sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Emmanuel - Livro Coletânea do Além - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 3 - A oportunidade



Emmanuel - Livro Coletânea do Além - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 3


A oportunidade


Em todas as direções do planeta, observamos o homem do mundo perseguindo as oportunidades.

De modo geral, todavia, as criaturas humanas não procuram senão a oportunidade de uma situação de evidência transitória na Terra.

Encontram-se apressados os que buscam as grandes ocasiões do dinheiro, dos títulos convencionais, das situações de destaque, dos desejos satisfeitos, sob o ponto de vista planetário. 

Os homens, identificados no mesmo ideal mundano, abraçam-se, na comunhão do interesse, nesses encontros fortuitos.  

Os demais saúdam-se ligeiramente, em atitude suspeitosa, temendo a alheia intromissão nos seus inferiores desígnios.

Essa, a estrada comum da vida sobre a Terra. E os que passam contemplando o céu ou meditando na sabedoria da Inteligência Suprema que lhes facultou as belezas e utilidades do caminho, para os seus semelhantes inquietos não serão criaturas de seu tempo.

O homem vulgar, todavia, ainda não se capacitou de que essa corrida apressada não é mais que uma oportunidade para morrer. 

Morrer, segundo a carne e segundo o espírito também, porque as realizações materiais, quando não acompanhadas de finalidade edificante, no plano definitivo da alma, podem conduzir aos débitos mais escabrosos, em séculos de regeneração pungente e amarga.

Nessa movimentação desordenada das criaturas, muitas vezes, faz-se mister lançar mão de sagrados patrimônios da consciência, sufocam-se as tendências mais nobres, espezinham-se os melhores sentimentos.

Faltam a esses lutadores inquietos os valores legítimos da iluminação interior e é por isso que, frequentemente, vemos o político elevar-se para atender à maquinaria da destruição, formar-se o sacerdote para a defesa de vãos interesses, eleger-se o jurista para desviar o direito ou preparar-se o médico para confundir o problema da saúde.

Quase todas as criaturas marcham ansiosas, na valorização da oportunidade falsa, e chegam esgotadas ao término da luta, esbarrando na realidade da morte, desprevenidas e infelizes.

É que o homem ainda não quis compreender que a maior oportunidade não poderia sair da indigência de nossas mãos. Somos Espíritos imperfeitos e não poderíamos criar a oportunidade perfeita para a felicidade real.

Só a sabedoria e a magnanimidade de Deus podem conceder às nossas almas esse ensejo divino. E essa oportunidade sagrada é a da Vida. 

O berço mais pobre e o corpo mais deformado constituem essa concessão da Infinita Misericórdia. Representam a porta consoladora, por onde o Espírito humano regressa à valorosa oficina de trabalhos que é a Terra. 

E somente quando a criatura sabe apreciar a extensão desse ensejo, lendo a cartilha do esforço próprio, nas sendas mais penosas da regeneração ou do aprendizado, terá descoberto a sua oportunidade definitiva de glorificação e paz, porquanto, não mais estará edificando sobre a areia das convenções do mundo, das pretensões científicas ou das galerias do falso conhecimento, mas sim, na base imortal do sentimento e da justa razão.

Dentro dessas observações, devemos considerar que a mais elevada oportunidade de um homem é a sua própria existência e a vantagem real dessa bênção reside na iluminação definitiva do Espírito.

O Mestre é Jesus.

A Escola é a Terra.

O Bem é o trabalho que aperfeiçoa.

O Adversário é tudo o que afaste a energia do serviço real com o Cristo.

Em vista dessas verdades, que o discípulo ponha mãos à obra de sua purificação e ninguém espere um Céu que não edificou em si mesmo.


Emmanuel













Bezerra de Menezes - Mensagem - Divaldo Pereira Franco - Dificuldades-desafio



Bezerra de Menezes - Divaldo Pereira Franco - Dificuldades-desafio
   

Meus filhos,

Guarde-nos o Senhor na Sua Paz.

Não obstante as ameaças de confrontamento, que se anuncia com os objetivos maléficos da guerra que parece inevitável, os discípulos do Evangelho permanecemos confiados na paz.

