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domingo, 2 de julho de 2023

Emmanuel - Livro O Evangelho por Emmanuel - Chico Xavier - Vol. V - 2ª Parte - Textos paralelos de Atos dos apóstolos e Paulo e Estêvão - Cap. 103 - A visão de Jesus na Igreja de Corinto e o início das epístolas



Emmanuel - Livro O Evangelho por Emmanuel - Chico Xavier -  Vol. V - 2ª Parte - Textos paralelos de Atos dos apóstolos e Paulo e Estêvão - Cap. 103


A visão de Jesus na Igreja de Corinto e o início das epístolas
 

O Senhor disse a Paulo, à noite, através de uma visão: não temas, mas fala e não silencies, porque eu estou contigo; e ninguém te atacará para te fazer mal porque tenho um povo numeroso nesta cidade. — (Atos 18:9, 10)

Com a presença de Paulo, a igreja de Corinto adquiria singular importância e quase diariamente chegavam emissários das regiões mais afastadas. Eram portadores da Galácia a pedirem providências para as igrejas de Pisídia; companheiros de Icônio, de Listra, de Tessalônica, de Chipre, de Jerusalém. Em torno do Apóstolo formou-se um pequeno colégio de seguidores, de companheiros permanentes, que com ele cooperavam nos mínimos trabalhos. Paulo, entretanto, preocupava-se intensamente. Os assuntos eram urgentes quão variados. Não podia olvidar o trabalho de sua manutenção: assumira compromissos pesados com os irmãos de Corinto; devia estar atento à coleta destinada a Jerusalém; não podia desprezar as comunidades anteriormente fundadas.

Aos poucos, compreendeu que não bastava enviar emissários. Os pedidos choviam de todos os sítios por onde perambulara, levando as alvíssaras da Boa Nova. Os irmãos, carinhosos e confiantes, contavam com a sua sinceridade e dedicação, compelindo-o a lutar intensamente.

Sentindo-se incapaz de atender a todas as necessidades ao mesmo tempo, o abnegado discípulo do Evangelho, valendo-se, um dia, do silêncio da noite, quando a igreja se encontrava deserta, rogou a Jesus, com lágrimas nos olhos, não lhe faltasse com os socorros necessários ao cumprimento integral da tarefa.

Terminada a oração, sentiu-se envolvido em branda claridade. Teve a impressão nítida de que recebia a visita do Senhor. Genuflexo, experimentando indizível comoção, ouviu uma advertência serena e carinhosa:

— Não temas — dizia a voz —, prossegue ensinando a verdade e não te cales, porque estou contigo.

O Apóstolo deu curso às lágrimas que lhe fluíam do coração. Aquele cuidado amoroso de Jesus, aquela exortação em resposta ao seu apelo, penetravam-lhe a alma em ondas cariciosas. A alegria do momento dava para compensar todas as dores e padecimentos do caminho. Desejoso de aproveitar a sagrada inspiração do momento que fugia, pensou nas dificuldades para atender às várias igrejas fraternas. Tanto bastou para que a voz dulcíssima continuasse:

— Não te atormentes com as necessidades do serviço. É natural que não possas assistir pessoalmente a todos, ao mesmo tempo. Mas é possível a todos satisfazeres, simultaneamente, pelos poderes do espírito.

Procurou atinar com o sentido justo da frase, mas teve dificuldade íntima de o conseguir.

Entretanto, a voz prosseguia com brandura:

— Poderás resolver o problema escrevendo a todos os irmãos em meu nome; os de boa vontade saberão compreender, porque o valor da tarefa não está na presença pessoal do missionário, mas no conteúdo espiritual do seu verbo, da sua exemplificação e da sua vida. Doravante, Estêvão permanecerá mais conchegado a ti, transmitindo-te meus pensamentos, e o trabalho de evangelização poderá ampliar-se em benefício dos sofrimentos e das necessidades do mundo.

O dedicado amigo dos gentios viu que a luz se extinguira; o silêncio voltara a reinar entre as paredes singelas da igreja de Corinto; mas, como se houvera sorvido a água divina das claridades eternas, conservava o Espírito mergulhado em júbilo intraduzível. Recomeçaria o labor com mais afinco, mandaria às comunidades mais distantes as notícias do Cristo.

