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sexta-feira, 4 de abril de 2025

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 8 - Arrependimento tardio



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 8


Arrependimento tardio


“Aliás, o esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Volvendo à vida espiritual, readquire o Espírito a lembrança do passado;” (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 5 - Item 11). 

Na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas recebemos variadas comunicações de almas arrependidas que foram, algumas delas, enfeixadas pelo senhor Allan Kardec, na obra O Céu e o Inferno, sob o título “Criminosos Arrependidos” – um incomparável estudo sobre os efeitos do arrependimento depois da desencarnação.

O tema arrependimento é muito valorizado entre nós na erraticidade, porque raramente, sob as ilusões da matéria, a alma tem encontrado suficiente coragem para enfrentar a força dos sutis mecanismos de defesa criados pelo orgulho, deixando sempre para amanhã – um amanhã incerto, diga-se de passagem – a análise madura e sincera de suas faltas, o que traria muito alívio, saúde e paz interior.

Era manhã no Hospital Esperança. Após os afazeres da rotina, deixamos nossa casa em bairro próximo e rumamos para as atividades do dia. A madrugada havia sido de muito trabalho nas esferas da crosta terrena. Após breve refazimento, nossa tarefa naquele dia que recomeçava era visitar a ala específica de espíritas em recuperação com o drama do arrependimento tardio.

Descemos aos pavilhões inferiores do hospital e chegando à ala para a qual nos destinávamos, fomos passando pelos corredores de maior sofrimento. Alas de confinamento, salas de atendimento e monitoramento, mais adiante alguns padioleiros com novas internações. No alto de uma porta larga, à semelhança daquelas nos blocos cirúrgicos dos hospitais terrenos, havia uma inscrição que dizia “entrada restrita”. Ali se encontravam os pacientes em estágios mentais agudos de arrependimento tardio.

Logo nas primeiras acomodações, rende à entrada, deparamo-nos com Maria Severiana. Sua fisionomia não apresentava as mesmas disposições do dia anterior. Cabisbaixa, sua face denotava ter chorado bastante durante a noite. Com todo cuidado que devemos à dor alheia, aproximamos carinhosamente:

— Bom dia Severiana!

— Bom dia nada, Ermance, estou péssima.

— O que houve, minha amiga? Ontem você se encontrava tão disposta...

— Muitos difícil dizer, não sei se posso.

— Se preferir, conversaremos logo mais.

— Não, não saia daqui, preciso de alguém velando comigo. Sou todo arrependimento e perturbação.

Quando segurava a mão de Severiana e ensaiava um envolvimento mais cuidadoso, Raul, assistente da ala, fez um sinal solicitando-nos a presença em pequeno posto alguns metros adiante.

— Que houve, Raul? Severiana ontem estava... — ele nem permitiu que continuássemos e disse:

— Sim, ela teve autorização para acessar a sua ficha reencarnatória. Foi uma noite tumultuada para ela, mas bem melhor que a maioria dos quadros costumeiros. A orientação é no sentido de que ela falei abertamente sobre o assunto para não criar as defesas inoportunas à sua recuperação. Graças a Deus, ela será acentuadamente no clima do arrependimento.

— Sim, Raul, grata pela informação.

Regressaremos, então, ao diálogo com a paciente, conduzindo-o com fins terapêuticos:

— Amiga querida, gostaria de expor seus dramas para nosso aprendizado?

— Ermance, é muito difícil a desilusão! A sensação de perda é enorme e sinto-me envergonhada. Sei que não fui uma mulher cruel, mas joguei fora enormes chances de vencer a mim mesma e ajudar muitas pessoas.

— Qual de nós, Severiana, tem sido exemplar na escola da reencarnação? Sabe, porventura, quantos espíritas chegam em quadros muito mais graves que o seu?

— Tenho pouca noção, no entanto, sinto-me como a mais derrotada das mulheres espíritas.

— Isso vai passar brevemente. O clima do arrependimento, embora doloroso a princípio, é a porta de acesso a indispensáveis posturas de reequilíbrio em relação ao futuro. Sem arrependimento não existe desilusão, e sem desilusão não podemos contar com a mais vantajosa das esperanças: o desejo de melhora enriquecido pela bênção das expectativas de recomeço. O exercício da desilusão é o antídoto capaz de atenuar os reflexos das enfermidades ou faltas que ainda transportamos para além-túmulo. Existe uma frase que considero sempre oportuna pelo seu poder consolador, a qual gostaria de ler para você; ela se encontra em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 5, item 5, e diz: “Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras”.

— Eu lhe agradeço, amiga querida. Tenho fé que meu arrependimento será impulso, embora ainda não me sinta com forças suficientes para isso. Por agora parece que estou presa em mim mesma.

— Temporariamente será assim. Logo, você perceberá que é exatamente o oposto. Digamos que o arrependimento é uma chave que liberta a consciência dos grilhões do orgulho. Enquanto peregrinamos no erro sem querer admiti-lo, temos o orgulho a nos defender com a criação de inúmeros mecanismos para aliviar nossas falhas. Chega, porém, o instante divino em que, estando demasiadamente represadas as energias da culpa, em casos como o seu, a misericórdia atua de maneira a ensejar o reajuste e a corrigenda. Sem arrepender-se, o homem é um ser que foge de si mesmo em direção aos pântanos da ilusão, por onde pode permanecer milênios e milênios. Essa não é a sua situação. Em verdade, apesar da dor, você se redime nesse momento de um episódio recente, sem vínculos com outras quedas de seu passado mais distante. Agradeça a Deus pela ocasião e supere sua expiação. Descartando quaisquer fins de curiosidade vã, tenho orientações para auxiliá-la a tratar o assunto em seu favor, portanto, tenha coragem.

— Farei isso amiga, farei, custe-me quanto custar! Não quero mais viver sob os auspícios desse monstro do orgulho que trago em mim. Chega de ilusão!

