É muito bom e nobre que conheças a Doutrina Espírita; no entanto, certifica se a estás entendendo como ela é, com profundas ligações com Nosso Senhor Jesus Cristo.Se os teus sentidos encontraram o Cristo nela, vá em frente, seguro de que nunca errarás o caminho para Deus por esse prêmio; não obstante, se ela te faltar durante a vida, busca entender o que a dor quer te transmitir ou, então, que ela quer te ajudar a permanecer consciente em todos os transes, principalmente na passagem do mundo físico para o espiritual. Juntemos nossas forças para conhecer e para viver o que aprendemos de bom, mediante os nossos esforços no dia a dia.


Miramez



Filosofia Espírita Vol. 4 - João Nunes Maia
Cap. 12 - Perturbação após a morte e o conhecimento






Fonte Kardecpedia; Filosofia Espírita Vol. 4-pdf

quinta-feira, 16 de março de 2023

Bezerra de Menezes - Livro Caminho Espírita - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 49 - Diante de tudo



Bezerra de Menezes - Livro Caminho Espírita - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 49


Diante de tudo


Diante de tudo, estabelece Jesus para nós todos uma conduta básica, de que todas as providências exatas se derivam para a solução dos problemas no caminho da vida:

Sombra — caridade da luz;

Ignorância — caridade do ensino;

Penúria — caridade do socorro;

Doença — caridade do remédio;

Injúria — caridade do silêncio;

Tristeza — caridade do consolo;

Azedume — caridade do sorriso;

Cólera — caridade da brandura;

Ofensa — caridade da tolerância;

Insulto — caridade da prece;

Desequilíbrio — caridade do reajuste;

Ingratidão — caridade do esquecimento.

Diante de cada criatura, exerçamos a caridade do serviço e da bênção. Todos somos viajores na direção da Vida Maior. 

Doemos amor a Deus, na pessoa do próximo, e Deus, através do próximo, dar-nos-á mais amor.


Bezerra de Menezes













Hippolyte Fortoul - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V, Agosto de 1862 - Dissertações espíritas - A conquista do futuro - A pentecoste



Hippolyte Fortoul - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V, Agosto de 1862 - Dissertações espíritas - A conquista do futuro


A pentecoste

 
O Espírito de Deus sopra sobre o mundo, a fim de regenerar os seus filhos. Se, como ao tempo dos apóstolos, não se mostra sob a forma de línguas de fogo, não está menos realmente presente entre vós. Orai, pois, com fervor ao Todo-Poderoso, a fim de que ele se digne fazer-vos tirar proveito de todas as vantagens morais, de todos os dons imperecíveis que ele então houve por bem derramar sobre a cabeça dos apóstolos e do Cristo. Pedi e recebereis, e nada do que pedirdes de bom e útil para o vosso progresso espiritual vos será recusado. Mais uma vez, orai com fervor, mas que seja o vosso coração que fale, e não os lábios; ou se os vossos lábios se agitarem, que digam apenas o que o coração houver pensado. A felicidade que sentireis quando estiverdes animados pelo espírito de Deus será tão grande que não podereis fazer ideia. Depende de vós obtê-la. E, a partir desse momento, considerareis os dias que restam como um pedaço de caminho a percorrer para chegardes ao destino e onde encontrareis, no fim do dia, a vossa ceia e um abrigo para a noite.

Mas que aquela pouca importância relativa que deveis ligar às coisas terrenas não vos impeça de considerar os vossos deveres materiais como muito sérios. Aos olhos de Deus cometeríeis grave falta se não vos entregásseis conscientemente aos vossos deveres cotidianos. Nada se deve desprezar do que saiu das mãos do Criador. Deveis, em certa medida, desfrutar os bens materiais que vos foram concedidos. Vosso dever é não guardá-los exclusivamente para vós, mas fazer deles partilharem os irmãos aos quais eles foram recusados. Uma consciência pura, uma caridade e uma humildade sem limites, eis a melhor das preces para chamar a si o Espírito Santo. É o verdadeiro Veni Creator, não que este cantado nas igrejas não seja uma prece que será exalçada, sempre que feita de bom coração, mas, como já vos foi dito tantas vezes, o fundo é tudo, a forma quase nada.

Então pelos atos pedi que o Espírito Santo venha visitar-vos e derramar em vossa alma essa força que dá a fé para superar as misérias da existência terrena e para estender a mão àqueles dos vossos irmãos a quem a fraqueza de espírito impede de ver a luz, sem a qual só marchareis tateantes, com o risco de vos chocardes com todos os obstáculos semeados no caminho. A verdadeira felicidade, pela qual todos suspirais, lá se acha. Cada um a tem sob a mão. Basta querer para alcançá-la.

Tomai hoje resoluções firmes e boas, e o Espírito de Deus não vos faltará, tende certeza. Amai ao vosso próximo como a vós mesmos, por amor a Deus, e tereis dignamente solenizado o dia em que o Espírito Santo veio visitar os apóstolos do Cristianismo.


Hippolyte Fortoul

(Grupo de Sainte-gemme - Tam. Médium: Sr. C.)









Emmanuel - Livro Caminho, Verdade e Vida - Chico Xavier - Cap. 16 - Endireitai os caminhos



Emmanuel - Livro Caminho, Verdade e Vida - Chico Xavier - Cap. 16


Endireitai os caminhos


“Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.” — JOÃO BATISTA (João, 1.23)


A exortação do Precursor permanece no ar, convocando os homens de boa vontade à regeneração das estradas comuns.

