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terça-feira, 14 de maio de 2024

Sr. Georges - Revista Espírita - Allan Kardec - Janeiro, 1858 - Evocações particulares - Uma conversão



Sr. Georges - Revista Espírita - Allan Kardec - Janeiro, 1858 - Evocações particulares


Uma conversão


Embora sob outro ponto de vista, não será menor o interesse oferecido pela evocação seguinte.

Um senhor, que designaremos pelo nome de Georges, farmacêutico numa cidade do Sul, há muito havia perdido o pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O velho Sr. Georges ─ o pai ─ aliava a uma instrução muito vasta todas as qualidades que marcam o homem de bem, posto professasse ideias materialistas. A esse respeito o filho partilhava das mesmas ideias, se não ultrapassava as do pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O Espiritismo não se adaptava a tais pensamentos. A leitura de O Livro dos Espíritos, entretanto, provocou-lhe uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Ele dizia: “Se meu pai pudesse me responder, eu não duvidaria mais”. Foi então que se fez a evocação seguinte, na qual encontramos diversos ensinamentos.

─ Em nome do Todo-Poderoso, Espírito de meu pai, eu lhe peço que se manifeste. O senhor está junto de mim?

─ Sim.

─ Por que o senhor não se manifesta diretamente a mim, quando tanto nos amamos?

─ Mais tarde.

─ Poderemos nos encontrar um dia?

─ Sim, breve.

─ Amar-nos-emos como nesta vida?

─ Mais.

─ Em que meio o senhor se acha?

─ Sou feliz.

─ O senhor reencarnou ou está errante?

─ Errante por pouco tempo.

─ Que sensação experimentou ao deixar o envoltório corporal?

─ De perturbação.

─ Quanto tempo durou a perturbação?

─ Pouco para mim, muito para você.

─ Pode avaliar a sua duração, de acordo com o nosso modo de contar?

─ Dez anos para você, dez minutos para mim

─ Mas não faz tanto tempo que eu o perdi. Não foi há apenas quatro meses?

─ Se você, como vivo, estivesse em meu lugar, teria sentido aquele tempo.

─ Crê agora em um Deus justo e bom?

─ Sim.

─ Quando vivo na Terra também acreditava?

─ Eu tinha a presciência mas não acreditava.

─ Deus é Todo-Poderoso?

─ Não subi até ele para avaliar o seu poder. Só ele conhece os limites de seu poder, porque só ele é seu igual.

─ Ele se ocupa com os homens?

─ Sim.

─ Seremos punidos ou recompensados de acordo com nossos atos?

─ Se você fizer o mal, sofrerá.

─ Serei recompensado se fizer o bem?

─ Avançará em seu caminho.

─ Estou no bom caminho?

─ Faça o bem e estará.

─ Creio ser bom, mas seria melhor se um dia pudesse encontrá-lo, como recompensa.

─ Que este pensamento o sustente e o encoraje.

─ Meu filho será bom como seu avô?

─ Desenvolva suas virtudes e extirpe seus vícios.

─ Isto é tão maravilhoso que chego a não crer que nos comunicamos neste momento.

─ De onde lhe vem a dúvida?

─ É que, partilhando de suas opiniões filosóficas, fui levado a atribuir tudo à matéria.

─ Você vê de noite aquilo que vê de dia?

─ Ó, meu pai! Então eu me acho na noite?

─ Sim.

─ Que é o que o senhor vê de mais maravilhoso?

─ Explique-se melhor.

─ Encontrou minha mãe, minha irmã e Ana, a boa Ana?

─ Eu as revi.

─ O senhor volta a vê-las quando quer?

─ Sim.

─ É penoso ou agradável para o senhor, que eu me comunique consigo?

─ É uma felicidade para mim, se eu puder conduzi-lo ao bem.

─ Voltando para casa, que poderia fazer para me comunicar com o senhor, já que isto me dá prazer? Isto serviria para que me conduzisse melhor e me ajudaria a educar os meus filhos.

─ Cada vez que um movimento o levar ao bem, siga-o. Eu o inspirarei.

─ Calo-me com receio de importuná-lo.

─ Fale ainda, se quiser.

─ Já que o permite, farei mais algumas perguntas. De que afecção o senhor morreu?

─ Minha prova havia chegado ao termo.

─ Onde o senhor contraiu o abscesso pulmonar que se manifestou?

─ Pouco importa. O corpo nada é. O Espírito é tudo.

─ Qual a natureza da doença que me desperta tão frequentemente durante a noite?

─ Sabê-lo-á mais tarde.

─ Considero minha afecção grave e queria ainda viver para os meus filhos.

─ Ela não o é. O coração do homem é uma máquina de vida. Deixe a Natureza agir.

─ Considerando-se que o senhor está aqui presente, sob que forma se acha?

─ Sob a aparência de minha forma corpórea.

─ O senhor está num lugar determinado?

─ Sim; por detrás de Ermance (a médium).

─ Poderia tornar-se visível?

─ Não vale a pena. Vocês teriam medo.

─ O senhor tem uma opinião sobre cada um de nós, aqui presentes?

─ Sim.

─ Quer dizer alguma coisa a cada um de nós?

─ Em que sentido me faz esta pergunta?

