segunda-feira, 3 de abril de 2023

Chico Xavier - Livro Chico Xavier, a aurora de uma vida entre o Céu e a Terra - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 14 - A caridade



Chico Xavier - Livro Chico Xavier, a aurora de uma vida entre o Céu e a Terra - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 14


A caridade


A caridade é o amor divino nas suas mais excelsas manifestações. É a seara magnificente das bênçãos dulcificantes de Deus.

“Fora da caridade não há salvação” — eis o augusto frontispício desta grandiosa doutrina que é o Espiritismo e que será futuramente a filosofia universal. E o será, porque a sua base indestrutível apoia-se sobre essa virtude deificada, a maior de todas as virtudes! Será a mais sublime das religiões, porque é fundada sobre os ensinamentos do Cristo, interpretados fielmente pelos mensageiros da verdade, que são os espíritos do Senhor!

A caridade é a luz fulgurante que se aninha no âmago dos corações daqueles que são os verdadeiros discípulos do Mestre! Somente pela caridade poderemos redimir as nossas almas ergastuladas na Terra; só essa virtude sacrossanta — anjo puríssimo do amor — será o nosso guia verdadeiro, iluminando a estrada do bem que devemos trilhar; só ela nos fará sentir a felicidade sem mescla, prodigalizando-nos os seus eflúvios dulcíssimos, que suavizarão as dores da nossa alma, preparando-nos para a excelsa ventura de uma vida melhor, onde os anelos frequentes dos nossos Espíritos fortificados pela esperança serão realizados para a completa beleza do nosso ideal insatisfeito na Terra!


Chico Xavier
1º de julho de 1929.









Bezerra de Menezes - Livro Bezerra, Chico e Você - Cap. 47, Pág. 114 - Diretrizes



Bezerra de Menezes - Livro Bezerra, Chico e Você - Cap. 47, Pág. 114


Diretrizes


Anotamos a extensão das atividades que se espraiam no campo de serviço que o Senhor nos deu a lavrar — trabalho, aprimoramento, disciplina, educação.

Não podia ser de outro modo, em nos referindo às dificuldades que se avolumam.

É que os valores se intensificam e com eles os obstáculos mecanicamente se ampliam, examinando-nos a capacidade de realização.

Continuemos, porém, trabalhando sem hesitação e sem temor. Diante disso não nos amedrontemos ante os desafios com que vamos sendo defrontados em matéria de construção e reconstrução, adaptação e readaptação quase que permanentes em nossas fileiras.

Pratiquemos o hábito salutar da “mesa redonda” em que as opiniões se confraternizem ao redor dos problemas em pauta, de vez que, em semelhante permuta de experiências, a palavra do Mundo Espiritual se fará sentir substancialmente, de modo a que se faça o melhor ao nosso alcance.

Isso, porque o serviço cresce com a nossa prática de trabalho e quanto mais servirmos, mais amplos horizontes se nos descerrarão aos olhos, conclamando-nos a edificações sempre maiores.

Em matéria de colaboração com Jesus, não há tarefas estanques, porquanto o caminho do aperfeiçoamento não tem lindes.

Estamos à frente de um mundo novo, nas estruturas em que se lhe agiganta o progresso material.

As renovações ditadas por métodos diferentes e por diretrizes outras, além daquelas que nos orientaram até ontem os passos na Terra, solicitam-nos mais segurança e entendimento no trato com todos os temas que se refiram à preparação do futuro.

Uma realidade, porém, não mudou — a necessidade do burilamento íntimo pelos padrões de Jesus.

Auxiliemos por amor e pelo amor, porquanto somente o amor oferece clima adequado à sustentação da paz no levantamento e conservação da felicidade comum.


Bezerra






De mensagem recebida em 2.10.1971.

Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

sábado, 1 de abril de 2023

André Luiz - Livro Nos Domínios da Mediunidade - Chico Xavier - Cap. 5 - Instrutor Áulus - Assimilação de correntes mentais





Assimilação de correntes mentais


Faltavam apenas dois minutos para as vinte horas, quando o dirigente espiritual mais responsável deu entrada no pequeno recinto.

Nosso orientador articulou a apresentação.

O Irmão Clementino abraçou-nos, acolhedor.

A casa pertencia-nos a todos, explicou sorridente. Estivéssemos, pois, à vontade, na tarefa de que nos achávamos investidos.

A essa altura, diversas entidades do nosso Plano colocaram-se junto dos médiuns que estariam de serviço.

Clementino avançou em direção de Raul Silva, perto de quem se postou em muda reflexão.

Logo após, Áulus convidou-me ao psicoscópio e, graduando-o sob nova modalidade, recomendou-nos acurado exame.

Foquei os companheiros encarnados em concentração mental, identificando-os sob aspecto diferente.

Dessa vez, os veículos físicos apareciam quais se fossem correntes eletromagnéticas em elevada tensão.

O sistema nervoso, os núcleos glandulares e os plexos emitiam luminescência particular. E, justapondo-se ao cérebro, a mente surgia como esfera de luz característica, oferecendo em cada companheiro determinado potencial de radiação.

Assinalando-nos a curiosidade, o Assistente explicou:

— Em qualquer estudo mediúnico, não podemos esquecer que a individualidade espiritual, na carne, mora na cidadela atômica do corpo, formado por recursos tomados de empréstimo ao ambiente do mundo. Sangue, encéfalo, nervos, ossos, pele e músculos representam materiais que se aglutinam entre si para a manifestação transitória da alma, na Terra, constituindo-lhe vestimenta temporária, segundo as condições em que a mente se acha.

Nesse instante, o irmão Clementino pousou a destra na fronte do amigo que comandava a assembleia, mostrando-se-nos mais humanizado, quase obscuro.

— O benfeitor espiritual que ora nos dirige, — acentuou o nosso instrutor, — afigura-se-nos mais pesado, porque amorteceu o elevado tom vibratório em que respira habitualmente, descendo à posição de Raul, tanto quanto lhe é possível, para benefício do trabalho começante. Influencia agora a vida cerebral do condutor da casa, à maneira dum musicista emérito manobrando, respeitoso, um violino de alto valor, do qual conhece a firmeza e a harmonia.

Notamos que a cabeça venerável de Clementino passou a emitir raios fulgurantes, ao mesmo tempo que o cérebro de Silva, sob os dedos do benfeitor, se nimbava de luminosidade intensa, embora diversa.

O mentor desencarnado levantou a voz comovente, suplicando a Bênção Divina com expressões que nos eram familiares, expressões essas que Silva transmitiu igualmente em alta voz, imprimindo-lhes diminutas variações.