Em todos os tempos, observamos criaturas que se candidatam à fé, que anseiam pelos benefícios do Cristo. Clamam pela sua paz, pela presença divina e, por vezes, após transformarem os melhores sentimentos em inquietação injusta, acabam desanimadas e vencidas.

Onde está Jesus que não lhes veio ao encontro dos rogos sucessivos? em que Esfera longínqua permanecerá o Senhor, distante de suas amarguras?

Não compreendem que, através de mensageiros generosos do seu amor, o Cristo se encontra, em cada dia, ao lado de todos os discípulos sinceros.

Falta-lhes dedicação ao bem de si mesmos.

Correm ao encalço do Mestre Divino, desatentos ao conselho de João: “endireitai os caminhos.”

Para que alguém sinta a influência santificadora do Cristo, é preciso retificar a estrada em que tem vivido. 

Muitos choram em veredas do crime, lamentam-se nos resvaladouros do erro sistemático, invocam o Céu sem o desapego às paixões avassaladoras do campo material.

Em tais condições, não é justo dirigir-se a alma ao Salvador, que aceitou a humilhação e a cruz sem queixas de qualquer natureza.

Se queres que Jesus venha santificar as tuas atividades, endireita os caminhos da existência, regenera os teus impulsos. Desfaze as sombras que te rodeiam e senti-Lo-ás, ao teu lado, com a sua bênção.


Emmanuel











Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

quarta-feira, 15 de março de 2023

André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 9 - Louvor e gratidão



André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 9


Louvor e gratidão


Embora os resultados de nossa visita ao abismo fossem aparentemente mínimos, sentíamo-nos confortados e satisfeitos.

De volta, ladeando pântanos e guardando a mesma severa atitude de vigilância, ao considerar possíveis surpresas do caminho, fizemos todo o trajeto em profundo silêncio.

Aproximando-nos, porém, do instituto, após atravessar a zona perigosa, a Irmã Zenóbia tomou a palavra, agradecendo-nos em tom comovedor. Depois de carinhosas expressões de reconhecimento, acentuou, jubilosa:

— Felizmente, nosso trabalho foi abençoado e profícuo. 

Os cooperadores novos estranharão, talvez, a minha afirmativa, lembrando, sem dúvida, que as faixas de salvamento voltaram vazias. No entanto, algo ocorreu de mais importante que a eventualidade de trazermos compulsoriamente conosco alguns irmãos infelizes. Refiro-me à semeadura das verdades eternas nos corações ignorantes, à ministração da esperança aos desalentados e tristes. 

Não somos apologistas da violência, mas semeadores do bem, e a base natural da colheita segura é a sementeira cuidadosa. Os ensinos edificantes lançados ao solo do entendimento abrem horizontes novos e claros à investigação mental dos necessitados e sofredores. Muitos deles, ainda esta noite, cultivarão os princípios renovadores recebidos, em processo intensivo no campo interno, e amanhã, provavelmente, estarão em condições vibratórias adequadas à internação em nosso asilo. 

Mais desejável para nós é que todos caminhem, utilizando os próprios pés, para que, de futuro, em meio dos serviços naturais da regeneração, não se declarem vitimados por ações de arrastamento. Em todos os lugares encontraremos a compaixão e a justiça de Deus.

Sorriu, benevolente, e acrescentou:

— A compaixão, filha do Amor, desejará estender sempre o braço que salva, mas a justiça, filha da Lei, não prescinde da ação que retifica. Haverá recursos da misericórdia para as situações mais deploráveis. Entretanto, a ordem legal do Universo cumprir-se-á, invariavelmente. Em virtude, pois, da realidade, é justo que cada filho de Deus assuma responsabilidades e tome resoluções por si mesmo.

O esclarecimento era lógico e reconfortador. Desejaríamos a continuidade da argumentação; no entanto, acercávamo-nos da Casa Transitória, então à nossa vista. Alcançáramos as vizinhanças do átrio e admirei-me da movimentação em torno.

Entidades numerosas iam e vinham. Quase todas penetravam a organização socorrista ou dela saíam, em grupos reduzidos. Velhos amparavam jovens que me pareciam indecisos, titubeantes. Crianças nimbadas de luz guiavam adultos de rosto sombrio, figurando-se carinhosos e pequeninos condutores de cegos.

O quadro era formoso e enternecedor. Possivelmente, examinando a estranheza que se apossara de mim, adiantou-se a orientadora da instituição, explicando, atenciosa:

— Nossos amigos da Crosta, parcialmente libertos da carne pela atuação do sono, afluem até aqui, todas as noites, trazidos por companheiros espirituais, com o fim de receberem socorros ou avisos necessários. A Casa oferece recursos aos encontros oportunos.

Não consegui disfarçar a surpresa, ante a cena maravilhosa, contemplando, embevecido, o cuidado terno dos benfeitores desencarnados com todos aqueles que vinham dos Círculos terrestres mais densos.

Atravessada a zona magnética de defesa, confundimo-nos com os passantes. Não longe de mim, interessante menino, que aparentava nove a dez anos de idade, revestido de gracioso halo de luz, guiava uma senhora de passos incertos. Parecia enferma, incapaz de autocontrole. O pequeno, porém, segurava-lhe firmemente a destra e, após saudar a Irmã Zenóbia, respeitoso, exclamou para a matrona hesitante:

— Por aqui, mamãe! Por aqui! Venha sem medo.

