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quarta-feira, 15 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8 - Como se tratar diante das frustrações



Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8


Como se tratar diante das frustrações


"O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá." Santo Agostinho (Paris, 1863). O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 5, item 19.


Tomar contato com a falibilidade é uma experiência comparável à dolorosa cirurgia sem o benefício da anestesia.

Sentir-se impotente, arrepender-se de más escolhas, reconhecer honestamente uma falha lamentável, ter a coragem de olhar para os erros do passado são atitudes desafiantes para nós que buscamos o aprendizado espiritual.

Quando todas as resistências do orgulho e da vaidade a respeito de nossos reais limites se quebram, a sensação de frustração costuma ser o espelho no qual enxergamos as tormentas de quem se percebe falível. E a frustração pode transformar-se na porta que se abre para a entrada do desvalor pessoal, que encarcera a mente e o coração na sensação de inutilidade e vazio interior.

Nesse quadro de provas emocionais, experimentamos a amargura da solidão e o clima da falência moral. Tudo parece uma sementeira arrasada por praga destruidora e um mal-estar toma conta da alma.

Todavia, para dimensionar nossa verdadeira estatura espiritual e ajuizar sobre quais são as reais necessidades de aprimoramento, torna-se indispensável a desilusão a respeito do que pensamos que somos. É necessário o contato com nossa falibilidade para examinar com proveito a realidade que nos cerca. A humildade só é possível quando caem todas as escamas enfermiças de nossa autoidolatria sobre supostos valores e qualidades que ainda não possuímos.

É no clima da frustração que brota a verdadeira identidade do nosso ser eterno, individual, exuberante e capaz de refletir a grandeza do criador.

Quem sofre a dor da frustração guarda, no íntimo, muitos anseios nobres que ainda não foram alcançados. Somente quem não se alimenta de boas intenções não se frustra.

Frustração pode ser também indício de que necessitamos rever posturas e reconstruir decisões, não sendo por isso, sinônimo de infelicidade. Frustração é sinal de rota mal orientada, e os infelizes não são aqueles que tentaram e falharam, mas, aqueles que sequer importam-se com os dissabores da existência, optando pela fuga na irresponsabilidade. As pessoas que se frustram o fazem porque tiveram atitude, tentaram, nutriram boas intenções, desejos e expectativas.

0 encontro com nossa falibilidade só é possível porque estamos sensíveis a algo melhor e queremos avançar. Se nos importamos com as decepções da vida vinculadas à nossa responsabilidade é porque almejamos rumos melhores e mais sadios. Por essa razão, consideremo-nos vitoriosos porque tentamos, e errar faz parte da caminhada. E porque errarmos e nos frustrarmos, ainda que repetidamente, não quer dizer que não somos capazes ou que não merecemos o que buscamos. A frustração, em verdade, é um convite ao recomeço de um modo diferente e melhor, é indício de que talvez tenhamos de rever nossas expectativas ou alterar nossa forma de realizar o que desejamos.

Não confundamos frustração com derrota. Frustração é sintoma de que o resultado não foi o esperado, e a derrota só existe para quem desistiu ou nem tentou.

0 fato de nos esforçarmos para alcançar o êxito não significa que o alcançaremos. Isso não basta.

Nos dias atuais, em função do imediatismo, há uma busca desenfreada de sucesso pelos caminhos da facilidade, quando, na verdade, toda conquista legítima, para valer a pena e nos pertencer de fato, solicita o concurso louvável do tempo, da paciência, da disciplina e da persistência.

Na Terra, raramente alguém se encontrará fora das provas da desilusão. Muitos sonhos, planos e revezes nada mais são que vivências para destruir as ilusões egoísticas de conquistas fáceis e apressadas. Necessariamente, elas não indicam incompetência, desvalor ou limitação, mas sim são resultados da pressa, de estratégias inadequadas e de pouca dedicação e cumplicidade.

Muitas vezes o que consideramos perda, erro e má escolha é uma alteração de curso nas lições da vida para nos aproximar ainda mais do desenvolvimento de habilidades e valores que verdadeiramente nos farão felizes e realizados.

Vamos acolher a frustração como um alerta da existência a fim de examinarmos com mais atenção a qual aprendizado estamos sendo chamados.

Lembremo-nos de que os vitoriosos não são os que sempre acertam, e sim os que não desistem. Vitoriosos perdem no mundo das ilusões e ganham no mundo da realidade, distanciam-se de expectativas impossíveis e aproximam-se do que é essencial, libertador e que satisfaz seus corações. Sendo assim, alegremo-nos conosco pelo esforço empreendido e continuemos nos tratando com carinho e aplicando as melhores energias do bem.

Se chegamos até aqui e não desistimos, imagine o quanto ainda poderemos realizar se decidirmos trilhar o terreno fértil da cumplicidade e da coragem de nos autoavaliarmos diante das frustrações da caminhada!

Pode até ser que para muitas pessoas sejamos fracassados. Porém, nas leis de Deus, quando não alcançamos êxito, significa que estamos sendo convocados ao recomeço. Só mesmo no dicionário humano existem palavras que significam derrota e insucesso a respeito das nossas escolhas na vida. Na lei divina, impera a bondade, a misericórdia, o amor e o determinismo de atingirmos a perfeição.

Acreditar nisso significa não aceitar a opinião de quem só enxerga o nosso lado sombrio. De mãos dadas com Deus, retomemos o curso e acreditemos no bem em nós. Deus conta apenas com o nosso melhor, Ele não espera perfeição.

Cada dia é um convite ao recomeço, e o que ontem parecia sem solução hoje se transforma em resposta inesperada para a alegria e para a paz. 0 que ontem era ofuscado pela treva hoje pode se converter em luz para o caminho da realização. 0 que nos parecia fracasso pode ser apenas convite a novos rumos para o melhor em nosso favor. Mudando o ponto de vista, poderemos perceber que aquilo que parecia má-sorte e negativismo é, na verdade, a melhor forma que a vida encontrou de indicar-nos qual direção tomar para nosso crescimento e felicidade.


Ermance Dufaux












sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 5 - Medos indicadores de crenças limitadoras



Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 5


Medos indicadores de crenças limitadoras
 

Uma longa trajetória na possessividade gerou na nossa mente o reflexo do apego e crenças ilusórias de grandeza e importância pessoal. Em decorrência dessa caminhada milenar, quando nos dispomos a realizar uma transformação moral a luz do espiritismo e do Evangelho do Cristo, deparamo-nós, inevitavelmente, com os efeitos dessa programação mental em forma de hábitos muito enraizados no automatismo dos sentimentos e dos pensamentos.

Sair desse patamar interno de acreditar sermos maior do que realmente somos e ter de assumir nossa verdadeira estatura espiritual pode tornar-se uma travessia de dores e conflitos amargos. Esse desapego de valores que já não nos protegem mais das ameaças de nossa sombra interior solicita cuidados fundamentais e acolhimento amoroso com nossas necessidades de melhoria, a fim de não se instalarem o desgosto e a perturbação.

Crenças são como pilares na vida mental. São vigas que, quando abaladas, podem desequilibrar todo o edifício do pensamento, da vontade e do sentimento. Portanto, quaisquer operações a serem realizadas nesses pilares exigem perícia e orientação terapêutica quando se objetiva o resgate da saúde.