Com a emotividade que nos invadia a todos, brando silêncio se interpôs, durante rápidos minutos.

Fios de luz brilhante ligavam os componentes da mesa, dando-nos a perceber que a prece os reunia mais fortemente entre si.

Terminada a oração, acerquei-me de Silva.

Desejava investigar mais a fundo as impressões que lhe assaltavam o campo físico, e observei-lhe, então, todo o busto, inclusive braços e mãos, sob vigorosa onda de força, a eriçar-lhe a pele, num fenômeno de doce excitação, como que “agradável calafrio”. 3 Essa onda de força descansava sobre o plexo solar, onde se transformava em luminoso estímulo, que se estendia pelos nervos até o cérebro, do qual se derramava pela boca, em forma de palavras.

Acompanhando-me a análise, o Assistente explicou:

— O jato de forças mentais do irmão Clementino atuou sobre a organização psíquica de Silva, como a corrente dirigida para a lâmpada elétrica. Apoiando-se no plexo solar, elevou-se ao sistema neuro-cerebrino, como a energia elétrica da usina emissora que, atingindo a lâmpada, se espalha no filamento incandescente, produzindo o fenômeno da luz.

— E o problema da voltagem? — Indaguei, curioso.

— Não foi esquecido. Clementino graduou o pensamento e a expressão, de acordo com a capacidade do nosso Raul e do ambiente que o cerca, ajustando-se-lhes às possibilidades, tanto quanto o técnico de eletricidade controla a projeção de energia, segundo a rede dos elementos receptivos.

E sorrindo:

— Cada vaso recebe de conformidade com a estrutura que lhe é própria.

Os confrontos de Áulus sugeriam belas indagações. A ligação elétrica gera luz na lâmpada. E ali? O contato espiritual, decerto, segundo inferíamos, improvisava forças igualmente a se derramarem do cérebro e da boca de Silva, na feição de palavras e raios luminosos…

O instrutor percebeu-nos a muda inquirição e apressou-se em aclarar:

— A lâmpada em cujo bojo se faz luz arroja de si mesma os fotônios que são elementos vivos da Natureza a vibrarem no “espaço físico”, através dos movimentos que lhes são peculiares, e nossa alma, em cuja intimidade se processa a ideia irradiante, lança fora de si os princípios espirituais, condensados na força ponderável e múltipla do pensamento, princípios esses com que influímos no “espaço mental”. 

Os mundos atuam uns sobre os outros pelas irradiações que despedem e as almas influenciam-se mutuamente, por intermédio dos agentes mentais que produzem.

A palavra serena e precisa do orientador compelia-nos à meditação, embora rápida.

Os claros apontamentos, em torno da energia mental, conduziam-me a preciosas reflexões.

Então, o pensamento não escapava às realidades do mundo corpuscular, — ponderei de mim para comigo.

Assim como possuímos na Terra valiosas observações alusivas à química da matéria densa, relacionando-lhe as unidades atômicas, o campo da mente oferecia largas ensanchas ao estudo de suas combinações… 

Pensamentos de crueldade, revolta, tristeza, amor, compreensão, esperança ou alegria teriam natureza diferenciada, com característicos e pesos próprios, adensando a alma ou sutilizando-a, além de lhe definirem as qualidades magnéticas… 

A onda mental possuiria determinados coeficientes de força na concentração silenciosa, no verbo exteriorizado ou na palavra escrita…

Compreendia, desse modo, mais uma vez, e sem qualquer obscuridade, que somos naturalmente vítimas ou beneficiários de nossas próprias criações, segundo as correntes mentais que projetamos, escravizando-nos a compromissos com a retaguarda de nossas experiências ou libertando-nos para a vanguarda do progresso, conforme nossas deliberações e atividades, em harmonia ou em desarmonia com as Leis Eternas…

O solilóquio, porém, não devia alongar-se.

Nosso orientador, atento aos objetivos de nossa permanência na casa, chamou-me a novas observações:

— Repararam na comunhão entre Clementino e Silva, no momento da prece?

E, ante a nossa expectação de aprendizes, continuou:

— Vimos aqui o fenômeno da perfeita assimilação de correntes mentais que preside habitualmente a quase todos os fatos mediúnicos. 

Para clareza de raciocínio, comparemos a organização de Silva, nosso companheiro encarnado, a um aparelho receptor, quais os que conhecemos na Terra, nos domínios da radiofonia. 

A emissão mental de Clementino, condensando-lhe o pensamento e a vontade, envolve Raul Silva em profusão de raios que lhe alcançam o campo interior, primeiramente pelos poros, que são miríades de antenas sobre as quais essa emissão adquire o aspecto de impressões fracas e indecisas. 

Essas impressões apoiam-se nos centros do corpo espiritual, que funcionam à guisa de condensadores, atingem, de imediato, os cabos do sistema nervoso, a desempenharem o papel de preciosas bobinas de indução, acumulando-se aí num átimo e reconstituindo-se, automaticamente, no cérebro, onde possuímos centenas de centros motores, semelhante a milagroso teclado de eletroímãs, ligados uns aos outros e em cujos fulcros dinâmicos se processam as ações e as reações mentais, que determinam vibrações criativas, através do pensamento ou da palavra, considerando-se o encéfalo como poderosa estação emissora e receptora e a boca por valioso alto-falante. 

Tais estímulos se expressam ainda pelo mecanismo das mãos e dos pés ou pelas impressões dos sentidos e dos órgãos, que trabalham na feição de guindastes e condutores, transformadores e analistas, sob o comando direto da mente.

A elucidação não podia ser mais simples, contudo oferecia oportunidade a mais amplas indagações.

— Temos então aqui a técnica do próprio pensamento? — Perguntou Hilário, com interesse.

— Não tanto, — adiantou o interlocutor; — o pensamento que nos é exclusivo flui incessantemente de nosso campo cerebral, tanto quanto as ondas magnéticas e caloríficas que nos são particulares, e usamo-lo normalmente, acionando os recursos de que dispomos.

— Não será, porém, tão fácil estabelecer a diferença entre a criação mental que nos pertence daquela que se nos incorpora à cabeça… — Ponderou meu colega intrigado.

— Sua afirmativa carece de base, — exclamou o Assistente. — Qualquer pessoa que saiba manejar a própria atenção observará a mudança, de vez que o nosso pensamento vibra em certo grau de frequência, a concretizar-se em nossa maneira especial de expressão, no círculo dos hábitos e dos pontos de vista, dos modos e do estilo que nos são peculiares.