─ Do ponto de vista moral.

─ De outra vez. Por hoje basta.

O efeito que esta comunicação produziu no Sr. Georges foi imenso, e uma luz inteiramente nova já parecia clarear-lhe as ideias. Numa sessão a que compareceu no dia seguinte, em casa da Sra. Roger, sonâmbula, acabou de dissipar as poucas dúvidas que lhe poderiam restar. Eis um resumo da carta que a respeito nos escreveu:

“Essa senhora entrou espontaneamente comigo em detalhes tão precisos em relação a meu pai, minha mãe, meus filhos e minha saúde; descreveu com tal exatidão todas as circunstâncias de minha vida, lembrando mesmo fatos que de há muito me haviam sido varridos da memória; numa palavra, deu-me provas tão patentes dessa maravilhosa faculdade de que são dotados os sonâmbulos lúcidos, que desde então foi completa em mim a reação das ideias. Na evocação, meu pai havia revelado a sua presença. Na sessão de sonambulismo, por assim dizer, eu era testemunha ocular da vida extracorpórea, a vida da alma. Para descrever com tanta minúcia e exatidão, e a duzentas léguas de distância, aquilo que só de mim era conhecido, era preciso ver. Ora, de vez que isto não era possível com os olhos do corpo, havia então um laço misterioso, invisível, que ligava a sonâmbula às pessoas e às coisas ausentes que ela jamais tinha visto. Havia, pois, algo fora da matéria. Que podia ser essa coisa senão aquilo que se chama alma, o ser inteligente do qual o corpo é simples envoltório, mas cuja ação se estende muito além de nossa esfera de atividade?”

Atualmente o Sr. Georges não só deixou de ser materialista, mas é um dos adeptos mais fervorosos e mais dedicados do Espiritismo, o que o faz duplamente feliz, pela confiança que agora tem no futuro e pelo prazer que experimenta em praticar o bem.

Esta evocação, inicialmente muito simples, não é menos notável em muitos aspectos. O caráter do velho Georges reflete-se nas respostas breves e sentenciosas que estavam em seus hábitos. Ele falava pouco; jamais dizia uma palavra inútil. Mas já não é o céptico que fala. Ele reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, e retrata a unidade e o poder de Deus por estas palavras admiráveis: “Só ele é seu igual”. Ele, que em vida tudo atribuía à matéria, diz agora: “O corpo nada é. O Espírito é tudo”. E esta outra frase sublime: “Você vê de noite aquilo que vê de dia?”

Para o observador atento, tudo tem um alcance, e é assim que a cada passo ele encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos. 


Sr. Georges











Fonte: IPEAK

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Marco Prisco - Revista Presença Espírita - Janeiro, 1999 - Divaldo Franco - Dê-se oportunidade



Marco Prisco - Revista Presença Espírita - Janeiro, 1999 - Divaldo Franco

Dê-se oportunidade


Não se considere esquecido por Deus, somente porque as ocorrências não se dão conforme você gostaria.

Certamente você se deslocou do centro das reflexões corretas e tudo considera através de uma óptica emocional equivocada.

A sua vida tem um objetivo superior e um significado psicológico expressivo.

O conceito negativo que você estabeleceu a tal respeito é resultado do pessimismo que tem cultivado.

Tudo quanto você toma como prejudicial e infeliz na sua jornada é somente projeção do que acalenta no íntimo.

A mudança de atitude mental para melhor alterará completamente as ocorrências da sua existência.

As doenças que o acometem estão enraizadas no Espírito, e a rebeldia que você se permite somente irá piorar-lhe a situação.

O único antídoto para o desequilíbrio é a paz que se deriva da resignação dinâmica.

Você vê inimigos terríveis em todos e em tudo, porque se encontra de mal com você mesmo.

Tudo quanto lhe acontece no exterior é resultado da sua projeção íntima.

Não pense que a sua existência não tem utilidade para nada.

A lagarta rastejante ergue-se nas asas da borboleta e plana saudável no ar.

Você possui tesouros imarcescíveis que teima por esconder na morbidez da revolta que desenvolve.

Uma palavra edificante, um sorriso gentil, um gesto de bondade, um aperto de mão possuem valores mais altos em determinados momentos do que moedas reluzentes e posições relevantes.

A queixa que se lhe fez habitual comportamento envenena-o, após cegá-lo para a claridade do bem.

Há, sim, pessoas difíceis e perturbadoras, ignorantes e agressivas, sempre dispostas a prejudicar os outros. São almas insensatas, porém, que a si mesmas se infelicitam.

Você se habituou a ver somente o lado sombrio dos acontecimentos, a face mesquinha e desagradável do mundo.

Com um pouco de atenção, no entanto, você pode redescobrir o milagre da vida, no amanhecer radioso, no desabrochar de uma flor, no entardecer rubro, na fragilidade infantil, na alegria juvenil, na sabedoria do ancião...

Não se considere desafortunado porque se encontra distante do triunfo terreno.

Aquilo que você considere glória é somente maior peso da responsabilidade sobre alguém que talvez esteja ansioso para desembaraçar-se da situação que se lhe apresenta penosa e asfixiante.