Ouvindo-o, a interpelada parecia acordar num sonho bom e gritava, semi-inconsciente:

— Meu filhinho, meu filhinho! Não me deixes voltar. Quero-te sempre, sempre!…

As expressões de meiguice misturavam-se a copioso pranto. Fixei-lhe os traços fisionômicos. A pobre mãe não nos enxergava. Seguia, acanhada e insegura de si. Seus olhos, que vertiam grossas lágrimas, permaneciam presos na contemplação da criança, revelando a suprema ternura de mãe, exausta de saudade, a reencontrar o objeto de seu amor, que parecera perdido para sempre.

— Mamãe, caminhe! Não desfaleça! — Clamava o rapazinho, exultando de júbilo.

— Já vou, meu filho! Eu te seguirei, leva-me contigo! — Tornava a palavra maternal, afogada em sublime emoção.

Meus companheiros, habituados talvez, desde muito, ao espetáculo, conversavam, descuidados, entre si; todavia, segui, de olhos umedecidos, a criança carinhosa que amparava a sua mamãe, até que desapareceram através de uma das portas laterais.

Não contive a surpresa que me dominava. Tocando o braço do padre Hipólito, indaguei:

— Meu amigo, com que fim seguiriam a senhora e o menino?

Esboçou ele significativo gesto de espanto e observou:

— Não os vi.

Falei-lhe, então, do quadro que tanto me enternecera, bordando meus informes de considerações afetivas.

O ex-sacerdote sorriu compassivo e acrescentou:

— Ora, André, são tantas mães e tantas crianças a transitarem por aqui!… Certamente, o filhinho, como tantos outros, conduz a genitora a gabinetes de auxílio.

Não tive tempo para emitir novas impressões.

Nosso grupo atingiu a porta de ingresso e dois amigos acercaram-se, solícitos. Tratava-se de Gotuzo e outro irmão com quem não havia entrado em contato pessoal.

Saudaram-nos cortesmente.

Logo após, dirigiu-se Gotuzo à diretora, informando-a de que os serviços de colaboração na Crosta, junto dos técnicos que organizavam algumas reencarnações expiatórias, haviam sido executados satisfatoriamente.

Zenóbia agradeceu e convidou-os a partilhar das orações de louvor e gratidão ao Todo-Poderoso.

Penetramos a Sala Consagrada, onde a orientadora tomou conhecimento das medidas levadas a efeito em sua rápida ausência e certificou-se de que todos os abrigados haviam comparecido à reunião geral de preces e auxílios magnéticos, realizada minutos antes.

Sinais sonoros convocaram colaboradores à ação de graças.

Zenóbia, delicada e ativa, dispôs-nos em torno de vasta mesa, ao fundo da qual se erguia uma tela transparente de grandes proporções.

Admirável a comunhão da casa! Todos os dirigentes das variadas seções em que se subdividiam as atividades do instituto, encontravam-se presentes para a tarefa gratulatória.

A diretora informou-nos, afável, que todas as noites se verificavam trabalhos de oração para os asilados e para o pessoal administrativo, salientando que, nesses últimos, se reunia em pessoa com todos os subchefes da organização que não se encontrassem inibidos por motivos de serviço. Naquela oportunidade, éramos ali trinta e cinco criaturas, presas ao doce magnetismo daquela mulher que tão bem sabia desempenhar a excelsa missão educativa. 

À cabeceira do grande móvel referido, cercado pelas poltronas confortáveis que ocupávamos em duas filas, sentou-se Zenóbia, radiante, mantendo-se de frente para a tela constituída de tecido diáfano, semelhando tenuíssima gaze. Trinta e cinco mentes, interessadas na aquisição de luz divina, uniam-se à dela, para as vibrações de reconhecimento e paz.

Gotuzo, próximo de mim, entregou-se a profunda meditação.

Solicitando-nos acompanhar-lhe mentalmente as palavras, a instrutora iniciou a oração comovente e sublime:

— “Senhor da Vida: nossos corações transbordantes de júbilo te agradecem as bênçãos de cada dia!

“Permite que nos reunamos, em teu nome, nesta noite bendita de felicidade e esperança, para manifestar-te nossa gratidão imperecível.

“Não te rogamos, Senhor, vantagens e benefícios para nós outros, ricos que somos de tua luz e misericórdia, mas suplicamos ao teu coração augusto nos sejam concedidos os dons do equilíbrio e da equidade, para que saibamos distribuir nossa divina herança e não dissipemos, em vão, a glória de tuas dádivas. Fortifica-nos a noção de harmonia para sermos cooperadores leais de teus santos desígnios.

“Erguemo-nos do abismo do passado, por tua bondade vigilante, e aqui nos encontramos para servir-te! Entretanto, Pai, vergados ao peso das inclinações humanas, por nós cultivadas com desvarios emotivos, durante milênios, não prescindimos de tua disciplina e de tua força paternal. Dá-nos o clima sadio da libertação de nós mesmos! Magnetizados pelas nossas recordações do pretérito, nem sempre te compreendemos a vontade soberana e criteriosa. Anula-nos o personalismo inferior para que a consciência do Universo nos esclareça o coração. Levanta-nos o raciocínio para mais alto entendimento; faze-nos vibrar no campo de teus Divinos Pensamentos!

