sexta-feira, 21 de maio de 2021

Hércio Marcos - Livro Amor Sem Adeus - Mensagens familiares de Walter Perrone / Chico Xavier - Cap. 4 - O amor vence a morte e desconhece o tempo




Hércio Marcos - Livro Amor Sem Adeus - Mensagens familiares de Walter Perrone / Chico Xavier - Cap. 4


O amor vence a morte e desconhece o tempo


Em todo o desenrolar da Carta do Espírito de Walter, sentimos o pulsar de um coração fremente de amor engrandecido.

Amor a Deus… afirmando: “Deus está em nós e devemos permanecer em Deus.”

Amor à vida… exclamando: “Meu Deus, a vida é maravilhosa.”

Amor ao trabalho… esclarecendo: “A vida prossegue, e nós prosseguimos trabalhando.”

Amar aos seus íntimos e aos amigos da família… com dedicação especial à sua “querida velhinha”, expressão de tratamento que sempre usou para com sua mãe: “Venho rogar à senhora, minha santa velhinha, para sorrir e viver.”

Destarte, diante destas manifestações de elevado sentimento, podemos repetir com o Autor Espiritual:

O amor, mais uma vez, venceu a morte!

A morte física nada mais é do que uma mudança de estado, a transferência do Espírito — ser inteligente da criação — do escafandro carnal para um Plano de vibrações mais sutis.

A campa é o marco do nosso regresso à realidade maior, retorno ao Mundo eterno, normal e primitivo do Espírito imortal — mas essa viagem não opera milagres em ninguém. Continuamos os mesmos, com a nossa individualidade, que é um dos atributos básicos do Espírito. As virtudes ou as imperfeições morais, a sabedoria ou a ignorância, que fazem morada em nosso ser, não sofrem mutações repentinas.

Comentando sobre a vida além da morte, elucida-nos Emmanuel: [1]

“Atravessado o grande umbral do túmulo, o homem deseducado prossegue reclamando aprimoramento.

A criatura viciada continua exigindo satisfações aos apetites baixos.

O cérebro desvairado, entre indagações descabidas, não foge, de imediato, ao poço de obscuridades em que se submergiu.

E a alma de boa vontade encontra mil recursos para adiantar-se na senda evolutiva, amparando o próximo e descobrindo na felicidade dos outros a própria felicidade.” [2]

Walter é o Espírito de boa vontade que se atirou em auxílio aos entes queridos, que ficaram na Terra, presos a problemas aflitivos, mesmo antes de uma completa adaptação em sua nova vida e de gozar pleno equilíbrio emocional, pois confessa que, embora “balançando entre melhoras e quedas súbitas de emoção”, sofreu muito, ao ver sua estimadíssima progenitora hospitalizada por sua causa.

Evidentemente, logo que pôde, integrou-se a equipes socorristas do Mundo Espiritual, cooperando decisivamente na recuperação da saúde materna: “Foi o meu primeiro trabalho aqui, arrancá-la daqueles momentos de angústia.”

Contudo, não ignorava que uma cartinha sua, com palavras de conforto e de orientação, muito ajudaria no reequilíbrio emocional da mãezinha idolatrada e de seus familiares inesquecíveis. E, passou a trabalhar também com esse objetivo.

Mas, sabemos que o número de entidades espirituais que procuram aproximar-se dos seus entes amados encarnados, de um modo mais direto ou concreto, por via mediúnica, é enorme. E os médiuns — que trabalham com humildade e devotamento sincero ao próximo, constituindo intermediários seguros e fiéis entre o Aqui e o Além — são, naturalmente, os mais procurados, formando com o tempo uma fila imensa de postulantes. É uma lei geral da vida. Como o trabalho de um médium muito solicitado tem um limite de atendimento, entendemos claramente a afirmativa de Walter: “Mamãe querida, lutei muito por estes minutos.”

Quantas situações aqui no plano terráqueo ficariam conturbadas e, às vezes, seriamente comprometidas, se o intercâmbio entre os habitantes dos Dois Mundos — material e espiritual — fosse franqueado amplamente!

Entendemos, assim, que as comunicações autênticas obedecem a diretrizes superiores para que elas se processem com real proveito a todos.

Walter, pelo seu trabalho assistencial, com base no amor puro e pelas suas intenções enobrecidas, resultantes de maturidade espiritual invejável, conquistou o mérito de transmitir, através de um lápis mediúnico honrado, tudo o que queria e precisava dizer.

Facilmente se observa que a carta, endereçada por intermédio do correio mediúnico, é rica em informações comprobatórias de sua autenticidade.

Não bastando as características da personalidade ativa e amorosa de Walter, extravasadas nessa missiva, deparamos com numerosas citações totalmente confirmadas pela sua família, as quais comprovam a legitimidade da mesma.


Hércio Marcos Cintra Arantes




NOTAS ELUCIDATIVAS

Por ordem de aparecimento no texto, esclareceremos as referências contidas na mensagem:

1) mamãe e papai — D. Maria D. Perrone e Sr. Murilo Perrone, residentes em São Paulo, à Rua Emílio Mallet, nº 244, Tatuapé.

2) Suely — Suely Perrone, esposa.

3) Wilma — Wilma Marinho, empregada da casa, muito estimada pela família Perrone.

4) Waltinho — Walter Perrone Filho, nasceu 2 meses após a desencarnação do pai.

5) Soninha — Sônia Aparecida Perrone, irmã.

6) Berto — Carlos Roberto Perrone, irmão.

7) Minha velhinha — Quando encarnado, assim tratava a sua mãe.

8) Su — Na intimidade, assim chamava a sua esposa, Suely Perrone.

9) Santa Helena — Hospital onde D. Maria Perrone ficou internada, 3 meses após a desencarnação do filho.

10) Avô Perrone — Carlos Perrone, desencarnado em 6/11/1962, aos 66 anos de idade.

11) Mariazinha — Mãe de um colega do Autor Espiritual. Faleceu 4 anos antes do Walter.

