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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 11 - Os Espíritas diante da morte



Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 11


Os Espíritas diante da morte


165. O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração, mais ou menos longa, da perturbação?

"Influência muito grande, visto que o Espírito já antecipadamente compreendia a sua situação. Mas, a prática do bem e a consciência pura são o que maior influência exercem." (O Livro dos Espíritos) 

De onde viemos? Para onde vamos? Que fazemos reencarnados? Clássicas indagações que tiveram o véu rasgado de alto a baixo pela lógica do pensamento espírita. Discernimento, informação e esperança foram os resultados provenientes do contato com os mortos.

Apesar dessa luz que jorra intensamente, a morte ronda o cérebro de muitos espíritas com vastas noções sobre o futuro sem despertar o sentimento de imortalidade em plena carne. Muitos companheiros de ideário morrem abarrotados de informações sobre o morrer sem asilarem nos recessos do coração o sentimento de vida perene e incessante, passando a peregrinar nos vales de sombra e dor para expurgos reparatórios. Morrem, mas não desencarnam corretamente.

Morrer retamente deve ser meta de todos que fomos agraciados com a riqueza dos tesouros doutrinários, razão pela qual a morte é dos temas mais necessários na formação da cultura espírita. Uma visão clara e precisa da vida futura, sem os resquícios mitológicos, é essencial para uma vida corporal mais proveitosa e consciente, o que permitirá um desenlace saudável nos rumos da continuidade e ascensão.

Precisamos convir que essa mentalidade, estruturada na visão futurista da existência, exigirá o norteamento da experiência corporal com abnegação e renúncia na construção de um projeto de vida espírita, cuja referência seja a vida futura.

Somente o conhecimento doutrinário não erradica nossos problemas com a morte. Se reunirmos toda a sabedoria das obras básicas e das subsidiárias acerca desse tema, teremos algo comparável a um pequeno grão de areia perante o oceano imenso das realidades da vida imortal. No entanto, muitos espiritistas estão com inabalável convicção de uma ancoragem feliz na vida dos imortais, tão somente por votarem-se superficialmente em louvores e obras da caridade, descuidando infantilmente de zelar pelas conquistas interiores, que são a única garantia de paz além-túmulo.

As variações da desencarnação, os redutos de dor, a natureza na vida extrafísica, as mutações dos estados mentais, a suprema interação entre os planos de vida, os resultados dos estados conscienciais sobre o perispírito, o destino dos hábitos culturais no além, os processos de retorno à matéria, os mecanismos de intercâmbio entre orbes, os efeitos das movimentações humanas no plano espiritual e muitos outros aspectos de um leque infinito de assuntos sobre a morte ainda carecem de noções mais ampliadas. Contudo, por mais que o homem na carne eleve seu entendimento sobre essa versatilidade, a morte continuará sendo uma grande reveladora de Verdades para a alma que se despede da hipnose da reencarnação para penetrar os pórticos da imortalidade.

Em face disso será sempre oportuno, especialmente aos adeptos do Espiritismo, a reciclagem de sua posição mental e afetiva sobre seu futuro. Corações queridos que aqui se aportam experimentam largas decepções por acreditarem displicentemente que dominam sobremaneira os temas da desencarnação, quando, em verdade, tinham primárias lições sobre o assunto, agravados por uma conduta invigilante de auto-suficiência alicerçada na soberba crença de "salvacionismo", sob forte influência do atavismo religioso em concessões e facilidades no "céu", devido aos serviços prestados ao bem comum.

Atentemos para esse episódio, porque o Codificador não descuidou de indagar das "Vozes Espirituais" se o saber espírita seria importante na erraticidade, recebendo uma sábia advertência: "Influência muito grande, visto que o Espírito já antecipadamente compreendia a sua situação. Mas, a prática do bem e a consciência pura são o que maior influência exercem."

Nessa resposta temos o roteiro correto para uma vida corporal em plenitude.

Consciência tranquila e o bem são assertivas alvissareiras da paz interior que havemos de levar de um para outro mundo nas sucessivas alternações na busca da perfeição.

A vida física é um curso para aprendermos a morrer corretamente, conquistando o perfil do homem espiritualizado e livre das imposições da matéria.

Estudemos com mais afinco a vida futura, buscando compreensão sobre a senha para o acesso feliz ao mundo dos espíritos, a integração com a consciência do Eu Divino que reside em nossa intimidade.

Meditemos com seriedade nas incomparáveis lições oferecidas pelos "mortos" através das vias sagradas da mediunidade, treinemos sentimentos e atitudes em cada ocasião de separação e miremo-nos no espelho da consciência em busca de um balanço leal sobre o estado pessoal, frente às diretrizes do Consolador para os novos estágios a que fomos convocados. Unamo-nos, homens e espíritos, espíritas ou não, em declarado e imbatível planejamento de vida para que nos preparemos ao regresso feliz, na reencarnação ou na desencarnação, como expressões naturais de existir e transformar com abundante vida.

