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quarta-feira, 15 de março de 2023

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8 - Como se tratar diante das frustrações



Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 8


Como se tratar diante das frustrações


"O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá." Santo Agostinho (Paris, 1863). O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 5, item 19.


Tomar contato com a falibilidade é uma experiência comparável à dolorosa cirurgia sem o benefício da anestesia.

Sentir-se impotente, arrepender-se de más escolhas, reconhecer honestamente uma falha lamentável, ter a coragem de olhar para os erros do passado são atitudes desafiantes para nós que buscamos o aprendizado espiritual.

Quando todas as resistências do orgulho e da vaidade a respeito de nossos reais limites se quebram, a sensação de frustração costuma ser o espelho no qual enxergamos as tormentas de quem se percebe falível. E a frustração pode transformar-se na porta que se abre para a entrada do desvalor pessoal, que encarcera a mente e o coração na sensação de inutilidade e vazio interior.

Nesse quadro de provas emocionais, experimentamos a amargura da solidão e o clima da falência moral. Tudo parece uma sementeira arrasada por praga destruidora e um mal-estar toma conta da alma.

Todavia, para dimensionar nossa verdadeira estatura espiritual e ajuizar sobre quais são as reais necessidades de aprimoramento, torna-se indispensável a desilusão a respeito do que pensamos que somos. É necessário o contato com nossa falibilidade para examinar com proveito a realidade que nos cerca. A humildade só é possível quando caem todas as escamas enfermiças de nossa autoidolatria sobre supostos valores e qualidades que ainda não possuímos.

É no clima da frustração que brota a verdadeira identidade do nosso ser eterno, individual, exuberante e capaz de refletir a grandeza do criador.

Quem sofre a dor da frustração guarda, no íntimo, muitos anseios nobres que ainda não foram alcançados. Somente quem não se alimenta de boas intenções não se frustra.

Frustração pode ser também indício de que necessitamos rever posturas e reconstruir decisões, não sendo por isso, sinônimo de infelicidade. Frustração é sinal de rota mal orientada, e os infelizes não são aqueles que tentaram e falharam, mas, aqueles que sequer importam-se com os dissabores da existência, optando pela fuga na irresponsabilidade. As pessoas que se frustram o fazem porque tiveram atitude, tentaram, nutriram boas intenções, desejos e expectativas.

0 encontro com nossa falibilidade só é possível porque estamos sensíveis a algo melhor e queremos avançar. Se nos importamos com as decepções da vida vinculadas à nossa responsabilidade é porque almejamos rumos melhores e mais sadios. Por essa razão, consideremo-nos vitoriosos porque tentamos, e errar faz parte da caminhada. E porque errarmos e nos frustrarmos, ainda que repetidamente, não quer dizer que não somos capazes ou que não merecemos o que buscamos. A frustração, em verdade, é um convite ao recomeço de um modo diferente e melhor, é indício de que talvez tenhamos de rever nossas expectativas ou alterar nossa forma de realizar o que desejamos.

Não confundamos frustração com derrota. Frustração é sintoma de que o resultado não foi o esperado, e a derrota só existe para quem desistiu ou nem tentou.

0 fato de nos esforçarmos para alcançar o êxito não significa que o alcançaremos. Isso não basta.

Nos dias atuais, em função do imediatismo, há uma busca desenfreada de sucesso pelos caminhos da facilidade, quando, na verdade, toda conquista legítima, para valer a pena e nos pertencer de fato, solicita o concurso louvável do tempo, da paciência, da disciplina e da persistência.

Na Terra, raramente alguém se encontrará fora das provas da desilusão. Muitos sonhos, planos e revezes nada mais são que vivências para destruir as ilusões egoísticas de conquistas fáceis e apressadas. Necessariamente, elas não indicam incompetência, desvalor ou limitação, mas sim são resultados da pressa, de estratégias inadequadas e de pouca dedicação e cumplicidade.

Muitas vezes o que consideramos perda, erro e má escolha é uma alteração de curso nas lições da vida para nos aproximar ainda mais do desenvolvimento de habilidades e valores que verdadeiramente nos farão felizes e realizados.

Vamos acolher a frustração como um alerta da existência a fim de examinarmos com mais atenção a qual aprendizado estamos sendo chamados.

Lembremo-nos de que os vitoriosos não são os que sempre acertam, e sim os que não desistem. Vitoriosos perdem no mundo das ilusões e ganham no mundo da realidade, distanciam-se de expectativas impossíveis e aproximam-se do que é essencial, libertador e que satisfaz seus corações. Sendo assim, alegremo-nos conosco pelo esforço empreendido e continuemos nos tratando com carinho e aplicando as melhores energias do bem.

Se chegamos até aqui e não desistimos, imagine o quanto ainda poderemos realizar se decidirmos trilhar o terreno fértil da cumplicidade e da coragem de nos autoavaliarmos diante das frustrações da caminhada!

Pode até ser que para muitas pessoas sejamos fracassados. Porém, nas leis de Deus, quando não alcançamos êxito, significa que estamos sendo convocados ao recomeço. Só mesmo no dicionário humano existem palavras que significam derrota e insucesso a respeito das nossas escolhas na vida. Na lei divina, impera a bondade, a misericórdia, o amor e o determinismo de atingirmos a perfeição.

Acreditar nisso significa não aceitar a opinião de quem só enxerga o nosso lado sombrio. De mãos dadas com Deus, retomemos o curso e acreditemos no bem em nós. Deus conta apenas com o nosso melhor, Ele não espera perfeição.

Cada dia é um convite ao recomeço, e o que ontem parecia sem solução hoje se transforma em resposta inesperada para a alegria e para a paz. 0 que ontem era ofuscado pela treva hoje pode se converter em luz para o caminho da realização. 0 que nos parecia fracasso pode ser apenas convite a novos rumos para o melhor em nosso favor. Mudando o ponto de vista, poderemos perceber que aquilo que parecia má-sorte e negativismo é, na verdade, a melhor forma que a vida encontrou de indicar-nos qual direção tomar para nosso crescimento e felicidade.


