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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 6 - Habilidade Essencial



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 6


Habilidade Essencial

 
“ (...) a caridade e a tolerância são o dever primário que a doutrina impõe a seus adeptos.” O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — item 335


O exame meticuloso dos erros alheios, ao longo das vidas sucessivas, conferiu-nos ampla capacidade de analisar as imperfeições do próximo.

Hoje, graças a essa habilidade de avaliar a conduta alheia, somos exímios “juízes e psicanalistas”, dotados de vastas possibilidades de encontrar causas e razões para os desatinos que ocorrem fora da esfera do “eu”.

O que se torna lamentável é não utilizarmos tal recurso para reerguer e auxiliar no aprimoramento do próximo, sendo que, habitualmente, o usamos para destacar o “lado” ruim e amargo de tudo e de todos.

Deter-se nesses ângulos sombrios é atitude comum para a maioria dos homens nas experiências carnais. Espera-se, entretanto, de nós outros, os aprendizes espíritas, maior lucidez nas ações. Nosso desafio enquanto discípulos é saber manter-se afetivamente focado no “lado” bom, nas qualidades, nos instantes bem sucedidos de alguém, conquanto tenhamos vastas possibilidades de perceber-lhes as imperfeições e mazelas.

A essa qualidade chamamos indulgência.

É a habilidade que consignamos como essencial frente aos imperativos da convivência social, quando temos como meta primacial a própria paz e o progresso dos grupos sob nossa tutela, ou nos quais ofereçamos a cooperação.

Sempre encontraremos motivos para a ofensa, a recriminação, a transferência de culpas, para depreciar a movimentação alheia, para rebaixar o outro.

Compreender, estimular, perdoar, reconhecer os valores alheios, dividir responsabilidades, apoiar, orientar, ser afetuoso, tudo isso é bem mais trabalhoso.

Indulgência é habilidade que qualifica o homem com abundante inteligência emocional.

O coração focado no aspecto “sublime da vida” torna a alma generosa e atraente, cuja irradiação é de aceitação e acolhimento.

Jesus, como sempre, é o modelo. Em momento algum do seu ministério de Amor o percebemos em atitude de destaque ao mal; embora astuto e vigilante, sabia sempre onde ele se ocultava e procurava erradicá-lo sem que o evidenciasse.

Com a pecadora, lembra o “quem estiver isento de pecados atire a primeira pedra”.

Com o paralítico de Cafarnaum não pergunta como algemou-se ao leito e perdoa seus pecados.

Com Pedro antecipa sua negação em clima pacífico de alerta, sem menosprezá-lo, em pleno respeito a seus limites no campo da coragem.

Com Judas usa de Amor extremado sabendo o que ocorreria posteriormente, mas permanecendo em silêncio evita revelar o “mal” de que ele próprio seria “vítima”.

Com Maria de Magdala fá-la mensageira da ressurreição, inaugurando o tempo da misericórdia ante o esforço reeducativo, esquecendo o passado ignominioso.

Alertar e repreender são instrumentos corretivos necessários para não ensejar omissão e conivência. Entretanto, para quantos cultivam a habilidade essencial da indulgência, o ato de conclamar o outro à integridade é realizado sempre pelo diálogo franco, fraterno e elevado, sem as típicas “neuroses de melindre” nutridas por receios entre quem fala e quem ouve, fazendo dessas conversas educativas verdadeiros momentos de reconsideração e autoexame para a transformação necessária a ser encetada.

Relações permeadas na indulgência são educativas, ressaltam e fixam valores e estimulam o autoamor, o autoperdão.

Assumamos o compromisso renovador de descobrir em cada passo da existência as justificativas saudáveis do “agir humano”, buscando as razões profundas dos atos alheios, a fim de penetrarmos as furnas de suas lutas espirituais na condição de enfermeiro socorrista, disposto a atender, remediar e prevenir enfermidades com as quais, muita vez, nem mesmo seus portadores conseguem avaliá-las com a lucidez por nós desenvolvida nos séculos de vivência no hábito da formação de juízos éticos sobre o comportamento alheio.

O ser humano está doente na sua autoestima e reforçar-lhe aspectos infelizes de sua ação é onerá-lo com mais sombras e dor.

Nos grupos de nossa ação estejamos atentos a semelhantes lances da escola dos relacionamentos.

O companheiro ofendido pela nossa atuação enérgica é, muita vez, alguém decepcionado com as próprias expectativas que nutria sobre nós. Auxiliemo-lo com cortesia e generosidade, no entanto, se ele recusa a oferta, sigamos adiante sem fazer achaques emocionais de pieguismo e arrependimento.

Se aqueloutro amigo de atividades espirituais apresenta-se sempre vacilante e descuidado com os compromissos assumidos, lembra que, em muitas ocasiões, ele não é mais que um aluno portador de ânimo débil, incapaz de superar velhos limites pessoais para denodar-se como deveria. Aceita-lhe o tributo inconstante e vai-lhe demarcando referências corretivas, para que possa melhor aquilatar sobre as conseqüências de sua volubilidade no andamento das realizações às quais integra.

Nódoas e empeços de variados matizes comparecerão nos serviços do Senhor. Por esse motivo procuremos sempre o “caminho estreito” e, se nessa enfermaria das lides espiritistas esquecermos a nossa condição de doentes, subtrairemos de nós mesmos as chances de recuperação e melhora. Na própria enfermaria humana, quando os doentes percebem a extensão de seus dramas, unem-se solidariamente uns aos outros, cada qual oferecendo o que pode, e solidariedade é o nome da indulgência ativa e promotora de paz e apoio às relações.

Cultivemos, dia após dia, essa habilidade essencial e consagremos vida nova com mais abundância de bênçãos, desonerando o próprio psiquismo das enfermiças fixações negativistas que costumamos encontrar ao nosso redor.

Anotemos alguns prováveis resultados das fixações sombrias despejadas sobre o mundo e as pessoas:

- Açulamento de maus sentimentos.

- Climas inamistosos.

- Inviabilização para as mudanças necessárias.

Misericórdia, tolerância máxima, eis as medicações apropriadas de uns para com outros, assim como lembrou José na seguinte colocação:

“Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita” — O Evangelho Segundo o Espiritismo — capítulo 10 — item 16 — José, Espírito protetor (Bordéus, 1860.) 


