Mostrando postagens com marcador Wanderley Oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wanderley Oliveira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 16 - Sob a Luz do Amor



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 16


Sob a Luz do Amor


“Os grupos que se ocupam exclusivamente com as manifestações inteligentes e os que se entregam ao estudo das manifestações físicas têm cada um a sua missão. Nem uns, nem outros se achariam possuídos do verdadeiro espírito do Espiritismo, desde que não se olhassem com bons olhos; e aquele que atirasse pedras em outro provaria, por esse simples fato, a má influência que o domina. Todos devem concorrer; ainda que por vias diferentes, para o objetivo comum, que é a pesquisa e a propaganda da verdade. Os antagonismos, que não são mais do que efeito de orgulho superexcitado, fornecendo armas aos detratores, só poderão prejudicar a causa, que uns e outros pretendem defender.” (O Livro dos Médiuns – Cap. 29 - item 348)

Interessante analisar, daqui para o mundo físico, a influência marcante de velhas ilusões que carreamos para os ofícios de reeducação na sementeira espiritista.

Quando aqui aportamos temos melhor dimensionada as percepções que nos permitem lançar um novo olhar sobre os esforços gerais no bem, fazendo-nos concluir que trabalho algum é dispensável, e todos, conquanto suas deficiências, concorrem para o progresso da causa.

No entanto, em regressando ao corpo físico, invadidos pelas milenares miragens do orgulho, costumamos entender nossa tarefa como a melhor e essencial, nossos conceitos como sendo a mais valiosa expressão da verdade e a nossa participação como admirável missão que nos eleva acima dos demais.

A despeito de erguermos juntos o estandarte da caridade, vezes sem conta abandonamos o imperativo de aplicá-la também nas nossas relações com quantos nos partilham o clima das atividades doutrinárias.

Retifiquemos essa miopia da visão espiritual.

Passemos a compor o escasso grupo daqueles que incentivam e sabem respeitar os esforços alheios, sejam quais forem.

Disciplinemos a tendência de excluir, e quando destacarmos falhas recolhamo-nos na ação indulgente ou mesmo ao silêncio e oração.

Valorizemos nossa atuação sem desprezar a de outrem.

Cerremos esforços na direção que melhor atenda as nossas crenças sem alimentar o anseio de ser seguido. Recordemos que ninguém está obrigado a tal mister, da mesma forma que não temos a implicação de seguir ninguém.

Façamos isso em favor de nossa paz e da ordem geral nos nossos campos de trabalho redentor.

Lembremos velho rifão das esferas extrafísicas que diz “nenhum caminho para o bem é dispensável, mas nenhum de nós é insubstituível nos serviços de Deus”, remetendo-nos a concluir que, se toda tarefa é valorosa, certamente nenhuma depende de nós...

Em verdade, habitualmente, o excessivo valor que conferimos às realizações com as quais cooperamos é o mesmo que emprestamos à nossa personalidade sob as lentes da vaidade...

Em razão disso, anotemos duas metáforas oportunas.

O movimento espírita pode ser comparado a estimável universidade do Espírito; as instituições são as áreas específicas de aperfeiçoamento e cada tarefa pode ser entendida como uma classe que reúne um certo número de aprendizes.

Nesse concerto de educação e melhoria, todos temos o valor pessoal e intransferível no aproveitamento das lições na construção de nosso saber eterno.

Noutra imagem podemos conceber a Seara como um incomparável hospital da alma; cada grupamento assemelha-se a uma especialidade de recuperação e cada atividade a uma enfermaria de convalescença. 

Nesse ambiente de tratamento e prevenção, todos temos nossas doenças a cuidar com medicações individuais na busca de nossa alta.

Aprendizes e enfermos, eis o que “estamos”!

Portanto, ante os assaltos ilusórios do personalismo no que tange a comparações e julgamentos, fiquemos com o Codificador que acentua: vias diferentes, objetivos comuns, para a propagação da verdade, conforme a nossa referência supra destacada.

Amigo do coração,

Estejas convicto de que, apesar de tuas reservas com os deveres alheios no bem, Deus conta com eles.

Envolve-te na psicosfera do Amor, se desejares entender os planos do Pai para com aqueles aos quais ainda não consegues devotar apreço, entendimento e admiração incondicionais.

É natural que enxergues elitismo nos que estudam com afinco, já que por agora não despertastes ainda tanto quanto deveria para a importância do conhecimento na felicidade dos homens.

Compreensível que não entendas os eloquentes do verbo libertador, já que ainda não te sensibilizastes o bastante para o benefício de impor disciplina a teu próprio linguajar diário.

Honesta de tua parte a preocupação com o excesso institucional, sabendo que teu incômodo é sinal do aprendizado que tens urgência em aquilatar para que não cometas a mesma distração.

Aceitável que destaques personalismo naqueles que cumprem a rotina das honrarias e cargos, uma vez que não dominastes por enquanto tuas manifestações de vaidade em pequenos lances da existência.

Sincero de tua parte supores que o farnel distribuído é fonte de preguiça, considerando que ainda não amealhastes suficiente experiência da doação de si mesmo junto aos deveres materiais no lar e na profissão.

Justo tua inconformação com a coleta de recursos para eventos de confraternização e estudo, uma vez que ainda não arregimentaste melhores concepções sobre a urgência da união entre grupos de interesse comum.

Razoável cobres da conduta do próximo aquilo que ainda não conseguiste implementar na tua própria vivência, e que julgues os denodos de Amor dos outros conforme seus limites de atuação.

Contudo, se queres amealhar paz e sabedoria para tua vida, sobrepõe-te a todas essas questiúnculas da existência, que são sombras do egoísmo, e envolve-te no afeto cristão, sendo cortês, generoso e terno com tudo e com todos, educando-te no amor indistinto e incondicional perante as diferenças e os diferentes que te circundam a experiência carnal.

Vai, experimenta e verás!

Verás o que acontece quando optares pelo Divino sentimento ao encontro de teus irmãos, sob a luz do amor.


Ermance Dufaux











terça-feira, 11 de março de 2025

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira - Introdução



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Oliveira


Introdução


Alma querida nos ideais renovadores, é natural que sofras inquietação por nutrires objetivos transformadores.

Ante a penúria de teus valores, declaraste sem mérito para receber a ajuda Divina.

Perante a extensão de tuas falhas, açoitas a consciência com lancinante sentimento de hipocrisia ao repetires os mesmos desvios dos quais já gostarias de não se permitir. Essa é a estrada da perfeição, não te martirizes.

Tudo isso é compreensível, parte integrante de quantos se candidatam aos serviços reeducativos de si próprios portanto, não sejas demasiadamente severo contigo.

Sem lástima e censura, perdoa-te e prossegue sempre.

Confia e trabalha cada vez mais.