Ermance Dufaux












sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 5 - Medos indicadores de crenças limitadoras



Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 5


Medos indicadores de crenças limitadoras
 

Uma longa trajetória na possessividade gerou na nossa mente o reflexo do apego e crenças ilusórias de grandeza e importância pessoal. Em decorrência dessa caminhada milenar, quando nos dispomos a realizar uma transformação moral a luz do espiritismo e do Evangelho do Cristo, deparamo-nós, inevitavelmente, com os efeitos dessa programação mental em forma de hábitos muito enraizados no automatismo dos sentimentos e dos pensamentos.

Sair desse patamar interno de acreditar sermos maior do que realmente somos e ter de assumir nossa verdadeira estatura espiritual pode tornar-se uma travessia de dores e conflitos amargos. Esse desapego de valores que já não nos protegem mais das ameaças de nossa sombra interior solicita cuidados fundamentais e acolhimento amoroso com nossas necessidades de melhoria, a fim de não se instalarem o desgosto e a perturbação.

Crenças são como pilares na vida mental. São vigas que, quando abaladas, podem desequilibrar todo o edifício do pensamento, da vontade e do sentimento. Portanto, quaisquer operações a serem realizadas nesses pilares exigem perícia e orientação terapêutica quando se objetiva o resgate da saúde.

O desapego às nossas convicções pode ser comparado à delicada cirurgia na intimidade da alma e traz como principal consequência o medo. Sobretudo, o medo de perder quem achávamos que éramos, de perder personalidades ilusórias repletas de verdades falsas sobre a vida e sobre o viver. Essa perda faz aflorar a dor angustiosa da indefinição, gerando insegurança, desanimo e mau humor, que podem alcançar o nível de um quadro exaustivo de estresse, ansiedade, pânico e desespero silencioso a caminho da depressão.

Sob uma perspectiva transpessoal, o medo é um excelente indicador de que existe algo a ser descoberto, enfrentado e transformado em nós. É um sentimento mobilizador cuja função no cosmo emocional é proteger e também instigar atitudes diante de pressões ou ameaças.

Sendo o medo uma reação natural e necessária, aquilo que fazemos com ele é que pode se tornar um problema. Quando optamos pela reorientação daquilo que temos como real, há uma perda temporária de referências que os ofereciam a sensação de segurança e bem-estar, e agora, na formação de outros valores, o medo nos previne contra os mecanismos sutis da leviandade diante da construção de novos princípios e valores que vão gerenciar as novas formas de pensar e viver.

Entre as certezas que mais necessitam de reciclagem e que podem acionar o medo com intensidade estão as chamadas crenças de identidade, isto é, aquelas que criam uma percepção do valor e da estima pessoal. São as que mais sofrimento tem causado ao ser humano. Sob a gerencia de padrões de desvalor e de não merecimento, os sentimentos e pensamentos aprisionam a vida psíquica e emocional no estado de baixa autoestima.

A baixa autoestima é um processo psíquico automático reforçado no período da infância, mas que, na maioria dos espíritos reencarnados na terra, é um diagnóstico construído ao longo de milênios.

Esse estado psíquico e emocional de desamor em relação a si mesmo é um efeito desse apego milenar ao comportamento egoísta. A necessidade compulsiva de elaborar um autoconceito superdimensionado de nós mesmo terminou por trazer um efeito contrário, levando-nos a essa sensação de monos valia e vazio interior. O medo surge exatamente quando assumimos nossas necessidades e tomamos contato com o sombrio dentro de nós, quando reconhecemos as nossa reais e profundas necessidades de buscar a realidade e abandonar essas mascaras tóxicas, que já não servem mais para o prazer e para a realização pessoal.

Desapegar-se das crenças que estruturavam um edifício de ilusões é o mesmo que navegar por um mar revolto, sem rota, sem farol se sem direção.

No Evangelho, a passagem em que Pedro foi convidado por Jesus a andar sobre as águas é um exemplo que ilustra bem esse assunto. Trata-se de um andar incomum em um caminho sem referências e exclusivamente pessoal, pois embora houvesse muitas pessoas naquele momento na praia, só Pedro foi chamado pelo Mestre.

Todos seremos chamados em algum momento a andar sobre águas, a fazer um trajeto de libertação por caminhos e aprendizados incomuns. Andar sobre as águas vai exigir uma convicção sólida em destemor sem igual: teremos apenas por força de uma leve rajada de vento. O vento da indecisão, da dúvida, da incerteza e da severidade com nós mesmos. Assim como andar sobre as águas, reciclar nossas próprias verdades atemoriza-nos porque significa trilhar uma jornada pessoal, sem comparação, única. Nesse processo, somos nós e nossa consciência, nós e nosso ser transpessoal que anseia nascer e florescer.

Para tornar esse caminhar menos doloroso e mais consciente, será necessária a descoberta de quais crenças nossos medos indicam. Cada medo pode ser um indicio daquilo que devemos reciclar.

No medo de sofrer, pode estar enraizada a crença de que não merecemos o prazer.

No medo de aproveitar as boas coisas da vida, pode estar gravada a crença de que a vida só tem valor legitimo quando a conquista vem pela dor e pelo sacrifício.

No medo de experimentar romper seus limites, pode abrigar-se a crença do castigo para quem não se conduz conforme os padrões.

No medo de errar, camufla-se a crença de incompetência ou do perfeccionismo.

No medo de competir, pode estra a crença de que temos de ser os melhores.

No medo do desamparo, costuma se esconder a crença de que o amor alheio é mais importante do que o auto amor.

No medo de estabelecer limites, quase sempre está a crença em nossa infalibilidade.

No medo de nossa fragilidade, abriga-se a crença de que temos de dar conta de tudo.

No medo de ser quem somos, quase sempre está a crença de que ser diferente é um mal.

