sexta-feira, 4 de abril de 2025

Emmanuel - Livro Servidores no Além - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 1 - Onde o remédio?



Emmanuel - Livro Servidores no Além - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 1


Onde o remédio?


Meus amigos, muita paz.

Se a noite é das crianças, eu também quero fazer-me pequenino, dentro da humildade de minha posição espiritual e, de coração genuflexo com o vosso, elevo o pensamento sincero ao Senhor do Trabalho e da Seara, suplicando-Lhe Bênçãos Divinas para o vosso esforço, Bênçãos essas que muito particularmente desejo aos nossos irmãos que vieram de longe, trazendo aos companheiros da causa da Verdade e da Luz, a palavra da fraternidade e do amor.

Enquanto as ruinarias vão povoando o planeta, vítima dos mais sérios desequilíbrios, dentro da crise ideológica e moral que há muito tempo, lhe trabalha o imenso organismo social e político, estais aqui no labor educativo, o caminho primário do reerguimento humano, a estrada primordial da regeneração da vida terrestre, ansiosa de atingir as elevadas finalidades do seu alto destino.

Os vossos tempos refletem amargamente a angústia coletiva de todos os povos, em face dessa aluvião de escombros que prenuncia terrível para os anos próximos, como corolário de desvios e de antagonismos irreconciliáveis, tão somente criados pela mentalidade humana, dentro de seu abuso de liberdade.

Dores amargas se anunciam nesse paiol de abundância e de super-produção, que a inteligência da humanidade criou para a sua vida.

E a verdade é que as facilidades da civilização deveriam constituir um índice soberbo de aproveitamento espiritual, por parte das criaturas, detentoras dos mais notáveis progressos científicos nos tempos modernos.

Entretanto, os penosos acontecimentos que se verificam nestes dias de confusão, de angustiosa expectativa, bem demonstram o contrário.

O homem da estratosfera e das profundidades submarinas; o homem da mecânica e da eletricidade, da genética e da biologia, da física e da química, da filosofia e das religiões, em voltando para dentro de si, vem encontrando a sua mentalidade obscura de há dois milênios.

É esse fenômeno de antagonismo evidente entre o homem físico e o homem moral, a causa da subversão de todos os valores morais que vindes constatando.

Onde o remédio? Todos os pensadores se reúnem para comentar a necessidade dos tempos. Os políticos convocam ministérios e gabinetes; os filósofos aventam teorias novas em sociologia, mas a verdade é que os cataclismos caminham no ar, sem que os poderes humanos consigam determinar-lhes a marcha.

Todos os corações sentem que existe algo para acontecer aguardam angustiados uma novidade nos ares, como se sombrios vaticínios pesassem sobre a sua vida de relação e a realidade é que nem os políticos e nem os filósofos, nem os economistas e nem os sociólogos podem dirimir as profecias singulares e dolorosas, impossibilitados de recurso, desconhecendo o remédio necessário à paz coletiva e à prosperidade mundial.

Mas uma corrente de lutadores batalha hoje na vanguarda dos tempos. Vive desprotegida de todo amparo oficial da política administrativa, não se veste com as penas de pavão do cientificismo do século.

O tóxico do intelectualismo com todos os seus excessos perniciosos não lhe é familiar. Os trabalhadores são humildes.

Assemelham-se àqueles homens desprezados que construíram com os seus martírios e com as suas lágrimas as bases augustas do Cristianismo na civilização do Ocidente.

Não têm títulos, nem prerrogativas e nem sinais particularizados, mas de seus corações e de suas palavras, dimana a lição preciosa d’Aquele que reenvia ao mundo os seus verbos luminosos.

São os trabalhadores do Espiritismo que, de fato, começam pelo princípio, isto é, pela educação, único meio eficaz e seguro da realização almejada.

Educação no Evangelho Redivivo, na disseminação de verdades santas que as igrejas sectaristas abafaram por mais de um milênio, no silêncio frio dos seus calabouços, calando interesses inconfessáveis.

É verdade que essa falange de operários não poderá modificar a face do mundo de um dia para outro. 

Não poderão esses servos da última hora, afastar do espírito coletivo das multidões delinquentes, o quadro nefasto da guerra e do extermínio, criado pela sua ambição e pelo seu despotismo, longe daquele Reino de Deus que se constitui de Sua Justiça.

