terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Neio Lúcio - Livro Colheita do Bem - Mensagens familiares do Prof. Arthur Joviano / Chico Xavier - Cap. 116 - Não prejulguemos



Neio Lúcio - Livro Colheita do Bem - Mensagens familiares do Prof. Arthur Joviano / Chico Xavier - Cap. 116


Não prejulguemos


01/04/1952

Meus caros filhos, Deus abençoe a vocês todos, conferindo-nos saúde, alegria e bom-ânimo para nossa luta redentora de cada dia.

Compreendo a atmosfera de sombrias preocupações que naturalmente nos assaltou nas circunstâncias da hora que passa. Entretanto, meus filhos queridos, é indispensável saber contornar o rochedo infeliz para que a dureza dele não nos fira ou estraçalhe. Sabemos que há razão para a atitude apreensiva, mas não devemos perder a esperança.

As administrações humanas se modificam e quem nos oferece hoje o cálice mais amargo da luta amanhã pode ser constrangido a sorver o conteúdo da mesma natureza.

Reconheço que a mudança é difícil, que a transferência para a vida turbilhonária de uma grande capital é imprevista. Sei que os obstáculos não serão pequenos, a se anteporem cada dia entre a nova realidade e os nossos hábitos mais caros, entretanto, busquemos senhorear a situação com a precisa coragem e com a fé necessárias.

Antes de tudo, a serenidade e o otimismo devem presidir as nossas alterações do momento, a fim de que não venhamos a sucumbir sob as provas que nos compete superar.

Peço a você, meu filho, muita calma e resistência moral. Não desconheço os conflitos interiores que lhe oprimem a alma e lhe amarguram o coração. Daria tudo para poupá-lo de semelhantes dificuldades, mas não posso interferir no curso da lei que, gradativamente, vai executando os seus desígnios um dia escolhidos e fixados por nós mesmos.

Cada qual de nós deve trilhar uma senda específica de acesso à comunhão com o Senhor. Você sabe que, por minha vez, enquanto aí, atravessei igualmente os maus dias e as noites insones que a vontade do Alto me reservava. Nem sempre a nossa jornada no mundo pode seguir entre os caminhos que nos pareçam mais ajustados ao nosso modo de ser.

Você não está esquecido e nem desamparado. Passo a passo, amparam-no vários amigos invisíveis que se abeiram de sua estrada, estendendo-lhe as mãos. Não se suponha — repito — exonerado pelo Plano Superior das suas tarefas de ordem espiritual. A sua retirada compulsória, que desejamos tão curta quanto seja possível, obedece a injunções do seu próprio mapa de vida na Terra e não a impositivos de natureza exterior. Há momentos em que precisamos apreciar a luta de um plano mais elevado, nela penetrando mais por amor aos outros que por devotamento ao nosso próprio bem-estar. E semelhantes oportunidades decorrem invariáveis de nossa própria eleição antes do mergulho nos fluídos densos da carne sobre a Terra.

Bem se vê que estamos à frente de um adversário. Não se discute. No entanto, é necessário conquistar-lhe a opinião em nosso próprio favor. Sei que você não nasceu para a insinceridade e mais que ninguém conheço o seu temperamento franco, claro e espontâneo. Contudo, meu caro Rômulo, se a hora pede sacrifício, atendamos-lhe ao impositivo. Estou convencido de que você comigo, e eu em sua companhia, edificaremos muitíssimo naquele espírito desarvorado, embora convencional, em seu lustre de superfície. Não ignoramos que aceitando a Jesus por mestre a ele confiamos nossa vida, dispondo-nos a receber-lhe as divinas lições, em qualquer parte. E já que o Mestre imperecível nos convida a novo campo de ação procuremos não temer e sim crer somente, segundo a palavra sábia e iluminada do Evangelho.

Eu não disse na quarta-feira passada que você está doente e impossibilitado de atender às novas obrigações. Não seria eu o profeta de sua desistência da luta. Em minha carta humilde, apenas tracei um quadro do que poderia acontecer ao nosso grupo familiar, a fim de exaltarmos a graça divina que realmente nos acompanha em todos os instantes de nossa luta. Estaremos de pé, ao seu lado, auxiliando a cumprir seus deveres novos. Renovar-nos é a base de nossa verdadeira elevação. 

Não pense nos males de que o adversário possa ser o portador e sim lembremo-nos dos bens que podemos levar-lhe à ação e ao coração. Não prejulguemos, embora o quadro por ele estabelecido aos nossos olhos seja o mais desagradável à nossa conceituação de serviço, de equilíbrio e da vida. Encaremos a realidade com espírito sereno, atentos à cooperação valiosa da qual podemos dar testemunho. Não esperemos dele o que não tem para dar-nos e sim estejamos prontos para oferecer-lhe os recursos que pode esperar de nós.