Vigilância sempre e sempre nesse tema, porque aqui também o orgulho - nosso sagaz adversário - costuma cantar cantigas de ninar, doces e serenas, para embalar nosso sono de ilusão a fim de que venhamos a despertar nos braços da morte atribulada, sob os efeitos de dolorosa decepção e revolta.

A morte como informação nem sempre é sinônimo da Divina certeza da imortalidade - único sentimento capaz de transformar nossas vidas na matéria pelas sendas redentoras do legítimo amor sentido e aplicado todos os dias.


Ermance Dufaux
















domingo, 29 de março de 2026

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz: Superando as Ilusões do Orgulho - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 6 - Inteligência Intrapessoal



Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz: Superando as Ilusões do Orgulho - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 6


Inteligência Intrapessoal


967. Em que consiste afelicidade dos bons Esptritos?

"Em conhecerem todas as coisas; ..." - (O Livro dos Esptritos).


O estudo dos pilares básicos da boa convivência é como janela que se abre para o grande sol da experiência e da felicidade.

Conviver é possibilidade conferida a todos; a boa convivência, porém, é para quem deseja crescer e educar-se.

Boa convivência não é somente polidez social. Consignemos como pilares dessa arte de relacionar o autoamor, o autoconhecimento, o afeto e a ética.

Estudemos alguns ângulos do amor a si mesmo por se tratar de pilar mestre das relações saudáveis, duradouras e gratificantes; sem conviver bem consigo, amando-se, não haverá harmonia nas interações humanas com o outro.

A vida que nos circunda é rica de elementos indutores do mundo íntimo; nenhum deles, porém, é tão expressivo quanto o contato interpessoal. Respostas emocionais são acionadas a partir da convivência, desenvolvendo um novo mundo de sentidos para quem dela faz parte.

Renova-se a criatura a cada novo contato, cada episódio da interação humana é um convite ao crescimento, ao estabelecimento de novos valores na intimidade. Mesmo os desacordos e desencontros constituem escolas oportunas de reflexão e reavaliação da vida pessoal.

Analisemos um fato ilustrativo da rotina humana: um coração amigo, em um momento de atribulação íntima, discutia celebremente com as imagens mentais que formulava acerca de um ente querido de sua convivência. Envolvido em suas mentalizações discutia, revidava, e era tão descontrolado seu estado emocional que gesticulava mãos e rosto sem se dar conta que as pessoas à sua volta lhe observavam, uns com preocupação, outros com chacota...  Ele estava em plena fila de um banco para quitar uma conta telefônica...

Esse tem sido um quadro comum, o retrato fiel de como lidamos conosco em relação aos outros - um dos pilares da boa convivência, senão o principal. Nesse caso, o companheiro estava em litígio com os seus próprios sentimentos relativamente a alguém, era uma "briga mental".

Esse estado de ensimesmamento - a vivência mental das relações - tem sido uma tônica dos dias atuais, face ao contínuo mascarar do mundo íntimo que o homem moderno tem se imposto na garantia da satisfação de seus fins em sociedade. Nem sempre podendo externar o que sente a quem deveria, então passa a formular para si mesmo o que gostaria de expressar a outrem ante as pressões internas das discordâncias, dos agastamentos, das traições, dos gestos impensados e de tantos outros lances dos conflitos do relacionamento.

A questão em análise é fundamental para o entendimento dos laços que construímos com as pessoas de nossa rotina diária.

O problema não é como convivemos com o outro, mas sim como convivemos com o que sentimos e pensamos em relação ao outro.

Por isso a boa convivência consigo mesmo é o princípio seguro de equilíbrio para uma interação proveitosa. Tal princípio consagra a necessidade de revermos os males da convivência, prioritariamente, em nós mesmos, antes de quaisquer cobranças ou transferências de responsabilidade. É o imperativo de estabelecermos acordos connosco a partir de um balanço e avaliação sobre tudo que envolva os atos que nos vinculam a esse ou aquele coração. 

Ainda que alguém divida conosco a rotina dos dias ou as circunstâncias passageiras e seja necessitado de corretivo, precisamos habituar a sondar as nossas disposições íntimas antes de qualquer investimento no outro; estar consciencialmente ajustado para somente depois partir de forma elevada em direção às necessidades do crescimento alheio, pois do contrário perdemos a autoridade e o controle necessários para ser agente de educação e alerta para o próximo.