Aquele servo da parábola dos talentos tinha convicção limitadora. Ele preferiu enterrar o talento por que era essa a sua concepção de proteção, de bom uso, ao mesmo tempo em que se submeteu a uma postura de acomodação e de menor esforço. Por conta de suas ilusões, não gerou vida, movimento e não ampliou o raio de sua experiência. Fechou-se em sua concepção, por zelo e cautela.

Nos serviços de aprimoramento espiritual, muitos de nós rendemo-nos a essas concepções temerárias que sutilmente invadem o campo mental com ideias de prudência excessiva e terminam em preguiça, perfeccionismo e fuga.

Diante de tais atitudes, verificamos claramente a presença do egoísmo mais uma vez incensando a ideia de sermos o melhor, quando os serviços do bem e da luz na busca de nosso progresso apenas nos propõem a fazer o melhor que já conseguimos.

A crença lucida e libertadora de quem segue a Jesus é ser alguém melhor hoje do que ontem e dar um passo atrás do outro na busca da aprendizado lento, gradativo e ininterrupto na construção de um home novo em constante aperfeiçoamento.


Ermance Dufaux




Fonte: Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação



VÍDEO:

Emoções que Curam - Medos Indicadores de Crenças Limitadoras

Palestra Dr. Marlus Ronchi





Casa Espirita Paz Amor e Caridade - Ponta Grossa - Paraná.



sábado, 13 de março de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 10 - Aceitação da nossa falibilidade




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap.  10


Aceitação da nossa falibilidade


"O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações." Lacordaire (Havre, 1863). 0 Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 5, item 18.


Quando não aceitamos nossas imperfeições, o sofrimento aumenta, pois a cobrança e a rigidez desenvolvem um campo mental fértil para a mágoa diante da frustração das expectativas, para a insegurança por não conseguirmos controle sobre a vida, para o medo do que pode acontecer por não ter esse controle, para a culpa por não ter conseguido controlar, para a vergonha por não ter alcançado o que gostaria, e para a revolta por tanta luta interior.

Aprisionados nesse redemoinho de emoções, instala-se em nós a baixa autoestima, uma dolorosa sensação de desvalor pessoal. Vivemos um conflito desgastante entre o que somos e aquilo que gostaríamos de ser.

A aceitação de nossa realidade é fundamental para gerir um processo de reforma íntima produtiva e esperançosa, já que o aprimoramento pessoal só flui com naturalidade quando criamos uma relação amigável e pacífica com nossas limitações e deficiências.

Devido à inaceitação da verdade pessoal, podemos afirmar, com pequenas variações de pessoa para pessoa, que em 75% do nosso tempo vivemos mentalmente presos ao passado, 20% focamos no futuro e apenas 5% conseguimos sincronizar-nos com o presente.

Quando vivemos no passado, nos aprisionamos na mágoa. Quando no futuro, escravizamo-nos à ansiedade, e só quando vivemos no presente experimentamos a realidade.

Mágoa é raiva do que aconteceu e ansiedade é medo do que virá. Só no presente podemos experimentar o intercâmbio de forças com a vida que nos alimenta e enriquece.

A raiva do passado é direcionada a alguém ou contra si mesmo. O medo do futuro cria a exaustão de energia na tentativa de controlar os acontecimentos e as pessoas para evitar as imaginárias tragédias ou decepções.

Viver no presente é ser alguém adaptado à realidade e consciente de seu papel pessoal em tudo que lhe acontece, aceitando tudo aquilo que não lhe é possível fazer ou transformar.

A aceitação é uma terapia curativa porque nos mantém emocional e mentalmente alinhados com a nossa realidade, consistindo em uma fonte essencial de saúde e passo seguro para aprender a tratar-se com bondade. Seu maior ensinamento é: farei somente o meu melhor, farei somente o possível.

Só o poder curativo do amor pode criar uma condição interior de melhoria e crescimento espiritual, pois tudo o que você aceita em si próprio fica naturalmente mais fácil de ser transformado em algo melhor.

Tudo aquilo que você resiste ou condena acaba fortalecendo a sensação de impotência e culpa. Sendo assim, a autoaceitação é o primeiro passo para a criação de uma amizade duradoura e rica em favor de nossa paz.

Aceitação não significa que tenhamos de ser sempre do mesmo jeito ou que vamos nos acomodar com aquilo que aceitamos sobre nós. Significa apenas que vamos parar de brigar com nós mesmos, parar de resistir às nossas imperfeições e parar de colocar uma força para controlar a realidade não controlável. Aceitar nossas imperfeições é criar um acolhimento amoroso com nossa sombra pessoal.

Realizar uma transformação interior na condição de inimigos de nós mesmos é um ato de agressividade, um movimento emocional de abrir nossas defesas energéticas. 0 conflito interior fragiliza-nos, reduzindo a imunidade da aura.

Não aceitando, criamos mecanismos mentais de defesa que nos distanciam da realidade e fazem com que desenvolvamos atitudes de negação emocional.

Um excelente exercício para a prática da aceitação é entrar em contato com a fragilidade, com a nossa vulnerabilidade, nossa condição falível.

Aceitai nossa falibilidade pode ser o melhor caminho para viver uma vida com leveza, construindo atos de amor e paz interior. Aceitá-la significa desenvolver honestidade emocional para admitir que fizemos más escolhas e que fomos frágeis em momentos de decisão e ter coragem de olhar para o que sentimos diante dessa realidade. Somente assim podemos responder pelo que somos, pelos nossos comportamentos e sentimentos.

De acordo com as leis do universo, não existem fracassos, mas resultados. Fracasso é uma palavra que inventamos para dizer que as coisas não saíram como gostaríamos. Em contrapartida, resultados são os efeitos possíveis diante de nossos esforços, escolhas e desejos.

Fracasso, falência, derrota e erro são expressões próprias das imperfeições humanas, que, sob uma ótica imortalista, significam a necessidade de recomeço, reexame e melhoria.