“Puseste em nossa boca o verbo construtivo, encheste-nos a alma de luz e tranquilidade, a fim de colaborarmos em tua obra. Deste-nos, neste pouso de amor fraterno, companheiros dedicados ao bem, e, em torno de nossa tarefa pequenina, colocaste a multidão dos aflitos e sofredores.

“Ó Senhor! Como somos felizes pela possibilidade de ministrar em teu nome consolações e esclarecimentos! Contudo, nós te imploramos inspiração e roteiro, considerando as responsabilidades dos que te recebem a mordomia da salvação! Ensina-nos a agir desapaixonadamente; infunde-nos respeito pela autoridade que nos deste; ajuda-nos a desprender a mente das criações individuais, para que te sintamos mais de perto no esforço coletivo da elevação comum! E toda vez que nossos atos traduzam interferência indébita do livre arbítrio na execução de tuas leis, repreende-nos, severamente, para que não persistamos no desvio impensado. Somos teus filhos frágeis e confiantes! Todas as tuas resoluções, a nosso respeito, são excelentes e belas. Concede-nos, pois, bastante visão, de modo a enxergarmos nossa ventura em teus desígnios, sejam quais forem!

“Somos servos humildes de tua sabedoria gloriosa!

“Neste celeiro de paz consoladora, recebemos a tua presença indireta, através de mil recursos diferentes com que atender os que choram e padecem.

“Ó Pai Compassivo! Que felicidade maior que esta, a de espalhar, com Nosso Senhor Jesus-Cristo, as tuas bênçãos redentoras e carinhosas? Que escola mais rica, além da que se localiza nesta casa, onde aprendemos, jubilosos, a exercer o dom sublime de dar?”

A instrutora interrompeu-se, de voz afogada na emoção com que se dirigia a Deus, e, aludindo à realização particular que efetuara naquela noite, prosseguiu, depois de longa pausa, comovendo-nos a todos:

— “Dilatando-nos a alegria, estimulando-nos a coragem, santificando-nos a esperança, tu permites ainda, Senhor, que possamos atender ao coração interessado em lenir e confortar Espíritos queridos, que se perderam de nossa companhia no curso incessante do tempo!”

Nova pausa da orientadora. Em seguida, imprimindo suave entono às palavras que pronunciava, a Irmã Zenóbia concluiu:

— “De alma voltada para a tua magnanimidade, endereçamos-te reconhecimento sem termo!

“Sê louvado por todos os milênios dos milênios, sê glorificado por todos os seres da Criação! Teus servidores nesta casa de edificação agradecem-te as oportunidades preciosas de trabalho e esperam a continuidade de tuas bênçãos. Que a tua infinita luz seja refletida em todo o Universo Infinito! Assim seja.”

As últimas sentenças da oração inesquecível foram cunhadas em profunda emoção misturada de júbilo. Aquela prece constituía ato de louvor dos mais formosos que eu escutara, até então. Zenóbia regozijava-se pelo ensejo de serviço, pela fortuna de contribuir com alguma coisa de útil, pela ventura de repartir o bem.

Os minutos de adoração elevaram-nos. Suave luz irradiava-se de nossas frontes sincronizadas nos mesmos pensamentos.

Finda a manifestação gratulatória, a diretora recomendou-nos observação e silêncio. Não se passou muito tempo e a tela, desdobrada diante de nós, como se fora instrumento de resposta ao esforço devocional, iluminou-se de súbito, expelindo raios de brilho maravilhosamente azul, que se espargiram sobre a diminuta assembleia, quais minúsculas safiras eterizadas. Davam-me a ideia de energias divinas a eclodirem sobre nós, penetrando-nos o íntimo e revitalizando-nos o ser.

Transcorridos alguns minutos, Zenóbia, agradeceu, sensibilizada, interpretando o sentimento geral.

Nova quietude pairou em toda a sala. Contudo, após longos instantes de expectativa mais intensa, Luciana tomou a palavra e dirigiu-se à Diretora, nestes termos:

— Neste momento, vejo na tela das bênçãos respeitável ancião, cercado de luz verde-prateada. Estende-lhe a destra, abençoando-a, e me recomenda dizer-lhe tratar-se de Bernardino.

— Ah! Já sei, — respondeu, contente, a instrutora, — é mensageiro da Casa Redentora de Fabiano. Que Jesus o recompense pelo contentamento que nos traz.

— Assegura o iluminado visitante, — tornou a clarividente prestimosa, — que as vibrações ambienciais inclinam-se, agora, para as Esferas inferiores e que não conseguirá fazer-se visível a todos, não obstante o seu desejo. Acrescenta que os amigos da instituição velam pela marcha harmoniosa dos serviços e que a fonte da Bondade Divina suprirá sempre de paz e recursos a todos os corações de boa vontade, na semeadura do bem.

Em seguida a ligeiro intervalo, que Luciana parecia aproveitar em meticulosa observação, informou, comovida:

— O emissário contempla-nos, silencioso, e, erguendo os olhos para o Alto, pede para nós a luz da compreensão divina.

Vimos profusa emissão de raios brilhantes de luz verde, por intermédio de diáfana substância, como nova chuva de pequeninas gotas celestes.