Ermance Dufaux  












quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10 - Opiniões e Autoestima



Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10


Opiniões e Autoestima


"Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos vêem mais do que dois e - ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espirito a sua inferioridade." O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - item 329


O medo da rejeição leva muitos corações a alimentarem complexa obsessão em relação à opinião alheia sobre seus feitos, exigindo devotada reeducação dos sentimentos na busca da autoestima que estabelecerá, paulatinamente, a segurança e a autoconfiança. Noutros casos, de forma oposta a esse medo, a indiferença à emissão de conceitos em torno de nossa personalidade é o resultado da invigilância e da vaidade - lenha apropriada para crepitar as labaredas da autossuficiência.

Nem uma nem outra posição auxiliam-nos a aproveitar devidamente as expressões de amparo e os sinais de alerta em nosso favor na escola da convivência, quando se trata dos pareceres que surgem em nossos caminhos e dos quais jamais estaremos livres.

Saber julgar os apontamentos sobre nós conferindo-lhes valor exato é exercício de humildade e bom senso no aprendizado da vida interpessoal.

As pessoas maduras, que se amam verdadeiramente, são autoconfiantes, sem autossuficiência, sabem o valor real da participação alheia e permitem-na somente até o ponto em que são úteis ao progresso pessoal, quando externadas com respeito e lealdade. Para tais pessoas, a maledicência é atestado de incapacidade moral e imaturidade emocional.

Porque não aprendemos ainda o autoamor, costumamos esperar as compensações e favores do amor alheio, permitindo um nível de insegurança e dependência dos outros face ao excessivo valor que depositamos no que eles pensam sobre nós.

O medo de ser rejeitado ou não aceito é um resquício fortemente gravado no psiquismo pelas experiências infantis ou por complexos adquiridos em outras existências. Crenças de desvalor a si próprio, consolidadas na mente da criança e do adolescente, refletem agora na adultidade como sequelas dolorosas e inibidoras, provocando sentimentos de inutilidade e culpa, gerando a autocensura, a autopiedade e uma terrível "síndrome de ser culpado" pelo mundo estar como está, ainda que muitas situações nada tenham a ver com suas movimentações existenciais.

A autoestima é fator determinante das atitudes humanas. Quando ela escasseia, a criatura estará sempre escrava de complexos de inferioridade atormentantes, por mais pródigas que sejam as vantagens de sua vida, cultivando hábitos que visam camuflar seus supostos "males" para que outros não os percebam. No entanto, não logrando sempre ludibriar através dessa "maquiagem", quando se percebe avaliada ou reconhecida em sua realidade, torna-se revoltada, indefesa, deprimida e ofendida. Essa situação tem um limite suportável até o ponto em que as decisões e ações começam a ser comprometidas por estranhas formas de agir, que podem estabelecer episódios neuróticos de gravidade, com estreitos limites com as psicoses. Assinalemos ainda que, nos bastidores de variados casos, surgem as interferências espirituais dilatando o sofrimento desses corações, acentuando-lhes o sentimento de desmerecimento, de rejeição e desânimo, "inspirando" idéias nefandas e escolhas enfermiças.

As opiniões sobre nós são valorosas e merecem ouvidos atentos, quando se tornam críticas construtivas. E uma crítica para ser construtiva requer sinceridade fraterna, "olhos nos olhos", sentimento de solidariedade e, sobretudo, quem critica para ajudar apresenta alternativas de melhoria ou solução; afora isso podem não passar de palavras a esmo, mordacidade sistemática, maledicência ou inveja, ou então o que explica com rara sabedoria o nosso codificador no trecho a seguir:

"Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre em luta com o ciúme e a inveja. Os que se sentem incapazes de chegar à altura em que aquele se encontra esforçam -se para rebaixá-lo, por meio da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam, quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo arruído que promovem. Tal foi e será a História da Humanidade, enquanto os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e alargado seu horizonte moral. Por aí se vê que semelhante preconceito é próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalidades por ponto de aferição de tudo.(1)

Nas relações espíritas convém-nos muita atenção a esse processo delicado do conviver, porque as expectativas que nutrimos, enquanto companheiros de lides, são muito elevadas uns para com os outros, vindo a constituir pesado ônus nos relacionamentos doutrinários. Em nossos ambientes, porque cultivamos o hábito da fraternidade e da indulgência, não devemos fugir do dever de orientar e corrigir os que partilham conosco das bênçãos do aprendizado.

O personalismo - marca moral pertinente à maioria esmagadora dos discípulos espíritas - é uma lente de aumento que procura dilatar nossos valores e uma nuvem que busca ofuscar nossas imperfeições, tornando-se entrave à opinião sincera em razão de insuflar o melindre e a mágoa. Afogados em queixumes e desapontamentos, alguns amigos nessa experiência dizem que não esperavam serem avaliados em seus defeitos no centro espírita, e perguntam: "não basta o lar e os ambientes de profissão nos quais, familiares e colegas, estão sempre ressaltando minhas mazelas?" Todavia, é preciso distinguir o que seja uma correção para denegrir e outra para crescer. Cremos que essa última deva ser a tônica das nossas posturas junto às agremiações espíritas, mas sem deixar de lado a sinceridade e a sensatez.

A recomendação traçada por Allan Kardec em nosso item de estudo citado na introdução desse texto é preciosa diretriz aos médiuns, não sendo de menor importância a todos os que militamos nas fileiras de trabalho espírita. As opiniões alheias são extenso e valoroso recurso de crescimento e não devemos menosprezá-las nunca, ainda mesmo quando constituam excessos, porque assim nos auxiliam a conhecer melhor quem as emitiu, servindo para estipular nossa própria opinião sobre o outro com juízo fraternal, distante da influência nociva da inferioridade que ainda carreamos nos caminhos da evolução.

Lembremos, portanto, que o cultivo do afeto entre nós, trabalhadores da causa de Jesus e Kardec, não dispensa as opiniões lavradas nas fontes da sinceridade e que, tendo por objetivo a melhoria e o esclarecimento, devem ser emitidas de forma a elevar a autoestima, transformando o medo de rejeição em um novo e agradável sentimento de segurança e amizade cristã.