Só erra quem tenta, e é melhor que não queiramos somente acertar na vida, até porque o que em muitas situações consideramos correto não passa de uma mera ilusão de nosso orgulho ou de uma distorção de nossas crenças.

Quando nos amamos, enxergamos com mais clareza Deus em nós mesmos, aceitando-nos incondicionalmente e, consequentemente, tratando-nos cada vez mais com carinho e solidariedade.

Ser responsável em assuntos da reforma íntima não significa dar conta de tudo, pois somente cada um de nós pode definir o quanto e o que fazer perante os desafios que nos aguardam na caminhada de superação.

Amar a si é também oferecer ao nosso próximo conhecimento de nossas reais capacidades e estabelecer condições para nos integrarmos por inteiro àquilo que fazemos e ao quanto conseguimos realizar.

Como destaca Lacordaire:

"0 fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações."

Já é muito bom saber que, apesar de nossa fragilidade, as leis protetoras de Deus não colocam fardo mais pesado do que as forças. É também um alento pensar que, mesmo com tantas limitações, resignação e coragem podem alterar todo o roteiro de nossas provas de crescimento.

Ante as sombras da vida mental que insinuam climas pessimistas em nossos esforços, usemos alguns minutos do tempo, pensemos em nossos protetores do bem, cruzemos as mãos sobre o peito num gesto de autoamor e oremos de olhos fechados com resignação e coragem:

Pai, assumo minha fragilidade.

Supra-me para que eu encontre as forças de que necessito.

Abençoa-me para que eu não tombe no desespero ou na amargura, na tristeza ou na irritação.

Permita-me ter hoje um dia melhor que o de ontem, com mais disposição e confiança, com mais serenidade e trabalho.

Dai-me Tua mão generosa, e muito obrigado, Senhor!


Ermance Dufaux







segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Epílogo - Estações da alma no amadurecimento emocional




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Epílogo


Estações da alma no amadurecimento emocional


Estatísticas e levantamentos realizados no setor de pesquisas do Hospital Esperança nas últimas décadas, próximas do virar do milénio, apontavam quais eram os principais resultados emocionais e mentais dos recém-desencarnados que se internavam em nossa casa de amor.
 
A pesquisa era ampla e, no entanto, estudos apontavam certo destaque para a gravidade de casos em um grande grupo de pessoas que tiveram suas reencarnações orientadas pelo espiritismo. Esse fato nos chamou atenção e levou-nos a pesquisar tratamentos especializados para as necessidades desses espíritos.

Diante disso, um alerta foi expedido por Eurípedes Barsanulfo em reunião com o colegiado do hospital: tornavam-se urgentes algumas iniciativas educativas, começando por divulgar um alerta renovador aos que se encontravam reencarnados na comunidade espírita, disseminando as recomendações de Eurípedes. Esta seria uma medida preventiva visando abrir os olhos dos irmãos de ideal acerca dos perigos e ilusões que constavam nas estatísticas.

Entre várias ações conjuntas e individuais levadas a efeito, através do desdobramento no sono físico, uma delas tinha por objetivo reunir um grupo de 1.500 expositores espíritas cujos nomes estavam registrados nas frentes de trabalho do Departamento de Comunicação e Educação do Hospital Esperança.

O levantamento deixava evidente os seis principais quadros de adoecimento espiritual dos que desencarnaram nos últimos trinta anos do século passado:

» Enfraquecimento da aspiração ao progresso.

» Dor do conflito com a hipocrisia.

» Ausência de realização afetiva.

» Fuga da realidade.

» Ignorância sobre si mesmo.

» Falta de sentido para viver.

Por isso, os técnicos e condutores do hospital destinaram esforços em seis especializações com objetivos terapêuticos nos referidos quadros, quais sejam:

» Resgate da arte de sonhar.

» Desenvolvimento da honestidade emocional.

» Educação da carência afetiva.

» Morte da idealização.

» Desenvolvimento do autoconhecimento.

» Sentido da continuidade da vida.

A esse conjunto de tratamentos deram o nome de Psicologia da Libertação, cujo propósito luminoso seria libertar a consciência do jugo das ilusões à luz dos princípios sadios dos ensinos de Jesus.

Chegada a ocasião do encontro com os expositores, que se deu no mês de março de 1997, todas as providências foram tomadas no intuito de conseguir reunir os 1.500 mensageiros que seriam os divulgadores desse alerta à comunidade espírita. Essa divulgação entre os mensageiros tinha por fim o aumento da sensibilidade dos amigos espíritas a respeito dos cuidados necessários para a expansão da luzes do espiritismo em seus próprios corações.

Mesmo com toda a série de medidas e planejamentos, somente 436 dos expositores convocados, ou seja, menos de um terço do grupo, conseguiram superar as barreiras das lutas na matéria para comparecer à reunião abençoada.

Já passavam das 00:30 no mundo físico, quando dona Modesta, professor Cícero Pereira, Cornélius, e um grupo de onze coordenadores iniciaram o encontro com uma oração e uma pequena leitura. A palavra, então, foi concedida à dona Modesta, que, em nome de Eurípedes, transmitiria o alerta:

Amigos e irmãos do coração, Jesus seja conosco. Estou aqui a pedido do benfeitor Eurípedes Barsanulfo para lhes confiar uma missão emergencial.

Nessa casa de trabalho e recuperação, visamos, antes de tudo, à medicina preventiva, e as avaliações de nossos censos deixam claras as linhas psicológicas de derrotismo e de conflito interior que têm dominado uma infinidade de corações, mesmo quando iluminados pelo conhecimento inspirador do espiritismo.

As pesquisas minuciosas e o cruzamento dos dados que foram apontados em nossos levantamentos classificaram seis principais doenças que aprisionam a alma em quadros de dor no mundo físico, durante o trajeto das reencarnações, trazendo reflexos graves para as esferas do mundo espiritual após o desencarne.