O desapego às nossas convicções pode ser comparado à delicada cirurgia na intimidade da alma e traz como principal consequência o medo. Sobretudo, o medo de perder quem achávamos que éramos, de perder personalidades ilusórias repletas de verdades falsas sobre a vida e sobre o viver. Essa perda faz aflorar a dor angustiosa da indefinição, gerando insegurança, desanimo e mau humor, que podem alcançar o nível de um quadro exaustivo de estresse, ansiedade, pânico e desespero silencioso a caminho da depressão.

Sob uma perspectiva transpessoal, o medo é um excelente indicador de que existe algo a ser descoberto, enfrentado e transformado em nós. É um sentimento mobilizador cuja função no cosmo emocional é proteger e também instigar atitudes diante de pressões ou ameaças.

Sendo o medo uma reação natural e necessária, aquilo que fazemos com ele é que pode se tornar um problema. Quando optamos pela reorientação daquilo que temos como real, há uma perda temporária de referências que os ofereciam a sensação de segurança e bem-estar, e agora, na formação de outros valores, o medo nos previne contra os mecanismos sutis da leviandade diante da construção de novos princípios e valores que vão gerenciar as novas formas de pensar e viver.

Entre as certezas que mais necessitam de reciclagem e que podem acionar o medo com intensidade estão as chamadas crenças de identidade, isto é, aquelas que criam uma percepção do valor e da estima pessoal. São as que mais sofrimento tem causado ao ser humano. Sob a gerencia de padrões de desvalor e de não merecimento, os sentimentos e pensamentos aprisionam a vida psíquica e emocional no estado de baixa autoestima.

A baixa autoestima é um processo psíquico automático reforçado no período da infância, mas que, na maioria dos espíritos reencarnados na terra, é um diagnóstico construído ao longo de milênios.

Esse estado psíquico e emocional de desamor em relação a si mesmo é um efeito desse apego milenar ao comportamento egoísta. A necessidade compulsiva de elaborar um autoconceito superdimensionado de nós mesmo terminou por trazer um efeito contrário, levando-nos a essa sensação de monos valia e vazio interior. O medo surge exatamente quando assumimos nossas necessidades e tomamos contato com o sombrio dentro de nós, quando reconhecemos as nossa reais e profundas necessidades de buscar a realidade e abandonar essas mascaras tóxicas, que já não servem mais para o prazer e para a realização pessoal.

Desapegar-se das crenças que estruturavam um edifício de ilusões é o mesmo que navegar por um mar revolto, sem rota, sem farol se sem direção.

No Evangelho, a passagem em que Pedro foi convidado por Jesus a andar sobre as águas é um exemplo que ilustra bem esse assunto. Trata-se de um andar incomum em um caminho sem referências e exclusivamente pessoal, pois embora houvesse muitas pessoas naquele momento na praia, só Pedro foi chamado pelo Mestre.

Todos seremos chamados em algum momento a andar sobre águas, a fazer um trajeto de libertação por caminhos e aprendizados incomuns. Andar sobre as águas vai exigir uma convicção sólida em destemor sem igual: teremos apenas por força de uma leve rajada de vento. O vento da indecisão, da dúvida, da incerteza e da severidade com nós mesmos. Assim como andar sobre as águas, reciclar nossas próprias verdades atemoriza-nos porque significa trilhar uma jornada pessoal, sem comparação, única. Nesse processo, somos nós e nossa consciência, nós e nosso ser transpessoal que anseia nascer e florescer.

Para tornar esse caminhar menos doloroso e mais consciente, será necessária a descoberta de quais crenças nossos medos indicam. Cada medo pode ser um indicio daquilo que devemos reciclar.

No medo de sofrer, pode estar enraizada a crença de que não merecemos o prazer.

No medo de aproveitar as boas coisas da vida, pode estar gravada a crença de que a vida só tem valor legitimo quando a conquista vem pela dor e pelo sacrifício.

No medo de experimentar romper seus limites, pode abrigar-se a crença do castigo para quem não se conduz conforme os padrões.

No medo de errar, camufla-se a crença de incompetência ou do perfeccionismo.

No medo de competir, pode estra a crença de que temos de ser os melhores.

No medo do desamparo, costuma se esconder a crença de que o amor alheio é mais importante do que o auto amor.

No medo de estabelecer limites, quase sempre está a crença em nossa infalibilidade.

No medo de nossa fragilidade, abriga-se a crença de que temos de dar conta de tudo.

No medo de ser quem somos, quase sempre está a crença de que ser diferente é um mal.

Aquele servo da parábola dos talentos tinha convicção limitadora. Ele preferiu enterrar o talento por que era essa a sua concepção de proteção, de bom uso, ao mesmo tempo em que se submeteu a uma postura de acomodação e de menor esforço. Por conta de suas ilusões, não gerou vida, movimento e não ampliou o raio de sua experiência. Fechou-se em sua concepção, por zelo e cautela.

Nos serviços de aprimoramento espiritual, muitos de nós rendemo-nos a essas concepções temerárias que sutilmente invadem o campo mental com ideias de prudência excessiva e terminam em preguiça, perfeccionismo e fuga.

Diante de tais atitudes, verificamos claramente a presença do egoísmo mais uma vez incensando a ideia de sermos o melhor, quando os serviços do bem e da luz na busca de nosso progresso apenas nos propõem a fazer o melhor que já conseguimos.

A crença lucida e libertadora de quem segue a Jesus é ser alguém melhor hoje do que ontem e dar um passo atrás do outro na busca da aprendizado lento, gradativo e ininterrupto na construção de um home novo em constante aperfeiçoamento.


Ermance Dufaux




Fonte: Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação



VÍDEO:

Emoções que Curam - Medos Indicadores de Crenças Limitadoras

Palestra Dr. Marlus Ronchi





Casa Espirita Paz Amor e Caridade - Ponta Grossa - Paraná.



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Epílogo - Estações da alma no amadurecimento emocional




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Epílogo


Estações da alma no amadurecimento emocional


Estatísticas e levantamentos realizados no setor de pesquisas do Hospital Esperança nas últimas décadas, próximas do virar do milénio, apontavam quais eram os principais resultados emocionais e mentais dos recém-desencarnados que se internavam em nossa casa de amor.
 
A pesquisa era ampla e, no entanto, estudos apontavam certo destaque para a gravidade de casos em um grande grupo de pessoas que tiveram suas reencarnações orientadas pelo espiritismo. Esse fato nos chamou atenção e levou-nos a pesquisar tratamentos especializados para as necessidades desses espíritos.

Diante disso, um alerta foi expedido por Eurípedes Barsanulfo em reunião com o colegiado do hospital: tornavam-se urgentes algumas iniciativas educativas, começando por divulgar um alerta renovador aos que se encontravam reencarnados na comunidade espírita, disseminando as recomendações de Eurípedes. Esta seria uma medida preventiva visando abrir os olhos dos irmãos de ideal acerca dos perigos e ilusões que constavam nas estatísticas.

Entre várias ações conjuntas e individuais levadas a efeito, através do desdobramento no sono físico, uma delas tinha por objetivo reunir um grupo de 1.500 expositores espíritas cujos nomes estavam registrados nas frentes de trabalho do Departamento de Comunicação e Educação do Hospital Esperança.

O levantamento deixava evidente os seis principais quadros de adoecimento espiritual dos que desencarnaram nos últimos trinta anos do século passado:

» Enfraquecimento da aspiração ao progresso.

