
Manoel Philomeno de Miranda - Livro Antologia Espiritual - Espíritos Diversos / Divaldo P. Franco - Cap. 38
Recordações no além-túmulo
O fenômeno do despertamento da consciência, após o processo da morte física, muito tem a ver com a conduta mantida durante a existência corporal.
Naturalmente, o período de fixação das ideias e experiências durante a reencarnação responde pela anestesia que permanece nos centros da memória, logo se rompem os liames carnais.
Além dos estados normais decorrentes dos atos de cada um, o largo ou breve período de impregnação deixa as marcas características de que o ser espiritual não se liberta, senão através de terapia especializada...
Considerando-se que a reencarnação se opera ao largo dos anos, mergulhando a energia espiritual nas células orgânicas e delas encharcando-se poderosamente, ao dar-se o rompimento dos vínculos materiais, a desintoxicação, salvo as exceções compreensíveis, dá-se mediante o concurso do tempo.
As largas enfermidades, que propiciam o amadurecimento do amor e a submissão às Leis da Vida, facilitam o despertamento no além-túmulo, ensejando responsabilidade e consciência.
Os atos de abnegação e o cultivo das virtudes facultam, igualmente, a desimantação dos fluidos físicos, liberando a mente que aspira por mais amplos horizontes de beleza e de paz, apressando a lucidez de quem não se deixa fixar nas reminiscências fortes e dissolventes que remanescem do corpo somático.
Assim, o espírito recém-liberto desperta, a pouco e pouco, experimentando as sensações que lhe eram mais comuns e vivendo as impressões que mais fortemente lhe assinalaram a romagem fisiológica.
Lentamente, e ante a assistência de que se vê objeto, começa a recordar os acontecimentos mais expressivos, repassando mentalmente a desencarnação e ajustando-se ao novo habitat no qual se encontra.
Vencido o choque emocional, ante o conhecimento da morte, caso não se haja preparado para a conjuntura inevitável, evoca os momentos predominantes que lhe assinalaram a vida, e, submetido a assistência compatível, atravessa a fase da convalescença, de onde parte para o período do equilíbrio e do bem-estar.
Mesmo assim, as recordações são imprecisas, deixando de lado inúmeros acontecimentos, porque de menor importância, estabelecendo natural ligação psíquica com os familiares, os afetos e os desafetos, os atos felizes e os nocivos...
Morrer, não é consumir-se, nem metamorfosear- se.
O fenômeno biológico, na área orgânica, difere muito da ocorrência, no campo espiritual.
De acordo com a evolução moral, cada desencarnado experimenta o prolongar do comportamento que lhe era habitual, vendo-se conduzido a grande esforço para a libertação, qual ocorre na Terra em muitos processos pós-operatórios.
Desse modo, a aquisição das recordações de outras vidas somente se dá a largo tempo, quando essa identificação não vem a perturbar a marcha do progresso do indivíduo.
Noutras vezes, a fim de que a lucidez possa registrar a memória do passado, são aplicados recursos magnéticos e cirúrgicos no paciente espiritual, que se vai apropriando das notícias que lhe podem ser úteis no processo iluminativo, equacionando-lhe os problemas de comportamento e o auxiliando na compreensão dos fenômenos para a evolução.
E indispensável, portanto, que o homem adquira o costume salutar de pensar na morte, desapegando-se dos bens supérfluos e dos valores que perturbam, seja nos processos afetivos ou sociais, financeiros ou idealistas...
A medida que a mente fixa os paineis da imortalidade e passa a considerar a transitoriedade do corpo, mais fáceis lhe serão o desligamento, o abandono, a superação dos laços materiais que predominam nas reminiscências após a morte.
Pondo a mente na vida espiritual, a criatura anela por conquistá-la, e lutando com afã, quando defrontada pela ocorrência da disjunção celular, adapta-se mais facilmente e abre-se, esperançosa, às conquistas edificantes, anulando os limites do tempo e do espaço, passando a viver um presente-ontem-amanhã, enriquecido pelas recordações valiosas que a impulsionarão no rumo da liberdade responsável, anelada.
Manoel Philomeno de Miranda





