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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 16 - Sob a Luz do Amor



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 16


Sob a Luz do Amor


“Os grupos que se ocupam exclusivamente com as manifestações inteligentes e os que se entregam ao estudo das manifestações físicas têm cada um a sua missão. Nem uns, nem outros se achariam possuídos do verdadeiro espírito do Espiritismo, desde que não se olhassem com bons olhos; e aquele que atirasse pedras em outro provaria, por esse simples fato, a má influência que o domina. Todos devem concorrer; ainda que por vias diferentes, para o objetivo comum, que é a pesquisa e a propaganda da verdade. Os antagonismos, que não são mais do que efeito de orgulho superexcitado, fornecendo armas aos detratores, só poderão prejudicar a causa, que uns e outros pretendem defender.” (O Livro dos Médiuns – Cap. 29 - item 348)

Interessante analisar, daqui para o mundo físico, a influência marcante de velhas ilusões que carreamos para os ofícios de reeducação na sementeira espiritista.

Quando aqui aportamos temos melhor dimensionada as percepções que nos permitem lançar um novo olhar sobre os esforços gerais no bem, fazendo-nos concluir que trabalho algum é dispensável, e todos, conquanto suas deficiências, concorrem para o progresso da causa.

No entanto, em regressando ao corpo físico, invadidos pelas milenares miragens do orgulho, costumamos entender nossa tarefa como a melhor e essencial, nossos conceitos como sendo a mais valiosa expressão da verdade e a nossa participação como admirável missão que nos eleva acima dos demais.

A despeito de erguermos juntos o estandarte da caridade, vezes sem conta abandonamos o imperativo de aplicá-la também nas nossas relações com quantos nos partilham o clima das atividades doutrinárias.

Retifiquemos essa miopia da visão espiritual.

Passemos a compor o escasso grupo daqueles que incentivam e sabem respeitar os esforços alheios, sejam quais forem.

Disciplinemos a tendência de excluir, e quando destacarmos falhas recolhamo-nos na ação indulgente ou mesmo ao silêncio e oração.

Valorizemos nossa atuação sem desprezar a de outrem.

Cerremos esforços na direção que melhor atenda as nossas crenças sem alimentar o anseio de ser seguido. Recordemos que ninguém está obrigado a tal mister, da mesma forma que não temos a implicação de seguir ninguém.

Façamos isso em favor de nossa paz e da ordem geral nos nossos campos de trabalho redentor.

Lembremos velho rifão das esferas extrafísicas que diz “nenhum caminho para o bem é dispensável, mas nenhum de nós é insubstituível nos serviços de Deus”, remetendo-nos a concluir que, se toda tarefa é valorosa, certamente nenhuma depende de nós...

Em verdade, habitualmente, o excessivo valor que conferimos às realizações com as quais cooperamos é o mesmo que emprestamos à nossa personalidade sob as lentes da vaidade...

Em razão disso, anotemos duas metáforas oportunas.

O movimento espírita pode ser comparado a estimável universidade do Espírito; as instituições são as áreas específicas de aperfeiçoamento e cada tarefa pode ser entendida como uma classe que reúne um certo número de aprendizes.

Nesse concerto de educação e melhoria, todos temos o valor pessoal e intransferível no aproveitamento das lições na construção de nosso saber eterno.

Noutra imagem podemos conceber a Seara como um incomparável hospital da alma; cada grupamento assemelha-se a uma especialidade de recuperação e cada atividade a uma enfermaria de convalescença. 

Nesse ambiente de tratamento e prevenção, todos temos nossas doenças a cuidar com medicações individuais na busca de nossa alta.

Aprendizes e enfermos, eis o que “estamos”!

Portanto, ante os assaltos ilusórios do personalismo no que tange a comparações e julgamentos, fiquemos com o Codificador que acentua: vias diferentes, objetivos comuns, para a propagação da verdade, conforme a nossa referência supra destacada.

Amigo do coração,

Estejas convicto de que, apesar de tuas reservas com os deveres alheios no bem, Deus conta com eles.

Envolve-te na psicosfera do Amor, se desejares entender os planos do Pai para com aqueles aos quais ainda não consegues devotar apreço, entendimento e admiração incondicionais.

É natural que enxergues elitismo nos que estudam com afinco, já que por agora não despertastes ainda tanto quanto deveria para a importância do conhecimento na felicidade dos homens.

Compreensível que não entendas os eloquentes do verbo libertador, já que ainda não te sensibilizastes o bastante para o benefício de impor disciplina a teu próprio linguajar diário.

Honesta de tua parte a preocupação com o excesso institucional, sabendo que teu incômodo é sinal do aprendizado que tens urgência em aquilatar para que não cometas a mesma distração.

Aceitável que destaques personalismo naqueles que cumprem a rotina das honrarias e cargos, uma vez que não dominastes por enquanto tuas manifestações de vaidade em pequenos lances da existência.

Sincero de tua parte supores que o farnel distribuído é fonte de preguiça, considerando que ainda não amealhastes suficiente experiência da doação de si mesmo junto aos deveres materiais no lar e na profissão.

Justo tua inconformação com a coleta de recursos para eventos de confraternização e estudo, uma vez que ainda não arregimentaste melhores concepções sobre a urgência da união entre grupos de interesse comum.