12) Tia Isaura — Isaura D. Hernandes, madrinha de Walter, porém, carinhosamente, ele a chamava de “Tia Isaura.”

13) Tia Guida — Margarida D. Campoi, também carinhosamente tratada por “Tia Guida.”

14) Doutor Massau — Dr. Massau Simizo, médico da família e do Hospital Santa Helena.

15) Doutora Harliey — Dra. Harliey Fernandes Rizzo, amiga da família.

16) Doutor Edgard — Dr. Edgard de Barros, médico da família, há 30 anos.

17) Rua Vilela — local da indústria de propriedade da família, da qual era sócio.

18) 14 de fevereiro — data do desenlace.

19) Carlos — irmão já mencionado, porém, este era o modo como o tratava comercialmente; na intimidade o chamava de Berto.

20) Sônia — Sônia Constantino Perrone, esposa de Carlos.


[1] Chico Xavier - Livro Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel - Cap. 29
[2] Chico Xavier - Livro Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel - Cap. 124, 125.



Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 3.ª Parte - Das leis morais - Cap. 1 - Da lei divina ou natural - Caracteres da lei natural - Questão 614 (Miramez)




Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 3.ª Parte - Das leis morais - Cap. 1 - Da lei divina ou natural


Caracteres da lei natural  


614. Que se deve entender por lei natural?

“A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer, e ele só é infeliz quando dela se afasta.”


Allan Kardec



O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez

Questão 614 comentada


A resposta do benfeitor espiritual à pergunta focalizada esclarece:

A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta.

O sofrimento da humanidade é, pois, o afastamento da lei de Deus. O homem a conhece mais pela intuição, dependendo dos seus sentimentos.

Quando Jesus disse: "batei e abrir-se-vos-á", mostrou-nos os caminhos para o conhecimento de todas as leis da criação. Bater às portas espirituais é buscar com interesse de aprender, é aplicar o esforço próprio todos os dias, é orar e vigiar. As intenções muito valem no aprendizado de cada criatura de Deus.

Podemos voltar ao assunto anterior, no que se refere a fazer a vontade de Deus e a Sua justiça, que o mais virá por acréscimo de misericórdia. Se queres compreender a vontade de Deus, analisa pacientemente seus feitos extraordinários, medita na criação, na vida que circula no universo, na inteligência que modela todas as formas e na expressão de vida que existe em tudo. Basta conhecer-se a si mesmo, para não negar a Força Soberana que nos dirige e protege.

Quando Jesus se referiu à natureza, focalizando as flores, como no caso dos lírios dos campos, disse Ele com o esplendor de Sua inteligência:

Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. (Mateus, 6:29)

A inteligência humana perde para a lei da natureza e, neste caso, no processamento das roupas naturais das flores, vemos que nem o rei, que se vestia com apuro, com linho e ouro dos mais requintados, onde mãos hábeis trabalhavam com perfeição, se vestia como uma simples flor, trabalhada pela natureza, no silêncio da sua expressão. As flores são como beijos das árvores, em gratidão ao Seu criador.

A lei natural se divide ao infinito e nos mostra toda a vida envolvida no amor, que é a fonte de toda beleza. Jesus nos pede para que vigiemos e oremos, no sentido de que, nesse clima, nos encontraremos frente a frente com as leis naturais que nos protegem, como sendo as próprias mãos de Deus estendidas para as criaturas.

A humanidade tem de se voltar para a natureza: ela é mãe bondosa e santa, que sabe preparar o alimento em todas as faixas da vida, para as vidas dos Espíritos, em todas as escalas a que pertencem.

A harmonia na mente é lei natural, de onde vertem todas as qualidades.

A desarmonia altera todas as qualidades nobres das criaturas, logo, é antinatural. 

As palavras bem postas nos lábios, pronunciadas na ordem do amor, nos trazem um bem-estar indizível.

O verbo desorientado perturba o ambiente em que vivemos, e estraga muitas possibilidades de quem deseja viver bem.

O amor, na sua estrutura espiritual, ensinado por Jesus, é fonte de felicidade.

O ódio, inversão do amor, desespera quem o provoca, dando a entender que, por onde ele passa, somente deixa morte.

Se procurarmos as leis naturais que moralizam, passaremos a viver bem em todas as sequências de vida; se as esquecermos, seremos infelizes, conforme afirma o benfeitor espiritual: só é infeliz quando dela se afasta.


Miramez



Filosofia Espírita - Volume XIII - João Nunes Maia
Cap. 2 - Lei Natural




Léon Denis - Livro O Problema do Ser do Destino e da Dor - Cap. 22 - O livre-arbítrio




Léon Denis - Livro O Problema do Ser do Destino e da Dor - Cap. 22 


O livre-arbítrio


A liberdade é a condição necessária da atina humana que, sem ela, não poderia construir seu destino. É em vão que os filósofos e os teólogos têm argumentado longamente a respeito desta questão. À porfia têm-na obscurecido com suas teorias e sofismas, votando a Humanidade à servidão em vez de a guiar para a luz libertadora. A noção é simples e clara. Os druidas haviam-na formulado desde os primeiros tempos de nossa História. Está expressa nas "Tríades" por estes termos: Há três unidades primitivas - Deus, a luz e a liberdade.

À primeira vista, a liberdade do homem parece muito limitada no círculo de fatalidades que o encerra: necessidades físicas, condições sociais, interesses ou instintos. Mas, considerando a questão mais de perto, vê-se que esta liberdade é sempre suficiente para permitir que a alma quebre este círculo e escape às forças opressoras.

A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação; é a responsabilidade do homem que faz sua dignidade e moralidade. Sem ela, não seda ele mais do que um autômato, um joguete das forças ambientes: a noção de moralidade é inseparável da de liberdade.