Terminada a exteriorização da sublime energia, portadora de bem-estar, e findos alguns minutos de novo silêncio, Luciana voltou a comunicar-se com a diretora:

— Irmã, ilumina-se a tela novamente. Desta vez, temos a visita de uma bem-aventurada celeste. Oh! Sua fisionomia deslumbra! Tem no colo soberbo ramalhete de lírios nevados a exalar inebriante perfume.

A informante não havia completado a notificação e, em meio da alva claridade que se evolava da tela, sentíamos todos o aroma característico das flores mencionadas, envolvendo-nos em ondas de alegria e paz indescritíveis.

Impressionada por sua vez, Luciana prosseguiu:

— A mensageira traja veludosa túnica, talhada em delicado tecido semelhante a escumilha de neve, e parece em oração de agradecimento…

— Agora, fixa-nos, bondosa, — continuou, retomando a palavra, — e atira-nos as flores que traz consigo, revelando inexcedível carinho! Diz alguma coisa… Oh! Sim, com permissão dos nossos Maiores, deseja comunicar-se com o irmão Gotuzo e solicita-nos cooperação!

Não pude ocultar a surpresa, em face do desdobramento dos trabalhos naquele ofício de gratidão e louvor.

A Irmã Zenóbia, naturalmente experimentada nas atividades de intercâmbio, interveio, acrescentando:

— Sim, Luciana, tanto quanto estiver em suas possibilidades, ceda o seu veículo de manifestação, já que o ambiente permanece pesadíssimo. 

Noutras circunstâncias, a providência não seria necessária, mas as substâncias densas do Plano, carregado de forças negativas, incidem sobre o aparelho das bênçãos, forçando-nos ao concurso pessoal mais direto. Estamos prontos para receber a devotada emissária nesta casa de paz. Gotuzo e nós outros colocamo-nos à disposição dela, a fim de ouvir-lhe a mensagem de amor.

A enfermeira, com a possibilidade de quem enxergava mais que nós, observou comovidamente:

— Identifica-se por Letícia, declara que desencarnou há trinta e dois anos e assevera que foi mãe do companheiro referido.

Mais emocionada e reverente, acentuou:

— Ah! Desloca-se agora da tela e vem ao nosso encontro. Adianta-se. De suas mãos desprendem-se raios de sublime luz. Abraça-me! Oh! Como sois generosa, abnegada benfeitora!… Sim! Estou pronta, cederei com prazer!…

Nesse instante, a fisionomia de Luciana transformou-se. Beatífico sorriso estampou-se-lhe nos lábios. De sua fronte irradiava-se formosa luz. Com a voz altamente modificada, começou a exprimir-se a emissária por seu intermédio:

— Irmãos, seja conosco a paz do Cordeiro Divino! Não desejamos perturbar a reunião que vos congrega no serviço impessoal da verdade e do bem; todavia, com a permissão dos nossos Orientadores, venho ao encontro de alguém que nos é muito caro, buscando despertar-lhe a consciência para horizontes mais altos da vida.

Sorriu, benévola, e continuou:

— Relevem-nos, pois, dedicados amigos! Nossas experiências mais elevadas resultam da permuta incessante de valores comuns. 

O coração que ama em Cristo é operosa abelha que recolhe o mel de sabedoria em todas as flores de amor e trabalho. Colherei, contente, na alma fraterna desta assembleia de cooperadores da Vontade Divina, elementos de tolerância e compreensão e sentir-me-ei feliz se puder oferecer-lhes algo do carinho materno que mantenho no coração faminto de vida superior.

Fez reduzido intervalo entre a saudação e o objetivo de sua permanência entre nós. Em seguida, dirigindo-se, em particular, ao colega que lhe recebia a visita, expressou-se com acentuada inflexão de ternura:

— Gotuzo, meu filho, serei breve. Antes de adverti-lo, já roguei ao Senhor o abençoe e inspire sempre. Ouça, desapaixonadamente, a palavra de sua mãe e velha amiga.

Desprenda-se das ideias antigas para compreender melhor. As concepções inferiores de nosso “eu” também se cristalizam, impedindo a penetração da luz em nosso campo interno. 

Escute, filho meu, como pode menosprezar a santa oportunidade de elevação? Como pode permanecer em repouso, perante as necessidades primordiais do espírito? 

O Mestre aproveita as qualidades utilizáveis do discípulo, em determinado setor do aprendizado, adiando, por misericórdia, a melhoria e o aprimoramento de certas zonas obscuras da personalidade. Por vezes, o aprendiz retarda-se meses, anos, séculos… 

Jesus não é senhor da violência e nunca impõe drásticos à obra evolutiva. É cultivador do trabalho, da esperança. Aguardará sempre, compassivo e bondoso, nossas decisões de colaborar no apostolado redentor, suportará nossas faltas muitas vezes; entretanto, em nosso próprio interesse, deveremos atentar, vigilantes, para os seus ensinamentos, com a sincera disposição de aplicá-los. 

Sem dúvida, não nos fulminará com raios destruidores pela nossa demora em desculpar alguém; no entanto, recomendou perdoemos setenta vezes sete vezes; naturalmente, não nos perseguirá pela nossa dificuldade em simpatizar com irmãos atualmente menos felizes que nós. Esforçou-se, contudo, para que nos amemos uns aos outros. 

Não virá em pessoa obrigar-nos a assumir determinada atitude evangélica, mas traçou todas as disposições necessárias ao estabelecimento de roteiros para a prática do bem. 