Ainda acerca das opiniões alheias, acostumemo-nos a elas lembrando que o próprio Jesus não as dispensou quando perguntou em exemplar atitude íntima aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?'(2)


Ermance Dufaux




(1) A Gênese - Capítulo 17 - Item 2
(2) Mc 8:27






quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Intima sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley de Oliveira - Introdução: Consciência do Si



Ermance Dufaux - Livro Reforma Intima sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley de Oliveira - Introdução


Consciência do Si


“Em princípio, o homem que se exalça, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter. Entretanto, que direi daquele cujo único valor consiste em parecer o que não é? Admito de boa mente que o homem que pratica bem experimenta uma satisfação íntima em seu coração; mas, desde que tal satisfação se exteriorize, para colher elogios, degenera em amor-próprio.” François-Nicolas-Madeleine. (Paris, 1863) O Evangelho Segundo Espiritismo Capítulo XVII - item 8

Estudioso discípulo do Espiritismo propôs-nos a seguinte Indagação: que revelações novas teriam os amigos espirituais em favor do aperfeiçoamento interior nessa hora de tantas na humanidade?

Em resposta a seu pedido sincero de aprender exaremos os textos aqui discorridos. Não constituem novidades, e sim um enfoque prático para velhas questões morais que absorvem quantos anseiam pela melhoria de si mesmos.

Nossa proposta é apresentar algumas “ideias-chave” com fins de meditação e autoaferição, ou ainda para estudos em grupos que anseiam por buscar respostas sobre as intrigantes questões da vida interior. Se não entendermos realmente a razão de nossas atitudes, não reuniremos condições indispensáveis para o serviço renovador de nós próprios.

A capacidade de administrar o mundo objetivo torna-se cada dia mais precisa e rica de tecnologia para melhor eficácia nos resultados, todavia, a inabilidade na gerência do mundo íntimo é comprovada, a todo instante, pelos atestados de descontrole e insatisfação que o homem tem demonstrado em sua vida pessoal. Homens vencedores edificam pontes maravilhosas que se tornam cartões postais no mundo inteiro, porém, nem sempre dominam a arte de construir um singelo fio de atenção que possa estabelecer uma ponte entre ele e seu próximo, diminuindo a distância que os separa. Cirurgiões habilidosos transplantam órgão sensíveis com precisão e controle nos dedos, no entanto, constantemente desequilibra-se quando pequeno talher escapa das singelas mãos de seu rebento, gerando perturbação e mal-estar na prole.

Se o cerne da proposta educativa do Espiritismo é a melhoria espiritual pela reforma íntima, essa, por sua vez, tem, por objetivo elementar, libertar a consciência dos grilhões do ego para que possa brilhar com exuberância, sem as sombras que teimam em ofuscar-lhe. Travamos, ao iniciar a renovação de nós mesmos, uma batalha entre o ego e consciência do self definitivo e glorioso.

Reforma íntima! Eis o tema predileto dos adeptos do Espiritismo no vastíssimo repositório dos assuntos elevados que nos desafiam o entendimento sob a ótica do espírito imortal. Apesar de sua predileção, constata-se que a assiduidade com a qual é tratada não lhe tem garantido noções demais dilatadas que permitem o esforço consciente na transformação da personalidade humana.

Nessa ótica, exageramos alguns conceitos que merecem ser resgatados no seu melhor entendimento:

• Uma construção gradativa de valores, a solidificação de qualidades eternas.

• Uma proposta de plenitude e não de derrotismo. É fazer mais luz para varrer as sombras. Muitos, porém, acreditam que luz se faz extinguindo as trevas...

• É a formação do homem de bem. Não se trata de deslocar vícios e colocar virtudes. É dada muita importância às imperfeições nos ambientes da Doutrina, quando deveríamos falar mais das virtudes do homem de bem.

• Processo libertador da consciência. Não se trata de vencer o ego, mas conquistá-lo através do domínio natural da “voz” divina que ecoa em nossa intimidade.

Reforma íntima não deve ser entendida apenas como contenção de impulsos inferiores. Muito além disso, torna-se urgente analisá-la como o compromisso de trabalhar pelo desenvolvimento dos lídimos valores humanos na intimidade. Circunscrevê-la a regimes de disciplina pela vigência e pela vontade poderá instituir a cultura do martírio e da tormenta como quesitos indispensáveis ao seu dinamismo.
 
Contenção é aglutinação de forças de defesa contra a rotina mental dos reflexos do mal em nós, todavia, somente a edificação da personalidade cristã, pródigas de qualidades morais nobres, permitirá a paz interior e o serviço de libertação definitiva para além-muros da morte corporal. Por essa razão entre os seguidores da mensagem espírita, urge difundir noções mais lúcidas sobre o nível de comprometimento a que devem se afeiçoar todos os seus aprendizes. Apenas evitar o mal não basta, imperioso fazer todo o bem ao nosso alcance. A reforma de profundidade exige devoção integral aos deveres da espiritualização, onde quer que estejamos, criando condições para vivências íntimas que assegurem comoções afetivas revitalizadoras e modificadoras a rumos mais vastos na ação e na reação: é a criação de condicionamentos novos e elevados.
 
Assim como o corpo não extirpa partes adoecidas, mas procura harmonizá-las ao todo, a alma procede seu crescimento dentro princípio de “reaproveitamento” de todas as experiências infelizes.
 
Quem busca o aprimoramento de si mesmo tem como primeiro desafio o encontro consigo. A ausência de ideias claras sobre nós próprios constitui pesados ônus a ser superado, o qual tem levado corações sinceros e bem intencionados a dolorosos conflitos mentais com a melhora individual, instaurando um doloroso processo de martírio a si mesmo.
 
Não existe reforma íntima sem dores, razão pela qual será oportuno discernir quais são as dores do crescimento e quais são as dores que decorrem de nossa incapacidade de lidar com as forças ignoradas da vida subjetiva em nós mesmos. A distinção entre ambas tornará nosso programa de melhoria pessoal um tanto mais eficaz e menos doloroso.
 
Fala-se muito do homem velho e quase nada sobre como consolidar o homem novo. Dominados pelo mau hábito de destacar suas doenças espirituais, criou-se um sistema neurótico de supervalorização das imperfeições morais que tem conduzido muitos espíritas à condição de autênticos “hipocondríacos da alma”.
 
Conter o mal é parte do processo transformador, construir o bem é a etapa nova que nos aguarda.
 
Bem além de controle, educação.
 
Acima de disciplina com inclinações, desenvolvimentos de qualidades inatas.
 
Maturidade pode ser definida pela capacidade individual de ouvir a consciência em detrimento dos apelos do ego. Quanto mais fizermos isso, mais seremos maduros e libertos. A saúde é estar em contato pleno com a consciência e a doença é a escravidão ao ego. Reformar-se é tomar consciência do “si mesmo”, da “perfeição latente” a qual nos destinamos. Em outras palavras, estamos enaltecendo o ato da autoeducação.
 
