terça-feira, 29 de novembro de 2022

Santo Agostinho - Livro Sentinelas da Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 5 - Ao encontro do Mestre



Santo Agostinho - Livro Sentinelas da Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 5


Ao encontro do Mestre


Meu caro Atila,

A senda do discípulo do Senhor está aberta.

Na retaguarda, é o pretérito de sombras.

À esquerda, surge o território incendiado das paixões.

À direita, aparece o gelado desfiladeiro da indiferença.

Nossa única porta de ação construtiva é a da frente.

Através dela é preciso marchar, amealhando amor e sabedoria ao preço de renunciação e serviço constantes.

Não te atemorizem, pois, os golpes da sombra.

Refletir a luz do Cristo, em nós, na antiga arena da luta humana, é o nosso objetivo essencial.

Dilatemos, acima de tudo, a nossa capacidade receptiva, assimilando as forças superconscientes que fluem de cima para a regeneração do conteúdo de nossa individualidade.

Comunhão integral com Jesus é a nossa meta.

Para alcançá-la, tudo o que não seja Amor, em suas manifestações, deve ser esquecido.

Não te detenhas. Avança, por dentro do próprio coração, entendendo a excelsitude do sacrifício.

Na estrada que trilhamos, milhares de companheiros amontoam recursos de ouro e pedra para a aquisição de dor e arrependimento. Outros continuam povoando os celeiros do tempo, com os monstros da insensatez.

Que a voz do Mestre vibre total na acústica de nossa alma, a fim de que os desvarios da ilusão não nos aniquilem a sagrada oportunidade de escalar o monte redentor. Ofereçamos a claridade da prece a todos os que desçam provisoriamente no escuro castelo das horas perdidas.

E adiantemo-nos, não no carro da evidência pessoal, mas no laborioso esforço da purificação, convictos de que em nosso reajustamento com Jesus permanece o soerguimento do mundo.

Quando a alma abriga, enfim, o Divino Hóspede, profunda transformação se opera no sistema espiritual de cada um.

Os olhos jazem incapacitados para a descoberta do mal.

Os ouvidos permanecem atentos às mensagens de sabedoria.

Os pensamentos se concentram invariavelmente no bem.

A palavra tece harmonia e felicidade em todos os recantos.

As mãos agem, incessantemente, sob a inspiração de ordem superior.

O coração, sobretudo, irradia bênçãos de compreensão e fraternidade, onde quer que se encontre, por estrela consciente a resplandecer nas teias da carne, e o império do Amor se estabelece no destino, consolidando a obra de sublimação eterna.

Sigamos, pois, pelo calvário da ressurreição sem desfalecer.

Na ordem material da Terra, vemos constantemente o homem a esperar pelo mundo, quando em verdade, o mundo vive esperando pelo homem, observando ainda que a alma aguarda Jesus, ao passo que o Senhor, de braços compassivos, aguarda a nossa alma, cheio de magnanimidade e esperança.

Movimentemo-nos, pois, à procura do Mestre e o Mestre virá, tolerante e sublime, ao nosso encontro.


Santo Agostinho












Aparecida - Livro Relicário de Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 15 - Carinho e reconhecimento



Aparecida - Livro Relicário de Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 15


Carinho e reconhecimento


Querida mamãe. Pedindo-lhe me abençoe com o seu carinho de todos os dias, venho trazer-lhe meu abraço.

É sempre doce acenar, à senhora, com o sinal de nossa ternura, de nosso reconhecimento.

Tenho a ideia de que nós, seus filhos, somos pássaros incapazes de esquecer a árvore acolhedora que os viu nascer. Por muito vastos sejam nossos voos, chega o momento em que sentimos sede do aconchego suave do ninho e, alegres e confiantes, tornamos aos seus braços, renovando as energias para as incursões no espaço infinito!

Graças a Jesus, vemo-la corajosa, refeita. A ventania arrasadora rouba-lhe os galhos de esperança, decepa flores de seu ideal de esposa, mãe e mulher; mas a senhora permanece firme, à frente do temporal.