Não há tempestade sem bonança e nem noite sem dia. Se o Senhor nos considera dignos de uma empresa tão alta, e aparentemente superior às nossas forças, sigamos ao encontro dela com destemor e paciência. Você não ignora que é fácil traçar roteiros para os outros enquanto nos demoramos na calma da paisagem diferente, contudo, estou vivendo o seu drama íntimo com indizível amor e não menor preocupação, e espero que o Alto nos favoreça. 

Tenho conversado mentalmente com você através de muitas maneiras diferentes, nos dias últimos, mas estou aprendendo com você a lição de que é muito difícil consolar aqueles que são o consolo de muitos e encorajar os corações que se fizeram os protótipos da coragem. Ainda assim, avancemos para adiante com otimismo e esperança. O essencial, no momento, é suportar de perto aquilo que você tolerava de longe, a fim de traçarmos com segurança um programa de recuperação. 

Se eu pudesse instilar em seu espírito uma força renovadora para a garantia de nossa paz nos primeiros embates, creia que daria tudo para satisfazer-lhe a necessidade. De qualquer modo, porém, confio em sua capacidade de autodomínio e no patrimônio de recursos espirituais de que, presentemente, somos detentores, a fim de que possamos sobrenadar acima do dilúvio dos caprichos e paixões desencadeado. De sua tolerância dependerá o êxito. Há cruzes que precisamos suportar com o heroísmo silencioso do Mestre para que nós e o nosso trabalho possamos encontrar a precisa ressurreição.

Noto-o algo fatigado e muito aflito na semana presente, mas todos esses fenômenos obedecem a causas de ordem mental e não física. Ainda assim, solicitei instruções do nosso receitista, que indica a você o uso alternado, por 10 a 15 dias, de Cactus Grand. 5ª, Lachesis 5ª, Carbo 5ª e Kalmia Lat. 5ª. E por alguns dias — 3 a 4 semanas — use um auxiliar para o sistema nervoso de Maracujina. É um preparado em base de frutas plenamente inofensivo e com propriedades que podem ajudar-nos de maneira expressiva. O “medicamento inglês” igualmente deve comparecer à nossa lida diária.

Quanto ao mais, meu filho, tenhamos esperança e fé. No Rio, façam o possível por manter as orações e o culto das quartas à noite com os nossos e com a presença eventual de algum companheiro de confiança. Estarei presente e procurarei fazer-me sentir por intermédio de Wanda, ou mesmo de vocês, em alguns minutos de prancheta. 

O tempo tudo reajustará se auxiliarmos ao tempo. Não há motivo para nos entregarmos à inconformação ou ao desânimo. A Providência Divina só nos pede a condução de certos fardos quando nos considera fortes. As missões espirituais, o desejo de fazer o bem e o ideal de servir jamais se interrompem. A ordem de Deus à Criação é a de que tudo continua — a vida conosco e nós com a vida — no rumo da perfeição infinita a que todos estamos destinados. Que o Alto nos proteja e nos abençoe. Confiamos em você com a segurança de sempre.

Estamos muito satisfeitos com a nova bandeira que o Roberto está desfraldando. Está moço e forte, com múltiplos recursos para uma iniciação profissional em grandes passos como os que se anunciam. Desejo ao meu neto muito progresso, saúde, paz e prosperidade. À Wanda estendo os meus votos de pleno êxito em seus ideais no serviço público e à nossa querida Maria, junto de você, desejo muita coragem e compreensão como sempre, para que nos auxilie a ver com clareza nas particularidades do caminho que nos cabe trilhar com prudência, operosidade, boa vontade e tolerância.

Assim, pois, não nos reportemos a um “adeus” inexistente e inadequado. Trabalhemos e o Senhor nos auxiliará. Confiemos no Alto e o Alto confiará em nós. Ajudemos para sermos ajudados. Toleremos, a fim de aproveitar com eficiência os bens que a vida e o mundo nos reservam. Exaltemos o otimismo e veremos o sol resplandecer sobre o pântano. Plantemos a esperança com o esforço de nosso sacrifício e o Senhor nos compensará com a realização, que é sempre a bendita colheita do espírito.

De almas e corações ligados, pois, nos problemas e trabalhos de cada hora, sigamos ao encontro da luta, porque, sem ela, não poderíamos aferir os nossos valores à frente de Deus.

Desejando-lhes, assim, tudo o que possa existir de melhor no caminho da vida, abraça-os com imenso carinho e profunda gratidão o papai e vovô que não os esquece,


A. Joviano
(Neio Lúcio)















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