A responsabilidade é estabelecida pelo testemunho da consciência, que nos aprova ou censura segundo a natureza de nossos atos. A sensação do remorso é uma prova mais demonstrativa que todos os argumentos filosóficos. Para todo Espírito, por pequeno que seja o seu grau de evolução, a Lei do dever brilha como um farol, através da névoa das paixões e interesses. Por isso, vemos todos os dias homens nas posições mais humildes e difíceis preferirem aceitar provações duras a se abaixarem a cometer atos indignos.

Se a liberdade humana é restrita, está pelo menos em via de perfeito desenvolvimento, porque o progresso não é outra coisa mais do que a extensão do livre-arbítrio no indivíduo e na coletividade. A luta entre a matéria e o espírito tem precisamente como objetivo libertar este último cada vez mais do jugo das forças cegas. A inteligência e a vontade chegam, pouco a pouco, a predominar sobre o que a nossos olhos representa a fatalidade. O livre-arbítrio é, pois, a expansão da personalidade e da consciência. Para sermos livres é necessário querer sê-lo e fazer esforço para vir a sê-lo, libertando-nos da escravidão da ignorância e das paixões baixas, substituindo o império das sensações e dos instintos pelo da razão.

Isto só se pode obter por uma educação e uma preparação prolongada das faculdades humanas : libertação física pela limitação dos apetites; libertação intelectual pela conquista da verdade; libertação moral pela procura da virtude. É esta a obra dos séculos. Aliás, em todos os graus de sua ascensão, na repartição dos bens e dos males da vida, ao lado da concatenação das coisas, sem prejuízo dos destinos que nosso passado nos inflige, há sempre lugar para a livre vontade do homem. 

Como conciliar nosso livre-arbítrio com a presciência divina? Perante o conhecimento antecipado que Deus tem de todas as coisas, pode-se verdadeiramente afirmar a liberdade humana? Questão complexa e árdua na aparência que fez correr rios de tinta e cuja solução é, contudo, das mais simples. Mas, o homem não gosta das coisas simples; prefere o obscuro, o complicado, e não aceita a verdade senão depois de ter esgotado todas as formas do erro.

Deus, cuja ciência infinita abrange todas as coisas, conhece a natureza de cada homem e as impulsões, as tendências, de acordo com as quais poderá determinar-se. Nós mesmos, conhecendo o caráter de uma pessoa, poderíamos facilmente prever o sentido em que, numa dada circunstância, ela decidirá, quer segundo o interesse, quer segundo o dever. Uma resolução não pode nascer de nada. Está forçosamente ligada a uma série de causas e efeitos anteriores de que deriva e que a explicam. Deus, conhecendo cada alma em suas menores particularidades, pode, pois, rigorosamente, deduzir, com certeza, do conhecimento que tem dessa atina e das condições em que ela é chamada a agir, as determinações que, livremente, ela tomará.

Notemos que não é a previsão de nossos atos que os provoca. Se Deus não pudesse prever nossas resoluções, não deixariam elas, por isso. de seguir seu livre curso.

É assim que a liberdade humana e a previdência divina conciliam-se e combinam, quando se considera o problema à luz da razão.

O círculo dentro do qual se exerce a vontade do homem, é, de mais a mais, excessivamente restrito e não pode, em caso algum, impedir a ação divina, cujos efeitos se desenrolam na imensidade sem limites. O fraco inseto, perdido num canto do jardim, não pode, desarranjando os poucos átomos ao seu alcance; lançar a perturbação na harmonia do conjunto e pôr obstáculos à obra do Divino Jardineiro.

A questão do livre-arbítrio tem uma importância capital e graves conseqüências para toda a ordem social, por sua ação e repercussão na educação, na moralidade, na justiça, na legislação, etc. Determinou duas correntes opostas de opinião - os que negam o livre-arbítrio e os que o admitem com restrição.

Os argumentos dos fatalistas e deterministas resumem-se assim: "O homem está submetido aos impulsos de sua natureza, que o dominam e obrigam a querer, a determinar-se num sentido, de preferência a outro; logo, não é livre." A escola adversa, que admite a livre vontade do homem, em face desse sistema negativo, exalta a teoria das causas indeterminadas. Seu mais ilustre representante, em nossa época, foi Ch. Renouvier.

As vistas desse filósofo foram confirmadas, mais recentemente, pelos belos trabalhos de Wundt, sobre a percepção, de Alfred Fouillée sobre a idéia-força e de Boutroux sobre a contingência da lei natural.

Os elementos que a revelação neo-espiritualista nos traz, sobre a natureza e o futuro do ser, dão à teoria do livre-arbítrio sanção definitiva. Vêm arrancar a consciência moderna à influência deletéria do materialismo e orientar o pensamento para uma concepção do destino, que terá por efeito, como dizia C. du Prel, recomeçar a vida interior da Civilização.

Até agora, tanto sob o ponto de vista teológico como determinista, a questão tinha ficado quase insolúvel. Nem doutro modo podia ser, pois que cada um daqueles sistemas partia do dado inexato de que o ser humano tem de percorrer uma única existência. A questão muda, Porém, inteiramente de aspecto se se alargar o círculo da vida e se se considerar o problema à luz que projeta a doutrina dos renascimentos. Assim, cada ser conquista a própria liberdade no decurso da evolução que tem de perfazer.

Suprida, a princípio, pelo instinto, que pouco a pouco desaparece para dar lugar à razão, nossa liberdade é muito escassa nos graus inferiores e em todo o período de nossa educação primária. Toma extensão considerável, desde que o Espírito adquire a compreensão da lei. E sempre, em todos os graus de sua ascensão, na hora das resoluções importantes, será assistido, guiado, aconselhado por Inteligências superiores, por Espíritos maiores e mais esclarecidos do que ele.

O livre-arbítrio, a livre vontade do Espírito exerce-se principalmente na hora das reencarnações. Escolhendo tal família, certo meio social, ele sabe de antemão quais são as provações que o aguardam, mas compreende, igualmente, a necessidade destas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir seus preconceitos e vícios. Estas provações podem ser também conseqüência de um passado nefasto, que é preciso reparar, e ele aceita-as com resignação e confiança, porque sabe que seus grandes irmãos do Espaço não o abandonarão nas horas difíceis.