Seu esforço médico, nesta casa, é, de fato, apreciável. Companheiros dignos seguem-no com amizade e admiração. Multiplicam-se os valores que o cercam; amontoa você preciosidades e bênçãos, na parte das aquisições afetivas, porém… e o seu próprio destino? 

Seus amigos, não obstante a luz que lhes brilha no caráter santificado, não podem substituí-lo nas realizações que o esperam. Suas manifestações de natureza exterior instruem e confortam. Seus pensamentos mais íntimos, entretanto, dilaceram-nos o coração. 

Como conduzirá doentes à cura, se prossegue magoado com aqueles que o feriram aparentemente? Como dará lições de bom ânimo aos tristes, se se demora tanto tempo na ilusão do desalento? 

Ó filho amado, ninguém serve à obra do Pai com a mente toldada pelo vinho amargoso das paixões! Abra o entendimento à passagem das bênçãos divinas! Não guarde vermes venenosos no jardim da esperança… Estragariam as mais belas flores, aniquilando a promessa dos frutos…

16 Interrompeu-se a mensageira, por um momento, parecendo coordenar a argumentação, e prosseguiu:

— É razoável que você demore neste asilo de amor, colaborando na cura de desequilibrados mentais, longe dos Círculos mais densos. Contudo, não pretende ganhar o Mais Além? Admite, satisfeito, o cárcere do estacionamento, malgrado o caráter do trabalho edificante? Não desejará libertar-se para libertar, efetivamente, os prisioneiros da ignorância? Não demandará o Plano superior para ser mais útil aos que intentam galgar a escada reveladora da luz imortal? 

Não falo a você, agora, dentro da afetuosa impertinência de mãe. Nossos laços, presentemente, em relação ao passado, são muito diversos. Somos, ambos, filhos do Pai Altíssimo, e creia que minha devoção por você não é menor. 

Não o abandonarei às inclinações menos elevadas, não obstante justificáveis na tabela das convenções puramente humanas. E, em razão disso, venho ouvi-lo sobre os seus propósitos. Você tem cooperado, espontâneo e assíduo, nas tarefas do bem. É um trabalhador com direito a descobrir os próprios erros e a retificar o caminho que lhe compete. 

Ouça, porém, meu filho, e compreenda-me: venho intercedendo, junto às autoridades que nos regem os destinos, para que a sua consciência desperte para a divina luz. O grupo doméstico, amado e inesquecível, espera por você na preparação da felicidade porvindoura!…

As palavras pronunciadas exprimiam enorme bagagem de considerações que ficariam por dizer. Cada conceito envolvia-se em significativa onda de pensamentos, que evidenciavam, de modo indireto, os sagrados fins da visita materna.

Após longa pausa, Letícia indagou delicadamente:

— Que responde, filho meu?

Fez-se comovedor silêncio; percebemos que Gotuzo chorava, entre a respiração opressa e os soluços mal-contidos. Ao termo de alguns instantes, replicou, humilde:

— Minha mãe! Minha boa mãe! Estou pronto!…

A comunicante, cuja presença sentíamos sem ver, tornou, visivelmente emocionada:

— Rendo graças ao Senhor pela sua compreensão. Sim, meu filho, organizaremos todas as medidas indispensáveis. Voltará, em breve, ao agrupamento familiar. Prepare-se, considerando a luta imprescindível à iluminação. 

O instituto doméstico, legitimamente considerado, é celeiro de supremos valores educativos para quantos procurem os interesses divinos, acima das cogitações humanas. 

O lar terrestre é bendita forja de redenção. Reencontrará as simpatias e antipatias de outro tempo, oferecendo possibilidades felizes de reajustamento emocional. 

Recapitule mentalmente as lições aprendidas, peça a inspiração de Jesus e disponha-se a partir, tranquilo. Não desanime diante do serviço a fazer. Somos milhões de criaturas, disputando o ensejo de santificar sentimentos. 

No passado, raras vezes procedíamos em obediência aos ditames da Lei. Se exteriorizávamos estima, perdíamo-nos em excessos de paixão, como perdulários do afeto; se manifestávamos atitudes de corrigenda, cedíamos à cegueira do ódio, como cultores do exclusivismo feroz. É necessário regressar ao curso, para conquistar o equilíbrio espiritual necessário à elevação.

Gotuzo, em lágrimas, não conseguia falar. A ex-genitora, todavia, deixando-nos perceber que lhe captava os mais íntimos pensamentos, acentuou, depois de mais longo interregno:

— A esposa dedicada que deixou na Crosta não poderá servir-lhe de mãe; entretanto, ser-lhe-á carinhosa e experiente avó. 

Seu adversário gratuito, pobre homem que se entregou à inveja e à ambição destruidoras, receberá seus beijos infantis e com eles os eflúvios de seu perdão renovador. 

Que coração enganado pelos maus sentimentos não se dobrará entre as mudanças da vida? O ex-inimigo penetra, agora, no declínio das ilusões. Sua alma atravessa atualmente o pórtico que dá acesso à velhice do corpo temporário. Ao invés de lembranças doces que lhe afaguem o espírito, curtirá aflitivas reminiscências. 

Sua presença atenuar-lhe-á os pesares. Enquanto as doenças do desequilíbrio lhe vergastarem a carne e as recordações penosas lhe castigarem a mente, será você o neto consolador, mensageiro de paz em forma de criança. 

