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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são Defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Cap. 14 - O amor nas relações não exclui o teste da ingratidão




Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Cap. 14


O amor nas relações não exclui o teste da ingratidão


"Que se deve pensar dos que, recebendo a ingratidão em paga de benefícios que fizeram, deixam de praticar o bem para não topar com os ingratos? Nesses, há mais egoísmo do que caridade, visto que fazer o bem apenas para receber demonstrações de reconhecimento é não o fazer com desinteresse, e o bem, feito desinteressadamente, é o único agradável a Deus." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 13, item 19)


Ele era um homem rico de qualidades morais. Aplicado servidor daquela casa espírita. Zeloso, cuidava com carinho pelas variadas frentes de serviço, dispensando incentivo e preparo.

Dobram-se os anos e ele, fiel, cada dia mais tomava sobre si as responsabilidades e doava-se em esforços. Acontece-lhe, no entanto, um doloroso teste que o abate em distraída invigilância.

Aqueles que mais o amavam, os que dividiam os tempos de alegria e dores, sem mais nem menos, em razão de fofocas rotineiras, agridem-no em flagrante ingratidão e intentam afastá-lo dos cargos, buscam subtrair-lhe a autoridade com a infâmia, e procuram diminuí-lo com discriminações. Colhido de surpresa ante o inesperado, penetra as faixas tenebrosas da revolta e, em golpe ardiloso da obsessão, abandona os deveres e debanda-se pela vida por entre mágoas e queixumes, passando o resto dos seus dias perguntando a razão de semelhante ingratidão, e contabilizando, sempre em seu favor, os créditos em serviço, o que lhe aumentava ainda mais a revolta e o ressentimento.

A ingratidão poderá bater à porta de tuas experiências na pessoa daquele que menos esperavas, colocando-te a inteligência afetiva em desafio doloroso.

Aceita-a, apesar da dor dilacerante, como aviso de Deus, para te desapegares de anseios e desejos que, possivelmente, te manteriam na retaguarda do progresso.

Se te encontras matriculado na escola terrena nas preciosas lições do espiritismo cristão, cuida-te com atenção quanto ao doloroso teste da ingratidão.

Quando te encontrares ferido pelas pedras da mentira e da injúria, ora pelos que te caluniam e perseguem.

Nas situações da traição e infidelidade, mantém-te sóbrio e perdoa incondicionalmente.

Quando as dores acerbas do desapreço te ferirem, partindo justo daqueles que menos esperavas, busca o Mais Alto e compenetra-te no espírito do idealismo superior que te assegura alívio e estímulo, e conceda à vida o tempo que ela necessita para ajustar à tua volta a ordem natural dos fatos, que te engrandecerão o entendimento e servirão de imprescindíveis disciplinas na aquisição dos valores espalhados pela plenitude do amor e da serenidade.

A ingratidão como retribuição aos benefícios é aferição de dilatada exigência ao trabalhador espírita, a fim de avaliar o aproveitamento dos discípulos nos testemunhos da abnegação e da humildade, do desapego e do amor incondicional.

Serve e prossegue

Realiza e esquece.

Empenha-te e desculpa sempre.

Esse doloroso teste é, em verdade, prova promocional que elevará as possibilidades do servidor nos ofícios doutrinários.

Todos os que, efetivamente, serviram aos ideais de Jesus, foram, em determinado instante, incompreendidos no seu desprendimento e na fieira de seus sacrifícios, sendo taxados de irresponsáveis ou fanáticos, personalistas ou vaidosos.

O exemplo vivo do cristão verdadeiro provoca incômodo ao comodismo dos distraídos, causa dramas de consciência nos que carregam os conflitos da culpa, excitam a inveja naqueles que se sentem fracos e inabilitados, estimula o ciúme em quantos guardam pretensões de domínio e perturbam o relativo equilíbrio dos que ainda não desenvolveram a fé em seus corações.

Firma-te nos programas do bem e ora continuamente. Abandonar, jamais.