O futuro aparece-lhe então, não em seus pormenores, mas em seus traços mais salientes, isto é, na medida em que esse futuro é a resultante de atos anteriores. Estes atos representam a parte de fatalidade ou "a predestinação" que certos homens são levados a ver em todas as vidas. São simplesmente, como vimos, efeitos ou reações de causas remotas. Na realidade, nada há de fatal e, qualquer que seja o peso das responsabilidades em que se tenha incorrido, pode-se sempre atenuar, modificar a sorte com obras de dedicação, de bondade, de caridade, por um longo sacrifício ao dever.

O problema do livre-arbítrio tem, dizíamos, grande importância sob o ponto de vista jurídico. Tendo, não obstante, em conta o direito de repressão e preservação social, é muito difícil precisar, em todos os casos que dependem dos tribunais, a extensão das responsabilidades individuais. Não é possível fazê-lo senão estabelecendo o grau de evolução dos criminosos. O neo-espiritualismo fornecer-nos-ia talvez os meios; mas, a justiça humana, pouco versada nestas matérias, continua a ser cega e imperfeita em suas decisões e sentenças.

Muitas vezes o mau, o criminoso não é, na realidade, mais do que um Espírito novo e ignorante em que a razão não teve tempo de amadurecer. "O crime, diz Duelos, é sempre o resultado dum falso juízo." Ê por isso que as penalidades infligidas deveriam ser estabelecidas de modo que obrigassem o condenado a refletir, a instruir-se, a esclarecer-se, a emendar-se. A sociedade deve corrigir com amor e não com ódio, sem o que se torna criminosa.

As almas, como demonstramos, são equivalentes em seu ponto de partida. São diferentes por seus graus infinitos de adiantamento : umas novas ; outras velhas, e, por conseguinte, diversamente desenvolvidas em moralidade e sabedoria, segundo a idade. Seria injusto pedir ao Espírito infantil méritos iguais aos que se podem esperar de um Espírito que viu e aprendeu muito. Daí uma grande diferenciação nas responsabilidades.

O Espírito só está verdadeiramente preparado para a liberdade no dia em que as leis universais, que lhe são externas, se tornem internas e conscientes pelo próprio fato de sua evolução. No dia em que ele se penetrar da lei e fizer dela a norma de suas ações, terá atingido o ponto moral em que o homem se possui, domina e governa a si mesmo.

Daí em diante já não precisará do constrangimento e da autoridade sociais para corrigir-se. E dá-se com a coletividade o que se dá com o indivíduo. Um povo só é verdadeiramente livre, digno da liberdade, se aprendeu a obedecer a essa lei interna, lei moral, eterna e universal, que não emana nem do poder de uma casta, nem da vontade das multidões, mas de um Poder mais alto. Sem a disciplina moral que cada qual deve impor a si mesmo, as liberdades não passam de um logro ; tem-se a aparência, mas não os costumes de um povo livre. A sociedade fica exposta pela violência de suas paixões, e a intensidade de seus apetites, a todas as complicações, a todas as desordens.

Tudo o que se eleva para a luz eleva-se para a liberdade. Esta se expande plena e inteira na vida superior. A alma sofre tanto mais o peso das fatalidades materiais, quanto mais atrasada e inconsciente é, tanto mais livre se torna quanto mais se eleva e aproxima do divino.

No estado de ignorância, é uma felicidade para ela estar submetida a uma direção. Mas, quando sábia e perfeita, goza da sua liberdade na luz divina.

Em tese geral, todo homem chegado ao estado de razão é livre e responsável na medida do seu adiantamento. Passo em claro os casos em que, sob o domínio de uma causa qualquer, física ou moral, doença ou obsessão, o homem perde o uso de suas faculdades. Não se pode desconhecer que o físico exerce, às vezes, grande influência sobre o moral; todavia, na luta travada entre ambos, as almas fortes triunfam sempre. Sócrates dizia que havia sentido germinar em si os instintos mais perversos e que os domara. Havia neste filósofo duas correntes de forças contrárias, uma orientada para o mal, outra para o bem. Era a última que predominava. Há também causas secretas, que muitas vezes atuam sobre nós. Às vezes a intuição vem combater o raciocínio, impulsos partidos da consciência profunda nos determinam num sentido não previsto. Não é a negação do livre-arbítrio; é a ação da alma em sua plenitude, intervindo no curso de seus destinos, ou, então, será a influência de nossos Guias invisíveis, que se exerce e nos impele no sentido do plano divino, a intervenção de uma Inteligência que, vindo de mais longe e mais alto, procura arrancar-nos às contingências inferiores e levar-nos para as cumeadas. Em todos estes casos, porém, é só nossa vontade que rejeita ou aceita e decide em última instância.

Em resumo, em vez de negar ou afirmar o livre-arbítrio, segundo a escola filosófica a que se pertença, seria mais exato dizer: "O homem é o obreiro de sua libertação." O estado completo de liberdade atinge-o no cultivo íntimo e na valorização de suas potências ocultas. Os obstáculos acumulados em seu caminho são meramente meios de o obrigar a sair da indiferença e a utilizar suas forças latentes. Todas as dificuldades materiais podem ser vencidas.

Somos todos solidários e a liberdade de cada um liga-se à liberdade dos outros.

Libertando-se das paixões e da ignorância, cada homem liberta seus semelhantes. Tudo o que contribui para dissipar as trevas da inteligência e fazer recuar o mal, torna a Humanidade mais livre, mais consciente de si mesma, de seus deveres e potências.

Elevemo-nos, pois, à consciência do nosso papel e fim, e seremos livres. Asseguraremos com os nossos esforços, ensinamentos e exemplos a vitória da vontade assim como do bem e, em vez de formarmos seres passivos, curvados ao jugo da matéria, expostos à incerteza e inércia, teremos feito almas verdadeiramente livres, soltas das cadeias da fatalidade e pairando acima do mundo pela superioridade das qualidades conquistadas.