Razoável cobres da conduta do próximo aquilo que ainda não conseguiste implementar na tua própria vivência, e que julgues os denodos de Amor dos outros conforme seus limites de atuação.

Contudo, se queres amealhar paz e sabedoria para tua vida, sobrepõe-te a todas essas questiúnculas da existência, que são sombras do egoísmo, e envolve-te no afeto cristão, sendo cortês, generoso e terno com tudo e com todos, educando-te no amor indistinto e incondicional perante as diferenças e os diferentes que te circundam a experiência carnal.

Vai, experimenta e verás!

Verás o que acontece quando optares pelo Divino sentimento ao encontro de teus irmãos, sob a luz do amor.


Ermance Dufaux











segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 7 - Condutores Afetuosos



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 7


Condutores Afetuosos


“Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor, há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram. O silêncio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em família. As grandes assembleias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessário nos pequenos grupos.” (O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - Item 335) 

Sorriso irradiante, cordialidade contínua, conhecimento haurido na vivência, conduta íntegra, afeição indiscriminada, eis algumas das marcas dos “dirigentes emocionais”.

Habituados a conduzirem-se pelo coração, são dotados de uma sabedoria espontânea adquirida na solução de suas problemáticas interiores; e porque convivem bem consigo, são afáveis e agradáveis no conviver com os outros.

Atos de equilíbrio, intuição e bom senso lhes são costumeiros, já que são portadores de harmonia e serenidade.

Condutores afetuosos são os que acolhem com cuidados especiais os seus tutelados e desvelam com carinho pelos deveres da tarefa.

Nos dias que passam, tornam-se como polos atrativos de almas, graças à sede de atenção e ternura em que se encontram a grande maioria dos corações, sofridos e carcomidos em suas energias pelas provas dolorosas da reencarnação.

Como dispõem sempre de afeto cristão, fazem-se fonte de estímulo, esperança e diretriz no encaminhamento das soluções a quem recorrerem os que lhe partilham a convivência.

Apoiam, sem conivência.

Ajudam, sem paternalismo.

São afetuosos, sem pieguismo.

Ordenam com despretensão, dividindo responsabilidade.

Discordam, ampliando horizontes.

Promovem, confiando compromissos.

Coordenam com atitudes, além das palavras.

Pelas reações é que conhecemos o nível de afeto e inteligência emocional dos condutores em harmonia com Jesus.

Onde muitos enxergam problemas, eles percebem soluções.

Enquanto muitos desanimam, sua leitura é de que os obstáculos são sinais do caminho exato.

Se são criticados, asilam piedade no coração.

Quando vilipendiados, só se lembram da oração.

Condutores afetuosos são o esteio das sociedades espíritas fraternas. A eles compete a relevante tarefa de zelar pelo dever de toda instituição doutrinária no melhoramento moral-espiritual. Conduzindo as atividades para esse fim, certamente facultarão aos seus conduzidos um campo afetivo de largas proporções na execução das mais belas semeaduras nos terrenos da espiritualização do ser, e no  desabrochar dos melhores sentimentos entre todos os que se entrelaçam no clima da lídima fraternidade.

Cuidando manter uma homogeneidade de visão quanto a esse precípuo compromisso de todo espírita, estabelecerão condições à uniformidade do afeto nas expressões da amizade, dos relacionamentos sólidos e do estímulo advindo dos exemplos salutares uns dos outros, entre seus membros, porque todos estarão matriculados nas disciplinas da renúncia, do trabalho, do respeito fraternal, da solidariedade, que são virtudes indutoras da autoeducação e do crescimento espiritual. 

Vibrando em faixas de saúde afetiva, os componentes de seu grupo obterão melhores resultados no labor, mais motivação para os encontros diuturnos, e se formará uma rede de corações estendendo bênçãos de conforto e esclarecimento a tantos outros quantos possam beneficiar de semelhante banquete emocional.

Tomando seu grupamento como uma grande família, esmerará por lhes oportunizar as melhores condições de convivência pelo entendimento.

Adotando simplicidade administrativa e proximidade com grande “calor humano”, conseguirá tornar o centro espírita um educandário do afeto em direção aos rumos da ética de Jesus e Kardec, evitando que discórdias e desavenças venham a se tornar uma propaganda negativa para sua instituição. Para isso, ocupar-se-á em manter o “tamanho afetivo” de seu grupo, ou seja, ainda que ele cresça em número, deverá fazê-lo preservando, proporcionalmente, a mentalidade inicial de ser uma família e de se amarem sem exceções.

Allan Kardec, o condutor espírita exemplar, reunia em si a sobriedade intelectual e a generosidade, a sensatez e a ternura, o raciocínio vigilante e o acolhimento fraternal. Ele foi o primeiro dirigente espírita, e quem lhe empresta caracteres de um homem de ciência não imagina como era um coração rico de humor e de palavras espirituosas, com finas expressões de descontração.

Na Sociedade Parisiense era querido e respeitado, conquanto alvo de inveja e intrigas, face à conduta ilibada e à confiança irrestrita que lhe depositavam ante as cortesias e gestos amoráveis que externava.

Sempre acompanhado por Amelie, compunham um par de almas que plenificavam o ambiente em dúlcida paz.

