Miramez - Livro, Filosofia Espírita - Volume XIV - João Nunes Maia
Prefácio de Bezerra de Menezes
Voltamos a escrever um prefácio para a coleção Filosofia Espírita, que busca, na simplicidade, virtude cristã que todos perseguimos, recursos para nos ajudar no entendimento dos preceitos do Divino Mestre e da obra básica da Doutrina Espírita. Observando com o coração vibrando na faixa do Amor, notaremos que Jesus volta na forma de uma filosofia, donde se vêem claridades imortais de sabedoria.
Miramez, ao escrever estas páginas, desprende, algumas vezes, lágrimas de alegria, ao perceber a sintonia profunda entre "O Livro dos Espíritos" e os ensinamentos de Jesus. "Como é bom saber", diz ele, "que o Céu é uma unidade segura de leis que nos assistem e garantem a nossa vida!
Sentimos, neste livro, como se as letras de "O Livro dos Espíritos" se desdobrassem, e encontramos nele um manancial inesgotável, onde a luz é a água que Jesus ofertou à samaritana junto ao poço de Jacó.
"O Livro dos Espíritos", depois do Evangelho do Mestre, é a maior obra que surgiu na face da Terra; suas letras brilham mais que as estrelas no céu das consciências em despertamento para a vida. E, por isso, os irmãos empenhados em trabalhar na divulgação de suas mensagens serão, certamente, perseguidos, contestados e atormentados pelos que se comprazem na perda de tempo.
Certa feita, em conversação sobre o combate a novos discípulos, empenhados na difusão do Evangelho na dimensão espírita, Miramez afirmou:
- "Não nos deixemos levar pelos contraditores, pois eles são viciados nas discussões improfícuas e habituados às ofensas, desconhecendo a caridade no pão que mata a fome, na roupa que agasalha e no teto que conforta, na palavra que edifica e na escrita que orienta, esquecendo-se sempre daquele amor que não maltrata, não injuria e não persegue.
A resposta deve ser o silêncio cristão, envolvido no trabalho honesto, irradiando alegria pura, em benefício dos que sofrem. Todas as árvores carregadas de frutos são apedrejadas pelos famintos. Os incoerentes de hoje são os mesmos fariseus e escribas que, com a reencamação, trocaram de vestes, mas não mudaram ainda de sentimentos. Que o perdão possa contribuir, de alguma forma, para a elevação desses irmãos e que as bênçãos do tempo, no amanhã, os transformem em servidores do Cristo!"
Nosso desejo é que os trabalhadores do Bem não se esfriem no entusiasmo benfeitor em que se encontram envolvidos, e por isso os exortamos a seguirem avante, pois quem caminha com Jesus não erra o objetivo da Luz.
A Vida Maior, a tudo dirigindo no Universo, não esquece o bom trabalhador, que tem como assertiva constante o servir, sem especular. Usemos o perdão e não esqueçamos o amor que, em forma de caridade, salva e liberta a consciência de todas as agressões.
Se "O Livro dos Espíritos" é um livro-luz, eis aí diminuta partícula sua, pequena célula que pode brilhar em nossos caminhos. Estudemos juntos, porque nessa sintonia de princípios, o Senhor nos instrui e educa. A Doutrina Espírita avança com a humanidade, porque é o amor com a roupagem materializada, fazendo lembrar a caridade em todos os seus aspectos. Recordamos, mais uma vez, a fala de nosso irmão Miramez:
"Todas as árvores carregadas de frutos são apedrejadas pelos famintos..."
Emmanuel - Livro Alma e Luz - Chico Xavier - Cap. 9
Com um beijo
“E logo que chegou, aproximou-se Dele e disse-lhe: — Rabi, Rabi. E beijou-O”. — (Marcos, 14.45)
Ninguém pode turvar a fonte doce da afetividade em que todas as criaturas se dessedentam sobre o mundo.
A amizade é a sombra amiga da árvore do amor fraterno.
Ao bálsamo de sua suavidade, o tormento das paixões atenua os rigores ásperos.
É pela realidade do amor que todas as forças celestes trabalham.
Com isso, reconhecemos as manifestações de fraternidade como revelações dos traços sublimes da criatura.
Um homem estranho à menor expressão de afeto é um ser profundamente desventurado.
Mas, aprendiz algum deve olvidar quanta vigilância é indispensável nesse capítulo.
Jesus, nas horas derradeiras, deixa uma lição aos discípulos do futuro.