E, bem-humorado, comentou:

— Em assuntos dessa ordem, é imprescindível muito cuidado no julgar, porque, enquanto afinamos o critério pela craveira terrena, possuímos uma vida mental quase sempre parasitária, de vez que ocultamos a onda de pensamento que nos é própria, para refletir e agir com os preconceitos consagrados ou com a pragmática dos costumes preestabelecidos, que são cristalizações mentais no tempo, ou com as modas do dia e as opiniões dos afeiçoados que constituem fácil acomodação com o menor esforço. 

Basta, no entanto, nos afeiçoemos aos exercícios da meditação, ao estudo edificante e ao hábito de discernir para compreendermos onde se nos situa a faixa de pensamento, identificando com nitidez as correntes espirituais que passamos a assimilar.

Hilário pensou alguns instantes e, estampando na fisionomia o contentamento de quem fizera importante descoberta, falou satisfeito:

— Agora percebo como podem surgir fenômenos mediúnicos em comezinhas situações da vida, tanto nos feitos notáveis da genialidade, como nos dramas cotidianos…

— Sim, sim… — Acentuou o orientador, agora preocupado com o tempo que a nossa palestração consumia, — a mediunidade é um dom inerente a todos os seres, como a faculdade de respirar, e cada criatura assimila as forças superiores ou inferiores com as quais sintoniza. 7 Por isso mesmo, o Divino Mestre recomendou-nos oração e vigilância para não cairmos nas sugestões do mal, porque a tentação é o fio de forças vivas a irradiar-se de nós, captando os elementos que lhe são semelhantes e tecendo, assim, ao redor de nossa alma, espessa rede de impulsos, por vezes irresistíveis.

E, buscando o lugar que lhe competia nos trabalhos em andamento, ajuntou:

— Estudemos trabalhando. O tempo utilizado a serviço do próximo é bênção que entesouramos, em nosso próprio favor, para sempre.


André Luiz





VÍDEO:

CAPÍTULO 5 - ASSIMILAÇÃO DAS CORRENTES MENTAIS
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz





O Espírito da Letra - Analisando a obra de André Luiz Nos Domínios da Mediunidade - Psicografia de Chico Xavier

#oespiritodaletra #tvalvoradaespirita #tvmundomaior #projetoimagem 

Participe! Inscreva-se no canal, compartilhe, deixe o seu joinha e comentário neste vídeo! 


TELA MEDIÚNICA - Rembrandt Site oficial - http://pinturaespirita.com.br/ 


Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br 
Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br 

André Luiz - Livro Libertação - Chico Xavier - Cap. 20 - Reencontro



André Luiz - Livro Libertação - Chico Xavier - Cap. 20


Reencontro


A noite ia avançada, mas o nosso Instrutor, vagueando o olhar em torno, parecia consultar a paisagem externa, ensimesmado, pensativo…

Logo após, fitou, enternecido, a filha espiritual que passara a convalescer em brando e defendido repouso. Orou, longamente, junto dela, na câmara íntima e, em seguida, veio anunciar-nos o instante da partida.

Aves tornando ao ninho de esperança e de paz, deveríamos, agora, transportar conosco outros pássaros de asas semimutiladas que a tormenta das paixões ameaçava. Todos os corações, ali socorridos, demandariam, junto de nós, outros campos de ação regenerativa e redentora.

Aquelas entidades sofredoras e amigas, ainda mesmo as que se conservavam nas imediações da loucura pelos desequilíbrios do sentimento a que se haviam confiado, tinham lágrimas de alegria e reconhecimento nos olhos. Em cada uma palpitava o anseio de retificação e de vida nova. Por isto mesmo, talvez, cravavam o olhar inquieto e jubiloso em nosso orientador, como que a lhe devorarem as palavras.

— Todos os companheiros incorporados à nossa missão destes dias, — avisava Gúbio, paternal, — desde que se mantenham perseverantes no propósito de autorrestauração, seguem ao nosso lado, com acesso aos Círculos de trabalho condigno, onde estudantes do bem e da luz lhes acolherão, com simpatia, as aspirações de vida superior. 

Espero, contudo, que não aguardem milagres na Esfera próxima. 

O trabalho de reajustamento próprio é artigo de lei irrevogável, em todos os ângulos do Universo. 

Ninguém suplique protecionismo a que não fez jus, nem flores de mel às sementes amargas que semeou em outro tempo. 

Somos livros vivos de quanto pensamos e praticamos e os olhos cristalinos da Justiça Divina nos leem, em toda parte. 

Se há um ministério humano, na Crosta da Terra, determinando sobre as vidas inferiores da gleba planetária, temos, em nossas linhas de ação, o ministério dos anjos, dominando em nossos caminhos evolutivos. 

Ninguém trai os princípios estabelecidos. Possuímos agora o que ajuntamos no dia de ontem e possuiremos amanhã o que estejamos buscando no dia de hoje. 

E como emendar é sempre mais difícil que fazer, não podemos contar com o favoritismo, na obra laboriosa do aprimoramento individual, nem provocar solução pacífica e imediata para problemas que gastamos longos anos a entretecer. 

A prece ajuda, a esperança balsamiza, a fé sustenta, o entusiasmo revigora, o ideal ilumina, mas o esforço próprio na direção do bem é a alma da realização esperada. 

Em razão disso, ainda aqui, a bênção do minuto, a dádiva da hora e o tesouro das oportunidades de cada dia hão de ser convenientemente aproveitados se pretendemos santificadora ascensão. 

Felicidade, paz, alegria, não se improvisam. Representam conquistas da alma no serviço incessante de renovar-se para a execução dos Desígnios Divinos. 

Felizmente, desde agora estamos abrigados no santuário da boa vontade e, ainda neste instante, cabe-nos não esquecer a promessa evangélica: “quem perseverar até ao fim, será salvo”.

A Graça Celestial, sem dúvida, é um sol permanente e sublime. Urge, porém, a criação de qualidades superiores em nós, para fixar-lhe os raios e recebê-los.

Doce intervalo mostrou-nos o júbilo reinante.

Salutar otimismo transbordava de todos os rostos.

Saldanha, de olhos fitos em nosso dirigente, confundia-nos pelo pranto de contrição purificadora, a correr-lhe, abundante, dos olhos.

Antes que o nosso Instrutor pudesse retomar o fio da palavra encorajadora e vigilante, algumas irmãs entoaram formoso hino de louvor à bondade do Cristo, com visível desassombro no olhar firme, dantes ansioso e dorido, enchendo-nos o coração de intraduzível bem-estar.

Raios de safirina luz derramaram-se profusamente sobre nós, enquanto as vozes harmoniosas e singelas se espalhavam, em derredor, tangendo-nos as fibras mais recônditas, nos recessos do ser.

