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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.

Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito frequentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às joias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis












Fonte: O Porquê da Vida -pdf

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Giovana (Novela Espírita) - Item VI



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Giovana (Novela Espírita)


Item VI 
(trecho)


Esses olhos, esse olhar límpido, esses cabelos louros como espigas maduras, essa boca sorridente, esse talhe esbelto, alto, é a imagem de Giovana. Oh! magia! então o túmulo restitui os seus hóspedes! Uma voz vem acariciar-lhe os ouvidos: Amigo, nada receies, sou eu mesma, não tentes tocar-me, não sou mais que um Espírito. Não te aproximes mais, escuta-me."

Maurício ajoelha-se, chora: "ó meu anjo, ó minha noiva, és tu, então?"

- “Sim, sou tua noiva, tua muito antes desta vida. Escuta, um laço eterno nos une. Nós nos conhecemos há séculos, temos vivido lado a lado sobre muitas plagas, temos percorrido muitas existências. A primeira vez que te encontrei na Terra, era eu bem fraca, bem tímida e a vida então era dura. Tu me tomaste pela mão, me serviste de apoio; desde esse momento, não nos deixamos mais. Sempre seguíamos um ao outro em nossas vidas materiais, andando no mesmo caminho, amando-nos, sustentando-nos um ao outro. Metido em combates, em empresas guerreiras, tu não podias realizar os progressos necessários para que teu Espírito livre, purificado, pudesse deixar este mundo grosseiro. Deus quis experimentar-te; separou nos. Eu podia elevar-me para outras esferas mais felizes, enquanto que tu devias prosseguir sozinho a tua prova aqui embaixo. Preferi, porém, esperar-te no espaço. Efetuaste duas existências desde então e, durante seu curso, testemunha invisível de teus pensamentos, não cessei de velar por ti”. Cada vez que a morte arrancava tua alma à matéria, tu me reencontravas e o desejo de te elevares fazia-te retomar com mais ardor o fardo da encarnação. Desta vez eu também pedi, tanto supliquei ao Senhor, que ele me permitiu voltar a Terra, tomar aí um corpo e ser uma voz para ensinar-te o bem, a verdade. Nossos amigos no espaço nos aproximaram, nos reuniram, mas por um tempo limitado. Eu não podia ficar mais tempo neste planeta: meu papel estava preenchido. Não devia ser tua aqui na Terra.

“Chegou à hora em que os Espíritos podem, segundo a permissão divina, comunicar-se com os humanos. Assim, eu torno a vir para guiar-te, encorajar-te, consolar-te. Se queres que esta existência terrestre seja a última para ti, se queres que ao sair dela sejamos reunidos para nunca mais nos separarmos, consagra tua vida a teus irmãos, ensina-lhes a verdade. Dize-lhes que o fim da existência não é adquirir bens efêmeros, mas esclarecer a inteligência, purificar o coração, elevar-se para Deus. Revela-lhes as grandes leis do Universo, a ascensão dos Espíritos para a perfeição. Ensina-lhes as vidas múltiplas e solidárias, os mundos inumeráveis, as humanidades irmãs. Mostra-lhes a harmonia moral que rege o infinito”.  

“Deixa após ti as sombras da matéria, as más paixões; dá a todos o exemplo do sacrifício, do trabalho, da virtude. Tem confiança na divina justiça. Fita a todo o momento a luz longínqua que ilumina o alvo, o alvo supremo, que deve reunir-nos no amor, na felicidade.” 

"Põe mãos à obra sem tardança; nós te sustentaremos, nós te inspiraremos. Estarei junto de ti durante a luta, envolver-te-ei com um fluido benéfico. Assim como nesta tarde, tornar-me-ei novamente visível a teus olhos, revelar-te-ei o que ignoras ainda. E um dia, quando tudo que há em ti de material e ínfimo se tiver dissipado, unidos, confundidos, nos elevaremos juntos para o Eterno, juntando nossas vozes ao hino universal que sobe de esfera em esfera até Ele."