Por mais causticantes as reações íntimas nos refolhos conscienciais, guarda-te na oração e na confiança e enriquece tua fé nas pequenas vitórias.

A angústia da melhora é impulso para promoção.

O remédio salutar para amenizá-la é a aceitação incondicional de ti mesmo.

Aceitando-te humildemente como és e fazendo o melhor que possas, vitalizar-te-ás com mais fortes apelos interiores para a continuidade do projeto de melhoria e corrigenda.

Por outro lado, se te punes estarão assinando um decreto de desamor contra ti.

Afeiçoa-te com devotamento e sensatez aos exercícios que te são delegados pelas tarefas renovadoras do bem, aprimorando-te em regime de vigilância e paciência.

Sem alimentar fantasias de saltos evolutivos, dá um passo atrás do outro.

Sem ansiar pela grandeza das estrelas, ama-te na condição de singelo pirilampo que esforça por fazer luz na noite escura.

Faça as pazes com suas imperfeições.

Descubra suas qualidades, acredite nelas e coloque-as a serviço de suas metas de crescimento, essa é a fórmula da verdadeira transformação.

O tempo concederá valor e experiência a seus esforços, ajustando teus propósitos aos limites de tuas possibilidades, libertando-te da angústia que provém dos excessos.

Caminha um dia após o outro na certeza de que Deus te espera sempre com irrestrito respeito pelas tuas mazelas, guardando o único direito de um Pai zeloso e bom que é a esperança de que amanhã sejas melhor que hoje, para tua própria felicidade.


Ermance Dufaux












segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 7 - Condutores Afetuosos



Ermance Dufaux - Livro Laços de Afeto - Wanderley Oliveira - Cap. 7


Condutores Afetuosos


“Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor, há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram. O silêncio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em família. As grandes assembleias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessário nos pequenos grupos.” (O Livro dos Médiuns - Cap. 29 - Item 335) 

Sorriso irradiante, cordialidade contínua, conhecimento haurido na vivência, conduta íntegra, afeição indiscriminada, eis algumas das marcas dos “dirigentes emocionais”.

Habituados a conduzirem-se pelo coração, são dotados de uma sabedoria espontânea adquirida na solução de suas problemáticas interiores; e porque convivem bem consigo, são afáveis e agradáveis no conviver com os outros.

Atos de equilíbrio, intuição e bom senso lhes são costumeiros, já que são portadores de harmonia e serenidade.

Condutores afetuosos são os que acolhem com cuidados especiais os seus tutelados e desvelam com carinho pelos deveres da tarefa.

Nos dias que passam, tornam-se como polos atrativos de almas, graças à sede de atenção e ternura em que se encontram a grande maioria dos corações, sofridos e carcomidos em suas energias pelas provas dolorosas da reencarnação.

Como dispõem sempre de afeto cristão, fazem-se fonte de estímulo, esperança e diretriz no encaminhamento das soluções a quem recorrerem os que lhe partilham a convivência.

Apoiam, sem conivência.

Ajudam, sem paternalismo.

São afetuosos, sem pieguismo.

Ordenam com despretensão, dividindo responsabilidade.

Discordam, ampliando horizontes.

Promovem, confiando compromissos.

Coordenam com atitudes, além das palavras.

Pelas reações é que conhecemos o nível de afeto e inteligência emocional dos condutores em harmonia com Jesus.

Onde muitos enxergam problemas, eles percebem soluções.

Enquanto muitos desanimam, sua leitura é de que os obstáculos são sinais do caminho exato.

Se são criticados, asilam piedade no coração.

Quando vilipendiados, só se lembram da oração.

Condutores afetuosos são o esteio das sociedades espíritas fraternas. A eles compete a relevante tarefa de zelar pelo dever de toda instituição doutrinária no melhoramento moral-espiritual. Conduzindo as atividades para esse fim, certamente facultarão aos seus conduzidos um campo afetivo de largas proporções na execução das mais belas semeaduras nos terrenos da espiritualização do ser, e no  desabrochar dos melhores sentimentos entre todos os que se entrelaçam no clima da lídima fraternidade.

Cuidando manter uma homogeneidade de visão quanto a esse precípuo compromisso de todo espírita, estabelecerão condições à uniformidade do afeto nas expressões da amizade, dos relacionamentos sólidos e do estímulo advindo dos exemplos salutares uns dos outros, entre seus membros, porque todos estarão matriculados nas disciplinas da renúncia, do trabalho, do respeito fraternal, da solidariedade, que são virtudes indutoras da autoeducação e do crescimento espiritual. 

Vibrando em faixas de saúde afetiva, os componentes de seu grupo obterão melhores resultados no labor, mais motivação para os encontros diuturnos, e se formará uma rede de corações estendendo bênçãos de conforto e esclarecimento a tantos outros quantos possam beneficiar de semelhante banquete emocional.

Tomando seu grupamento como uma grande família, esmerará por lhes oportunizar as melhores condições de convivência pelo entendimento.

Adotando simplicidade administrativa e proximidade com grande “calor humano”, conseguirá tornar o centro espírita um educandário do afeto em direção aos rumos da ética de Jesus e Kardec, evitando que discórdias e desavenças venham a se tornar uma propaganda negativa para sua instituição. Para isso, ocupar-se-á em manter o “tamanho afetivo” de seu grupo, ou seja, ainda que ele cresça em número, deverá fazê-lo preservando, proporcionalmente, a mentalidade inicial de ser uma família e de se amarem sem exceções.

Allan Kardec, o condutor espírita exemplar, reunia em si a sobriedade intelectual e a generosidade, a sensatez e a ternura, o raciocínio vigilante e o acolhimento fraternal. Ele foi o primeiro dirigente espírita, e quem lhe empresta caracteres de um homem de ciência não imagina como era um coração rico de humor e de palavras espirituosas, com finas expressões de descontração.

Na Sociedade Parisiense era querido e respeitado, conquanto alvo de inveja e intrigas, face à conduta ilibada e à confiança irrestrita que lhe depositavam ante as cortesias e gestos amoráveis que externava.

Sempre acompanhado por Amelie, compunham um par de almas que plenificavam o ambiente em dúlcida paz.

O tratamento afetuoso era-lhe constante qualidade, e pelo Amor que nutria ao Espiritismo nascente não lhe era enfadonho repetir sua gratidão a Deus por ter-lhe descortinado os horizontes da vida espiritual que, para ele, era a fonte da alegria, do amor e da felicidade relativa que qualquer homem passaria a semear quando se tornasse um verdadeiro espírita.

Assim, o Codificador ajustava sua existência à finalidade primeira do Espiritismo, para a qual conduziu-se com rigor para consigo e amavelmente para com os outros, junto à Sociedade que fundou, buscando sempre priorizar no contato com o mundo dos Espíritos a essência moral dos intercâmbios, através de estudos metódicos e aplicados nos quais todos absorviam a essência do Espiritismo por um mundo melhor. 