Não são os inimigos declarados de Sua Missão Divina que vêm buscá-Lo em Gethsemani. É um companheiro amado.
Não é chamado à angústia da traição com violência. Sente-se envolvido na grande amargura por um beijo.
O Senhor conhecia a realidade amarga. Conhecera previamente a defecção de Judas: “É assim que me entregas”? — Falou ao discípulo. O companheiro frágil perturba-se e treme.
E a lição ficou gravada no Evangelho, em silêncio, atravessando os séculos.
É interessante que não se veja um sacerdote do templo, adversário franco de Cristo, afrontando-lhe o olhar sereno ao lado das oliveiras contemplativas.
É um amigo que lhe traz o veneno amargo.
Não devemos comentar o quadro, em vista de que, quase todos nós, temos sido frágeis, mais que Judas, mas não podemos esquecer que o Mestre foi traído com um beijo.
Emmanuel - Livro Cura - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 12
Nas relações humanas
Cristo nas relações humanas começará no homem com Cristo, ou a civilização genuinamente cristã não passará no mundo de fábula brilhante de nova mitologia.
Para isso é imprescindível que nos afeiçoemos, em verdade, ao Espírito dos Evangelhos, para consolidarmos na Terra o verdadeiro reinado do Espírito.
Não nos basta a mística do Templo organizado com todos os recursos para a exaltação do culto externo de nossa fé.
Nos santuários de pedra e ouro, o Mestre Divino jaz encerrado à maneira de um morto ilustre, cercado de frases fulgurantes no cenotáfio que lhe conserva os despojos.
Somos atualmente convocados, não mais à consagração do serviço religioso encarcerado no círculo da interpretação literal, mas à religião viva do exemplo, sentido e vivido com o nosso coração e com o nosso sangue, com o nosso ideal e com o nosso suor para que o hino espiritual do Evangelho, espraiando-se da nossa área individual de compreensão, se estenda a todas as criaturas, anunciando ao planeta um Novo Dia…
É por isso que o selo do sacrifício nos valoriza o caminho, é por esse motivo que a dor e a luta se transformam em clima incessante de todos os que abraçam na Boa Nova o roteiro da libertação que lhes é própria.
A descrucificação de Jesus é o nosso trabalho primordial, para que os braços do Celeste Amigo, usando os nossos, penetrem o coração da Humanidade, soerguendo-a aos níveis superiores que lhe cabe atingir.
Nossa estrada, em razão disso, se converte em respeitável indicação para aqueles que, ainda, não nos partilham o entendimento.
Nossas atitudes e nossas palavras, nossas dores superadas e nossas ansiedades vencidas constituem páginas de amor e luz que os outros leem, habilitando-se à grande e abençoada renovação.
Situemos o Senhor que buscamos, compreendendo o mundo, e servindo aos nossos semelhantes, através dos seus olhos e inspirados em seus padrões superiores, venceremos os desafios do tempo, reduzindo séculos e milênios na construção do Reino Divino que o antigo espaço da Terra aguarda de nossas mãos.
Marco Prisco - Revista Presença Espírita - Janeiro, 1999 - Divaldo Franco
Dê-se oportunidade
Não se considere esquecido por Deus, somente porque as ocorrências não se dão conforme você gostaria.
Certamente você se deslocou do centro das reflexões corretas e tudo considera através de uma óptica emocional equivocada.
A sua vida tem um objetivo superior e um significado psicológico expressivo.
O conceito negativo que você estabeleceu a tal respeito é resultado do pessimismo que tem cultivado.
Tudo quanto você toma como prejudicial e infeliz na sua jornada é somente projeção do que acalenta no íntimo.
A mudança de atitude mental para melhor alterará completamente as ocorrências da sua existência.
As doenças que o acometem estão enraizadas no Espírito, e a rebeldia que você se permite somente irá piorar-lhe a situação.
O único antídoto para o desequilíbrio é a paz que se deriva da resignação dinâmica.
Você vê inimigos terríveis em todos e em tudo, porque se encontra de mal com você mesmo.
Tudo quanto lhe acontece no exterior é resultado da sua projeção íntima.
Não pense que a sua existência não tem utilidade para nada.
A lagarta rastejante ergue-se nas asas da borboleta e plana saudável no ar.
Você possui tesouros imarcescíveis que teima por esconder na morbidez da revolta que desenvolve.
Uma palavra edificante, um sorriso gentil, um gesto de bondade, um aperto de mão possuem valores mais altos em determinados momentos do que moedas reluzentes e posições relevantes.