» Dor do conflito com a hipocrisia.

» Ausência de realização afetiva.

» Fuga da realidade.

» Ignorância sobre si mesmo.

» Falta de sentido para viver.

Por isso, os técnicos e condutores do hospital destinaram esforços em seis especializações com objetivos terapêuticos nos referidos quadros, quais sejam:

» Resgate da arte de sonhar.

» Desenvolvimento da honestidade emocional.

» Educação da carência afetiva.

» Morte da idealização.

» Desenvolvimento do autoconhecimento.

» Sentido da continuidade da vida.

A esse conjunto de tratamentos deram o nome de Psicologia da Libertação, cujo propósito luminoso seria libertar a consciência do jugo das ilusões à luz dos princípios sadios dos ensinos de Jesus.

Chegada a ocasião do encontro com os expositores, que se deu no mês de março de 1997, todas as providências foram tomadas no intuito de conseguir reunir os 1.500 mensageiros que seriam os divulgadores desse alerta à comunidade espírita. Essa divulgação entre os mensageiros tinha por fim o aumento da sensibilidade dos amigos espíritas a respeito dos cuidados necessários para a expansão da luzes do espiritismo em seus próprios corações.

Mesmo com toda a série de medidas e planejamentos, somente 436 dos expositores convocados, ou seja, menos de um terço do grupo, conseguiram superar as barreiras das lutas na matéria para comparecer à reunião abençoada.

Já passavam das 00:30 no mundo físico, quando dona Modesta, professor Cícero Pereira, Cornélius, e um grupo de onze coordenadores iniciaram o encontro com uma oração e uma pequena leitura. A palavra, então, foi concedida à dona Modesta, que, em nome de Eurípedes, transmitiria o alerta:

Amigos e irmãos do coração, Jesus seja conosco. Estou aqui a pedido do benfeitor Eurípedes Barsanulfo para lhes confiar uma missão emergencial.

Nessa casa de trabalho e recuperação, visamos, antes de tudo, à medicina preventiva, e as avaliações de nossos censos deixam claras as linhas psicológicas de derrotismo e de conflito interior que têm dominado uma infinidade de corações, mesmo quando iluminados pelo conhecimento inspirador do espiritismo.

As pesquisas minuciosas e o cruzamento dos dados que foram apontados em nossos levantamentos classificaram seis principais doenças que aprisionam a alma em quadros de dor no mundo físico, durante o trajeto das reencarnações, trazendo reflexos graves para as esferas do mundo espiritual após o desencarne.

Nossa missão, e também a de vocês, é disseminar nas agremiações de amor à luz do espiritismo esses seis principais focos da Psicologia da Libertação e da cura que lhes apresentamos agora. Após o nosso encontro de hoje, cada um de vocês que se fizeram merecedores de aqui estar terão à sua disposição cursos de aperfeiçoamento e encontros noturnos de preparação para aprofundarem seus conhecimentos nesses pilares, passando por tratamentos e recebendo orientações a respeito de si mesmos que, posteriormente, serão fontes de inspiração para suas palestras e mensagens consoladoras.

Suas explanações, sobre quais temas forem, ganharão conteúdo e estímulo renovador quando afinadas com esses objetivos terapêuticos, considerando que os que vão lhes ouvir guardam na intimidade os dramas e as necessidades profundamente semelhantes com aqueles apontados em nosso estudo.

Nossa inspiração de base para a proposta de divulgação dessa mensagem do bem está no evangelho. A alma, assim como a natureza, tem suas estações, as quais foram muito bem definidas pelo Mestre na magistral parábola do semeador, no texto de Mateus, capítulo treze, versículos três a oito, que passo a ler:

"E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.

E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na;

E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda;

Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz.

E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.

E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta."

Temos em nossas vidas a primavera da jovialidade, o verão das provas, o outono das perdas e o inverno do recolhimento e da colheita, que podem ser associados a cada um desses versículos, demonstrando que o amadurecimento emocional obedece a ciclos que não podem ser ignorados.

0 espiritismo é um remédio potente para almas em busca de sua própria iluminação. Conquanto essa realidade já seja do conhecimento de nossa comunidade, o orgulho como traço marcante da jovialidade emocional insufla a ideia de uma primavera florida, a qual nos faz recordar a ocasião em que Jesus, ao procurar a figueira, nada encontrou senão folhas, adornos. Os frutos não estavam presentes. Essa primavera pode ser comparada à condição íntima de quem colore a vida intelectual com princípios brilhantes e reluzentes do espiritismo, repletos de idealismo e vigor, e, todavia, permanece distante da maturidade dos desafios nobres e fortalecedores do inverno do recolhimento interior.

Chega, porém, o verão das provações, dos testes rudes da vida, que convocam a descida dos ideais espíritas do cérebro para o coração. Trazer o espiritismo da cabeça para o coração é o maior dos desafios que se apresenta aos seareiros da nossa querida doutrina no plano físico e neste em que nos encontramos agora. Nessa situação, muitos desanimam e tudo abandonam; outros permanecem e deixam morrer seus sonhos. Alguns enganam-se com missões espetaculares em favor do próximo, o que lhes alivia a sensação de inutilidade e de desvalor pessoal, ainda que no interior estejam esfacelados e sem a energia da autorrealização.

Não é fácil prosseguir e persistir. É aqui que muitos deixam o sonho morrer e perdem a batalha para a força dilacerante do conflito com a hipocrisia.

Além das dificuldades desse combate, quase sempre, como efeito de um verão devastador, vem o outono das perdas. 0 calor do verão derrete os sonhos, e a exótica paisagem do outono subtrai o senso da nossa realidade e da nossa capacidade de realização, lançando-nos às experiências da solidão, da mágoa e da culpa. É o outono das perdas: perdas de amizades, de bens, de amores, de sonhos, de projetos e, a mais desafiadora, a perda de quem achávamos que éramos, que tem por finalidade o encontro do verdadeiro "quem sou?".

Tais vivências produzem como resultado um inverno de dores e arrependimentos no qual a vida mental recolhe-se no casulo do medo sem orientação e sem meta, sem vitalidade e sem sonhos, gerando a "morte" psíquica e emocional. Nesse momento, morremos por dentro e ficamos à espera da morte do corpo.

Diante dessas tormentas da dor, muitos companheiros de ideal buscam defesa e força nas tarefas espíritas, supondo, muitos deles, que nada mais lhes resta como alternativa senão trabalhar, estudar e mergulhar com todas as suas convicções nas atividades doutrinárias.

E qual de nós pode contestar essa decisão? Que seria de muitos irmãos queridos se não adotassem semelhante conduta? Sabemos que, possivelmente, não suportariam a sua própria loucura. O movimento para fora e as tarefas têm sido, para uma multidão de trabalhadores, o remédio para aplacar a mente atordoada por culpas, pois provoca uma nítida e agradável sensação de utilidade pessoal.

Entretanto, fique clara nossa ressalva a esse respeito: ninguém faz uma cirurgia especializada em um posto de saúde projetado para atendimentos de necessidades mais simples.

0 serviço de educação espiritual é muito mais profundo que a simples ação de armazenar conhecimento doutrinário e manter trabalhos em favor do bem alheio. Tem havido muito trabalho por fora, movimento, e pouco trabalho por dentro, reforma íntima.

0 movimento nem sempre tem acompanhado a reforma íntima e, para agravar essa situação, tem sido tomado como sinónimo de elevação e crescimento espiritual.