Foi o notável Jung que afirmou: “até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão do mero ser”.
 
Imperioso que acendamos essa luz, a luz que promana da autocrítica, sem a qual não nos educaremos.
 
E como exercer um juízo crítico honesto sem conhecimento das artimanhas da velha personalidade que geramos?
 
Senso crítico é, portanto, um dos pilares essenciais para a formação da autoconsciência, o qual nos permitirá desvendar as trilhas em direção aos tesouros divinos incrustados em pleno coração dessa selva de imperfeições, que trazemos dos evos.

Apresentamos nessa obra alguns “mapas” para devassarmos essa selva com segurança. Rotas para velhos temas morais já conhecidos de todos nós, os espíritas, mas que nem sempre conseguimos trazê-los para a intimidade no atendimento satisfatório do anseio exuberante que espraia de nossas almas na construção da personalidade nova.

Decerto, como todo mapa, os caminhos para se atingir o destino são variados e pessoais, conforme a ótica e a escolha de cada qual, e por esse motivo entregamos todas as nossas abordagens com total despretensão quanto a resultados. Todavia, como a peregrinação pelos “vales sombrios” da nossa intimidade é repleta de imprevistos e “ciladas”, não abdicamos da palavra clara e sincera, acrescendo alguns exemplos de histórias dolorosas de quantos foram iluminados pela luz da Doutrina Espírita, sem iluminarem a si próprios com a luz da experiência e da renovação.

Jamais moveu-nos a intenção de que nossas considerações, aqui exaradas, pudessem constituir um roteiro de orientação ou uma tese didática sobre o tema com o objetivo de traçar normas de conduta. Para nós não ultrapassam a condição de sugestões para um diálogo em grupo ou meditações individuais. Nossos textos são um “início de conversa”, um “ponto de partida” para que vós outros na Terra empreendem a discussão livre e salutar sobre os caminhos da transformação humana, à luz do Espírito Imortal. Nosso coração estará sempre onde existirem os colóquios francos e produtivos acerca desse tema.

Sem pessimismo algum, mensurar a condição pessoal, sem conhecimento pleno das histórias contidas em nossas “fichas reencarnatórias”, é, quase sempre, proceder a uma análise míope das condições espirituais autênticas que cercam nosso trajeto nos milênios. Por isso, palpitam muitas ilusões no terreno da nossa luta reeducativa, na carne ou fora dela. “Em princípio, o homem que se exalta, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter”.

Nossas reflexões destinam-se a uma autoavaliação. Sem uma incursão sincera no mundo de nós próprios, a fim de aquilatar o que somos e não somos, corremos o severo risco de repetir as múltiplas histórias que temos acompanhado por aqui, na vida imortal, na qual o coração bafejado pelas concepções doutrinárias acalentam uma miragem de si para além de suas reais proporções, tendo que se olhar, sem refúgios, no “espelho da imortalidade” amargando doloroso processo de desilusão.

Buscamos nossas inspirações em O Evangelho Segundo Espiritismo – repositório ético para a felicidade humana e incomparável manancial de inspiração superior – no qual encontramos inesgotável fonte de instrução e consolo dos Bondosos Guias da Verdade, em favor dos roteiros dos homens ante suas provas e expiações. Consideremo-lo como sendo um receituário moral para todas as necessidades humanas na Terra.

Entregamos nossos apontamentos com alegria aos leitores e amigos, esperançosa de que a celeste misericórdia multiplique nossas migalhas de amor, saciando a fome da alma com bênçãos de paz e estímulo na aquisição da consciência de si.

Atenciosamente,


Ermance Dufaux 
Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2003. 




VÍDEO: 

Reforma Íntima
Alexandre Caldini





domingo, 27 de novembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Amorosidade: A cura da ferida do abandono - Wanderley de Oliveira - Introdução - A ferida evolutiva do abandono: o desamor a si mesmo



Ermance Dufaux - Livro Amorosidade: A cura da ferida do abandono - Wanderley de Oliveira - Introdução


A ferida evolutiva do abandono: o desamor a si mesmo


Postos de lado os defeitos e os vícios acerca dos quais ninguém se pode equivocar, qual o sinal mais característico da imperfeição?

- "O interesse pessoal (...)" Livro Dos Espíritos – Questão 895

A Terra é uma escola que reúne alunos com notas e lições similares em estágios dolorosos de provas e expiações.

As chagas evolutivas da alma são registros que o próprio espírito carrega como roteiro doloroso que impôs a si mesmo em função de suas escolhas. Todo mal provocado ao próximo tem como efeito, dentro do próprio coração, uma lesão de infelizes proporções.

Ao longo dos milênios, a rota do espírito está repleta de feridas nascidas da profunda teimosia em escolher e prestigiar as artimanhas do ego. Como destaca O livro dos espíritos: o interesse pessoal é a maior imperfeição humana.

O resultado desse trajeto ilusório ficou profundamente gravado na vida mental, criando monstros morais em forma de hábitos enraizados, determinando verdadeira prisão vibratória construída pela frequência e teor das experiências vividas.

Adquiridos a preço da dor alheia, as aventuras e desvios, os prazeres e vantagens são atalhos de fuga que dilaceram as fibras da sensibilidade e organizam prisões interiores em forma de dores emocionais. Uma das mais conhecidas na atualidade é a dor do abandono, a sensação de desamparo.

Essa lesão na alma responde por larga soma de aflições em todos os continentes do mundo. Um apelo sofrido brota no silêncio dos corações rogando proteção e amor. Não há quem não esteja carente de ser protegido e acolhido, amado e incentivado nas lutas de cada dia. Uma torturante sensação de abandono, inconsciente, na maioria das vezes, toma conta do coração humano.

São quatro as principais dores da alma provocadas pelo autoabandono: a carência, o medo, a solidão e a rejeição. Verdadeiras cadeias emocionais resultantes do egoísmo frenético e milenar.

A carência é a falta de si mesmo. A saudade de ser quem foi criado para ser. É a origem da mágoa com a vida.

O medo surge em função da falta de autoconhecimento.

A angústia que brota da necessidade de se descobrir. É a origem da ansiedade.

A solidão é a desconexão com sua natureza interior. A compulsiva projeção para fora de si. É a origem da tristeza.

A rejeição é a inaceitação da pessoa ser o que ela se tornou. A distância emocional do amor-próprio. É a origem da desconfiança tóxica.