De fato, logo no dia seguinte, chegaram portadores de Tessalônica com notícias desagradabilíssimas. Os judeus haviam conseguido despertar, na igreja, novas e estranhas dúvidas e contendas. Timóteo corroborava com observações pessoais. Reclamavam a presença do Apóstolo com urgência, mas este deliberou pôr em prática o alvitre do Mestre, e recordando que Jesus lhe prometera associar Estêvão à divina tarefa, julgou não dever atuar por si só e chamou Timóteo e Silas para redigir a primeira de suas famosas epístolas.

Assim começou o movimento dessas cartas imortais, cuja essência espiritual provinha da Esfera do Cristo, através da contribuição amorosa de Estêvão — companheiro abnegado e fiel daquele que se havia arvorado, na mocidade, em primeiro perseguidor do Cristianismo.

Percebendo o elevado espírito de cooperação de todas as obras divinas, Paulo de Tarso nunca procurava escrever só; buscava cercar-se, no momento, dos companheiros mais dignos, socorria-se de suas inspirações, consciente de que o mensageiro de Jesus, quando não encontrasse no seu tono sentimental as possibilidades precisas para transmitir os desejos do Senhor, teria nos amigos instrumentos adequados.

Desde então, as cartas amadas e célebres, tesouro de vibrações de um mundo superior, eram copiadas e sentidas em toda parte. E Paulo continuou a escrever sempre, ignorando, contudo, que aqueles documentos sublimes, escritos muitas vezes em hora de angústias extremas, não se destinavam a uma igreja particular, mas à cristandade universal. As epístolas lograram êxito rápido. Os irmãos as disputavam nos rincões mais humildes, por seu conteúdo de consolações, e o próprio Simão Pedro, recebendo as primeiras cópias, em Jerusalém, reuniu a comunidade e, lendo-as, comovido, declarou que as cartas do convertido de Damasco deviam ser interpretadas como cartas do Cristo aos discípulos e seguidores, afirmando, ainda, que elas assinalavam um novo período luminoso na história do Evangelho.


Emmanuel










sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Paulo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 10 - Bem-aventurados os que são misericordiosos - Instruções dos Espíritos - Perdão das ofensas - Item 15



Paulo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 10 - Bem-aventurados os que são misericordiosos - Instruções dos Espíritos


Perdão das ofensas 


15. Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio; perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era. Perdoai, pois, meus amigos, a fim de que Deus vos perdoe, porquanto, se fordes duros, exigentes, inflexíveis, se usardes de rigor até por uma ofensa leve, como querereis que Deus esqueça de que cada dia maior necessidade tendes de indulgência? Oh! ai daquele que diz: “Nunca perdoarei”, pois pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe, aliás, se, descendo ao fundo de vós mesmos, não reconhecereis que fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por uma alfinetada e acaba por uma ruptura, não fostes quem desferiu o primeiro golpe, se vos não escapou alguma palavra agressiva, se não procedestes com toda a moderação necessária? Sem dúvida, o vosso adversário andou mal em se mostrar excessivamente suscetível; mais uma razão para serdes indulgentes e para não vos tornardes merecedores do reproche que lhe lançastes. Admitamos que, em dada circunstância, fostes realmente ofendido: quem dirá que não envenenastes as coisas por meio de represálias e que não fizestes degenerasse em querela grave o que houvera podido cair facilmente no olvido? Se de vós dependia impedir as conseqüências do fato e não as impedistes, sois culpados. Admitamos, finalmente, que nenhuma censura tendes a vos fazer: mostrai-vos clementes e com isso só fareis que o vosso mérito cresça.

Mas, há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: “Eu lhe perdôo”, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém, comentando que ele tem o que merece. Quantos não dizem: “Perdôo” e acrescentam: “mas, não me reconciliarei nunca; não quero tornar a vê-lo em toda a minha vida.” Será esse o perdão, segundo o Evangelho? Não; o perdão verdadeiro, o perdão cristão é aquele que lança um véu sobre o passado; esse o único que vos será levado em conta, visto que Deus não se satisfaz com as aparências. Ele sonda o recesso do coração e os mais secretos pensamentos. Ninguém se lhe impõe por meio de palavras e de simulacros vãos. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras.