A dor há de vir realizar a obra que não foi possível ao amor edificar por si mesmo. Todavia, o futuro está cheio daquela luz misericordiosa que promana do Alto para todos os corações da nova geração, dentro desse generoso labor do Espiritismo Cristão, na pedagogia renovada à luz do Evangelho do Senhor e dentro dessas edificações novas e sublimes, poder-se-á esperar o homem de amanhã, que, consciente do seu dever e da sua obrigação divina, possuirá a Terra e o Céu com os seus Infinitos Tesouros.

Prossegui em vosso esforço e que a paz de Jesus possa radicar-se em vosso íntimo, proporcionando-vos mais belas edificações espirituais é o que vos deseja o irmão e servo humilde.


Emmanuel










Bezerra de Menezes - Livro Bezerra, Chico e Você - Chico Xavier - Cap. 44 - Família mais ampla



Bezerra de Menezes - Livro Bezerra, Chico e Você - Chico Xavier - Cap. 44


Família mais ampla


Tantas vezes nos referimos aos problemas da família no mundo!

Filhos difíceis, pais-problemas, parentes que se nos erigem condição de antagonistas, companheiros do lar que nos relegam ao abandono!

E, em consequência, as lutas aparecem, agressivas e contundentes.

É aí no instituto doméstico que somos chamados a praticar paciência e a exercitar compreensão.

Muitos de nós se acham detidos nessa oficina de burilamento e melhoria, incapazes de ultrapassar a órbita da consanguinidade para a construção do amor a que as Leis do Senhor nos destinam.

Entretanto, a nós outros, os espíritas, compete a obrigação de enxergar mais longe e reconhecer mais amplos os deveres que nos prendem à experiência comunitária.

Não somente suportar os conflitos de casa com denodo e serenidade, abraçando os entes queridos com a certeza de que os amamos, livres de nós, se assim o desejam, para serem mais cativos aos desígnios de Deus.

Não apenas isso. Entender também nos grupos em que nos movimentamos a nossa família maior. E amar, auxiliar, apoiar construtivamente e servir sempre a todos os que nos compartilhem o trabalho e a esperança!

A independência existe unicamente na base da interdependência. 

As Leis Divinas criaram com tamanha sabedoria os mecanismos da evolução que todos nós, de algum modo, dependemos uns dos outros.

Não se renasce na Terra, sem o concurso dos pais ou dos valores genéticos que forneçam.

Não se adquire cultura sem professores ou recursos que eles se decidam a formar.

Não se obtém alimento sem esforço próprio, nem sob o amparo do esforço alheio.

E nem se alcança experiência por osmose, já que todos nós somos conduzidos à arena da existência, uns à frente dos outros, afim de aprendermos a amar-nos e compreender-nos mutuamente.

Reportamo-nos a isso para dizer-vos que as tarefas em nossas mãos constituem núcleos de serviço e união, dentro dos quais, por devotamentos realizações que nos cabe efetuar, é preciso nos inclinemos à fraternidade autêntica, abençoando e ajudando a quantos nos cerquem.

Há famílias de ordem material e aquelas outras de ordem espiritual afirma-nos o Evangelho, na Doutrina Espírita.

Atendamos, por isso, ao nosso conceito de família mais ampla.

Grande é a luta, entretanto, isso se verifica, a fim de que a nossa vitória seja igualmente maior.

Conduzamos a nossa mensagem de paz e amor a quantos nos partilhem a estrada do dia a dia.

Esse é mais forte e pode oferecer-nos apoio em certo sentido, mas aquele que se revela mais fraco é o companheiro que espera de nós o auxílio necessário para fortalecer-se.

Aqui, encontramos alguém que se nos afina com o modo de pensar e de ser, transformando-se-nos em fonte de estímulo, no entanto, ali, surge outro alguém que ainda não edificou em si os valores espirituais que lhe desejamos, aguardando-nos abnegação e entendimento para se nos harmonizar comas aspirações e os ideais de mais alta expressão.

Além, identificamos a presença daqueles que conseguem ombrear conosco no mesmo nível de trabalho, incentivando-nos a servir, mas adiante, observamos a ação daqueles outros que nos afligem ou atrapalham, exigindo, porém, de nossa compreensão o auxílio preciso para se tornarem simpáticos e produtivos na obra em que fomos engajados pelo Senhor.