O tratamento afetuoso era-lhe constante qualidade, e pelo Amor que nutria ao Espiritismo nascente não lhe era enfadonho repetir sua gratidão a Deus por ter-lhe descortinado os horizontes da vida espiritual que, para ele, era a fonte da alegria, do amor e da felicidade relativa que qualquer homem passaria a semear quando se tornasse um verdadeiro espírita.

Assim, o Codificador ajustava sua existência à finalidade primeira do Espiritismo, para a qual conduziu-se com rigor para consigo e amavelmente para com os outros, junto à Sociedade que fundou, buscando sempre priorizar no contato com o mundo dos Espíritos a essência moral dos intercâmbios, através de estudos metódicos e aplicados nos quais todos absorviam a essência do Espiritismo por um mundo melhor. 


Ermance Dufaux 









segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 6 - Habilidade Essencial



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 6


Habilidade Essencial

 
“ (...) a caridade e a tolerância são o dever primário que a doutrina impõe a seus adeptos.” O Livro dos Médiuns — capítulo 29 — item 335


O exame meticuloso dos erros alheios, ao longo das vidas sucessivas, conferiu-nos ampla capacidade de analisar as imperfeições do próximo.

Hoje, graças a essa habilidade de avaliar a conduta alheia, somos exímios “juízes e psicanalistas”, dotados de vastas possibilidades de encontrar causas e razões para os desatinos que ocorrem fora da esfera do “eu”.

O que se torna lamentável é não utilizarmos tal recurso para reerguer e auxiliar no aprimoramento do próximo, sendo que, habitualmente, o usamos para destacar o “lado” ruim e amargo de tudo e de todos.

Deter-se nesses ângulos sombrios é atitude comum para a maioria dos homens nas experiências carnais. Espera-se, entretanto, de nós outros, os aprendizes espíritas, maior lucidez nas ações. Nosso desafio enquanto discípulos é saber manter-se afetivamente focado no “lado” bom, nas qualidades, nos instantes bem sucedidos de alguém, conquanto tenhamos vastas possibilidades de perceber-lhes as imperfeições e mazelas.

A essa qualidade chamamos indulgência.

É a habilidade que consignamos como essencial frente aos imperativos da convivência social, quando temos como meta primacial a própria paz e o progresso dos grupos sob nossa tutela, ou nos quais ofereçamos a cooperação.

Sempre encontraremos motivos para a ofensa, a recriminação, a transferência de culpas, para depreciar a movimentação alheia, para rebaixar o outro.

Compreender, estimular, perdoar, reconhecer os valores alheios, dividir responsabilidades, apoiar, orientar, ser afetuoso, tudo isso é bem mais trabalhoso.

Indulgência é habilidade que qualifica o homem com abundante inteligência emocional.

O coração focado no aspecto “sublime da vida” torna a alma generosa e atraente, cuja irradiação é de aceitação e acolhimento.

Jesus, como sempre, é o modelo. Em momento algum do seu ministério de Amor o percebemos em atitude de destaque ao mal; embora astuto e vigilante, sabia sempre onde ele se ocultava e procurava erradicá-lo sem que o evidenciasse.

Com a pecadora, lembra o “quem estiver isento de pecados atire a primeira pedra”.

Com o paralítico de Cafarnaum não pergunta como algemou-se ao leito e perdoa seus pecados.

Com Pedro antecipa sua negação em clima pacífico de alerta, sem menosprezá-lo, em pleno respeito a seus limites no campo da coragem.

Com Judas usa de Amor extremado sabendo o que ocorreria posteriormente, mas permanecendo em silêncio evita revelar o “mal” de que ele próprio seria “vítima”.

Com Maria de Magdala fá-la mensageira da ressurreição, inaugurando o tempo da misericórdia ante o esforço reeducativo, esquecendo o passado ignominioso.

Alertar e repreender são instrumentos corretivos necessários para não ensejar omissão e conivência. Entretanto, para quantos cultivam a habilidade essencial da indulgência, o ato de conclamar o outro à integridade é realizado sempre pelo diálogo franco, fraterno e elevado, sem as típicas “neuroses de melindre” nutridas por receios entre quem fala e quem ouve, fazendo dessas conversas educativas verdadeiros momentos de reconsideração e autoexame para a transformação necessária a ser encetada.

Relações permeadas na indulgência são educativas, ressaltam e fixam valores e estimulam o autoamor, o autoperdão.

Assumamos o compromisso renovador de descobrir em cada passo da existência as justificativas saudáveis do “agir humano”, buscando as razões profundas dos atos alheios, a fim de penetrarmos as furnas de suas lutas espirituais na condição de enfermeiro socorrista, disposto a atender, remediar e prevenir enfermidades com as quais, muita vez, nem mesmo seus portadores conseguem avaliá-las com a lucidez por nós desenvolvida nos séculos de vivência no hábito da formação de juízos éticos sobre o comportamento alheio.

O ser humano está doente na sua autoestima e reforçar-lhe aspectos infelizes de sua ação é onerá-lo com mais sombras e dor.

Nos grupos de nossa ação estejamos atentos a semelhantes lances da escola dos relacionamentos.

O companheiro ofendido pela nossa atuação enérgica é, muita vez, alguém decepcionado com as próprias expectativas que nutria sobre nós. Auxiliemo-lo com cortesia e generosidade, no entanto, se ele recusa a oferta, sigamos adiante sem fazer achaques emocionais de pieguismo e arrependimento.