Terminado o cântico melodioso e tocante que nos recordava os pensamentos sublimes de inolvidável Salmo de David, [1] o Instrutor retomou a palavra e informou que, não obstante as santificadas alegrias daquela hora, a batalha não estava finda.

Faltava-nos o epílogo, esclareceu com inflexão mais grave na voz.

Matilde antecipara-se, de modo a esperar-nos em região intermediária, em cujo clima vibracional lhe seria possível materializar-se, de novo, aos olhos de todos, realizando o sonhado reencontro espiritual com o filho de outras eras que, a breve tempo, nos procuraria na condição de vingador.

Evidenciando manifesta preocupação no olhar muito lúcido, o nosso orientador prosseguiu esclarecendo que Gregório, ciente das novidades havidas no drama de Margarida e informado acerca da renovação de muitos companheiros e colaboradores dele, agora francamente inclinados ao bem, entediados da ignorância e do ódio, da perversidade e da insensatez, se revoltara contra ele Gúbio, dispondo-se a buscá-lo para um ajuste de que se julgava credor. 

Explicou, emocionado, que num duelo espiritual, como aquele a esboçar-se, esperava de todos nós o auxílio eficiente da prece e das emissões mentais de amor puro. Não deveríamos receber os doestos e insultos de Gregório por ofensas pessoais, nem levar suas atitudes à conta de maldade ou grosseria. Competia-nos observar-lhe nos gestos de incompreensão a dor que se lhe cristalizara no Espírito oprimido e inconformado, vendo-lhe nas palavras, não a maldade deliberada, mas, sim, a eclosão de uma revolta doentia e infeliz que não poderia prejudicar e ferir senão a ele próprio. 

O pensamento é uma força vigorosa, comandando os mínimos impulsos da alma e, se nos entregássemos à reação espiritual, armada de ódio ou desarmonia, pactuaríamos com a violência, impedindo, não só a manifestação providencial de Matilde, a benfeitora, mas também a renovação de Gregório, que guardava a inteligência centralizada no mal. 

Emissões de mágoa ou revide colocar-nos-iam em trabalho contraproducente. As vibrações de amor fraternal, quais as que o Cristo nos legou, são as verdadeiras energias dissolventes da vingança, da perseguição, da indisciplina, da vaidade e do egoísmo que atormentam a experiência humana. 

Além disso, — tornou o Instrutor bondoso, — cumpria-nos considerar que aquela mente transviada do trilho divino se caracterizava muito mais pela moléstia do orgulho ferido e impenitente, que pela perversidade. 

Gregório era tão somente um infeliz, quanto nós mesmos em passado próximo ou remoto, acicatado por rebeliões e remorsos interiores a lhe desajustarem os sentimentos. Merecia, por isso mesmo, nossa dedicação carinhosa e confortadora, ainda mesmo que nos visitasse com aparências de celerado ou de louco. 

Nossa conduta, aliás, nada apresentava de surpreendente, em semelhante capítulo, porque não fora para ensinar-nos outras lições que o Cristo trabalhara em benefício de todos e padecera na cruz, sem ninguém.

Notificou-nos, ainda, que o sacerdote das sombras se faria acompanhar, em sua vinda até nós, de muitos companheiros tão envenenados mentalmente quanto ele, e que, contra essa equipe de criaturas inimigas da luz, cabia-nos formar um todo de defesa harmônica, através da fraternidade legítima, da oração intercessora e do amor espiritual que se compadece e age em favor da restauração do bem.

Valendo-se da pausa que se impusera, natural, Saldanha perguntou ao nosso mentor se não devíamos organizar pelo menos um movimento coordenado de repulsão enérgica, ao que o dirigente, sábio e amigo, respondeu, sorrindo:

— Saldanha, em companhia do Mestre que abraçamos, só há lugar para o trabalho sadio, com entendimento das lições de sacrifício e iluminação que nos deixou. Não acredites que um golpe possa desaparecer com outro golpe. Não se cura a ferida, aprofundando o sulco da carne em sangue. A cicatriz abençoada surge sempre à custa de enfermagem, remédio ou retificação, com ascendentes de amor. Quem pretende o Reinado do Cristo entrega-se a Ele. Somos servos. A defesa, qualquer que seja, pertence ao Senhor.

O ex-perseguidor calou-se, humilde.

Decorridos alguns minutos, algo constrangidos afastamo-nos, em bloco, da vivenda em que tantos ensinamentos preciosos havíamos recebido.

Amparados os mais doentes naqueles que se mostravam mais fortes, retiramo-nos, cautelosos, pondo-nos a caminho da zona preestabelecida.

Duas horas de jornada, sob a supervisão de Gúbio perfeitamente treinado em experiências daquela natureza, conduziram-nos ao local desejado.

O campo, em torno, era singularmente belo.

Verdejante planalto, coroado de luar, convidava-nos à meditação e à prece, e brisas ligeiras e frescas da madrugada como que nos bafejavam o cérebro convidando-nos a reconfortar as fontes do pensamento.

Nosso Instrutor fez-nos sentar em semicírculo, compelindo-nos a recordar várias cenas evangélicas e informou, com visível emoção, que, segundo mensagem particular por ele registrada, Gregório e os dele já se haviam colocado em nosso encalço e que, se alguns dos companheiros procurassem evitar-lhe a presença, qualquer fuga, em nosso agrupamento, se fazia impraticável, em virtude de a elevada percentagem de peregrinos, ali reunidos, se revelarem incapazes de volitação em alto plano, pela densidade do padrão mental em que se mantinham. Cabia-nos, pois, agora, a atitude de oração e expectativa amorosa de quem sabia compreender, ajudar e perdoar.

Do zimbório estrelejado desciam valiosos estímulos para nós.

Constelações tremeluziam distantes, enquanto a lua, silenciosa e bela, parecia disposta a testemunhar-nos o esforço cristão.

Reparei que o nosso dirigente, insulado na relva macia, assumia a mesma posição de instrumento mediúnico, qual acontecera na reunião que vínhamos de efetuar, porque me entregou, confiante, a direção da assembleia, o que aceitei, dentro de preocupação extrema, embora sem hesitar.

Providenciada semelhante medida, Gúbio passou a elevada condição mental, por intermédio da oração.

Acompanhamo-lo, reverentes. Não havia gosto para conversações estranhas ao problema delicado daquela hora.

Demorávamo-nos em observação expectante, quando ruído longínquo nos anunciou a alteração dos acontecimentos.