Paulo, apóstolo
Lyon,1861












terça-feira, 5 de julho de 2022

Paulo, o apóstolo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. XV - Instrução dos Espíritos - Fora da caridade não há salvação



Paulo, o apóstolo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. XV - Instrução dos Espíritos


Fora da caridade não há salvação 


Meus filhos, na máxima: Fora da caridade não há salvação, estão encerrados os destinos dos homens, na Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque os que a houverem praticado acharão graças diante do Senhor. Essa divisa é o facho celeste, a luminosa coluna que guia o homem no deserto da vida, para o conduzir à Terra da Promissão. Ela brilha no céu como auréola santa, na fronte dos eleitos, e, na Terra, está gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: Passai à direita, benditos de meu Pai. Vós os reconhecereis pelo perfume de caridade que espalham em torno de si. Nada exprime com mais exatidão o pensamento de Jesus, nada resume tão bem os deveres do homem, como essa máxima de ordem divina. Não poderia o Espiritismo provar melhor a sua origem, do que apresentando-a como regra, pois ela é o reflexo do mais puro Cristianismo. Tomando-a por guia, nunca o homem se transviará. Dedicai-vos, assim, meus amigos, a compreender seu sentido profundo e suas consequências, a descobrir, por vós mesmos, todas as aplicações. Submetei todas as vossas ações ao controle da caridade e a vossa consciência vos responderá. Não só ela evitará que pratiqueis o mal, mas também fará que pratiqueis o bem, porquanto uma virtude negativa não basta: é necessária uma virtude ativa. Para fazer o bem precisa sempre a ação da vontade; para não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a indiferença.

Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que, observando-vos, se possa reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, pois todos os que praticam a caridade são discípulos de Jesus, seja qual for a seita a que pertençam.


Paulo, o apóstolo
Paris, 1860









quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Paulo, o apóstolo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. XV - Instrução dos Espíritos - Fora da caridade não há salvação - Item 10




Paulo, o apóstolo - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. XV - Instrução dos Espíritos


Fora da caridade não há salvação 


10. Meus filhos, na máxima: Fora da caridade não há salvação, estão encerrados os destinos dos homens, na Terra e no céu; na Terra, porque à sombra desse estandarte eles viverão em paz; no céu, porque os que a houverem praticado acharão graças diante do Senhor. Essa divisa é o facho celeste, a luminosa coluna que guia o homem no deserto da vida, para o conduzir à Terra da Promissão. Ela brilha no céu como auréola santa, na fronte dos eleitos, e, na Terra, está gravada no coração daqueles a quem Jesus dirá: Passai à direita, benditos de meu Pai. Vós os reconhecereis pelo perfume de caridade que espalham em torno de si. Nada exprime com mais exatidão o pensamento de Jesus, nada resume tão bem os deveres do homem, como essa máxima de ordem divina. Não poderia o Espiritismo provar melhor a sua origem, do que apresentando-a como regra, pois ela é o reflexo do mais puro Cristianismo. Tomando-a por guia, nunca o homem se transviará. Dedicai-vos, assim, meus amigos, a compreender seu sentido profundo e suas consequências, a descobrir, por vós mesmos, todas as aplicações. Submetei todas as vossas ações ao controle da caridade e a vossa consciência vos responderá. Não só ela evitará que pratiqueis o mal, mas também fará que pratiqueis o bem, porquanto uma virtude negativa não basta: é necessária uma virtude ativa. Para fazer o bem precisa sempre a ação da vontade; para não praticar o mal, basta as mais das vezes a inércia e a indiferença.

Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que, observando-vos, se possa reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, pois todos os que praticam a caridade são discípulos de Jesus, seja qual for a seita a que pertençam.


Paulo, o apóstolo
Paris, 1860









quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Paulo, Apóstolo - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - 4ª Parte - Das esperanças e consolações - Cap. II - Duração das penas futuras - Questão 1009 (Miramez)




Paulo, Apóstolo - O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - 4ª Parte - Das esperanças e consolações - Cap. II