Se aqueloutro amigo de atividades espirituais apresenta-se sempre vacilante e descuidado com os compromissos assumidos, lembra que, em muitas ocasiões, ele não é mais que um aluno portador de ânimo débil, incapaz de superar velhos limites pessoais para denodar-se como deveria. Aceita-lhe o tributo inconstante e vai-lhe demarcando referências corretivas, para que possa melhor aquilatar sobre as conseqüências de sua volubilidade no andamento das realizações às quais integra.

Nódoas e empeços de variados matizes comparecerão nos serviços do Senhor. Por esse motivo procuremos sempre o “caminho estreito” e, se nessa enfermaria das lides espiritistas esquecermos a nossa condição de doentes, subtrairemos de nós mesmos as chances de recuperação e melhora. Na própria enfermaria humana, quando os doentes percebem a extensão de seus dramas, unem-se solidariamente uns aos outros, cada qual oferecendo o que pode, e solidariedade é o nome da indulgência ativa e promotora de paz e apoio às relações.

Cultivemos, dia após dia, essa habilidade essencial e consagremos vida nova com mais abundância de bênçãos, desonerando o próprio psiquismo das enfermiças fixações negativistas que costumamos encontrar ao nosso redor.

Anotemos alguns prováveis resultados das fixações sombrias despejadas sobre o mundo e as pessoas:

- Açulamento de maus sentimentos.

- Climas inamistosos.

- Inviabilização para as mudanças necessárias.

Misericórdia, tolerância máxima, eis as medicações apropriadas de uns para com outros, assim como lembrou José na seguinte colocação:

“Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita” — O Evangelho Segundo o Espiritismo — capítulo 10 — item 16 — José, Espírito protetor (Bordéus, 1860.) 


Ermance Dufaux  












domingo, 5 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderlei Oliveira - 2ª Parte - A Pedagogia do Afeto na Educação do Espírito - Cap. 20 - Plenitude na Gratidão



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderlei Oliveira - 2ª Parte - A Pedagogia do Afeto na Educação do Espírito - Cap. 20


Plenitude na Gratidão


“Que importa crer na existência dos Espíritos, se essa crença não faz que aquele que a tem se torne melhor?” O Livro dos Médiuns — Cap. 29 — item 350 


Deus é Amor e compaixão plena. 

A vida é a expansão das benesses Divinas que nos fazem “credores universais” em busca de quitação dos saldos de misericórdia por Ele espargidas. 

O matemático Frei Luca Pacioli estabeleceu em 1494 os princípios fundamentais da contabilidade humana, consignando que aquilo que se recebe é débito, enquanto a quitação é crédito e desobrigação. 

Semelhante princípio nos balanços da economia empresarial reflete a Lei Universal do Amor. 

Quanto mais se dá, mais se tem; quanto mais se exige, mais se priva. 

Dar é crédito, receber é débito. Só temos aquilo que damos, e o Amor tem esse “milagre”: quanto mais se dá, mais se tem. 

De posse dessa perspectiva, listemos algumas de nossas contas, a fim de verificarmos se temos os saldos que costumamos esbanjar ante as exigências de todo dia. 

Renascer no corpo físico, dívida com o recomeço e a esperança. 

Acolhimento dos pais, dívida com a gratidão e a prole. 

Escola para instruir, dívida com o saber. 

Mestras desveladas, dívida com a generosidade. 

Arrimo dos amigos, dívida com a cooperação e o estímulo. 

Benfeitores inesquecíveis, dívida com o amparo. 

Profissão para exercer, dívida com a sociedade. 

Orientação espiritual, dívida com o Espiritismo. 

Natureza exuberante, dívida com o planeta. 

Alimento nutriente, dívida com o agricultor. 

Tecnologia facilitadora, dívida com os inventores. 

Medicação refazente, dívida com os cientistas. 

Diversão e lazer, dívida com o tempo. 

Cultura a disposição, dívida com o livro. 

Empregados dedicados, dívida com a obediência. 

Patrões solidários, dívida com o apoio. 

A roupa que vestimos, o conforto dos lares, os recursos amoedados, a saúde e a prosperidade, conquanto sejam recursos amealhados na faina diuturna do progresso pessoal, só se tornaram possíveis porque, antecedendo às vitórias de cada dia, foram alvo de uma previsão na erraticidade, com endosso de avalistas dispostos a tutelar nossos planos reencarnatórios, contemplando-nos com condições mínimas para lograr o sucesso em várias situações da existência. Dessa forma, os recursos mínimos para empreender vitórias maiores constituem dívidas com os “ativos da vida”, ante a Contabilidade Divina. 

Somente o egoísmo humano, travestido em usura e insensibilidade, pode levar o raciocínio a encharcar-se de materialismo na supervalorização da movimentação pessoal, a ponto de colocarmo-nos como centro exclusivo dos nossos êxitos, sem contabilizar a extensão de amparo da Divina Providência. 

A vida é um processo de permutas contínuas e o que foge de respirar nessa lei padece as injunções da própria lei, decretando que até aquilo que parece termos pode nos ser tirado. (1) 

Essa a razão pela qual apontamos a ingratidão como sendo um dos maiores corrosivos da sensibilidade e do Amor. Ela “apaga” da memória os benefícios do ontem e antecipa obstáculos em relação ao amanhã. 