Léon Denis











domingo, 17 de setembro de 2023

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. 3 - Espírito e matéria



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. 3


Espírito e matéria


Não há efeito sem causa; nada procede do nada. Esses são axiomas, isto é, verdades incontestáveis. Ora, como se constata em cada um de nós a existência de forças e de poderes que não podem ser considerados como materiais, há a necessidade, para explicar sua causa, de se chegar a uma outra fonte além da matéria, a esse princípio que chamamos alma ou espírito.

Quando, descendo ao fundo de nós mesmos, querendo aprender a nos conhecer, a analisar nossas faculdades; quando, afastando de nossa alma a borra que a vida acumula, o espesso envelope de preconceitos, erros e sofismas que têm revestido nossa inteligência; penetrando nos recessos mais íntimos de nosso ser, encontramo-nos face a face com esses princípios augustos sem os quais não haveria grandeza para a humanidade: o amor ao bem, o sentimento de justiça e de progresso. Esses princípios, que se encontram em diversos graus, tanto entre os ignorantes quanto entre os homens de gênio, não podem vir da matéria, desprovida que está de tais atributos. E se a matéria não possui essas qualidades, como poderia formar, sozinha, os seres que delas são dotados? O senso do belo e do verdadeiro, a admiração que sentimos pelas grandes e generosas obras, não poderia ter a mesma origem que a carne de nossos membros ou o sangue de nossas veias. Está lá, na sua maior parte, como os reflexos de uma luz sublime e pura que brilha em cada um de nós, da mesma forma que o sol se reflete sobre as águas, quer estejam perturbadas ou límpidas.

Em vão se pretende que tudo seja matéria. E apesar de que ainda que nos ressintamos de poderosos impulsos de amor e de bondade, já conseguimos amar a virtude, o devotamento, o heroísmo; o sentimento da beleza moral está gravado em nós; a harmonia das coisas e das leis nos penetra, nos arrebata. E, com tudo isso, nada nos distinguiria da matéria? Sentimos, amamos, possuímos consciência, vontade e razão e procederíamos de uma causa que não encerra essas qualidades em nenhum grau, de uma causa que não sente, não ama nem conhece nada, que é cega e muda? Superiores à força que nos produziu, seríamos mais perfeitos e melhores que ela! Uma tal maneira de ver não suporta um exame. O homem participa de duas naturezas. Por seu corpo, por seus órgãos, deriva da matéria; por suas faculdades intelectuais e morais, é espírito.

Dizendo ainda mais exatamente, relativamente ao corpo humano, os órgãos que compõem essa admirável máquina são semelhantes a rodas incapazes de agir sem um motor, sem uma vontade que as coloque em ação. Esse motor é a alma. Um terceiro elemento religa os dois outros, transmitindo aos órgãos as ordens do pensamento. Esse elemento é o perispírito, matéria etérea que escapa aos nossos sentidos. Envolve a alma, acompanha-a após a morte nas suas peregrinações infinitas, depurando-se, progredindo com ela, constituindo um corpo diáfano, vaporoso. Voltaremos, mais adiante, a comentar sobre a existência desse perispírito, chamado também de duplo fluídico (1).

O espírito jaz na matéria como um prisioneiro em sua cela; os sentidos são as aberturas pelas quais se comunica com o mundo exterior. Mas, enquanto a matéria, cedo ou tarde, declina, periclita e se desagrega, o espírito aumenta em poder, fortifica-se pela educação e experiência. Suas aspirações se engrandecem, se estendem para além da túmulo; sua necessidade de saber, de conhecer e de viver não tem limites. Tudo mostra que o ser humano pertence apenas temporariamente à matéria. O corpo não é senão uma vestimenta emprestada, uma forma passageira, um instrumento com a ajuda do qual a alma prossegue, nesse mundo, sua obra de depuração e de progresso. A vida espiritual é a vida normal, verdadeira, sem fim.