Se abandonares o trabalho, estarás assinando um termo de concórdia às reprovações que te são dirigidas. Propõe, ao contrário, diálogo, oração e tempo na solução dos desentendimentos que provocam incêndios nas relações.

Se buscam tolher tuas ações, trabalha ainda mais. Se te doem na sensibilidade as chibatadas do desprestígio, harmoniza-te com os tesouros de afeto e reconhecimento que te emprestam tantos outros amigos que te amam e reverenciam.

Jesus, o Divino Pomicultor, foi taxado de inimigo do bem tão somente porque cumpriu, na prática, a Velha Lei e os Mandamentos. Quem ilumina sempre corre o risco de ser julgado como dominador.

Por mais te sintas apedrejado, levanta o ânimo confiante, porque é nessas horas do doloroso teste que o Senhor espera de ti o amor sacrificial na sublime pergunta: O galardão há em amardes somente a quem vos ama?


Ermance Dufaux 










domingo, 17 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley de Oliveira - Cap. 1 - Diferenças não são defeitos




Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley de Oliveira - Cap. 1


Diferenças não são defeitos


"Sois chamados a estar em contato com Espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes." Um Espirito Protetor, Bordéus, 1863, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 17, item 10.


A unidade Alma de Deus na sua obra - É o sistema regulador da ordem e da evolução, determinando a submissão da criação à Vontade Infalível, Soberana e Justa do Criador.

Unidade, porém, não deve ser confundida com igualdade de condições ou funções, mas de direitos. Ainda assim, os direitos que cada criatura herda do Pai estão submetidos aos Sábios Desígnios da Justiça, que disciplina o progresso evolutivo do ser.

O tronco divino das Leis Naturais cria a ordem e ramifica-se na diversidade por meio do direito humano de escolher seus caminhos. Alguns imperativos, porém, expressam com clareza indiscutível os estatutos a que todos renderão obediência. É assim que todos morrem, se reproduzem, melhoram, pensam, sentem, buscam Deus, retornam ao corpo físico...

Nessa colmeia galáctica, o amor é o fio condutor das diferenças humanas, sob a luz do qual todas as diferenças podem ser superadas, conquanto continuem a existir.

Somente a rebeldia dos homens destoa dos princípios divinos estabelecidos para a perfeição e a elevação. Optando pelos descaminhos do egoísmo, os filhos inconformados escravizaram-se ao reflexo da posse e do poder, pelos quais se instalou em seus campos mentais o doentio regime de competição oculta ou declarada. O propósito básico é a eliminação do outro, seja pela simples indiferença ou mesmo por mecanismos de crueldade. Eliminar as diferenças, quiçá os diferentes.

Domínio e acúmulo passaram a ser perseguidos como metas de felicidade. Diferenças e diferentes que criam obstáculos à consumação dos ideais materialistas são tomados a conta de oponentes, configurando nos milênios uma legítima realidade psíquica embasada em preconceitos e barreiras nos roteiros da vida relacional.

Indiferença significa negar a diferença, não dar importância aos diferentes. O momento, no entanto, chama-nos a ampliar conceitos e a aprofundar a meditação. A melhoria de nossas condições individuais apela para o melhor entrosamento com a diversidade. Buscar a essência de tudo e de todos na formação de uma mais ampla compreensão da vida que nos cerca. Cada criatura, cada acontecimento, cada singularidade, por mais que não desperte interesse ou atração em nossas almas, é um percurso Divino por onde transita o princípio de Soberania da Vontade de Deus.

O problema não são as diferenças, mas as barreiras imaginárias que geramos no campo dos sentimentos em relação ao que acreditamos ser conflituoso ou inconciliável. Fantasias que levam ao desamor - um resquício dos instintos primários.

Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, e não à Sua igualdade.

Como encontrar Deus sem aprendermos a legítima identificação com Sua Obra?

E na obra divina, o próximo é o excelso apelo do Pai concitando-nos a novos rumos em direção ao crescimento e maturidade.