Rendamos graças à Divina Providência pela dádiva de sua coragem e de seu heroísmo.

As mãos de Jesus operam milagres nos corações que a elas se entregam com segurança.

Afastam pesares, curam chagas, adormecem a dor.

Levantam-nos para o trabalho e sustentam-nos na tarefa que nos cabe desenvolver.

Dissipam a neblina da angústia e acendem nova luz nos horizontes de nossa fé.

Multiplicam nossas forças, dilatando-as no serviço a que nos afeiçoamos a favor de nosso próprio bem.

Cerram nossos lábios quando a fadiga nos sugere observações imprudentes e constituem infalível apoio para que não venhamos a cair nos despenhadeiros que se alongam nas margens do caminho que devemos trilhar.

São arrimos valiosos que nos sustentam de pé, transportando-nos através de asas luminosas, às visões do Céu…

Procuremos, cada dia, as mãos do Senhor.

Sem elas, mamãe, não seria possível um passo à frente, na estrada de redenção a que fomos conduzidos pela Bondade Celestial.

Com a senhora, aprendi a buscar esse bendito sustentáculo de minha jornada nova… Deus a recompense por todas as bênçãos de sua maternal dedicação.

Ainda e sempre, rogo-lhe não esmorecer…

Com o Mestre da Verdade, sabemos que tudo perder no mundo transitório é tudo reencontrar na vida eterna.

Seu Espírito valoroso tem sabido planejar o bem e executá-lo, sem desligar-se da certeza de que tudo é de Deus e de que tudo permanece n’Ele, nosso Amoroso Pai.

Compreendo-lhe a suprema renúncia. Sem ela, contudo, não lhe seria possível realizar tanto, em nosso benefício.

É por isso que, em preces silenciosas e constantes, peço ao Senhor a conserve resistente e calma, nobre e forte.

Recordemos que as mãos de Jesus permanecem nas diretrizes de nossa marcha.

O tempo é um empréstimo de Deus.

Elixir miraculoso — acalma todas as dores.

Invisível bisturi — sana todas as feridas, refazendo os tecidos do corpo e da alma.

Com o tempo erramos; com ele retificamos.

Em companhia dele, esposamos graves compromissos e, por ele amparados, resgatamos todos os nossos débitos.

Enquanto acreditamos que o tempo nos pertence, muitas vezes, caímos presas de cipoais de sombra; mas, quando compreendemos que o tempo é de Deus; o nosso retorno à paz se concretiza em abençoada recuperação de nós mesmos para o amor que tudo regenera e tudo santifica.

Confiemos, assim, no tempo que o Senhor nos concede à própria libertação e prossigamos convertendo nossos problemas em lições e as nossas lições em bênçãos da divina imortalidade.

Jesus está conosco e, ao toque de sua infinita bondade, todas as nossas experiências se transformam em motivos de felicidade imperecível.

A todos os nossos, o meu abraço carinhoso de sempre.

E beijando-a com o meu coração reconhecido, sou a filha sempre ao seu lado,


Aparecida










segunda-feira, 28 de novembro de 2022

André Luiz - Livro Libertação - Chico Xavier - Cap. 12 - Missão de amor



André Luiz - Livro Libertação - Chico Xavier - Cap. 12


Missão de amor


Voltando a casa, algumas horas transcorreram tocadas para nós de singular expectativa; entretanto, à noitinha, Saldanha manifestou o propósito de visitar o filho hospitalizado.

Com espanto, reparei que o nosso Instrutor lhe pedia permissão para que o acompanhássemos.

O perseguidor de Margarida, algo surpreso, acedeu, indagando, porém, quanto ao móvel de semelhante solicitação:

— Quem sabe se poderemos ser úteis? — Respondeu Gúbio, otimista.

Não houve relutância.

Guardadas rigorosas precauções por parte de Saldanha, que se fez substituir, junto à doente, por Leôncio, um dos dois implacáveis hipnotizadores, rumamos para o hospício.