Ermance Dufaux 









segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - Wanderley Oliveira - Cap. 17 - Por Que Melindramos?



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - Wanderley Oliveira - Cap. 17


Por Que Melindramos?


"Até mesmo as impaciências, que se originam de contrariedades muitas vezes pueris, decorrem da importância que cada um liga à sua personalidade, diante da qual entende que todos se devem dobrar." (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. 9 - Item 9)

Por que nos ofendemos? Por que temos tanta suscetibilidade em relação a tudo que nos cerca? Quais as razões de encolerizar-nos perante fatos desagradáveis?

Eis três perguntas para as quais devemos dirigir nossa meditação, caso queiramos entender o que se passa conosco nos desafios do progresso espiritual.

Iniciemos nossas ponderações conceituando a palavra ofensa. Existe a ofensa por razões naturais, provenientes do instinto de defesa e preservação. Por meio dessas agressões, recebemos da mente os sinais de alerta para avaliarmos com melhor exatidão a conveniência e o grau de perigo ou importância do que nos cerca. É natural nos ofendermos com palavrões que causam dor aos ouvidos sensíveis; é natural nos ofendermos ao ver dois seres humanos se agredir; é mais que justo que nos ofendamos e tenhamos raiva ao sermos assaltados em uma rua; seria muito natural nos ofendermos quando formos injustamente julgados pelas pessoas que nos conhecem. A ofensa tem sua faceta benéfica, porque não devemos aceitar tudo que acontece à nossa volta passivamente, sem uma reação que nos faça sentir lesados ou ameaçados. O objetivo desse sentimento será sempre o de nos colocar a pensar na elaboração de uma conduta ajustada à natureza das agressões que sofremos.

Contudo, larga diferença vai entre a ofensa natural e o melindre, que é a reação neurótica às ofensas. Melindre é o estado afetivo doentio de fragilidade, que dilata a proporção e a natureza das agressões que sofremos do meio. Pequenas atitudes ou delicadas situações são motivos suficientes para que o portador do melindre se agaste terrivelmente, fechando-­se em corrosivo sistema de mágoa e decepção com os fatos e as pessoas que lhe foram motivo de incômodos e contrariedade. Assim, aumenta a intensidade do fato e desgasta-­se afetivamente com imaginações febris sobre a natureza das ocorrências que o afetaram.

Sabemos que a mágoa é o peso energético nascido das ofensas transportadas conosco dia após dia, como fosse um colesterol da alma, causando-nos males no corpo e no Espírito. Sabemos, também, que a irritação é como uma dura martelada no sistema nervoso, levando-­nos ao estresse e à perda energética. Então, por que agasalhar semelhantes malefícios quando temos tanto esclarecimento?

Compreendamos algo sobre os mecanismos da ofensa e da cólera para avaliar as razões que nos inclinam para essa atitude de desamor e, fazendo assim, procuremos, igualmente, por meio do melhor entendimento, oferecer a nós mesmos o corretivo para os problemas de melindre e contrariedades do dia a dia.

Primeiramente, deixemos claro que na raiz do melindre e da ofensa está o orgulho. Vejamos o que nos diz o codificador a esse respeito: "Julgando-­se com direitos superiores, melindra-­se com o que quer que, a seu ver, constitua ofensa a seus direitos. A importância que, por orgulho, atribui à sua pessoa, naturalmente o torna egoísta" (1).

O que está por trás da grande maioria das ofensas humanas são as contrariedades, ou seja, tudo aquilo que não acontece como se gostaria que acontecesse. Contrariar, para a maioria das criaturas, significa ser contra aquilo que se espera, ser nocivo aos planos pessoais, ser prejudicial, ser desvantajoso. Nessa ótica, tudo aquilo que não ofereça alguma vantagem na nossa forma de conceber os benefícios da vida é algo inoportuno, indevido, que não deveria ter ocorrido, gerando reações no mundo íntimo, cujos reflexos poderão ser percebidos na criação de sentimentos de pessimismo, infelicidade, desapontamento, animosidade, tristeza e rancor.

Excetuando alguns casos de educação mal orientada na infância, esse vício de não ser contrariado foi adquirido pelo Espírito em suas diversas experiências reencarnatórias, nas quais teve todos os interesses pessoais atendidos a qualquer preço. É o velho hábito da satisfação plena dos desejos da personalidade que, dispondo de poder e recursos, não hesitou em colher sempre para si mesma os frutos dos bens divinos que lhe foram confiados nas anteriores experiências. Hoje, renasce em condições que limitam suas tendências de saciação egoísta, instaurando um delicadíssimo sistema de revolta silenciosa quando não consegue o atendimento de seus interesses, experimentando uma baixa tolerância a frustrações. Essa revolta é o movimento interior de repúdio da alma aos novos quadros da vida a que é lançada, nos quais é compelida, pela força das circunstancias, a aprender a obediência aos ditames da Lei Natural, nem sempre afinados com seus gostos e aspirações individuais. Esse é o preço justo que pagamos pelo costume de termos sido atendidos em tudo que queríamos no pretérito, quando deveríamos ter aproveitado as ocasiões de fartura e liberdade para sermos atendidos naquilo que fosse o melhor para todos.

Assim, a alma passa hoje por uma série de pequenas ou grandes situações na vida, ofendendo-se e irritando-se com quase todas, desde que contrariem seus interesses individualistas. Um singelo ato de esquecer um documento ou ainda o simples fato de não ser correspondido num pedido a um familiar, ou mesmo não ter sido escolhido para assumir a presidência da tarefa espírita, tudo é motivo para a irritação, o desgaste e a animosidade, podendo chegar às raias da ofensa, da mágoa e do desequilíbrio. O estado íntimo, nesse passo, reproduz a nítida sensação de que tudo e todos estão contra sua pessoa, e fatos corriqueiros podem se tornar grandes problemas, enquanto os grandes problemas podem se tornar tragédias lamentáveis...

Os prejuízos desse hábito não cessam com as contrariedades, porque não se consegue improvisar defesas para um condicionamento tão envelhecido de hora para outra. Uma faceta das mais comuns desse estado de suscetibilidade aos fatos da vida pode ser verificada na neurose de controle, que pode ser entendida como a atitude de tentar levar a vida de forma a não permitir nenhuma contrariedade, nenhuma decepção. Essa neurose pode ser considerada como uma maneira de se defender do vício de não ser contrariado.

Mas não para por aqui essa sequência de expiações na vida íntima. O esforço em controlar tudo para que as coisas aconteçam a gosto tem como principal consequência a preocupação. Preocupação é o resultado de quem quer ter domínio sobre tudo da sua existência. Surge inesperadamente ou por uma razão plausível, mas é, em muitas ocasiões, o resultado oneroso dessa necessidade de tomar conta de tudo para não acontecer o pior, o inesperado.