Léon Denis











Neio Lúcio - Livro Colheita do Bem - Mensagens familiares do Prof. Arthur Joviano / Chico Xavier - Cap. 16 - O serviço da comunidade




Neio Lúcio - Livro Colheita do Bem - Mensagens familiares do Prof. Arthur Joviano / Chico Xavier - Cap. 16


O serviço da comunidade


27/07/1949

Meus caros filhos, Deus abençoe a vocês, concedendo-lhes muita paz e bom-ânimo aos corações.

Hoje é o nosso dia alegremente comemorado. O júbilo doméstico esteve, graças a Jesus, completo com a presença dos netos em torno de vocês, acentuando-lhes o contentamento. Creiam que de todas as realizações humanas o lar é sempre a mais sublime pela grandeza das bênçãos que o divino Poder nele entesoura. E sou realmente feliz em lhes observando o equilíbrio na experiência familiar, aliado ao desejo firme e incessante de progresso para o que é efetivamente útil, permanente e divino.

Não posso, em minha condição atual, senão renovar-lhes os meus votos de felicidade, rogando ao Senhor para que a existência na Terra, cada vez mais, constitua para vocês um roseiral sem espinhos, cujo perfume sobe sempre para os cumes da vida eterna, conduzindo à Providência o cântico silencioso do agradecimento e do trabalho a que se devotam.

Rejubilo-me, minha querida Maria, com as suas melhoras de saúde para que a data fosse mais integralmente colorida de paz, sem preocupações de qualquer natureza. Você e o Rômulo possuem hoje grandes e santificados compromissos em obras de caráter coletivo e o voo das aspirações de ambos não deve ser circunscrito. 

A reencarnação é um processo de renovação. E acreditem que, em cada ano de boa luta, desde que a criatura se consagre ao espírito de serviço que nos deve presidir as ações, desperta a alma para deveres sempre mais elevados e mais nobres. 

Um serviço que seria valioso em determinada época passa a ser menos construtivo em outra. O que assinala um lustro de ação é diferente naquele mesmo período de tempo que o segue. Estou, portanto, satisfeito e convicto de que a proteção do Senhor nunca nos falta para que nos devotemos aos cometimentos da hora que atravessamos.

São tantas as obrigações espirituais que hoje prendem vocês a círculos mais dilatados de responsabilidade que não me canso de pedir a cooperação de benfeitores nossos para que lhes não faltem os recursos preciosos da saúde, da harmonia e da paz. Que Jesus lhes conserve, acima de tudo, a disposição de operar servindo a todos, espalhando a sementeira do bem através de todas as direções.

Na expectativa do regresso do Roberto dos estudos, estendo igualmente a ele os meus votos de êxito pela aplicação metódica à obra de preparação do próprio futuro. Não se esqueça o meu neto de que em todas as circunstâncias devemos ser sempre “nós mesmos”, agindo com a feição pessoal ajustada ao bem comum. 

Não admita, em hipótese nenhuma, que as edificações da felicidade se façam à revelia do próprio esforço. Tudo o que um homem possui é aquilo que ele mesmo amontoa ao redor de si. Chegamos hoje à ousada afirmativa de que essa lei alcança a todos, inclusive os mais aparentemente miseráveis. 

Não há governos integralmente maus — há coletividades que provocam direções infelizes. Afirme-se cada um no trabalho que foi chamado a executar, imitando a célula no comboio físico e haverá sempre inteligência harmoniosa na administração para enfileirar os problemas e solucioná-los em momento oportuno para a satisfação geral.

Quando um moço compreende a realidade nesse prisma, converte-se em valioso apoio da prosperidade comum. Infelizmente, para muitos, tal concepção é absorvida muito tarde para o “dia de serviço terrestre”, que é uma existência em si e, por essa razão, as dificuldades criadas ao progresso são cada vez mais complexas.

Creia, meu caro Roberto, em você mesmo, diante de Deus, que nos confiou os dons do caminho, e use as ferramentas de sua imaginação, de seu trabalho, de sua esperança e de sua vontade. Sem imaginação, nada ou quase nada consegue ver no mundo para improvisar a própria felicidade; sem trabalho, a inércia vence os mais fortes temperamentos; sem esperança, o caminho não se descortina ante a visão, e sem vontade, o coração e a mente dormem, paralíticos. 

Aproveite, como é natural, por bendito estímulo da senda humana, a possibilidade de conquistar mais alta expressão remunerativa aos seus estudos e serviços, porque, em todos os ângulos da realização terrestre, o espírito deve encontrar o incentivo à marcha para diante, contudo, aprenda a superar toda ideia de lucro imediato, quando se trate de servir. E espiritualmente ligue seus pensamentos aos nossos. Venceremos o combate e o porvir, sem dúvida, materializará os seus sonhos com a supervisão dos pais, que são os seus melhores amigos. Vamos para a frente e não tema.

Agradeço a vocês as facilidades para a execução do novo esforço, singelo embora, de Neio Lúcio, cuja família espiritual, com o auxílio divino, prossegue aumentando. Estou satisfeito com a observação que levaram a efeito no introito do trabalho. A revisão carinhosa e respeitosa de vocês me levou a reconhecer um lapso havido. Não quereremos dizer “pedra” e sim “peça”. O serviço na página será reajustado. 

A cooperação é uma chave maravilhosa, principalmente quando é fundida no divino metal do amor. Verdadeiramente reconhecido, renovo-lhes a minha gratidão e o meu júbilo de sempre. O serviço da comunidade, graças a Jesus, é a nossa meta. Sirvamos com fidelidade ao divino Amigo dos homens, que não descansa no ministério ativo do bem operante e infinito.

O nosso receitista é de opinião que Maria continue com as indicações por mais 5 a 6 dias.