Não se permita, sob hipótese alguma, guardar ressentimentos. Ficar à espreita para que o mal aconteça noutrem acumula azedume...

Esses tóxicos matam primeiro aqueles que os ingerem e conservam, destrambelhando lhes a maquinaria orgânica no começo, e fulminando-os, caso não mudem de atitude mental e emocional.

Seus pensamentos são sua existência.

Seus hábitos formam sua realidade interior.

Renove-se cada dia para melhor.

Sorria e desculpe sempre.

O infeliz não merece punição, e sim oportunidades novas até o despertamento para a vitória sobre si mesmo.

Seja você aquele que lhe dá novo ensejo de reparação, a pessoa que está construindo com amor o mundo ditoso pelo qual Jesus vem trabalhando há milênios, dando-se também oportunidades de triunfos.


Marco Prisco







Mensagem ditada pelo Espírito Marco Prisco, psicografada pelo médium Divaldo Franco em 29.12.1997 – publicada na Revista Presença Espírita do mês de janeiro de 1999, na seção Mensagem do Mês.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Allan Kardec - Revista Espírita - Janeiro, 1859 - Carta a S. A. o Príncipe G.



Allan Kardec - Revista Espírita - Janeiro, 1859


Carta a S. A. o Príncipe G.


Príncipe,

Deu-me Vossa Alteza a honra de me dirigir várias perguntas relativas ao Espiritismo. Tentarei respondê-las até onde o permite o estado atual dos conhecimentos sobre a matéria, resumindo em poucas palavras aquilo que a respeito aprendemos pelo estudo e pela observação. As questões em causa baseiam-se nos próprios princípios da Ciência. Para dar mais clareza à solução, é necessário ter em mente esses princípios. Permita-me, pois, considerar o assunto de um plano um pouco mais alto, e estabelecer como preliminares certas proposições fundamentais, que servirão, aliás, de resposta a algumas dessas perguntas.

Fora do mundo corpóreo visível existem seres invisíveis, que constituem o mundo dos Espíritos.

Os Espíritos não são seres à parte, mas as próprias almas dos que viveram na Terra, ou em outras esferas, e que se despojaram de seus envoltórios materiais.

Os Espíritos apresentam todos os graus de desenvolvimento intelectual e moral. Consequentemente, há Espíritos bons e maus, esclarecidos e ignorantes, levianos e mentirosos, velhacos e hipócritas, que procuram enganar e induzir ao mal, assim como os há em tudo muito superiores, que não procuram senão fazer o bem. Esta distinção é um ponto capital.

Os Espíritos rodeiam-nos incessantemente. Malgrado nosso, dirigem os nossos pensamentos e as nossas ações, assim influindo sobre os acontecimentos e sobre os destinos da Humanidade.

Os Espíritos por vezes revelam sua presença por meio de efeitos materiais. Esses efeitos nada têm de sobrenatural; só nos parecem sobrenaturais porque repousam sobre bases fora das leis conhecidas da matéria. Uma vez conhecidas essas bases, os efeitos entram na categoria dos fenômenos naturais. É assim que os Espíritos podem agir sobre os corpos inertes e movê-los sem o concurso dos nossos agentes externos. Negar a existência de agentes desconhecidos, pelo simples fato de que não os compreendemos, seria traçar limites ao poder de Deus e crer que a Natureza nos tenha dito a sua última palavra.

Todo efeito tem uma causa; ninguém o contesta. É, pois, ilógico negar a causa pelo simples fato de que é desconhecida.

Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente. Quando vemos as peças do aparelho telegráfico produzirem sinais que correspondem ao pensamento, não concluímos que elas sejam inteligentes, mas que são movidas por uma inteligência. Dá-se o mesmo com os fenômenos espíritas. Se a inteligência que os produz não é a nossa, evidentemente está fora de nós.

Nos fenômenos das ciências naturais agimos sobre a matéria inerte e a manejamos à nossa vontade. Nos fenômenos espíritas agimos sobre inteligências que dispõem do livre-arbítrio e não se submetem à nossa vontade. Há, pois, entre os fenômenos comuns e os fenômenos espíritas uma diferença radical quanto ao princípio. Eis por que a ciência vulgar é incompetente para julgá-los.

O Espírito encarnado tem dois envoltórios: um material, que é o corpo; outro semimaterial e indestrutível, que é o perispírito. Deixando o primeiro, ao desencarnar, conserva o segundo, que constitui uma espécie de segundo corpo, mas de propriedades essencialmente diferentes. Em seu estado normal ele é invisível para nós, mas pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível. Tal a causa do fenômeno das aparições.

Os Espíritos não são, pois, seres abstratos, indefinidos, mas seres reais e limitados, com existência própria, que pensam e agem em virtude de seu livre-arbítrio. Estão por toda parte, em volta de nós; povoam os espaços e se transportam com a rapidez do pensamento.

Os homens podem entrar em relação com os Espíritos e receber comunicações diretas pela escrita, pela palavra ou por outros meios. Estando ao nosso lado, ou podendo vir ao nosso apelo, é possível, por certos meios, estabelecer comunicações frequentes com os Espíritos, assim como um cego pode fazê-lo com as pessoas que ele não vê.