Mágoa, ansiedade, tristeza e desconfiança. Quem não padece dessas dores emocionais na escola terrena? São dores do autoabandono. São efeitos do longo tempo sem olhar para as necessidades pessoais, sem coragem de assumir sua fragilidade, seus limites e sua necessidade de amparo. 

Não ter a si próprio é o maior dos padecimentos expiatórios que pode existir. Daí surge a dor do abandono e a dolorosa expiação da ausência de sentido para viver. É, na maioria das vezes, um sofrimento não reconhecido, camuflado de vários outros dramas interiores. Na essência, é a alma suplicando amparo, carinho, consideração, acolhimento, apoio e bondade. Um apelo silencioso por amor.

Essa é a frequência criada pelo egoísmo, a estrutura interior que gera a aura da falta do autoamor. Somente na frequência do amor a criatura conseguirá a tão almejada recuperação do autoabandono.

Se foi por meio do descaso e da indiferença ao próximo que o espírito lesou a própria consciência, será também por meio da geração de relacionamentos sadios e valorosos que ele encontrará o caminho da cura.

Encontrando-se com seu próximo, descobrirá Deus. Portanto, a chave da libertação está na construção de convivências ricas de amorosidade e sabedoria. Na frequência do amor a si, ao próximo e às Leis Naturais, o espírito recupera seu poder, sua estima é desenvolvida e sua paz íntima é reestabelecida.

A energia da amorosidade preenche o coração, alinha propósitos, confere uma sensação de que forças maiores e sublimes guiam nossos passos, fortalecendo a sensação de que tudo vale a pena e tem um sentido.

Ainda que exista interesse pessoal na convivência, a frequência elevada do amor transcende a natureza das intenções e dos desejos. A busca da alma nesse estágio transforma-se em sublime e redentora escola de colaboração espontânea, empatia, lealdade e diversos outros comportamentos morais dignificadores.

Do egoísmo, a criatura avança gradativamente para o estágio de autoamor, um cuidado que não exclui o próximo e deixa claro que o cuidado consigo não pode custar o preço da infelicidade alheia. O interesse pessoal transforma-se em cuidado pessoal amoroso e rico de ternura.
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Essa frequência do amor produz frutos vigorosos, uma profunda e nítida emoção de ser amado e acolhido pelas Leis que regem o universo e uma expressão luminosa de paz na alma.

Na frequência do amor, o ser espiritual cura seu autoabandono e reveste-se da aura da amorosidade e da libertação de seu ser. Nessa frequência, o homem absorve Deus.


Ermance Dufaux
Belo Horizonte, fevereiro de 2018






895. Postos de lado os defeitos e os vícios acerca dos quais ninguém se pode equivocar, qual o sinal mais característico da imperfeição?

“O interesse pessoal. Frequentemente, as qualidades morais são como, num objeto de cobre, a douradura que não resiste à pedra de toque. Pode um homem possuir qualidades reais, que levem o mundo a considerá-lo homem de bem. Mas, essas qualidades, conquanto assinalem um progresso, nem sempre suportam certas provas e às vezes basta que se fira a corda do interesse pessoal para que o fundo fique a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa ainda tão rara na Terra que, quando se patenteia todos o admiram como se fora um fenômeno. O apego às coisas materiais constitui sinal notório de inferioridade, porque, quanto mais se aferrar aos bens deste mundo, tanto menos compreende o homem o seu destino. Pelo desinteresse, ao contrário, demonstra que encara de um ponto mais elevado o futuro.” (O Livro dos Espíritos)



segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 4 - Kardec e a Educação Integral



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 4


Kardec e a Educação Integral


Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.” (O Livro dos Espíritos - Questão 642)


Conhecida parábola da cultura oriental fala de uma senhora que resolveu abrigar um sábio guru no quintal de sua residência. Deu-lhe comida, abrigo e tranquilidade para que o homem de meditações pudesse cumprir sua missão.

Certa feita, desconfiada sobre a integridade do guru, resolveu aplicar-lhe uma prova.

Contratou a preço de cinco moedas de ouro uma belíssima vendedora de ilusões e bailarina para aferir a resistência do homem santo.

Na noite aprazada lá estava ela na cabana, tentando incendiar os apetites inferiores do guru com a sensualidade e a beleza. Bailou, despiu-se, provocou, mas o homem era de “gelo”, mantinha-se impassível, quieto, em estado de plenitude. Então, depois de longo tempo ela desistiu e retornou até a senhora dizendo:

- Tentei de tudo e nada, ele é um homem santo.

Intrigada, a hospedeira do guru indaga:

- Mas ele não lhe disse nada, não fez nada, uma só palavra?

- Não, senhora!

- Então toma tuas moedas, você fez sua parte.

Inusitadamente, a seguir ela tomou de uma larga vassoura e seguiu aos gritos em direção à cabana, assustando a vizinhança que conhecia o carinho com o qual tratava o meditador. Em lá chegando, espancou o homem, destruiu a cabana e em alta voz disse para que todos ouvissem:

- Testei esse homem com a luxúria, ele resistiu por três noites ao apelo de atraente e sedutora jovem, permaneceu em estado de orações, e quanto a isso eu o aplaudo. Porém, suas práticas são de nenhuma utilidade para o mundo, porque ele nada disse àquela jovem que pudesse servir de orientação e força na restauração de um caminho novo. Se é um homem de Deus, deveria agir pelo bem e não somente evitar o mal.

Evitar o mal necessariamente não edifica valores, enquanto fazer o bem significa acionar os recursos divinos latentes através do dinamismo da caridade.

Evitar o mal é contenção e disciplina, sendas formadoras de caráter, entretanto as realizações no bem sulcam a profundidade do sistema afetivo, fixando e dinamizando forças morais nobres.

Educação resume-se em transformar impulsos e desenvolver potencialidades. O ato de apenas conter sem renovar, pode levar aos mais sofridos caminhos da radicalização, do fanatismo e de variadas expressões neuróticas em direção a mais intensas desarmonias da psique.

O ato educativo é um ato de Amor nas relações que destinem ao crescimento para “ser”.

O processo de evitar o mal é adquirido com o domínio ocasionado pela disciplina dos sentidos e dos impulsos, enquanto a dinamização do bem exige da razão e do sentimento o desenvolvimento de condições interiores que edifiquem valores, treinem habilidades e façam surgir com maior plenitude as tendências inatas do bem que se encontram latentes e, quase sempre, “estáticas” na alma. Dessa forma, quando os Espíritos dizem: “Fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação (1), é porque quase tudo conspira contrariamente para aquele que deseja melhorar, as reações são-lhe fortes reflexos do mundo interior desconhecido de si mesmo.