Diminuem as sombras que toldavam as relações entre as grandes potências da Terra, mas, porque o Planeta é de provas e de expiações, irrompe, inesperadamente, uma densa treva que parece o prenunciar de uma hecatombe de consequências funestas.

Apesar disso, os seguidores de Jesus, trabalhamos pela paz.

Diante das injunções dolorosas que se apresentam, é imprescindível que mantenhamos a flama do ideal, a fim de que tremule acima de todas as vicissitudes, apontando rumo como a esperança que não pode faltar na busca da felicidade humana.

Repetem-se os dias ásperos do Cristianismo primitivo, quando a mensagem de Jesus penetrou nos corações que foram invitados a abandonar as carnificinas habituais, para pautar a conduta pela solidariedade e o exercício do amor fraternal.

São inevitáveis, neste momento, as dores superlativas, as inquietações de largo porte, as dificuldades-desafio.

Jesus convida-nos ao testemunho, como outrora Ele próprio testificou a legitimidade do mandato de que Se encontrava investido, para que os homens soubéssemos ser Ele, o excelente Filho de Deus, o modelo e guia para toda a Humanidade.

Certamente, depois dEle, os testemunhos ficaram circunscritos às arenas, ao exílio, à perseguição de grupo, de clã, estabelecendo a separação entre o trigo e o joio. Mas, também, ainda hoje é assim, meus filhos. Não nos iludamos, as balizas da arena cresceram muito e as feras que estavam em jaulas e subterrâneos esfaimadas, aguardando o momento do holocausto dos servidores do Ideal, agora estão dentro de nós, em torno de nós, disfarçados, porém, não menos ameaçadoras e cruéis.

Temos necessidade de porfiar no combate, mantendo o idealismo e a confiança irrestrita em Deus, valorizando a honra da fé que nos abraça.

Que outros discutam inutilmente; que diversos permaneçam distraídos na tribuna das controvérsias que não levam a lugar algum; que um grande número aplique o seu tempo no verbalismo vazio e na busca das coisas insignificantes, sem preocupação com as questões palpitantes e de importância para equacionar; que vários proíbam, cerceando os espaços da liberdade que deve viger em todos os corações e mentes que encontraram o Evangelho de Jesus. A nós nos cumpre o dever da retidão – pensar e agir corretamente, amar sem discriminação, compreender sem reserva, e dar aos outros o direito de serem conforme podem, mas, a nós próprios, nos impormos o compromisso de renovação a cada instante, para melhor, realizando com eficiência a tarefa que nos está reservada.

O conhecimento da Doutrina Espírita é portador de libertação, porque traz, no seu bojo, a verdade revelada a Allan Kardec, que prossegue abrindo espaço nas mentes e alargando os horizontes para a vida.

Fomos convidados, sim, para espalhar a luz que não pode ficar impedida pelas nossas limitações e pequenezes. Que dentro de nós vibre o pensamento do Cristo, e atue através da nossa conduta a beleza da mensagem espírita que, em breve, modificará o pensamento na Terra e expulsará, por definitivo, a guerra, o medo, a insatisfação, gerados pelo egoísmo, que cederá o passo ao altruísmo, que Jesus nos ofereceu na lição sacrossanta da caridade.

Unamo-nos, meus filhos! Às agressões, retribuamos com o perdão; à maledicência, ofereçamos a generosidade da compreensão; à violência que ergue a mão para nos afligir, doemos a solidariedade fraternal, contra a qual, nenhuma força humana pode lutar. O mal vale o investimento que lhe oferecemos: se não o valorizarmos, mediante a nossa permanência no bem ele deixará de ter significado, perderá a razão de ser, passando a plano secundário e desaparecendo. O mal, que não vemos, porque estamos espalhando o bem, vai absorvido como a sombra que desaparece no jato da luz.

A nossa é a tarefa de servir e de amar, preparando o advento do mundo melhor, que já se anuncia e chega lentamente.

Como é verdade que os homens se preparam para o lamentável confronto, no qual a guerra ainda não foi descartada, não menos verdade é que os homens, que representam as comunidades superdesenvolvidas, já se preocupam em parlamentar, discutir e encontrar os meios diplomáticos para equacionar os seus problemas, dirimindo as dificuldades que aparentemente os separam.