Léon Denis 







(1) Após alguns anos, uma certa escola se esforçou em substituir o dualismo da matéria e do espírito pela teoria da unidade de substância. Para ela a matéria e o espírito são estados diversos de uma só e mesma substância que, na sua evolução eterna, se afina, se depura, tornando­-se inteligente e consciente. Sem abordar aqui a questão de fundo, que necessita de longos desenvolvimentos, é preciso reconhecer que a ideia que até agora se fazia da matéria estava errada. Graças às descobertas de Crookes, Becquerel, Curie, Lebon, a matéria nos aparece hoje sob estados muito sutis e, nesses estados, reveste-­se de propriedades infinitamente variadas. Sua flexibilidade é extrema. A um certo grau de rarefação, transforma-­se em energia. G. Lebon pode dizer, com aparente razão, que a matéria não é mais que a energia condensada e a energia, a matéria dissociada. Quanto a deduzir desses fatos que a energia inteligente, em um momento dado de sua evolução, torna­-se consciente, é ainda uma hipótese. Para nós, há, entre o ser e o não ser, uma diferença de essência. Por outro lado, o monismo Haeckelien, recusando ao espírito humano uma vida independente do corpo e rejeitando toda noção de sobrevivência, termina logicamente nas mesmas conseqüências que o materialismo positivista e incorre nas mesmas críticas







quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Léon Denis - Livro Giovana - O Porquê da Vida - Cap. VI, Pág. 126 - Justiça e progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI, Pág. 126


Justiça e progresso


(...) Horas sucedem-se às horas. Maurício lá está, meio inclinado sobre esse fogo que crepita e cuja fumaça se espalha na atmosfera úmida. Sonha a felicidade que fugiu, as esperanças perdidas. O desânimo de novo se apodera dele; o desgosto da vida, esse desgosto amargo de outrora, o invade novamente; idéias de suicídio germinam no íntimo do seu pensamento. Anoitece e o fogo vai-se extinguir; Maurício, porém, compraz-se nessa obscuridade cada vez mais completa. Um farfalhar faz-se ouvir atrás de si. Volta-se e nada vê. Foi sem dúvida o barulho do vento ou os passos da criada no quarto próximo. Perto da chaminé há um piano, cujas teclas estão mudas desde muito tempo. De repente, escapam-se sons desse móvel hermeticamente fechado. Confuso, de surpresa, Maurício presta atenção. Essa música é muito sua conhecida, é uma ária de Mignon, a predileta de Giovana e que ela gostava de tocar à tarde, depois do jantar.

O coração de Maurício confrange-se; seus olhos se umedecem de lágrimas. Levanta-se e rodeia o piano ninguém! o banco está vazio. Volta para o seu lugar. Será uma ilusão dos sentidos? Uma sombra branca ocupa a poltrona que ele havia deixado. Tremendo, aproxima-se.

Esses olhos, esse olhar límpido, esses cabelos louros como espigas maduras, essa boca sorridente, esse talhe esbelto, alto, é a imagem de Giovana. Oh! magia! então o túmulo restitui os seus hóspedes! Uma voz vem acariciar-lhe os ouvidos: "Amigo, nada receies, sou eu mesma, não tentes tocar-me, não sou mais que um Espírito. Não te aproximes mais, escuta-me."

Maurício ajoelha-se, chora: "ó meu anjo, ó minha noiva, és tu, então?"