Consideremos ainda que muitas vezes após nossos autoexames poderemos perceber mais claramente a necessidade de mudança, tão somente, em nossos atos e decisões. O descuido nesse setor da conduta nos leva a detectar obstáculos somente na órbita dos que partilhamos as vivências, enceguecendo-nos para as descobertas extraordinárias que poderíamos fazer sobre nós próprios, quando dispomos ao mergulho no estudo das nossas reações uns frente aos outros.

Essa postura é a bússola das relações indicando-nos a hora de calar, o momento de agir, o instante de corrigir, a ocasião de discordar e o ensejo de tolerar. Leis que conduzem-na ao patamar da caridade.

Essa interiorização, estudada pelas modernas ciências psicológicas, recebe o nome de Inteligência Intrapessoal, competência pela qual dominamos amplo espectro de habilidades como a empatia, a assertividade e a autorrevelação.

A socialização, princípio contido nas Leis Naturais, estabelece o encontro das singularidades humanas, objetivando sobretudo essa viagem à intimidade da individualidade. Quanto mais rápido penetramos nesse caminho educativo, mais identificaremos as razões das refregas do relacionamento, conquistando paz e alegria nas relações, visão e equilíbrio para conosco.

Face ao exposto, conclui-se sobre a indeclinável necessidade de avaliações permanentes no trabalho da autodescoberta, estudando os reflexos perturbantes das relações que edificamos, a fim de aquilatarmos com exatidão a origem de nossas reações.

Destacando o mal no outro, ativamos fios magnéticos de atração que nos ligam a essa energia que passamos a consumir e digerir no campo mental, detonando a crise íntima que poderá ser sustentada por adversários espirituais astutos. Dessa forma, mantemo-nos aferrados à sombra de nós mesmos, e sempre deflagramos maus sentimentos com os quais enveredamos pelos desencontros e aborrecimentos da convivência, porque sempre estaremos propensos a focar o negativo, as imperfeições.

A opressão dos conflitos é mantenedora da fuga de si mesmo, e o autoamor somente ocorrerá quando dispormos ao autoencontro, à redefinição da autoimagem que oculta mazelas, à retirada da máscara:
voltar o espelho da mente para si, interiorização.

Estar bem consigo é pilar essencial da boa convivência. Fazendo assim, partimos em direção ao próximo com o melhor de nós, aptos a vitalizar as relações com o alimento do bem e do amor, convertendo-nos em fulcros irradiadores de paz e contentamento que serão fortes atrativos de enobrecimento e cooperação onde estivermos, transmitindo esperança e educação para os que se encontrem no raio de nossas ações.

Urge fazermos o aprendizado do autoamor, dialogarmos com a intimidade, indagar de nossos sentimentos a razão de sua existência, procurar os acordos íntimos. Se não aprendermos a gostar de nós, a nos aceitarmos, não conseguiremos a fluência do amor ao próximo.

Uma convivência pacífica com as imperfeições, a caridade connosco, será fonte de apaziguamento e elevadas emoções.

Nesse aprendizado espera-nos a grande lição de trabalharmos pelo desenvolvimento de nossos potenciais Divinos; ao invés de ficarmos lutando contra mazelas, faremos o serviço de laborar a favor de novos valores, prestigiando o positivo. Sem querer exterminar o passado, haveremos de aprender a transformá-lo.

Esse será o iluminado labor de conquistar a nossa sombra, amando-a, sem recriminações e culpas, sintonizando a mente no "ser" de luz e paz que existe embrionário em cada um dos Filhos de Deus, adentrando, definitivamente, o patamar declinado na resposta dos Sábios Guias da Humanidade a Kardec: a felicidade dos Espíritos superiores consiste em conhecerem todas as coisas, e nós inferimos: inclusive a si mesmo.


Ermance Dufaux








O Livro dos Espíritos - Allan Kardec - 4ª Parte - Das esperanças e consolações - Cap. II - Das penas e gozos futuros - Natureza das penas e gozos futuros.

967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?

“Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. Contudo, a felicidade dos Espíritos é proporcional à elevação de cada um. Somente os puros Espíritos gozam, é exato, da felicidade suprema, mas nem todos os outros são infelizes. Entre os maus e os perfeitos há uma infinidade de graus em que os gozos são relativos ao estado moral. Os que já estão bastante adiantados compreendem a ventura dos que os precederam e aspiram a alcançá-la. Mas, esta aspiração lhes constitui uma causa de emulação, não de ciúme. Sabem que deles depende o consegui-la e para a conseguirem trabalham, porém com a calma da consciência tranqüila e ditosos se consideram por não terem que sofrer o que sofrem os maus.”




quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10 - Opiniões e Autoestima



Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10


Opiniões e Autoestima


"Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos vêem mais do que dois e - ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espirito a sua inferioridade." O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - item 329


O medo da rejeição leva muitos corações a alimentarem complexa obsessão em relação à opinião alheia sobre seus feitos, exigindo devotada reeducação dos sentimentos na busca da autoestima que estabelecerá, paulatinamente, a segurança e a autoconfiança. Noutros casos, de forma oposta a esse medo, a indiferença à emissão de conceitos em torno de nossa personalidade é o resultado da invigilância e da vaidade - lenha apropriada para crepitar as labaredas da autossuficiência.