Nossa missão, e também a de vocês, é disseminar nas agremiações de amor à luz do espiritismo esses seis principais focos da Psicologia da Libertação e da cura que lhes apresentamos agora. Após o nosso encontro de hoje, cada um de vocês que se fizeram merecedores de aqui estar terão à sua disposição cursos de aperfeiçoamento e encontros noturnos de preparação para aprofundarem seus conhecimentos nesses pilares, passando por tratamentos e recebendo orientações a respeito de si mesmos que, posteriormente, serão fontes de inspiração para suas palestras e mensagens consoladoras.

Suas explanações, sobre quais temas forem, ganharão conteúdo e estímulo renovador quando afinadas com esses objetivos terapêuticos, considerando que os que vão lhes ouvir guardam na intimidade os dramas e as necessidades profundamente semelhantes com aqueles apontados em nosso estudo.

Nossa inspiração de base para a proposta de divulgação dessa mensagem do bem está no evangelho. A alma, assim como a natureza, tem suas estações, as quais foram muito bem definidas pelo Mestre na magistral parábola do semeador, no texto de Mateus, capítulo treze, versículos três a oito, que passo a ler:

"E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear.

E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na;

E outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda;

Mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz.

E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.

E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta."

Temos em nossas vidas a primavera da jovialidade, o verão das provas, o outono das perdas e o inverno do recolhimento e da colheita, que podem ser associados a cada um desses versículos, demonstrando que o amadurecimento emocional obedece a ciclos que não podem ser ignorados.

0 espiritismo é um remédio potente para almas em busca de sua própria iluminação. Conquanto essa realidade já seja do conhecimento de nossa comunidade, o orgulho como traço marcante da jovialidade emocional insufla a ideia de uma primavera florida, a qual nos faz recordar a ocasião em que Jesus, ao procurar a figueira, nada encontrou senão folhas, adornos. Os frutos não estavam presentes. Essa primavera pode ser comparada à condição íntima de quem colore a vida intelectual com princípios brilhantes e reluzentes do espiritismo, repletos de idealismo e vigor, e, todavia, permanece distante da maturidade dos desafios nobres e fortalecedores do inverno do recolhimento interior.

Chega, porém, o verão das provações, dos testes rudes da vida, que convocam a descida dos ideais espíritas do cérebro para o coração. Trazer o espiritismo da cabeça para o coração é o maior dos desafios que se apresenta aos seareiros da nossa querida doutrina no plano físico e neste em que nos encontramos agora. Nessa situação, muitos desanimam e tudo abandonam; outros permanecem e deixam morrer seus sonhos. Alguns enganam-se com missões espetaculares em favor do próximo, o que lhes alivia a sensação de inutilidade e de desvalor pessoal, ainda que no interior estejam esfacelados e sem a energia da autorrealização.

Não é fácil prosseguir e persistir. É aqui que muitos deixam o sonho morrer e perdem a batalha para a força dilacerante do conflito com a hipocrisia.

Além das dificuldades desse combate, quase sempre, como efeito de um verão devastador, vem o outono das perdas. 0 calor do verão derrete os sonhos, e a exótica paisagem do outono subtrai o senso da nossa realidade e da nossa capacidade de realização, lançando-nos às experiências da solidão, da mágoa e da culpa. É o outono das perdas: perdas de amizades, de bens, de amores, de sonhos, de projetos e, a mais desafiadora, a perda de quem achávamos que éramos, que tem por finalidade o encontro do verdadeiro "quem sou?".

Tais vivências produzem como resultado um inverno de dores e arrependimentos no qual a vida mental recolhe-se no casulo do medo sem orientação e sem meta, sem vitalidade e sem sonhos, gerando a "morte" psíquica e emocional. Nesse momento, morremos por dentro e ficamos à espera da morte do corpo.

Diante dessas tormentas da dor, muitos companheiros de ideal buscam defesa e força nas tarefas espíritas, supondo, muitos deles, que nada mais lhes resta como alternativa senão trabalhar, estudar e mergulhar com todas as suas convicções nas atividades doutrinárias.

E qual de nós pode contestar essa decisão? Que seria de muitos irmãos queridos se não adotassem semelhante conduta? Sabemos que, possivelmente, não suportariam a sua própria loucura. O movimento para fora e as tarefas têm sido, para uma multidão de trabalhadores, o remédio para aplacar a mente atordoada por culpas, pois provoca uma nítida e agradável sensação de utilidade pessoal.

Entretanto, fique clara nossa ressalva a esse respeito: ninguém faz uma cirurgia especializada em um posto de saúde projetado para atendimentos de necessidades mais simples.

0 serviço de educação espiritual é muito mais profundo que a simples ação de armazenar conhecimento doutrinário e manter trabalhos em favor do bem alheio. Tem havido muito trabalho por fora, movimento, e pouco trabalho por dentro, reforma íntima.

0 movimento nem sempre tem acompanhado a reforma íntima e, para agravar essa situação, tem sido tomado como sinónimo de elevação e crescimento espiritual.

Para quem se encontra no esforço de renovação, é chegado o momento de abrir os olhos para as ilusões pertencentes a esse gênero de aprendizado nas fileiras do espiritismo. E' necessário sair da esfera de adesão aos movimentos exteriores, que nem sempre agregam valores ao coração e às vezes alimentam a sensação de grandeza.

Para vivermos nossas reencarnações com alegria e celebração, é preciso estimular o desejo em direção às propostas da Psicologia da Libertação. Não podemos considerar tarefas e dores como sinônimos de avanço espiritual.

Nossa missão como comunicadores da boa nova do Cristo é aliviar os espíritos quanto àquilo que percebem de si mesmos, ampará-los para que consigam melhor nível de aceitação de sua sombra interior, orientá-los sobre a importância de acolherem-se com imenso autoamor.

A estação da alma que mais traduz amadurecimento e elevação espiritual é o inverno do recolhimento no autoamor. Inverno é momento de aproveitar o armazenamento de alimento, instante de usufruir dos frutos colhidos na caminhada da experiência e das conquistas legítimas e eternas.