- “Sim, sou tua noiva, tua muito antes desta vida. Escuta, um laço eterno nos une. Nós nos conhecemos há séculos, temos vivido lado a lado sobre muitas plagas, temos percorrido muitas existências. A primeira vez que te encontrei na Terra, era eu bem fraca, bem tímida e a vida então era dura. Tu me tomaste pela mão, me serviste de apoio; desde esse momento, não nos deixamos mais. Sempre seguíamos um ao outro em nossas vidas materiais, andando no mesmo caminho, amando-nos, sustentando-nos um ao outro. Metido em combates, em empresas guerreiras, tu não podias realizar os progressos necessários para que teu Espírito livre, purificado, pudesse deixar este mundo grosseiro. Deus quis experimentar-te; separou-nos. Eu podia elevar-me para outras esferas mais felizes, enquanto que tu devias prosseguir sozinho a tua prova aqui embaixo. Preferi, porém, esperar-te no espaço. Efetuaste duas existências desde então e, durante seu curso, testemunha invisível de teus pensamentos, não cessei de velar”. por ti. Cada vez que a morte arrancava tua alma à matéria, tu me reencontravas e o desejo de te elevares fazia-te retomar com mais ardor o fardo da encarnação. Desta vez eu também pedi, tanto supliquei ao Senhor, que ele me permitiu voltar a Terra, tomar aí um corpo e ser uma voz para ensinar-te o bem, a verdade. Nossos amigos no espaço nos aproximaram, nos reuniram, mas por um tempo limitado. Eu não podia ficar mais tempo neste planeta: meu papel estava preenchido. Não devia ser tua aqui na Terra.

“Chegou à hora em que os Espíritos podem, segundo a permissão divina, comunicar-se com os humanos. Assim, eu torno a vir para guiar-te, encorajar-te, consolar-te. Se queres que esta existência terrestre seja a última para ti, se queres que ao sair dela sejamos reunidos para nunca mais nos separarmos, consagra tua vida a teus irmãos, ensina-lhes a verdade. Dize-lhes que o fim da existência não é adquirir bens efêmeros, mas esclarecer a inteligência, purificar o coração, elevar-se para Deus. Revela-lhes as grandes leis do Universo, a ascensão dos Espíritos para a perfeição. Ensina-lhes as vidas múltiplas e solidárias, os mundos inumeráveis, as humanidades irmãs. Mostra-lhes a harmonia moral que rege o infinito”.

“Deixa após ti as sombras da matéria, as mas paixões; dá a todos o exemplo do sacrifício, do trabalho, da virtude. Tem confiança na divina justiça. Fita a todo o momento a luz longínqua que ilumina o alvo, o alvo supremo, que deve reunir-nos no amor, na felicidade”.

"Põe mãos à obra sem tardança; nós te sustentaremos, nós te inspiraremos. Estarei junto de ti durante a luta,
envolver-te-ei com um fluido benéfico. Assim como nesta tarde, tornar-me-ei novamente visível a teus olhos, revelar-te-ei o que ignoras ainda. E um dia, quando tudo que há em ti de material e ínfimo se tiver dissipado, unidos, confundidos, nos elevaremos juntos para o Eterno, juntando nossas vozes ao hino universal que sobe de esfera em esfera até Ele." 

Encontrei Maurício Ferrand, faz alguns anos, em uma grande cidade, além dos Alpes. Havia começado a sua obra. Pela pena, pela palavra, trabalhava para derramar esta doutrina conhecida pelo nome de Espiritismo. Os sarcasmos e zombarias choviam sobre ele de todas as partes. Cépticos, devotos, indiferentes uniam-se todos para o abaterem. Ele, porém, calmo, resignado, não perseverava menos em sua tarefa. "Que me importa - dizia - o desdém destes homens? Dia virá em que as provas os obrigarão a compreender que esta vida não é tudo, e pensarão em Deus, em seu futuro esplendoroso. Pode ser que então se recordem do que lhes digo. A semente neles lançada poderá germinar. E, além disso, acrescentou, fitando o Espaço - e uma lágrima brilhou em seus olhos -, o que eu faço é para obedecer àqueles que me amam para aproximar-me deles."


