quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Prazer de Viver - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 14 - Sentimentos: nossos verdadeiros guias



Ermance Dufaux - Livro Prazer de Viver - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 14


Sentimentos: nossos verdadeiros guias


"A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas e é o que menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora, encarnados". – Irmã Rosália. (O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo XIII - item 9.)


A comunidade espírita é merecidamente reconhecida pela sociedade como exemplo de beneficência pública.

A caridade é, sem dúvida, a essência das ideias espíritas, porque constitui a didática da vida no processo de educação do homem em busca de seu ajustamento com a Lei Natural.

Importa-nos observar que, mesmo no clima da bondade de nossas fileiras de serviço, as iniciativas erguidas em nome do amor, muitas vezes, devido ao arraigado sentimento de egoísmo, podem obedecer a motivações de natureza individualista.

Joio e trigo convivem juntos nas movimentações sociais de benemerência e amparo.

Interesse pessoal e altruísmo, assim como a luz e a treva, alternam-se na natureza íntima de nossos sentimentos, mesmo quando agimos nas edificações em favor do próximo.

Ante esse quadro inevitável do coração, será oportuna a indagação: como a caridade tem educado a mim mesmo?

Em que aspectos tenho melhorado a partir da ação social?

Reconheço os traços de personalismo na minha atividade de amparo?

O bem será bom para quem o recebe; será que está sendo também para mim que o faço?

Como? Quais são os sentimentos experimentados com a atividade do bem?

A reciclagem do conceito de caridade em nosso abençoado movimento carece de um enfoque sobre convivência.

Mais valor ao relacionamento humano e menos prática formalizada.

A prática é significativa pelo seu caráter disciplinador.

Acima dela, deve estar a interação humana, a quebra de barreiras que nos desaproximam do próximo, de sua singularidade rica de lições, que podem ser absorvidas em regime de salutar intercâmbio de vivências.

Vigiemos o encantamento com o volume de recursos amealhados nas campanhas de amor.

Atentemos para os sentimentos de presunção em razão das paredes erguidas no acolhimento alheio.

Nem sempre tais iniciativas louváveis são suficientes para o despertamento da legítima cidadania no coração.

Tenhamos cautela com nossas velhas ilusões!

Ao erguermos casas de amor ao próximo, costumamos, simultaneamente, adotar um processo psicológico de caridade com limites, restringindo o conceito de próximo aos que se beneficiam diretamente das iniciativas que promovemos.

Saindo dos locais de caridade, muitos corações amantes do bem, tomados pela incoerência, dispensam tratamentos ríspidos a serviçais e familiares no lar ou ainda a funcionários e conhecidos no dia-a-dia.

É a caridade com hora marcada!

Atitude ainda distante do movimento sublime da alma na semeadura do bem sem condições - a aplicação da cidadania como dever universal de solidariedade.

A cidadania à luz da imortalidade significa a luta íntima na consolidação dos deveres perante a consciência.

Batalhamos pela cidadania de nosso semelhante, igualmente devemos talhar nas nossas atitudes os sentimentos que nos identifiquem como cidadãos com participação social consciente, onde quer que estejamos.

Haverá diferença entre o próximo que é beneficiado por nós nas atividades doutrinárias e aquele que conduz um veículo ao nosso lado, credor de nosso respeito no ato de trafegar com paciência?

Será que o condutor ao lado de teu veículo não estará mendigando um gesto de gentileza?

Cidadania à luz do ser imortal é educar.

E educar-se para viver com proveito a grande oportunidade reencarnatória.

Essa a meta primordial da caridade com Jesus nos roteiros da Doutrina Espírita.

Centros espíritas, enquanto células dinamizadoras da mensagem do Cristo, preparem seus trabalhadores para aprender a conviver, a fim de não super-valorizarem técnicas e métodos que podem ritualizar as práticas e desdenhar o acolhimento humano espontâneo e educativo.

Jesus é o exemplo de espontaneidade e ternura no atendimento do ser humano integral.

Essa deve ser a nossa meta, mesmo nos valendo de métodos ou regimes disciplinares para amar.