Classifiquemos com maleabilidade nas conceituações três espécies de dramas que vivem os contrariados:

- Contrariado crônico – é aquele que não aceitou o próprio ato de reencarnar, já trazendo impresso na aura o clima de sua insatisfação, que irá refletir em todas as suas realizações. Casos como esse tendem a transtornos de natureza mental.

- Colecionador de problemas – é aquele que traz, de outras vivências corporais, o vício da satisfação de interesses pessoais e que busca seu ajuste com os atuais quadros de limitação na reencarnação presente, desenvolvendo a preocupação com problemas reais e irreais em razão de tentar um controle sobre-­humano nos fatos naturais da existência.

- O adulto frustrado – é aquela criança que foi mal orientada, que teve quase todos os seus desejos e escolhas atendidos, criando ausência de limites e baixa resistência à frustração. Foi a criatura impedida pelos pais de se frustrar com os problemas próprios das crianças.

Em qualquer uma das situações citadas, o sentimento de ofensa será parte comum na vida dessas criaturas, podendo suscitar pequenas ocorrências de decepção rotineira ou ainda dramas dolorosos da psicopatia, conforme as tendências e os valores de cada Espírito. A psicopatologia do futuro verá na contrariedade uma grave doença mental e a etiologia de severos transtornos da alma.

O que importa a todos nós é o ingente trabalho de renovação no campo dos nossos interesses. Afeiçoar-­se com mais devoção a aceitar as vicissitudes da vida, com resignação e paciência, fazendo o melhor que pudermos a cada dia em busca da recuperação pessoal, otimismo ante os reveses, trabalho perante as perdas, confiança e boa convivência com amigos de ideal, serviço de amor ao próximo, instrução consoladora, fé no futuro e boa dose de humildade são as medicações para ofensas e ofendidos na doença do melindre.

Ofender-­nos é impulso natural em vista dos direcionamentos que criamos nas rotas do egoísmo. Contudo, Deus não criou um sistema de punições para seus filhos, e nos concede, a todo instante, o direito de perdoar. E, perdoar, acima de tudo, significa aprender a aceitar sua Vontade Sábia e Justa em favor de nossa paz, na construção de dias mais plenos em sintonia com os grandes interesses do Pai.


Ermance Dufaux









1. Allan Kardec, Obras Póstumas – primeira Parte - "O egoísmo e o Orgulho", p. 225 - 25ª edição - FEB.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Jesus a Inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Oliveira - Cap. 22 - Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão



Ermance Dufaux - Livro Jesus a Inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Oliveira - Cap. 22


Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão


"Mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz." João 11:1-10


Nos instantes de dúvida e tormenta, forma-se o quadro da noite interior. É o momento de parada e reflexão.

As decisões tomadas em clima emocional alterado podem atrair o remorso e a dor.

Na escuridão mental, o tropeço é quase inevitável.

Acenda a luz benfeitora da oração ou do diálogo que apazigua, antes de qualquer decisão sob o influxo da desordem nos seus pensamentos e emoções.

Nas trevas do desespero esconde-se a atitude irrefletida. 

Na escuridão da irritação brota o charco da violência. 

Na negrura da tristeza encontram-se os poços da amargura. 

Nos abismos do ódio aninham-se as víboras da maldade intencional. 

Na cegueira da mágoa ocultam-se as fantasias da vingança. 

Na noite da insegurança encobertam-se os impulsos sombrios da ansiedade destruidora. 

Busque a ajuda na luz quando você estiver nas noites emocionais da desarmonia interior, para que as suas decisões e escolhas não sejam as piores.

Jesus o alerta para não andar à noite, pois o tropeço acontece porque não há luz. O tropeço é o efeito natural de quem tenta caminhar sem condições.

Força, coragem e desejo de melhora não compactuam com precipitação e imprudência. Agir sob o impulso do descontrole é atear gasolina no intuito de apagar um incêndio.

Amanhã, aguardando com paciência e atenção, o quadro pode ser outro. Talvez você tenha mesmo que escolher e agir para que a luz se faça em meio à escuridão, mas se fizer isso com uma tocha de luz, será muito mais proveitoso.

Uma reação impensada é capaz de levar você ao tropeço da insanidade em querer resolver problemas graves em apenas alguns minutos.

Faça luz em seu caminho antes de qualquer decisão, se você realmente deseja a libertação.


Ermance Dufaux





Frase terapêutica

Mergulhe em sua mente. Faça contato com sua riqueza interior. Usufrua do seu poder pessoal. 





quarta-feira, 15 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8 - Como se tratar diante das frustrações



Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8


Como se tratar diante das frustrações


"O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá." Santo Agostinho (Paris, 1863). O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 5, item 19.


Tomar contato com a falibilidade é uma experiência comparável à dolorosa cirurgia sem o benefício da anestesia.

Sentir-se impotente, arrepender-se de más escolhas, reconhecer honestamente uma falha lamentável, ter a coragem de olhar para os erros do passado são atitudes desafiantes para nós que buscamos o aprendizado espiritual.

Quando todas as resistências do orgulho e da vaidade a respeito de nossos reais limites se quebram, a sensação de frustração costuma ser o espelho no qual enxergamos as tormentas de quem se percebe falível. E a frustração pode transformar-se na porta que se abre para a entrada do desvalor pessoal, que encarcera a mente e o coração na sensação de inutilidade e vazio interior.

Nesse quadro de provas emocionais, experimentamos a amargura da solidão e o clima da falência moral. Tudo parece uma sementeira arrasada por praga destruidora e um mal-estar toma conta da alma.

Todavia, para dimensionar nossa verdadeira estatura espiritual e ajuizar sobre quais são as reais necessidades de aprimoramento, torna-se indispensável a desilusão a respeito do que pensamos que somos. É necessário o contato com nossa falibilidade para examinar com proveito a realidade que nos cerca. A humildade só é possível quando caem todas as escamas enfermiças de nossa autoidolatria sobre supostos valores e qualidades que ainda não possuímos.

É no clima da frustração que brota a verdadeira identidade do nosso ser eterno, individual, exuberante e capaz de refletir a grandeza do criador.

Quem sofre a dor da frustração guarda, no íntimo, muitos anseios nobres que ainda não foram alcançados. Somente quem não se alimenta de boas intenções não se frustra.

Frustração pode ser também indício de que necessitamos rever posturas e reconstruir decisões, não sendo por isso, sinônimo de infelicidade. Frustração é sinal de rota mal orientada, e os infelizes não são aqueles que tentaram e falharam, mas, aqueles que sequer importam-se com os dissabores da existência, optando pela fuga na irresponsabilidade. As pessoas que se frustram o fazem porque tiveram atitude, tentaram, nutriram boas intenções, desejos e expectativas.