Muito boa noite a todos, com o nosso pensamento voltado para o nosso inesquecível amigo General Aurélio. Desejando a vocês muita alegria na luta edificante de sempre, e pedindo a Jesus nos renove as oportunidades de servir com redobrado empenho aos nossos semelhantes, reúne-os num afetuoso abraço o papai que não os esquece,


A. Joviano
(Neio Lúcio)






quinta-feira, 20 de maio de 2021

Hammed - Livro As Dores da Alma - Francisco do Espírito Santo Neto - Pág. 90 - Dependência




Hammed - Livro As Dores da Alma - Francisco do Espírito Santo Neto - Pág. 90


Dependência


As dificuldades de nosso desenvolvimento e crescimento espiritual se devem ao fato de que nem sempre conseguimos encontrar com facilidade nossa própria maneira de viver e evoluir. Cada um de nós está destinado a participar de uma maneira específica e peculiar na obra da criação.

Entretanto, é imprescindível compreendermos nosso valor pessoal como seres originais, ou seja, criados por Deus “sob medida”, percorrendo, particularmente, nosso caminho e assumindo por completo a responsabilidade pelo nosso próprio crescimento espiritual.

Ser nós mesmos é tomar decisões, não para agradar os outros que nos observam, mas porque estamos usando, consciente e responsavelmente, nossa capacidade de ser, sentir, pensar e agir.

Ser nós mesmos é eliminar os traços de dependência que nos atam às outras pessoas. Não nos esquecendo, porém, de respeitar-lhes a liberdade e a individualidade e de defender também a nossa, sem o medo de ficar só e desamparado.

Ser nós mesmos é viver na própria “simplicidade de ser”, “libertos da vaidosa e dissimulada autossatisfação, que consiste em fazer gênero de “diferente” perante os outros, a fim de ostentar uma aparência de “personalidade marcante”.

Ser nós mesmos é acreditar em nosso poder pessoal, elaborando um mapa para nossos objetivos e percorrendo os caminhos necessários para atingi-los. No Novo Testamento, capítulo 7:13, assim escreveu Mateus em seus apontamentos: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva a perdição...”

Pelo fato de a porta ser estreita, deveremos atravessá-la — uns de cada vez — completamente sozinhos, acompanhados apenas pelo mundo de nossos pensamentos e conquistas íntimas.

A “porta é estreita”, porque ainda não entendemos que, mesmo vivendo em comunidade, estaremos vivendo, essencialmente, com nós mesmos, pois para transpor essa porta é preciso aprender a arte de “ser”.

Efetivamente, atingiremos nossa independência quando percebermos a inutilidade dos passatempos, das viagens, do convencionalismo da etiqueta, do consumismo que fazemos somente para conquistar a aprovação dos outros, e não porque decorrem de nossa livre vontade.

Eliminar o domínio, a autoridade ou a influência das idéias, das pessoas, das diversões, dos instintos, do trabalho e dos lugares não significa que precisamos extirpar ou abandonar completamente todas essas coisas, mas somente a dependência. Podemos nos ocupar desses assuntos quando bem quisermos, conforme nossas necessidades e conveniências, sem a escravidão do condicionamento doentio.

Passar por esse “trajeto restrito” é ter a coragem de romper as amarras internas e externas que nos impedem a conquista da liberdade.

Perguntemo-nos: quantos dos nossos atos e atitudes são subprodutos de nossas dependências estruturadas na subordinação da sociedade?

A submissão social tem sua base inicial na busca de aprovação dos outros, colocando os indivíduos na posição de permanentes escravos e pedintes do aplauso hipócrita e do verniz da lisonja.

A travessia desse “longo caminho ermo” nos levará ao Reino dos Céus, estruturado e localizado na essência de nós mesmos. Para tanto, devemos recordar-nos de que as Leis Divinas estão escritas na nossa consciência, cabendo-nos aprender a interpretá-las em nós e por nós mesmos.

Jesus Cristo, constantemente, referia-se a esse Reino Interior como sendo a morada de Deus em nós. Por voltarmos costumeiramente nossos olhos para fora, e não para dentro de nós mesmos, é que nunca conseguimos vislumbrar as riquezas de nosso mundo interior.

Mateus prossegue em seus comentários dizendo: “... apertado é o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem.” Por “vida” devemos entender não apenas a manutenção da vida biológica na Terra, que é passageira e fugaz, mas a plenitude da Vida Superior, iniciada, sobretudo na vivência do mundo interior.

Nossa autonomia, tanto física, emocional, mental como espiritual, está diretamente ligada às nossas conquistas e descobertas íntimas. Nossa tão almejada realização interior está relacionada com o conhecimento de nós mesmos.

“Apertado é o caminho”, porque exige esforços importantes para que possamos eliminar nossos laços de dependência neurótica, os quais nos condicionam a viver sem usufruir nossa liberdade interior, aceitando ser manipulados pelos juízos e opiniões alheias. A liberdade se inicia no pensamento para, posteriormente, materializar-se na exterioridade, quebrando, então, os grilhões da dependência. Os Espíritos Amigos enfocaram o assunto com muita sabedoria, afirmando: “No pensamento goza o homem de ilimitada liberdade, pois que não há como pôr-lhe peias. Pode-se-lhe deter o voo, porém, não aniquilá-lo.” (1)

A maioria das criaturas foi educada ouvindo fábulas e mitos do amor romântico. Os tabus sexuais, as velhas estruturas familiares, as normas tradicionais do matrimônio, consideradas “virtudes femininas”, estabeleceram, na formação educacional das mulheres, todo um comportamento de dependência em relação aos homens. Elas centraram suas vidas em outros indivíduos, preocupadas em receber proteção e cuidados, e destruíram, com o tempo, suas vocações e aptidões mais íntimas.