Família e família!

Família do coração entre algumas paredes e família maior do espírito a espraiar-se em todos os domínios da Humanidade!

Sigamos, à frente de nossas tarefas, amando e abençoando por amor à construção que nos foi confiada o que, na essência, quer dizer por amor nossa própria felicidade.

Filhos queridos!

Recordemos: cada criatura, que nos desfruta o caminho ou a experiência, é semelhante à planta que se ajudarmos nos ajuda.

Somos todos clientes uns dos outros no trabalho em que a vida nos situou. 

Agradeçamos a oportunidade de entender isso e o privilégio de trabalhar por um Mundo Melhor com o nosso Espírito Melhorado seguindo para a Vida Melhor.


Bezerra










De mensagem recebida em 24.02.1973.

Emmanuel - Livro Fonte Viva - Chico Xavier - Cap. 19 - Apascenta


Emmanuel - Livro Fonte Viva - Chico Xavier - Cap. 19


Apascenta


“Apascenta as minhas ovelhas.” — Jesus. (JOÃO, 21.17)

Significativo é o apelo do Divino Pastor ao coração amoroso de Simão Pedro para que lhe continuasse o apostolado.

Observando na Humanidade o seu imenso rebanho, Jesus não recomenda medidas drásticas em favor da disciplina compulsória.

Nem gritos, nem xingamentos.

Nem cadeia, nem forca.

Nem chicote, nem vara.

Nem castigo, nem imposição.

Nem abandono aos infelizes, nem flagelação aos transviados.

Nem lamentação, nem desespero.

“Pedro, apascenta as minhas ovelhas!”

Isso equivale a dizer: — Irmão, sustenta os companheiros mais necessitados que tu mesmo.

Não te desanimes perante a rebeldia, nem condenes o erro, do qual a lição benéfica surgirá depois.

Ajuda ao próximo, ao invés de vergastá-lo.

Educa sempre.

Revela-te por trabalhador fiel.

Sê exigente para contigo mesmo e ampara os corações enfermiços e frágeis que te acompanham os passos.

Se plantares o bem, o tempo se incumbirá da germinação, do desenvolvimento, da florescência e da frutificação, no instante oportuno.

Não analises, destruindo.

O inexperiente de hoje pode ser o mentor de amanhã.

Alimenta a “boa parte” do teu irmão e segue para diante. A vida converterá o mal em detritos e o Senhor fará o resto.


Emmanuel









Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 8 - Arrependimento tardio



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As Dores Psicológicas do Crescimento Interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 8


Arrependimento tardio


“Aliás, o esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Volvendo à vida espiritual, readquire o Espírito a lembrança do passado;” (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 5 - Item 11). 

Na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas recebemos variadas comunicações de almas arrependidas que foram, algumas delas, enfeixadas pelo senhor Allan Kardec, na obra O Céu e o Inferno, sob o título “Criminosos Arrependidos” – um incomparável estudo sobre os efeitos do arrependimento depois da desencarnação.

O tema arrependimento é muito valorizado entre nós na erraticidade, porque raramente, sob as ilusões da matéria, a alma tem encontrado suficiente coragem para enfrentar a força dos sutis mecanismos de defesa criados pelo orgulho, deixando sempre para amanhã – um amanhã incerto, diga-se de passagem – a análise madura e sincera de suas faltas, o que traria muito alívio, saúde e paz interior.

Era manhã no Hospital Esperança. Após os afazeres da rotina, deixamos nossa casa em bairro próximo e rumamos para as atividades do dia. A madrugada havia sido de muito trabalho nas esferas da crosta terrena. Após breve refazimento, nossa tarefa naquele dia que recomeçava era visitar a ala específica de espíritas em recuperação com o drama do arrependimento tardio.

Descemos aos pavilhões inferiores do hospital e chegando à ala para a qual nos destinávamos, fomos passando pelos corredores de maior sofrimento. Alas de confinamento, salas de atendimento e monitoramento, mais adiante alguns padioleiros com novas internações. No alto de uma porta larga, à semelhança daquelas nos blocos cirúrgicos dos hospitais terrenos, havia uma inscrição que dizia “entrada restrita”. Ali se encontravam os pacientes em estágios mentais agudos de arrependimento tardio.