0 encontro com nossa falibilidade só é possível porque estamos sensíveis a algo melhor e queremos avançar. Se nos importamos com as decepções da vida vinculadas à nossa responsabilidade é porque almejamos rumos melhores e mais sadios. Por essa razão, consideremo-nos vitoriosos porque tentamos, e errar faz parte da caminhada. E porque errarmos e nos frustrarmos, ainda que repetidamente, não quer dizer que não somos capazes ou que não merecemos o que buscamos. A frustração, em verdade, é um convite ao recomeço de um modo diferente e melhor, é indício de que talvez tenhamos de rever nossas expectativas ou alterar nossa forma de realizar o que desejamos.

Não confundamos frustração com derrota. Frustração é sintoma de que o resultado não foi o esperado, e a derrota só existe para quem desistiu ou nem tentou.

0 fato de nos esforçarmos para alcançar o êxito não significa que o alcançaremos. Isso não basta.

Nos dias atuais, em função do imediatismo, há uma busca desenfreada de sucesso pelos caminhos da facilidade, quando, na verdade, toda conquista legítima, para valer a pena e nos pertencer de fato, solicita o concurso louvável do tempo, da paciência, da disciplina e da persistência.

Na Terra, raramente alguém se encontrará fora das provas da desilusão. Muitos sonhos, planos e revezes nada mais são que vivências para destruir as ilusões egoísticas de conquistas fáceis e apressadas. Necessariamente, elas não indicam incompetência, desvalor ou limitação, mas sim são resultados da pressa, de estratégias inadequadas e de pouca dedicação e cumplicidade.

Muitas vezes o que consideramos perda, erro e má escolha é uma alteração de curso nas lições da vida para nos aproximar ainda mais do desenvolvimento de habilidades e valores que verdadeiramente nos farão felizes e realizados.

Vamos acolher a frustração como um alerta da existência a fim de examinarmos com mais atenção a qual aprendizado estamos sendo chamados.

Lembremo-nos de que os vitoriosos não são os que sempre acertam, e sim os que não desistem. Vitoriosos perdem no mundo das ilusões e ganham no mundo da realidade, distanciam-se de expectativas impossíveis e aproximam-se do que é essencial, libertador e que satisfaz seus corações. Sendo assim, alegremo-nos conosco pelo esforço empreendido e continuemos nos tratando com carinho e aplicando as melhores energias do bem.

Se chegamos até aqui e não desistimos, imagine o quanto ainda poderemos realizar se decidirmos trilhar o terreno fértil da cumplicidade e da coragem de nos autoavaliarmos diante das frustrações da caminhada!

Pode até ser que para muitas pessoas sejamos fracassados. Porém, nas leis de Deus, quando não alcançamos êxito, significa que estamos sendo convocados ao recomeço. Só mesmo no dicionário humano existem palavras que significam derrota e insucesso a respeito das nossas escolhas na vida. Na lei divina, impera a bondade, a misericórdia, o amor e o determinismo de atingirmos a perfeição.

Acreditar nisso significa não aceitar a opinião de quem só enxerga o nosso lado sombrio. De mãos dadas com Deus, retomemos o curso e acreditemos no bem em nós. Deus conta apenas com o nosso melhor, Ele não espera perfeição.

Cada dia é um convite ao recomeço, e o que ontem parecia sem solução hoje se transforma em resposta inesperada para a alegria e para a paz. 0 que ontem era ofuscado pela treva hoje pode se converter em luz para o caminho da realização. 0 que nos parecia fracasso pode ser apenas convite a novos rumos para o melhor em nosso favor. Mudando o ponto de vista, poderemos perceber que aquilo que parecia má-sorte e negativismo é, na verdade, a melhor forma que a vida encontrou de indicar-nos qual direção tomar para nosso crescimento e felicidade.


Ermance Dufaux












quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Maria Modesto Cravo - Livro Diferenças não são Defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Ermance Dufaux / Wanderley Oliveira - Introdução - O poder da fraternidade



Maria Modesto Cravo - Livro Diferenças não são Defeitos: A riqueza da diversidade nas relações humanas - Ermance Dufaux / Wanderley Oliveira - Introdução


O poder da fraternidade


"E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder (...)" - MATEUS, 10:1


Meus Filhos,

Em meio ao vasto serviço pelo bem da Era Nova de Regeneração, a Lei divina, por meio da consciência, sempre nos conduzirá a uma única proposta: o bem que temos feito por nossa própria redenção.

A maioridade das idéias espíritas acontece dentro de nós.
O trabalho do Cristo tem de ser bom também para nós. A técnica que nos ensina a libertar o outro tem de se constituir em poder interior para nos fazer criaturas melhores, mais amáveis, mais serenas, mais saudáveis e que aprendam a se defender das insinuações do mal.

A maioridade espiritual não está fora de nós.

O trabalho e a ação são realizados em conjunto, todavia o calvário dos testemunhos e a absorção do aprendizado são pessoais e intransferíveis.

Como está nossa vida interior?

Nisso reside a força dos tempos novos para a maioridade sentida e aplicada: transportamos em nós mesmos o poder da fraternidade. Os eflúvios da criatura fraterna são fortes apelos naturais para a transformação.

E, por caridade, não acreditem que fraternidade seja virtude de anjos! Fraternidade é o traço afetivo da maioridade e da paz entre os homens.

A humanidade, cansada e oprimida, necessita mais de fraternidade que de técnica.

Meus filhos, cuidemos para que o avanço por fora, por meio de obras perecíveis que o tempo vai renovar, não nos encarcere novamente nas ilusões. quando julgamos ter avançado espiritualmente uns mais que os outros, estamos aceitando o convite do orgulho para superdimensionar o valor de nossa participação na Obra do Cristo.

A lição áurea é o amor.

Será que aprendemos a gostar uns dos outros? Como anda nosso sentimento em relação à diversidade humana? Amamos ou pensamos que amamos? Somos fraternos na prática ou temos a fraternidade como informação estéril? Estamos conseguindo manter bons pensamentos com quem não sintonizamos? Guardamos a boca iluminada mesmo com aqueles que foram descuidados conosco?

Imperioso descobrir as sombras da maldade que ainda estão no nosso coração e que foram produzidas por nossa própria caminhada tortuosa nas reencarnações. Técnica, inteligência, experiência, largueza de percepções, volume de informação, visão de futuro e bagagem vivencial são apenas credenciais para servir mais. Sem isso, as descobertas de fora podem se reduzir a confetes coloridos que serão varridos após a festa da vaidade.

A melhor religião de todos os tempos é o amor.
O livro mais completo de redenção espiritual é o Evangelho.

Nenhum poder se compara ao do amor legítimo, esse sentimento que consegue brotar no charco de nossas imperfeições sem se misturar às impurezas de nosso lixo emocional.