Certas pessoas são mais dotadas que outras de uma aptidão especial para transmitir comunicações dos Espíritos. São os médiuns. O papel do médium é o de um intérprete; é um instrumento de que se serve o Espírito; esse instrumento pode ser mais ou menos perfeito, donde as comunicações mais ou menos fáceis.

Os fenômenos espíritas são de duas ordens: as manifestações físicas e materiais e as comunicações inteligentes. Os efeitos físicos são produzidos por Espíritos inferiores; os Espíritos elevados não se ocupam dessas coisas, do mesmo modo que os nossos sábios não se entregam a trabalhos pesados; seu papel é instruir pelo raciocínio.

As comunicações tanto podem provir de Espíritos inferiores quanto de superiores. Como os homens, os Espíritos podem ser reconhecidos por sua linguagem: a dos Espíritos superiores é sempre séria, digna, nobre e cheia de benevolência; toda expressão trivial ou inconveniente, todo pensamento que choca a razão e o bom-senso, que denota orgulho, acrimônia ou malevolência emana necessariamente de um Espírito inferior.

Os Espíritos elevados só ensinam boas coisas. Sua moral é a do Evangelho. Só pregam a união e a caridade e jamais enganam. Os Espíritos inferiores dizem absurdos, mentiras e por vezes até grosserias.

A boa qualidade de um médium não está apenas na facilidade das comunicações, mas sobretudo na natureza das comunicações que recebe. Um bom médium é o que simpatiza com os bons Espíritos e não recebe senão boas comunicações.

Todos nós temos um Espírito familiar que se liga a nós desde o nascimento, que nos guia, aconselha e protege. Este é sempre um Espírito bom.

Além do Espírito familiar, há outros que atraímos graças à sua simpatia por nossas qualidades e defeitos ou em virtude de antigas afeições terrenas. Daí se segue que em toda reunião há uma porção de Espíritos mais ou menos bons, conforme a natureza do meio.

Os Espíritos podem revelar o futuro?

Os Espíritos só conhecem o futuro proporcionalmente à sua elevação. Os inferiores nem o seu próprio futuro conhecem e, muito menos ainda, o dos outros. Os Espíritos superiores o conhecem, mas nem sempre lhes é permitido revelá-lo. Em princípio, e por um sábio desígnio da Providência, o futuro nos deve ser oculto. Se o conhecêssemos, nosso livre-arbítrio seria entravado. A certeza do êxito nos tiraria a vontade de fazer qualquer coisa, porque não veríamos a necessidade de nos darmos a esse trabalho; a certeza de uma desgraça nos desencorajaria. Contudo, casos há em que o conhecimento do futuro pode ser útil; entretanto, jamais poderemos ser juízes de tais casos. Os Espíritos no-los revelam quando o julgam conveniente e quando têm a permissão de Deus. Então o fazem espontaneamente, e nunca a nosso pedido. Devemos esperar a oportunidade com confiança e, sobretudo, não insistir no caso de recusa, pois do contrário arriscar-nos-íamos a tratar com Espíritos levianos, que se divertem à nossa custa.

Os Espíritos podem guiar-nos mediante conselhos diretos nas coisas da vida?

Sim, podem e o fazem de boa vontade. Diariamente tais conselhos nos chegam pelos pensamentos que nos sugerem. Com frequência fazemos coisas cujo mérito atribuímos a nós mesmos, quando realmente não passam de uma inspiração que nos foi transmitida. Ora, como somos rodeados de Espíritos que nos influenciam, estes num sentido, aqueles em outro, temos sempre o nosso livre-arbítrio para guiar-nos na escolha, e é para nós uma felicidade quando damos preferência ao nosso gênio bom.

Além dos conselhos ocultos, podemos obter outros conselhos diretamente, através de um médium. Mas cabe aqui relembrar os princípios fundamentais que acabamos de emitir. A primeira coisa a considerar é a qualidade do médium, quando não formos nós próprios. Um médium que só recebe boas comunicações e que, por suas qualidades pessoais, só se afina com os bons Espíritos, é um ser precioso, do qual podem esperar-se grandes coisas, desde que o secundemos pela pureza de suas próprias instruções, a elas vinculando-nos convenientemente. Direi mais: é um instrumento providencial.

O segundo ponto, não menos importante, consiste na natu­reza dos Espíritos a quem nos dirigimos. Não devemos crer que o primeiro que se apresente possa guiar-nos adequadamente. Enganar-se-ia redondamente aquele que nas comunicações espíritas visse apenas um meio de adivinhação e no médium um leitor de “buena-dicha”. É preciso considerar que no mundo dos Espíritos temos amigos que por nós se interessam e que são mais sinceros e mais devotados do que aqueles que assim se consideram aqui na Terra, os quais não têm nenhum interesse em nos adular ou enganar. São, além do nosso Espírito protetor, parentes ou pessoas que nos foram afeiçoadas, ou Espíritos que nos querem bem, por simpatia. Esses, quando chamados, vêm de boa vontade e até mesmo sem serem chamados. Muitas vezes os temos ao nosso lado sem o suspeitarmos. É a eles que podemos pedir conselhos diretamente, através dos médiuns, e que no-los dão até mesmo espontaneamente. Fazem-no sobretudo na intimidade, no silêncio e quando não perturbados por qualquer influência estranha. São, aliás, muito prudentes e nenhuma indiscrição devemos temer de sua parte: calam-se quando há ouvidos demais. Fazem-no ainda mais espontaneamente quando em comunicação frequente conosco. Como dizem apenas coisas adequadas e oportunas, devemos esperar sua boa vontade e nunca imaginar que apressadamente venham satisfazer todos os nossos pedidos. Querem assim provar que não se acham às nossas ordens.