A verdade, que promana de Deus alcança a todos. Assim, trabalhemos com acendrado amor e com esforço incessante, para que o Espiritismo realize a transformação social da Terra, como previsto pelo Codificador, e anunciados pelos embaixadores do céu. Este é o dever impostergável, para o qual aqui nos reunimos, discutindo e estabelecendo diretrizes de equilíbrio e de segurança.

Não estais a sós, e o sabeis! Não vos reunis aqui para encontro de opiniões desassisadas, mas, irmanados pelo ideal de realizar o que seja de melhor para o Movimento e o de mais útil para as criaturas humanas.

Porfiai, Jesus espera muito de nós, assim como a Ele entregamos os nossos destinos!

Continuai filhos, certos de que o triunfo, que não tarda, tomará conta dos nossos corações em forma de plenitude e de paz.

Abençoe-nos o Senhor e que, entre nós, permaneça Sua paz, são os votos do amigo e servidor humílimo e paternal de sempre.


Bezerra











Psicofonia de Divaldo Pereira Franco, no encerramento da reunião matinal do Conselho Federativo Nacional, na Federação Espírita Brasileira, no dia 17 de novembro de 1990, em Brasília, DF.

Joanna de Ângelis - Livro Momentos de Harmonia - Divaldo Pereira Franco - Cap. 2 - Jubilosamente



Joanna de Ângelis - Livro Momentos de Harmonia - Divaldo Pereira Franco - Cap. 2


Jubilosamente


Tens o cérebro ardendo sob a ação das preocupações que o dominam em círculo de fogo.

Trazes o sentimento macerado por angústias que não relatas.

Estás com a alma açoitada por vendavais de agonia que se sucedem, ininterruptamente.

Sais de um testemunho, e, em vez de liberação, já te vês enfrentando novos e dolorosos desafios.

Pedem-te, porém, que sorrias e superes estes teus momentos de provações, impondo-te insensibilidade, indiferença emocional.

Renasceste crucificado nas provações redentoras e não tens ainda o direito à plenitude, à marcha serena daqueles que se venceram a si próprios.

A existência terrestre, no entanto, é assim mesmo.

Todos avançam a contributo da aflição, que lhes constitui o recurso valioso graças ao qual a falência moral se torna mais difícil.

Certamente, há aqueles que, sob a injunção do sofrimento, rebelam-se, parecendo piorar a própria situação.

Não obstante, já travaste contato consciente com a vida, e sabes que apenas te sucede aquilo que é de melhor para o teu progresso espiritual.

Desse modo, jubilosamente carrega tua cruz invisível, guardando a certeza de que as duas traves penosas, se conduzidas com amor, converter-se-ão em asas de luz que te erguerão deste mundo áspero para as regiões da felicidade.

Ausculta os reais vitoriosos da Terra, e perceberás que o holocausto deles é o estímulo para o teu prosseguimento afervorado.

Joana d’Arc, quando começava a arder na fogueira, ergueu-se acima dos seus inquisidores e experimentou a libertação plena.

Jan Huss, enquanto era queimado pelo Concilio de Constança, inaugurou a era do livre exame das Escrituras, tornando-se mártir para todo o sempre.

Jerônimo de Praga, seu discípulo, seguindo-lhe depois no drama das labaredas, depois de uma prolongada existência rica de sabedoria, abriu espaços com a sua morte para que a vida dos homens fosse iluminada pela fé racional.

São inúmeros os heróis da renúncia e dos ideais de engrandecimento humano.

A evolução dos homens torna-se possível através das vertentes do amor que santifica, que estimula ao progresso, ou do sofrimento que desperta para as responsabilidades malconsideradas.

A dor não representa maldição divina, antes significa recurso educativo, inevitável.

Não te entristeças, pois, porque te encontres lanhado pelos látegos do sofrimento, enquanto o festival dos sorrisos, em torno de ti, constitui uma constante que não fruis.