Quem ama apoia. Quem ama, compreende os diferentes e aceita as diferenças. Quem ama traz no íntimos o poder de ser fraterno, e quem tem esse poder imuniza-se contra a mágoa, avança sem destacar os defeitos alheios, persegue o ideal de ser útil sem condições, compreende sempre as escolhas de outrem e consegue sorrir quando o agridem com os insultos da mentira. Acreditar que amamos não deixa de ser um passo importante, contudo, não nos dá direito algum de subestimar quem quer que seja em razão desta capacidade de amar.

O futuro regenerador do planeta não comporta a crueldade silenciosa da indiferença, a força destrutiva da antipatia camuflada e muito menos o amargor da rejeição envernizada. A convivência da regeneração é construída na luz da autenticidade, da parceria, da cooperação e do auxílio mútuo, e tais qualidades varrem para longe as enfermidades morais que geram conflitos e separatismo.

Abandonando a prepotência e a rigidez, tudo ficará mais leve, e leveza é também uma palavra no vocabulário dos tempos novos.

O poder conferido pelo Cristo aos seus discípulos, narrado no texto de Mateus, capacita-os a saber quem são verdadeiramente, a viver o doloroso processo de desilusão e a conhecer os reais potenciais que todos temos em nós por herança divina.

"Deu-lhes poder (...)"

Maioridade é poder para renunciar às ilusões de nossa personalidade, irradiar a serenidade no modo de ser, desapegar-se dos julgamentos sobre o próximo e, sobretudo, para ser o mensageiro da fraternidade, agregando em torno de nossos passos o clima da verdade e da vida, as essências espirituais fundamentais na arte de existir.

O Cristo exala virtude e magnetismo. Na sua presença todos se sentem compelidos a algo melhor e mais compensador. ele tem uma força de atração e, por mais que desejem apagá-lo, mais ele transcende, mais luz projeta. Quanto mais o atacam, mais seu nome é lembrado.

A Obra é do Cristo. E pelo que saiba, até agora, Jesus não mandou "despedir" ninguém, conquanto as diferenças! Pelo contrário, não queiram saber quanta alegria existe nos Planos Maiores pela coragem daqueles que pegaram na enxada para arar o campo áspero e arredio, ainda que demonstrando dificuldades no manuseio da ferramenta, laborando muitas vezes de forma tão diferente!

Os recados que nos chegam desses Planos Superiores são cânticos de esperança em favor das lutas de todos nós. Autênticas súplicas de acolhimento e bondade conclamando todos à união e à aceitação sem limites.

Muitos chamados e poucos escolhidos. Abramo-nos para essa expressão da misericórdia Celeste.

Há muita esperança nos céus em torno dos passos de todos os que se movimentam para acender um pequeno lampejo de luz na Humanidade.

Quanta treva a vencer! Diante disso, por que os embates dispensáveis por conta de uma singela forma de entender ou se comportar? Diante de tanta necessidade, por que arrolar deficiências no trabalho alheio, sendo que todos apenas estamos dando o que podemos? Se sabemos que o trabalho é repleto de imperfeições, por que tanto rigor com o irmão que busca oferecer algo ao bem da sua forma e do seu jeito? Qual de nós não terá o que corrigir nos serviços do bem? Portanto, qual a razão de tanta discórdia por bagatelas do modo de entender?

A quem interessa semelhante disputa ante tanto a ser feito?
Só mesmo a doença da pretensão pode articular tanto rigor e endurecimento na postura.

Os mensageiros do bem de Mais Alto são unânimes na expressão do sublime sentimento de incentivo a todas as realizações que se erguem em nome do bem, sejam elas ou não classificadas como espíritas ou quaisquer designações.

Diante da multidão faminta, Jesus indagou: " Quantos pães tendes?"

Foi com as condições que lhe ofereceram que ele multiplicou fartamente o alimento em favor de todos.

Em um mundo de dor e fome da alma, qualquer migalha se torna uma fonte de nutrição e orientação nas mãos do Senhor.

Enquanto muitos procuram o mal por escolha, nós já começamos a sentir a necessidade do bem. Somos os obreiros ainda sem habilidade, porém dispostos a semear. Aprovemos-nos mutuamente nos campos de serviço com coragem para superar nossos impulsos de inaceitação e ciúme ante as tarefas alheias.

Vibremos com a alma pelos passos alheios. Não temos noção do esforço que tem custado para a maioria dos servidores manter-se no trabalho de sua melhoria e na ação em favor dos ideais espirituais.

Procuremos o lado melhor uns dos outros. Abundemos de misericórdia. Deixemos a fraternidade iluminar nossos sentimentos. Que expressões mais nítidas registrar para definir a maioridade espírita nas relações humanas?

As reflexões tecidas por Ermance Dufaux nesta obra são como rios de sabedoria e afeto conduzindo a correnteza do pensamento em direção ao mar do coração, onde verdadeiramente a fraternidade há de brotar. São páginas dirigidas ao sentimento, visando aos dias vindouros da regeneração na Terra.

Ave Cristo! Os que te amam assim te saúdam, Senhor!

Da servidora do Cristo e amante do bem,


Maria Modesto Cravo













domingo, 11 de dezembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Para sentir Deus - Wanderley Oliveira - Cap. 12 - Fé



Ermance Dufaux - Livro Para sentir Deus - Wanderley Oliveira - Cap. 12




E ele lhe disse: Tem bom ânimo , filha, tua fé te salvou: vai em paz- Lucas, 4:48


A fé é o fio condutor que liga o homem à essência da vida. Conectados a ela, encontramos suprimento necessário para alimentar nossas forças e superar nossa fragilidade.

Ela é a porta pela qual qualquer um de nós pode passar para ouvir a voz divina de Deus na acústica da alma, orientando nossa consciência.

É a energia da alma que constrói pontes de criatividade entre nossos problemas e suas respectivas soluções.

É a força afetiva capaz de manter nossa esperança viva no coração. 

É a luz que se derrama de nosso ser iluminado e criando a bênção do otimismo, da coragem e da alegria.

A fé, talvez, seja o maior presente que Deus nos ofereceu na caminhada evolutiva, porque sem ela podemos chegar a ponto de negar a própria existência, e quem nega existir padece a dor da descrença no reino da alma.

É a descrença, considerada como a doença de ausência de sentido para viver, é, sem dúvida nenhuma, a prova mais dolorosa que pode enfrentar o Espírito que não quer vencer seu egoísmo.

Só mesmo quando desejamos optar pelo egoísmo cristalizado a fé debanda.

Quem ama, ilumina-se de fé. E quem crê envia fios de luz a Deus para com Ele manter uma sublime comunhão de paz, saúde e progresso incessantes.


Ermance Dufaux











quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Espírito José Mario - Livro Quem sabe pode muito, quem ama pode mais: Os desafios da convivência no centro espírita - Wanderley Oliveira - Cap. 3 - Examinando o Orgulho



Espírito José Mario - Livro Quem sabe pode muito, quem ama pode mais: Os desafios da convivência no centro espírita - Wanderley Oliveira - Cap. 3


Examinando o Orgulho


"Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado." Lucas, 14:11

- Dona Modesta como avaliar a reação de Calisto ante as ponderações feitas por Ana durante a festa? 