A natureza das respostas depende muito da maneira de fazer as perguntas. É necessário aprender a conversar com os Espíritos, assim como aprendemos a conversar com os homens. Em tudo é preciso experiência. Por outro lado, o hábito faz que os Espíritos se identifiquem conosco e com o médium; que os fluidos se combinem e as comunicações sejam mais fáceis; então entre eles e nós se estabelecem conversas realmente familiares. Aquilo que não dizem hoje, dirão amanhã; habituam-se à nossa maneira de ser, como nós à deles; ficamos reciprocamente mais à vontade. Quanto à interferência de maus Espíritos e de Espíritos enganadores ─ o que constitui o grande obstáculo ─ a experiência nos ensina a combatê-los e podemos sempre evitá-los. Se não lhes damos guarida, eles não vêm porque sabem que vão perder o seu tempo.

Qual poderá ser a utilidade da propagação das ideias espíritas?

Sendo o Espiritismo a prova palpável e evidente da existência, da individualidade e da imortalidade da alma, é a destruição do materialismo, essa negação de toda religião, essa chaga de toda a Sociedade. O número de materialistas que ele conduziu a ideias mais sadias é considerável e aumenta todos os dias. Só isto representa um benefício social. Ele não somente prova a existência da alma e a sua imortalidade, como ainda mostra o seu estado feliz ou desgraçado, conforme os méritos desta vida. As penas e recompensas futuras deixam de ser uma teoria, para tornar-se um fato patente aos nossos olhos. Ora, como não há religião possível sem a crença em Deus, na imortalidade da alma e nas penas e recompensas futuras, o Espiritismo reaviva essas crenças nas pessoas às quais ela estava apagada. Resulta daí que ele é o mais poderoso auxiliar das ideias religiosas. Ele dá religião aos que não a possuem; fortifica-a nos que a têm vacilante; consola pela certeza do futuro; faz suportar com paciência e resignação as tribulações desta vida e desvia o pensamento do suicídio, ideia que naturalmente repelimos quando lhe vemos as consequências. É por isso que os que penetraram em seus mistérios sentem-se felizes. Para esses o Espiritismo é uma luz que dissipa as trevas e as angústias da dúvida.

Se considerarmos, dessa maneira, a moral ensinada pelos Espíritos superiores, veremos que ela é totalmente evangélica, pois basta dizer que prega a caridade cristã em toda a sua sublimidade; ela faz mais, porque mostra a sua necessidade, tanto para a felicidade presente como para a futura, pois as consequências do bem e do mal que fazemos estão aí, diante dos nossos olhos. Reconduzindo os homens aos sentimentos de seus deveres recíprocos, o Espiritismo neutraliza o efeito das doutrinas subversoras da ordem social.

Essas crenças não poderiam representar um perigo para a razão?

As ciências todas não forneceram o seu contingente para os asilos de alienados? Por isto devem ser condenadas? Não estão largamente representadas entre elas as crenças religiosas? Seria justo, por isto, proscrever a religião? Conhecemos o número de loucos produzidos pelo medo do diabo? Todas as grandes preocupações intelectuais conduzem à exaltação e podem reagir prejudicialmente sobre um cérebro fraco. Teríamos razão de ver no Espiritismo um perigo especial, se ele fosse a causa única ou mesmo preponderante dos casos de loucura. Faz-se um grande barulho em torno de dois ou três casos que, noutras circunstâncias, teriam passado despercebidos. E, além disso, não se levam em conta as causas predisponentes anteriores. Eu poderia citar outros casos em que as ideias espíritas bem compreendidas sustaram o desenvolvimento da loucura. Em resumo, o Espiritismo não oferece, a tal respeito, mais perigo do que as mil e uma causas que a produzem diariamente. Direi mais: ele as oferece em número muito menor, pois traz em si o corretivo e, pela direção que dá às ideias, pela calma que proporciona ao espírito dos que o compreendem, pode neutralizar o efeito das causas estranhas. Uma dessas causas é o desespero. Ora, o Espiritismo, fazendo-nos encarar as coisas mais desagradáveis com sangue frio e resignação, dá-nos a força de suportá-las com coragem e resignação e atenua os funestos efeitos do desespero.

As crenças espíritas não são a consagração das ideias supersticiosas da Antiguidade e da Idade Média e não irão aboná-las?

As pessoas sem religião não taxam de superstição a maior parte das crenças religiosas? Uma ideia só é supersticiosa pelo fato de ser falsa; deixa de ser, quando se torna uma verdade. Está provado que no fundo da maioria das superstições existe uma verdade amplificada ou desnaturada pela imaginação. Ora, tirar dessas ideias todo o seu conteúdo fantástico e deixar apenas a realidade é destruir a superstição. Tal é o efeito da ciência espírita, que põe a nu o que há de verdadeiro e de falso nas crenças populares.