Entre variadas vítimas da demência, relegadas a reajuste cruel, a posição de Jorge era de lamentar. Encontramo-lo de bruços, no cimento gelado de cela primitiva. Mostrava as mãos feridas, coladas ao rosto imóvel.

O genitor, que até ali se nos afigurara impermeável e endurecido, contemplou o filho com visível angústia nos olhos velados de pranto e elucidou com infinita amargura na voz:

— Está, certamente, repousando depois de crise forte.

Não era, contudo, o rapaz tresloucado e abatido quem mais inspirava compaixão. Agarradas a ele, ligadas ao círculo vital que lhe era próprio, a mãezinha e a esposa desencarnadas absorviam-lhe os recursos orgânicos. Jaziam igualmente estiradas no chão, letárgicas quase, como se houvessem atravessado violento acesso de dor.

Irene, a suicida, trazia a destra jungida à garganta, apresentando o quadro perfeito de quem vivia sob dolorosa aflição de envenenamento, ao passo que a genitora enlaçava o enfermo, de olhos parados nele, exibindo ambas sinais iniludíveis de atormentada introversão. 

Fluidos semelhantes a massa viscosa cobriam-lhes todo o cérebro, desde a extremidade da medula espinhal até os lobos frontais, acentuando-se nas zonas motoras e sensitivas.

Concentradas nas forças do infeliz, como se a personalidade de Jorge representasse a única ponte de que dispunham para a comunicação com a forma de existência que vinham de abandonar, revelavam-se integralmente subjugadas pelos interesses primários da vida física.

— Estão loucas, — informou Saldanha, na intenção evidente de ser agradável, — não me compreendem, nem me reconhecem, embora me fixem. Guardam o comportamento de crianças, quando fustigadas pela dor. Corações de porcelana, quebrados facilmente.

E franzindo o sobrecenho, transtornado agora por insofreável rancor, acrescentou:

— Raras mulheres sabem conservar a fortaleza nas guerras de revide. Em geral, sucumbem rapidamente, vencidas pela ternura inoperante.

Nosso orientador, desejando anular as vibrações de cólera no companheiro, cortou-lhe o rumo das impressões destrutivas, confirmando, pesaroso:

— Demoram-se, efetivamente, em profunda hipnose. 

Nossas irmãs não conseguiram, por enquanto, ultrapassar o pesadelo do sofrimento, no transe da morte, qual acontece ao viajante que inicia a travessia de vasta corrente de águas turvas, sem recursos para alcançar a outra margem. 

Ligadas ao filho e esposo, objeto que lhes centralizou, nas horas finais do corpo denso, todas as preocupações afetivas, combinaram as próprias energias com as forças torturadas dele e aquietam-se, aflitivamente, no centro dos fluidos que lhes constituem criação individual, como acontece ao “Bombyx mori” imobilizado e dormente sob os fios, tecidos por ele mesmo.

O obsessor de Margarida registou as observações, demonstrando indisfarçável surpresa no olhar e acentuou, mais calmo:

— Por mais que eu me procure insinuar, gritando-lhes meu nome aos ouvidos, não conseguem entender-me. Em verdade, movem-se e se lastimam, através de longas frases desconexas, mas a memória e a atenção parecem mortas. Se insisto, carregando-as, a custo, ansioso por infundir-lhes vida nova com que me possam auxiliar na vingança, vejo baldado todo esforço, porquanto regressam imediatamente para Jorge, logo que as suponho livres, num impulso análogo ao das agulhas que um ímã recolhe a distância.

— Sim, — corroborou o nosso diretor, — mostram-se temporariamente esmagadas de pavor, desânimo e sofrimento. Pela ausência de trabalho mental contínuo e bem coordenado, não expeliram as “forças coagulantes” do desalento, que elas mesmas produziram, inconformadas, ante os imperativos da luta normal na Terra e entregaram-se, com indiferença, a deplorável torpor, dentro do qual se alimentam das energias do enfermo. Drenado incessantemente nas reservas psíquicas, o doente, hipnotizado por ambas, vive entre alucinações e desesperos, naturalmente incompreensíveis para quantos o rodeiam.