Diríamos que educar é encontrar respostas para os enigmas do existir, razão pela qual somente amando o outro e a nós mesmos conseguimos encontrar tais tesouros da vida.

Chamamos de integral o ato educativo com Amor, seja na prática pedagógica ou na vida de relação social.

A ausência de valores ético-morais dignificadores em nossas vidas sucessivas permitiram as perdas, as paixões, as crises, os traumas, os bloqueios e as traições, ferindo as fibras sensíveis da estrutura afetiva do perispírito, tendo como reflexos a culpa, o medo, a ansiedade, a frustração, a tristeza, o conflito, a insegurança e a indiferença quais fossem “nódulos e abcessos emocionais” que se apresentam em múltipla conotação psicopatológica, conforme o caráter de seus portadores, determinando o temperamento e a conduta. Agravados pela educação infantil da existência presente, tais “nódulos e abcessos” são inflamados e começam a purgar incontinentemente.

Diagnosticando esse dinamismo patológico, passa-se então à etapa do desenvolvimento das habilidades emocionais, capazes de promover novos e mais saudáveis sentimentos que libertem o ser dessa precariedade do afeto, quais sejam a coragem, a segurança, o autoamor, a serenidade, a alegria e a paz. A conquista dessas habilidades surge na busca pela autoeducação, regida pelas diretrizes evangélico-­doutrinárias como excelente terapia curativa dessas “pústulas do sentimento”. 

A educação do afeto inicia-se pelo estudo perseverante de si no conhecimento dessas manifestações sombrias do coração, suas raízes, suas armadilhas, suas máscaras. Posteriormente enseja uma nova forma de viver e “ser” pelo treino da empatia, da alteridade, da assertividade, da autenticidade.

O objetivo maior da vinda do homem à Terra é a sua melhora espiritual. Tal mister só será plenificado na medida em que aprender a amar, porque o Amor é o decreto sublime do universo para o crescimento e a felicidade de todos os seres.

Verificamos o centro espírita e sua importância como educandário do Amor face à didática estimuladora de conhecimentos e da vivência através da ampliação do saber e de transformação do caráter. As organizações humanas, com poucas exceções, fazem uma leitura adulterada das manifestações afetivas, tornando-as desprezíveis e com conotações de interesses inferiores e falsidade. Outras vezes, algumas pessoas mais afetuosas, quando possuem uma visão egocêntrica, recuam e tolhem a espontaneidade do carinho face aos desapontamentos das relações ingratas e decepcionantes. Assim, formam-se estigmas sociais acalentados pela maioria, sufocando as expressões de sensibilidade humana nas torres frias da indiferença e do desamor, para os quais a grande maioria dos homens foram “educados” no aprendizado de esconder o que se passa nos recônditos escaninhos do afeto.

Quanto nos valerá a reencarnação tendo os raciocínios iluminados pelos princípios estruturais da doutrina sem, contudo, jorrar essa luminosidade sobre o coração?

A fraternidade, expressando a síntese das virtudes cristãs, é a meta ética de todo o corpo filosófico e científico do Espiritismo. Eis, portanto, que tarefa grave aguarda nossas vanguardas doutrinárias no cenário conturbado da sociedade materialista dos dias atuais, junto às almas que ingressam para suas fileiras em ambos os planos existenciais.


Ermance Dufaux




(1) O Livro dos Espíritos, questão 770 A.











sexta-feira, 11 de junho de 2021

Maria Modesto Cravo - Livro O Lado Oculto da Transição Planetária - Wanderley de Oliveira - Cap. 8 - Parceria nos serviços mediúnicos




Maria Modesto Cravo - Livro O Lado Oculto da Transição Planetária - Wanderley de Oliveira - Cap. 8


Parceria nos serviços mediúnicos


Nos séculos 19 e 20, os fenômenos tinham propósitos de convencer, gerar pesquisa, incentivar a cultura do sobrenatural com explicações racionais e lógicas e radiografar o mundo espiritual. 

Agora que o período de regeneração começa a despontar, os médiuns percebem mais profundamente a si mesmos e não somente as entidades espirituais. Na regeneração teremos mais médiuns da Luz do que do sombrio; mais buscadores da verdade que liberta do que intérpretes das causas que se aprisionam na dor; serão mais terapeutas que sensitivos; mais educadores que adivinhos.

Na regeneração a mediunidade será mais focada no entendimento da vida emocional e mental do médium do que do entendimento dos mecanismos do fenômeno em si. Quando procura entender detalhes do fenômeno, o homem sente necessidade de padrões. Quando procurar entender o médium e sua complexidade, o homem vai concluir que as expressões da mediunidade são tão diversas quantos são os seus canais mediúnicos de manifestação. 

Essa compulsiva necessidade pelo saber na comunidade espírita traduz uma ânsia do ego de se sobressair. Enquanto a competência pelo sentir pode nos levar à realidade, essa soberba intelectual continua nutrindo a ilusão.

Os médiuns da regeneração guardam alguns traços em comum: são cultores de um idealismo superior com impacto na sociedade carnal;  pensam de forma sistêmica, coligam mundo espiritual e mundo físico. 

Infelizmente ainda vemos hoje um resíduo cultural da história da comunidade espírita nessa separação cartesiana entre o que ocorre na reunião mediúnica e na realidade da vida como um todo. 

São contrários a toda forma de autoritarismo, uniformização e dogmatismo; louvam as comunidades e os grupos onde eles possam florescer como parte integrante e não como ícones; não vivem sem a sensação de pertencimento; possuem noções justas de trabalho e de qualidade de vida; desaprovam o sacrifício incoerente diante de suas necessidades e nem por isso são menos comprometidos.

Elegem a afetividade como forma prioritária de comunicação humana, por meio do diálogo interativo; seu foco é o desenvolvimento humano. Algo extremamente valoroso, se considerarmos que nas comunidades espiritualistas o incentivo ao desenvolvimento mediúnico já causou muitos efeitos indesejáveis e produziu médiuns sem comprometimento, que apenas assumiram a tarefa para se livrar dos tormentos da dor pessoal, acreditando que desenvolver mediunidade resolveria suas lutas individuais.

Amam o renascimento de conceitos, a espiritualidade e repudiam formato religiosos, a intolerância, a violência e o preconceito.
   