Durante muito tempo as aparições foram consideradas como crendices. Hoje, que são um fato comprovado e, mais ainda, perfeitamente explicado, elas entraram para o domínio dos fenômenos naturais. Não adianta condená-las, porque não impediremos que continuem a produzir-se. Entretanto, aqueles que as compreendem não só não se apavoram, mas ficam satisfeitos. E isto a tal ponto que aqueles que não têm essas ideias desejam tê-las. Deixando o campo livre à imaginação, os fenômenos incompreendidos são a fonte de uma porção de ideias acessórias e absurdas que degeneram em superstições. Mostre-se a realidade, explique-se a causa e a imaginação se detém no limite do possível; o maravilhoso, o absurdo e o impossível desaparecem, e com eles a superstição. Tais são, entre outras, as práticas cabalísticas; a virtude dos signos e das palavras mágicas; as fórmulas sacramentais; os amuletos; os dias nefastos; as horas diabólicas e tantas outras coisas cujo ridículo o Espiritismo bem compreende e demonstra.

Tais são, Príncipe, as respostas que me pareceram devidas às perguntas com que Vossa Alteza me honrou. Sentir-me-ei feliz se elas vierem corroborar as ideias que Vossa Alteza já possui sobre essa matéria e induzirem Vossa Alteza a aprofundar uma questão de tão elevado interesse. Mais feliz ainda se meu concurso ulterior puder ser de alguma utilidade.

Com o mais profundo respeito, sou, de Vossa Alteza, muito humilde e muito obediente servidor.


Allan Kardec












quarta-feira, 27 de julho de 2022

Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Janeiro, 1858 - Introdução



Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Janeiro, 1858


Introdução


A rapidez com que em todas as partes do mundo se propagaram os estranhos fenômenos das manifestações espíritas é uma prova do interesse que despertam. A princípio simples objeto de curiosidade, não tardaram em chamar a atenção de homens sérios que, desde o início, entreviram a inevitável influência que viriam a ter sobre o estado moral da sociedade. Cada dia se tornam mais populares as ideias novas que deles surgem, e nada lhes barrará o progresso, pela simples razão de que estes fenômenos estão ao alcance de todos, ou de quase todos, e nenhum poder humano lhes impedirá a manifestação. Se os abafam num ponto, aparecem em cem outros. Aqueles, pois, que neles descobrissem um inconveniente qualquer, seriam constrangidos, pela mesma força dos fatos, a lhes sofrer as consequências, como acontece às indústrias novas que, de começo, ferem interesses particulares, mas, ao final das contas, todos se acomodam, porque não poderia ser de outro modo.

O que não foi feito e dito contra o magnetismo! Entretanto, todos os raios lançados contra ele, todas as armas com que foi ferido, inclusive o ridículo, esbarraram ante a realidade e apenas serviram para colocá-lo em maior evidência. É que o magnetismo é uma força natural, e ante as forças naturais o homem é um pigmeu, semelhante a esses cachorrinhos que ladram inutilmente contra tudo quanto lhes mete medo.

Dá-se com as manifestações espíritas o mesmo que com o sonambulismo: se elas não se produzirem à luz do dia e publicamente, ninguém impedirá que ocorram na intimidade, pois cada família pode descobrir um médium entre os seus membros, desde as crianças até os velhos, bem como pode encontrar um sonâmbulo. Assim, quem poderá impedir que o primeiro que encontre seja médium e sonâmbulo? Sem dúvida, os que o combatem não pensaram nisso. Insistimos: quando uma força está na natureza, pode ser paralisada por um instante, mas nunca aniquilada! Apenas poder-se-á desviar o seu curso. Ora, a força que se revela no fenômeno das manifestações, seja qual for a sua causa, está na natureza, assim como o magnetismo, e não será aniquilada, como o não será a força elétrica. O que é preciso é que seja observada e estudada em todas as suas fases, a fim de se deduzirem as leis que a regem. Se for um erro e uma ilusão, o tempo fará justiça; se for a verdade, esta é como o vapor: quanto mais comprimido, maior será a sua força de expansão.

Admiram-se de que enquanto na América só os Estados Unidos possuem dezessete jornais consagrados ao assunto, sem contar um sem-número de escritos não periódicos, a França, o país da Europa onde mais rapidamente as ideias se aclimataram, não possua nenhum*. Seria desnecessário contestar a utilidade de um órgão especial que ponha o público a par do progresso desta nova ciência e a premuna contra os exageros da credulidade, tanto quanto do cepticismo. É uma tal lacuna que nos propomos preencher com a publicação desta Revista, com o fito de oferecer um meio de comunicação a todos quantos se interessam por estas questões e de ligar, por um laço comum, os que compreendem a doutrina espírita sob seu verdadeiro ponto de vista moral: a prática do bem e a caridade evangélica para com todos.

* Até agora não existe na Europa senão um jornal consagrado à doutrina espírita — o Journal de l’âme, publicado em Genebra pelo Dr. Boessinger. Na América o único Jornal em francês é o Spiritualiste de la Nouvelle-Orléans, publicado por Barthès.