Duração das penas futuras


1009. Assim, as penas impostas jamais o são por toda a eternidade?

“Gravitar para a unidade divina, eis o fim da Humanidade. Para atingi-lo, três coisas são necessárias: a justiça, o amor e a ciência. Três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois bem: digo-vos, em verdade, que mentis a esses princípios fundamentais, comprometendo a ideia de Deus, com o Lhe exagerardes a severidade. Duplamente a comprometeis, deixando que no Espírito da criatura penetre a suposição de que há nela mais clemência, mais mansuetude, amor e verdadeira justiça, do que atribuis ao Ser Infinito. Destruís mesmo a idéia do inferno, tornando-o ridículo e inadmissível às vossas crenças, como o é aos vossos corações o horrendo espetáculo das execuções, das fogueiras e das torturas da Idade Média! Pois quê! Quando banida se acha para sempre das legislações humanas a era das cegas represálias, é que esperais mantê-la no ideal? Oh! Crede-me, crede-me, irmãos em Deus e em Jesus-Cristo, crede-me: ou vos resignais a deixar que pereçam nas vossas mãos todos os vossos dogmas, de preferência a que se modifiquem, ou, então, revivificai-os, abrindo-os aos benfazejos eflúvios que os Bons, neste momento, derramam neles. A idéia do inferno, com as suas fornalhas ardentes, com as suas caldeiras a ferver, pôde ser tolerada, quer dizer, era perdoável num século de ferro; porém no século dezenove não passa de vão fantasma, próprio, quando muito, para amedrontar criancinhas; e mesmo estas, crescendo um pouco, logo deixam de crer nela. Se persistirdes nessa mitologia aterradora, engendrareis a incredulidade, mãe de toda a desorganização social. Tremo, entrevendo toda uma ordem social abalada e a ruir sobre os seus fundamentos, por falta de sanção penal. Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia da luz, mãos à obra, não para manter fábulas que envelheceram e se desacreditaram, mas para reavivar, revivificar a verdadeira sanção penal, sob formas condizentes com os vossos costumes, os vossos sentimentos e as luzes da vossa época.

“Quem é, com efeito, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus-Cristo.

“Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. Querê-lo eterno, por uma falta não eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.

“Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura. Seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transmigrações e consagrareis a unidade divina,  por meio da razão unida ao sentimento.”

Paulo, Apóstolo.


Com o atrativo de recompensas e temor de castigos, procura-se estimular o homem para o bem e desviá-lo do mal. Se esses castigos, porém, lhe são apresentados de forma que a sua razão se recuse a admiti-los, nenhuma influência terão sobre ele. Longe disso; rejeitará tudo: a forma e o fundo. Se, ao contrário, lhe apresentarem o futuro de maneira lógica, ele não o repelirá. O Espiritismo lhe dá essa explicação.

A doutrina da eternidade das penas, em sentido absoluto, faz do Ente Supremo um Deus implacável. Seria lógico dizer-se, de um soberano, que ele é muito bom, muito magnânimo, muito indulgente, que só quer a felicidade dos que o cercam, mas que ao mesmo tempo é cioso, vingativo, de inflexível rigor e que pune com o castigo extremo as três quartas partes dos seus súditos, por uma ofensa, ou uma infração de suas leis, mesmo quando praticada pelos que não as conheciam? Não haveria aí contradição? Ora, pode Deus ser menos bom do que o seria um homem?

Mais uma contradição se apresenta aqui: pois que Deus tudo sabe, sabia, ao criar uma alma, que ela viria a falir. Teria, pois, desde a sua formação, sido destinada à desgraça eterna. Será isto possível, racional? Com a doutrina das penas relativas, tudo se justifica. Deus sabia, sem dúvida, que ela faliria, mas lhe deu meios de se instruir pela sua própria experiência, mediante suas próprias faltas. É necessário que expie seus erros, para melhor se firmar no bem, mas a porta da esperança não se lhe fecha para sempre e Deus faz que, dos esforços que ela empregue para o conseguir, dependa a sua redenção. Isto toda gente pode compreender e a mais meticulosa lógica pode admitir. Menos céticos haveria, se deste ponto de vista fossem apresentadas as penas futuras.

Na linguagem vulgar, a palavra eterno é muitas vezes empregada figuradamente, para designar uma coisa de longa duração, cujo termo não se prevê, embora se saiba muito bem que esse termo existe. Dizemos, por exemplo, os gelos eternos das altas montanhas, ou dos pólos, embora saibamos, de um lado, que o mundo físico pode ter fim e, de outro lado, que o estado dessas regiões pode mudar pelo deslocamento natural do eixo da Terra, ou por um cataclismo. Assim, nesse caso, o vocábulo eterno não quer dizer perpétuo ao infinito. Quando sofremos de uma enfermidade duradoura, dizemos que o nosso mal é eterno. Que há, pois, de admirar em que Espíritos que sofrem há anos, há séculos, há milênios mesmo, assim também se exprimam? Não esqueçamos, principalmente, que, não lhes permitindo a sua inferioridade divisar o ponto extremo do caminho, crêem que terão de sofrer sempre, o que lhes é uma punição.