Ser grato é ser melhor e crescer; é ter na lembrança os benfeitores de ontem, é aprender a fixar-se nas circunstâncias felizes da existência, é devolver à vida os créditos que nos beneficiaram, é aprender a superar queixas e desgostos com a reencarnação dilatando o espírito de desprendimento e aceitação, sem deixar de buscar o progresso. 

Dar é ter. Reter é emissão magnética de atração dos reflexos do medo, da insegurança e da cobiça com os quais insculpimos nossa derrota a longo prazo, projetando a nossa volta os efeitos infelizes que espelham tal estado íntimo. 

Dessa forma, o materialista vê no outro o reflexo da competição e o categoriza como concorrente. O medroso vê no próximo o reflexo de seu temor e nomeia-o como inimigo, O inseguro expande sua emoção e vê-se no outro, classificando-o dilapidador. 

Estejamos atentos a essa lição de afeto de todo instante, a fim de aprendermos a sublime lição da gratidão, mantendo-nos em constante estado de satisfação e alegria com as experiências da vida. 

Pessoas gratas atraem bênçãos, vibram saúde, são dotadas de otimismo, entendem a dor, alimentam-se de altruísmo, são fortes ante as lutas, adoram gente e sentem-se bem ao lado de todos. 

Os gratos ocupam-se em doar-se sem se consumirem em ansiedades e aflições sobre como vão lucrar vantagens. 

Corações agradecidos sentem-se gratificados, embora nem sempre se verifique o inverso. 

Os gratos sabem perdoar com mais facilidade, desculpar instantaneamente e prosseguir sem fixações em fatos desagradáveis. 

Agradeçamos com sentida oração a Jesus e a Kardec as felizes ensanchas de refestelarmo-nos nas ambiências espíritas, mesmo com os agastamentos nos grupamentos, mesmo com as incongruências que observamos. 

O Amor é a mais profunda e gratificante experiência da jornada evolutiva do Espírito. 

Amando, credenciamos à vida os recursos para nossa felicidade. Exigindo o Amor, debitamos o tributo da paz em nossa conta pessoal. 

Procura vivenciar o afeto enobrecedor entre irmãos de ideal, dá de ti mesmo, seja o provedor afetivo de teu grupo. 

Aprende a amar, incondicionalmente, e perceberás como é mais preenchedor que ser amado. 

O habitual é que todos esperem ser amados. Seja você aquele que realiza o gesto incomum e irradie os nobres sentimentos do Cristão, mesmo que deles careça. A vida, evidentemente, te responderá. 

Senhor, receba nossa gratidão pela extensão de tua bondade. 

Mesmo esquecidos de teu amor nas variadas formas de auxílio com que nos abençoas, agradecemos agora com sentida oração a oportunidade da existência. 

Gratos pelo lar e pela Terra que nos acolhe, gratos pela saúde e o corpo que nos ofertaste, gratos pelo luminoso caminho espírita, receba nossos sentimentos de louvor. 

Sabendo, porém, O Pai, do quanto somos distraídos e inconsequentes em esbanjar qualidades e recursos que ainda não nos pertencem, suplicamos o teu acréscimo de Misericórdia em favor de nossa fragilidade nos dias vindouros. 

Ajuda-nos a honrar com atos o reconhecimento dessa hora, mantendo-nos na plenitude da gratidão, irradiando a constante alegria de viver e de “ser” ante os labirintos das provações. 

Obrigada Senhor! 


Ermance Dufaux







(1) Mateus, capítulo 25, versículo 29


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderlei Oliveira - 1ª Parte - A Pedagogia do Afeto na Educação do Espírito - Cap. 2 - Aprender a amar



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderlei Oliveira - 1ª Parte - A Pedagogia do Afeto na Educação do Espírito - Cap. 2


Aprender a amar


Escutamos frequentemente frases que constituem atestados de incompatibilidade ou admiração instantânea em relacionamentos, emitidas rotineiramente nas diversas rodas de convivência, definindo alguns sentimentos que temos pelo outro como se fossem predestinados e definitivos.

Convivemos, comumente, “ao sabor” daquilo que sentimos espontaneamente por alguém.

Consideremos nesse tema que o Amor não é um automatismo do sentir no aprendizado das relações humanas, como se houvessem fatores predisponentes e inderrogáveis para gostar ou não dessa ou daquela criatura.

Amar é uma aprendizagem. Conviver é uma construção.

Não existe Amor ou desamor à primeira vista, e sim simpatia ou antipatia. Amor não pode ser confundido com um sentimento ocasional e especialmente dirigido a alguém. Devemos entendê-lo como O sentimento Divino que alcançamos a partir da conscientização de nossa condição de operários na obra universal, um “estado afetivo de plenitude”, incondicional, imparcial e crescente.  

O Amor é crescente no tempo e uniforme no íntimo, não tem hiatos. Mesmo entre aqueles em que a simpatia brota instantaneamente, Amor e convivência sadia serão obras do tempo, no esforço diário do entendimento e do compartilhamento mútuo do desejo de manter essa simpatia do primeiro contato, amadurecendo-a com o progresso dos elos entre ambos.

Sabendo disso, evitemos frases definitivas que declarem desânimo ou precipitação em razão do que sentimos por alguém. Relações exigem cuidados para serem edificadas no Amor, e esse aprendizado exige os testes de afeições no transcorrer dos tempos.