Enchendo o peito de ar como quem iria enfrentar árdua batalha, começou a contar seu drama, nesses termos:

— Como sabes, fui espírita atuante nessa precedente romagem carnal. Adquiri larga bagagem doutrinária estando na direção de uma casa espírita. Conduzia com facilidade a organização, despertando simpatia e boa vontade. Fui vencida pelo velho golpe do personalismo, sentia-me muito grandiosa espiritualmente diante dos compromissos que desincumbia. Como sempre, é o assalto da vaidade que, com nossa invigilância, faz uma limpa em nosso coração roubando-nos qualquer chance de lucidez e abnegação. Passei a vida com um grave problema no lar. Minha filha Cidália era uma moça extremamente rancorosa e magoada comigo sem motivos para isso. Alegava, nas minhas avaliações, que éramos antigas inimigas do passado e, diante das atitudes cruéis que ela cometeu contra mim em plena adolescência, cheguei a estimular a piedade de muita gente no centro espírita em relação à minha dor. Alguns chegavam a me dizer que iria direto para sublimes esferas depois dessa prova. Em vez de encontrar alternativas cristãs para resolver nossas desarmonias, distraí-me com o fato de criar teoremas espíritas para explicar minha infelicidade, mas jamais me perguntei, com a sinceridade necessária, como solucionar esse drama. Guardava o desejo da pacificação, todavia, nada fazia por isso que fosse realmente satisfatório. Fantasias e mais fantasias rondavam minha experiência. Inúmeras orientações consideradas mediúnicas falavam em obsessores perseguindo minha filha e a mim. E agora, quando fui ler minha ficha, iniciei um ciclo novo e percebi que fui vítima da mentira que me agradou. Teorizei muito sobre o que me ocorria, e amei pouco. Entretanto, Ermance, o mais grave você não sabe, e estava lá anotado na ficha à qual ainda ontem tive acesso nos arquivos, aqui no Hospital Esperança. Algo que escondi de todos e jamais mencionei a ninguém, em tempo algum. Não poderia imaginar um caso como o meu. Nem sequer, apesar do conhecimento espírita, poderia supor uma historia tão incomum como a minha.

A essa altura da explanação, Severiana ruborizou-se e perdeu o fôlego. Suspirou sofregamente e continuou:

— Fui levada ao Espiritismo depois de uma tentativa frustrada de abortar uma filha com quatro semanas de gravidez. Tomada de uma depressão e debaixo das cobranças por ser mãe solteira, cheguei a me desequilibrar emocionalmente. O tempo passava e não tinha coragem para o ato nefando; por várias circunstâncias não cheguei a executá-lo. A filha nasceu, é Cidália a quem me referi, minha única filha. Guardei comigo o segredo e parti da Terra com ele sem que ninguém jamais pudesse imaginar que um dia estie disposta a esse crime. As leis divinas, no entanto, são perfeitas. Minha desilusão começou ontem. Em princípio amaldiçoei essa ficha e achei impiedoso que permitissem acessá-la. Agora, com muita luta, começo a compreender melhor.

— E que revelação tão dura lhe trouxe seus informes reencarnatórios?

— Cidália renasceu com o propósito de ser uma companheira valorosa e companhia enriquecedora para minha solidão na vida. As informações me deram notícia de que é uma alma enormemente frustrada nos roteiros do aborto e que, após quedas sucessivas, estava reiniciando uma caminhada de recuperação nas duas últimas existências corporais para cá. Contudo, o meu ato impensado de expulsá-la do ventre, em plena gestação inicial, traumatizou-a sensivelmente perante as lutas conscienciais que ela já carrega com o assunto. O registro emocional foi ameaçador ao psiquismo da reencarnante. Seu rancor e sua mágoa contra mim nasceram ali, e nada tinham com ausência de afinidade ou carmas do pretérito. Ao substituir a culpa da tentativa de aborto pelas ideias de um passado suspeito e não confirmado, nada mais fiz que tamponar minhas más intenções. As anotações finais da ficha davam nota de que, se tivesse sido sincera com Cidália e rogado perdão, desarticularia em seu campo psíquico um mecanismo defensivo, próprio de corações que faliram nos despenhadeiros do repugnante infanticídio. Fico aqui nas minhas amarguras me cobrando severamente, mas como poderia saber disso, Ermance? Não supunha que a simples intenção poderia ser tão nociva. Você acha que estou sendo muito rigorosa?

— Claro que sim, Severiana. Contudo, não abdique da oportunidade. É sua chance de refazer os caminhos e futuramente amparar Cidália. De fato, não tinha como saber disso, o que não a isenta da responsabilidade do ato. Faltou-te o auto-perdão e o desejo sincero do encontro com suas culpas. Essa tem sido a opção da maioria esmagadora da humanidade. Preferem a fuga a ter de fazer o doloroso encontro com a sombra. Sua experiência poderá ser muito útil aos amigos encarnados, caso me autorize a contá-la. Certamente, lhes ampliará um pouco a visão sobre as infinitas possibilidades que a vida apresenta, nos roteiros da nossa redenção espiritual. Nem reencarnações passadas, nem obsessões, nem carmas, puramente um episódio aparentemente fortuito da existência que lhe rendeu os frutos amargos dessa hora. Um conjunto de situações reunidas talhando a realidade de cada um. Nada por acaso, nada sem razoes explicáveis, conquanto nem sempre conhecidas.

— Oportunamente, quando estiver melhor, gostaria de lhe narrar alguns detalhes para que a minha queda seja alerta e orientação a outras pessoas. Por agora, peço sua ajuda e a de Deus para que consiga me auto-perdoar.

— Severiana, hoje você é a mãe caída e frustrada, entretanto a vida a convida para se tornar o exemplo para muitas almas.

— Você tem razão, Ermance. A ficha, que fichinha dolorosa! - exclamou melancólica - mencionava que, caso tivesse adotado a postura de me perdoar, poderia ter contado a inúmeras criaturas a minha intenção irrefletida, a inconveniência do ato abortista ou o mal que pode causar sua simples intenção. Ainda que desconhecendo os detalhes que agora conheço, poderia falar do que significa em dor para uma mãe trazer na lembrança, diante da excelsitude de uma criança que nasceu de seu ventre, as ideias enfermiças de que um dia teria pensado em roubar-lhe a vida. Enfim, aprendi que a simples intenção nos códigos da eterna justiça, dependendo dos compromissos de cada qual, é quase a mesma coisa que agir...