Com sincera disposição de servir, Gúbio sentou-se no piso cimentado e, num gesto de extrema bondade, acomodou no regaço paternal as cabeças das três personagens daquela cena comovente de dor, e, endereçando olhar amigo ao algoz da mulher que pretendia salvar, que o observava espantadiço, indagou:

— Saldanha, permite-me algo fazer em benefício dos nossos?

A fisionomia do perseguidor modificou-se. Aquele gesto espontâneo do nosso orientador desarmava-lhe o coração, emocionando-o nas fibras mais íntimas, a julgar pelo sorriso que lhe inundou o semblante até então desagradável e sombrio.

— Como não? — Falou quase gentil… — É o que procuro realizar inutilmente.

Impressionado com a lição que recebíamos, contemplei a paisagem ao redor, cotejando-a com a da câmara em que Margarida experimentava aflição e tortura. Os impedimentos aqui eram muito mais difíceis de vencer. O cubículo transbordava imundície. Nas celas contíguas, entidades de repugnante aspecto se arrastavam a esmo. Mostravam algumas características animalescas, de pasmar. A atmosfera para nós se fizera sufocante, saturada de nuvens de substâncias escuras, formadas pelos pensamentos em desequilíbrio de encarnados e desencarnados que perambulavam no local, em deplorável posição.

Confrontando as situações, monologava mentalmente: por que motivo singular não operara nosso orientador no quarto da simpática senhora, que amava por filha espiritual, para entregar-se, ali, sem reservas, ao trabalho de assistência cristã? Vendo-lhe, porém, a solicitude na solução do problema afetivo que atormentava o adversário, entendi, pouco a pouco, através da ação do mentor magnânimo, a beleza emocionante e sublime do ensinamento evangélico: “Ama o teu inimigo, ora por aqueles que te perseguem e caluniam, perdoa setenta vezes sete” 

Gúbio, sob nosso olhar comovido, afagava a fronte das três entidades sofredoras, parecendo liberar cada uma dos fluidos pesados que as entorpeciam, em profundo abatimento. Decorrida meia hora na evidente operação magnética de estímulo, endereçou novo olhar ao verdugo de Margarida, que lhe analisava os mínimos gestos com dobrada atenção, e interrogou:

— Saldanha, não te agastarias se eu orasse em voz alta?

A pergunta obteve os efeitos de um choque.

— Oh! Oh!… — Fez o interpelado, surpreendido, — acreditas em semelhante panaceia?

Mas, sentindo-nos, de pronto, a infinita boa vontade, aduziu, confundido:

— Sim… sim… se querem…

Nosso Instrutor valeu-se daquele minuto de simpatia e, alçando o pensamento ao Alto, deprecou, humilde:

— Senhor Jesus!

Nosso Divino amigo…

Há sempre quem peça pelos perseguidos,
mas raros se lembram de auxiliar os perseguidores!

Em toda parte, ouvimos rogativas
em benefício dos que obedecem,
entretanto, é difícil
surpreendermos uma súplica
em favor dos que administram.

Há muitos que rogam pelos fracos
para que sejam, a tempo, socorridos;
no entanto, raríssimos corações
imploram concurso divino para os fortes,
a fim de que sejam bem conduzidos.

Senhor, tua justiça não falha.

Conheces aquele que fere e aquele que é ferido.

Não julgas pelo padrão de nossos desejos caprichosos,
porque o teu amor é perfeito e infinito…

9 Nunca te inclinas-te tão somente
para os cegos, doentes e desalentados da sorte,
porque amparas, na hora justa,
os que causam a cegueira, a enfermidade e o desânimo…

Se salvas, em verdade, as vítimas do mal,
buscas, igualmente, os pecadores, os infiéis e os injustos.

Não menoscabaste a jactância dos doutores
e conversaste amorosamente com eles
no templo de Jerusalém.

Não condenaste os afortunados e, sim, abençoaste-lhes as obras úteis.

Em casa de Simão, o fariseu orgulhoso,
não desprezaste a mulher transviada,
ajudaste-a com fraternas mãos.