“São iguais perante Deus o homem e a mulher (...) outorgou Deus a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir.” (2)

Muitos acreditaram que o amor seria somente despertado por uma “varinha de condão” ou por uma “flecha do cupido” que, ao tocá-los, acordasse das profundezas de seu inconsciente um sentimento há muito tempo adormecido. Existem aqueles que, ingênuos, passam uma encarnação inteira esperando que essa “dádiva mágica” desabroche de repente, entre a procura e a espera do ser amado, pagando desesperadamente qualquer preço.

Na atualidade, muitos educadores, psicólogos, antropólogos e psiquiatras afirmam que a forma como usamos nossos sentimentos é uma “resposta aprendida”. A capacidade de amar está presente na alma humana, mas, para que floresça, exige maturação da consciência, Isto e, “aprimoramento dos sentimentos”.

Explicam, ainda, que a criatura aprende a utilizar o amor através de um processo que está diretamente relacionado com o ambiente em que viveu na infância e com o em que vive hoje, somando-se a tudo isso a capacidade íntima de aprendizagem. Portanto, estamos constantemente “aprendendo a amar”.

Paralelamente, sabemos que as diversas vivências reencarnatórias sedimentam na alma humana; certas predisposições singulares no entendimento do amor. Os costumes, as tradições e os hábitos que envolvem o namoro, o casamento, o sexo e a família, completamente diferentes de nação para nação, de continente para continente, estabelecem noções diversificadas sobre a afetividade nos espíritos em sua longa marcha evolutiva.

Existem aqueles que colocaram o amor dentro de uma estrutura romântica, ou seja, fazem prevalecer um sentimentalismo exagerado e uma imaginação irreal, desprezando o significado dos sentimentos autênticos. Eles acreditam que o casamento extingue por completo todas as adversidades e infortúnios existenciais e que as ansiedades do cotidiano acabariam, terminantemente, quando a cerimônia sacramentasse num abraço de ternura os “felizes para toda a eternidade”.

A necessidade recíproca de controle, as promessas de que renunciariam à própria individualidade e teriam os mesmos objetivos para todo o sempre são os primeiros indícios de uma enorme desilusão na vida a dois.

Compromissos de amor são válidos, desde que aprendamos que nossa vida está em constante renovação.

Assim como as pessoas passam por diversas transformações, também o amor que sentem pelos outros se transforma. Quanto mais observarmos os ciclos da vida, mais entenderemos as transformações que ocorrem em nossa intimidade, porque nós também somos vida. Apenas desse modo, ficaremos mais seguros e estáveis em relação ao nosso desenvolvimento e amadurecimento afetivos.

A diferença fundamental entre amor e dependência é observada com clareza nas ações e comportamentos das criaturas. A dependência prende possessivamente, uma pessoa à outra, enquanto o amor de fato incentiva a liberdade, a sinceridade e a naturalidade.

O dependente é caracterizado por demonstrar necessidade constante e por reclamar sistematicamente a atenção do outro.

O indivíduo dependente padece dos recursos psíquicos de alguém para viver. Ele dirá “eu o amo”, mas, em realidade, quer dizer “eu preciso de você”, ou mesmo, “eu não vivo sem você”. O amor real baseia-se no sentimento compartilhado entre duas pessoas maduras, ao passo que o amor dependente implora consideração e carinho, infantilmente.

Os legítimos sentimentos da alma nunca se sujeitam a ordenações e imposições, mas sim a uma completa espontaneidade de atitudes e emoções. Dependência gera dores na alma; já a liberdade para amar é um direito natural de todos os filhos de Deus.


Hammed



(1) Questão 833 – Haverá no homem alguma coisa que escape a todo constrangimento e pela qual goze ele de absoluta liberdade?

“No pensamento goza o homem de ilimitada liberdade, pois que não há como pôr-lhe pejas. Pode-se-lhe deter o voo, porém, não aniquilá-lo.”

(2) Questão 817 – São iguais perante Deus o homem e a mulher e têm os mesmos direitos?

“Não outorgou Deus a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?”




Joanna de Ângelis - Livro O Homem Integral - Divaldo P. Franco - 3ª Parte - A Busca da Realidade - Cap. 13 - Religião e religiosidade




Joanna de Ângelis - Livro O Homem Integral - Divaldo P. Franco - 3ª Parte - A Busca da Realidade - Cap. 13


Religião e religiosidade


No caleidoscópio do comportamento humano há, quase sempre, uma grande preocupação por mais parecer do que ser, dando origem aos homens-espelhos, aqueles que, não tendo identidade própria, refletem os modismos, as imposições, as opiniões alheias. Eles se tornam o que agrada às pessoas com quem convivem, o ambiente que no seu comportamento neurótico se instala. Adota-se uma fórmula religiosa sem que se viva de forma equânime dentro dos cânones da religião. É a experiência da religião sem religiosidade, da aparência social sem o correspondente emocional que trabalha em favor da autorrealização. O conceito de Deus se perde na complexidade das fórmulas vazias do culto externo, e a manifestação da fé íntima desaparece diante das expressões ruidosas, destituídas dos componentes espirituais da meditação, da reflexão, da entrega. Disso resulta uma vida esvaziada de esperança, sem convicção de profundidade, sem madureza espiritual. A religião se destina ao conforto moral e à preservação dos valores espirituais do homem, demitizando a morte e abrindo-lhe as portas aparentemente indevassáveis à percepção humana.

Desvelar os segredos da vida de ultratumba, demonstrar-lhe o prosseguimento das aspirações e valores humanos, ora noutra dimensão dentro da mesma realidade da vida, é a finalidade precípua da religião. Ao invés da proibição castradora e do dogmatismo irracional, agressivo à liberdade de pensamento e de opção, a religião deve favorecer a investigação em torno dos fundamentos existenciais, das origens do ser e do destino humano, ao lado dos equipamentos da ciência, igualmente interessada em aprofundar as sondas das pesquisas sobre o mundo, o homem e a vida.