Nem uma nem outra posição auxiliam-nos a aproveitar devidamente as expressões de amparo e os sinais de alerta em nosso favor na escola da convivência, quando se trata dos pareceres que surgem em nossos caminhos e dos quais jamais estaremos livres.

Saber julgar os apontamentos sobre nós conferindo-lhes valor exato é exercício de humildade e bom senso no aprendizado da vida interpessoal.

As pessoas maduras, que se amam verdadeiramente, são autoconfiantes, sem autossuficiência, sabem o valor real da participação alheia e permitem-na somente até o ponto em que são úteis ao progresso pessoal, quando externadas com respeito e lealdade. Para tais pessoas, a maledicência é atestado de incapacidade moral e imaturidade emocional.

Porque não aprendemos ainda o autoamor, costumamos esperar as compensações e favores do amor alheio, permitindo um nível de insegurança e dependência dos outros face ao excessivo valor que depositamos no que eles pensam sobre nós.

O medo de ser rejeitado ou não aceito é um resquício fortemente gravado no psiquismo pelas experiências infantis ou por complexos adquiridos em outras existências. Crenças de desvalor a si próprio, consolidadas na mente da criança e do adolescente, refletem agora na adultidade como sequelas dolorosas e inibidoras, provocando sentimentos de inutilidade e culpa, gerando a autocensura, a autopiedade e uma terrível "síndrome de ser culpado" pelo mundo estar como está, ainda que muitas situações nada tenham a ver com suas movimentações existenciais.

A autoestima é fator determinante das atitudes humanas. Quando ela escasseia, a criatura estará sempre escrava de complexos de inferioridade atormentantes, por mais pródigas que sejam as vantagens de sua vida, cultivando hábitos que visam camuflar seus supostos "males" para que outros não os percebam. No entanto, não logrando sempre ludibriar através dessa "maquiagem", quando se percebe avaliada ou reconhecida em sua realidade, torna-se revoltada, indefesa, deprimida e ofendida. Essa situação tem um limite suportável até o ponto em que as decisões e ações começam a ser comprometidas por estranhas formas de agir, que podem estabelecer episódios neuróticos de gravidade, com estreitos limites com as psicoses. Assinalemos ainda que, nos bastidores de variados casos, surgem as interferências espirituais dilatando o sofrimento desses corações, acentuando-lhes o sentimento de desmerecimento, de rejeição e desânimo, "inspirando" idéias nefandas e escolhas enfermiças.

As opiniões sobre nós são valorosas e merecem ouvidos atentos, quando se tornam críticas construtivas. E uma crítica para ser construtiva requer sinceridade fraterna, "olhos nos olhos", sentimento de solidariedade e, sobretudo, quem critica para ajudar apresenta alternativas de melhoria ou solução; afora isso podem não passar de palavras a esmo, mordacidade sistemática, maledicência ou inveja, ou então o que explica com rara sabedoria o nosso codificador no trecho a seguir:

"Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre em luta com o ciúme e a inveja. Os que se sentem incapazes de chegar à altura em que aquele se encontra esforçam -se para rebaixá-lo, por meio da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam, quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo arruído que promovem. Tal foi e será a História da Humanidade, enquanto os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e alargado seu horizonte moral. Por aí se vê que semelhante preconceito é próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalidades por ponto de aferição de tudo.(1)

Nas relações espíritas convém-nos muita atenção a esse processo delicado do conviver, porque as expectativas que nutrimos, enquanto companheiros de lides, são muito elevadas uns para com os outros, vindo a constituir pesado ônus nos relacionamentos doutrinários. Em nossos ambientes, porque cultivamos o hábito da fraternidade e da indulgência, não devemos fugir do dever de orientar e corrigir os que partilham conosco das bênçãos do aprendizado.

O personalismo - marca moral pertinente à maioria esmagadora dos discípulos espíritas - é uma lente de aumento que procura dilatar nossos valores e uma nuvem que busca ofuscar nossas imperfeições, tornando-se entrave à opinião sincera em razão de insuflar o melindre e a mágoa. Afogados em queixumes e desapontamentos, alguns amigos nessa experiência dizem que não esperavam serem avaliados em seus defeitos no centro espírita, e perguntam: "não basta o lar e os ambientes de profissão nos quais, familiares e colegas, estão sempre ressaltando minhas mazelas?" Todavia, é preciso distinguir o que seja uma correção para denegrir e outra para crescer. Cremos que essa última deva ser a tônica das nossas posturas junto às agremiações espíritas, mas sem deixar de lado a sinceridade e a sensatez.

