
Ermance Dufaux - Livro Prazer de Viver - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 7
Sentimento Inconfessável
"Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; do mesmo modo que o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos.” - Mateus, 20:28. (O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 7 - item 4.)
Inveja é um mecanismo psicológico do ego, dentre muitos originados do sentimento de egoísmo cujo objetivo é a disputa neurótica para nos promover à condição de superiores em relação a alguém.
Constitui mais uma das atitudes de não aceitação e desajuste com nossa real condição interior.
Interessar-se em possuir algum bem perecível ou valor moral que tenhamos observado em nosso próximo é um desejo sadio de crescimento, estímulo para novos aprendizados e esforços.
Nesse caso, existe uma busca do exemplo inspirador.
É a "inveja criativa", impulsionadora.
Porém, nesse ato, quando surge a presença da frustração, da malquerença, da ameaça, do sentimento de inferioridade que nos causam um estado de mal-estar, então temos a condição invejosa.
Nesse contexto, o próximo é analisado como um vitorioso oponente.
Suas conquistas nos incomodam e nos fazem sentir pequenos.
O brilho alheio nos intimida.
Partimos, então, para formas defensivas com as quais procuramos diminuir a luz alheia.
Mesmo entre nós, os aprendizes incipientes da causa do amor, a inveja se mascara das formas mais complexas no intuito de ocultar nossa vergonha por senti-la.
Um sentimento inconfessável.
Em verdade, deveríamos nos alegrar pela expansão e multiplicação de ideias e caminhos para o Espiritismo por meio de expressões criativas de trabalho vindas de outrem, mas, quando estamos apegados às conquistas doutrinárias, sentimo-nos ameaçados ao despontarem projetos e ideias apreciáveis nascidos na mente alheia.
Somos Espíritos que ainda desconhecem os efeitos do próprio bem e como lidar com ele.
Por isso, nossas realizações doutrinárias ainda nos causam uma sensação, natural até certo ponto, de vitória e maioridade moral.
Aferramo-nos a elas com a nítida ilusão de êxito pleno e libertação definitiva.
A alegria da conquista ultrapassa a linha do equilíbrio e se transforma em pertinaz conduta orgulhosa.
Tudo isso ocorre, todavia, porque estamos há tanto tempo afastados da benevolência que, ao experimentá-la, sentimo-nos as melhores e maiores criaturas da vida.
Existem sistemas inteiramente alicerçados na inveja, reunindo multidões cujo propósito é abafar quaisquer manifestações que não brotem de suas entranhas.
Diversos climas organizacionais sofrem os efeitos indesejáveis da inveja pelas atitudes autoritárias e controladoras de seus dirigentes, que evitarão a qualquer custo aceitar alguém brilhar mais que o conjunto de suas forças reunidas.
"E chegou a Cafarnaum, e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que estáveis vós discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se, porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior." (Marcos 9:33-37)
O quadro comportamental do Espírito adoecido pelo egoísmo repete-se nos dias presentes.
Competição e ciúme, inveja e arrogância são sentimentos velados nas relações dos novos discípulos de Jesus, iluminados pela Doutrina Espírita.
Negá-los não impedirá de colhermos seus frutos deteriorados e indigestos.
Teremos cada um de nós, de assumir diante da consciência a natureza de nossa disputa.
Doloroso ato de coragem e desnudamento interior.
Quanta dissensão e melindre, quanto fracasso e obsessão por conta da competição velada entre seareiros!
A competição continua na subtileza das atitudes humanas.
Os estímulos da mídia e da sociedade competitiva somados à experiência de capricho pessoal, levam muitos corações, inclusive nos ambientes espíritas, a disputar os primeiros lugares em combates envernizados sem abertura para concessões, criando climas inamistosos e cisões dispensáveis que o diálogo sincero, seguido da honestidade emocional, poderia evitar.
"Na verdade, é já realmente uma falta terdes demanda uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano?" [1]
A inveja é dos sentimentos que menos confessamos a nós mesmos.
É uma propriedade psicológica do sentimento de egoísmo, ou seja, não conhecemos e nem percebemos sua ação em nós.
É uma das várias artimanhas do ego para nos manter protegidos da terrível sensação de vulnerabilidade, impotência e pequenez.
Invejamos o que o outro tem ou é, quando não amamos ainda o que somos e temos.
Não nos amando, passamos a fazer comparações sistemáticas.
Somente nos comparando conosco mesmos, em relação ao nosso trajeto de aperfeiçoamento na vida, é que nos sentiremos valorosos e gratificados.
Se nada construímos de útil e bom, possivelmente só nos resta a humildade de assumir nossa condição e começar um caminho novo.
Invejar não resolverá o vazio que sentiremos de não galgar os degraus que já gostaríamos de ter logrado.
A solução é ouvir nossos sentimentos com lisura moral.
Permitir-nos sentir e estudar a inveja descobrindo suas nascentes e camuflagens.
Alguns pontos podem nos auxiliar:
• Assumir que competimos e descobrir as causas profundas desta atitude.
• Compreender que não fazemos isso propositadamente.
Não escolhemos ser invejosos, vivemos um processo resultante de milênios.
• Nossa intenção nobre está preservada independentemente de quaisquer descobertas dolorosas sobre nossas imperfeições.
Somos mais o que intencionamos que, propriamente, o que fazemos.
• Os erros decorrentes de nossas atitudes na inveja velada devem ser aferidos sem culpa, buscando reparação e olhar para o futuro.
Que eles sirvam de lições para não incorrermos naqueles mesmos desvios.