Não desamparaste os malfeitores,
aceitaste a companhia de dois ladrões, no dia da cruz.

Se Tu, Mestre,
o Mensageiro Imaculado,
assim procedeste na Terra,
quem somos nós,
Espíritos endividados,
para amaldiçoarmo-nos, uns aos outros?

Acende em nós a claridade dum entendimento novo!

Auxilia-nos a interpretar as dores do próximo por nossas próprias dores.

Quando atormentados,
faze-nos sentir as dificuldades daqueles que nos atormentam
para que saibamos vencer os obstáculos em teu nome.

Misericordioso amigo,
não nos deixes sem rumo,
relegados à limitação dos nossos próprios sentimentos…

Acrescenta-nos a fé vacilante,
descortina-nos as raízes comuns da vida,
a fim de compreendermos, finalmente,
que somos irmãos uns dos outros.

Ensina-nos que não existe outra lei,
fora do sacrifício,
que nos possa facultar o anelado crescimento
para os mundos divinos.

Impele-nos à compreensão do drama redentor
a que nos achamos vinculados.

Ajuda-nos a converter o ódio em amor,
porque não sabemos,
em nossa condição de inferioridade,
senão transformar o amor em ódio,
quando os teus desígnios se modificam, a nosso respeito.

Temos o coração chagado e os pés feridos
na longa marcha, através das incompreensões que nos são próprias,
e nossa mente, por isto,
aspira ao clima da verdadeira paz,
com a mesma aflição
em que o viajor extenuado no deserto
anseia por água pura.

Senhor,
infunde-nos o dom
de nos ampararmos mutuamente.

Beneficiaste os que não creram em Ti,
protegeste os que te não compreenderam,
ressurgiste para os discípulos que te fugiram,
legaste o tesouro
do conhecimento divino
aos que te crucificaram e esqueceram…

Por que razão, nós outros,
míseros vermes do lodo ante uma estrela celeste,
quando comparados contigo,
recearíamos estender dadivosas mãos
aos que nos não entendem ainda?!…

O Instrutor imprimira tocante inflexão aos últimos lances da rogativa.

Elói e eu tínhamos os olhos turvos de lágrimas, tanto quanto Saldanha que recuara, aterrado, para um dos ângulos escuros da cela triste.

Gúbio transformara-se, gradualmente. As vibrações vigorosas daquela súplica, que arrancara ao próprio coração, expulsaram as partículas obscuras de que se havia tocado, quando penetrávamos a colônia penal em que conhecêramos Gregório, e sublimada luz brilhava-lhe agora no semblante que o pranto de amor e compunção irisava com intraduzível beleza. 

Parecia ocultar desconhecido alampadário no peito e na fronte, que despediam raios luminosos de intenso azul, ao mesmo tempo que formoso fio de claridade incompreensível o ligava com o Alto, perante nosso aturdido olhar.

Findo o intervalo, fez incidir toda a luminosidade que o envolvia sobre as três criaturas que asilava no regaço e exorou:

— É para eles, Senhor,
para os que repousam aqui em densas sombras,
que te suplicamos a bênção!

Desata-os, Mestre da caridade e da compaixão,
liberta-os para que se equilibrem e se reconheçam…

Ajuda-os a se aprimorarem nas emoções do amor santificante,
olvidando as paixões inferiores para sempre.

Possam eles sentir-te o desvelado carinho,
porque também te amam e te buscam,
inconscientemente,
embora permaneçam supliciados no vale fundo de sentimentos escuros e degradantes…

Nesse ponto, o orientador interrompeu-se. Intensos jorros de luz projetavam-se em torno dele, atirados por mãos invisíveis aos nossos olhos. Com perceptível emotividade, Gúbio aplicou passes magnéticos em cada um dos três infelizes e, em seguida, falou ao rapaz encarnado:

— Jorge, levanta-te! Estás livre para o necessário reajustamento.

O interpelado arregalou os órgãos visuais, parecendo acordar de pesadelo angustioso. Inquietação e tristeza transpareceram-lhe do rosto, celeremente. Num impulso maquinal, obedeceu à ordem recebida, erguendo-se com absoluto controle do raciocínio.