Mais do que sistematizar ações sociais, cultivemos a arte de melhorar nossos hábitos no relacionamento, transformando a casa espírita em um oásis de refazimento e esperança aos corações desolados e aos cérebros sem norte.

Ao implantar práticas de acolhimento e recepção sem aprender a conviver, corre-se o risco da formalização de novas filantropias atualizadas pelos conhecimentos, mas não aperfeiçoadas pela doação íntima de si mesmos.

A única atitude que nos leva ao encontro da consciência é aquela, da qual, nossos sentimentos fazem parte.

Algumas posturas, entretanto, são movimentos do ego, que nos inclinam a pensar caridade, um treino que nos permitirá, pouco a pouco, escapar das armadilhas do egoísmo.

Essa a razão de inúmeras e graves desilusões na vida espiritual entre co-idealistas que deram coisas e não se deram ou se abriram, para a vida em abundante dinamismo de sentir o valor do bem a cada passo, para o outro e para si, no encontro do Self glorioso.

É lei universal: o que damos, temos.

Quando damos o que detemos, apenas agimos no dever.

Quando damos do que é nosso, inserimo-nos no amor.

Avaliemos nossas modestas ações nos rumos da caridade.

Será oportuno pensar e repensar em quais parâmetros se enquadram os esforços que fazemos pelo bem alheio.

Predomina entre nós a cultura de que o bem expandido, em qualquer forma que se apresente, é apólice de garantia de paz além-túmulo, aguardando os louros das bênçãos que semeamos.

Nem sempre! Nem sempre!

Não existe bem que não seja bom, o que não significa libertação definitiva do mal e consolidação de virtudes na intimidade.

A relação de amor com o próximo é a escola bendita para intermináveis viagens interiores.

A caridade é luz que se acende ao próximo, com a qual, igualmente, deveremos aprender a nos beneficiar no próprio ato de exercê-la.

Portanto, a paz esperada para além das fronteiras da desencarnação precisa ser fruída no agora, enquanto semeamos, porque senão podemos estar padecendo da "síndrome de além-túmulo", isto é, cultuando um futuro incerto mentalizado no país dos raciocínios, sem a educação dos sentimentos nossos verdadeiros guias aqui no além.

A nossa situação aqui na vida espiritual é um resultado natural de nossas acções, e não um plano recheado de sonhos fantasiosos do cálculo.

O que define nosso equilíbrio ou infelicidade é o estado íntimo que carreamos nos domínios da consciência.

Aliás, temos de convir que, na condição de usurários milenares das benesses da vida, somos devedores de soma quase insolvente.

Assim, o bem alheio, em nosso caso, é abatimento na contabilidade de nossas contas espirituais, não constituindo ainda créditos polpudos nos bancos da virtude.

Sem generalizações, costumamos amar muito o próximo e descuidarmos do auto-amor, do amor a si mesmo.

Levam-se água e pão ao próximo e fica-se, bastas vezes, à míngua dos alimentos essenciais.

A proposta do amor não é martirizar-se pelo bem alheio para conseguir a felicidade pessoal.

A caridade é um processo relacional, interactivo, de crescimento mútuo.

Ela tem de ser boa, agradável e espontânea, para quem faz e quem recebe, nivelando ambos no ato de dar e receber, descaracterizando os papéis de doador e carente, porque carente e doador somos todos, dependendo do que se passa durante o magno intercâmbio solidário das relações.

Irmã Rosália alerta-nos para o ponto crucial da caridade moral:

A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas (...)".

Estudemos o sentido dessa fala, que nos descortinará um mundo de percepções sobre a cidadania nos sentimentos.

Caridade é um aprendizado de profundas lições que, pouco a pouco, lograremos no carreiro do crescimento pessoal, na convivência, dia após dia, estejamos onde estivermos, fora e dentro do corpo físico, na vida estuante do Amor de Nosso Pai em busca da cidadania cósmica, da qual todos fazemos parte, ainda que sem consciência dessa condição gloriosa.


Ermance Dufaux










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