Léon Denis









Giovanna (Nouvelle) Paris (1880) - Novela Espírita Escrita por Léon Denis


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Correspondência inédita de Laváter



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida


Correspondência inédita de Laváter


No castelo grão-ducal de Pawlowsk, situado a vinte e quatro milhas de Petersburgo, onde o Imperador Paulo, da Rússia, passou os anos mais felizes de sua vida e que se tornou depois a residência favorita da Imperatriz Maria, sua viúva, acha-se uma seleta biblioteca na qual se encontra um maço de cartas de Lavater, que passaram ignoradas dos biógrafos do célebre filósofo suíço. (N.R.: Johann Kaspar Lavater {1741-1801}, teólogo e filósofo suíço nascido em Zurique, foi pastor em sua cidade natal e é considerado o fundador da fisiognomonia - a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços fisionômicos.) 

Essas cartas - seis, ao todo - foram escritas no período de 1796 a 1798 e enviadas de Zurique. Dezesseis anos antes, em Zurique e em Schaffhouse, Lavater teve ocasião de ser apresentado ao Conde e à Condessa do Norte, títulos usados então pelo Grão-Duque da Rússia e sua esposa em sua viagem pela Europa.

Lavater estabelece nessas cartas que a alma, depois de deixar o corpo, pode inspirar ideias a qualquer pessoa que esteja apta a receber-lhe a luz, e assim fazer-se comunicar por escrito a algum amigo deixado na Terra. 

Reunidas num único volume, as cartas foram publicadas em Petersburgo, em 1858, sob o título “Cartas de João Gaspar Lavater à Imperatriz Maria Feodorawna, esposa do Imperador Paulo I da Rússia”. Editada à custa da biblioteca imperial, a obra foi oferecida em homenagem à Universidade de Iena. 

A correspondência oferece duplo interesse por causa da alta posição das personagens envolvidas e da especialidade do assunto. As ideias expressas por Lavater sobre o estado da alma após a morte aproximam-se muito das que foram emitidas pelos teósofos do seu tempo e sua concordância com a Doutrina Espírita é um fato digno de nota. Além disso, as cartas provam que a crença nas relações entre o mundo material e o mundo espiritual germinava na Europa desde o fim do século XVIII. 

Na primeira carta, datada de 1o  de agosto de 1796, Lavater  fala sobre o estado da alma depois da morte. 

Em resumo, nesta carta Lavater diz que: I, o mundo invisível deve ser penetrável para a alma separada do corpo, assim como ele o é durante o sono; II, a alma aperfeiçoa em sua existência material as qualidades do corpo espiritual, veículo com que continuará a existir depois da morte e pelo qual conceberá e obrará em sua nova existência; III, o estado da alma depois da morte será fundado sempre neste princípio geral:  o homem colhe o que houver plantado; IV, cada alma, separada do seu corpo, se apresenta a si própria, depois da morte, tal como ela é na realidade;  V, seu peso intrínseco, como que obedecendo à lei de gravitação, atraí-la-á aos abismos insondáveis ou às regiões luminosas, fluídicas e etéreas; VI,  o bom Espírito elevar-se-á para os bons e o perverso será empurrado para os maus, atendendo à lei das afinidades.

Na segunda carta, datada de 18-8-1798, Lavater assevera que: I, as necessidades experimentadas pelo Espírito durante o seu desterro no corpo material ele continua a senti-las depois de o abandonar; II, a necessidade mais natural que pode nascer numa alma imortal é a de aproximar-se cada vez mais de Deus e de assemelhar-se ao Pai; III, quando essa necessidade predominar em nós, nenhum receio deveremos nutrir a respeito do nosso futuro após a morte; IV, os bons são atraídos para os bons e somente as almas elevadas sabem gozar da presença de outras almas delicadas; V, nenhuma alma vil e hipócrita pode sentir-se bem ao contacto de uma alma nobre e enérgica que lhe penetrou os sentimentos; VI, o egoísmo é que produz a impureza da alma e acarreta o seu sofrimento; VII, o egoísmo é combatido por alguma coisa de puro e divino que existe em toda alma: o sentimento moral; VIII, da concordância e da harmonia que se estabelece no homem entre ele mesmo e sua lei íntima, dependem sua pureza, sua aptidão para receber a luz, sua ventura, seu céu e seu Deus; IX, estando rotos os laços da matéria, o amor purificado deve dar ao Espírito uma existência feliz, um gozo contínuo de Deus e um poder ilimitado para fazer ditosos todos os que são aptos para a felicidade. 