Não existirá Mundo de Regeneração sem convivência pacífica e conhecimento profundo de si mesmo. Avançar no estudo das diferenças, com isenção de conceitos prévios, tentar identificar a mensagem do Pai nas diferenças e, quem sabe, algo aprender com os diferentes, eis o caminho de quem adentra os domínios da sabedoria em busca da alma da vida, na vitória sobre o egoísmo rumo ao porvir regenerativo.

A questão da superação das diferenças está em vencer a si mesmo, e não ao outro. Vencer nossas construções milenares de separatividade erguidas como muros de ignorância e atraso.

Saiamos da condição de querer reduzir o outro ao "mesmo", à igualdade que, em nossos arquivos mentais, não passa de uma caixinha de padrões transitórios e frágeis, aos quais nos apegamos como expressão da verdade pessoal.

A beleza da vida está no ato de todos serem diferentes e terem algo de novo a nos ensinar. Compete-nos nos abrir para esse mundo novo de vivências altruístas e ricas de diversidade.

É o desafio de conviver bem com a particularidade alheia, sem querer, arrogantemente, adaptá-la à nossa visão pessoal.

O mundo, sem dúvida, será um lugar melhor quando prezarmos a diferença alheia como sendo o seu direito inalienável de ser.

E mesmo que não concordemos com a singularidade do outro, cabe-nos, por Dever Universal, proceder no amor com inalterável respeito pelas diferenças, em qualquer tempo e lugar.

Consolidando um exemplo de fraternidade em louvor à lei do bem.

"Sois chamados a estar em contato com Espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes."

Diferenças não são defeitos!


Ermance Dufaux








sábado, 29 de agosto de 2020

Ermance Dufaux - Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley S. Oliveira - Cap. 6 - A importância do olhar



Ermance Dufaux - Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley S. Oliveira - Cap. 6


A importância do olhar


"O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um, apenas superficialmente, os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso,porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual." - Dufêtre, bispo de Nevers. (Bordeaux)  (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. X - A indulgência, item 18)


Abraço, afago, carinho, beijo, sorriso, palmas, sexualidade, aperto de mãos, acenos, braços entrelaçados - expressões corporais de afeto.

Depois da sexualidade, o olhar é o instrumento de comunicação corporal mais poderoso que temos. É a tela que se estampa na face dinamizando a linguagem vibratória dos sentimentos.

Jesus já ressaltava: "A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz". Mateus, 6:22.

Pelo olhar expressamos os mais secretos sentimentos da alma, até mesmo aqueles que queremos esconder de nós próprios. O dominador, hábil leitor das emoções através do olhar, sabe bem o que isso significa. 

Força ativa de propulsão e despertamento da atração, antena emissora e receptora das emoções, os olhares são como espelhos daquilo que sentimos. Mesmo havendo desenvolvido o hábito de disfarçar o olhar, na tentativa de esconder do outro o que realmente se sente, é preciso que o homem encarnado se conscientize de que a vibração energética daí decorrente não consegue se ocultar de ninguém. Deixamos sempre os ambientes impregnados do que cultivamos no coração, provocando encontros e reencontros orquestrados por leis magnéticas determinantes e ainda pouco conhecidas.

"Teus olhos são a candeia do corpo" disse Jesus na sua sabedoria profunda, acrescendo que, se tiverem luz, todo o teu corpo irradiará em luminosidade.

A visão é o sentido físico que mais processa informações para o cérebro. Estima-se que nove décimos dos estímulos captados do exterior sejam veiculados pelos olhos,enquanto um décimo seria dividido entre os outros quatro sentidos.

Uma cor, um movimento, uma paisagem, uma frase, um minúsculo episódio, tudo isso captado pela visão pode alterar o campo psíquico e emocional com mudanças instantâneas.

A forma como vemos a vida, as pessoas e tudo o que acontece à nossa volta tem decisivo valor sobre o mundo íntimo, no que diz respeito a mantê-lo afinado ou desafinado com as propostas de crescimento e libertação espiritual.

Sabendo disso, vigiemos e estudemos com atenção os olhares, sobretudo aqueles que lançamos uns sobre os outros na vida interpessoal. Cuidemos de estabelecer uma análise rigorosa e sem temores sobre os sentimentos movimentados em nosso íntimo ante as estimulações provocadas pela presença alheia em nossa vida.