Pareceu-me que não as recebeu como devia!

- Sua análise é pertinente, meu amigo. A personalidade de Calisto merece um estudo aprofundado nos meios espíritas. Estudar suas particularidades morais significa ampliar nosso raio de compreensão, acerca de uma das características comportamentais mais destrutivas de nossa causa de amor. 

- O orgulho? - Um derivado do orgulho. A arrogância. Lembra-se de nossa conversa ontem durante o chá? 

Calisto é um trabalhador devotado e esclarecido. Superou lutas íntimas e externas que poucos se dispõem a vencer. Reúne qualidades sobre as quais nós, os espíritas, pudemos edificar farta semeadura de bênçãos em favor da doutrina e do próximo. - E mesmo com essas qualidades... - Mesmo com essas qualidades, ainda não conseguiu, como a maioria de nós, suplantar suas expressões morais inferiores. 

Consideremos a esse respeito que nossa ótica espiritual encontra-se excessivamente viciada, porque, entre nós, os aprendizes do Espiritismo em ambos os planos de vida, acostumamo-nos avaliar os esforços alheios de modo míope, distante da verdadeira condição em que o Espírito se encontra na evolução. 

O fato de atingirmos longos anos de trabalho ou reunir vultosa folha de cooperação ao ideal espírita, não é garantia de realização íntima ou vitória definitiva na luta contra as velhas tendências da alma. - A arrogância então deriva do orgulho? 

- O orgulho é o sentimento de superioridade e a arrogância é uma das manifestações mais salientes desse traço moral. A personalidade arrogante supervaloriza seu próprio eu. Mantém uma fixação enfermiça nas "vibrações do ego". 

O arrogante não aceita críticas, quando as aceita procurar maquiar as correções que ela indica em sua conduta; despreza o valor alheio e se o reconhece adapta-o aos seus interesses e modo de ver; tiraniza a si mesmo nas malhas da culpa; tem uma convicção inabalável em suas próprias crenças, porque calcadas no perfeccionismo que o martiriza. 

A arrogância afasta as pessoas. O arrogante comete o disparate de acreditar que pode e até deve mudar o modo de pensar dos outros. Nesse sentido usa de toda sua ardilosidade. Não costuma ouvir senão as opiniões que vem de encontro ao seu próprio ego. Raramente abre-se a pensar nas ponderações dos outros por nutrir um exagerado sentimento de certeza naquilo que realiza. 

A personalidade arrogante é autossuficiente. Alimenta-se de confiança exacerbada. Quase sempre, tem suas origens nas experiências de sucesso que deve riam insuflar a competência e arte de promover o ser humano ao crescimento, à habilitação em novos misteres. Tais ingredientes morais mascaram a compulsiva sensação de grandeza alcançando patamares de desrespeito à vida alheia no campo individual ou coletivo, sem que o arrogante o perceba. 

- Perdoe a indiscrição, Calisto tem sido muito arrogante junto às suas atividades? 

- Para o grupo carnal, nesse momento das vivências do Grupo X, ele se tornou um ônus. 

- Por que Dona Modesta? É muito fácil, José Mário, no nosso estágio evolutivo, perdermos a condição de servidores, operários da causa, e nos autopromovermos a qualificações que ainda não possuímos. Julgarmo-nos mais importantes que o ideal. Efeitos do nosso orgulho. 

Calisto sente-se indispensável e não acredita na possibilidade de que outros possam fazer o que ele faz com a mesma competência. É um trabalhador valoroso que corre o risco eminente de atolar-se em severas refregas pelo simples fato de não aceitar os alvitres que a própria vida vem lhe apresentando. É um coração com grande alcance de visão, mas incapaz de submeter sua capacidade de enxergar ao exame alheio. As pessoas que lhe contestam são taxadas por obsidiadas. Raramente ouve opiniões diversas. 

- Há quanto tempo Calisto vem atuando no Grupo X? 

- Quase duas décadas. - Sua conduta seria a causa dos conflitos? 

- É difícil admitir que uma só pessoa seja a causa isolada dos problemas em qualquer grupo. Os conflitos surgem de um conjunto de situações. A personalidade arrogante de Calisto cria um largo tronco de lenha na fogueira que está preste a ser acesa no Grupo X. Contudo, é preciso franqueza em nossas análises para um bom aprendizado José Mário. 

Calisto, a despeito de sua coragem e inquestionável bagagem espiritual, está sendo chamado a novas lições na condução de seus potenciais. Manejar o conhecimento e a experiência doutrinária como se tem feito com muitas conquistas do homem comum, distante das realidades espirituais, é correr riscos perigosos de se lançar no personalismo. Nosso irmão tem sido infantil em relação a sua experiência. Tem agido como cidadão comum na luta humana que alcança seus sonhos e metas e se acomoda na atitude de vangloriar-se de si mesmo, supondo-se mais do que realmente é. 

Essas características são muito salutares para catalisar pessoas, aglutiná-las. É um líder nato. Aglutinar pessoas, porém, é muito fácil. Difícil é mantê-las coesas e em harmonia. Com a mesma facilidade que catalisa, Calisto dispersa pessoas. E os que dispersam sempre estão incorrendo em erro. Não queira saber, por conta de seu caráter, quantas pessoas já passaram pelas tarefas sob sua coordenação. Entretanto, para ele, todos se afastam por imaturidade e ataques espirituais. 

A festa continuava bulhenta. Com muitos risos e descontração. Como disse Doutor Inácio aos meus ouvidos: - Pronto socorro para desopilar o fígado. Minha mente estava distante dos ruídos daquele instante. As lições de Dona Modesta calaram na minha intimidade profunda. 

Lembranças eclodiam em minha tela mental acerca das minhas próprias lutas de relacionamento. Apesar de ingressar nas provas de nossos irmãos somente agora, sentia-me sensivelmente responsável pelo que lhes ocorria. É como se fizesse parte de tudo o que ali presenciei já há muito tempo. O Grupo X era um espelho de minhas próprias necessidades e experiências. Ficava clara, a cada instante, a razão do convite para cooperar. 

Meus olhos, novamente, marejaram. Algo soterrado no meu inconsciente viera à tona. Tamanha foi minha emoção, e seguindo as orientações de meus terapeutas, não me contive e adotei a espontaneidade. Supliquei a Dona Modesta: - Não sei como dizer, mas sei que a senhora vai me entender! Por caridade, não me afaste dessa tarefa. 

- José Mário, aqui será sua nova sala de aula!... 

Logo na manhã seguinte, bem cedo, Calisto telefona para Ana a fim de lhe fazer um pedido. 