Severiana recuperou-se rapidamente e prepara-se para retornar como neta de Cidália. São passados pouco mais de dois decênios de sua queda, e sua alma espera a remissão nos braços da avó.

Todavia, quem arrepende precisa de muito trabalho reparativo e luz nos raciocínios. Foi o que fez a nossa amiga. Não cessou de amparar e servir. Enquanto aguardava sua oportunidade, integrou-se às equipes de serviço aos abortistas no Hospital Esperança e aprendeu lições preciosas de consolo pra seu próprio drama.

Se não existisse trabalho redentor na vida espiritual, as almas teriam que reencarnar com brevidade porque não suportariam o nível mental das recordações e perturbações do arrependimento.

O serviço em nosso plano é uma preliminar para as provas futuras na reencarnação.

Como sempre, o Livro-luz traz em suas páginas incomparáveis uma questão que resume com perfeição o caso que narramos. Eis a pergunta:

“Qual a consciência do arrependimento no estado espiritual?”

“Desejar o arrependido uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o privam de ser feliz e, por isso, aspira a uma nova existência em que possa expiar suas faltas” (O Livro dos Espíritos - Questão 991).

terça-feira, 11 de março de 2025

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira


Introdução


Alma querida nos ideais renovadores, é natural que sofras inquietação por nutrires objetivos transformadores.

Ante a penúria de teus valores, declaraste sem mérito para receber a ajuda Divina.

Perante a extensão de tuas falhas, açoitas a consciência com lancinante sentimento de hipocrisia ao repetires os mesmos desvios dos quais já gostarias de não se permitir. Essa é a estrada da perfeição, não te martirizes.

Tudo isso é compreensível, parte integrante de quantos se candidatam aos serviços reeducativos de si próprios portanto, não sejas demasiadamente severo contigo.

Sem lástima e censura, perdoa-te e prossegue sempre.

Confia e trabalha cada vez mais.

Por mais causticantes as reações íntimas nos refolhos conscienciais, guarda-te na oração e na confiança e enriquece tua fé nas pequenas vitórias.

A angústia da melhora é impulso para promoção.

O remédio salutar para amenizá-la é a aceitação incondicional de ti mesmo.

Aceitando-te humildemente como és e fazendo o melhor que possas, vitalizar-te-ás com mais fortes apelos interiores para a continuidade do projeto de melhoria e corrigenda.

Por outro lado, se te punes estarão assinando um decreto de desamor contra ti.

Afeiçoa-te com devotamento e sensatez aos exercícios que te são delegados pelas tarefas renovadoras do bem, aprimorando-te em regime de vigilância e paciência.

Sem alimentar fantasias de saltos evolutivos, dá um passo atrás do outro.

Sem ansiar pela grandeza das estrelas, ama-te na condição de singelo pirilampo que esforça por fazer luz na noite escura.

Faça as pazes com suas imperfeições.

Descubra suas qualidades, acredite nelas e coloque-as a serviço de suas metas de crescimento, essa é a fórmula da verdadeira transformação.

O tempo concederá valor e experiência a seus esforços, ajustando teus propósitos aos limites de tuas possibilidades, libertando-te da angústia que provém dos excessos.

Caminha um dia após o outro na certeza de que Deus te espera sempre com irrestrito respeito pelas tuas mazelas, guardando o único direito de um Pai zeloso e bom que é a esperança de que amanhã sejas melhor que hoje, para tua própria felicidade.


Ermance Dufaux












quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Intima sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley de Oliveira - Introdução: Consciência do Si



Ermance Dufaux - Livro Reforma Intima sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley de Oliveira - Introdução


Consciência do Si


“Em princípio, o homem que se exalça, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter. Entretanto, que direi daquele cujo único valor consiste em parecer o que não é? Admito de boa mente que o homem que pratica bem experimenta uma satisfação íntima em seu coração; mas, desde que tal satisfação se exteriorize, para colher elogios, degenera em amor-próprio.” François-Nicolas-Madeleine. (Paris, 1863) O Evangelho Segundo Espiritismo Capítulo XVII - item 8

Estudioso discípulo do Espiritismo propôs-nos a seguinte Indagação: que revelações novas teriam os amigos espirituais em favor do aperfeiçoamento interior nessa hora de tantas na humanidade?

Em resposta a seu pedido sincero de aprender exaremos os textos aqui discorridos. Não constituem novidades, e sim um enfoque prático para velhas questões morais que absorvem quantos anseiam pela melhoria de si mesmos.

Nossa proposta é apresentar algumas “ideias-chave” com fins de meditação e autoaferição, ou ainda para estudos em grupos que anseiam por buscar respostas sobre as intrigantes questões da vida interior. Se não entendermos realmente a razão de nossas atitudes, não reuniremos condições indispensáveis para o serviço renovador de nós próprios.

A capacidade de administrar o mundo objetivo torna-se cada dia mais precisa e rica de tecnologia para melhor eficácia nos resultados, todavia, a inabilidade na gerência do mundo íntimo é comprovada, a todo instante, pelos atestados de descontrole e insatisfação que o homem tem demonstrado em sua vida pessoal. Homens vencedores edificam pontes maravilhosas que se tornam cartões postais no mundo inteiro, porém, nem sempre dominam a arte de construir um singelo fio de atenção que possa estabelecer uma ponte entre ele e seu próximo, diminuindo a distância que os separa. Cirurgiões habilidosos transplantam órgão sensíveis com precisão e controle nos dedos, no entanto, constantemente desequilibra-se quando pequeno talher escapa das singelas mãos de seu rebento, gerando perturbação e mal-estar na prole.

Se o cerne da proposta educativa do Espiritismo é a melhoria espiritual pela reforma íntima, essa, por sua vez, tem, por objetivo elementar, libertar a consciência dos grilhões do ego para que possa brilhar com exuberância, sem as sombras que teimam em ofuscar-lhe. Travamos, ao iniciar a renovação de nós mesmos, uma batalha entre o ego e consciência do self definitivo e glorioso.