A interferência do benfeitor quebrara os elos que o prendiam às parentas desencarnadas, liberando-lhe a economia psíquica.

Presenciando o acontecimento, Saldanha gritou, em lágrimas:

— Meu filho! Meu filho!…

O doente não registou as exclamações nascidas do entusiasmo paterno, mas procurou o leito singelo onde se aquietou com inesperada serenidade.

Vencido nos melhores sentimentos de que era detentor, o algoz de Margarida aproximou-se do nosso dirigente, com as maneiras de uma criança humilhada que reconhece a superioridade do mestre, mas antes que pudesse tomar-lhe as mãos, para osculá-las talvez, pediu-lhe Gúbio, sem afetação:

— Saldanha, acalma-te. Nossas amigas despertarão agora.

Afagou a cabeça de Iracema e a infortunada mãe de Jorge voltou a si, gemendo:

— Onde estou?!…

Reparando, no entanto, a presença do marido, ao lado, nomeou-o por apelido carinhoso de família e bradou, desvairada de emoção:

— Socorre-me! Onde está nosso filho? Nosso filho?

Passou, logo após, para a fraseologia particular de quem reencontra um ser amado, depois de ausência longa.

O obsessor da doente que nos interessava de mais perto, tangido nas fibras recônditas do ser, derramava agora abundantes lágrimas e buscava o olhar de Gúbio, instintivamente, rogando-lhe, sem palavras, medidas salvacionistas.

— Em que mau sonho me demorei? — Indagava a desventurada irmã, chorando convulsivamente, — que cela imunda é esta? Será verdade que já atravessamos o túmulo?

E, em crise de desespero, acrescentava:

— Temo o demônio! Temo o demônio! Ó Deus meu! Salva-me, salva-me!…

Nosso Instrutor dirigiu-lhe palavras encorajadoras e indicou-lhe o filho que descansava, bem ao nosso lado.

Recompondo-se, gradualmente, ela perguntou a Saldanha porque emudecera, faltando à palavra amorosa e confiante de outro tempo, ao que o verdugo de Margarida respondeu, significativamente:

— Iracema, eu ainda não aprendi a ser útil… Não sei confortar ninguém.

A essa altura, a sofredora mãe, então desperta, passou a interessar-se pela companheira de infortúnio, que fazia a mão direita movimentar-se sobre a garganta. 2 Crendo a custo tratar-se da nora, que se lhe fizera irreconhecível, apelou aflita:

— Irene! Irene!

Interveio Gúbio com o poder de despertamento que lhe era peculiar, distribuindo vigorosas energias aos centros cerebrais da criatura que continuava abatida.

Transcorridos alguns instantes, a nora de Saldanha ergueu-se, num grito terrível.

Sentia dificuldade em articular a voz. Sufocava-se, ruidosamente, presa de angústia infinita.

Nosso orientador, vigilante, segurou-lhe ambas as mãos com a destra e com a mão esquerda ministrou-lhe recursos magnético-balsâmicos sobre a glote e, sobretudo, ao longo das papilas gustativas, acalmando-a, de alguma sorte.

Embora despertada, a suicida não mostrava a relativa consciência de si mesma. Não guardava a menor ideia de que seu corpo físico se desfizera no túmulo. Era o tipo da sonâmbula perfeita, acordando de súbito.

Adiantou-se na direção do esposo, reintegrado nas próprias faculdades e exclamou, estentórica:

— Jorge, Jorge! Ainda bem que o veneno não me matou! Perdoa-me o gesto impensado… Curar-me-ei para vingar-te! Assassinarei o juiz que te condenou a tão cruéis padecimentos!

Observando, ao contrário do que esperava, que o esposo não reagia, implorou:

— Ouve! Atende-me! Onde dormi tanto tempo? Nossa filha! Onde está?

O interpelado, todavia, que se lhe desligara da influência direta nos centros perispirituais, prosseguiu na mesma atitude fleumática e impassível de quem ajuizava com dificuldade a própria situação.