A diretriz básica de semelhante projeto é educar para o amor que cura, o amor que eleva, o amor que coloca a alma em sintonia com sua própria consciência. É preciso ensinar os Espíritos a garimpar suas próprias preciosidades espirituais.

0 princípio orientador dessa mensagem deve se inspirar na fala sábia de Jesus: "Olhai, vigiai e orai;".22 MARCOS, 13:33

Nessa tríplice, "olhai" é o autoconhecimento, "vigiai" é a autotransformação e "orai" é o autoamor. Essa definição parece singela, mas, como sempre, Jesus, o terapeuta do amor, consegue com apenas três verbos traçar um tratado de medicina da alma para eternidade.

Trata-se de três ciclos bem definidos que se entrelaçam em perfeita sincronia para as conquistas morais, emocionais e espirituais.

Olhar tem como significado o autoconhecimento, que está em identidade com a pergunta formulada por Allan Kardec:

"Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?

Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo."

Vigiar é postura, é comportamento transformador, é ter atenção plena - sem a qual não haverá novas atitudes, novas palavras. Essa vigília é também um estado da mente alerta e atenta, sendo a única condição para a reflexão e a geração de novos hábitos. Vigiar é o movimento de autotransformação aplicada a partir do que se identificou com o autoconhecimento, e este sem aquela pode se resumir a informações racionais sobre a vida interior, conturbando ainda mais a mente com a sombra da soberba e do orgulho. A autotransformação atinge o coração, sendo, antes de tudo, uma mobilização emocional criadora de estados íntimos de plenitude e serenidade, o que permite o desejo espontâneo de novas e mais luminosas ações. Ela ocorre quando o autoconhecimento é experimentado na prática, criando respostas, alternativas de melhoria, bagagem sobre os caminhos do crescimento espiritual. Na continuidade da pergunta acima citada, observa-se que Allan Kardec, ainda insatisfeito, indagou:

"Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?". E Santo Agostinho oferece uma das respostas mais lindas sobre o assunto. Se examinarmos atentamente essa resposta, perceberemos que ele fala de reforma na prática, de autotransformação aplicada.

Jesus, porém, não termina seu projeto de saúde integral e ainda refere-se ao orai. Orar é fazer contato com a luz de dentro e de fora, é promover um novo patamar de relação com Deus em nós mesmos, é o autoamor.

Que oração mais poderosa pode existir que a de ter infinito amor para com nossa própria alma? Acolhermo-nos com júbilo e motivação legítimos ante a invasão das sombras que ainda carregamos? Orar é reunir o poder pessoal que pode temporariamente ter sido abalado pelas distrações de nossos impulsos milenares.

Para reunir esse poder será necessário tratarmo-nos como um templo divino que merece respeito, carinho, perdão e amor.

Autoconhecimento é a primavera florida e rica de recados para um futuro promissor.

Autotransformação é o rigor do verão dos aprendizados que temperam e equilibram, seguidos pela ruptura do outono, que recicla por meio de perdas necessárias e inadiáveis.

Autoamor é o inverno, a busca permanente da alma de se recolher e de se acolher com o próprio calor, com os próprios recursos. É você com você nos destinos da vida.

Os espíritos que renasceram na comunidade espírita no pós-guerra trazem necessidades muito parecidas no campo espiritual. Nunca ignoramos em nosso plano de ação, aqui no hospital, que receberíamos esse contingente de companheiros açoitados pelas dores emocionais provenientes de ilusões tão graves nessas últimas décadas do milênio.

Guardem com sabedoria os apontamentos consoladores de nossa fala e anotem por caridade os seis princípios de libertação mais emergentes aos que amam o espiritismo:

» 0 resgate da arte de sonhar.

» 0 desenvolvimento da honestidade emocional.

» A educação da carência afetiva.

» A morte da idealização.

» A cura da ignorância.

» O sentido da continuidade da vida.

Nos próximos meses todos aqui presentes passarão por tratamentos especializados para registrarem, o mais profundamente possível, a importância desse roteiro de medicina preventiva para a alma, exercitando-o em suas experiências pessoais.

Muita angústia e aflição marcam os desencarnes nas últimas décadas entre adeptos da doutrina. Isso acontece porque nós, amantes das propostas do Evangelho de Jesus, quase sempre trazemos o nosso mundo emocional bem distante do que já sabemos ser necessário para a melhoria de nossas condições espirituais e morais. Dotados de muita informação, nem sempre conseguimos administrar com sabedoria e equilíbrio a nossa transformação, usando o conhecimento para hierarquizar nossa condição pessoal com títulos, cargos e outras formas de suposta autoridade.

Essa aflição e essa angústia se intensificam ostensivamente após a perda do corpo físico. Ao contrário do que se sente, essas emoções não surgem do nada. Elas já existiam antes do desencarne, mas, na maioria das vezes, eram negadas e reprimidas.

Esses traços emocionais e psíquicos são manifestações pertinentes às personalidades aflitas e angustiadas. Há várias formas de expressão dessas duas emoções tóxicas. Façamos uma reflexão sobre isso tomando por base a conhecida e profunda frase de Jesus, que é um verdadeiro atestado do quanto Ele sabia sobre a natureza das doenças humanas: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei."44 MATEUS, 11:28

O cansaço espiritual vem do conflito milenar que temos enfrentado por não sermos quem gostaríamos de ser, o eu ideal, em contrapartida com quem somos, o eu real. Surge aqui uma espécie de dupla culpa: temos culpa pelo que somos e culpa pela nossa idealização de ser, ainda não alcançada.

A culpa traz a angústia, um estado de sofrimento existencial. Por sua vez, a angústia cansa, exaure, desmotiva, trazendo uma nítida e inconfundível sensação de abatimento perante a vida, podendo se transformar numa porta de entrada de alguns tipos de depressão.

A opressão mencionada por Jesus é aquela provocada pela ignorância acerca de nosso mundo interior, ou seja, é aquela provocada por não sabermos o que sentimos e o que queremos. Ela gera a aflição, um estado de ânsia de causa ignorada, que consequentemente cria a instabilidade emotiva, principalmente através da insegurança acerca de nossas escolhas e desejos. A aflição, por fim, entristece e desorienta.