Reforma íntima! Eis o tema predileto dos adeptos do Espiritismo no vastíssimo repositório dos assuntos elevados que nos desafiam o entendimento sob a ótica do espírito imortal. Apesar de sua predileção, constata-se que a assiduidade com a qual é tratada não lhe tem garantido noções demais dilatadas que permitem o esforço consciente na transformação da personalidade humana.

Nessa ótica, exageramos alguns conceitos que merecem ser resgatados no seu melhor entendimento:

• Uma construção gradativa de valores, a solidificação de qualidades eternas.

• Uma proposta de plenitude e não de derrotismo. É fazer mais luz para varrer as sombras. Muitos, porém, acreditam que luz se faz extinguindo as trevas...

• É a formação do homem de bem. Não se trata de deslocar vícios e colocar virtudes. É dada muita importância às imperfeições nos ambientes da Doutrina, quando deveríamos falar mais das virtudes do homem de bem.

• Processo libertador da consciência. Não se trata de vencer o ego, mas conquistá-lo através do domínio natural da “voz” divina que ecoa em nossa intimidade.

Reforma íntima não deve ser entendida apenas como contenção de impulsos inferiores. Muito além disso, torna-se urgente analisá-la como o compromisso de trabalhar pelo desenvolvimento dos lídimos valores humanos na intimidade. Circunscrevê-la a regimes de disciplina pela vigência e pela vontade poderá instituir a cultura do martírio e da tormenta como quesitos indispensáveis ao seu dinamismo.
 
Contenção é aglutinação de forças de defesa contra a rotina mental dos reflexos do mal em nós, todavia, somente a edificação da personalidade cristã, pródigas de qualidades morais nobres, permitirá a paz interior e o serviço de libertação definitiva para além-muros da morte corporal. Por essa razão entre os seguidores da mensagem espírita, urge difundir noções mais lúcidas sobre o nível de comprometimento a que devem se afeiçoar todos os seus aprendizes. Apenas evitar o mal não basta, imperioso fazer todo o bem ao nosso alcance. A reforma de profundidade exige devoção integral aos deveres da espiritualização, onde quer que estejamos, criando condições para vivências íntimas que assegurem comoções afetivas revitalizadoras e modificadoras a rumos mais vastos na ação e na reação: é a criação de condicionamentos novos e elevados.
 
Assim como o corpo não extirpa partes adoecidas, mas procura harmonizá-las ao todo, a alma procede seu crescimento dentro princípio de “reaproveitamento” de todas as experiências infelizes.
 
Quem busca o aprimoramento de si mesmo tem como primeiro desafio o encontro consigo. A ausência de ideias claras sobre nós próprios constitui pesados ônus a ser superado, o qual tem levado corações sinceros e bem intencionados a dolorosos conflitos mentais com a melhora individual, instaurando um doloroso processo de martírio a si mesmo.
 
Não existe reforma íntima sem dores, razão pela qual será oportuno discernir quais são as dores do crescimento e quais são as dores que decorrem de nossa incapacidade de lidar com as forças ignoradas da vida subjetiva em nós mesmos. A distinção entre ambas tornará nosso programa de melhoria pessoal um tanto mais eficaz e menos doloroso.
 
Fala-se muito do homem velho e quase nada sobre como consolidar o homem novo. Dominados pelo mau hábito de destacar suas doenças espirituais, criou-se um sistema neurótico de supervalorização das imperfeições morais que tem conduzido muitos espíritas à condição de autênticos “hipocondríacos da alma”.
 
Conter o mal é parte do processo transformador, construir o bem é a etapa nova que nos aguarda.
 
Bem além de controle, educação.
 
Acima de disciplina com inclinações, desenvolvimentos de qualidades inatas.
 
Maturidade pode ser definida pela capacidade individual de ouvir a consciência em detrimento dos apelos do ego. Quanto mais fizermos isso, mais seremos maduros e libertos. A saúde é estar em contato pleno com a consciência e a doença é a escravidão ao ego. Reformar-se é tomar consciência do “si mesmo”, da “perfeição latente” a qual nos destinamos. Em outras palavras, estamos enaltecendo o ato da autoeducação.
 
Foi o notável Jung que afirmou: “até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão do mero ser”.
 
Imperioso que acendamos essa luz, a luz que promana da autocrítica, sem a qual não nos educaremos.
 
E como exercer um juízo crítico honesto sem conhecimento das artimanhas da velha personalidade que geramos?
 
Senso crítico é, portanto, um dos pilares essenciais para a formação da autoconsciência, o qual nos permitirá desvendar as trilhas em direção aos tesouros divinos incrustados em pleno coração dessa selva de imperfeições, que trazemos dos evos.

Apresentamos nessa obra alguns “mapas” para devassarmos essa selva com segurança. Rotas para velhos temas morais já conhecidos de todos nós, os espíritas, mas que nem sempre conseguimos trazê-los para a intimidade no atendimento satisfatório do anseio exuberante que espraia de nossas almas na construção da personalidade nova.

Decerto, como todo mapa, os caminhos para se atingir o destino são variados e pessoais, conforme a ótica e a escolha de cada qual, e por esse motivo entregamos todas as nossas abordagens com total despretensão quanto a resultados. Todavia, como a peregrinação pelos “vales sombrios” da nossa intimidade é repleta de imprevistos e “ciladas”, não abdicamos da palavra clara e sincera, acrescendo alguns exemplos de histórias dolorosas de quantos foram iluminados pela luz da Doutrina Espírita, sem iluminarem a si próprios com a luz da experiência e da renovação.

Jamais moveu-nos a intenção de que nossas considerações, aqui exaradas, pudessem constituir um roteiro de orientação ou uma tese didática sobre o tema com o objetivo de traçar normas de conduta. Para nós não ultrapassam a condição de sugestões para um diálogo em grupo ou meditações individuais. Nossos textos são um “início de conversa”, um “ponto de partida” para que vós outros na Terra empreendem a discussão livre e salutar sobre os caminhos da transformação humana, à luz do Espírito Imortal. Nosso coração estará sempre onde existirem os colóquios francos e produtivos acerca desse tema.