Logo nas primeiras acomodações, rende à entrada, deparamo-nos com Maria Severiana. Sua fisionomia não apresentava as mesmas disposições do dia anterior. Cabisbaixa, sua face denotava ter chorado bastante durante a noite. Com todo cuidado que devemos à dor alheia, aproximamos carinhosamente:

— Bom dia Severiana!

— Bom dia nada, Ermance, estou péssima.

— O que houve, minha amiga? Ontem você se encontrava tão disposta...

— Muitos difícil dizer, não sei se posso.

— Se preferir, conversaremos logo mais.

— Não, não saia daqui, preciso de alguém velando comigo. Sou todo arrependimento e perturbação.

Quando segurava a mão de Severiana e ensaiava um envolvimento mais cuidadoso, Raul, assistente da ala, fez um sinal solicitando-nos a presença em pequeno posto alguns metros adiante.

— Que houve, Raul? Severiana ontem estava... — ele nem permitiu que continuássemos e disse:

— Sim, ela teve autorização para acessar a sua ficha reencarnatória. Foi uma noite tumultuada para ela, mas bem melhor que a maioria dos quadros costumeiros. A orientação é no sentido de que ela falei abertamente sobre o assunto para não criar as defesas inoportunas à sua recuperação. Graças a Deus, ela será acentuadamente no clima do arrependimento.

— Sim, Raul, grata pela informação.

Regressaremos, então, ao diálogo com a paciente, conduzindo-o com fins terapêuticos:

— Amiga querida, gostaria de expor seus dramas para nosso aprendizado?

— Ermance, é muito difícil a desilusão! A sensação de perda é enorme e sinto-me envergonhada. Sei que não fui uma mulher cruel, mas joguei fora enormes chances de vencer a mim mesma e ajudar muitas pessoas.

— Qual de nós, Severiana, tem sido exemplar na escola da reencarnação? Sabe, porventura, quantos espíritas chegam em quadros muito mais graves que o seu?

— Tenho pouca noção, no entanto, sinto-me como a mais derrotada das mulheres espíritas.

— Isso vai passar brevemente. O clima do arrependimento, embora doloroso a princípio, é a porta de acesso a indispensáveis posturas de reequilíbrio em relação ao futuro. Sem arrependimento não existe desilusão, e sem desilusão não podemos contar com a mais vantajosa das esperanças: o desejo de melhora enriquecido pela bênção das expectativas de recomeço. O exercício da desilusão é o antídoto capaz de atenuar os reflexos das enfermidades ou faltas que ainda transportamos para além-túmulo. Existe uma frase que considero sempre oportuna pelo seu poder consolador, a qual gostaria de ler para você; ela se encontra em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 5, item 5, e diz: “Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras”.

— Eu lhe agradeço, amiga querida. Tenho fé que meu arrependimento será impulso, embora ainda não me sinta com forças suficientes para isso. Por agora parece que estou presa em mim mesma.

— Temporariamente será assim. Logo, você perceberá que é exatamente o oposto. Digamos que o arrependimento é uma chave que liberta a consciência dos grilhões do orgulho. Enquanto peregrinamos no erro sem querer admiti-lo, temos o orgulho a nos defender com a criação de inúmeros mecanismos para aliviar nossas falhas. Chega, porém, o instante divino em que, estando demasiadamente represadas as energias da culpa, em casos como o seu, a misericórdia atua de maneira a ensejar o reajuste e a corrigenda. Sem arrepender-se, o homem é um ser que foge de si mesmo em direção aos pântanos da ilusão, por onde pode permanecer milênios e milênios. Essa não é a sua situação. Em verdade, apesar da dor, você se redime nesse momento de um episódio recente, sem vínculos com outras quedas de seu passado mais distante. Agradeça a Deus pela ocasião e supere sua expiação. Descartando quaisquer fins de curiosidade vã, tenho orientações para auxiliá-la a tratar o assunto em seu favor, portanto, tenha coragem.

— Farei isso amiga, farei, custe-me quanto custar! Não quero mais viver sob os auspícios desse monstro do orgulho que trago em mim. Chega de ilusão!