A recomendação traçada por Allan Kardec em nosso item de estudo citado na introdução desse texto é preciosa diretriz aos médiuns, não sendo de menor importância a todos os que militamos nas fileiras de trabalho espírita. As opiniões alheias são extenso e valoroso recurso de crescimento e não devemos menosprezá-las nunca, ainda mesmo quando constituam excessos, porque assim nos auxiliam a conhecer melhor quem as emitiu, servindo para estipular nossa própria opinião sobre o outro com juízo fraternal, distante da influência nociva da inferioridade que ainda carreamos nos caminhos da evolução.

Lembremos, portanto, que o cultivo do afeto entre nós, trabalhadores da causa de Jesus e Kardec, não dispensa as opiniões lavradas nas fontes da sinceridade e que, tendo por objetivo a melhoria e o esclarecimento, devem ser emitidas de forma a elevar a autoestima, transformando o medo de rejeição em um novo e agradável sentimento de segurança e amizade cristã.

Ainda acerca das opiniões alheias, acostumemo-nos a elas lembrando que o próprio Jesus não as dispensou quando perguntou em exemplar atitude íntima aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?'(2)


Ermance Dufaux




(1) A Gênese - Capítulo 17 - Item 2
(2) Mc 8:27






quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 28 - Reféns do Preconceito




Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 28


Reféns do Preconceito


Incorre em culpa o homem, por estudar os defeitos alheios?

"Incorrerá em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque será falta com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. (...)" O Livro dos Espíritos - Questão 903


Alguns companheiros sensatos e bem intencionados angustiam-se com o célebre ensinamento de Jesus sobre o ato de não julgar para não ser julgado. (1)

Como não julgar, se a todo instante a mente está expedindo, mesmo sem o querer, os mais diversos tipos de juízo sobre o próximo? Porventura estaria propondo o Mestre a irrestrita indulgência quando dissertou sobre o julgamento? Mas, indagam os mais exigentes, não será omissão deixar de ver o mal ou constatá-lo a benefício de outrem?

Ainda que desejemos não estabelecer julgamentos, nosso estágio evolutivo caracteriza-se por um "sequestro emocional", no qual somos reféns de processos mentais que ainda não adquirimos completo controle. Quando ativamos o mecanismo mental de julgar, gravamos no psiquismo um modo de agir que aplicamos, igualmente, a nós próprios. E quando Jesus estabeleceu o "não julgamento", Ele, naturalmente, queria poupar-nos desse cárcere que detonamos contra a nossa própria felicidade. Aliás, muitos sentimentos de culpa e repressão que patrocinam a auto-descaridade tem origem nesse intrincado "engenho" da auto-sugestão mental.

Como equacionar, portanto, essa dúvida ética?

A angústia nasce exatamente quando não se sabe como fazer, ante o que já sabe que deve fazer.

Estudemos algo sobre essa questão que oportuniza um campo de debates de rara riqueza de elementos para nosso crescimento na experiência da convivência.

Julgar seria o hábito de interpretar as atitudes alheias conferindo-lhes juízos éticos de apreciação pessoal. Esses juízos são formulados através de sentenças, verdadeiros veredictos, que estipulam o que entendemos sobre a ação do outro. Impossível para nós fazer esses julgamentos sem influência dos valores e imperfeições que definem nossa personalidade, acrescidos dos interesses pessoais e das expectativas que criam a conveniência no ato de julgar. Assim, compreende-se claramente porque não devemos julgar, pois falharemos inevitavelmente na forma, na proporção e na conclusão. Além do que, a pior consequência desse ato, em nosso desfavor, será a instalação do mecanismo mental de aplicar a nós próprios as censuras e recriminações destinadas ao outro, com as mesmas molduras éticas e sentimentos.

Quando os Bons Espíritos disseram a Kardec a frase acima, dois aspectos relevantes auxiliam-nos no melhor entendimento do tema. Primeiramente consideremos a diferença entre julgar e analisar, que foi a palavra utilizada pelo Codificador, e posteriormente observemos a sábia resposta que diz: "Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade."

Esses ângulos de análise ensejam-nos valorosas reflexões sobre o motivos que nos levam a sermos reféns dos julgamentos.

Julgar é situar a mente na inflexibilidade, analisar é buscar a compreensão do subjetivismo do próximo.

Julgar é concluir. Analisar é perquirir.

Nos julgamentos temos certezas. Na análise encontramos a relativização.

Nos julgamentos temos sentenças. Na análise temos alteridade.