Sem pessimismo algum, mensurar a condição pessoal, sem conhecimento pleno das histórias contidas em nossas “fichas reencarnatórias”, é, quase sempre, proceder a uma análise míope das condições espirituais autênticas que cercam nosso trajeto nos milênios. Por isso, palpitam muitas ilusões no terreno da nossa luta reeducativa, na carne ou fora dela. “Em princípio, o homem que se exalta, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter”.

Nossas reflexões destinam-se a uma autoavaliação. Sem uma incursão sincera no mundo de nós próprios, a fim de aquilatar o que somos e não somos, corremos o severo risco de repetir as múltiplas histórias que temos acompanhado por aqui, na vida imortal, na qual o coração bafejado pelas concepções doutrinárias acalentam uma miragem de si para além de suas reais proporções, tendo que se olhar, sem refúgios, no “espelho da imortalidade” amargando doloroso processo de desilusão.

Buscamos nossas inspirações em O Evangelho Segundo Espiritismo – repositório ético para a felicidade humana e incomparável manancial de inspiração superior – no qual encontramos inesgotável fonte de instrução e consolo dos Bondosos Guias da Verdade, em favor dos roteiros dos homens ante suas provas e expiações. Consideremo-lo como sendo um receituário moral para todas as necessidades humanas na Terra.

Entregamos nossos apontamentos com alegria aos leitores e amigos, esperançosa de que a celeste misericórdia multiplique nossas migalhas de amor, saciando a fome da alma com bênçãos de paz e estímulo na aquisição da consciência de si.

Atenciosamente,


Ermance Dufaux 
Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2003. 




VÍDEO: 

Reforma Íntima
Alexandre Caldini





domingo, 11 de setembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio, As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Cap. 15 - Diálogo sobre ilusão



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio, As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Cap. 15


Diálogo sobre ilusão


“Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no  reino  dos céus!  Que desilusão!  Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito  acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre!”  Uma Rainha de França (Havre, 1863) O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. II, Item 8 

O que são as ilusões? (1)

Definamos ilusão como sendo aquilo que pensamos, mas que não corresponde à realidade. São percepções que nos distanciam da verdade. Existem em relação a muitas questões da vida, tais como metas, cultura, comportamento, pessoas, fatos. A pior das ilusões é a que temos em relação a nós: a autoilusão.

Qual a causa das ilusões?

As ilusões decorrem das nossas limitações em perceber a natureza dos sentimentos que criam ou determinam nossos raciocínios. Na matriz das ilusões encontramos carências, desejos, culpas, traumas, frustrações e todo um conjunto de inclinações e tendências que formam o subjetivo campo das emoções humanas.

Por que a senhora citou que a autoilusão é a pior das ilusões?

O iludido pensa muito o mundo “negando” senti-lo, um mecanismo natural de defesa face às dificuldades que encontra em lidar com suas emoções. Esconde-se atrás de uma imagem que criou de si mesmo para resguardar autoridade social ou outro valor qualquer que deseje manter.

O objetivo da reencarnação consiste em desiludir-nos sobre nós mesmos através da criação de uma relação libertadora com o mundo material. Se não buscamos essa meta então caminhamos para a falência dos planos de ascensão individual.

Conforme a resposta anterior, o iludido esconde-se de quê?

De si mesmo. Criando um “eu ideal” para atenuar o sofrimento que lhe causa angústia de ser o que é - a criatura foge de si e vive em “esconderijos psíquicos”.

Mas, por que se esconde de si mesmo?

Devido ao sentimento de inferioridade que ainda assinala a caminhada da maioria dos habitantes da Terra. Iludimo-nos através de um mecanismo defensivo contra nossa própria fragilidade que, pouco a pouco, vamos extinguindo. Negar o que se sente e o que se deseja é o objetivo desse mecanismo. Uma forma que a mente aprendeu para camuflar o sentimento de inferioridade da qual o espírito se conscientizou em algum instante de sua peregrinação evolutiva.

Então, iludimo-nos para nos sentirmos um pouco melhores, seria isso?

Autoilusão é aquilo que queremos acreditar sobre nós mesmos, mas que não corresponde à realidade do que verdadeiramente somos, é a miragem de nós próprios ou aquilo que imaginamos que somos. Uma vivência psíquica resultante da desconexão entre razão e sentimento. É a crença na imagem idealizada que criamos no campo mental. É aquilo que pensamos que somos e desejamos que os outros creiam sobre nós.

Nós espíritas, temos ilusões?

Responderei com clareza e fraternidade: sim, muitas ilusões. O iludido, quando ambicioso, atinge sem perceber as raias da usura; Quando dominador, chega aos cumes da manipulação; quando vaidoso, guinda-se aos pântanos da supremacia pessoal; quando cruel, atola-se ao lamaçal do crime; quando astuto, atira-se às vivências da intransigência; quando presunçoso, escala os cumes da arrogância; e, mesmo quando esclarecido espiritualmente, lança-se aos pícaros do exclusivismo ostentando qualidades que, muita vez, são adornos frágeis com os quais esnobam superioridade que supõem possuir.

Poderia dizer a nós, espíritas, algo sobre nossas ilusões?

Existe uma tendência à autossuficiência entre os depositários do conhecimento espírita. Discursam sobre a condição precária em que se encontram assumindo a condição de almas carentes e necessitadas, todavia, diametralmente oposto a isso, agem como se fossem “salvadores do mundo” com todas as respostas para a humanidade. Essa incoerência na conduta é provocada pela ilusão que criaram do papel do espírita no mundo...

O espiritismo é excelente, nós espíritas, nem tanto... Nossa condição real, para quem deseja assumir uma posição ideal perante si mesmo, é a de almas que apenas começamos a sair do primitivismo moral. Alegremo-nos por isso!

Essa autossuficiência seria orgulho?