Para quem se encontra no esforço de renovação, é chegado o momento de abrir os olhos para as ilusões pertencentes a esse gênero de aprendizado nas fileiras do espiritismo. E' necessário sair da esfera de adesão aos movimentos exteriores, que nem sempre agregam valores ao coração e às vezes alimentam a sensação de grandeza.

Para vivermos nossas reencarnações com alegria e celebração, é preciso estimular o desejo em direção às propostas da Psicologia da Libertação. Não podemos considerar tarefas e dores como sinônimos de avanço espiritual.

Nossa missão como comunicadores da boa nova do Cristo é aliviar os espíritos quanto àquilo que percebem de si mesmos, ampará-los para que consigam melhor nível de aceitação de sua sombra interior, orientá-los sobre a importância de acolherem-se com imenso autoamor.

A estação da alma que mais traduz amadurecimento e elevação espiritual é o inverno do recolhimento no autoamor. Inverno é momento de aproveitar o armazenamento de alimento, instante de usufruir dos frutos colhidos na caminhada da experiência e das conquistas legítimas e eternas.

A diretriz básica de semelhante projeto é educar para o amor que cura, o amor que eleva, o amor que coloca a alma em sintonia com sua própria consciência. É preciso ensinar os Espíritos a garimpar suas próprias preciosidades espirituais.

0 princípio orientador dessa mensagem deve se inspirar na fala sábia de Jesus: "Olhai, vigiai e orai;".22 MARCOS, 13:33

Nessa tríplice, "olhai" é o autoconhecimento, "vigiai" é a autotransformação e "orai" é o autoamor. Essa definição parece singela, mas, como sempre, Jesus, o terapeuta do amor, consegue com apenas três verbos traçar um tratado de medicina da alma para eternidade.

Trata-se de três ciclos bem definidos que se entrelaçam em perfeita sincronia para as conquistas morais, emocionais e espirituais.

Olhar tem como significado o autoconhecimento, que está em identidade com a pergunta formulada por Allan Kardec:

"Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?

Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo."

Vigiar é postura, é comportamento transformador, é ter atenção plena - sem a qual não haverá novas atitudes, novas palavras. Essa vigília é também um estado da mente alerta e atenta, sendo a única condição para a reflexão e a geração de novos hábitos. Vigiar é o movimento de autotransformação aplicada a partir do que se identificou com o autoconhecimento, e este sem aquela pode se resumir a informações racionais sobre a vida interior, conturbando ainda mais a mente com a sombra da soberba e do orgulho. A autotransformação atinge o coração, sendo, antes de tudo, uma mobilização emocional criadora de estados íntimos de plenitude e serenidade, o que permite o desejo espontâneo de novas e mais luminosas ações. Ela ocorre quando o autoconhecimento é experimentado na prática, criando respostas, alternativas de melhoria, bagagem sobre os caminhos do crescimento espiritual. Na continuidade da pergunta acima citada, observa-se que Allan Kardec, ainda insatisfeito, indagou:

"Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?". E Santo Agostinho oferece uma das respostas mais lindas sobre o assunto. Se examinarmos atentamente essa resposta, perceberemos que ele fala de reforma na prática, de autotransformação aplicada.

Jesus, porém, não termina seu projeto de saúde integral e ainda refere-se ao orai. Orar é fazer contato com a luz de dentro e de fora, é promover um novo patamar de relação com Deus em nós mesmos, é o autoamor.

Que oração mais poderosa pode existir que a de ter infinito amor para com nossa própria alma? Acolhermo-nos com júbilo e motivação legítimos ante a invasão das sombras que ainda carregamos? Orar é reunir o poder pessoal que pode temporariamente ter sido abalado pelas distrações de nossos impulsos milenares.

Para reunir esse poder será necessário tratarmo-nos como um templo divino que merece respeito, carinho, perdão e amor.

Autoconhecimento é a primavera florida e rica de recados para um futuro promissor.

Autotransformação é o rigor do verão dos aprendizados que temperam e equilibram, seguidos pela ruptura do outono, que recicla por meio de perdas necessárias e inadiáveis.

Autoamor é o inverno, a busca permanente da alma de se recolher e de se acolher com o próprio calor, com os próprios recursos. É você com você nos destinos da vida.

Os espíritos que renasceram na comunidade espírita no pós-guerra trazem necessidades muito parecidas no campo espiritual. Nunca ignoramos em nosso plano de ação, aqui no hospital, que receberíamos esse contingente de companheiros açoitados pelas dores emocionais provenientes de ilusões tão graves nessas últimas décadas do milênio.

Guardem com sabedoria os apontamentos consoladores de nossa fala e anotem por caridade os seis princípios de libertação mais emergentes aos que amam o espiritismo:

» 0 resgate da arte de sonhar.

» 0 desenvolvimento da honestidade emocional.

» A educação da carência afetiva.

» A morte da idealização.

» A cura da ignorância.

» O sentido da continuidade da vida.

Nos próximos meses todos aqui presentes passarão por tratamentos especializados para registrarem, o mais profundamente possível, a importância desse roteiro de medicina preventiva para a alma, exercitando-o em suas experiências pessoais.

Muita angústia e aflição marcam os desencarnes nas últimas décadas entre adeptos da doutrina. Isso acontece porque nós, amantes das propostas do Evangelho de Jesus, quase sempre trazemos o nosso mundo emocional bem distante do que já sabemos ser necessário para a melhoria de nossas condições espirituais e morais. Dotados de muita informação, nem sempre conseguimos administrar com sabedoria e equilíbrio a nossa transformação, usando o conhecimento para hierarquizar nossa condição pessoal com títulos, cargos e outras formas de suposta autoridade.

Essa aflição e essa angústia se intensificam ostensivamente após a perda do corpo físico. Ao contrário do que se sente, essas emoções não surgem do nada. Elas já existiam antes do desencarne, mas, na maioria das vezes, eram negadas e reprimidas.

Esses traços emocionais e psíquicos são manifestações pertinentes às personalidades aflitas e angustiadas. Há várias formas de expressão dessas duas emoções tóxicas. Façamos uma reflexão sobre isso tomando por base a conhecida e profunda frase de Jesus, que é um verdadeiro atestado do quanto Ele sabia sobre a natureza das doenças humanas: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei."44 MATEUS, 11:28

O cansaço espiritual vem do conflito milenar que temos enfrentado por não sermos quem gostaríamos de ser, o eu ideal, em contrapartida com quem somos, o eu real. Surge aqui uma espécie de dupla culpa: temos culpa pelo que somos e culpa pela nossa idealização de ser, ainda não alcançada.

A culpa traz a angústia, um estado de sofrimento existencial. Por sua vez, a angústia cansa, exaure, desmotiva, trazendo uma nítida e inconfundível sensação de abatimento perante a vida, podendo se transformar numa porta de entrada de alguns tipos de depressão.

A opressão mencionada por Jesus é aquela provocada pela ignorância acerca de nosso mundo interior, ou seja, é aquela provocada por não sabermos o que sentimos e o que queremos. Ela gera a aflição, um estado de ânsia de causa ignorada, que consequentemente cria a instabilidade emotiva, principalmente através da insegurança acerca de nossas escolhas e desejos. A aflição, por fim, entristece e desorienta.

Cansados porque não nos autotransformamos, oprimidos porque não aprofundamos no autoconhecimento.