Enchendo o peito de ar como quem iria enfrentar árdua batalha, começou a contar seu drama, nesses termos:

— Como sabes, fui espírita atuante nessa precedente romagem carnal. Adquiri larga bagagem doutrinária estando na direção de uma casa espírita. Conduzia com facilidade a organização, despertando simpatia e boa vontade. Fui vencida pelo velho golpe do personalismo, sentia-me muito grandiosa espiritualmente diante dos compromissos que desincumbia. Como sempre, é o assalto da vaidade que, com nossa invigilância, faz uma limpa em nosso coração roubando-nos qualquer chance de lucidez e abnegação. Passei a vida com um grave problema no lar. Minha filha Cidália era uma moça extremamente rancorosa e magoada comigo sem motivos para isso. Alegava, nas minhas avaliações, que éramos antigas inimigas do passado e, diante das atitudes cruéis que ela cometeu contra mim em plena adolescência, cheguei a estimular a piedade de muita gente no centro espírita em relação à minha dor. Alguns chegavam a me dizer que iria direto para sublimes esferas depois dessa prova. Em vez de encontrar alternativas cristãs para resolver nossas desarmonias, distraí-me com o fato de criar teoremas espíritas para explicar minha infelicidade, mas jamais me perguntei, com a sinceridade necessária, como solucionar esse drama. Guardava o desejo da pacificação, todavia, nada fazia por isso que fosse realmente satisfatório. Fantasias e mais fantasias rondavam minha experiência. Inúmeras orientações consideradas mediúnicas falavam em obsessores perseguindo minha filha e a mim. E agora, quando fui ler minha ficha, iniciei um ciclo novo e percebi que fui vítima da mentira que me agradou. Teorizei muito sobre o que me ocorria, e amei pouco. Entretanto, Ermance, o mais grave você não sabe, e estava lá anotado na ficha à qual ainda ontem tive acesso nos arquivos, aqui no Hospital Esperança. Algo que escondi de todos e jamais mencionei a ninguém, em tempo algum. Não poderia imaginar um caso como o meu. Nem sequer, apesar do conhecimento espírita, poderia supor uma historia tão incomum como a minha.

A essa altura da explanação, Severiana ruborizou-se e perdeu o fôlego. Suspirou sofregamente e continuou:

— Fui levada ao Espiritismo depois de uma tentativa frustrada de abortar uma filha com quatro semanas de gravidez. Tomada de uma depressão e debaixo das cobranças por ser mãe solteira, cheguei a me desequilibrar emocionalmente. O tempo passava e não tinha coragem para o ato nefando; por várias circunstâncias não cheguei a executá-lo. A filha nasceu, é Cidália a quem me referi, minha única filha. Guardei comigo o segredo e parti da Terra com ele sem que ninguém jamais pudesse imaginar que um dia estie disposta a esse crime. As leis divinas, no entanto, são perfeitas. Minha desilusão começou ontem. Em princípio amaldiçoei essa ficha e achei impiedoso que permitissem acessá-la. Agora, com muita luta, começo a compreender melhor.

— E que revelação tão dura lhe trouxe seus informes reencarnatórios?

— Cidália renasceu com o propósito de ser uma companheira valorosa e companhia enriquecedora para minha solidão na vida. As informações me deram notícia de que é uma alma enormemente frustrada nos roteiros do aborto e que, após quedas sucessivas, estava reiniciando uma caminhada de recuperação nas duas últimas existências corporais para cá. Contudo, o meu ato impensado de expulsá-la do ventre, em plena gestação inicial, traumatizou-a sensivelmente perante as lutas conscienciais que ela já carrega com o assunto. O registro emocional foi ameaçador ao psiquismo da reencarnante. Seu rancor e sua mágoa contra mim nasceram ali, e nada tinham com ausência de afinidade ou carmas do pretérito. Ao substituir a culpa da tentativa de aborto pelas ideias de um passado suspeito e não confirmado, nada mais fiz que tamponar minhas más intenções. As anotações finais da ficha davam nota de que, se tivesse sido sincera com Cidália e rogado perdão, desarticularia em seu campo psíquico um mecanismo defensivo, próprio de corações que faliram nos despenhadeiros do repugnante infanticídio. Fico aqui nas minhas amarguras me cobrando severamente, mas como poderia saber disso, Ermance? Não supunha que a simples intenção poderia ser tão nociva. Você acha que estou sendo muito rigorosa?