O orgulho promove essa condição, é a mais enraizada manifestação da ilusão, é a ilusão de querer ser o que imaginamos que somos. Essa é a pior ilusão, a autoimagem falsa e superdimensionada de nós mesmos. Essa autoilusão é sustentada por uma “cultura de convenções” acerca do que seja ser espírita, um resquício do velho hábito religioso de criar “estampas” pelas quais serão reconhecidos os seguidores de alguma doutrina. Nesse caso, a ilusão desenvolvida chama-se “ideia de grandeza”. Muitas pessoas desejariam sair prontas para testemunho após pequenos exercícios de espiritualização no centro espírita, entretanto, por ignorarem sua real condição espiritual, fazem da casa doutrinária um templo de aquisição da angelitude imediata. Querem sair prontos e perfeitos das tarefas e estudos, quando o objetivo de tais iniciativas é capacitar de valores intelecto-morais para repensar caminhos e encontrar respostas para as encruzilhadas da alma, nas refregas da existência.

O que é essa autoimagem falsa?

Uma construção mental que se torna a referência para nossas movimentações perante a vida. É uma cristalização mental, uma irradiação que cria uma rotina escravizante nos sentimentos permitindo-nos viver somente as emoções em uma “faixa de segurança”, a fim de não perdermos o status da criatura que supomos ser e queremos que os outros acreditem que somos. O que pensamos sobre nós, portanto, determina a imagem mental indutora dos valores íntimos. Se o raciocínio sofre distorções da ilusão, então viveremos sem saber quem somos.

Como é construída essa autoimagem?

Através das vivências intelecto-afetivas de todos os tempos dessa criação.

Onde ela permanece?

No corpo mental. Sua maior expressão é conhecida pelas operações do departamento da imaginação no reino da mente.

Quer dizer que além da autoimagem temos um “eu real”, diferente do “eu crístico”, que ainda não conhecemos? 

Sim. Temos um “eu real” que estamos tentando ignorar há milênios. Essa “parcela” de nós é a “sombra” da qual queremos fugir. Todavia, o contato com essa “zona inconsciente” revela-nos não só motivos de dor e angústia mas igualmente, a luz que ignoramos estar em nossa intimidade à espera de nossa vontade para utilizá-la.

Aqui chamamos a atenção dos nossos parceiros de ideal para o cuidado com o processo da reforma interior. Existe muita idealização confundindo aprendizes que imaginam estar dando “saltos evolutivos” em direção a esse “eu real”, entretanto, em verdade, estão se movimentando na esfera do “eu idealizado”...

Poderia explicar mais profundamente essa questão dos “saltos evolutivos”?

É um tipo de ilusão que normalmente assalta os religiosos de todos os tempos. Imaginam-se muito melhorados a partir do contato com alguma diretriz ou prática religiosa e, então, passam a viver uma vida idealizada, um projeto de “vir-a-ser”. É uma ilusão de que se está fazendo a renovação, apenas uma idealização. Uma forma de comportar desconectada do sentimento, um adorno moral para nossas atitudes; é o discurso sem a vivência. O nome mais conhecido deste comportamento é puritanismo.

Como distinguir idealização de mudança verdadeira?

Na idealização pensamos o que somos e, como consequência, vivemos o que gostaríamos de ser, mas ainda não somos. E o hábito das aparências. Na reforma íntima sentimos o que somos, e como consequência vivemos a realidade do que somos com harmonia, ainda que nos causem muitos desconfortos. É o processo da educação paulatina. Na idealização vive-se em permanente conflito por se tratar, em parte, de uma negação da realidade, enquanto na reforma autêntica a criatura consegue penetrar os meandros dos “sentimentos–causais”, encontrando uma convivência pacífica consigo e aceitando-se sem se acomodar em direção a melhoras mensuráveis.

Como vencer nossas ilusões?

Desapegando da autoimagem falsa que fazemos de nós mesmos. Desapaixonando-se do “eu”. Para isso somente o autoconhecimento.

Havendo esse desapego, conseguiremos libertar os sentimentos para novas experiências com o mundo e consequentemente com nosso “eu profundo”. Isso desencadeará um processo de resgate de nós mesmos, venceremos a condição de reféns de nosso passado escravizante, saindo da “roda viciosa das emoções” perturbadoras, quais sejam o medo, a culpa e a insegurança.

O processo da desilusão custa sorver o fel da angústia de saber quem somos, e carregar o peso do sacrifício de cuidar dessa personalidade nova que renasce exuberante. Independente do quão doloroso seja, é preferível experimentá-la no corpo a ter que purgá-la na vida espiritual.

Assinalemos alguns exercícios de desapego dessa paixão que nutrimos pela imagem irreal que criamos de nós mesmos:

- Fazer as pazes com as imperfeições.

- Abandonar os estereótipos e aprender a se valorizar com respeito.

- Descobrir sua singularidade e vivê-la com gratidão.

- Coragem para descobrir seus desejos, tendências e sentimentos.

- Exercitar a autoaceitação através do perdão.

- Munir-se de informações sobre a natureza de suas provas.

- Aprender a ouvir com atenção o que se passa à sua volta.

- Dominar o perfeccionismo nutrindo a certeza de que ser falível não nos torna mais inferiores.

- Valorizar afetivamente as suas vitórias.

- Descobrir qualidades, acreditar nelas e colocá-las a serviço das metas de crescimento.


Paulo, o apóstolo da renovação, indica-nos uma sublime recomendação que nos compele a meditar na natureza de nossos sentimentos em torno da mensagem do amor; sugerimos que esse seja nosso roteiro na vitória sobre as ilusões: “Olhais para as coisas, segundo as aparências? Se alguém confia de si mesmo que é do Cristo, pense outra vez isto consigo, que assim como ele é do Cristo, também nós do Cristo somos.” (2 Coríntios, 10.7)


Ermance Dufaux 







(1) As perguntas desse texto foram proferidas pelo médium – (Nota da Autora Espiritual).




sábado, 3 de setembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução - Angústia Da Perfeição



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução


Angústia Da Perfeição


Pode alguém, por um proceder impecável na vida atual, transpor todos os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se Espírito Puro, sem passar por outros graus intermédios?

“Não, pois o que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que, lhes são
desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a sua natureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. (...)” O Livro dos Espíritos – Questão 192

Alma querida nos ideais renovadores, é natural que sofras inquietação por nutrires objetivos transformadores.