Os médiuns da regeneração, por fim, amam a originalidade, a autenticidade e não encontram motivação em seguir padrões perante os quais não possam examinar, mudar ou questionar. 

A regeneração não vai surgir pela forma de pensar o mundo; vai surgir quando os homens renovarem a forma de sentir o mundo. 

O Espiritismo é uma luz para o pensamento, descerrando as clareira da vida imperecível. Mas somente o amor sentido e aplicado vai trazer ao mundo os caminhos da Paz e da Sabedoria, com os quais a humanidade encontrará chances de avançar rumo a dias melhores.


Maria Modesto Cravo








sábado, 10 de abril de 2021

Ermance Dufaux - Livro Para Sentir Deus - Wanderley de Oliveira - Cap. 16 - Persevera um pouco mais




Ermance Dufaux - Livro Para Sentir Deus - Wanderley de Oliveira - Cap. 16


Persevera um pouco mais


E a que caiu em boa terra, esses são os que, ouvindo a palavra, a conservam num coração honesto e bom, e dão fruto com perseverança – Lucas, 8:15 


As provas se agravam, o cansaço se dilata, as soluções não surgem, os amigos debandam, as tarefas estacionam, o tempo escasseia diante do volume de deveres...

São lutas da rotina, testes aferidores que vão exigir mais empenho, mais perseverança. Quando se ampliam em intensidade, podem ser prenúncio de que o aprendizado está perto de se concluir.

Sendo assim, persevera um pouco mais e entrega-te ao escudo do trabalho e às energias revitalizadoras da prece.

Persevera um pouco mais diante da pressão dos exames da vida. É possível que logo mais, alguns poucos passos à frente, esteja a fonte de água límpida para suprir tua sede de sossego e descanso, paz e harmonia.

Não existe prova sem solução, nem dor sem saída.

Sua conexão com Deus e a perseverança serão sempre os mais valiosos passos na direção da liberdade e do bom proveito.


Ermance Dufaux







segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10 - Opiniões e Autoestima




Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10


Opiniões e Autoestima


"Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos vêem mais do que dois e - ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espirito a sua inferioridade." O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - item 329


O medo da rejeição leva muitos corações a alimentarem complexa obsessão em relação à opinião alheia sobre seus feitos, exigindo devotada reeducação dos sentimentos na busca da autoestima que estabelecerá, paulatinamente, a segurança e a autoconfiança. Noutros casos, de forma oposta a esse medo, a indiferença à emissão de conceitos em torno de nossa personalidade é o resultado da invigilância e da vaidade - lenha apropriada para crepitar as labaredas da autossuficiência.

Nem uma nem outra posição auxiliam-nos a aproveitar devidamente as expressões de amparo e os sinais de alerta em nosso favor na escola da convivência, quando se trata dos pareceres que surgem em nossos caminhos e dos quais jamais estaremos livres.

Saber julgar os apontamentos sobre nós conferindo-lhes valor exato é exercício de humildade e bom senso no aprendizado da vida interpessoal.

As pessoas maduras, que se amam verdadeiramente, são autoconfiantes, sem autossuficiência, sabem o valor real da participação alheia e permitem-na somente até o ponto em que são úteis ao progresso pessoal, quando externadas com respeito e lealdade. Para tais pessoas, a maledicência é atestado de incapacidade moral e imaturidade emocional.

Porque não aprendemos ainda o autoamor, costumamos esperar as compensações e favores do amor alheio, permitindo um nível de insegurança e dependência dos outros face ao excessivo valor que depositamos no que eles pensam sobre nós.

O medo de ser rejeitado ou não aceito é um resquício fortemente gravado no psiquismo pelas experiências infantis ou por complexos adquiridos em outras existências. Crenças de desvalor a si próprio, consolidadas na mente da criança e do adolescente, refletem agora na adultidade como sequelas dolorosas e inibidoras, provocando sentimentos de inutilidade e culpa, gerando a autocensura, a autopiedade e uma terrível "síndrome de ser culpado" pelo mundo estar como está, ainda que muitas situações nada tenham a ver com suas movimentações existenciais.

A autoestima é fator determinante das atitudes humanas. Quando ela escasseia, a criatura estará sempre escrava de complexos de inferioridade atormentantes, por mais pródigas que sejam as vantagens de sua vida, cultivando hábitos que visam camuflar seus supostos "males" para que outros não os percebam. No entanto, não logrando sempre ludibriar através dessa "maquiagem", quando se percebe avaliada ou reconhecida em sua realidade, torna-se revoltada, indefesa, deprimida e ofendida. Essa situação tem um limite suportável até o ponto em que as decisões e ações começam a ser comprometidas por estranhas formas de agir, que podem estabelecer episódios neuróticos de gravidade, com estreitos limites com as psicoses. Assinalemos ainda que, nos bastidores de variados casos, surgem as interferências espirituais dilatando o sofrimento desses corações, acentuando-lhes o sentimento de desmerecimento, de rejeição e desânimo, "inspirando" idéias nefandas e escolhas enfermiças.

As opiniões sobre nós são valorosas e merecem ouvidos atentos, quando se tornam críticas construtivas. E uma crítica para ser construtiva requer sinceridade fraterna, "olhos nos olhos", sentimento de solidariedade e, sobretudo, quem critica para ajudar apresenta alternativas de melhoria ou solução; afora isso podem não passar de palavras a esmo, mordacidade sistemática, maledicência ou inveja, ou então o que explica com rara sabedoria o nosso codificador no trecho a seguir:

"Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre em luta com o ciúme e a inveja. Os que se sentem incapazes de chegar à altura em que aquele se encontra esforçam -se para rebaixá-lo, por meio da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam, quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo arruído que promovem. Tal foi e será a História da Humanidade, enquanto os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e alargado seu horizonte moral. Por aí se vê que semelhante preconceito é próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalidades por ponto de aferição de tudo.(1)

Nas relações espíritas convém-nos muita atenção a esse processo delicado do conviver, porque as expectativas que nutrimos, enquanto companheiros de lides, são muito elevadas uns para com os outros, vindo a constituir pesado ônus nos relacionamentos doutrinários. Em nossos ambientes, porque cultivamos o hábito da fraternidade e da indulgência, não devemos fugir do dever de orientar e corrigir os que partilham conosco das bênçãos do aprendizado.