Afinal, o teu, não é o mestre dos triunfos terrenos, porém, o Herói Silencioso da Cruz, o Excelente Triunfador da sepultura vazia.

Jubilosamente prossegue, e não te perturbes com nada, enquanto transcorra a tua vilegiatura carnal.


Joanna de Ângelis

















quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Emmanuel - Livro Vinha de Luz - Chico Xavier - Cap. 40 - Fé



Emmanuel - Livro Vinha de Luz - Chico Xavier - Cap. 40




“Mas os cuidados deste mundo, os enganos das riquezas e as ambições doutras coisas, entrando, sufocam a palavra, que fica infrutífera.” — JESUS. (Marcos, 4:19)


A árvore da fé viva não cresce no coração, miraculosamente.

Qual acontece na vida comum, o Criador dá tudo, mas não prescinde do esforço da criatura.

Qualquer planta útil reclama especial atenção no desenvolvimento.

Indispensável cogitar-se do trabalho de proteção, auxílio e defesa. 

Estacadas, adubos, vigilância, todos os fatores de preservação devem ser postos em movimento, a fim de que o vegetal precioso atinja os fins a que se destina.

A conquista da crença edificante não é serviço de menor esforço.

A maioria das pessoas admite que a fé constitua milagrosa auréola doada a alguns Espíritos privilegiados pelo favor divino.

Isso, contudo, é um equívoco de lamentáveis consequências.

A sublime virtude é construção do mundo interior, em cujo desdobramento cada aprendiz funciona como orientador, engenheiro e operário de si mesmo.

Não se faz possível a realização, quando excessivas ansiedades terrestres, de parceria com enganos e ambições inferiores, torturam o campo íntimo, à maneira de vermes e malfeitores, atacando a obra.

A lição do Evangelho é semente viva.

O coração humano é receptivo, tanto quanto a terra.

É imprescindível tratar a planta divina com desvelada ternura e instinto enérgico de defesa.

Há muitos perigos sutis contra ela, quais sejam os tóxicos dos maus livros, as opiniões ociosas, as discussões excitantes, o hábito de analisar os outros antes do autoexame.

Ninguém pode, pois, em sã consciência, transferir, de modo integral, a vibração da fé ao espírito alheio, porque, realmente, isso é tarefa que compete a cada um.


Emmanuel












Emmanuel - Livro Mediunidade e Sintonia - Chico Xavier - Cap. 17 - Sigamos acordados



Emmanuel - Livro Mediunidade e Sintonia - Chico Xavier - Cap. 17


Sigamos acordados


Não permitas que o desgosto menor te conduza ao fracasso, para que o fracasso te não conduza aos desgostos maiores.

Lembra-te de que a Terra é a nossa antiga escola de aprimoramento espiritual e não lhe menoscabes as lições.

Recorda o paralítico algemado ao leito de dor e agradece ao Céu as pernas ágeis e firmes que te garantem a verticalidade do corpo.

Considera o mutilado a quem falta a bênção das mãos e valoriza os recursos que te fazem encontrar no trabalho a fonte da alegria.

Não olvides o cego, às vezes, na bruma das lágrimas, e utiliza os olhos na procura do bem.

Não te esqueças do mudo que atravessa o carreiro terrestre, quase sempre solitário e incompreendido, e conserva limpa a palavra de que te vales para atingir o progresso mais amplo.

Reflete no idiota, que passa entre os homens, com as dificuldades do cérebro ensandecido, e mobiliza o próprio raciocínio, prestigiando o que se te faça útil.

Medita nos que vagueiam sem lar e honra o teu reduto doméstico, cultivando dentro dele a bondade e a tolerância, a compreensão e a gentileza por diretrizes de cada dia.

Pensa nos corações cristalizados na indiferença, que viajam no mundo à feição de órfãos voluntários e exalça a própria fé, traduzindo-a em obras de humildade e amor, generosidade e perdão, para que a luz divina se te eleve por bússola no caminho.

Valoriza o trabalho que desenvolves, os amigos, os familiares, os recursos, os instantes de que dispões e sentir-te-ás agora rico de possibilidades para ampliar o tesouro de bênçãos com que serás aquinhoado agora, hoje e depois.