Qual de nós, de alguma forma, não se vê enquadrado nesses estados de cansaço e opressão, não é mesmo? Nós, religiosos, por determos maior soma de conhecimento sobre assuntos espirituais, ampliamos, ainda mais, o volume de culpas e inseguranças.

Mas Jesus orienta: "vinde a mim...". Enquanto o cansaço e a opressão marcam o verão e o outono do amadurecimento, o "vinde a mim" é a recomendação para entrarmos em relação com a melhor parte de nós próprios, com nosso Cristo interno. E' o autoamor, o acolhimento amoroso e revigorante de nos perdoarmos, nos aceitarmos e caminharmos avante na busca de nossa paz e cura espiritual.

Estamos cansados de seguir padrões religiosos e de filosofar sobre religião. Estamos carentes de sossego interior e de alegria em nossas vidas. Nossa angústia e opressão se resumem à ausência de prazer de viver.

Prazer de viver é uma conquista que surge quando aprendemos como viver em consonância com nossa consciência, distante das ilusões.

Não será exagero afirmar, sem generalizar, evidentemente, que as almas que têm chegado em condições mais razoáveis de harmonia e equilíbrio abriram mão da neurótica necessidade de serem espíritas dentro dos moldes estabelecidos pela ilusão dos adeptos no mundo físico, a fim de atenderem aos apelos da sua consciência individual em busca de uma vida mais autêntica, responsável e rica de alegrias.

Levem o alerta de Jesus aos homens iluminados pelo conhecimento espírita de "que não ficará pedra sobre pedra" no que diz respeito à ordem histórica de idéias e condutas alicerçadas em uma visão institucional do espiritismo.

Amadurecimento é algo interno, e não externo. É necessário termos cuidado com as supostas credenciais de autoridade adotadas pela comunidade!

Falem com coração e respeito, docilidade e acolhimento em suas palestras de amor, concitando homens e mulheres iluminados pelo conhecimento espírita a viverem suas histórias pessoais e a se distanciarem das padronizações indesejáveis e perniciosas.

Os ciclos da vida somente fluem quando celebramos a nossa história pessoal. Cada um de nós nasce para florir e embelezar a vida de um modo único.

A maturidade emocional do inverno nos traz muitas vantagens, e algumas das mais gratificantes são descobrir nossa originalidade e não sermos cópia de ninguém. Não ter uma opinião bem construída sobre si, sem dúvida, é uma fonte de escravidão.

Busquemos essa meta com coragem e com a certeza de que Deus nos criou com todos os recursos que nos capacitam a transformar o ato de existir em uma experiência plena de crescimento e felicidade.


Ermance Dufaux







segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 17 - O amadurecimento emocional dos médiuns




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 17


O amadurecimento emocional dos médiuns


"A mediunidade não implica necessariamente relações habituais com os Espíritos superiores. E' apenas uma aptidão para servir de instrumento mais ou menos dúctil aos Espíritos, em geral. O bom médium, pois, não é aquele que comunica facilmente, mas aquele que é simpático aos bons Espíritos e somente deles tem assistência. Unicamente neste sentido é que a excelência das qualidades morais se torna onipotente sobre a mediunidade. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 24, Item 12).


O aeroporto estava repleto. Alexandre, médium e palestrante, esperava um voo que o levaria a uma cidade do Sul do país para uma apresentação.

Em dado momento, em meio a tanta agitação externa, ele foi sendo tomado por um nível acentuado de concentração, fechou os olhos e foi se abstraindo do ambiente até que ouviu uma voz rouca dizendo:

— Essa moça com vestes amarelas à sua frente é minha sobrinha. Meu nome é Humberto e queria lhe dizer algumas palavras. Será que posso contar com você?

Alexandre, que já estava em estado de transe profundo, abriu os olhos, procurou e viu a moça de seus quinze anos aproximadamente, que trazia um olhar triste e introspectivo. Fechando os olhos novamente, ele dirigiu-se ao espírito dizendo:

— Posso saber do que se trata, Humberto?

— Essa moça foi tremendamente prejudicada por mim. Eu me suicidei há quatro meses, depois de usar de forma indevida as economias de uma herança que pertencia a ela até chegar à falência. Não suportei a culpa e os desastres materiais. Deixei minha esposa, dois filhos e ela com problemas graves para resolver. Diante de tantas perdas, ela está pensando em tomar a mesma atitude e vir ao meu encontro. Quer suicidar-se.

Você a enganou?

Não, não se trata disso. Diante da morte de meu irmão, e ela sendo menor de idade, fui nomeado como seu tutor e, portanto, administrador de seus bens. Não fiz nada com más intenções, mas, agindo com imprevidência, qual criança inexperiente, me embaracei com o usufruto da fortuna deixada pelo pai dela. Administrei mal, fui perdendo dinheiro, envolvendo-me com ganhos ilícitos e acabei mal.

0 que você gostaria de dizer a ela?

Ela se chama Sara. Apenas escreva essa pequena frase em um papel: "A vida sempre tem caminhos que desconhecemos, e Deus jamais deixará de nos apresentar aquele que será o melhor para nós." Era um mantra que ensinei a ela e por várias vezes nós o repetimos em nossas conversas no lar. Chegamos a pintar juntos essa frase em uma pequena tábua, que hoje se encontra na sala de minha casa, a pedido dela. Depois de ler, por caridade diga a ela que infelizmente o caminho que escolhi não é um desses caminhos de Deus.

— Só isso?

— Agradeço. Não posso dizer mais nada segundo o senhor que me trouxe até aqui.

— Posso saber quem lhe trouxe?

— 0 nome dele é Cornélius.

Alexandre rogou ajuda espiritual e não vacilou. Sentindo um pouco de mal estar devido à aproximação daquele espírito ainda tão enfermo, resolveu verificar o que podia ser feito. Por acaso, havia um lugar vago ao lado de Sara que parecia destinado ao médium, considerando a aglomeração naquele local. Em clima de profunda convicção e ligando seu coração com a fé, chegou perto da moça e disse:

— Seu nome é Sara?

— Sim. Você me conhece?

— Não, Sara, não conheço. Eu peço sua licença para lhe relatar um fato, com todo respeito. Não peço que acredite, apenas que me ouça, pode ser?

— Sobre o quê?

— Eu sou médium e percebi que você perdeu uma pessoa querida recentemente, não foi?

— Sim, meu tio. Mas já tem quatro meses. Por quê? -perguntou curiosa.

— Eu o percebi aqui no aeroporto e ele lhe mandou essa frase por escrito. Faz algum sentido para você?

Alexandre apresentou a frase escrita às pressas em um pedaço de papel. A moça leu a frase e seus olhos se encheram de lágrimas. Passado algum tempo, perguntou:

— Ele está aqui? Quem é você?

— Meu nome é Alexandre. Seu tio esteve comigo há alguns minutos e já se foi para o além. Ele pediu o favor de lhe enviar essa frase e que eu afirmasse para você que o caminho que ele escolheu não é um desses caminhos de Deus que o mantra de vocês indica.

Repitamos um trecho da frase de apoio anterior: "Unicamente neste sentido é que a excelência das qualidades morais se torna onipotente sobre a mediunidade.".

Não é a mediunidade que qualifica o médium, e sim suas qualidades morais e emocionais.