• Manter exames periódicos acerca das investidas da inveja em nossa conduta e tomar providências imediatas para sua erradicação.
• Guardar atenção com a ansiedade e a compulsão com as tarefas para não cair no automatismo ou na ausência de reflexão educativa.
Não confundamos sacrifício com ansiedade.
A verdadeira tarefa espírita não está fora, mas no íntimo.
Nas lições pessoais e intransferíveis que realizamos em Deus no átrio da consciência.
O princípio originário da inveja está assentado na Lei Natural de conservação.
"É natural o desejo do bem-estar. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação. Ele não condena a procura do bem-estar, desde que não seja conseguido à custa de outrem e não venha a diminuir-vos nem as forças físicas, nem as forças morais". (Questão 719 - O Livro dos Espíritos) [2]
Aprender com o sucesso alheio, ter metas de progresso material, compreender as aptidões que admiramos em outrem, respeitar a experiência e alegrar-se com as vitórias dos outros são caminhos da admiração, isto é, a direção educativa para os sentimentos despertados, ante os valores que nos cercam na convivência.
São estímulos para crescer.
Somente os que se amam e conhecem seus potenciais, valores e aptidões olharão a vida e o próximo com alteridade, prezando as diferenças com louvor, reconhecendo que cada um deve florescer onde e como se encontra, descobrindo sua missão gloriosa perante a vida, distante do ato de invejar.
Ante essa descoberta, tecida nos fios do autoamor, alcançaremos a condição superior exarada pelo senhor Allan Kardec:
"O homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se". (E.S.E. Cap. 3, item 10) [3]
Ermance Dufaux
ENTREVISTA DO MÉDIUM WANDERLEY OLIVEIRA COM ERMANCE DUFAUX
[1] Como fazer as melhores escolhas nessa fase da vida, diante de um mundo interior instável e abalado por provas diversas?
Fazer melhores escolhas é algo muito singular. Enquanto queremos definir melhores escolhas por meio de cardápios de conduta, quase sempre criados pela religião, estaremos fugindo da escolha consciencial pela qual devemos nos guiar.
Aprender a ouvir a consciência é a grande lição que nos espera.
Quem poderá, em são juízo, definir algo por nós, sendo que esta é a fase da solidão para escolher e definir nossos próprios caminhos?
A solidão necessária para nos conduzir à autenticidade.
O doutor Viktor Frankl abordou muito bem este tema da seguinte forma:
"Quando um homem descobre que seu destino lhe reservou um sofrimento, tem que ver neste sofrimento também uma tarefa sua, única e original.
Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo dentro desse destino sofrido.
Ninguém pode assumir dela o destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento.
Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular".
Nem sempre faremos as melhores escolhas, mas o certo é que na meia-idade seremos chamados a fazer as nossas escolhas pessoais, íntimas, intransferíveis.
Qualificar escolhas é algo essencialmente consciencial.
Algo entre Deus e a criatura.
[2] Como espíritas, como nos situar diante deste tema?
O Espiritismo é uma doutrina nova.
Poucos são aqueles que já reencarnaram pela segunda vez como espíritas.
A realidade da vida imortal e todas as suas implicações em nossa conduta na vida terrena ainda se encontram povoadas de princípios fantasistas da religião tradicional.
A cultura espírita no mundo ainda pende muito mais para convenções que para a educação dos potenciais da alma.
Ainda nos encontramos muito mais na cartilha do que não fazer, que na orientação para o que fazer e como fazer.
Esse caldo cultural serve de freio disciplinador e contenção das más tendências.
Todavia, a proposta educativa de Jesus é toda centrada em valores. Desenvolvimento de qualidades.
Somente buscando o caminho pessoal e intrínseco das necessidades e merecimentos poderemos encontrar na existência o nosso projeto de ser.
Os espíritas são pessoas humanas como quaisquer outras.
Apenas sabem mais sobre a realidade da vida após a morte, mas mesmo assim são portadores das mesmas angústias de qualquer cidadão comum.
De fato, fica na acústica da memória o conhecido ensino do Mestre:
"Muito será pedido a quem muito for dado".
Isso, porém, não significa que devemos deixar de fazer escolhas a título de acertar mais e errar menos, pois o simples fato de não escolher já pode ser um desvio na trajetória particular de nossa evolução.
[3] O Espiritismo confere, por si só, um sentido à nossa existência?
O Espiritismo é uma ferramenta de progresso.
Seus ensinos despertam na alma uma atração incontrolável para a adesão a um estilo de vida distinto e mais digno, que passa a consumir esforços em torno do ideal.
O Espiritismo, portanto, com sua qualidade inquestionável de conteúdos, é capaz de motivar o idealismo, passando automaticamente a ser o sentido da vida para expressiva parcela de adeptos.
Mesmo assim, o ideal pode não passar de um mecanismo de contenção que a vida encontrou para educar ímpetos e adiar o momento decisivo do autoenfrentamento com nossa sombra pessoal.
Quantos companheiros motivados e com uma atuação impecável nas lides de serviço doutrinário, de hora para outra, tombam em crises sem precedentes.
É nesse momento que o ideal emprestado morre para a conquista do mundo real que nos pertence.
É o momento de decisões e testemunhos de aferição.
Somente nesta ocasião saberemos se os ensinos que tomaram conta do cérebro estão descendo para o coração a reflectir as expressões mais profundas da consciência.
Fonte: Prazer de Viver; IPEAK
Nenhum comentário:
Postar um comentário