— Claro que sim, Severiana. Contudo, não abdique da oportunidade. É sua chance de refazer os caminhos e futuramente amparar Cidália. De fato, não tinha como saber disso, o que não a isenta da responsabilidade do ato. Faltou-te o auto-perdão e o desejo sincero do encontro com suas culpas. Essa tem sido a opção da maioria esmagadora da humanidade. Preferem a fuga a ter de fazer o doloroso encontro com a sombra. Sua experiência poderá ser muito útil aos amigos encarnados, caso me autorize a contá-la. Certamente, lhes ampliará um pouco a visão sobre as infinitas possibilidades que a vida apresenta, nos roteiros da nossa redenção espiritual. Nem reencarnações passadas, nem obsessões, nem carmas, puramente um episódio aparentemente fortuito da existência que lhe rendeu os frutos amargos dessa hora. Um conjunto de situações reunidas talhando a realidade de cada um. Nada por acaso, nada sem razoes explicáveis, conquanto nem sempre conhecidas.

— Oportunamente, quando estiver melhor, gostaria de lhe narrar alguns detalhes para que a minha queda seja alerta e orientação a outras pessoas. Por agora, peço sua ajuda e a de Deus para que consiga me auto-perdoar.

— Severiana, hoje você é a mãe caída e frustrada, entretanto a vida a convida para se tornar o exemplo para muitas almas.

— Você tem razão, Ermance. A ficha, que fichinha dolorosa! - exclamou melancólica - mencionava que, caso tivesse adotado a postura de me perdoar, poderia ter contado a inúmeras criaturas a minha intenção irrefletida, a inconveniência do ato abortista ou o mal que pode causar sua simples intenção. Ainda que desconhecendo os detalhes que agora conheço, poderia falar do que significa em dor para uma mãe trazer na lembrança, diante da excelsitude de uma criança que nasceu de seu ventre, as ideias enfermiças de que um dia teria pensado em roubar-lhe a vida. Enfim, aprendi que a simples intenção nos códigos da eterna justiça, dependendo dos compromissos de cada qual, é quase a mesma coisa que agir...

Severiana recuperou-se rapidamente e prepara-se para retornar como neta de Cidália. São passados pouco mais de dois decênios de sua queda, e sua alma espera a remissão nos braços da avó.

Todavia, quem arrepende precisa de muito trabalho reparativo e luz nos raciocínios. Foi o que fez a nossa amiga. Não cessou de amparar e servir. Enquanto aguardava sua oportunidade, integrou-se às equipes de serviço aos abortistas no Hospital Esperança e aprendeu lições preciosas de consolo pra seu próprio drama.

Se não existisse trabalho redentor na vida espiritual, as almas teriam que reencarnar com brevidade porque não suportariam o nível mental das recordações e perturbações do arrependimento.

O serviço em nosso plano é uma preliminar para as provas futuras na reencarnação.

Como sempre, o Livro-luz traz em suas páginas incomparáveis uma questão que resume com perfeição o caso que narramos. Eis a pergunta:

“Qual a consciência do arrependimento no estado espiritual?”

“Desejar o arrependido uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o privam de ser feliz e, por isso, aspira a uma nova existência em que possa expiar suas faltas” (O Livro dos Espíritos - Questão 991).

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Bezerra de Menezes - Livro Terapêutica de Emergência - Divaldo P. Franco - Cap. 15 - Cruz e Cristo



Bezerra de Menezes - Livro Terapêutica de Emergência - Divaldo P. Franco - Cap. 15


Cruz e Cristo


Discípulos sinceros do Evangelho acreditam, na atualidade, que a simbologia do instrumento no qual o Mestre padeceu no Orbe, oferecendo-nos o máximo testemunho de amor, não mais tem razão de ser evocado, não merecendo maiores considerações. 

Não obstante, a cruz permanece como o ômega de qualquer compromisso para com a Verdade, enquanto se transita na Terra.

Antes dEle, era a expressão máxima do desprezo a que se relegavam as vidas que ali finavam. 

Ladrões e assassinos, delinquentes em geral sofreram-lhe a imposição sob o escámeo das massas açodadas pelo ódio e comandadas por interesses inferiores dos quais não se podiam liberar... 

Ele também sofreu a zombaria e o desprezo do poviléu açulado pelos agentes da loucura, todavia, o seu era o crime de amar a criatura, que assim mesmo o hostilizou.