Os médiuns com Jesus são chamados a todo instante para o serviço do bem incondicional. Não há lugar, não há hora, não há circunstância na qual esse bem não possa ser feito. Uma singela oração em qualquer instante ou ambiente é um facho de luz abrindo frestas para que a bondade celeste penetre espalhando bênçãos.

Com relação à disponibilidade de servir junto aos amigos espirituais, Allan Kardec nos diz:

"Acrescentemos, todavia, que, se bem os Espíritos prefiram a regularidade, os de ordem verdadeiramente superior não se mostram meticulosos a esse extremo. [...] Mesmo fora das horas predeterminadas, podem eles, sem dúvida, comparecer e se apresentam de boa vontade, se é útil o fim objetivado."11 O livro dos médiuns, capítulo 29, item 333.

Os chamados do mundo espiritual para fins úteis obedecem a uma lógica distinta à dos homens que se encontram reencarnados. Os médiuns afeiçoados ao serviço iluminativo com Jesus, conscientes dessa verdade, se propõem a apresentar as condições morais que lhes permitam ser canais de paz e orientação, amor e consolo.

O desejo de servir, sem dúvida, é a qualidade moral indispensável a essa realização superior nas lições sagradas da mediunidade. E o desejo de servir consiste em ter o coração aberto à dor e às necessidades, facultando, por efeito, o estado de disponibilidade psíquica, que podemos comparar à antena emissora e receptora possibilitando ao médium uma contínua interação com o mundo astral que o rodeia.

Nos Atos dos Apóstolos, capítulo nove, versículo dez, encontramos esse exemplo de prontidão em Ananias ao dizer: "E havia em Damasco um certo discípulo chamado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! E ele respondeu: Eis-me aqui, Senhor."

"Eis-me aqui, Senhor" é a disponibilidade para ser útil. Médiuns em estado íntimo de quietude interior oferecem esse solo mental fértil sobre o qual são plantadas as sementes enriquecedoras que multiplicarão os frutos dos planos superiores. Sem quietude não existe disponibilidade mental, sem disponibilidade mental, não existe sintonia, e sem sintonia, não há plantação mediúnica.

Essa quietude na vida mental é o resultado do amadurecimento psíquico e emocional dos medianeiros. Ela não pode ser atingida apenas com conhecimento e atividade doutrinária, mas, à medida que o servidor da mediunidade avança na solução de suas lutas interiores, adquirindo a habilidade de manter seu foco espiritual na luz, da qual todos somos portadores como filhos de Deus, seu poder de percepção e sua força de atuação na vida que o rodeia se dilatam, sem lhe causar danos ou alterações prejudiciais.

A exemplo do samaritano narrado na parábola evangélica, ele, o médium, desce a estrada de Jerusalém para Jericó sem ser assaltado por suas próprias mazelas. Desce, como diz o texto, "em viagem", com propósitos definidos de voltar ao seu lugar de origem, Jerusalém, que representa a cidade dos valores nobres, ao contrário de Jericó, a cidade do comércio e dos bens perecíveis. 0 samaritano foi em viagem, enquanto o homem assaltado, o Levita, e também o Sacerdote "desciam", ou seja, perdiam sua condição interior na derrapada para os interesses sombrios.

Para que os médiuns consigam essa condição de descida "em viagem", com propósitos elevados e sincronizados com as esferas da luz e da libertação, torna-se indispensável os cuidados com sua jornada de amadurecimento emocional. Esta pode ser resumida em três etapas distintas e que se integram entre si formando o estado interior de quietude:

1 – Autoconhecimento,

2 - Autotransformação 

3 – Autoamor.

Pelo autoconhecimento, o médium descobre e examina o mapa de suas sombras interiores e da sua luz ofuscada à espera de uma abertura para irradiar paz, cura e libertação.

Pela autotransformação, o médium se aplica a explorar o território de seu próprio aprimoramento, escalando novos hábitos, desbravando os terrenos da riqueza emocional e aplainando novas conquistas na direção de sua consciência.

Pelo autoamor, o médium encontra-se consigo próprio, preenchendo-se de estima, alegria, entusiasmo e discernimento, o que lhe permite um novo olhar sobre a vida e sobre as pessoas que o rodeiam seja onde for.


Ermance Dufaux








quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 4 - Palavras de uma mãe sobre a culpa




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 4


Palavras de uma mãe sobre a culpa


"Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus filhos, se não alcançam êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem conservar tranquila a consciência. À amargura muito natural que então lhes advém da improdutividade de seus esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na certeza de que se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será concluir noutra existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato os recompensará com seu amor." Santo Agostinho (Paris, 1862). O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 14, Item 9.


No Hospital Esperança, mais uma manhã de bênçãos e trabalho nos esperava a colaboração. Era dia dos grupos terapêuticos se reunirem, sendo a tarefa marcada para nove horas e reservada para mais de 400 mulheres que foram mães no mundo físico, todas ainda em processo de adaptação e recuperação.

Diversos grupos com funções educativas e libertadoras se organizavam sob os cuidados de dona Modesta. Oficinas do sentimento, tribuna da humildade (1), grupos de reencontro, palestras e vivências de terapia ocupacional foram distribuídas em equipes de vinte a setenta pessoas, conforme o tratamento que cada uma delas estava realizando.

Naquela manhã, todas as salas educativas no primeiro andar foram ocupadas.

Fomos acompanhar dona Modesta e o professor Cícero Pereira, que supervisionavam a tribuna da humildade. Era o maior grupo naquela ocasião, com cem aprendizes que ouviriam o testemunho.

A tribuna da humildade é o lugar para se abrir o coração. A pessoa que ocupa a tribuna para falar de si já havia sido previamente selecionada por terapeutas cuidadosos que acompanhavam os casos. Mesmo aquelas mães que ouviriam a palavra naquela oportunidade obedeciam a uma sequência de tratamentos especializados até chegarem ali para mais uma etapa de benefícios, conforme os atendimentos recuperativos que vinham recebendo.

Essas mães traziam um semblante sofrido. A dor da separação de suas famílias adicionada à forma repressora com que viveram a maternidade as havia entregado aos braços da depressão. Todas desencarnaram entre 1990 e 2010.

Depois que todas as mães estavam devidamente acomodadas, dona Modesta explicou a importância da tarefa, fez a oração e passou a palavra à mãe que faria o depoimento.

Uma mulher franzina, trazendo um largo sorriso no rosto, iniciou sua fala:

— Amigas e irmãs do coração, que Deus nos guarde a todos em sua misericórdia. Meu nome é Bernadete. Não sou acostumada a falar, mas estava ansiosa por estar aqui e poder dizer algo a vocês. 

Já estive assentada onde vocês estão há alguns anos, quando aqui cheguei. Lembro até hoje, com nitidez, a importância que teve para mim o depoimento de outras mães aqui na tribuna da humildade. Foi um divisor de águas.

Quero deixar claro que não falo com nenhuma autoridade e nem vim ensinar nada a ninguém. Só estou aqui porque dona Modesta me convenceu de que o que aprendi pode ser útil a outras mães. Atendendo ao pedido dela - e olhou para dona Modesta assentada na primeira fila de cadeiras -, espero poder ser útil, conquanto reconheça que o que vou dizer foi libertador para minha alma.

Desencarnei em 1999, com quase 60 anos. Essa geração pós-guerra desenvolveu um costume nocivo, até certo ponto fruto de uma herança de gerações, porque eu não conheci uma mãe sem culpa, uma mãe que se achasse boa o bastante para desempenhar sua missão. Culpa por fazer, culpa por deixar de fazer, culpa por pensar em fazer.