Na terceira carta, firmada em 1o de setembro de 1798, Lavater diz que: I, despojado do corpo, cada Espírito será afetado pelo mundo exterior de um modo correspondente ao seu estado de adiantamento, isto é, tudo lhe aparecerá tal qual ele é em si mesmo; II, os bons Espíritos se acercarão das almas bondosas, os maus atrairão a si as naturezas ruins; III, tudo segue marcha incessante que, impelindo todas as coisas para diante, faz que nos aproximemos de um objetivo que, aliás, não é o final; IV, o Cristo é o herói, é o centro, a principal personagem nesse drama imenso de Deus, admiravelmente simples e complicado ao mesmo tempo; V, à medida que nossa alma melhorar-se, nós veremos o Cristo sempre mais formoso, porém nunca pela última vez. 

Na quarta carta, de 14-9-1798, Lavater afirma que: I, apesar da existência de uma lei geral, eterna e imutável de castigo e felicidade, cada Espírito, segundo seu caráter, terá de sofrer penas depois da morte do corpo, ou gozará de felicidades apropriadas às suas qualidades; II, embora todos os Espíritos estejam submetidos à ação da lei das afinidades, é presumível que o seu caráter substancial, pessoal ou individual lhes dê um gozo ou sofrimento essencialmente diversos de um para outro Espírito; III, Deus se colocou e igualmente dispôs o Universo no coração de cada ser humano; IV, todo homem é um espelho particular do Universo e do seu Criador;  devemos empregar  todo o nosso esforço em conservar esse espelho tão puro quanto possível, para que Deus possa ver-se refletido na sua bela criação. 

Anexa à carta precedente, Lavater enviou à Imperatriz Maria uma mensagem enviada por um Espírito a um amigo da Terra, na qual fala sobre o estado dos Espíritos desencarnados. A mensagem é datada de 15-9-1798 e diz, em resumo, que: I, seu estado atual em relação ao que tinha na Terra é como o da borboleta que, depois de abandonar o casulo da lagarta, fica voejando nos ares; II, uma luz invisível aos mortais, conquanto visível a alguns, brilha e irradia-se docemente do cérebro de todo homem bom, amante e religioso; III, a auréola imaginada para os santos é essencialmente verdadeira e racional; essa luz torna feliz todo ser humano que a possui;  IV, nenhum Espírito impuro pode ou ousa aproximar-se dessa luz santa; por meio dela pode-se perscrutar facilmente as almas, a fim de serem lidas ou vistas em toda a sua realidade; V, cada pensamento que parte dos seres humanos é para os Espíritos uma palavra e às vezes um completo discurso; VI, os Espíritos respondem aos pensamentos dos encarnados, mas estes ignoram que são eles  - Espíritos - que lhes falam ou lhes inspiram ideias; VII, sem a mediação de uma pessoa acessível à luz, é impossível ao Espírito estender-se conosco verbalmente, ou por escrito; VIII, o Espírito pousa sobre a fronte desse mediador - médium, na terminologia espírita - e suscita ideias que este descreve sob a sua inspiração, por efeito da irradiação do pensamento. 

Na quinta carta, datada de 13-11-1798, Lavater  diz que, para o futuro, se Deus o permitir, as comunicações com o mundo invisível serão mais frequentes e, reportando-se à hora da morte, recomenda à Imperatriz Maria:  “Apressemo-nos em atravessar a noite das trevas para chegarmos à luz -- passemos por esses desertos para entrarmos na terra prometida -- suportemos as dores desta existência para aparecermos na verdadeira vida”. 

