Joanna de Ângelis - Livro Em Busca da Verdade - Divaldo Pereira Franco - Cap. 8 - A busca do significado
A individuação
A busca do significado na existência humana deve expressar-se no rumo da individuação, o que equivale dizer, da própria identidade, que não se circunscreve ao conceito de individualismo, mas de individualidade, que induz ao conhecimento real do que se é e não apenas do que parece ser no turbilhão das exterioridades do ego.
Para o eminente Jung, o criador do termo, o significado é que a existência se realize como individualidade do Self, como perfeita integração do Si-mesmo, da sua totalidade, o que não significa sua perfeição, que constitui um ideal...
Trata-se do esforço que deve ser envidado para que se alcance a perfeita consciência da sua realidade, sem disfarces, como realmente cada um é, sem o conflito de somente apresentar-se com características que não são verdadeiras.
Compreende-se que se trata de um esforço titânico, porque o arquétipo numinoso do Self apresenta-se como um tentame que pode ter repercussão perturbadora inesperada, como no caso, da auto-presunção de desejar tornar-se um super-homem — Ubermensch — conforme sonhado por Frederico Nietzsche, no seu delírio masoquista, ou um homem-deus...
Indispensável evitar-se tais ambições, considerando que a conquista não pode levar a esquecer-se a realidade do ser individual que se é, os limites naturais de humanidade que o caracterizam.
Enquanto o Self é a expressão da divindade interna no ser humano, nessa busca, a da individuação, deve apequenar-se até a postura do ego, tornando-se consciente da sua condição imensurável da psique, sendo, simultaneamente, o seu conteúdo mais significativo e real.
Isso exige um grande confronto em luta contínua com os constructos do inconsciente, eliminando, ou iluminando as pesadas condensações da sombra, das experiências dolorosas umas, infelizes outras, abençoadas algumas e frustrantes diversas...
Trata-se da conquista dos valores que se encontram programados para o vir-a-ser, e que podem ser logrados mediante o esforço de superação sobre o ego, por meio das renúncias e compreensão do significado existencial.
Não se consegue essa meta a golpes aventureirescos, sob entusiasmos e exaltações da persona, porém, mediante conquistas diárias, lentas e seguras, que vão sendo incorporadas ao consciente, na razão que liberta os traumas e conflitos do inconsciente.
Essa individuação pode apresentar-se num conteúdo espiritual, artístico, cultural, científico, de qualquer natureza, porquanto a sua meta é a ampliação da consciência além dos limites habituais em forma de compreensão da vida em todas as suas dimensões.
Isso se dá através das transformações dos conceitos existenciais, conduzindo o indivíduo à superação dos arquétipos perturbadores — persona, sombra, anima-us - em uma consciente integração.
Somente aceitando a vida - a realidade existencial - conforme é, e trabalhando para que se apresente melhor, desenvolvendo o autoamor - respeito por si mesmo, autotransformação, intelectualização e moralidade - a fim de poder entender e participar da convivência com as demais pessoas.
Essa integração do Self com a realidade confere responsabilidade consciente ao indivíduo que supera as injunções habituais dos percalços das enfermidades, das fugas psicológicas, das transferências da culpa, da criança maltratada, para lograr a maturidade psicológica libertadora.
Através do processo da evolução, houve alienação em referência aos instintos, por castração, por imposições de falsa moral, de reproche ao mundo, o que tornou a consciência distante da realidade, tornando-se necessário agora como impositivo o retorno à compreensão de todos os valores e à conduta saudável das ocorrências do cotidiano.
O desenvolvimento da inteligência contribui de maneira objetiva para a conquista da individuação, mas não através do intelectualismo sem a cooperação da conceituação moral, do sentido ético-filosófico do comportamento.
No conceito junguiano, a individuação plena e total não pode ser conseguida, por motivos óbvios, em face da sua transcendência à consciência, o que significa a momentânea impossibilidade de o Espírito alcançar os horizontes infinitos da perfeição, somente pertencente a Deus.
Dentro desses limites que lhe dizem respeito, a plenitude significa um estado de iluminação e de paz, não de conquista absoluta, na relatividade do seu processo evolutivo.
Cada indivíduo é portador da sua própria programação existencial, trabalhado pelos recursos defluentes das conquistas alcançadas no carreiro das reencarnações, não constituindo a etapa atual o último passo, a situação definitiva, mas sendo, isto sim, um segmento do conjunto que abarcará, um dia, quando conseguir libertar-se do impositivo da evolução.
Todo o seu esforço deve ser direcionado em favor da superação dos impulsos dos instintos agressivos e de natureza egóica, desenvolvendo os sentimentos de identificação com a harmonia e o bem-estar, com os labores da solidariedade que fomenta o progresso de todos, a autoiluminação.
Desse modo, o Self é específico e individual, embora o seu caráter coletivo, ainda no conceito junguiano, porque representa a unidade que deve ser conquistada como o destino que o aguarda.
Nessa realização individual, o Self reunirá os conteúdos inconscientes aos conscientes, conseguindo uma harmonia que faculta a perfeita lucidez da destinação humana sem os atavismos perturbadores do passado nem as ambições desenfreadas em relação ao futuro.
Esse trabalho é possível, na razão direta em que o mesmo vai penetrando nos depósitos do inconsciente e libertando as fixações e imagens ancestrais, que respondem pela desorientação do indivíduo sempre quando emergem, gerando conflito com a consciência, com os valores éticos estabelecidos, com as necessidades que se impõem.