Além da herança cultural, o modelo social projetou a mulher a novas e inesperadas formas de participação, criando conflitos íntimos severos entre trabalho, maternidade e família.

A maioria de nós aqui presente pertence a uma geração cujo estandarte foi "ser mãe é padecer no paraíso", uma concepção lamentável que gerou e sustentou muitas crenças enfermiças.

Sei que muitas de vocês estão aqui e gostariam de ainda estar ao lado de seus filhos. Eu também experimentei essa dor. Muitas aqui, assim como eu, fizeram o seu melhor enquanto estavam no corpo físico na condição de mães e, no entanto, depois do desencarne, sofreram uma terrível sensação de fracasso. Sei também que muitas já se sentiam assim enquanto estavam na vida corporal.

Parece uma sina as mães se sentirem culpadas... parece um carma. Entretanto, todo esse processo da nossa geração pós-guerra é muito mais uma questão educacional e em nada identificada com a missão luminosa da maternidade.

Eu tive que rever conceitos aqui no hospital. Foi uma verdadeira cirurgia na mente e no coração. Fui educada por meus pais e familiares para ser perfeita e nunca me achei boa o suficiente. Tive dois lindos filhos e adotei a renúncia e doação por amor como compromissos essenciais para educá-los. Fiz planos de uma família unida e harmonizada juntamente com o marido, um homem exemplar. Ambos espíritas, desde cedo orientamos nossos filhos pelas práticas doutrinárias. Idealizamos nossos filhos como tarefeiros comprometidos e servidores do bem na casa espírita.

Veio, porém, a juventude, e eles queriam suas escolhas. Seguiram o caminho dos estudos, da ciência e do bem. Viveram uma mocidade distante dos ideais que eu e o pai lhes havíamos projetado. Foi difícil aceitar, porque eles não só adquiriram hábitos estranhos à nossa mentalidade, como também se distanciaram do afeto do lar. Para mim, isso se tornou um problema, pois é como se eles tivessem se transformado em oponentes. A distância afetiva me machucava, porque a interpretava como desamor e, o pior, sentia-me responsável pelo que estava acontecendo. Culpava-me e perguntava-me sempre onde foi a minha falha.

Foi então que surgiram os conflitos, porque, no desespero de mãe zelosa, transformei-me em uma cobradora implacável, cansando meus filhos com advertências e enfrentamentos inoportunos que substituíram o lugar do diálogo. Exigi tanto, que eles não suportaram e abandonaram o lar para estudar longe de nossa cidade. Com esforço e a contragosto, eu e meu marido financiamos os recursos e eles foram trabalhar para se sustentar.

O lar depois disso parecia para mim um ninho vazio. Contando assim, superficialmente, ninguém imagina quantos dias de angústia e dor no peito eu sofri, porque os filhos queriam asas próprias e eu as queria podar. Na verdade, dos quinze aos dezenove anos de ambos os filhos, foram noites e dias de sofreguidão.

Onde foi a minha falha? Perguntava sempre a mim mesma e não encontrava resposta. Não encontrava porque sempre lancei o olhar para o passado, procurando lá na infância dos meus filhos o que teria faltado, o que teria sido de mais ou de menos. Não encontrava resposta.

Em verdade, não havia uma resposta para essa pergunta.

A pergunta coerente só vim a aprender aqui no mundo espiritual. Eu não tinha que olhar para trás. Se havia alguma falha, se havia algo a ser feito, era ali, naquele momento, no momento presente em que eles apresentaram suas particularidades. Mas eu não enxerguei que, em vez de ser uma mãe cobradora, podia ter me comportado também como uma mãe amiga e respeitosa, dialogadora e companheira.

Pouco tempo depois que saíram de casa, eu entrei em profunda depressão. Para ser sincera, já estava deprimida e não sabia. A saída deles apenas me permitiu olhar para isso com mais precisão. Tomei medicações fortíssimas, dei trabalho ao marido, perdi a bênção do sono, da alegria e do prazer. Foram quinze anos de luta íntima e dor e, no final de tudo, como se saísse de um túnel escuro de sofrimento e pavor, eu enxerguei, depois de todos esses anos, que meus filhos apenas amadureceram e se tornaram quem eles tinham que ser. Homens bons e conscientes que davam amostras claras de que o exemplo no lar valeu a pena.

Fiz uma descoberta chocante depois de toda essa depressão: meus filhos não se tornaram o projeto que idealizei para eles, eles se tornaram algo muito melhor do que idealizei para eles, eles se tornaram quem são e quem gostariam de ser. Superaram meus próprios planos de mãe neurótica.

Essa é a grande lição da vida. Ninguém vai ser exatamente como gostaríamos que fosse, e nem a vida vai acontecer exatamente como planejamos que ela aconteça.

Desencarnei me sentindo melhor, mas ainda trazendo na alma estiletes de culpa que teimavam em me ferir. Mesmo tendo tempo de ver com meus olhos a realização de meus filhos, ainda guardava na alma uma pesada sensação de fracasso.

Somente aqui pude tratar essa doença nos grupos terapêuticos. Descobri que minha depressão foi o resultado do meu autoabandono. Senti-me tão responsável pelos filhos, que adoeci, esqueci de mim, do marido, da diversão e até desencantei com as tarefas espíritas.

Por várias vezes acreditei que a desobsessão e as orações seriam os caminhos para transformar meus filhos, enquanto a vida esperava-me com outro tipo de aprendizado: deixar uma mensagem clara aos meus amores de que eu também existia, de que eu também respirava, de que eu também tinha aspirações.

Assumi uma responsabilidade que extrapolava a esfera do limite entregue a mim. É uma velha ilusão que faz a mente pernoitar no conceito de que amar é ser responsável pelas pessoas que amamos. Querendo ser salvadora, abri mão do papel de educadora. Dizendo amar, transformei-me em uma controladora compulsiva. Levantando a bandeira da missão espiritual para com os outros, neguei necessidades básicas de minha própria caminhada de aprimoramento na missão essencial de minha cura interior.

Hoje, colaborando nos serviços de adaptação do hospital junto aos grupos de mães, impressiono-me com o que fazemos de nossa missão. Mães diversas saem do corpo físico sentindo-se fracassadas para, somente aqui, orientadas e tratadas, assimilarem uma nova perspectiva de sua reencarnação e descobrirem que o fracasso só estava nas suas cabeças e que, muitas delas, foram vitoriosas e não sabiam.

Uma percepção perfeccionista da maternidade pode adoecer-nos mentalmente, causando enfermidades que solicitam tratamentos especializados. Eu já precisei desse tratamento no mundo físico e tive que continuar aqui no Hospital Esperança.

Eu sei que muitas de vocês padecem dores ainda maiores do que as que vivi na maternidade e eu quero lhes dizer: perdoem-se. Vocês foram apenas mães, e não Deus.

Todas temos um limite e o que passa disso é prepotência, é querer ser mais do que damos conta ou precisamos.

Por fim, sentimo-nos culpadas por raiva. Raiva de não conseguir controlar, de não atingir nossas metas, por não dar conta, por estar extrapolando todos os nossos limites. Com o tempo, toda essa raiva contra nós se transforma em culpa, cobrança, mal-estar e tristeza.