Anexa à carta, Lavater enviou-lhe outra comunicação mediúnica, em que o comunicante esclarece que para enviar a mensagem foi-lhe preciso obter licença especial, pois os Espíritos nada podem fazer sem permissão. 

A mensagem descreve as sensações que o comunicante teve no momento de sua passagem à vida espiritual, finda a vida corpórea, e assim se encerra: “Aproveita essas minhas comunicações e bem depressa outras te serão dadas. Ama e serás amado, pois só o amor pode fazer a felicidade. Oh! Querido amigo, é pelo amor somente que me posso aproximar de ti, comunicar contigo e mais depressa conduzir-te ao manancial da vida”. 

Na sexta e  última carta,  escrita  em 16  de dezembro de 1798 e acompanhada de nova mensagem de origem mediúnica,  Lavater assevera que nossa felicidade futura está em nossas mãos, que só o amor nos pode dar a suprema ventura e que só a fé no amor divino faz nascer em nossos corações o sentimento que nos torna felizes eternamente -- fé que desenvolve, purifica e completa a nossa aptidão para amar. 

A mensagem espiritual, obtida na mesma data, dá-nos diversos ensinamentos sobre as relações que existem entre os Espíritos e os seres que eles amaram na Terra, e nos diz, em resumo, que: I, a felicidade dos Espíritos depende, algumas vezes, do estado daqueles que eles deixaram na Terra e com os quais eles entram em relações diretas; II, cada espécie de amor tem um raio de luz que lhe é peculiar. Esse raio forma a auréola dos santos e os torna mais resplandecentes e agradáveis à vista; III, quem se torna estranho ao amor, degrada-se no sentido mais positivo e literal da palavra; torna-se mais material e, por conseguinte, mais inferior, mais terrestre, e as trevas da noite o cobrem com seu véu; IV, por efeito de um movimento imperceptível, dando certa direção à sua luz, os Espíritos podem fazer nascer ideias mais humanas nas naturezas que lhes são simpáticas e suscitar ações e sentimentos mais nobres e elevados; V, não podem, porém, forçar e dominar alguém, ou mesmo fazer imposições aos homens, cuja vontade é em tudo independente; VI, para os Espíritos, o livre-arbítrio dos homens é sagrado; VII, as naturezas degradadas, egoístas, atraem Espíritos grosseiros, privados de luz e malévolos, que mais e mais as envenenam; VIII, as almas bondosas se fazem, por sua vez, cada vez mais puras e mais amantes pelo contato dos bons Espíritos; IX, os Espíritos do bem abundam onde se acham almas amorosas e os Espíritos das trevas pululam onde há grupos de almas impuras; X, existem relações imperecíveis entre os mundos visível e invisível, uma comunhão constante entre os habitantes da Terra e os habitantes do céu, uma ação recíproca e benéfica de cada um desses mundos sobre o outro.  

Prossegue a mensagem espiritual ensinando que:  I, nós, os chamados mortais, podemos pelo amor fazer o céu descer à Terra e entrar em comunhão com os seres bem-aventurados; II, quando nos enfadamos e, dominados de tal sentimento, pensamos nos outros, a luz que se irradia de nós se obscurece e, então, os bons Espíritos são forçados a afastar-se; III, nenhum Espírito bom pode suportar as trevas da cólera; IV, a oração atrai para junto de nós os Espíritos imbuídos do bem, porque o Senhor vê os justos e ouve as suas súplicas; V, o amor puro e nobre encontra em si mesmo a sua recompensa; o melhor prazer e mais santo é o gozo de Deus, é o produto do sentimento depurado. Nada tem mérito sem o amor; VI, todos os que amam, na Terra e no céu, se fundem num só pelo sentimento. Do grau do amor em cada um depende a nossa felicidade interna e externa. Nosso amor é, pois, o que regula as nossas relações com os Espíritos, nossa comunhão com eles, a influência que eles podem exercer sobre nós e a sua ligação íntima com o nosso Espírito. 