O desejo inferior de reduzir o valor alheio é das causas mais comuns na atitude de julgar, enquanto a ação de analisar conduz-nos à lealdade em relação aos sentimentos que experimentamos com quem tenhamos conflitos.

O compromisso impostergável para a saúde dos relacionamentos reside na capacidade de resistir aos apelos do pessimismo e do descrédito, no que tange a quem é alvo dos nossos julgamentos.

Essa polarização mental no arbítrio de juízos sobre o outro, ativa o remanescente de vivências similares arquivadas na subconsciência. Mediante semelhante quadro, o "juiz intransigente" que acusa e decide extermina lavouras férteis na vida de relações. A vigília permanente sobre a dinâmica dos sentimentos torna-se imperiosa e emergente para não deflagrar a "pane emocional" que encharcará a tela dos pensamentos de planos infelizes, na direção do separatismo e da desconfiança, da dissidência e do "esfriamento" do amor, além das mentalizações que passam a gravitar na órbita da animosidade contida e da desafeição.

Transformemos os julgamentos em reflexões acicatando o comodismo no qual, muita vez, preferimos estagiar na obtenção de folgas para o raciocínio, quando deveríamos erigir momentos seletos, sob a tutela do estado de oração, na busca incansável das respostas que surgirão das perquirições e meditações de profundez desejável ao crescimento pessoal.

Os elementos que compõem os alicerces desse estudo criterioso são assertividade, alteridade, abnegação, lealdade, complacência e amor. Essas bases consolidam valores e habilidades que capacitam para interações desprovidas de projeções pessoais no outro, gerando entendimento e cooperação, benevolência e elevação.

O exercício de priorizar, em cada aferição do próximo, alguma virtude ou atitude feliz será uma medida de segurança nessas incursões pelo mundo desconhecido de nós próprios.

Buda, o Iluminado poeta Universal, falava da Meditação da Plena Atenção (satipatthana) pela qual conquista-se o estado interior de observação sem julgamento, aquilatando a impermanência da vida e das pessoas pelas vias da meditação analítica para tomada de consciência, o Nirvana que liberta a mente em direção à Verdade. Esse caráter impermanente precisa ser apreendido em nossas análises. Tal prática será uma escalada de larga amplitude para a compreensão, porque conheceremos no íntimo a alegria de estarmos livres de um dos mais terríveis opressores e carcereiros dos caminhos humanos, que nos coloca como reféns infelizes do mal: o preconceito.


Ermance Dufaux





(1) Mt 7:1



segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10 - Opiniões e Autoestima




Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley de Oliveira - Cap. 10


Opiniões e Autoestima


"Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos vêem mais do que dois e - ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espirito a sua inferioridade." O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - item 329


O medo da rejeição leva muitos corações a alimentarem complexa obsessão em relação à opinião alheia sobre seus feitos, exigindo devotada reeducação dos sentimentos na busca da autoestima que estabelecerá, paulatinamente, a segurança e a autoconfiança. Noutros casos, de forma oposta a esse medo, a indiferença à emissão de conceitos em torno de nossa personalidade é o resultado da invigilância e da vaidade - lenha apropriada para crepitar as labaredas da autossuficiência.

Nem uma nem outra posição auxiliam-nos a aproveitar devidamente as expressões de amparo e os sinais de alerta em nosso favor na escola da convivência, quando se trata dos pareceres que surgem em nossos caminhos e dos quais jamais estaremos livres.

Saber julgar os apontamentos sobre nós conferindo-lhes valor exato é exercício de humildade e bom senso no aprendizado da vida interpessoal.

As pessoas maduras, que se amam verdadeiramente, são autoconfiantes, sem autossuficiência, sabem o valor real da participação alheia e permitem-na somente até o ponto em que são úteis ao progresso pessoal, quando externadas com respeito e lealdade. Para tais pessoas, a maledicência é atestado de incapacidade moral e imaturidade emocional.

Porque não aprendemos ainda o autoamor, costumamos esperar as compensações e favores do amor alheio, permitindo um nível de insegurança e dependência dos outros face ao excessivo valor que depositamos no que eles pensam sobre nós.

O medo de ser rejeitado ou não aceito é um resquício fortemente gravado no psiquismo pelas experiências infantis ou por complexos adquiridos em outras existências. Crenças de desvalor a si próprio, consolidadas na mente da criança e do adolescente, refletem agora na adultidade como sequelas dolorosas e inibidoras, provocando sentimentos de inutilidade e culpa, gerando a autocensura, a autopiedade e uma terrível "síndrome de ser culpado" pelo mundo estar como está, ainda que muitas situações nada tenham a ver com suas movimentações existenciais.