Cansados porque não nos autotransformamos, oprimidos porque não aprofundamos no autoconhecimento.

Qual de nós, de alguma forma, não se vê enquadrado nesses estados de cansaço e opressão, não é mesmo? Nós, religiosos, por determos maior soma de conhecimento sobre assuntos espirituais, ampliamos, ainda mais, o volume de culpas e inseguranças.

Mas Jesus orienta: "vinde a mim...". Enquanto o cansaço e a opressão marcam o verão e o outono do amadurecimento, o "vinde a mim" é a recomendação para entrarmos em relação com a melhor parte de nós próprios, com nosso Cristo interno. E' o autoamor, o acolhimento amoroso e revigorante de nos perdoarmos, nos aceitarmos e caminharmos avante na busca de nossa paz e cura espiritual.

Estamos cansados de seguir padrões religiosos e de filosofar sobre religião. Estamos carentes de sossego interior e de alegria em nossas vidas. Nossa angústia e opressão se resumem à ausência de prazer de viver.

Prazer de viver é uma conquista que surge quando aprendemos como viver em consonância com nossa consciência, distante das ilusões.

Não será exagero afirmar, sem generalizar, evidentemente, que as almas que têm chegado em condições mais razoáveis de harmonia e equilíbrio abriram mão da neurótica necessidade de serem espíritas dentro dos moldes estabelecidos pela ilusão dos adeptos no mundo físico, a fim de atenderem aos apelos da sua consciência individual em busca de uma vida mais autêntica, responsável e rica de alegrias.

Levem o alerta de Jesus aos homens iluminados pelo conhecimento espírita de "que não ficará pedra sobre pedra" no que diz respeito à ordem histórica de idéias e condutas alicerçadas em uma visão institucional do espiritismo.

Amadurecimento é algo interno, e não externo. É necessário termos cuidado com as supostas credenciais de autoridade adotadas pela comunidade!

Falem com coração e respeito, docilidade e acolhimento em suas palestras de amor, concitando homens e mulheres iluminados pelo conhecimento espírita a viverem suas histórias pessoais e a se distanciarem das padronizações indesejáveis e perniciosas.

Os ciclos da vida somente fluem quando celebramos a nossa história pessoal. Cada um de nós nasce para florir e embelezar a vida de um modo único.

A maturidade emocional do inverno nos traz muitas vantagens, e algumas das mais gratificantes são descobrir nossa originalidade e não sermos cópia de ninguém. Não ter uma opinião bem construída sobre si, sem dúvida, é uma fonte de escravidão.

Busquemos essa meta com coragem e com a certeza de que Deus nos criou com todos os recursos que nos capacitam a transformar o ato de existir em uma experiência plena de crescimento e felicidade.


Ermance Dufaux







segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 17 - O amadurecimento emocional dos médiuns




Ermance Dufaux - Livro Emoções que Curam: Culpa, raiva e medo como forças de libertação - Wanderley Oliveira - Cap. 17


O amadurecimento emocional dos médiuns


"A mediunidade não implica necessariamente relações habituais com os Espíritos superiores. E' apenas uma aptidão para servir de instrumento mais ou menos dúctil aos Espíritos, em geral. O bom médium, pois, não é aquele que comunica facilmente, mas aquele que é simpático aos bons Espíritos e somente deles tem assistência. Unicamente neste sentido é que a excelência das qualidades morais se torna onipotente sobre a mediunidade. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 24, Item 12).


O aeroporto estava repleto. Alexandre, médium e palestrante, esperava um voo que o levaria a uma cidade do Sul do país para uma apresentação.

Em dado momento, em meio a tanta agitação externa, ele foi sendo tomado por um nível acentuado de concentração, fechou os olhos e foi se abstraindo do ambiente até que ouviu uma voz rouca dizendo:

— Essa moça com vestes amarelas à sua frente é minha sobrinha. Meu nome é Humberto e queria lhe dizer algumas palavras. Será que posso contar com você?

Alexandre, que já estava em estado de transe profundo, abriu os olhos, procurou e viu a moça de seus quinze anos aproximadamente, que trazia um olhar triste e introspectivo. Fechando os olhos novamente, ele dirigiu-se ao espírito dizendo:

— Posso saber do que se trata, Humberto?

— Essa moça foi tremendamente prejudicada por mim. Eu me suicidei há quatro meses, depois de usar de forma indevida as economias de uma herança que pertencia a ela até chegar à falência. Não suportei a culpa e os desastres materiais. Deixei minha esposa, dois filhos e ela com problemas graves para resolver. Diante de tantas perdas, ela está pensando em tomar a mesma atitude e vir ao meu encontro. Quer suicidar-se.

Você a enganou?

Não, não se trata disso. Diante da morte de meu irmão, e ela sendo menor de idade, fui nomeado como seu tutor e, portanto, administrador de seus bens. Não fiz nada com más intenções, mas, agindo com imprevidência, qual criança inexperiente, me embaracei com o usufruto da fortuna deixada pelo pai dela. Administrei mal, fui perdendo dinheiro, envolvendo-me com ganhos ilícitos e acabei mal.

0 que você gostaria de dizer a ela?

Ela se chama Sara. Apenas escreva essa pequena frase em um papel: "A vida sempre tem caminhos que desconhecemos, e Deus jamais deixará de nos apresentar aquele que será o melhor para nós." Era um mantra que ensinei a ela e por várias vezes nós o repetimos em nossas conversas no lar. Chegamos a pintar juntos essa frase em uma pequena tábua, que hoje se encontra na sala de minha casa, a pedido dela. Depois de ler, por caridade diga a ela que infelizmente o caminho que escolhi não é um desses caminhos de Deus.

— Só isso?

— Agradeço. Não posso dizer mais nada segundo o senhor que me trouxe até aqui.

— Posso saber quem lhe trouxe?

