Aristides Spínola - Livro Antologia Espiritual - Espíritos Diversos / Divaldo P. Franco - Cap. 3
Reencarnação e progresso
A vida inteligente, na Terra, se examinada exclusivamente do ponto de vista da unicidade da existência corporal, isto é, somente através da encarnação do Espírito, torna-se filosófica e cientificamente caótica, destituída de lógica e sem qualquer sentido ético, digno de respeito.
Não bastasse a documentação paleontológica demonstrando a ancianidade do aparecimento do homem, em trânsito espiritual e anatômico-fisiológico, simultaneamente em diversas partes do planeta, até adquirir as características que possui, nos quase dez milênios próximos passados, o conceito teológico de uma criatura apresentada com todos os atributos de que ora se reveste, assim surgida desde o primeiro momento, igualmente é atentatório à razão e à cultura defluente da investigação.
No período fetal, desde a concepção até a vida extra-uterina, vemos o repetir-se dos períodos anteriores porque passou o ser, nas diversas formas animais que apresenta, revivendo o atavismo ancestral que nele jaz latente.
A imensa variedade dos vertebrados procede, incontestavelmente, do tronco inicial dos invertebrados primeiros, que são, por sua vez, o resultado natural das transformações dos organismos monocelulares, consequência inevitável das combinações da proteína- vírus com os aminoácidos.
Os fenômenos filogenéticos, mesológicos, como os de adaptação, nos sucessivos milhões de anos que precedem ao surgimento dos hominídeos e destes o homo sapiens, encarregaram-se de produzir as transformações e fixações dos biótipos que ora conhecemos com a aparência e as formas definitivas e que, não obstante, ainda permanecem como ensaios da Criação, elaborando novas conquistas, aperfeiçoando órgãos e funções para futuros cometimentos que a vida propõe.
Inegavelmente, no terreno da Filosofia, não podemos desconsiderar o conceito da imanência, adotado por Santo Agostinho, que oferece à matéria terrestre os elementos essenciais para o surgimento das primitivas moléculas que favorecem o campo para a contribuição da transcendência, defendida por Santo Tomás de Aquino, quando a Divindade infundiu o sopro de vida, iniciando- se o processo espiritual, que transita pelas múltiplas formas até revelar a inteligência e o sentimento da emoção enobrecida no homem...
Nessa cadeia quase infinita de desenvolvimento, adquirindo órgãos necessários e abandonando aqueles que perderam a finalidade, vemos o psiquismo conquistando experiências e realizando aquisições que incorpora ao patrimônio íntimo, de que jamais se despojará na sucessão dos tempos, cada vez mais crescendo em complexidades, na maquinaria orgânica, e sabedoria, no conteúdo intelectual.
O mesmo Hálito Divino perpassa em todas as coisas da Natureza, dando-lhe finalidade e sustentando a ordem.
Quando o ser atinge o estágio hominal, passa a usar dos próprios recursos de livre-escolha do caminho a percorrer, no finalismo da determinação a que se encontra Submetido.
Nas faixas mais primárias, tudo nele são automatismos que passam da regularidade inconsciente, à conscientização que decorre da própria lucidez, adquirida a peso de dores, no largo dos milênios.
A partir de então, graças ao uso da razão e da lógica, a fé no futuro aponta-lhe seguras diretrizes de comportamento moral, e mais rápida faz-se-lhe a marcha ascensional para Deus.
Todas as ações produzem equivalentes reações, na ordem inevitável das “leis de causa e efeito”, de que ninguém se consegue eximir.
Na sucessão dos tempos, a fim de auxiliar o crescimento, a evolução da criatura, o Pai Criador permitiu que missionários do amor e da sabedoria mergulhassem nas sombras densas do corpo para viverem as experiências santificantes da fè e do conhecimento, apontando a rota mais segura e o porto final de maior significação para os que se encontravam no mundo.
Encarnando, desencarnando e reencarnando o Espirito elabora o programa que se lhe faz mais pertinente e próprio para a sua felicidade, avançando, detendo-se ou conquistando, na marcha, os componentes e valores que lhe apressam ou retardam o desenvolvimento.
A própria paisagem moral da criatura humana, no planeta, na sua variada gama de expressões e conquistas, demonstra a ancianidade de umas e a juventude de outras, na variação quase inconcebível dos interesses e aspirações.
Por outro lado, os sofrimentos de todos os matizes, que são detectados no ser humano, ao lado dos recursos intelecto-sociais e econômicos que os dessemelham, confirmam a história diferenciada dos comportamentos vividos pelos diversos grupos, embora marchando ao encontro dos mesmos fins.
As aptidões e tendências de que dão mostras os diferentes indivíduos, constituem, sem dúvida, o resultado atávico das suas vivências anteriores.
As afinidades e as antipatias humanas são outro capítulo das recordações inconscientes do ser, unindo- se aos antigos afetos ou buscando-os, enquanto repelem os anteriores inimigos, embora os códigos das Leis Soberanas estabeleçam o impositivo da fraternidade legítima, perdoando-se o mal e fomentando-se todo o bem que se possa e se deve praticar.
A reencarnação é a chave mestra para a decifração dos mistérios da vida, promovendo e dignificando o Espírito, que evolui com os títulos do esforço pessoal, portanto, das próprias conquistas sob a sublime paternidade de Deus.
Não foi por outra razão que Jesus postulou: “Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá”, para logo completar: “Ninguém entrará no reino de Deus sem pagar a dívida inteira, ceitil por ceitil”, ao que o Espiritismo adiu: “Nascer, viver, morrer e renascer ainda, tal é a lei.”
A reencarnação pode ser considerada como a alma da justiça ínsita na vida, definindo: conforme hoje vive o homem, assim ele estabelece as linhas e os recursos de que necessita para a existência de amanhã.
Aristides Spínola
Advogado, político e jornalista, Aristides de Souza Spínola (29 de agosto de 1850 - 9 de julho de 1925) ingressou na Federação Espírita Brasileira em 1905, convidado por Pedro Richard e, no mesmo ano, ocupa a vice-presidente até 1913, retornando ao posto em 1920-21 e por último em 1925 até a data de sua desencarnação. Na presidência da Casa de Ismael atuou nos anos de 1914, 1916 e 1917, e novamente entre 1922 e 1924.
Em 1891, esteve na equipe que fundou o Jornal do Brasil — um dos periódicos de alcance nacional no século seguinte —, desenvolvendo artigos na seção de política. Antes disso, colaborou na Gazeta da Tarde.
Trabalhador da Casa Mãe do Espiritismo no Brasil por 20 anos, destacou-se na advocacia pela FEB, estando à frente todas as vezes em que o Espiritismo foi ameaçado por decretos, sob a forma de perseguições aos médiuns, por exercício ilegal da medicina.
Sólida erudição espírita, teológica e jurídica projetaram-lhe o nome dentro e fora do campo espírita, sendo-lhe admirados o critério e a ponderação com que resolvia os problemas administrativos, bem como o espírito evangélico e conciliador nos mais delicados e controvertidos assuntos.
FEB - Federação Espírita Brasileira