Quando se inicia a identificação desses conteúdos graves, normalmente surgem a angústia, a rejeição de si mesmo, a surpresa com os significados mórbidos e perversos, vulgares e destituídos de sentimento que se encontravam adormecidos, podendo produzir alguns transtornos neuróticos...
No entanto, perseverando-se no objetivo, passa-se a outro nível do inconsciente, com diferentes conteúdos amenos e estimulantes.
É normal que isso tenha lugar, porque toda vez que se mergulha em águas acumuladas, chega-se até aos depósitos de lama, que após vencidos permitem a transparência cristalina do líquido armazenado.
No esforço empreendido, vão-se dando as transformações emocionais e os aspectos da saúde sob os vários ângulos considerada, constituindo grande motivo de prazer e de alegria, ante a perspectiva do encontro com o repouso, a paz, o Nirvana...
Após as primeiras experiências nirvânicas, a sede de progresso, de imortalidade, de sublimação retorna, e o trabalho interior prossegue, porque o repouso absoluto seria a negação da própria vida, a perda de sentido psicológico da evolução.
Não foi por outra razão que Jesus enunciou que o reino dos Céus está dentro de cada indivíduo, propondo a reflexão profunda e a autoconquista como meios para a libertação das anteriores aquisições alienantes e dos desejos do ego presunçoso.
O conceito, portanto, de individuação, de totalidade, abrange a conquista dos conteúdos possíveis de conscientização, que desaparecem nos significados psicológicos elevados que cada qual estabelece como sua meta existencial.
Esse tentame, naturalmente propõe novos paradigmas de comportamento que surpreendem, porque o novo e desconhecido são sempre motivo de preocupação e de mal-entendimento.
Tais paradigmas, no entanto, estão ínsitos no ser, porque são uma visão nova de perspectivas de conduta e de aspiração de vida, interpretação diferenciada do aceito e comum, das circunstâncias caóticas que devem ser modificadas e do esforço pessoal em benefício do equilíbrio geral.
Quando isso não ocorre, estabelece-se a neurose moderna como a que toma conta da sociedade atual.
Esse tipo de transtorno neurótico expressa-se em forma de ansiedade, de insatisfação, de frustração, de desconfiança e de solidão, asfixiando os mais belos ideais da humanidade intelectualizada, tecnologicamente rica e profundamente infeliz em seu sentimento pessoal.
Os efeitos imediatos são as depressões bipolares na área da afetividade, a síndrome do pânico, as fugas hediondas pelo suicídio, pelo homicídio, as opções tormentosas pela violência,
pelo estupro, pelo esdrúxulo e primitivo no comportamento para chamar a atenção, em face do desprezo que as suas vítimas sentem por si mesmas.
Ante a impossibilidade de considerar a sua valorização pelos significados nobres, assume as agressivas posturas que lhes atendem ao desconforto interior, tornando-se temíveis, por saber que não são amadas, em carência profunda e em estado de infância abandonada...
Desse modo, a busca da indivudação é também a maneira psicológica de encontrar-se o melhor meio para o bom relacionamento com o Si-mesmo, com o outro, com a sociedade.
Não se pode viver de maneira saudável sem considerar-se a presença de outrem no contexto social, sendo, por sua vez, o outro daquele...
Algo somente passa a ter existência real na consciência quando é pela mesma detectado.
Observar-se algo ou alguém é também ser observado por esse objeto ou pessoa em observação.
Inevitavelmente, nesse momento, dá-se um relacionamento, um descobrimento do outro, a necessidade de intercâmbio com ele, a sua convivência, que constituem a forma de cada qual existir e ter valor no mundo.
Por tal motivo, o isolamento, o distanciamento da sociedade sob a justificativa de encontrar Deus e melhor servi-lO, oculta uma alienação defluente de algum conflito forte em relação ao próximo, uma agarofobia que pode ter razão profunda na libido atormentada, na culpa maldisfarçada.
A fuga do mundo não impede que o indivíduo se leve até onde for procurar esconder-se.
No início da divulgação da doutrina cristã, especialmente no século III d. C.
houve uma epidemia de eremitas, de pessoas que buscavam a solidão, de processos autopunitivos ou de busca pela autoflagelação, caracterizando a morbidez da cultura e o alto índice de tormentos que assolavam a ética e a sociedade que se comprazia no deboche e nos absurdos de conduta, fugindo para a libertação dos conflitos.
Infelizmente, porém, tornaram-se mais exemplos de inutilidade e de egoísmo do que de serviço ao bem, às propostas de Jesus, que optou pela convivência com os infelizes, a fim de ajudá-los a libertar-se de si mesmos, das suas misérias, das suas dores.
Convivendo com a ralé, manteve a sua aristocracia espiritual, demonstrando o mais elevado nível de individuação, do Self totalizado e em integração perfeita com Deus, em nome de Quem viera para amar e ensinar a conquista da saúde total e da felicidade às criaturas, constituindo-se o mais elevado exemplo de vitória sobre as circunstâncias e ocorrências de que se tem notícias.
Seguir-Lhe o exemplo, reflexionar nas Suas palavras e, sobretudo nos Seus exemplos, é a mais segura diretriz para encontrar-se a individuação.
Mediante a conquista da individuação, a fissão da psique torna-se unidade.
Joanna de Ângelis
(*) Questão n° 1 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, 29a
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