Ante a penúria de teus valores, declaraste sem mérito para receber a ajuda Divina.

Perante a extensão de tuas falhas, açoitas a consciência com lancinante sentimento de hipocrisia ao repetires os mesmos desvios dos quais já gostarias de não se permitir. Essa é a estrada da perfeição, não te martirizes.

Tudo isso é compreensível, parte integrante de quantos se candidatam aos serviços reeducativos de si próprios portanto, não sejas demasiadamente severo contigo.

Sem lástima e censura, perdoa-te e prossegue sempre.

Confia e trabalha cada vez mais.

Por mais causticantes as reações íntimas nos refolhos conscienciais, guarda-te na oração e na confiança e enriquece tua fé nas pequenas vitórias.

A angústia da melhora é impulso para promoção.

O remédio salutar para amenizá-la é a aceitação incondicional de ti mesmo.

Aceitando-te humildemente como és e fazendo o melhor que possas, vitalizar-te-ás com mais fortes apelos interiores para a continuidade do projeto de melhoria e corrigenda.

Por outro lado, se te punes estarão assinando um decreto de desamor contra ti.

Afeiçoa-te com devotamento e sensatez aos exercícios que te são delegados pelas tarefas renovadoras do bem, aprimorando-te em regime de vigilância e paciência.

Sem alimentar fantasias de saltos evolutivos, dá um passo atrás do outro.

Sem ansiar pela grandeza das estrelas, ama-te na condição de singelo pirilampo que esforça por fazer luz na noite escura.

Faça as pazes com suas imperfeições.

Descubra suas qualidades, acredite nelas e coloque-as a serviço de suas metas de crescimento, essa é a fórmula da verdadeira transformação.

O tempo concederá valor e experiência a seus esforços, ajustando teus propósitos aos limites de tuas possibilidades, libertando-te da angústia que provém dos excessos.

Caminha um dia após o outro na certeza de que Deus te espera sempre com irrestrito respeito pelas tuas mazelas, guardando o único direito de um Pai zeloso e bom que é a esperança de que amanhã sejas melhor que hoje, para tua própria felicidade.


Ermance Dufaux

















segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução - Consciência do Si



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução


Consciência do Si


“Em princípio, o homem que se exalça, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter. Entretanto, que direi daquele cujo único valor consiste em parecer o que não é? Admito de boamente que o homem que pratica bem experimenta uma satisfação íntima em seu coração; mas, desde que tal satisfação se exteriorize, para colher elogios, degenera em amor-próprio. François-Nicolas-Madeleine.(Paris, 1863.) O Evangelho Segundo Espiritismo Cap. 17 - item 8


Estudioso discípulo do Espiritismo propôs-nos a seguinte Indagação: que revelações novas teriam os amigos espirituais em favor do aperfeiçoamento interior nessa hora de tantas na humanidade?

Em resposta a seu pedido sincero de aprender exaremos os textos aqui discorridos. Não constituem novidades, e sim um enfoque prático para velhas questões morais que absorvem quantos anseiam pela melhoria de si mesmos.

Nossa proposta é apresentar algumas “idéias-chave” com fins de meditação e autoaferição, ou ainda para estudos em grupos que anseiam por buscar respostas sobre as intrigantes questões da vida interior. Se não entendermos realmente a razão de nossas atitudes, não reuniremos condições indispensáveis para o serviço renovador de nós próprios.

A capacidade de administrar o mundo objetivo torna-se cada dia mais precisa e rica de tecnologia para melhor eficácia nos resultados, todavia, a inabilidade na gerência do mundo íntimo é comprovada, a todo instante, pelos atestados de descontrole e insatisfação que o homem tem demonstrado em sua vida pessoal. Homens vencedores edificam pontes maravilhosas que se tornam cartões postais no mundo inteiro, porém, nem sempre dominam a arte de construir um singelo fio de atenção que possa estabelecer uma ponte entre ele e seu próximo, diminuindo a distância que os separa. Cirurgiões habilidosos transplantam órgão sensíveis com precisão e controle nos dedos, no entanto, constantemente desequilibra-se quando pequeno talher escapa das singelas mãos de seu rebento, gerando perturbação e mal-estar na prole.

Se o cerne da proposta educativa do Espiritismo é a melhoria espiritual pela reforma íntima, essa, por sua vez, tem, por objetivo elementar, libertar a consciência dos grilhões do ego para que possa brilhar com exuberância, sem as sombras que teimam em ofuscar-lhe. Travamos, ao iniciar a renovação de nós mesmos, uma batalha entre o ego e consciência do self definitivo e glorioso.

Reforma íntima! Eis o tema predileto dos adeptos do Espiritismo no vastíssimo repositório dos assuntos elevados que nos desafiam o entendimento sob a ótica do espírito imortal. Apesar de sua predileção, constata-se que a assiduidade com a qual é tratada não lhe tem garantido noções mais dilatadas que permitem o esforço consciente na transformação da personalidade humana.

Nessa ótica, exageramos alguns conceitos que merecem ser resgatados no seu melhor entendimento:

# Uma construção gradativa de valores, a solidificação de qualidades eternas.

# Uma proposta de plenitude e não de derrotismo. É fazer mais luz para varrer as sombras. Muitos, porém, acreditam que luz se faz extinguindo as trevas...

# É a formação do homem de bem. Não se trata de deslocar vícios e colocar virtudes. É dada muita importância às imperfeições nos ambientes da Doutrina, quando deveríamos falar mais das virtudes do homem de bem.

# Processo libertador da consciência. Não se trata de vencer o ego, mas conquistá-lo através do domínio natural da “voz” divina que ecoa em nossa intimidade.

Reforma íntima não deve ser entendida apenas como contenção de impulsos inferiores. Muito além disso, torna-se urgente analisá-la como o compromisso de trabalhar pelo desenvolvimento dos lídimos valores humanos na intimidade. Circunscrevê-la a regimes de disciplina pela vigência e pela vontade poderá instituir a cultura do martírio e da tormenta como quesitos indispensáveis ao seu dinamismo.