Lembremo-nos de que a Terra é simplesmente um degrau em nossa escalada para os cimos resplendentes da vida e, acordados para as oportunidades do serviço, avancemos para diante, aprendendo e amando, auxiliando aos outros e renunciando a nós mesmos, na certeza de que, assim, caminharemos do infortúnio de ontem para a felicidade de amanhã.


Emmanuel










Humberto de Campos - Livro Cartas e Crônicas - Chico Xavier - Cap. 7 - Consciência espírita



Humberto de Campos - Livro Cartas e Crônicas - Chico Xavier - Cap. 7


Consciência espírita


Diz você que não compreende o motivo de tanta autocensura nas comunicações dos espíritas desencarnados. Fulano, que deixou a melhor ficha de serviço, volta a escrever, declarando que não agiu entre os homens como deveria; sicrano, conhecido por elevado padrão de virtudes, regressa, por vários médiuns, a lastimar o tempo perdido… E você acentua, depois de interessantes apontamentos: “Tem-se a impressão de que os nossos confrades tornam, do Além, atormentados por terríveis complexos de culpa. Como explicar o fenômeno?”

Creia, meu caro, que nutro pessoalmente pelos espíritas a mais enternecida admiração. Infatigáveis construtores do progresso, obreiros do Cristianismo Redivivo. Tanta liberdade, porém, receberam para a interpretação dos ensinamentos de Jesus que, sinceramente, não conheço neste mundo pessoas de fé mais favorecidas de raciocínio, ante os problemas da vida e do Universo. Carregando largos cabedais de conhecimento, é justo guardem eles a preocupação de realizar muito e sempre mais, a favor de tantos irmãos da Terra, detidos por ilusões e inibições no capítulo da crença.

Conta-se que Allan Kardec, quando reunia os textos de que nasceria “O Livro dos Espíritos”, recolheu-se ao leito, certa noite, impressionado com um sonho de Lutero, de que tomara notícias. O grande reformador, em seu tempo, acalentava a convicção de haver estado no paraíso, colhendo informes em torno da felicidade celestial.

Comovido, o codificador da Doutrina Espírita, durante o repouso, viu-se também fora do corpo, em singular desdobramento… Junto dele, identificou um enviado de Planos Sublimes que o transportou, de chofre, a nevoenta região, onde gemiam milhares de entidades em sofrimento estarrecedor. Soluços de aflição casavam-se a gritos de cólera, blasfêmias seguiam-se a gargalhadas de loucura.

Atônito, Kardec lembrou os tiranos da História e inquiriu, espantado:

— Jazem aqui os crucificadores de Jesus?

— Nenhum deles, — informou o guia solícito. — Conquanto responsáveis, desconheciam, na essência, o mal que praticavam. O próprio Mestre auxiliou-os a se desembaraçarem do remorso, conseguindo-lhes abençoadas reencarnações, em que se resgataram perante a Lei.

— E os imperadores romanos? Decerto, padecerão nestes sítios aqueles mesmos suplícios que impuseram à Humanidade…

— Nada disso. Homens da categoria de Tibério ou Calígula não possuíam a mínima noção de espiritualidade. Alguns deles, depois de estágios regenerativos na Terra, já se elevaram a Esferas superiores, enquanto que outros se demoram, até hoje, internados no campo físico, à beira da remissão.

— Acaso, andarão presos nestes vales sombrios tornou o visitante, — os algozes dos cristãos, nos séculos primitivos do Evangelho?

— De nenhum modo, — replicou o lúcido acompanhante, — os carrascos dos seguidores de Jesus, nos dias apostólicos, eram homens e mulheres quase selvagens, apesar das tintas de civilização que ostentavam… Todos foram encaminhados à reencarnação, para adquirirem instrução e entendimento.

O codificador do Espiritismo pensou nos conquistadores da Antiguidade, Átila, Aníbal, Alarico I, Gengiscão…  Antes, todavia, que enunciasse nova pergunta, o mensageiro acrescentou, respondendo-lhe à consulta mental:

— Não vagueiam, por aqui, os guerreiros que recordas… Eles nada sabiam das realidades do espírito e, por isso, recolheram piedoso amparo, dirigidos para o renascimento carnal, entrando em lides expiatórias, conforme os débitos contraídos…

— Então, dize-me, — rogou Kardec, emocionado, — que sofredores são estes, cujos gemidos e imprecações me cortam a alma?