A raiva existe para nos mostrar que precisamos nos proteger, que temos uma urgência em relação ao bem-estar pessoal. Ela é uma emoção de proteção energética, social e emocional.

Cada filho, como espírito eterno que é, responde por sua caminhada. Libertem-se desse peso.

Agindo como se fôssemos Deus, apenas nos escravizamos à enfermidade do amor prepotente, que nos alucina com a ideia de que temos a obrigação de salvar filhos que não querem ser salvos ou de dirigir a vida de filhos que anseiam eles próprios serem proprietários de seus caminhos.

Mães que se sentem fracassadas à luz da reencarnação porque não atingiram os objetivos que supunham essenciais com os espíritos que renasceram como seus filhos, precisam de ajuda e orientação para entenderem que amar não pode ser confundido com ser responsável pelo bem e pelo mal de quem amamos.

Sem dúvida, uma das crenças mais prejudiciais sobre o amor é a de que somos capazes de mudar as pessoas que amamos ou, mais grave ainda, que respondemos pela escolha de nossos entes amados. Adicionada a essa ilusão, sob a ótica da imortalidade da alma, muitos aprendizes do espiritismo, entre os quais eu me incluo, acreditam que é também um dever conseguir essa renovação das pessoas que a vida nos entrega, seja nas experiências do parentesco ou da afetividade, por uma questão de carma.

O efeito mais lamentável dessa falsa crença é a sensação dilacerante de ser também responsável pela queda moral e espiritual daqueles que amamos quando eles não optam pelo seu reerguimento. Fomos educados para pensar que amar é ser responsável por aquilo que o outro faz ou escolhe e dentro da cultura dos espíritas, infelizmente, isso é reforçado.

Não será exagero dizer que essa forma de pensar e comportar é uma tragédia social no terreno dos relacionamentos, porque muitas dores, tormentos e dissabores ocorrem por conta dessa cruel sensação de falência, que encarcera o ser humano nas mais diversas formas de infelicidade e fantasias de fracasso.

Ser responsável pelo outro é bem diferente de ter responsabilidade com o outro. Perante a eternidade, em verdade, somos responsáveis unicamente por nós mesmos. Em relação ao outro, cabe-nos exercer os deveres cooperativos inspirados na lei de sociedade e amor que promove uma teia de solidariedade, apoio mútuo e motivação de uns para com os outros, mas não a ponto de anular o desejo, a intenção, a escolha e a atitude que a outrem compete para o erguimento de si mesmo.

Podemos, sim, estender a mão, orientar, incentivar, alertar, acompanhar, oferecer tempo, atenção e carinho aos nossos afetos de caminhada, todavia, além disso, quaisquer ações que visem ajudar podem conduzir para a perturbação, para o engano, para a cobrança e para a necessidade egoística de controle, estabelecendo um quadro emocional de dependência e tormenta afetiva.

Amar não é algemar-se a alguém. Amar não significa agradar o tempo todo. Amar é criar laços saudáveis que deixam marcantes motivos para desejar a presença de quem se cativa. Amar é estar presente no coração das pessoas mesmo estando longe.

Quando exigimos excessivamente dos outros, esperando o que eles, na maioria das vezes, não têm condições de atender ou não desejam fazê-lo, certamente estamos tratando a nós mesmos dessa exata forma. Quando também fazemos pelas pessoas que amamos aquilo que elas não nos pediram, a pretexto de agradá-las ou de socorrê-las, poderemos nos enredar, com o tempo, na armadilha da mágoa e do destempero emocional.

Cobranças e expectativas desmedidas são neuroses, doenças psíquicas e comportamentais que oneram nossa vida com climas pesados e tóxicos, criando uma convivência distante da verdadeira amorosidade cristã e refazente.

Amar não significa ter uma varinha de condão capaz de transformar os outros naquilo que gostaríamos que eles fossem, e quem se aventura a essa experiência na escola da vida, quase sempre, abandona a si próprio acreditando que essa atitude de renúncia é uma das expressões mais virtuosas e legítimas do amor. Ao contrário do que se pensa, o amor verdadeiro não deve ser interpretado como a ação de se esforçar ao máximo para facilitar a vida dos que amamos. Pelo contrário, o amor nunca solicitou tanto limite como atualmente.

A ausência de condições para que o amor se expresse em favor da dignidade e do crescimento moral tem feito muitos reféns emocionais, que são aquelas pessoas que vivem da troca de favores, esperando uma resposta do ser amado aos seus esforços para agradar ou salvá-lo, e terminam prisioneiras de seus medos, de suas culpas e de suas supostas derrotas em relação ao que esperavam ou desejavam do ser amado. Os reféns emocionais basicamente se caracterizam por acreditar que nasceram para fazer a felicidade de alguém, que essa é sua missão, seu dever. Entendem que amar é sofrer com a dor das pessoas que amam ou que para ser feliz necessita do amor alheio. Por essas razões, essas pessoas se sentem responsáveis pelo que o outro faz ou é.

O remédio para nos mães perfeccionistas e o autoamor, o cuidado com nós mesmas. Assim como para amar é necessária a educação, também o autoamor é um caminho que nos espera para construção paciente de hábitos de autoacolhimento e ternura, aceitação e bondade.

Espero que minhas palavras se transformem em consolo e motivação para que vocês encontrem forças para o autoperdão.

Para finalizar, eu peço a todas vocês que fiquem de pé para orarmos juntas uma oração, a mim ensinada por dona Modesta, dirigida à nossa mãe santíssima, Maria, a mãe do senhor Jesus.

Maria Santíssima, somos também tuas filhas.

Mãe salvadora de todos, rogai por nós que desejamos sair dos vales da sombra e da amargura de nossas culpas injustas e dilacerantes.

Oh, Santíssima Mãe de Jesus! Ajuda-nos a transformar nosso arrependimento em luz e coragem no caminho.

Coroa-nos o esforço do autoperdão com tua doce e santa misericórdia, com a energia de tua ternura infinita.

Te pedimos refúgio para não nos sentirmos falidas e conseguirmos olhar com compaixão para nossas faltas.

Empresta-nos tua mão delicada para levantarmo-nos dos tropeços da frustração perante nossas exigências descabidas.

Oh, Soberana Senhora ! Sabemos que merecemos a felicidade e a prosperidade, mas nos sentimos distantes da condição de filhas amadas pelo Pai de nossas jornadas evolutivas.

Auxilia-nos a tecer com os fios da caridade um manto de proteção que nos faça sentir acolhidas e credoras da bondade celeste.

Concede-nos, em nome de tua pureza, a energia salutar da fé imbatível para nos nutrirmos de amor e merecimento, amizade e farturas do coração.

Em nome de teu poder de amar-nos incondicionalmente, envolva-nos na candura de tua paz e generosidade.

Sob a guarda de tua sabedoria e doçura, Mãe querida, nossa vida terá mais rumo, nossos dias serão mais abundantes, nossa alegria será mais justa e nossa vontade será mais lúcida.

"Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus;" (2)

Santíssima Maria de Nazaré, pelas graças que o Pai te confiou, faça-nos também tuas filhas, para que igualmente possamos afirmar: achamos graça diante do amor e da vida.

Assim seja!


Ermance Dufaux




(1) Nota da editora: No livro Lírios de esperança, a autora espiritual Ermance Dufaux oferece informações mais detalhadas sobre essa tarefa educativa.

(2) Lucas 1:30