Se se tratasse apenas de uma coleta de fatos, fácil seria a tarefa. Eles se multiplicam em toda parte com tal rapidez que não faltaria matéria, mas os fatos, por si sós, tornam-se monótonos pela repetição e, principalmente, pela similitude. O que é necessário ao homem que pensa é algo que lhe fale à inteligência. Faz poucos anos que se manifestaram os primeiros fenômenos e já estamos longe das mesas girantes e falantes, que representaram sua infância. Hoje é uma ciência que descobre todo um mundo de mistérios; que patenteia as verdades eternas apenas pressentidas por nosso espírito. É uma doutrina sublime que mostra ao homem o caminho do dever e descobre o mais vasto campo jamais apresentado à observação do filósofo. Nossa obra seria, pois, incompleta e estéril se nos mantivéssemos nos estreitos limites de uma revista anedótica, cujo interesse em breve teria passado.

Talvez nos contestem a denominação de ciência que damos ao Espiritismo. Ele não teria, sem dúvida e em nenhum caso, as características de uma ciência exata e precisamente nisso está o erro dos que o pretendem julgar e experimentar como uma análise química ou um problema de matemática; já é bastante que seja uma ciência filosófica. Toda ciência deve basear-se em fatos, mas estes, por si sós, não constituem a ciência. Ela nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. Chegou o Espiritismo ao estado de ciência? Se se trata de uma ciência acabada, sem dúvida será prematuro responder afirmativamente, mas as observações já são hoje bastante numerosas para permitirem pelo menos deduzir os princípios gerais, onde começa a ciência.

O exame raciocinado dos fatos e das consequências deles decorrentes é, pois, um complemento, sem o qual nossa publicação seria de medíocre utilidade e apenas ofereceria um interesse secundário a quem reflete e quer dar-se conta do que vê. Contudo, como nosso objetivo é chegar à verdade, acolheremos todas as observações que nos forem dirigidas e, tanto quanto o permitir o estado dos conhecimentos adquiridos, procuraremos resolver as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será, assim, uma tribuna, na qual, entretanto, a discussão jamais deverá afastar-se das normas das mais estritas conveniências. Numa palavra, discutiremos, mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem jamais foram boas razões aos olhos da gente sensata: é a arma daqueles que não possuem algo melhor, e que se volta contra quem a maneja.

Embora os fenômenos de que nos ocupamos se tenham produzido, nos últimos tempos, de maneira mais geral, tudo prova que têm ocorrido desde as eras mais remotas. Não acontece com os fenômenos naturais o mesmo que acontece nas invenções que acompanham o progresso do espírito humano, pois desde que estão na ordem das coisas, sua causa é tão antiga quanto o mundo e os seus efeitos devem ter-se produzido em todas as épocas. Portanto, o que hoje testemunhamos não é uma descoberta moderna: é o despertar da antiguidade, mas da antiguidade desembaraçada do envoltório místico que gerou as superstições; da antiguidade esclarecida pela civilização e pelo progresso no campo das coisas positivas.

A consequência capital que decorre desses fenômenos é a comunicação que os homens podem estabelecer com os seres do mundo incorpóreo e, dentro de certos limites, o conhecimento que podem adquirir de seu estado futuro. O fato das comu­nicações com o mundo invisível acha-se, em termos inequívocos, nos livros bíblicos. Mas de um lado, para alguns cépticos, a Bíblia não é autoridade suficiente; do outro, para os crentes, são fatos sobrenaturais, suscitados por um favor especial da Divindade. Não representariam, então, para todo o mundo, uma prova da generalidade dessas manifestações, se as não encontrássemos em mil outras fontes diversas. A existência dos Espíritos e sua intervenção no mundo corpóreo é atestada e demonstrada, não como um fato excepcional, mas como um princípio geral, em Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo e São Gregório Nazianzeno e muitos outros Pais da Igreja. Esta crença forma, além disso, a base de todos os sistemas religiosos. Os mais sábios filósofos da antiguidade a admitiam: Platão, Zoroastro, Confúcio, Apuleio, Pitágoras, Apolônio de Tiana e tantos outros. Encontramo-la no mistério e nos oráculos, entre os gregos, os egípcios, os hindus, os caldeus, os romanos, os persas, os chineses. Vemo-la sobreviver a todas as vicissitudes dos povos, a todas as perseguições, e desafiar todas as revoluções físicas e morais da humanidade.

Mais tarde a encontramos entre os adivinhos e feiticeiros da Idade Média; nos Willis e nas Valquírias dos escandinavos; nos Elfos dos teutões; nos Leschios e nos Domeschnios Doughi dos eslavos; nos Ourisks e nos Brownies da Escócia; nos Poulpicans e nos Tensarpoulicts dos bretões; nos Cemis dos caraíbas; numa palavra, em toda a falange de ninfas, gênios bons e maus, silfos, gnomos, fadas e duendes, com os quais todas as nações encheram o espaço.

Encontramos a prática das evocações nos povos da Sibéria, no Kamtchatka, na Islândia, entre os índios da América do Norte ou os aborígines do México e do Peru, na Polinésia e até entre os estúpidos selvagens da Nova Holanda.