Léon Denis






Resumo pág, 37/71
O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso




Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as consequências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, frequentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.
Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis







Fonte: O Porquê da Vida -pdf

domingo, 6 de setembro de 2020

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. 1 - Dever e Felicidade



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. 1


Dever e Felicidade


Quem é que, nas horas de silêncio e recolhimento, nunca interrogou à natureza e ao seu próprio coração, perguntando-lhes o segredo das coisas, o porquê da vida, a razão de ser do universo? Onde está aquele que jamais procurou conhecer seu destino, levantar o véu da morte, saber se Deus é uma ficção ou uma realidade? Não seria um ser humano, por mais descuidado que fosse, se não tivesse considerado, algumas vezes, esses tremendos problemas. A dificuldade de os resolver, a incoerência e a multiplicidade das teorias que têm sido feitas, as deploráveis conseqüências que decorrem da maior parte dos sistemas já divulgados, todo esse conjunto confuso, fatigando o espírito humano, os têm relegado à indiferença e ao ceticismo.

Portanto, o homem tem necessidade do saber, da luz que esclareça, da esperança que console, da certeza que o guie e sustente. Mas tem também os meios para conhecer, a possibilidade de ver a verdade se destacar das trevas e o inundar de sua benfazeja luz. Para isso, deve se desligar dos sistemas preconcebidos, descer ao fundo de si mesmo, ouvir a voz interior que nos fala a todos, e que os sofismas não podem enganar: a voz da razão, a voz da consciência.

Assim tenho feito. Por muito tempo refleti, meditei sobre os problemas da vida e da morte e com perseverança sondei esses profundos abismos. Dirigi à Eterna Sabedoria um ardente apelo e Ela me respondeu, como sempre responde a todos.

Com o espírito animado do amor ao bem, provas evidentes e fatos da observação direta vieram confirmar as deduções do meu pensamento, oferecer às minhas convicções uma base sólida e inabalável. Após haver duvidado, acreditei, após haver negado, vi. E a paz, a confiança e a força moral desceram em mim. Esses são os bens que, na sinceridade de meu coração desejoso de ser útil aos meus semelhantes, venho oferecer àqueles que sofrem e se desesperam.

Jamais a necessidade de luz fez-se sentir de maneira mais imperiosa. Uma imensa[ transformação se opera no seio das sociedades. Após haver sido submetido, durante uma longa seqüência de séculos, aos princípios da autoridade, o homem aspira cada vez mais a libertar-se de todo entrave e a dirigir a si próprio. Ao mesmo tempo em que as instituições políticas e sociais se modificam, as crenças religiosas e a fé nos dogmas se tornam enfraquecidas. É ainda uma das conseqüências da liberdade em sua aplicação às coisas do pensamento e da consciência. A liberdade, em todos os domínios, tende a substituir a coação e o autoritarismo e a guiar as nações para horizontes novos. O direito de alguns torna-se o direito de todos; mas, para que esse direito soberano esteja conforme com a justiça e traga seus frutos, é preciso que o conhecimento das leis morais venha regulamentar seu exercício. Para que a liberdade seja fecunda, para que ofereça às ações humanas uma base certa e durável, deve ser complementada pela luz, pela sabedoria e pela verdade. A liberdade, para os homens ignorantes e viciosos, não seria como uma arma possante nas mãos da criança? A arma, nesse caso, freqüentemente se volta contra aquele que a porta e o fere.


Léon Denis





Fonte: O Porquê da Vida -pdf

sábado, 5 de setembro de 2020

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as consequências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, frequentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.
Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis







Fonte: O Porquê da Vida -pdf