A fim de que esse objetivo seja alcançado, faz-se indispensável a coragem de romper com a tradição — rebelar-se contra a mãe religião — libertando-se das fórmulas, para encontrar a forma da mais perfeita identificação com a própria consciência geradora de paz. Tornar-se autêntico é uma decisão definidora que precede a resolução de crescer para dar-se. O desafio consiste na coragem da análise de conteúdo da religião, assim como da lógica, da racionalidade das suas teses e propostas. Somente, desta forma, haverá um relacionamento criativo entre o crente e a fé, a religiosidade emocional e a religião.

Essa busca preserva a liberdade íntima do homem perante a vida, facultando-lhe um incessante crescimento, que lhe dará a capacidade para distinguir o em que acredita e por que em tal crê, sustentando as próprias forças na imensa satisfação dos seus descobrimentos e nas possibilidades que lhe surgem de ampliar essas conquistas.

Já não se torna, então, importante a religião, formal e circunspecta, fechada e sombria, mas a religiosidade interior que aproxima o indivíduo de Deus em toda a Sua plenitude: no homem, no animal, no vegetal, em a natureza, nas formas viventes ou não, através de um interrelacionamento integrador que o plenifica e o liberta da ansiedade, da solidão, do medo.

A personalidade conflitante no jogo dos interesses da sociedade cede lugar à individualidade eterna e tranquila, não mais em disputa primária de ambições e sim em realizações nas quais se movimenta. Os outros camuflam a sua realidade e vivem conforme os padrões, às vezes detestados, que lhes são apresentados ou impostos pela sua sociedade. Não se trata da coragem de arrostar consequências pela própria temeridade, mas do valor para enfrentar-se a si mesmo, gerando um relacionamento saudável com as demais pessoas, repetindo com entusiasmo a experiência mal sucedida, sem ataduras de remorso ou lamentação pelo fracasso. É saber retirar do insucesso os resultados positivos, que se podem transformar em alavancas para futuros empreendimentos, nos quais a decisão de insistir e realizar assumem altos níveis éticos, que se tornam desafios no curso do processo evolutivo.

Para que o ânimo robusto possa conduzir às lutas exteriores, faz-se necessária a autoconquista, que torna o indivíduo justo, equilibrado, sem a característica ansiedade neurótica, reveladora do medo do futuro, da solidão, das dificuldades que surgem.

É preciso que o homem se arrisque, se aventure, mesmo que esta decisão o faça ansioso quanto ao seu desempenho, aos resultados. Ninguém pode superar a ansiedade natural, que faz parte da realidade humana, desde que não extrapole os limites, passando a conflito neurótico.

Ao lado disso, considerando-se a origem espiritual do indivíduo e a Força Criadora do Universo, nele permanece o germe de religiosidade aguardando campo fecundo para desabrochar.

Expressa-se, esse conteúdo intelecto-moral, em forma de culto à arte, à ciência, à filosofia, à religião, numa busca de afirmação-integração da sua na Consciência Cósmica. A força primitiva e criadora, nele existente como uma fagulha, possui o potencial de uma estrela que se expandirá com as possibilidades que lhe sejam facultadas. Bem direcionada, sua luz vencerá toda a sombra e se transformará na energia vitalizadora para o crescimento dos seus valores intrínsecos, no desdobramento da sua fatalidade, que são a vitória sobre si mesmo, a relativa perfeição que ainda não tem capacidade de apreender.

A religiosidade é uma conquista que ultrapassa a adoção de uma religião; uma realização interior lúcida, que independe do formalismo, mas que apenas se consegue através da coragem de o homem emergir da rotina e encontrar a própria identidade.


Joanna de Ângelis








Demeure - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VIII, Agosto de 1865 - Dissertações espíritas - A fé




Demeure - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VIII, Agosto de 1865 - Dissertações espíritas


A fé


A fé plana sobre a Terra, buscando uma pousada onde abrigar-se, buscando um coração para esclarecer. Onde irá ela?... Para começar, ela entrará na alma do homem primitivo e impor-se-á; porá um véu momentâneo sobre a razão que começa a desenvolver-se e vacila nas trevas do espírito. Ela conduzi-lo-á através das idades da simplicidade e far-se-á mestra pelas revelações. Mas, não estando ainda o raciocínio bastante amadurecido para discernir o que é justo do que é falso, para julgar o que vem de Deus, ela arrastará o homem para fora do reto caminho, tomando-o pela mão e pondo-lhe uma venda nos olhos. Muitos desvios, tal deve ser a divisa da fé cega que, entretanto, durante muito tempo teve sua utilidade e sua razão de ser.

Esta virtude desaparece quando a alma, pressentindo que pode ver com seus próprios olhos, a afasta e não mais quer marchar senão com a sua razão. Esta a ajuda a desfazer-se das crenças falsas que ela havia adotado sem exame. Nisto ela é boa. Mas o homem, encontrando em seu caminho muitos mistérios e verdades obscuras, quer desvendá-las e se atrapalha. Seu julgamento não pode acompanhá-la; ele quer ir muito depressa e a progressão em tudo deve ser gradual. Assim, não tem mais a fé que repeliu; não tem mais a razão que ele quis ultrapassar. Então ele faz como as borboletas temerárias; queima as asas na luz e se perde nos desvios impossíveis. Daí saiu a má filosofia que, buscando muito, fez tudo esboroar-se e nada substituiu.

Estava aí o momento da transformação. O homem não era mais o crente cego; também ainda não era o crente que racionaliza a crença; era a crise universal tão bem representada pelo estado da crisálida.

À força de procurar na noite, a claridade brilha, e muitas almas transviadas, encontrando com dificuldade a luz obscurecida por tantos desvios inúteis e retomando como guias seus condutores eternos: a fé e a razão, fazem-nos marchar à sua frente, a fim de que seus dois clarões reunidos impeçam-nos de perder-se uma segunda vez. Elas fazem assentar a fé sobre as bases sólidas da razão, ela própria ajudada pela inspiração.

É vossa oportunidade, meus amigos. Segui o caminho. Deus está no fim.


Demeure

Grupo Espírita de Douai, 7 de junho de 1865