O Instrutor, não obstante palidíssimo, dando-nos a ideia de que já se achava em comunicação com entidades superiores e imperceptíveis ao nosso olhar, mais uma vez nos exortou ao silêncio, à paciência, à serenidade e à prece, recomendando-nos seguir todos os fatos, sem revolta, sem mágoa e sem desânimo.

Não foi preciso esperar muito.

Alguns minutos se desdobraram apressados e Gregório, com algumas dezenas de assalariados, surgiu em campo, investindo-nos com palavrões que se caracterizavam pela dureza e violência. 

Os recém-chegados apareceram acompanhados de grande cópia de animais, em maioria monstruosos.

Noutras circunstâncias, sem a bênção do aviso salutar, provavelmente teríamos debandado, mas Gúbio, cuja superioridade conhecíamos por experiência própria, ali se mantinha, resoluto e imperturbável, emitindo ondas de luminosidade intensa, veiculando forças magnéticas, imponderáveis, que, dirigidas sobre nós, como que nos supria de recursos necessários ao procedimento irrepreensível.

Por mim, ao reparar as máscaras sinistras que se abeiravam de nós, confesso que, em tempo algum, senti tamanha ameaça de medo e tão profundo contágio de confiança.

O sacerdote das sombras avançou para o nosso orientador, à semelhança de general parlamentando na praça, antes de começar a batalha, e acusou sem rodeios:

— Miserável hipnotizador de servos ingênuos, onde se alinham tuas armas para o duelo desta hora? 

Não contente em prejudicar-me os projetos mais íntimos, num problema de ordem pessoal, aliciaste numerosos colaboradores meus, em nome de um Mestre que não ofereceu aos que o acompanharam senão sarcasmo, martírio e crucificação! 

Acreditas, porventura, esteja eu disposto, por minha vez, a aceitar princípios que relaxam a dignidade humana? Admites, acaso, permaneça, a meu turno, fascinado pelos feiticeiros de tua estirpe? 

Traidor da palavra empenhada, confundir-te-ei os poderes de bruxo desconhecido! Não creio no amor açucarado que elegeste por senha de luta! Creio na força que governa a vida e que te dobrará, igualmente, aos meus pés!

Percebendo que o nosso orientador não se erguia, como que chumbado ao solo, compelido por indefinível prostração, não obstante cercado de intensa luz, o sacerdote dos mistérios negros, acariciando os copos da espada luzente, acentuou, irado:

— Covarde, não te levantas para ouvir-me a acusação justa e digna? Perdeste também o brio, semelhando-te a quantos te antecederam no movimento de humilhação que persiste no mundo, há quase dois mil anos? 

Também, noutra época, acreditei na celestial proteção através da atividade religiosa, nos ideais em que hoje te empenhas. Entendi, contudo, a tempo, que o Trono Divino paira distante demais para que nos preocupemos em alcançá-lo. 

Não há um Deus misericordioso e, sim, uma Causa que dirige. Essa causa é inteligência e não, sentimento. 

Encastelei-me, assim, na força determinativa para não soçobrar. O “querer”, o “mandar” e o “poder” estão em minhas mãos. 

Se tuas mágicas prevalecem acima dos princípios que consagro e defendo, aceita a luva que te lanço à face! Combatamos!

Gregório espraiou torvo olhar pela assistência muda e exclamou:

— Aqui descansam inermes, ao teu lado, os meus colaboradores que adormeceram, vergonhosamente, ao teu cântico sedutor; entretanto, cada qual deles me pagará, muito caro, a defecção e a desobediência.

Fixou, com mais atenção, os olhos felinos na assembleia, mas, exceto eu, que deveria permanecer atento à tarefa direcional que me fora cometida, ninguém ousou modificar a atitude de profunda concentração nos propósitos de humildade e amor a que fôramos conclamados.

Demonstrando acentuado desapontamento, em face dos insultos sem resposta, o temível diretor de legiões sombrias abeirou-se, mais estreitamente, de nosso Instrutor sereno e bradou:

— Levantar-te-ei, por mim mesmo, usando os sopapos que mereces.

Antes, porém, que conseguisse ligar o intento à ação, delicado aparelho luminoso surgiu no alto, à maneira de garganta improvisada em fluidos radiantes, como as que se formam nas sessões de voz direta, entre os encarnados, e a voz cristalina e terna de Matilde ressoou, acima de nossas cabeças, exortando-o, com amorosa firmeza:

— Gregório, não enregeles o coração quando o Senhor te chama, por mil modos, ao trabalho renovador! O teu longo período de dureza e secura está terminado.

Não intentes contra os abençoados aguilhões de nosso Eterno Pai! O espinho fere, enquanto o fogo o não consome; e a pedra mostra resistência, enquanto o fio d’água a não desgasta! 

Para a tua alma, filho meu, findou a noite em que a tua razão se eclipsou no mal. A ignorância pode muito; no entanto, é simples nada quando a sabedoria espalha os seus avisos. 

Não admitas que os monstros da negra magia te alimentem o coração com a felicidade desejável!

O temido perseguidor mantinha-se confundido, semiaterrado, ao passo que nós mesmos, os circunstantes ligados à missão de Gúbio, não conseguíamos dissimular a imensa surpresa que nos dominava, ante o quadro imponente e inesperado.

Compreendi que a benfeitora se valia dos fluidos vitais de nosso orientador para exprimir-se, naquele Plano, qual o fizera, horas antes, na residência de Margarida.

O sacerdote transviado, num complexo de espanto, rebelião e amargura, tinha agora o aspecto de uma fera enjaulada.

— Acreditas, porventura, — prosseguiu a voz materna, adulçorada, — que o amor pode alterar-se no curso do tempo? Supuseste, um dia, que eu te pudesse esquecer? Olvidaste a imantação de nossos destinos? 

Peregrine minh'alma através de mil mundos, suspirarei sempre pela integração de nossos Espíritos. A luz sublime do amor que nos arde nos sentimentos mais profundos pode resplandecer nos precipícios infernais, atraindo para o Senhor aqueles que amamos. 

Gregório, ressurge!

E, numa inflexão de lágrimas que desarmaria o raciocínio mais enrijecido, acentuou:

Lembra-te! Deixaste morrer nos séculos os projetos de amor que traçamos na Toscana e na Lombardia distantes? [2] Esqueceste nossos votos ao pé dos altares humildes? Olvidaste as cruzes de pedra que nos ouviam as orações? Não prometemos ambos trabalhar em comum pela purificação dos santuários de Deus na Terra? 

Sempre grande e belo no combate à política venal dos homens, cristalizaste na mente os desvarios do orgulho e da vaidade, adquiridos ao contato de uma coroa putrescível. 