Contenção é aglutinação de forças de defesa contra a rotina mental dos reflexos do mal em nós, todavia, somente a edificação da personalidade cristã, pródigas de qualidades morais nobres, permitirá a paz interior e o serviço de libertação definitiva para além-muros da morte corporal. Por essa razão entre os seguidores da mensagem espírita, urge difundir noções mais lúcidas sobre o nível de comprometimento a que devem se afeiçoar todos os seus aprendizes. Apenas evitar o mal não basta, imperioso fazer todo o bem ao nosso alcance. A reforma de profundidade exige devoção integral aos deveres da espiritualização, onde quer que estejamos, criando condições para vivências íntimas que assegurem comoções afetivas revitalizadoras e modificadoras a rumos mais vastos na ação e na reação: é a criação de condicionamentos novos e elevados.

Assim como o corpo não extirpa partes adoecidas, mas procura harmonizá-las ao todo, a alma procede seu crescimento dentro princípio de “reaproveitamento” de todas as experiências infelizes.

Quem busca o aprimoramento de si mesmo tem como primeiro desafio o encontro consigo. A ausência de idéias claras sobre nós próprios constitui pesados ônus a ser superado, o qual tem levado corações sinceros e bem intencionados a dolorosos conflitos mentais com a melhora individual, instaurando um doloroso processo de martírio a si mesmo.

Não existe reforma íntima sem dores, razão pela qual será oportuno discernir quais são as dores do crescimento e quais são as dores que decorrem de nossa incapacidade de lidar com as forças ignoradas da vida subjetiva em nós mesmos. A distinção entre ambas tornará nosso programa de melhoria pessoal um tanto mais eficaz e menos doloroso.

Fala-se muito do homem velho e quase nada sobre como consolidar o homem novo. Dominados pelo mau hábito de destacar suas doenças espirituais, criou-se um sistema neurótico de supervalorização das imperfeições morais que tem conduzido muitos espíritas à condição de autênticos “hipocondríacos da alma”.
Conter o mal é parte do processo transformador, construir o bem é a etapa nova que nos aguarda.

Bem além de controle, educação.

Acima de disciplina com inclinações, desenvolvimentos de qualidades inatas.

Maturidade pode ser definida pela capacidade individual de ouvir a consciência em detrimento dos apelos do ego. Quanto mais fizermos isso, mais seremos maduros e libertos. A saúde é estar em contato pleno com a consciência e a doença é a escravidão ao ego. Reformar-se é tomar consciência do “si mesmo”, da “perfeição latente” a qual nos destinamos. Em outras palavras, estamos enaltecendo o ato da auto-educação.

Foi o notável Jung que afirmou: “até onde podemos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão do mero ser”.

Imperioso que acendamos essa luz, a luz que promana da autocrítica, sem a qual não nos educaremos.

E como exercer um juízo crítico honesto sem conhecimento das artimanhas da velha personalidade que geramos?

Senso crítico é, portanto, um dos pilares essenciais para a formação da autoconsciência, o qual nos permitirá desvendar as trilhas em direção aos tesouros divinos incrustados em pleno coração dessa selva de imperfeições, que trazemos dos evos.
Apresentamos nessa obra alguns “mapas” para devassarmos essa selva com segurança. Rotas para velhos temas morais já conhecidos de todos nós, os espíritas, mas que nem sempre conseguimos trazê-los para a intimidade no atendimento satisfatório do anseio exuberante que espraia de nossas almas na construção da personalidade nova.

Decerto, como todo mapa, os caminhos para se atingir o destino são variados e pessoais, conforme a ótica e a escolha de cada qual, e por esse motivo entregamos todas as nossas abordagens com total despretensão quanto a resultados. Todavia, como a peregrinação pelos “vales sombrios” da nossa intimidade é repleta de imprevistos e “ciladas”, não abdicamos da palavra clara e sincera, acrescendo alguns exemplos de histórias dolorosas de quantos foram iluminados pela luz da Doutrina Espírita, sem iluminarem a si próprios com a luz da experiência e da renovação.

Jamais moveu-nos a intenção de que nossas considerações, aqui exaradas, pudessem constituir um roteiro de orientação ou uma tese didática sobre o tema com o objetivo de traçar normas de conduta. Para nós não ultrapassam a condição de sugestões para um diálogo em grupo ou meditações individuais. Nossos textos são um “início de conversa”, um “ponto de partida” para que vós outros na Terra empreendem a discussão livre e salutar sobre os caminhos da transformação humana, à luz do Espírito Imortal. Nosso coração estará sempre onde existirem os colóquios francos e produtivos acerca desse tema.

Sem pessimismo algum, mensurar a condição pessoal, sem conhecimento pleno das histórias contidas em nossas “fichas reencarnatórias”, é, quase sempre, proceder a uma análise míope das condições espirituais autênticas que cercam nosso trajeto nos milênios. Por isso, palpitam muitas ilusões no terreno da nossa luta reeducativa, na carne ou fora dela. “Em princípio, o homem que se exalça, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter”.

Nossas reflexões destinam-se a uma auto-avaliação. Sem uma incursão sincera no mundo de nós próprios, a fim de aquilatar o que somos e não somos, corremos o severo risco de repetir as múltiplas histórias que temos acompanhado por aqui, na vida imortal, na qual o coração bafejado pelas concepções doutrinárias acalentam uma miragem de si para além de suas reais proporções, tendo que se olhar, sem refúgios, no “espelho da imortalidade” amargando doloroso processo de desilusão.

Buscamos nossas inspirações em O Evangelho Segundo Espiritismo – repositório ético para a felicidade humana e incomparável manancial de inspiração superior – no qual encontramos inexgotável fonte de instrução e consolo dos Bondosos Guias da Verdade, em favor dos roteiros dos homens ante suas provas e expiações. Consideremo-lo como sendo um receituário moral para todas as necessidades humanas na Terra.

Entregamos nossos apontamentos com alegria aos leitores e amigos, esperançosa de que a celeste misericórdia multiplique nossas migalhas de amor, saciando a fome da alma com bênçãos de paz e estímulo na aquisição da consciência de si.

Atenciosamente,


Ermance Dufaux 


Belo Horizonte, 16 de fevereiro de 2003.