Foi ainda Gúbio quem se abeirou de Irene, elucidando:

— Aquieta-te, minha filha!

— Sossegar-me? Eu? — Protestou a infortunada, — não posso! Quero tornar a casa… Esta grade me asfixia… Cavalheiro, por quem é! Reconduza-me ao lar. Meu esposo permanece encarcerado injustamente… Estará por certo dementado… Não me escuta, não me atende. Por minha vez, sinto a garganta carcomida de veneno mortal… quero minha filha e um médico!

Nosso orientador, contudo, respondeu-lhe com voz triste, não obstante acariciar-lhe a fronte assustadiça:

— Filha, as portas de tua casa no mundo cerraram-se para tua alma com os olhos do corpo que perdeste. Teu esposo jaz liberado dos compromissos do matrimônio carnal e tua filha, desde muito, foi acolhida em outro lar. É indispensável, pois, que te refaças, de modo a prestar-lhes todo o serviço que desejas.

A desditosa criatura rojou-se de joelhos, soluçando.

— Então, morri? A morte é uma tragédia pior que a vida? — Clamou, desesperada.

— A morte é simples mudança de veste, — elucidou Gúbio, sereno, — somos o que somos. Depois do sepulcro, não encontramos senão o paraíso ou o inferno criados por nós mesmos.

E adoçando a voz para conversar na condição de um pai, prosseguiu, comovido:

— Porque atiraste fora o remédio salvador, esfacelando o vaso sagrado que o continha? Nunca ouviste o choro dos que padeciam mais que tu mesma? Jamais te inclinaste para registar as aflições que vinham de mais fundo? Porque não auscultaste o silencioso martírio daqueles que não possuem mãos para reagir, pernas para andar, voz para suplicar?

— A revolta consumiu-me… — explicou a desventurada.

— Sim, — confirmou o Instrutor, solícito, — um momento de rebeldia põe um destino em perigo, como diminuto erro de cálculo ameaça a estabilidade dum edifício inteiro.

— Infeliz de mim! — Suspirou Irene, aceitando a amargosa realidade, — onde estava Deus que me não socorreu a tempo?

— A pergunta é inoportuna, — esclareceu nosso dirigente bondosamente. — Procuraste saber, antes, onde te encontravas a ponto de te esqueceres tão profundamente de Deus? 

A bondade do Senhor nunca se ausenta de nós. Se transparecia da bendita oportunidade terrena que te conduzia à vitória espiritual, reside também agora nas lágrimas de contrição que te encaminham à regeneração salutar. 

Admito que possas, em breve, alcançar semelhante bênção; entretanto, cavaste enorme precipício entre a tua consciência e a harmonia divina, que precisarás transpor efetuando a própria recomposição. 

Por algum tempo, experimentarás a consequência do ato impensado. Colher fruto imaturo é praticar violência. Intoxicaste a matéria delicada sobre a qual se estruturam os tecidos da alma e poucas circunstâncias te atenuam a gravidade da falta. 

Não percas, porém, a esperança e dirige os passos na direção do bem. Se o horizonte, por vezes, se faz mais longínquo, nunca se torna inatingível.

E encorajando-a, paternalmente, acentuou:

— Vencerás, Irene; vencerás.

A interlocutora, entre o desapontamento e a rebelião, não parecia interessada em reter os elevados conceitos ouvidos. Desviando a atenção da verdade que a feria, fundo, identificou a presença de Saldanha, passando a gritar medrosamente.

Gúbio interferiu, acalmando-a.

A companheira de Jorge, todavia, dominado o temor infantil, regressou à intemperança mental, pousou no sogro os olhos atormentados e inquiriu:

— Sombra ou fantasma, que procuras aqui? Porque não vingaste o filho infeliz? Não te dói tanta infâmia inútil? Não disporás, acaso, de armas, com que possas ferir o juiz desalmado que nos conspurcou a vida? Cessa, então, com a morte o devotamento dos pais? Descansarás, porventura, em algum céu, contemplando Jorge, assim, reduzido a frangalhos? Ou ignoras a realidade cruel? Que razões te compelem à mudez das estátuas? Porque não buscaste, sem repouso, a justiça de Deus, que não se encontra na Terra?