E o orientador esclareceu, imperturbável:

— Temos junto de nós os que estavam no mundo plenamente educados quanto aos imperativos do Bem e da Verdade, e que fugiram deliberadamente da Verdade e do Bem, especialmente os cristãos infiéis de todas as épocas, perfeitos conhecedores da lição e do exemplo do Cristo e que se entregaram ao mal, por livre vontade… Para eles, um novo berço na Terra é sempre mais difícil…

Chocado com a inesperada observação, Kardec regressou ao corpo e, de imediato, levantou-se e escreveu a pergunta que apresentaria, na noite próxima, ao exame dos mentores da obra em andamento e que figura como sendo a questão número 642, de “O Livro dos Espíritos”: “Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?”, indagação esta a que os instrutores retorquiram: “Não; cumpre-lhe fazer o bem, no limite de suas forças, porquanto responderá por todo o mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

Segundo é fácil de perceber, meu amigo, com princípios tão claros e tão lógicos, é natural que a consciência espírita, situada em confronto com as ideias dominantes nas religiões da maioria, seja muito diferente.


Humberto de Campos
(Irmão X)














quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Joanna de Ângelis - Livro Jesus e Vida - Divaldo Pereira Franco - Cap. 12 - Pertencer-se



Joanna de Ângelis - Livro Jesus e Vida - Divaldo Pereira Franco - Cap. 12


Pertencer-se

    
Graças aos atavismos ancestrais que se demoram em a criatura humana, inúmeras dependências caracterizam-lhe a existência, na condição de conflitos e de falsas necessidades de apoio.

A identidade conturbada, não conseguindo libertar-se dos liames a que se encontra atada por indolência e comodidade, permite-se continuar sob o jugo das paixões a que se submete espontaneamente.

Cada espírito é possuidor do corpo de que se utiliza, elaborado de acordo com as suas necessidades evolutivas, programado para o processo de crescimento interior, atravessando as diversas etapas existenciais conforme as próprias aspirações.

Essa dependência debilita-lhe os centros processadores de qualificação para a vida, em face da indiferença a que se aclimata, supondo não possuir forças nem valor moral para a libertação do problema. No recesso do ser, esse fenômeno é fruto do autodesamor, da incapacidade de lutar para crescer e motivar-se para desenvolver os recursos elevados que se encontram adormecidos em germe, no cerne de si mesmo.

Nem sempre, porém, dá-se conta de sua dependência afetiva, emocional, cultural, financeira, social, espiritual...

Por consequência, a faculdade de pensar cede lugar aos impositivos dessa aceitação, deixando-se arrastar pelas ideias e atividades de outrem, que nem sempre são corretas ou edificantes, negando-se o direito de ser livre, de assumir responsabilidades.

Em face dessa condição, quando se compromete, naturalmente tem para quem transferir a culpa, isentando-se da responsabilidade de ser feliz conforme os seus próprios padrões...

Nesse processo, surgem os tormentos que são resultados da insatisfação, do drama decorrente da conduta infantil ou doentia, por faltar uma escala de valores que justifiquem as lutas dignificadoras e os enfrentamentos, mesmo que desagradáveis, mas que são indispensáveis à conquista da plenitude.

Enxergando a vida conforme as lentes de outrem, a capacidade de eleger o que lhe é de melhor, aquilo que proporciona felicidade, lentamente se restringe, perdendo a diretriz que deveria seguir.

A finalidade essencial da reencarnação, porém, é a do crescimento intelecto-moral do espírito, em cuja conquista impõe-se o dever de ser-se livre, de identificar-se os próprios limites, mas também as incalculáveis possibilidades que lhe estão à disposição.

Ao mesmo tempo em que se liberta das dependências perturbadoras, aprende a vincular-se às outras vidas, de caminhar ao lado, permutando experiências e ampliando horizontes, de forma que encontre sentido viver em sociedade, relacionando-se com tudo quanto existe.