A autoestima é fator determinante das atitudes humanas. Quando ela escasseia, a criatura estará sempre escrava de complexos de inferioridade atormentantes, por mais pródigas que sejam as vantagens de sua vida, cultivando hábitos que visam camuflar seus supostos "males" para que outros não os percebam. No entanto, não logrando sempre ludibriar através dessa "maquiagem", quando se percebe avaliada ou reconhecida em sua realidade, torna-se revoltada, indefesa, deprimida e ofendida. Essa situação tem um limite suportável até o ponto em que as decisões e ações começam a ser comprometidas por estranhas formas de agir, que podem estabelecer episódios neuróticos de gravidade, com estreitos limites com as psicoses. Assinalemos ainda que, nos bastidores de variados casos, surgem as interferências espirituais dilatando o sofrimento desses corações, acentuando-lhes o sentimento de desmerecimento, de rejeição e desânimo, "inspirando" idéias nefandas e escolhas enfermiças.

As opiniões sobre nós são valorosas e merecem ouvidos atentos, quando se tornam críticas construtivas. E uma crítica para ser construtiva requer sinceridade fraterna, "olhos nos olhos", sentimento de solidariedade e, sobretudo, quem critica para ajudar apresenta alternativas de melhoria ou solução; afora isso podem não passar de palavras a esmo, mordacidade sistemática, maledicência ou inveja, ou então o que explica com rara sabedoria o nosso codificador no trecho a seguir:

"Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre em luta com o ciúme e a inveja. Os que se sentem incapazes de chegar à altura em que aquele se encontra esforçam -se para rebaixá-lo, por meio da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam, quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo arruído que promovem. Tal foi e será a História da Humanidade, enquanto os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e alargado seu horizonte moral. Por aí se vê que semelhante preconceito é próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalidades por ponto de aferição de tudo.(1)

Nas relações espíritas convém-nos muita atenção a esse processo delicado do conviver, porque as expectativas que nutrimos, enquanto companheiros de lides, são muito elevadas uns para com os outros, vindo a constituir pesado ônus nos relacionamentos doutrinários. Em nossos ambientes, porque cultivamos o hábito da fraternidade e da indulgência, não devemos fugir do dever de orientar e corrigir os que partilham conosco das bênçãos do aprendizado.

O personalismo - marca moral pertinente à maioria esmagadora dos discípulos espíritas - é uma lente de aumento que procura dilatar nossos valores e uma nuvem que busca ofuscar nossas imperfeições, tornando-se entrave à opinião sincera em razão de insuflar o melindre e a mágoa. Afogados em queixumes e desapontamentos, alguns amigos nessa experiência dizem que não esperavam serem avaliados em seus defeitos no centro espírita, e perguntam: "não basta o lar e os ambientes de profissão nos quais, familiares e colegas, estão sempre ressaltando minhas mazelas?" Todavia, é preciso distinguir o que seja uma correção para denegrir e outra para crescer. Cremos que essa última deva ser a tônica das nossas posturas junto às agremiações espíritas, mas sem deixar de lado a sinceridade e a sensatez.

A recomendação traçada por Allan Kardec em nosso item de estudo citado na introdução desse texto é preciosa diretriz aos médiuns, não sendo de menor importância a todos os que militamos nas fileiras de trabalho espírita. As opiniões alheias são extenso e valoroso recurso de crescimento e não devemos menosprezá-las nunca, ainda mesmo quando constituam excessos, porque assim nos auxiliam a conhecer melhor quem as emitiu, servindo para estipular nossa própria opinião sobre o outro com juízo fraternal, distante da influência nociva da inferioridade que ainda carreamos nos caminhos da evolução.

Lembremos, portanto, que o cultivo do afeto entre nós, trabalhadores da causa de Jesus e Kardec, não dispensa as opiniões lavradas nas fontes da sinceridade e que, tendo por objetivo a melhoria e o esclarecimento, devem ser emitidas de forma a elevar a autoestima, transformando o medo de rejeição em um novo e agradável sentimento de segurança e amizade cristã.

Ainda acerca das opiniões alheias, acostumemo-nos a elas lembrando que o próprio Jesus não as dispensou quando perguntou em exemplar atitude íntima aos discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?'(2)


Ermance Dufaux




(1) A Gênese - Capítulo 17 - Item 2
(2) Mc 8:27


domingo, 26 de julho de 2020

Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 4 - Informar e Conscientizar




Ermance Dufaux - Livro Mereça Ser Feliz - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 4


Informar e Conscientizar


"A todos os homens facultou Deus os meios de conhecerem sua lei ? ”

“Todos podem conhecê-la, mas nem todos a compreendem. Os homens de bem e os que se decidem a investigá-la são os que melhor a compreendem. "Todos, entretanto, a compreenderão um dia, porquanto forçoso é que o progresso se efetue.” (O Livro dos Espíritos – Questão 619)


Jesus estabeleceu o ensinamento: conhecereis a Verdade e ela vos libertará (1). Vários corações carregados de nobres intenções ventilam, a partir desse ensino, uma interpretação um tanto discriminatória ao asseverarem que a Verdade, nesse caso, seria o Espiritismo. Se bastasse conhecer a Verdade Espírita estaríamos então, todos os que travaram contato com ela, em plenitude e paz experimentando a liberdade. Porém, parece que não é bem assim...