Afogaste ideais preciosos na corrente de ouro mundano e perdeste a visão dos horizontes divinos, mergulhando-te na sombra dos cálculos pela extensão do império de teus caprichos. 

Incensaste a grandeza dos poderosos do mundo em desfavor dos humildes; incentivaste a tirania espiritual, crendo-te possuidor de autoridade infalível, e supunhas que o Céu, além da morte, nada mais fosse que simples cópia dos Tribunais e das Cortes da Terra. 

Tremendos desenganos surpreenderam-te o despertar, e, embora humilhado e padecente, coagulaste os pensamentos no ácido venenoso da revolta e elegeste a escravização das inteligências inferiores por única posição digna de conquistar. 

Durante séculos, tens sido apenas rude disciplinador de almas criminosas e perturbadas que o túmulo encontrou na imprudência e no vício. 

Não te doerá, porém, filho meu, a triste condição de gênio desprezível? Semelhante pergunta não morre sem resposta. Falam por ti o imenso tédio do mal e a profunda solidão interior que presentemente te invadem as horas.

Aprendeste com infinito desapontamento que os tesouros divinos não repousam em frias arcas de valores amoedados, e sabes, agora, que Jesus dispõe de escasso tempo para frequentar basílicas suntuosas, não obstante respeitáveis, porque da escura senda humana emergem soluços de peregrinos sem luz e sem lar, sem arrimo e sem pão…

Via-se que a benfeitora, quase asfixiada pela emoção, apresentava enorme dificuldade para continuar, mas, após longa pausa, que ninguém ousou interromper, prosseguiu, comovida:

— Como pudeste esquecer, por alguns dias de autoridade efêmera na Terra, as nossas redentoras visões do Cristo angustiado na cruz? 

Aderiste aos Dragões do Mal [3] pela simples verificação de que a tiara passageira não te poderia aureolar a cabeça nos domínios da vida eterna a que a morte nos arrebatou; entretanto, o Divino Amigo jamais descreu das nossas promessas de serviço e espera por nós com a mesma abnegação do princípio. 

Vamos! Sou Matilde, alma de tua alma, que, um dia, te adotou por filho querido e a quem amaste como dedicada mãe espiritual.

Calou-se a voz da mensageira, interditada pela corrente de pranto.

Foi então que Gregório, fazendo quanto lhe era possível por manter-se de pé, gritou, como ansioso por fugir a si mesmo.

— Não creio! Não creio! Estou só! Consagrei-me ao serviço das sombras e não tenho outros compromissos.

Trasbordava-lhe da voz menos altiva um tom de pavor indescritível. Parecia disposto à fuga, francamente transformado. Mas, ante a assembleia extática e silenciosa, mantinha-se magnetizado pela palavra da benfeitora que se fazia ouvir, austera e doce, bela e terrível, escalpelando-lhe a consciência. 

Espraiou o olhar de leão ferido através de todos os ângulos do campo que nos situava, e, sentindo-se no centro de quantos assistiam, ali, atônitos, à cena inesperada, exteriorizou na expressão fisionômica todo o desespero extremo que lhe vagava n'alma, arrancou a espada da bainha e bradou encolerizado:

— Vim para combater, não para argumentar. Não temo sortilégios. Sou um chefe e não posso perder os minutos com palavras tergiversantes. Não admito a presença de minha mãe espiritual de outras eras. Conheço as artimanhas dos fascinadores e não tenho outra alternativa senão duelar.

Fitando a delicada forma de luz que pairava no espaço, acrescentou:

— Por quem és! Anjo ou demônio, aparece e combate! Aceitas meu desafio?

— Sim… — respondeu Matilde, com ternura e humildade.

— Tua espada?! — Trovejou Gregório, arquejante.

— Vê-la-ás dentro em breve…

Após alguns momentos de ansiosa expectativa, apagou-se a garganta luminosa que brilhava sobre nós, mas leve massa radiante e disforme surgiu, não longe, à nossa vista.

Compreendi que a valorosa emissária se materializaria, ali mesmo, utilizando os fluidos vitais que o nosso orientador lhe forneceria.

Júbilo e assombro dominavam a assembleia.

Em poucos instantes, erguia-se Matilde, ao nosso olhar, de rosto velado por véu de gaze tenuíssima. A túnica alva e luminescente, aliada ao porte esguio e nobre, sob a auréola de safirina luz de que se tocava, traziam à lembrança alguma encantada madona da Idade Média, em repentina aparição.

Adiantava-se, digna e calma, na direção do sombrio perseguidor; todavia, Gregório, perturbado e impaciente, atacou-a de longe e empunhou a lâmina em riste, exclamando, resoluto:

— Às armas! Às armas!…

Matilde estacou, serena e humilde, embora imponente e bela, com a majestade de uma rainha coroada de sol.

Decorridos alguns instantes ligeiros, movimentou-se novamente e, alçando a destra radiosa até ao coração, caminhou para ele, afirmando, em voz doce e terna:

— Eu não tenho outra espada, senão a do amor com que sempre te amei!

E de súbito desvelou o semblante vestalino, revelando-lhe a individualidade num dilúvio de intensa luz. Contemplando-lhe, então, a beleza suave e sublime, banhada de lágrimas, e sentindo-lhe as irradiações enternecedoras dos braços que, agora, se lhe abriam, envolventes e acolhedores, Gregório deixou cair a lâmina acerada e de joelhos se prosternou, bradando:

— Mãe! Minha mãe! Minha mãe!…

Matilde enlaçou-o e exclamou:

— Meu filho! Meu filho! Deus te abençoe! Quero-te mais que nunca!

Verificara-se, ali, naquele abraço, espantoso choque entre a luz e a treva, e a treva não resistiu…

Gregório, como que abalado nos refolhos do ser, regressara à fragilidade infantil, em pleno desmaio da força que o sustinha. Finalmente, iniciara sua libertação.

A benfeitora, enlevada, recolhera-o, enlanguescido, nos braços, enquanto numerosos membros da sombria falange fugiam espavoridos.

Matilde, vitoriosa, agradeceu em palavras que nos faziam vibrar as fibras mais recônditas da alma, e, em seguida, confiou aos nossos cuidados o filho vencido, asseverando-nos que o abnegado Gúbio se encarregaria de guardar, por algum tempo, aquele que ela considerava o seu divino tesouro.

Após abraçar-nos, generosa, desmaterializou-se ao nosso coro de hosanas, a fim de seguir, de mais longe, a preparação do futuro glorioso.

Refez-se o nosso orientador, reintegrando-se em nosso grupo de serviço.