A queixa que se lhe fez habitual comportamento envenena-o, após cegá-lo para a claridade do bem.
Há, sim, pessoas difíceis e perturbadoras, ignorantes e agressivas, sempre dispostas a prejudicar os outros. São almas insensatas, porém, que a si mesmas se infelicitam.
Você se habituou a ver somente o lado sombrio dos acontecimentos, a face mesquinha e desagradável do mundo.
Com um pouco de atenção, no entanto, você pode redescobrir o milagre da vida, no amanhecer radioso, no desabrochar de uma flor, no entardecer rubro, na fragilidade infantil, na alegria juvenil, na sabedoria do ancião...
Não se considere desafortunado porque se encontra distante do triunfo terreno.
Aquilo que você considere glória é somente maior peso da responsabilidade sobre alguém que talvez esteja ansioso para desembaraçar-se da situação que se lhe apresenta penosa e asfixiante.
Não se permita, sob hipótese alguma, guardar ressentimentos. Ficar à espreita para que o mal aconteça noutrem acumula azedume...
Esses tóxicos matam primeiro aqueles que os ingerem e conservam, destrambelhando lhes a maquinaria orgânica no começo, e fulminando-os, caso não mudem de atitude mental e emocional.
Seus pensamentos são sua existência.
Seus hábitos formam sua realidade interior.
Renove-se cada dia para melhor.
Sorria e desculpe sempre.
O infeliz não merece punição, e sim oportunidades novas até o despertamento para a vitória sobre si mesmo.
Seja você aquele que lhe dá novo ensejo de reparação, a pessoa que está construindo com amor o mundo ditoso pelo qual Jesus vem trabalhando há milênios, dando-se também oportunidades de triunfos.
Marco Prisco
Mensagem ditada pelo Espírito Marco Prisco, psicografada pelo médium Divaldo Franco em 29.12.1997 – publicada na Revista Presença Espírita do mês de janeiro de 1999, na seção Mensagem do Mês.
Não há efeito sem causa; nada procede do nada. Esses são axiomas, isto é, verdades incontestáveis. Ora, como se constata em cada um de nós a existência de forças e de poderes que não podem ser considerados como materiais, há a necessidade, para explicar sua causa, de se chegar a uma outra fonte além da matéria, a esse princípio que chamamos alma ou espírito.
Quando, descendo ao fundo de nós mesmos, querendo aprender a nos conhecer, a analisar nossas faculdades; quando, afastando de nossa alma a borra que a vida acumula, o espesso envelope de preconceitos, erros e sofismas que têm revestido nossa inteligência; penetrando nos recessos mais íntimos de nosso ser, encontramo-nos face a face com esses princípios augustos sem os quais não haveria grandeza para a humanidade: o amor ao bem, o sentimento de justiça e de progresso. Esses princípios, que se encontram em diversos graus, tanto entre os ignorantes quanto entre os homens de gênio, não podem vir da matéria, desprovida que está de tais atributos. E se a matéria não possui essas qualidades, como poderia formar, sozinha, os seres que delas são dotados? O senso do belo e do verdadeiro, a admiração que sentimos pelas grandes e generosas obras, não poderia ter a mesma origem que a carne de nossos membros ou o sangue de nossas veias. Está lá, na sua maior parte, como os reflexos de uma luz sublime e pura que brilha em cada um de nós, da mesma forma que o sol se reflete sobre as águas, quer estejam perturbadas ou límpidas.
Em vão se pretende que tudo seja matéria. E apesar de que ainda que nos ressintamos de poderosos impulsos de amor e de bondade, já conseguimos amar a virtude, o devotamento, o heroísmo; o sentimento da beleza moral está gravado em nós; a harmonia das coisas e das leis nos penetra, nos arrebata. E, com tudo isso, nada nos distinguiria da matéria? Sentimos, amamos, possuímos consciência, vontade e razão e procederíamos de uma causa que não encerra essas qualidades em nenhum grau, de uma causa que não sente, não ama nem conhece nada, que é cega e muda? Superiores à força que nos produziu, seríamos mais perfeitos e melhores que ela! Uma tal maneira de ver não suporta um exame. O homem participa de duas naturezas. Por seu corpo, por seus órgãos, deriva da matéria; por suas faculdades intelectuais e morais, é espírito.