O personalismo - marca moral pertinente à maioria esmagadora dos discípulos espíritas - é uma lente de aumento que procura dilatar nossos valores e uma nuvem que busca ofuscar nossas imperfeições, tornando-se entrave à opinião sincera em razão de insuflar o melindre e a mágoa. Afogados em queixumes e desapontamentos, alguns amigos nessa experiência dizem que não esperavam serem avaliados em seus defeitos no centro espírita, e perguntam: "não basta o lar e os ambientes de profissão nos quais, familiares e colegas, estão sempre ressaltando minhas mazelas?" Todavia, é preciso distinguir o que seja uma correção para denegrir e outra para crescer. Cremos que essa última deva ser a tônica das nossas posturas junto às agremiações espíritas, mas sem deixar de lado a sinceridade e a sensatez.

A recomendação traçada por Allan Kardec em nosso item de estudo citado na introdução desse texto é preciosa diretriz aos médiuns, não sendo de menor importância a todos os que militamos nas fileiras de trabalho espírita. As opiniões alheias são extenso e valoroso recurso de crescimento e não devemos menosprezá-las nunca, ainda mesmo quando constituam excessos, porque assim nos auxiliam a conhecer melhor quem as emitiu, servindo para estipular nossa própria opinião sobre o outro com juízo fraternal, distante da influência nociva da inferioridade que ainda carreamos nos caminhos da evolução.

Lembremos, portanto, que o cultivo do afeto entre nós, trabalhadores da causa de Jesus e Kardec, não dispensa as opiniões lavradas nas fontes da sinceridade e que, tendo por objetivo a melhoria e o esclarecimento, devem ser emitidas de forma a elevar a autoestima, transformando o medo de rejeição em um novo e agradável sentimento de segurança e amizade cristã.

Ainda acerca das opiniões alheias, acostumemo-nos a elas lembrando que o próprio Jesus não as dispensou quando perguntou em exemplar atitude íntima aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?'(2)


Ermance Dufaux




(1) A Gênese - Capítulo 17 - Item 2
(2) Mc 8:27


domingo, 17 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley de Oliveira - Cap. 1 - Diferenças não são defeitos




Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley de Oliveira - Cap. 1


Diferenças não são defeitos


"Sois chamados a estar em contato com Espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes." Um Espirito Protetor, Bordéus, 1863, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 17, item 10.


A unidade Alma de Deus na sua obra - É o sistema regulador da ordem e da evolução, determinando a submissão da criação à Vontade Infalível, Soberana e Justa do Criador.

Unidade, porém, não deve ser confundida com igualdade de condições ou funções, mas de direitos. Ainda assim, os direitos que cada criatura herda do Pai estão submetidos aos Sábios Desígnios da Justiça, que disciplina o progresso evolutivo do ser.

O tronco divino das Leis Naturais cria a ordem e ramifica-se na diversidade por meio do direito humano de escolher seus caminhos. Alguns imperativos, porém, expressam com clareza indiscutível os estatutos a que todos renderão obediência. É assim que todos morrem, se reproduzem, melhoram, pensam, sentem, buscam Deus, retornam ao corpo físico...

Nessa colmeia galáctica, o amor é o fio condutor das diferenças humanas, sob a luz do qual todas as diferenças podem ser superadas, conquanto continuem a existir.

Somente a rebeldia dos homens destoa dos princípios divinos estabelecidos para a perfeição e a elevação. Optando pelos descaminhos do egoísmo, os filhos inconformados escravizaram-se ao reflexo da posse e do poder, pelos quais se instalou em seus campos mentais o doentio regime de competição oculta ou declarada. O propósito básico é a eliminação do outro, seja pela simples indiferença ou mesmo por mecanismos de crueldade. Eliminar as diferenças, quiçá os diferentes.

Domínio e acúmulo passaram a ser perseguidos como metas de felicidade. Diferenças e diferentes que criam obstáculos à consumação dos ideais materialistas são tomados a conta de oponentes, configurando nos milênios uma legítima realidade psíquica embasada em preconceitos e barreiras nos roteiros da vida relacional.

Indiferença significa negar a diferença, não dar importância aos diferentes. O momento, no entanto, chama-nos a ampliar conceitos e a aprofundar a meditação. A melhoria de nossas condições individuais apela para o melhor entrosamento com a diversidade. Buscar a essência de tudo e de todos na formação de uma mais ampla compreensão da vida que nos cerca. Cada criatura, cada acontecimento, cada singularidade, por mais que não desperte interesse ou atração em nossas almas, é um percurso Divino por onde transita o princípio de Soberania da Vontade de Deus.

O problema não são as diferenças, mas as barreiras imaginárias que geramos no campo dos sentimentos em relação ao que acreditamos ser conflituoso ou inconciliável. Fantasias que levam ao desamor - um resquício dos instintos primários.

Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, e não à Sua igualdade.

Como encontrar Deus sem aprendermos a legítima identificação com Sua Obra?

E na obra divina, o próximo é o excelso apelo do Pai concitando-nos a novos rumos em direção ao crescimento e maturidade.

Não existirá Mundo de Regeneração sem convivência pacífica e conhecimento profundo de si mesmo. Avançar no estudo das diferenças, com isenção de conceitos prévios, tentar identificar a mensagem do Pai nas diferenças e, quem sabe, algo aprender com os diferentes, eis o caminho de quem adentra os domínios da sabedoria em busca da alma da vida, na vitória sobre o egoísmo rumo ao porvir regenerativo.

A questão da superação das diferenças está em vencer a si mesmo, e não ao outro. Vencer nossas construções milenares de separatividade erguidas como muros de ignorância e atraso.

Saiamos da condição de querer reduzir o outro ao "mesmo", à igualdade que, em nossos arquivos mentais, não passa de uma caixinha de padrões transitórios e frágeis, aos quais nos apegamos como expressão da verdade pessoal.

A beleza da vida está no ato de todos serem diferentes e terem algo de novo a nos ensinar. Compete-nos nos abrir para esse mundo novo de vivências altruístas e ricas de diversidade.

É o desafio de conviver bem com a particularidade alheia, sem querer, arrogantemente, adaptá-la à nossa visão pessoal.

O mundo, sem dúvida, será um lugar melhor quando prezarmos a diferença alheia como sendo o seu direito inalienável de ser.

E mesmo que não concordemos com a singularidade do outro, cabe-nos, por Dever Universal, proceder no amor com inalterável respeito pelas diferenças, em qualquer tempo e lugar.

Consolidando um exemplo de fraternidade em louvor à lei do bem.

"Sois chamados a estar em contato com Espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes."

Diferenças não são defeitos!


Ermance Dufaux