- Ana, bom dia! - Bom dia, Calisto! - Olha, vou direto ao assunto. Estou ligando para lhe pedir, encarecidamente, deixar Antonino fora dessa reunião de diretoria. Estive pensando no que falamos ontem na festa. Acredito, realmente, que esteja na hora de conversarmos. A reunião é bem-vinda. Entretanto, vamos preservar Antonino. 

- Vou pensar no assunto, Calisto, e discutir com os companheiros. Talvez possamos fazer dessa forma. Confesso-lhe que a ideia não me agrada. 

- E você está bem? - Bem?! - É que ficou muito nervosa ontem durante nosso diálogo. 

- Não houve diálogo, Calisto. Aliás, cada dia mais, escasseia em nosso grupo a possibilidade de qualquer concórdia. 

- Mas me responda como está? - Olha, Calisto! Vou te ser franca mais uma vez! Sequer tenho vontade de falar de meus sentimentos para você, considerando que só se utiliza desse expediente para gerir seus interesses e manipular pessoas. Esteja certo amigo, dessa vez é pra valer. Ou nós mudamos, ou não sei o que virá. 

- Você tem que abrir seus olhos, Ana. Lembra daquela comunicação mediúnica alertando sobre o telhado do centro que seria apedrejado? 

- Lembro sim, Calisto. 

- Então, fique atenta com essa atitude. 

- Quer saber?! Estou farta de seus argumentos sobre trevas e alertas mediúnicos. Você não tem olhar para o que se passa a um palmo de seu coração, não é mesmo? Você não existe Calisto. Uma pessoa que não sente, não existe. Sua mente está voltada para o exterior. Muito fácil arrolar problemas com as trevas, mas e nós como ficamos? 

- Olha Ana... - ela nem o deixou terminar. 

- Olha aqui você, Calisto. Tenho mais o que fazer! Estou com muitas panelas no fogo! Com licença e até a reunião. 

- Considere meu pedido, Ana. 

- Se o fizer não farei por você, esteja certo. 

Mal se despediram. O clima agoniava. Calisto ao telefone agia com extrema habilidade de cálculo. Sempre que questionado, era essa sua reação. Ao desligar o telefone, estava completamente ensimesmado, como se arquitetasse algo mentalmente. Falava sozinho na sala de sua residência. Pensava uma maneira de dissuadir a diretoria da reunião. Via nisso uma terrível armadilha das trevas para levar o grupo ao pior. 

Mal terminou seus raciocínios e o telefone tilintou. 

- Olá, é Calisto? 

- Sim, sou eu. 

- Como vai amigão? 

- Antonino? Tudo em paz, amigo? Passou bem de ontem? 

- Que caldos! Comi até não poder mais! 

- E então? Ligando tão cedo assim! 

- Tive algumas percepções e queria dividir com você. 

Calisto se apressou em pegar uma agenda para fazer anotações. Ouvia com atenção. Por um segundo chegou a relampejar em sua mente a ideia de que algo novo surgiria para clarear a situação. 

- Pode falar, Antonino. 

- Tive sonhos horríveis dos quais não me lembro. Havia muita batalha, muita guerra nos sonhos. Agora a pouco, quando acordei, tive uma nítida sensação da presença de Dona Modesta. Lembra dela? 

- Aquela dos livros de Inácio Ferreira? 

- Sim, é ela mesma. Nunca a havia percebido. 

- Ela disse algo - manifestou Calisto com certa apreensão de que algo obtivesse acerca da suas recentes lucubrações ou mostrou alguma visão? 

- Sim. Ela me disse que os trabalhadores de linha de frente do Grupo X precisam descer dos tronos. 

- Tronos?! 

- Tronos do orgulho. Foi assim que ela disse. 

- Compreendo. E ela citou algum episódio? 

- Não. Ela não me disse mais nada, mas fiquei com um senti mento de que deveria me preparar para uma longa batalha. Está acontecendo algo na casa, Calisto? 

- As lutas de sempre Antonino. Tudo contornável. 

- Ainda bem! E de forma muito humilde e simplória, expressou Antonino. 

- Fiquei muito comovido com a presença dela. Lembrei-me da mensagem de Eurípedes. Você se lembra? Aquela dirigida A diretoria? 

- Sim, lembro bem! Pena que o grupo esqueceu a mensagem, não é Calisto?! Achei-a tão oportuna a todos nós! Nos dias seguintes à sua recepção, tive uma sensação que ela teria muitos efeitos no grupo Mas vou me desligar disso, não é tarefa minha essa análise, não é... 

Após a fala de Antonino, Calisto desconcertou. Ficou lívido Mudou de assunto e sentiu raiva pelo que vinha ocorrendo. No íntimo, ele é um homem com nobreza de ideal. Queria preservar exatamente essa pureza que sentia em Antonino. Guardar sua vida mental das tricas e futricas. A vida, porém, reserva lições indispensáveis ao crescimento de todos... A pureza de estufa não condiz com o verdadeiro cristão. 

Antonino sequer imaginava o que deflagrou a referida mensagem mediúnica. Os autênticos discípulos do Cristo não encontram na imortalidade um adorno cultural com o qual possam tecer digressões filosóficas ou louvar os Planos Mais Altos com intercâmbios esporádicos. Para eles, imortalidade é sentimento que eleva e aperfeiçoa, encoraja e liberta. Quem o experimenta, renova-se. Quem sente a imortalidade, dirige-se para o alto em busca da ascensão moral. 

Imortalidade é conquista no reino das emoções nobres. Serviço de aperfeiçoamento através dos choques da dor. Aquisição feita nos entrechoques da realidade. Os médiuns com Jesus devem conhecer os campos sangrentos das lutas de cada dia, a fim de não se tornarem pítons dos tempos modernos, acomodados em confortáveis tendas de proteção, enquanto seus irmãos entregam-se ao combate ardoroso. 

Calisto agia como um profissional competente em diagnosticar a enfermidade, mas totalmente incapaz de aplicar a solução mais adequada. Habilidoso no trato com as questões do mundo espiritual, e cego para a realidade de seus próprios sentimentos. Míope para sua intimidade. 

Muito fácil para almas em nosso estágio, encontrar as causas dos desentendimentos fora de nós. Colocar um espelho diante do coração, pedir desculpas, propor novos caminhos com base nessas descobertas, assumir o arrependimento pelos nossos atos e decisões, voltar atrás nas escolhas mal feitas, propor acordos de paz, tudo isso ainda é muito raro. 

A percepção de Antonino dentro da história foi de uma fidelidade ímpar. Era exatamente a expressão usada por Dona Modesta. Desapegarem-se do trono. Vencerem as posturas psicológicas de orgulho que criam as miragens dos personalismos. 

Sem essa conquista, nossas iniciativas espirituais não passam de manifestações farisaicas dos lábios para fora a declamar: senhor, senhor!


Espírito José Mario