E se nos guardamos na retaguarda moral e afetiva, esperando que os outros melhorem e se adaptem às nossas expectativas para com eles, a fim de permitirmo-nos amá-los, então, certamente, a noção de gostar que acalentamos é aquela na qual ainda acreditamos que Deus faculta isso como Dom Divino e natural em nossos corações conforme a sua vontade. Encontrando-nos nesse patamar de evolução, nada mais fazemos que transferir para o Pai a responsabilidade pessoal do testemunho sacrificial, na criação de elos de libertação junto a quantos esposam nossos caminhos nas refregas da vida.

Amor não é empréstimo Divino para o homem e sim aquisição de cada dia na aprendizagem intensiva de construir relacionamentos propiciadores de felicidade e paz.

Espíritas que somos temos bons motivos para crer na força do Amor, enquanto a falta de razões convincentes tem induzido multidões de distraídos aos precipícios da dor, porque palmilham em decidida queda para as furnas do desrespeito, da lascividade, da infidelidade, da vingança e da injustiça, em decrépitas formas de desamor.

A terapêutica do Amor é, sem dúvida, a melhor e mais profilática medicação do Pai para seus filhos na criação.

Compete-nos, aos que nos encontramos à míngua de paz, experimentá-la em nossos dias, gerando fatos abundantes de Amor, vibrando em uníssono, com as sábias determinações cósmicas estatuídas para a felicidade do ser na aquisição do glorioso e definitivo título de Filhos de Deus.

E se esse sentimento sublime carece aprendizagem, somente um recurso poderá promover semelhante conquista: a educação.


Ermance Dufaux










segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 4 - Kardec e a Educação Integral



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley de Oliveira - Cap. 4


Kardec e a Educação Integral


Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.” (O Livro dos Espíritos - Questão 642)


Conhecida parábola da cultura oriental fala de uma senhora que resolveu abrigar um sábio guru no quintal de sua residência. Deu-lhe comida, abrigo e tranquilidade para que o homem de meditações pudesse cumprir sua missão.

Certa feita, desconfiada sobre a integridade do guru, resolveu aplicar-lhe uma prova.

Contratou a preço de cinco moedas de ouro uma belíssima vendedora de ilusões e bailarina para aferir a resistência do homem santo.

Na noite aprazada lá estava ela na cabana, tentando incendiar os apetites inferiores do guru com a sensualidade e a beleza. Bailou, despiu-se, provocou, mas o homem era de “gelo”, mantinha-se impassível, quieto, em estado de plenitude. Então, depois de longo tempo ela desistiu e retornou até a senhora dizendo:

- Tentei de tudo e nada, ele é um homem santo.

Intrigada, a hospedeira do guru indaga:

- Mas ele não lhe disse nada, não fez nada, uma só palavra?

- Não, senhora!

- Então toma tuas moedas, você fez sua parte.

Inusitadamente, a seguir ela tomou de uma larga vassoura e seguiu aos gritos em direção à cabana, assustando a vizinhança que conhecia o carinho com o qual tratava o meditador. Em lá chegando, espancou o homem, destruiu a cabana e em alta voz disse para que todos ouvissem:

- Testei esse homem com a luxúria, ele resistiu por três noites ao apelo de atraente e sedutora jovem, permaneceu em estado de orações, e quanto a isso eu o aplaudo. Porém, suas práticas são de nenhuma utilidade para o mundo, porque ele nada disse àquela jovem que pudesse servir de orientação e força na restauração de um caminho novo. Se é um homem de Deus, deveria agir pelo bem e não somente evitar o mal.

Evitar o mal necessariamente não edifica valores, enquanto fazer o bem significa acionar os recursos divinos latentes através do dinamismo da caridade.

Evitar o mal é contenção e disciplina, sendas formadoras de caráter, entretanto as realizações no bem sulcam a profundidade do sistema afetivo, fixando e dinamizando forças morais nobres.

Educação resume-se em transformar impulsos e desenvolver potencialidades. O ato de apenas conter sem renovar, pode levar aos mais sofridos caminhos da radicalização, do fanatismo e de variadas expressões neuróticas em direção a mais intensas desarmonias da psique.

O ato educativo é um ato de Amor nas relações que destinem ao crescimento para “ser”.

O processo de evitar o mal é adquirido com o domínio ocasionado pela disciplina dos sentidos e dos impulsos, enquanto a dinamização do bem exige da razão e do sentimento o desenvolvimento de condições interiores que edifiquem valores, treinem habilidades e façam surgir com maior plenitude as tendências inatas do bem que se encontram latentes e, quase sempre, “estáticas” na alma. Dessa forma, quando os Espíritos dizem: “Fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação (1), é porque quase tudo conspira contrariamente para aquele que deseja melhorar, as reações são-lhe fortes reflexos do mundo interior desconhecido de si mesmo.

Diríamos que educar é encontrar respostas para os enigmas do existir, razão pela qual somente amando o outro e a nós mesmos conseguimos encontrar tais tesouros da vida.

Chamamos de integral o ato educativo com Amor, seja na prática pedagógica ou na vida de relação social.