Não será por alguns absurdos de que essa crença se cercou ou se revestiu em vários tempos e lugares que se há de desconhecer que parte de um mesmo princípio, mais ou menos desfigurado. Ora, uma doutrina não se torna universal, não sobrevive a milhares de gerações, não se implanta de um polo a outro, entre os povos mais diversificados e em todos os graus da escala social, se não estiver fundada em algo de positivo.

O que será esse algo? É o que nos demonstram as recentes manifestações. Procurar as relações possivelmente existentes entre essas manifestações e todas essas crenças é buscar a verdade.

A história da doutrina espírita é, de certo modo, a história do espírito humano. Teremos que estudá-la em todas as fontes, que nos facultarão um veio inesgotável de observações tão instrutivas quão interessantes, sobre os fatos geralmente pouco conhecidos. Esta parte nos dará oportunidade de explicar a origem de uma porção de lendas e de crenças populares que participam da verdade, da alegoria e da superstição.

No que concerne às manifestações atuais, relataremos todos os fenômenos patentes que testemunharmos ou que chegarem ao nosso conhecimento, sempre que nos parecerem merecedores da atenção dos nossos leitores. Do mesmo modo o faremos em relação aos efeitos espontâneos, por vezes produzidos entre pessoas alheias às práticas espíritas, que ora revelam um poder oculto, ora a independência da alma. Tais são as visões, as aparições, a dupla vista, os pressentimentos, os avisos íntimos, as vozes secretas, etc.

Ao relato dos fatos juntaremos a explicação, tal qual ressalta do conjunto dos princípios. A este respeito faremos notar que esses princípios são decorrentes do ensino dado pelos Espíritos, e que faremos sempre abstração de nossas próprias ideias. Não se trata, pois, de uma teoria pessoal, mas da que nos foi comunicada e da qual seremos simples intérpretes.

Largo espaço será igualmente reservado às comunicações escritas ou verbais dos Espíritos, desde que tenham um fim útil, assim como às evocações de personagens antigas ou atuais, conhecidas ou obscuras, sem desprezar as evocações íntimas que, muitas vezes, nem por isso são menos instrutivas. Numa palavra: abarcaremos todas as fases das manifestações materiais e inteligentes do mundo incorpóreo.

A doutrina espírita oferece-nos enfim a solução possível e racional de uma porção de fenômenos morais e antropológicos que testemunhamos diariamente e cuja explicação inutilmente buscaríamos em todas as doutrinas conhecidas. Nesta categoria colocaremos, por exemplo, a simultaneidade de pensamentos, as anomalias de certos caracteres, as simpatias e antipatias, os conhecimentos intuitivos, as aptidões, as propensões, os destinos que parecem marcas da fatalidade e, num quadro mais geral, o caráter distintivo dos povos, seu progresso ou sua degenerescência, etc.

À citação dos fatos juntaremos a pesquisa das causas que poderiam tê-los produzido. Da apreciação dos atos brotarão, naturalmente, ensinamentos úteis, quanto à linha de conduta mais conforme à sã moral.

Em suas instruções os Espíritos superiores têm sempre o objetivo de despertar nos homens o amor do bem pela prática dos preceitos evangélicos, por isso mesmo traçam-nos o pensamento que deve presidir à redação desta coletânea.

Como se vê, nosso quadro compreende tudo quanto se liga ao conhecimento da parte metafísica do homem. Estudá-la-emos no seu estado presente e no futuro, pois estudar a natureza dos Espíritos é estudar o homem, porque este um dia participará do mundo dos Espíritos. Eis por que adicionamos, ao título principal, o subtítulo jornal de estudos psicológicos, a fim de dar a compreender toda a sua importância.

Nota: Por mais abundantes que sejam nossas observações pessoais e as fontes onde as colhemos, nem dissimulamos as dificuldades da tarefa, nem nossa insuficiência. Para suplementá-la, contamos com o concurso benévolo de todos quantos se interessam por esses problemas. Seremos, pois, gratos pelas comunicações que nos forem transmitidas sobre os diversos assuntos de nossos estudos. Neste propósito chamamos a atenção para os dez pontos seguintes, sobre os quais nos poderão fornecer documentos:

1.o) Manifestações materiais ou inteligentes obtidas em reuniões a que estiveram presentes;

2.o) Fatos de lucidez sonambúlica e de êxtase;

3.o) Fatos de segunda vista, previsões, pressentimentos, etc.;

4.o) Fatos relativos ao poder oculto atribuído, com ou sem razão, a certas pessoas;

5.o) Lendas e crenças populares;

6.o) Fatos de visões e aparições;

7.o) Fenômenos psicológicos particulares que por vezes ocorrem no momento da morte;

8.o) Problemas morais e psicológicos a resolver;

9.o) Fatos morais, atos notáveis de devotamento e abnegação cuja propagação pode servir de exemplo útil;

10.o) Indicações de obras antigas ou modernas, francesas ou estrangeiras, nas quais se encontrem fatos relativos à manifestação de inteligências ocultas com a designação e, se possível, a citação das passagens. O mesmo no que concerne à opinião emitida sobre a existência dos Espíritos e suas relações com os homens, por autores antigos ou modernos, cujo nome e saber lhes dão autoridade.


Allan Kardec