Ademais, a doutrina do fogo material, das fornalhas e das torturas, tomadas ao Tártaro do paganismo, está hoje completamente abandonada pela alta teologia e só nas escolas esses aterradores quadros alegóricos ainda são apresentados como verdades positivas, por alguns homens mais zelosos do que esclarecidos, que assim cometem grave erro, porquanto as imaginações juvenis, libertando-se dos terrores, poderão ir aumentar o número dos incrédulos. A teologia reconhece hoje que a palavra fogo é usada figuradamente e que se deve entender como significando fogo moral (974). Os que têm acompanhado, como nós, as peripécias da vida e dos sofrimentos de além-túmulo, através das comunicações espíritas, puderam convencer-se de que, por nada terem de material, eles não são menos pungentes. Mesmo relativamente à duração, alguns teólogos começam a admiti-la no sentido restritivo acima indicado e pensam que, com efeito, a palavra eterno se pode referir às penas em si mesmas, como conseqüência de uma lei imutável, e não à sua aplicação a cada indivíduo. No dia em que a religião admitir esta interpretação, assim como algumas outras também decorrentes do progresso das luzes, muitas ovelhas desgarradas reunirá.


Allan Kardec



O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez

Questão 1009 comentada


Já falamos e tornamos a dizer: não existe esse tipo de corrigenda, que nunca se acaba. O que seria, se assim fosse, o nosso Deus? Sendo Ele todo bondade, amor e caridade, Seus filhos são filhos do Seu mais profundo amor, e não iriam sofrer penas sem remissão.

Isso se passa como corriges um filho, colocando-o no castigo, por vezes por alguns minutos que, para ele, parecem uma eternidade. E isto tu fazes por amor, para educá-lo, e o carinho dos pais fa-lo-á entender que eles somente desejam o seu bem e o seu aprendizado para o amanhã. Da parte de Deus, é perfeita essa correção.

Como atribuir à bondade infinita a vingança infinita? Não podes pensar assim. Nós outros estamos nos submetendo às leis eternas do Criador, processos de despertamento espiritual para que acordemos os valores existentes dentro de nós, entretanto, essa libertação não pode ser total, pois sempre somos dependentes de Deus. Para isso fomos feitos; Ele é a vida.

Certamente que ainda há muitas coisas que não compreendemos e que se encontram em segredo, porém, quando surgir o desejo de aprender, busquemos ao Senhor em oração. Disse Paulo aos Coríntios:

Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. (l Coríntios, 14:28)

Eis aí o conselho mais acertado; quando não compreendes certas leis ou certos acontecimentos em teu caminho, fica calado, recolhe-te ao templo interno do teu coração e pelas preces fala a Deus, esperando com confiança, que Ele, a Bondade Divina, te dirá o que precisas, na faixa que te é própria.

As penas são temporárias, Elas duram pouco por estarem em desarmonia com a vida. Nós, como Espíritos desencarnados que já passamos por muitas delas, te exortamos com amor a suportares as duras penas, principalmente as impostas, pois no fundo delas se encontra a luz para a tua consciência.

Jesus disse: "Aquele que perseverar até o fim, será salvo." Vamos bater na tecla do amor até sair a nota da verdade e da alegria. A música universal se encontra ligada à caridade, esse gênio divino e humano que sempre procura salvar as almas.

Penas perpétuas devem cair no esquecimento. O tempo já passou, e o progresso teológico trouxe outras maneiras de pensar e sentir a vida em outros aspectos. O carro da evolução é portador de luzes da esperança para todas as criaturas de Deus. Eis a tua hora de meditar e aproveitar a viagem eterna para a eternidade do bem, que mostra para todos o ambiente para se ver e sentir os princípios da felicidade.

Em tempos idos, somente se falava nos templos religiosos sobre sofrimentos depois do túmulo, torturas etc. Tanto se falou nesses tormentos que eles acabaram por se materializarem na Terra, como as Cruzadas, a Inquisição, a escravidão e outras diferentes disposições impostas para os sofrimentos humanos. Tanto foram pedidas que vieram no correr dos ares.

Devemos esquecer do mal, para que ele desapareça do mundo e das criaturas. Jesus é o ponto de irradiação do bem e do amor. Firmando-nos n'Ele, limparemos nosso carma e passaremos a viver na luz, que fala somente das coisas agradáveis e felizes.


Miramez



Filosofia Espírita - Volume XX - João Nunes Maia
Cap. 40 - Penas perpétuas