Ajudá-lo-emos a consagrar-lhe atenção e carinho. No desencanto do corpo cansado e na ternura infantil, o Espírito consegue sublimes realizações para a vida eterna.

Novo intervalo da visitante, que continuou, em seguida:

— Seu futuro pai, na efêmera existência humana, coração particularmente amado do seu, receberá concurso amoroso e decisivo dum filho muito caro, elevando-se a nobilitante altura moral, pelo sagrado estímulo de sua companhia. 

Sua volta infundir-lhe-á mais respeito ao mundo e aos semelhantes. Desejará cultivar virtudes e valores, a fim de que você lhe abençoe a paternidade. Chorará com as suas dores, rir-se-á com as suas alegrias. Sentir-se-á novo homem, ao contato de suas mãos pequeninas. 

Seu esforço futuro, após as realizações que vem levando a efeito, beneficiará todo o grupo familiar, em abençoada tarefa que não pôde realizar na condição que passou. Ó meu filho! Haverá ventura maior que a de liquidar nossos débitos e partir unidos para os júbilos do cântico imortal de integração com a Divindade? Outras escolas mais belas esperam por nós, outras glórias nos felicitarão para sempre! Sigamos para Deus!…

Nesse ponto, interrompera-se-lhe a palavra, talvez absorvida pela emoção profunda.

Respeitoso e humilde, Gotuzo rogou à Irmã Zenóbia lhe permitisse aproximar-se. Obtido o consentimento, avançou para a poltrona em que Luciana traduzia a personalidade materna, e ajoelhou-se, beijando-lhe as mãos:

Letícia, bondosa, recomendou:

— Levante-se, meu filho… Sei que você me ama, intensamente. Todavia, há irmãos nossos que lhe esperam a estima e a compreensão. 

Não venho sozinha ao seu encontro. Enquanto me dispunha a visitá-lo, solicitei o comparecimento de alguém dos Círculos mais densos, para colher a certeza de suas disposições. Para a nossa felicidade completa não basta que você me beije e admire. É indispensável que se aproxime fraternalmente daqueles a quem ainda não sabe amar. Alguém confabulará conosco, dentro de minutos breves. Abrir-se-ão as portas desta casa de bênçãos, em benefício de nossa congregação familiar. Espere.

Mantinha-se Gotuzo em ansiosa expectativa, em face das singulares observações.

Surpreendendo-nos a todos, poucos segundos após, duas senhoras penetraram o recinto. A que apresentava maior número de anos, revelava alta posição de orientadora, na luz que a circundava, mas a segunda mostrava a obscura condição de alma encarnada, em temporário afastamento do corpo, através do sono físico. 

Reconheceu Gotuzo, de longe, e, evidenciando incontestável deficiência de disciplina emotiva, estendeu-lhe os braços, descontrolada e inquieta, bradando:

— Gotuzo! Gotuzo! Que felicidade, este reencontro!

Parecendo, porém, perturbada pelo choque das lembranças relativas à diferente situação que o desprendimento do primeiro esposo lhe trouxera, acrescentava, aflita:

— Não me queira mal! Ajude-me por amor de Deus! Não me abandone, não me abandone!…

Dolorosos soluços rebentavam-lhe do peito.

O interpelado quedou silencioso, atendendo, talvez, à íntima angústia que o dominava, mas Letícia interveio, generosa. Erguendo-se, firme, recolheu a nora nos braços e tranquilizou-a:

— Venha, Marília, venha ao meu coração. Sabemos quanto tem sofrido, na silenciosa depuração espiritual. Nunca fomos surdos aos seus rogos e conhecemos, de perto, a extensão das provas amargurosas que lhe colheram a alma sensível.

A visitante da Crosta Terrestre contemplava a benfeitora, enlevada e feliz, sentindo-se na presença dum anjo bom, já que não conseguia coordenar raciocínios para compreender o fenômeno em curso. Através da luminosidade de seu olhar, observávamos a ventura que lhe banhava o Espírito, jubilosa ao contato de tão belo entendimento. 

Depois de acariciá-la com meiguice materna, a venerável amiga dirigiu-se ao nosso companheiro, acentuando:

— Meu filho, não queria você abraçar-me e beijar-me? Acredita que a esposa terrestre mereça menos que eu? Admite, ainda, que a mãe de seus filhinhos estremecidos, saudosa e devotada, tenha sido ingrata ao seu desvelado amor? Continuará esquecido do bem para agravar o mal? 

A viúva, na Crosta, em muitas ocasiões, deve aceitar o segundo matrimônio como sacrifício necessário, por supremo respeito ao consorte que partiu. Retire dos olhos a venda do egoísmo que lhe vem interceptando a visão e interprete com naturalidade as exigências da vida terrena.

Num gesto conciliador, confiou-lhe a esposa, acrescentando:

— Ajude-a para que você possa ser ajudado. Não recuse a lição, porque o futuro virá aclará-la inteiramente.

Magnetizado, talvez, pela carinhosa advertência materna, Gotuzo abriu os braços e recolheu-a, solícito, na atitude de irmão compadecido e desvelado.

Marília observava-o, em êxtase.

— Oh! Que sonho bom! — Exclamou, sob indefinível expressão de ventura.