— 0 nome dele é Cornélius.

Alexandre rogou ajuda espiritual e não vacilou. Sentindo um pouco de mal estar devido à aproximação daquele espírito ainda tão enfermo, resolveu verificar o que podia ser feito. Por acaso, havia um lugar vago ao lado de Sara que parecia destinado ao médium, considerando a aglomeração naquele local. Em clima de profunda convicção e ligando seu coração com a fé, chegou perto da moça e disse:

— Seu nome é Sara?

— Sim. Você me conhece?

— Não, Sara, não conheço. Eu peço sua licença para lhe relatar um fato, com todo respeito. Não peço que acredite, apenas que me ouça, pode ser?

— Sobre o quê?

— Eu sou médium e percebi que você perdeu uma pessoa querida recentemente, não foi?

— Sim, meu tio. Mas já tem quatro meses. Por quê? -perguntou curiosa.

— Eu o percebi aqui no aeroporto e ele lhe mandou essa frase por escrito. Faz algum sentido para você?

Alexandre apresentou a frase escrita às pressas em um pedaço de papel. A moça leu a frase e seus olhos se encheram de lágrimas. Passado algum tempo, perguntou:

— Ele está aqui? Quem é você?

— Meu nome é Alexandre. Seu tio esteve comigo há alguns minutos e já se foi para o além. Ele pediu o favor de lhe enviar essa frase e que eu afirmasse para você que o caminho que ele escolheu não é um desses caminhos de Deus que o mantra de vocês indica.

Repitamos um trecho da frase de apoio anterior: "Unicamente neste sentido é que a excelência das qualidades morais se torna onipotente sobre a mediunidade.".

Não é a mediunidade que qualifica o médium, e sim suas qualidades morais e emocionais.

Os médiuns com Jesus são chamados a todo instante para o serviço do bem incondicional. Não há lugar, não há hora, não há circunstância na qual esse bem não possa ser feito. Uma singela oração em qualquer instante ou ambiente é um facho de luz abrindo frestas para que a bondade celeste penetre espalhando bênçãos.

Com relação à disponibilidade de servir junto aos amigos espirituais, Allan Kardec nos diz:

"Acrescentemos, todavia, que, se bem os Espíritos prefiram a regularidade, os de ordem verdadeiramente superior não se mostram meticulosos a esse extremo. [...] Mesmo fora das horas predeterminadas, podem eles, sem dúvida, comparecer e se apresentam de boa vontade, se é útil o fim objetivado."11 O livro dos médiuns, capítulo 29, item 333.

Os chamados do mundo espiritual para fins úteis obedecem a uma lógica distinta à dos homens que se encontram reencarnados. Os médiuns afeiçoados ao serviço iluminativo com Jesus, conscientes dessa verdade, se propõem a apresentar as condições morais que lhes permitam ser canais de paz e orientação, amor e consolo.

O desejo de servir, sem dúvida, é a qualidade moral indispensável a essa realização superior nas lições sagradas da mediunidade. E o desejo de servir consiste em ter o coração aberto à dor e às necessidades, facultando, por efeito, o estado de disponibilidade psíquica, que podemos comparar à antena emissora e receptora possibilitando ao médium uma contínua interação com o mundo astral que o rodeia.

Nos Atos dos Apóstolos, capítulo nove, versículo dez, encontramos esse exemplo de prontidão em Ananias ao dizer: "E havia em Damasco um certo discípulo chamado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! E ele respondeu: Eis-me aqui, Senhor."

"Eis-me aqui, Senhor" é a disponibilidade para ser útil. Médiuns em estado íntimo de quietude interior oferecem esse solo mental fértil sobre o qual são plantadas as sementes enriquecedoras que multiplicarão os frutos dos planos superiores. Sem quietude não existe disponibilidade mental, sem disponibilidade mental, não existe sintonia, e sem sintonia, não há plantação mediúnica.

Essa quietude na vida mental é o resultado do amadurecimento psíquico e emocional dos medianeiros. Ela não pode ser atingida apenas com conhecimento e atividade doutrinária, mas, à medida que o servidor da mediunidade avança na solução de suas lutas interiores, adquirindo a habilidade de manter seu foco espiritual na luz, da qual todos somos portadores como filhos de Deus, seu poder de percepção e sua força de atuação na vida que o rodeia se dilatam, sem lhe causar danos ou alterações prejudiciais.

A exemplo do samaritano narrado na parábola evangélica, ele, o médium, desce a estrada de Jerusalém para Jericó sem ser assaltado por suas próprias mazelas. Desce, como diz o texto, "em viagem", com propósitos definidos de voltar ao seu lugar de origem, Jerusalém, que representa a cidade dos valores nobres, ao contrário de Jericó, a cidade do comércio e dos bens perecíveis. 0 samaritano foi em viagem, enquanto o homem assaltado, o Levita, e também o Sacerdote "desciam", ou seja, perdiam sua condição interior na derrapada para os interesses sombrios.

Para que os médiuns consigam essa condição de descida "em viagem", com propósitos elevados e sincronizados com as esferas da luz e da libertação, torna-se indispensável os cuidados com sua jornada de amadurecimento emocional. Esta pode ser resumida em três etapas distintas e que se integram entre si formando o estado interior de quietude:

1 – Autoconhecimento,

2 - Autotransformação 

3 – Autoamor.

Pelo autoconhecimento, o médium descobre e examina o mapa de suas sombras interiores e da sua luz ofuscada à espera de uma abertura para irradiar paz, cura e libertação.

Pela autotransformação, o médium se aplica a explorar o território de seu próprio aprimoramento, escalando novos hábitos, desbravando os terrenos da riqueza emocional e aplainando novas conquistas na direção de sua consciência.

Pelo autoamor, o médium encontra-se consigo próprio, preenchendo-se de estima, alegria, entusiasmo e discernimento, o que lhe permite um novo olhar sobre a vida e sobre as pessoas que o rodeiam seja onde for.


Ermance Dufaux