Edificado, feliz, Gúbio sustentou Gregório, inerte, nos braços à maneira do cristão fiel que se orgulha de suportar o companheiro menos feliz. Orou, cercado de claridade santificante, arrancando-nos lágrimas irreprimíveis de alegria e reconhecimento e, depois, ante a paz que se estabelecera, triunfante e ditosa, deu por finda a nossa tarefa, dispondo-se a guiar a heterogênea, mas expressiva coletividade de novos estudantes do bem, recolhidos nos trabalhos de salvação de Margarida, até a importante e abençoada colônia de trabalho regenerador.

Surgira, para mim, a despedida.

Tinha meus olhos úmidos de pranto.

O Instrutor abraçou-me e, retendo-me junto do coração, falou, bondoso:

— Jesus te recompense, filho meu, pelo papel que desempenhaste nesta jornada de libertação. Nunca te esqueças de que o amor vence todo ódio e de que o bem aniquila todo mal.

Quis responder, esclarecendo que somente a mim, discípulo inábil, cabia o dever de gratidão; todavia, incoercível emotividade prendeu-me a voz.

O orientador, no entanto, leu-me no olhar os sentimentos mais profundos e sorriu, em retirada.

Elói, também, rumou para longe, em busca de outros setores.

E voltando, sozinho, ao meu domicílio espiritual, roguei, chorando:

— Mestre de Bondade Infinita, não me abandones! Ampara-me a insuficiência de servo imperfeito e infiel!

Em torno, reinava insondável e sublime silêncio. Mas, enquanto o horizonte se tingia de rubro, preludiando a festa da aurora, a estrela matutina brilhava, tremeluzindo aos meus olhos, qual celeste resposta de luz.


André Luiz





[1] Salmo 90. — Nota do Autor espiritual.

[2] [Vide notícias de Condessa Matilde de Canossa, protetora de Gregório VII.]

[3] [“Aderiste aos Dragões do Mal”: — Para mais informações sobre essa organização espiritual da maldade e sua influência sobre a humanidade encarnada, recomendamos a leitura do livro Os dragões, psicografado pelo Espírito Maria Modesto Cravo através do médium Wanderley Oliveira, obra espírita subsidiária, cujo conteúdo apresenta excelente material para reflexão aos espíritas menos preconceituosos.]





VÍDEO: 

Libertação - Cap. 20 - Reencontro - Parte 1 & 2
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz






O Espírito da Letra - Libertação - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 


Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br 

Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br

André Luiz - Livro Entre a Terra e o Céu - Chico Xavier - Cap. 8 - Ministro Clarêncio - Deliciosa excursão



André Luiz - Livro Entre a Terra e o Céu - Chico Xavier - Cap. 8


Deliciosa excursão


O velhinho desencarnado demonstrava absoluta indiferença, ante a descrição do nosso orientador, mas, como se a presença da nobre senhora lhe despertasse novo interesse, fitou-a, de olhos subitamente iluminados, e bradou:

— Antonina! Antonina!… Socorre-me. Tenho medo! muito medo!…

A interpelada, que fora do corpo denso se mostrava muito mais delicada e mais bela, fixou-o, triste, e inquiriu com amargurado semblante:

— Vovô, que fazes?

O ancião curvou-se e implorou:

— Ajuda-me! Todos na família me esqueceram, com exceção de ti. Não me abandones!… Ele, o meu ferrenho inimigo, me tortura por dentro. Assemelha-se a um demônio, morando em minha consciência…

Tentava agora enlaçá-la, aflito, mas Clarêncio interferiu, indicando-nos:

— Ouça, amigo! Nossos irmãos prometeram ampará-lo e, decerto, cumprirão a palavra. Nossa abnegada Antonina, no momento, precisa ausentar-se, em nossa companhia, por algumas horas.

E abraçando-o, paternal, recomendou:

— Você pode igualmente auxiliá-la. Guarde-lhe a casa, enquanto os meninos repousam. Amanhã, receberá, por sua vez, o socorro de que necessita.

O velho sorriu conformado e aquietou-se.

Deixando-o a sós, na sala estreita, saímos para a noite.

Entrelaçando as mãos, e conservando nossas irmãs no circuito fechado de nossas forças, empreendemos a formosa romagem.

Quem na Terra poderá imaginar as deliciosas sensações da alma livre?

Viajando com a rapidez do pensamento, avançamos à frente da sombra noturna, largando para trás o deslumbramento da aurora, em colorido e cantante dilúculo…

Atingindo formosa paisagem, banhada de suave luz, em que um parque imponente e acolhedor se distendia, fixei o semblante de nossas companheiras, que se mostravam extáticas e felizes.

Dona Antonina, amparando-se em Clarêncio qual se fora uma filha apoiada nos braços paternos, inquiriu, maravilhada:

— Porque não transformar esta excursão em transferência definitiva? Pesa o corpo, à maneira de insuportável cruz de carne, quando conseguimos sentir a Terra, de longe…

— É verdade — concordou a outra irmã, que se sustentava em nós —, porque não nos é dado permanecer, olvidando os pesares e os dissabores do mundo?

— Compreendemos — ajuntou o Ministro, generoso —, compreendemos quanta inquietação punge o Espírito reencarnado, mormente quando desperto para a beleza da vida superior, entretanto, é indispensável saibamos louvar a oportunidade de servir, sem jamais desmerecê-la. Achamo-nos ainda distantes da redenção total e todos nós, com alternativas mais ou menos longas, devemos abraçar a luta na carne, de modo a solver com dignidade nossos velhos compromissos. Somos viajores nos milênios incessantes. Ontem fomos auxiliados, hoje nos cabe auxiliar.

À medida que avançávamos, ondas de perfume acentuavam-se, em torno de nós, revigorando-nos as energias e induzindo-nos a respirar a longos sorvos.

Flores de contextura delicada pendiam abundantemente de árvores vigorosas, embalsamando as leves virações que sussurravam encantadoras melodias…

Como se trouxesse agora todo o busto engrinaldado de luz, Clarêncio sorria, bondoso.

Emudecera-se-lhe a palavra.

Sentíamo-nos todos magnetizados e enternecidos ante a beleza do quadro que nos prendia a admiração.

Antonina, porém, como se estivesse irradiando insopitável curiosidade, mesclada de alegria, voltou a exclamar:

— Ah! se morrêssemos hoje!… se a carne não nos pesasse mais!…

O Ministro, contudo, imprimindo mais grave entonação à voz, mas sem perder a brandura que lhe era peculiar, considerou, de imediato:

— Se hoje abandonassem o veículo de matéria densa, quem diz que seriam felizes? Quem de nós obterá a suprema ventura, sem a perfeita sublimação pessoal?