E, relanceando o olhar pelo salão em luz, dirigia-se a nós outros, comovedoramente:

— Tenho medo de minha velha habitação! Ah! Por favor, enviados divinos, não me deixeis voltar nunca! Nunca mais!…

Compreendendo que a nora, temporariamente liberta do corpo, entrava num domínio vibratório prejudicial à organização psíquica, em virtude dos deveres que lhe cabiam na Esfera carnal, Letícia considerou, retomando-a a si:

— Ouça, filha: é preciso que você não se detenha por mais tempo. Não pode permanecer entre nós, antes que os Eternos Desígnios se manifestem nesse sentido. Volte, porém, ao lar distante, convencida de nossa afeição sem mácula. Nossa tranquilidade seguir-lhe-á os dias terrenos. Não lhe faltará cooperação. 

Se não pode acompanhar o esposo querido, pela inoportunidade de semelhante desejo, alegre-se e confie no Poder Divino, pois Gotuzo irá ao seu encontro. Em breve, Marília, seus beijos orvalharão de amor e ventura um rosto pequenino, que sintetizará, para as suas esperanças de avó, verdadeiro mundo de felicidade redentora.

Emocionada pela alegria, interrogou a pobre alma:

— Gotuzo perdoou-me?

— Ele nunca sofreu ofensa alguma de seu coração dedicado, — adiantou-se Letícia, bondosa, — e lembrar-se-á sempre, com desvelo e ternura, da companheira fiel que lhe amparou os filhinhos amados e lhe honrou o nome, entre renúncias e sacrifícios ignorados.

— Oh! Oh! Que felicidade! — Repetia a interlocutora, afogada em pranto de júbilo e reconhecimento.

Afagando a fronte do filho, que também chorava sob forte emoção, Letícia rogava-lhe:

— Diga-lhe, meu filho, quanto a amamos! Tranquilize-lhe a alma sensível e afetuosa!

Tal como uma criança vencida, nosso irmão assegurou:

— Marília, nunca resgatarei minha dívida para com seu devotamento. Regresse, confiante, enquanto preparo minha própria volta. Brevemente, com o auxílio de Deus e de nossa abençoada mãe, estaremos, de novo, reunidos na Terra! Peça energias para mim, em suas orações de serva incompreendida. 

Está você em vias de terminar dolorosa prova de resgate, ao passo que vou recomeçá-la. Sou eu, portanto, agora, quem suplica auxílio e proteção… Espere-me! Não desfaleça! Aprenderemos a refundir sentimentos, purificar laços afetivos, santificar impulsos e, sobretudo, abençoaremos quem nos feriu aparentemente, amparando suposto inimigo, a fim de que nos convertamos em sinceros irmãos uns dos outros…

Ambos choravam enternecedoramente.

Em seguida, Letícia restituiu a nora aos braços amigos da orientadora que a reconduziu de volta ao corpo físico, no mesmo silêncio dentro do qual se mantivera até então.

A ex-genitora de Gotuzo recomendou-lhe que retomasse o primitivo lugar e, recompondo o ambiente, solicitou o concurso de Zenóbia para a futura realização filial.

A Diretora da Casa, rememorando talvez o esforço que levara a efeito naquela mesma noite, em benefício dum coração que lhe era particularmente amado, acusava funda emoção.

— Gotuzo conta nesta instituição com amigos que lhe são infinitamente reconhecidos, — falou Zenóbia, sensibilizada. — É companheiro a quem devemos muito. Realizaremos, de bom grado, tudo quanto esteja ao nosso alcance para que a experiência nova lhe seja portadora de luzes e bênçãos. 

A felicidade dele, em outro setor, minha irmã, será igualmente a felicidade desta casa. Segui-lo-emos na recapitulação terrestre, atenciosos e vigilantes, não por obséquio, mas em obediência ao preito de gratidão de que somos devedores, pelos vários anos em que cooperou conosco, devotada e assiduamente.

Letícia agradeceu e partiu, deixando-nos preciosos eflúvios de paz e encantamento.

Outro iluminado mentor da organização socorrista, identificado por Luciana, então reintegrada na própria personalidade, ditou-nos, por ela, algumas palavras elevadas e santas de estímulo, endereçando-nos copiosa chuva de raios luminosos através da tela das bênçãos, recomendando a Zenóbia que encerrasse os serviços da prece, na paz do Senhor.

A diretora pronunciou enternecida oração de reconhecimento e júbilo, encerrando a tarefa. Abraçando-nos, esclarecidos e satisfeitos pelo êxito da hora, vimos que a Irmã Zenóbia encaminhou-se para Gotuzo, enlaçando-o maternalmente:

— Oh! Minha venerável irmã! — Disse ele, enternecido, — como é grande o prêmio da Misericórdia Divina!… Não mereço tanto! Auxilie-me a agradecer a Deus!…

— Regozijemo-nos, Gotuzo! — Respondeu a interlocutora, — e louvemos o Pai que tanto nos engrandece o esforço obscuro e pequenino! O agraciado de hoje não foi apenas você. Também eu aumentei, de muito, meus grandes débitos para com o Altíssimo!…

De voz quase embargada pela comoção, concluiu:

— Também eu recebi divina concessão nesta grande noite!


André Luiz







VÍDEO:

Obreiros da Vida Eterna - Cap. 9 - Louvor e gratidão - Parte 1 & 2
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz






O Espírito da Letra - Obreiros da Vida Eterna - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 

Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br

Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br