Embora vivendo um período de pensamento mágico, no qual tudo se resolve de maneira tecnológica, imediata, fácil, bastando apenas apertar um botão ou um teclado e encontrando as respostas já elaboradas, os processos de solução prontos para serem usados, é indispensável reflexionar, medir os riscos e os sucessos, assumindo a própria identidade e a responsabilidade por cada ação...

Todavia, no que diz respeito ao trabalho de libertação, na busca do pertencer-se, caminhando com a responsabilidade dos próprios atos, sem medos nem tormentos, são indispensáveis um grande esforço, uma disposição contínua para não desistir nem desanimar, rejubilando-se, a cada passo, crescendo intimamente a cada tentativa.

Sem esse esforço pessoal, inadiável, o indivíduo prossegue na jornada em dependências que variam de circunstância, pessoa, emoção...

Indubitavelmente, os espíritos comunicam-se com os viandantes do carreiro carnal, interferindo nos seus pensamentos, palavras e atos. Como resultado, há um intercâmbio incessante entre as duas vibrações que envolvem os encarnados e os desencarnados, sendo natural que, de acordo com os padrões de conduta decorrentes do cultivo das ideias, da vida interior, haja a vinculação por afinidade.

Como pululam em volta do planeta os espíritos infelizes, em razão do seu estágio evolutivo, mais facilmente ocorre vinculação com os mesmos, isto quando o fenômeno não tem procedência em existência anterior, em decorrência do comportamento havido entre ambos, no caso, dando lugar aos processos obsessivos.

Dessa forma, a dependência do encarnado caracteriza-se pela submissão à influência morbosa do seu comparsa espiritual.

Inabituado a assumir decisões dignificadoras, deixa-se arrastar pelas ideias pessimistas e perturbadoras que lhe são transmitidas, passando à condição de vítima de uma parasitose infeliz, que termina por roubar-lhe as energias, trabalhando pelo seu deperecimento, desequilíbrio total e desencarnação antecipada...

O inconsciente, reconhecendo a culpa em decorrência da ação anterior infeliz, deixa-se dominar pelo agente perturbador, facultando-se a dependência, que o paciente aceita sem murmuração...

Iniciando-se o processo espiritual libertador, o espírito viciado na aceitação da circunstância danosa, não se permite o esforço de recuperar o equilíbrio, a sanidade mental ou emocional, ou mesmo física, prosseguindo espontaneamente a carregar a cruz que lhe pesa na consciência.

Aceitando a condição de vítima, não se esforça pela reconquista da identidade própria, deixando de pertencer-se, de avançar no rumo da alegria e do bem-estar que a todos se encontram destinados, fugindo para a autocompaixão, a autocomiseração.

O corpo pertence ao espírito que nele se encontra renascido, para as excelentes realizações evolutivas e nunca aos invasores da sua consciência...

Cada indivíduo deve esforçar-se ao máximo para preservar a sua independência interior, laborando em favor da autoconfiança, do autoesforço, trabalhando a autoiluminação.

Ninguém pode realizar esse mister, exceto o próprio espírito, porquanto somente o seu cabedal de experiências facultar-lhe-á desenvolver-se intelecto-moralmente, em cada etapa, tornando-se melhor do que na anterior.

Desse modo, ninguém renasce, no mundo físico, para sofrer, senão para reeducar-se, para recuperar-se dos delitos infelizes, para crescer na direção de Deus.

Nunca, pois, justificáveis as expressões: "não posso", "não consigo", "não tenho forças", todas decorrentes da indolência mental e da acomodação pessoal, não obstante os danos de que sejam portadoras.

Recupera-te dos efeitos perniciosos da tua atual ou anterior existência, trabalhando as tuas forças morais, confiando em Deus e a Ele entregando-te sem reservas, lutando com tenacidade a fim de venceres as tendências inferiores que teimam em jugular-te ao eito das dependências negativas.

Ergue-te ao amor e o amor te conduzirá pela senda libertadora, autopertencendo-te e conquistando o espaço que te está reservado no processo da evolução.


Joanna de Ângelis