E, fitando Antonina com bondade misturada de compaixão, observou:

— Agora, vocês visitarão filhinhos abençoados que a morte lhes arrebatou temporariamente ao convívio terrestre. Vocês se sentem como que num palácio dourado, em pleno paraíso de amor, mas, e os filhinhos que ficam? Haverá Céu sem a presença daqueles que amamos? Teremos paz sem alegria para os que moram em nosso coração? Imaginemos que as algemas do cárcere físico se partissem agora… O atormentado lar humano cresceria de vulto na saudade que as tomaria de assalto… A lembrança dos filhos aprisionados no Planeta acorrentá-las-ia ao mundo carnal, à maneira de forte raiz retendo a árvore no solo escuro. Os rogos e os gemidos, as lutas e as provas dos rebentos menos felizes da existência lhes falariam ao espírito mais imperiosamente que os cânticos de bem-aventurança dos filhos afortunados e, naturalmente, desceriam do Céu para a Terra, preferindo a posição de angustiadas servas invisíveis, trocando a resplendente glória da liberdade pelos dolorosos padecimentos da prisão, de vez que a ventura maior de quem ama reside em dar de si mesmo, a favor das criaturas amadas…

As duas mulheres ouviram as sensatas ponderações sem dizer palavra.

Finda a pausa ligeira, o instrutor continuou:

— Somos devedores uns dos outros!… Laços mil nos jungem os corações. Por enquanto, não há paraíso perfeito para quem volta da Terra, tanto quanto não existe purgatório integral para quem regressa ao humano sorvedouro! O amor é a força divina, alimentando-nos em todos os setores da vida e o nosso melhor patrimônio é o trabalho com que nos compete ajudar-nos, mutuamente.

Na paisagem banhada de luz, experimentei mais alta veneração pela Natureza, que, em todas as Esferas, é sempre um livro revelador da Eterna Sabedoria…

Nossas irmãs, tocadas por júbilo inexprimível, afiguravam-se-me formosas madonas de sonho, repentinamente vivificadas, diante de nós.

— É pelo trabalho — prosseguiu o orientador — que nos despojamos, pouco a pouco, de nossas imperfeições. A Terra, em sua velha expressão física, não é senão energia condensada em época imemorial, agitada e transformada pelo trabalho incessante, e nós, as criaturas de Deus, nos mais diversos degraus da escada evolutiva, aprimoramos faculdades e crescemos em conhecimento e sublimação, através do serviço… O verme, arrastando-se, trabalha em benefício do solo e de si mesmo; o vegetal, respirando e frutescendo, ajuda a atmosfera e auxilia-se. O animal, em luta perene, é útil à gleba em que se desenvolve, adquirindo experiências que lhe são valiosas, e nossa alma, em constantes peregrinações, através de formas variadas, conquista os valores indispensáveis à sublime ascensão… Somos filhos da eternidade, em movimentação para a glória da verdadeira vida e só pelo trabalho, ajustado à Lei Divina, alcançaremos o real objetivo de nossa marcha!

Antonina, que parecia mais acordada que a sua companheira, para a contemplação do excelso quadro que nos circundava, perguntou, com enlevo:

— Porque não guardamos a viva recordação de nossas existências anteriores? não seria bendita felicidade o reencontro consciente com aqueles que mais amamos?!…

— Sim, sim… — confirmava Clarêncio, enquanto nossa deliciosa excursão prosseguia, célere — mas, na condição espiritual em que ainda nos situamos, não sabemos orientar os nossos desejos para o melhor. Nosso amor ainda é insignificante migalha de luz, sepultada nas trevas do nosso egoísmo, qual ouro que se acolhe no chão, em porções infinitesimais, no corpo gigantesco da escória. Assim como as fibras do cérebro são as últimas a se consolidarem no veículo físico em que encarnamos na Terra, a memória perfeita é o derradeiro altar que instalamos, em definitivo, no templo de nossa alma, que, no Planeta, ainda se encontra em fases iniciais de desenvolvimento. É por isso que nossas recordações são fragmentárias… Todavia, de existência a existência, de ascensão em ascensão, nossa memória gradativamente converte-se em visão imperecível, a serviço de nosso espírito imortal…

— Mas se pudéssemos reconhecer no mundo os nossos antigos afetos, se pudéssemos rever os semblantes amigos de outras eras, identificando-os… — aventurou Antonina, reverente.

— Retomar o contato com os melhores, seria recuperar igualmente os piores — atalhou Clarêncio, bondoso — e, indiscutivelmente, não possuímos até agora o amor equilibrado e puro, que se consagra aos desígnios superiores, sem paixão. Ainda não sabemos querer sem desprezar, amparar sem desservir. Nossa afetividade, por enquanto, padece deploráveis inclinações. Sem o esquecimento transitório não saberíamos receber no coração o adversário de ontem para regenerar-nos, regenerando-o. A Lei é sábia. De qualquer modo, porém, não olvidemos que nosso espírito assinala todos os passos da jornada que lhe é própria, arquivando em si mesmo todos os lances da vida, para formar com eles o mapa do destino, de acordo com os princípios de causa e efeito que nos governam a estrada, mas somente mais tarde, quando o amor e a sabedoria sublimarem a química dos nossos pensamentos, é que conquistaremos a soberana serenidade, capaz de abranger o pretérito em sua feição total…

O Ministro fez ligeiro intervalo, sorriu paternalmente para nós e rematou:

— A Lei, contudo, é invariavelmente a Lei. Viveremos em qualquer parte, com os resultados de nossas ações, assim como a árvore, em qualquer trato do solo, produzirá conforme a espécie a que se subordina.

O firmamento parecia responder às sugestões da palestra admirável.

Bandos de aves mansas pousavam na ramaria que brilhava não longe de nós.

O Sol apresentava perceptíveis raios diferentes, até agora desconhecidos à apreciação comum na Terra, provocando indefiníveis combinações de cor e luz.

Por abençoada e colorida colmeia de amor, harmonioso casario surgiu ao nosso olhar.

Centenas de gárrulas crianças brincavam entre fontes e flores de maravilhoso jardim.


André Luiz


Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano



VÍDEO:

Capítulo 7 - Consciência em desequilíbrio 
Capítulo 8 - Deliciosa excursão 
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz 





O Espírito da Letra - Analisando a obra de André Luiz 
Entre a Terra e o Céu - Psicografia de Chico Xavier


Participe! Inscreva-se no canal, compartilhe, deixe o seu joinha e comentário neste vídeo! 

Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br 
Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br