Depois Dele, as duas traves emolduraram-se de fulgurante luz que atrai quantos sentem a necessidade de crescer, imolando-se em caminho de amor.

Certamente, que já não se levantam cruzes nos montes das cidades modernas, alucinadas pelas paixões desgovernadas; apesar disso, não são poucos aqueles que se entregam em holocausto pelo Cristo, em cruzes invisíveis, incontáveis.

Ei-los, atados à renúncia, abraçando a abnegação em clima de doação total; 

são inumeráveis aqueles que se deixaram cravejar nos madeiros da humildade, não revidando mal por mal, incompreendidos, mas ajudando, perseguidos, entretanto, desculpando;

estão milhares carregando cruzes não identificadas de sacrifício pessoal pela Causa do Cristo, sem darem importância aos transitórios valores terrenos; 

sorriem incontáveis espalhando esperança e otimismo, sob cruzes de dores sem nome, não conduzindo queixas nem desanimando nunca; cruzes que surgem como enfermidades soezes, que dilaceram as carnes da alma, enquanto consomem o corpo; 

cruzes de calúnias bem urdidas, que vão suportadas com esforços hercúleos; 

cruzes outras em forma de prazeres não fruídos, que se transformam em labores em favor dos outros; 

cruzes pesadas, na representação de expiações redentoras como de provações lenificadoras, favorecendo o futuro da própria criatura...

Essas são as cruzes que o amor transforma em estrada luminosa, concedendo as asas para a angelitude. 

Há, também, as cruzes a que muitos homens espontaneamente se prendem e experimentam o flagício que elegem, sem qualquer conquista de bênçãos. 

Com os cravos do egoísmo fixam-se às traves fortes dos vícios e das paixões infelizes de que somente a penates de dor e desespero, em largo prazo se desprendem, para, então, tomarem a cruz de triunfo. 

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo — acentuou o Cristo — tome a sua cruz e siga-me”. (Mateus: 16-24). 

O Cristo e a Cruz do amor são os termos sempre atuais da equação da vida verdadeira, sem os quais o homem não logrará a Liberdade. 


Bezerra de Menezes 








 




Bezerra de Menezes - Livro Compromisso com a Vida - Divaldo P. Franco - Cap. 4 - Página de encorajamento




Bezerra de Menezes - Livro Compromisso com a Vida - Divaldo P. Franco - Cap. 4


Página de encorajamento
 

Cabe-nos não desanimar, prosseguir com o espírito voltado para o bem, de tal forma, que as paixões primitivas cedam lugar às peregrinas virtudes descendentes do amor.

Desesperada, a criatura humana suplica misericórdia, e o Céu generoso faz chover messes de compaixão e de encorajamento para a vida na terra.

Erguei-vos em pensamento e em ação Àquele que prometeu estar conosco em qualquer circunstância para que pudéssemos ter vida e vida em abundância.

Filhos da alma, vossos guias espirituais adejam ao vosso lado como aves sublimes de ternura, aguardando a oportunidade de manterem convosco o intercâmbio iluminativo.

Desde quando conhecestes Jesus, tendes o dever de demonstrar-Lhe fidelidade e amor, bastando-vos abrir os sentimentos de fraternidade e de misericórdia para com todos aqueles que sofrem, perdoando-vos os equívocos e também as agressões que vos chegam ameaçadoras.

Ninguém está a sós, em nome desses Espíritos-espíritas que comparecem a este evento há cinqüenta e nove anos sucessivamente.

Nós vos conclamamos à diretriz de segurança para uma existência de paz.

Amai ! Sede vós aqueles que amam.

Rejeitados, menosprezados e até perseguidos, aureolai-vos no amor para que se exteriorizem os sentimentos sublimes do Cordeiro de Deus e em breve possamos ver bebendo no mesmo córrego o lobo e o cordeiro, os bons e os ainda maus, fascinados pela água pura do Evangelho libertador.

Ide em paz, meus filhos, retornai aos vossos lares e buscai a luz da Verdade que dissipa a ignorância e que anula a treva.

Jesus conta convosco na razão direta em que com Ele contamos.

Abençoe-nos o Incomparável amigo Jesus e dê-nos a Sua dádiva de paz.

Com muito carinho, o servidor humílimo e paternal de sempre,


Bezerra











Psicofonia de Divaldo Pereira Franco, na conferência de encerramento da 59ª Semana Espírita de Vitória da Conquista, em 9.9.2012.