A ausência de valores ético-morais dignificadores em nossas vidas sucessivas permitiram as perdas, as paixões, as crises, os traumas, os bloqueios e as traições, ferindo as fibras sensíveis da estrutura afetiva do perispírito, tendo como reflexos a culpa, o medo, a ansiedade, a frustração, a tristeza, o conflito, a insegurança e a indiferença quais fossem “nódulos e abcessos emocionais” que se apresentam em múltipla conotação psicopatológica, conforme o caráter de seus portadores, determinando o temperamento e a conduta. Agravados pela educação infantil da existência presente, tais “nódulos e abcessos” são inflamados e começam a purgar incontinentemente.

Diagnosticando esse dinamismo patológico, passa-se então à etapa do desenvolvimento das habilidades emocionais, capazes de promover novos e mais saudáveis sentimentos que libertem o ser dessa precariedade do afeto, quais sejam a coragem, a segurança, o autoamor, a serenidade, a alegria e a paz. A conquista dessas habilidades surge na busca pela autoeducação, regida pelas diretrizes evangélico-­doutrinárias como excelente terapia curativa dessas “pústulas do sentimento”. 

A educação do afeto inicia-se pelo estudo perseverante de si no conhecimento dessas manifestações sombrias do coração, suas raízes, suas armadilhas, suas máscaras. Posteriormente enseja uma nova forma de viver e “ser” pelo treino da empatia, da alteridade, da assertividade, da autenticidade.

O objetivo maior da vinda do homem à Terra é a sua melhora espiritual. Tal mister só será plenificado na medida em que aprender a amar, porque o Amor é o decreto sublime do universo para o crescimento e a felicidade de todos os seres.

Verificamos o centro espírita e sua importância como educandário do Amor face à didática estimuladora de conhecimentos e da vivência através da ampliação do saber e de transformação do caráter. As organizações humanas, com poucas exceções, fazem uma leitura adulterada das manifestações afetivas, tornando-as desprezíveis e com conotações de interesses inferiores e falsidade. Outras vezes, algumas pessoas mais afetuosas, quando possuem uma visão egocêntrica, recuam e tolhem a espontaneidade do carinho face aos desapontamentos das relações ingratas e decepcionantes. Assim, formam-se estigmas sociais acalentados pela maioria, sufocando as expressões de sensibilidade humana nas torres frias da indiferença e do desamor, para os quais a grande maioria dos homens foram “educados” no aprendizado de esconder o que se passa nos recônditos escaninhos do afeto.

Quanto nos valerá a reencarnação tendo os raciocínios iluminados pelos princípios estruturais da doutrina sem, contudo, jorrar essa luminosidade sobre o coração?

A fraternidade, expressando a síntese das virtudes cristãs, é a meta ética de todo o corpo filosófico e científico do Espiritismo. Eis, portanto, que tarefa grave aguarda nossas vanguardas doutrinárias no cenário conturbado da sociedade materialista dos dias atuais, junto às almas que ingressam para suas fileiras em ambos os planos existenciais.


Ermance Dufaux




(1) O Livro dos Espíritos, questão 770 A.











sábado, 2 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 15 - Espíritas no Além - Amigo de Jornada




Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 15 - Espíritas no Além


Amigo de Jornada


Eis a nossa grande empreitada nos estágios espirituais em que nos encontramos: alfabetizar o coração nas trilhas do bem definitivo, efetivar a aprendizagem da religião cósmica do Amor, plenificar a existência renovando o modo de sentir.

Indagamos oportunamente o sábio Bezerra de Menezes sobre qual seria o maior drama vivido pelos espíritas ao deixar a vida corporal, e dele recebemos a seguinte gema de sabedoria:

"Filha, os dramas espirituais são resultados da semeadura terrena, obrigando o lavrador da vida a colher os frutos do que plantou, conforme a lei dos méritos. Assim sendo, o maior drama daqueles que se internam na "Enfermaria do Espiritismo" não será na infeliz colheita de sofrimento aqui na vida extrafísica, mas sim no dia a dia da experiência terrena quando recusam-se, na condição de doentes, a ingerir o remédio da renovação interior. Conscientes do que existe para além da morte, deveriam submeter-se a urgente metamorfose afetiva, acionando os recursos da educação com vontade firme e muita oração.

O esclarecimento, mesmo constituindo luz e lenitivo, por si só, não basta ao sublime tentame."

"Os dramas do além são consequências. O verdadeiro drama está em conhecer e nada fazer para melhorar-se."

- E arrematou o venerável apóstolo do bem:

"Parece um contrassenso! Enquanto o homem comum colhe amargos frutos na vida espiritual pelos desconhecimentos, os espíritas, quase sem exceções, experimentam sofrida amargura por muito conhecer!..."

Perante a missiva exposta e as palavras do "médico dos pobres", erguemos em voz alta a campanha pela humanização nos Centro Espíritas, convocando os co-idealistas, como lema de suas ações, a inspirada proposta do Espírito Verdade:

"Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo". - O Espírito Verdade. ( Paris, 1860 ) O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 6 

Certamente não será sem razões que nesse apelo o amor é o primeiro ensinamento...


Ermance Dufaux






terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1 - A pedagogia do “Ser”




Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1


A pedagogia do “Ser”


Jesus, o Mestre.

Nós, os aprendizes.

A reencarnação, sublime matrícula no aprendizado.

A Terra, incomparável escola do Espírito.

O Amor, lição essencial.

O afeto, “pedagogia do “Ser”.

O centro espírita, excepcional núcleo educativo da alma.