A Verdade que conheceremos e nos libertará será sempre a Verdade sobre nós mesmos, e a Doutrina será uma senda segura para a aquisição dessa conquista na alma: a consciência de si que nos ensejará elementos para transitar na evolução com felicidade.

O Espiritismo é meio, a educação Divina é o fim.

Conscientizar é tomar contato com os conteúdos velados da mente estabelecendo conexão com o ser divino que há em nós. Tomemos como exemplo o orgulho: sabemos que somos orgulhosos, estamos informados disso, mas não temos consciência plena de suas manifestações, dos detalhes de sua ação. Essa a diferença entre conhecer e saber.

A conscientização surge quando aprendemos a utilizar a informação para a transformação.

A informação é atividade cognitiva que só abrirá portas para a conscientização quando houver o aporte dos processos renovadores da sensibilidade humana.

O conhecimento é capaz de acionar desejos novos, excitar planos e mudanças, mas somente o sentimento é capaz de movimentar a vontade firme para manter e concretizar caminhos novos.

Como candidatos à melhora espiritual, torna-se imperioso habituarmo-nos à constante lealdade consciencial, a fim de exercer avaliações sobre qual é nossa verdadeira condição espiritual. Estamos apenas informados ou já temos escalado o íngreme monte da conscientização? Apenas repetimos textos e princípios ou já nos esforçamos por absorvê-los nas particularidades da vivência? Apenas estudamos ou já nos habilitamos ao serviço desafiante de descobrir na existência como usar o tesouro da cultura para o crescimento?

Uma criatura informada poderá realizar amplos vôos nas realizações do bem, entretanto, somente os conscientizados saberão como usar essas realizações para sua libertação pessoal.

O Espiritismo é precioso tesouro de paz. Sua mensagem é um horizonte de esperança que se abre para os aflitos e espoliados da humanidade. Compete ao esforço individual o mérito das conquistas que surgirão quando o homem deixar os domínios da crença contemplativa e das convenções religiosistas, passando a operar, decisivamente, na formação de novos hábitos através da auto-educação persistente e valorosa.

A Terra soçobra em informações sobre a existência de Deus. Resta agora sentir Deus, compreendê-lo. Nas esferas abençoadas do Espiritismo, igualmente, cuidemos para não empanturrar o cérebro e esquecer de digerir com o coração.

Conhecer não basta, é necessário transformar-se para melhor.

Conhecer é ter opções, mas só a conscientização oferece respostas.

Conhecer auxilia, conscientizar é caminho para ser feliz.

A dicotomia íntima entre conhecimento espiritual e realidade pode provocar severas lutas no aprimoramento pessoal. A esse respeito chamamos para uma reflexão sobre a urgência de investigarmos cuidadosamente os estudos doutrinários, adequando-os sempre ao mundo dos sentidos individuais, instaurando o “construtivismo moral”, usando a flexibilização nos conteúdos, aprendendo a problematizar ao invés de “colecionar” respostas prontas, acostumando-se mais a reciclar que repetir padrões, desafiando o mundo das descobertas.

Esse “construtivismo moral” se viabilizará pela instauração de grupos pequenos que aprendam a se amar e respeitar, nos quais se possa falar das singularidades, dos sentimentos, da formação pessoal de vida, suas lutas, seus conflitos, buscando todos juntos, pelas vias da solidariedade e da fraternidade, os caminhos morais nobres, fazendo descobertas sobre os valores humanos, aliviando as dores íntimas, encontrando respostas para as angústias humanas.

Para isso, é imperativa a renovação pedagógica dos métodos que exigirão muita humildade e acendrada disposição de aprender, principalmente da parte de quem guarda maior lastro na experiência da espiritualização.

Em suma, constata-se claramente que a informação espírita é luz que se acende, contudo, manter-se na luz é uma questão de consciência e sentimento renovado.

Informados já estamos, falta-nos agora sentir o que já sabemos, porque sem sentir jamais adquiriremos a base evolutiva da conscientização, a compreensão, conforme assinalam os Bons Espíritos na referência de apoio acima.


Ermance Dufaux





(1) Jo 8:32




Fonte: Mereça ser Feliz-pdf