Dizendo ainda mais exatamente, relativamente ao corpo humano, os órgãos que compõem essa admirável máquina são semelhantes a rodas incapazes de agir sem um motor, sem uma vontade que as coloque em ação. Esse motor é a alma. Um terceiro elemento religa os dois outros, transmitindo aos órgãos as ordens do pensamento. Esse elemento é o perispírito, matéria etérea que escapa aos nossos sentidos. Envolve a alma, acompanha-a após a morte nas suas peregrinações infinitas, depurando-se, progredindo com ela, constituindo um corpo diáfano, vaporoso. Voltaremos, mais adiante, a comentar sobre a existência desse perispírito, chamado também de duplo fluídico (1).
O espírito jaz na matéria como um prisioneiro em sua cela; os sentidos são as aberturas pelas quais se comunica com o mundo exterior. Mas, enquanto a matéria, cedo ou tarde, declina, periclita e se desagrega, o espírito aumenta em poder, fortifica-se pela educação e experiência. Suas aspirações se engrandecem, se estendem para além da túmulo; sua necessidade de saber, de conhecer e de viver não tem limites. Tudo mostra que o ser humano pertence apenas temporariamente à matéria. O corpo não é senão uma vestimenta emprestada, uma forma passageira, um instrumento com a ajuda do qual a alma prossegue, nesse mundo, sua obra de depuração e de progresso. A vida espiritual é a vida normal, verdadeira, sem fim.
Léon Denis
(1) Após alguns anos, uma certa escola se esforçou em substituir o dualismo da matéria e do espírito pela teoria da unidade de substância. Para ela a matéria e o espírito são estados diversos de uma só e mesma substância que, na sua evolução eterna, se afina, se depura, tornando-se inteligente e consciente. Sem abordar aqui a questão de fundo, que necessita de longos desenvolvimentos, é preciso reconhecer que a ideia que até agora se fazia da matéria estava errada. Graças às descobertas de Crookes, Becquerel, Curie, Lebon, a matéria nos aparece hoje sob estados muito sutis e, nesses estados, reveste-se de propriedades infinitamente variadas. Sua flexibilidade é extrema. A um certo grau de rarefação, transforma-se em energia. G. Lebon pode dizer, com aparente razão, que a matéria não é mais que a energia condensada e a energia, a matéria dissociada. Quanto a deduzir desses fatos que a energia inteligente, em um momento dado de sua evolução, torna-se consciente, é ainda uma hipótese. Para nós, há, entre o ser e o não ser, uma diferença de essência. Por outro lado, o monismo Haeckelien, recusando ao espírito humano uma vida independente do corpo e rejeitando toda noção de sobrevivência, termina logicamente nas mesmas conseqüências que o materialismo positivista e incorre nas mesmas críticas
André Luiz - Livro Busca e Acharás - Emmanuel / André Luiz - Chico Xavier - Cap. 5
Anotações preventivas
Retome o seu dia, buscando olvidar as ocorrências infelizes da véspera.
A casa protegida, habitualmente, promove faxinas pela manhã.
Se alguém se lhe fixou na mente como sendo um ponto enfermiço, envolva a imagem desse alguém no bálsamo da prece.
Uma chaga no corpo exige recurso cicatrizante.
Lance boatos e injúrias ao cesto do esquecimento.
A moradia claramente limpa reclama a presença do esgoto.
Abstenha-se de entreter assuntos alusivos à delinquência.
Ninguém lava as mãos num vaso de lama.
Dissipe tentações no calor do trabalho.
As aranhas não resistem ao espanador em movimento.
Ganhe distância dos ambientes que lhe incitem a alma à distorção e ao desequilíbrio.
Não se lembraria você de banhar-se num pântano.
Evite comentários deprimentes.
Você não serviria um bolo envenenado aos amigos.
Resguardemos o coração nas fontes do bem, pensemos no bem e procuremos falar e agir para o bem, porque servir ao bem dos outros é a melhor forma de atividade preventiva contra enfermidade e perturbação nos domínios da nossa vida mental.
André Luiz - Livro Nosso Lar - Chico Xavier - Cap. 18
Amor, alimento das almas
Terminada a oração, chamou-nos à mesa a dona da casa, servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos. Eminentemente surpreendido, ouvi a senhora Laura observar com graça:
— Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências, em “Nosso Lar” que as dispensam quase por completo; mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.
— Isso, porém, — ponderou uma das jovens, — não quer dizer que somente nós, os funcionários do Auxílio e da Regeneração, vivamos a depender de alimentos. Todos os Ministérios, inclusive o da União Divina, não os dispensam, diferindo apenas a feição substancial. Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos. Na Elevação o consumo de sucos e concentrados não é reduzido, e, na União Divina, os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável.
Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura, ansioso de explicações imediatas. Sorriam todos da minha natural perplexidade, mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos, explicando:
— Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. De quando em quando, recebemos em “Nosso Lar” grandes comissões de instrutores, que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual.
Todo o sistema de alimentação, nas variadas Esferas da vida, tem no amor a base profunda [v. O alimento de Jesus].
O alimento físico, mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres, necessitados de colaboração da graxa e do óleo.
A alma, em si, apenas se nutre de amor. Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação, mais extensamente conheceremos essa verdade. Não lhe parece que o amor divino seja o cibo [1] do Universo?
Tais elucidações confortavam-me sobremaneira. Percebendo-me a satisfação íntima, Lísias interveio, acentuando:
— Tudo se equilibra no amor infinito de Deus, e, quanto mais evolvido o ser criado, mais sutil o processo de alimentação.
O verme, no subsolo do planeta, nutre-se essencialmente de terra. O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção, a exemplo da criança sugando o seio materno.
O homem colhe o fruto do vegetal, transforma-o segundo a exigência do paladar que lhe é próprio, e serve-se dele à mesa do lar.
Nós outros, criaturas desencarnadas, necessitamos de substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique a ascensão individual.
— Não esqueçamos, todavia, a questão dos veículos, — acrescentou a senhora Laura, — porque, no fundo, o verme, o animal, o homem e nós, dependemos absolutamente do amor. Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência.
— É extraordinário! — Aduzi, comovido.
— Não se lembra do ensino evangélico do “amai-vos uns aos outros”? — Prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa, — Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão somente os casos de caridade, nos quais todos aprenderemos, mais dia menos dia, que a prática do bem constitui simples dever.
Aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no campo da fraternidade e da simpatia.
O homem encarnado saberá, mais tarde, que a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal, — patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo, — constituem sólidos alimentos para a vida em si.
Reencarnados na Terra, experimentamos grandes limitações; voltando para cá, entretanto, reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual. Formam-se lares, vilas, cidades e nações em obediência a imperativos tais.
Recordei instintivamente as teorias do sexo, largamente divulgadas no mundo; mas, adivinhando-me talvez os pensamentos, a senhora Laura sentenciou:
— E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual. O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino, mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito.
Entre os casais mais espiritualizados, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória.
A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à manifestação da harmonia. Para que se alimente a ventura, basta a presença e, às vezes, apenas a compreensão.
Valendo-se da pausa, Judite acrescentou:
— Aprendemos em “Nosso Lar” que a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba. Almas gêmeas, almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos. Unindo-se umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano de redenção.
Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte costuma sucumbir a meio da jornada. É preciso muita identificação com a fé sobre humana para viver o homem, ou a mulher, solitários no mundo.
— Como vê, meu amigo, — objetou Lísias contente, — ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo. “Nem só de pão vive o homem.”
Antes, porém, de se alinharem novas considerações, tiniu a campainha fortemente.
Levantou-se o enfermeiro para atender.
Dois rapazes de fino trato entraram na sala.
— Aqui tem, — disse Lísias, dirigindo-se a mim gentilmente, — nossos irmãos Polidoro e Estácio, companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento.
Saudações, abraços, alegria.
Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:
— Todos vocês trabalharam muito, hoje. Utilizaram o dia com proveito. Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa. Não esqueçam a excursão ao Campo da Música.
Notando a preocupação de Lísias, advertiu a palavra materna:
— Vai, meu filho. Não faças Lascínia esperar tanto. Nosso irmão ficará em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.
— Não se incomode por mim, — exclamei, instintivamente.
A senhora Laura, porém, esboçou amável sorriso e respondeu:
— Não poderei compartilhar das alegrias do Campo, ainda hoje. Temos em casa minha neta convalescente, que voltou da Terra há poucos dias.
Saíram todos, em meio do júbilo geral. A dona da casa, fechando a porta, voltou-se para mim e explicou sorridente:
— Vão em busca do alimento a que nos referíamos. Os laços afetivos, aqui, são mais belos e mais fortes.
O amor, meu amigo, é o pão divino das almas, o pábulo [2] sublime dos corações.
André Luiz
[1] Cibo. — S. m. Alimento. Lat. cibus.
[2] Pábulo. — S. m. Alimento, sustento, comida, forragem, pasto. Lat. pabulum.