Eis uma síntese a qual nos propomos desenvolver nessa primeira parte, destacando as nossas agremiações doutrinárias como educandários, sem precedentes na sociedade, para o desenvolvimento da competência essencial do Amor.

O afeto é um dos pilares do desenvolvimento humano saudável. Uma habilidade que abre largas portas para a entrada do Amor, porque ser afetivo é laborar com o sentir. Diríamos assim que a afetividade é um degrau para o Amor.

E amar é desenvolver-se para “Ser”, verbo que traduz o existir Divino ou existir para a felicidade. “Ser” é educar-se, externar o amplo contingente de valores e potencialidades celestes que dormitam há milênios em nosso eu Divino, que nos conduzem ao destino glorioso de Filhos de Deus, à plenitude. Portanto, a pedagogia do “SER” tem no afeto um de seus principais potenciais didáticos.

Ninguém pode “Ser” permanecendo agrilhoado aos trâmites expiatórios do “sentir mórbido”, ou seja, essa forma inferior de viver a vida do “homem fisiológico”, voltado somente para as sensações, o prazer, a competitividade selvagem.

Afeto é uma força da alma de incalculável poder. Sua boa utilização demanda sólida formação moral para que, o vigor dos sentimentos seja abençoada estrada de libertação nos passos das atitudes.

Esse ‘“existir humano” apela para valores nobres a fim de consagrar uma ética do “Ser” em identidade com aquilo que de fato é “Ser”. Verificamos assim o quanto é relevante o papel do centro espírita, associação que busca, essencialmente, burilar o caráter, a virtude, desenvolver o moral da criatura.

Sob os auspícios de uma casa doutrinária bem conduzida, o desafio do “existir humano” torna-se uma proposta atraente, motivadora, clara e simples.

Nesse tempo de materialismo e do império da razão nossas casas de Amor devem fixar-se na função social reeducativa do sentimento, aprimorando-se cada vez mais para honrar o título de escola da alma, desenvolvendo pessoas felizes, realizadas, dignas e solidárias.

Aprender a amar é, pois a competência essencial que deveria fundamentar quaisquer conteúdos de nossas escolas espirituais. Aprender a amar o próximo, aprender a amar a si, aprender a amar a Deus.

E como ensinar o Amor no centro espírita?

Fala-se muito no que devemos fazer, mas pouquíssimas vezes em como fazer. Como amar o outro, a si e a Deus contextualizando?

Contextualizar o conteúdo espírita abstraindo o excesso de informações e trazê-lo para a realidade de seu grupo, priorizar respostas, soluções, discutir vivências, refletir sobre horizontes novos de velhos temas do viver, reinventar a vivência em direção aos apelos da consciência, propiciar à criatura externar sonhos, limitações e valores já conquistados, fazendo da sala de estudos espíritas um laboratório de idéias na ampliação da capacidade de pensar com acerto, lógico e bom senso. Isso se chama educar.

A esse mister somos convocados para uma mudança de paradigmas urgente nas metodologias pedagógicas da casa espírita. Somos convocados a reestruturar essa visão “sacra”, que faz de muitas de nossas células templos de religiosismo, conduzindo seus profitentes a fórmulas de imediatismo e acomodação, ou à absorção do conhecimento espírita em lamentável dogmatismo, recheado de presunção com a verdade.

A pedagogia do “Ser”. inclui os valores da participação, da interatividade, da cooperação.

Não temos outros caminhos para arregimentar essas opções didáticas que não seja a formação de equipes; pequenos grupos de amigos voltados para o estudo e o trabalho, congregados em torno de ideais incentivadores da evolução de nossas potencialidades.

Grupos que absorvam para a rotina das sociedades doutrinárias projetos de trabalho, ousando o inusitado, o incomum, implantando novas e mais ajustadas propostas de ensino e trabalho no atendimento das demandas humanas, e na consolidação de habilidades e valores que promovam o homem a uma vida mais íntegra, gratificante e libertadora, sob as luzes da imortalidade.

Grupos nos quais a imaginação, o desejo, os sonhos, os limites, as conquistas, as dores, a criatividade, as idiossincrasias, as dúvidas, as respostas, a experiência e, sobretudo, o afeto, possam fazer parte desse projeto de “Ser”.

Permitir à criatura apresentar-se como está e ensejá-la serviço e conhecimento – o antigo lápis e papel da educação - é matriculá-la na escola da vida sob a tutela dos princípios redentores do Evangelho e do Espiritismo, a fim de que ela, por si mesma, aprenda o caminho do Amor na transformação e no existir de cada instante, em busca de sua felicidade.

A pedagogia do “Ser” prioriza o homem, sua experiência pessoal, o relacionamento humano, tendo como polo de atração o idealismo, que é o centro indutor dos valores morais e a defesa vigilante contra nossas intempéries, provenientes das bagagens vivenciais seculares.

Grupos que se amam e se querem bem, formando ambientes agradáveis para conviver, estabelecem as premissas para esse “Ser”, e isso, inevitavelmente, além de felicitar a criatura com o que ela precisa para seu crescimento, também trará reflexos, acentuadamente benéficos, para as realizações doutrinárias graças à alegria e comprometimento com os quais o trabalhador fará sua adesão aos deveres na escola da alma, honrando os princípios espíritas cristãos com uma vida reta, plena de sobriedade e identidade com a base social da fraternidade e da transformação para o bem, onde quer que esteja participando.


Ermance Dufaux