O que sentimos sobre o que vemos é aquilo que, de fato, somos. O olhar para fora nos revela o mundo inconsciente desconhecido de nós mesmos, razão pela qual se torna fonte fecunda de autoconhecimento.

Os olhares, em todos os tempos, têm sido os canais de comunicação dos sentimentos, formando os climas psíquicos das relações humanas, construindo a felicidade ou a derrocada moral.

Existem olhares de interesse, lascívia, censura, aprovação, desdém, repulsa, carinho, doçura, energia, autoridade, paixão, tristeza, paz e alegria. Existem olhares de domínio, que hipnotizam e fazem sofrer; e olhares de elevação, que libertam e dulcificam.

Aprendamos a sondar nossa vida afetiva pela visão espiritual, habilitando-nos à leitura do magnetismo visual, e utilizemos esse recurso potencial em favor de nossa melhoria na educação afetiva a que nos propomos à luz das diretrizes do amor.

Que os nossos olhos sejam sempre uma fonte viva na estimulação dos mais elevados sentimentos com quantos venhamos a conviver, refletindo nas atitudes o espírito do bem em nossas vidas.

Para quem anseia por liberdade e leveza em torno de seus passos, não existe atitude mais apropriada do que extrair o lado melhor da vida, dos acontecimentos e do próximo, mantendo sempre o olhar na luz que clareia o raciocínio e sublima o sentimento.

Como ensina o bispo de Nevers: "embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual".


Ermance Dufaux






sexta-feira, 17 de julho de 2020

Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley S. Oliveira - Cap. 21 - Simplicidade, admirável virtude



Ermance Dufaux - Livro Diferenças não são defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Wanderley S. Oliveira - Cap. 21


Simplicidade, admirável virtude


"Ele toma uma criança como tipo da simplicidade de coração e diz: "Será o maior no reino dos céus aquele que se humilhar e se fizer pequeno como uma criança, isto é, que nenhuma pretensão alimentar à superioridade ou à infalibilidade." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VII, item 6)

Não foi sem razão que Jesus escolheu o homem simples para a composição inicial de seu ministério de amor.

As pessoas dotadas de simplicidade são solidárias, prestativas, disponíveis, aptas a servir, porque nada exigem intimamente que lhes impeça a prontidão espiritual,a disposição de ser útil. 

Parafraseando o dicionário humano, simplicidade é a qualidade do que é simples, do que não apresenta dificuldade nem obstáculo. Simplicidade, caráter próprio não modificado por elementos estranhos. Essas conceituações nos auxiliam em nossas ponderações doutrinárias, porque a simplicidade é a ausência do ego sombrio - o orgulho. Ser simples é não ser composto da adição de algo que nos faz complexo, tal como a vaidade.

Simplicidade é um estado de consciência no qual a criatura em processo de amadurecimento integral não se deixa encantar com o supérfluo da vida, sabendo manter sintonia constante com o essencial na manutenção de sua paz interior.

A solidariedade é mais espontânea e abundante naqueles que se comportam de maneira simples, graças ao fato de serem dotados de leveza no ser, livres das tensões das normas excessivas, provocadas pelos complexos mecanismos do orgulho, que os obriga a se apresentarem ao mundo como uma cópia irreal de si próprios.

O orgulho opera complicadas situações para a vida mental de todos nós. Estabeleçamos alguns reflexos costumeiros de sua presença:

Criação de uma imagem superlativa e fictícia de si mesmo; um modelo mental artificial.

Atitude de discriminação em razão desse modelo, fugindo da alteridade.

Ausência de proximidade afetiva em função de padrões elevados de autoconceito.

Tendência a ser complexo, perfeccionista e desculpista perante as próprias falhas.

Excessiva preocupação com o que os outros pensam a seu respeito.

Somente esses itens, se estudados com mais atenção, são suficientes para comprovar a complexidade gerada pela formação desse ego sombrio.