Bezerra de Menezes - Livro Compromisso com a Vida - Divaldo P. Franco - Cap. 1 - Incomparável Mestre



Bezerra de Menezes - Livro Compromisso com a Vida - Divaldo P. Franco - Cap. 1


Incomparável Mestre


Filhos da alma:

Abençoe-nos Jesus, o Mestre Incomparável de nossas vidas.

A grande vitória dos mártires alcançava o patamar da liberdade, no entanto, pode-se assinalar que, naquele momento, iniciavam-se também as grandes dificuldades para a vivência do Evangelho pulcro do Incomparável Mestre.

Lentamente, porém, a doutrina dos perseguidos converteu-se na política ingrata dos perseguidores.

Os velhos santuários dedicados aos deuses aformosearam-se para transformar-se em catedrais, em homenagem Àquele que não tinha uma pedra para reclinar a cabeça, embora as aves dos céus tivessem seus ninhos e as feras os seus covis.

A seguir, a doutrina de amor uniu-se ao temporário poder da arbitrária política terrestre, sentando-se no trono dos governantes insensatos e perversos...

Logo surgiram as dissensões, asfixiadas a ferro e fogo, consideradas heresias que deveriam ser caladas a qualquer preço.

Com Martinho Lutero renasceu a esperança do Evangelho desvelado, sem a imposição teológica dos seus intérpretes apaixonados e fanáticos.

Era o primeiro grande passo para que chegasse o Espiritismo, e arrebentasse o silêncio aparente das sepulturas, propiciando aos imortais cantar o hino glorioso da perpetuidade da vida, exaltando o amor, a caridade e tentando restaurar a beleza inconfundível das palavras de Jesus.

Não faltaram perseguições e apodos, cárceres e fogueiras da maldade, para que hoje os espíritas de grande parte do mundo possam cantar a liberdade que tem conquistado, passo-a-passo, com lágrimas, com dores acerbas ante as incompreensões indescritíveis, testemunhando a excelência da fé...

Por certo, filhos amados, muitos de vós pertencestes àquela grei, que, ao lado de Constantino, abriram a porta da tolerância a Jesus no grandioso império.

Conseguis, agora, repetir a grande façanha do Evangelho, na sua visão libertadora, graças ao Espiritismo sendo tolerado em diferentes partes do orbe.

No entanto, se isto significa vitória, como sem dúvida o é, também representa um grande perigo que pode transformar-se em dominação de consciências, em atitudes arbitrárias, em governança enganadora.

Tende tento !

Mantende-vos unidos, unificados ao ideal da Verdade.

Conservai-vos coesos e fiéis à Codificação.

Mantende a tolerância sem conservardes a conivência.

Trabalhai pela divulgação da Verdade, sem conúbios com os interesses das vitórias do mundo.

Sede solidários a tudo e com todos, sem aceitardes as imposições do erro, do crime, do disfarce, negando a Presença de Jesus.

Estamos construindo para o futuro.

Aqueles que vos precedemos, tornando-nos Espíritos-espíritas, caminhamos convosco neste difícil ministério.

Não ignoramos as dificuldades que vos assinalam a marcha, percebemos as interferências infelizes do passado pessoal e dos inimigos do bem.

Não vos esqueçais, porém, da vigilância, da oração.

Cristo vela e comanda a barca terrestre, na condição de nauta sublime, e conta convosco, como colaboradores, para que a mensagem de amor e paz, de sabedoria e de libertação, não seja confundida com os ouropéis mentirosos do mundo, nem com as vanglórias que se diluem ao Sol da Verdade na alegria do amanhecer....

Cada passo amplia as fronteiras do serviço, exigindo-vos mais dedicação e sacrifício.

Uni-vos, amai-vos, ajudai-vos !

Estes dias de luz assinalam a Era da perene claridade para todo o mundo.

Ide, pois, filhos do coração, levando Jesus ao mundo e sendo felizes, mesmo quando incompreendidos, malsinados ou sofridos, porque o Reino de Deus não é deste mundo e para conquista-lo é necessário que vençais o mundo bem como às suas paixões.

Esta é a nossa mensagem em nome dos mentores das diferentes pátrias aqui reunidas, utilizando-se do humílimo servidor paternal e amigo de sempre,


Bezerra