Analisando seus efeitos perniciosos na vida espírita, encontraremos variadas manifestações de sua presença nas atividades de rotina e nas relações, realçando o personalismo que ainda nos escraviza, adiando ainda mais a aplicação da fraternidade legítima nos relacionamentos.

Um dos exemplos mais rotineiros nesse tema é a soberba, o orgulho do saber, que direciona a vida mental a acreditar que conhecimento, por si só, é referência de grandeza espiritual e libertação interior. Aprisionados a esse infeliz reflexo de egoísmo, muitos companheiros de ideal adotam sua visão e entendimento como a expressão da verdade, repetindo velho hábito pertinente à maioria de nós: enxergar o mundo por sua única e exclusiva ótica. Semelhante estado moral pode ser comparado a praga indesejável nas movimentações da gleba espírita.

Tomando por base os cincos itens analisados acima, façamos um apanhado de seus respectivos efeitos em nossas tarefas abençoadas:

Personalismo declarado em forma de opiniões e entendimento pessoal sobre temas e acontecimentos.

Exclusão de tudo e todos que não se ajustem à verdade pessoal.

Mais "amor" a sua autoimagem do que às pessoas.

Muito movimento e desgaste para pouco resultado.

Expectativa acentuada de reconhecimento e compensações.

Devemos lembrar que a vida, hoje mais que nunca, inclina-nos à parceria e à cooperação como sendo o processo ideal de crescimento social e método educativo de insubstituível adequação, na criação de elos gratificantes entre os cidadãos de uma comunidade. De tal forma que a velha postura "professoral", centrada em elevada carga de preciosismo e individualismo, com opiniões fechadas e definitivas, são condutas que tendem a ser repelidas pela convivência no lar, na profissão, nas escolas e, evidentemente, também nas organizações espiritistas. A palavra de ordem das relações humanas hoje é troca, permuta. E por que não nomeá-las como relações solidárias?

Sendo assim, a simplicidade de comportamento no modo de ser tem lugar privilegiado na hora que passa.

A ausência da atitude de simplicidade tem tolhido os atos de fraternidade e solidariedade, destacadamente, entre quantos guardam maior responsabilidade na comunidade doutrinária, em razão da ampliada visão crítica que possuem na condução de grupos, levando-os a revanchismos ideológicos improdutivos na suposição de que seja essa a solução ideal para os conflitos, quando, em verdade, deveriam se fazer mensageiros solidários, estendendo propostas comprovadamente eficientes e de solidez ante os problemas que constatam.

Ser simples, porém, não deve ser confundido com ser iletrado, piegas, tolo, subserviente e relapso. A simplicidade é um estado íntimo de consciência do autovalor sem as ilusões fascinantes do orgulho, que projeta miragens de prepotência, megalomania e indisfarçável narcisismo. 

Kardec, por exemplo, era um homem acadêmico extraordinariamente bem formado, um intelectual da era do positivismo em Paris, a capital da cultura humana à sua época; um escritor de pena rara, um educador que teve a chancela de um dos maiores nomes da arte de educar, que foi Pestalozzi. No entanto, o codificador era um coração simples, sem deixar de ser intelectualmente sóbrio. Era um homem espontâneo sem perder a vigilância. Isso porque a simplicidade não dispensa os cuidados com a atenção e a prevenção que devemos ter para com a nossa existência.

Jesus, o educador excelente, para ensinar sobre quem seria o maior no reino dos céus, tomou, interativamente, em meio a seus aprendizes, de uma criança, conferindo-lhes inesquecível lição sobre a simplicidade de coração, condição elementar para a maioridade espiritual. E João Batista, o fiel defensor da justiça, reconhecendo a grandeza do Mestre, declarou a sua conhecida e instrutiva frase "é necessário que eu diminua e que ele cresça", entregando-nos uma das mais valorosas recomendações de segurança para a manutenção da simplicidade nas nossas ações, ante o serviço da causa de amor que assumimos em nossas vidas.


Ermance Dufaux



*João, 3:30. 





Fonte: Diferenças não são defeitos-pdf