As perguntas semelhavam-se a golpes de ferro em brasa.

O perseguidor de Margarida recebia-as por vergastadas no íntimo, porquanto extrema indignação lhe empalideceu o semblante. Hesitava, quanto à atitude a assumir, mas, reconhecendo-se diante de um condutor amoroso e sábio, procurou o olhar de Gúbio, rogando-lhe cooperação em silêncio, e o nosso Instrutor tomou, por ele, a palavra.

— Irene, — exclamou, melancólico, — a certeza da vida vitoriosa, acima da morte, não te infunde respeito ao coração? Supões estejamos subordinados a um poder que nos desconhece? Perante a verdade nova que te surpreende a alma, não percebes a infinita sabedoria de um Supremo Doador de todas as bênçãos? 

Onde se encontra a felicidade da vingança? O sangue e as lágrimas de nossos inimigos apenas aprofundam as chagas que nos abriram nos corações. Acreditas que a legítima consagração de um pai deva traduzir-se através da dilaceração ou do homicídio, da perseguição ou da cólera? 

Saldanha veio até este cárcere, por amor, e eu creio que as mais nobres conquistas dele lhe retornam à superfície da personalidade, triunfantes e renascentes!… Não lhe precipites a ternura paterna no abismo do desespero, de cujas trevas procuras inutilmente fugir.

A desditosa mulher silenciou, soluçante, enquanto o sogro enxugava as lágrimas que as observações generosas de Gúbio lhe haviam arrancado.

Foi então que Iracema se declarou exausta e suplicou a dádiva dum leito.

O nosso orientador convidou Saldanha a se pronunciar.

Se Jorge melhorara, ambas as senhoras desencarnadas exigiam socorro urgente. Não seria lícito abandoná-las àquele clima de desintegração das melhores energias morais.

— Perfeitamente, — concordou o obsessor de Margarida, sob intensa modificação, — conheço os celerados que aqui se reúnem, e agora que Iracema e Irene tornaram à consciência que lhes é própria, preocupa-me a gravidade do assunto.

Nosso dirigente explicou-lhe que poderíamos abrigá-las numa organização socorrista, não distante, mas, para levarmos a efeito semelhante medida, não poderíamos olvidar-lhe a permissão.

Saldanha aceitou contente e agradeceu, desapontado. Sentia-se estimulado ao bem, através da palavra cordial de nosso orientador e revelava-se disposto a não perder o mínimo ensejo de corresponder-lhe à dedicação fraterna.

Depois de alguns minutos, ausentávamo-nos do hospício conduzindo as irmãs enfermas a recolhimento adequado, onde Gúbio as internou com todo o prestígio de suas virtudes celestes, ante o visível espanto de Saldanha que não sabia como exprimir-se no reconhecimento a extravasar-lhe da alma.

Ao retornarmos, cabisbaixo e humilhado o perseguidor de Margarida perguntou, timidamente, quais eram as armas justas num serviço de salvação, ao que o nosso orientador retrucou atenciosamente:

— Em todos os lugares, um grande amor pode socorrer o amor menor, dilatando-lhe as fronteiras e impelindo-o para o Alto, e, em toda parte, a grande fé, vitoriosa e sublime, pode auxiliar a fé pequenina e vacilante, arrebatando-a às culminâncias da vida.

Saldanha não voltou à palavra e fizemos a maior parte do caminho em significativo silêncio.


André Luiz





VÍDEO:

Libertação - Cap. 12 - Missão de Amor
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Libertação - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 
Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br 

Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br





Joanna de Ângelis - Livro Momentos de Consciência - Divaldo P. Franco - Consciência e Evolução



Joanna de Ângelis - Livro Momentos de Consciência - Divaldo P. Franco


Consciência e Evolução


O despertar da consciência faculta a responsabilidade a respeito dos atos, face ao desabrochar dos códigos divinos que jazem em germe no ser.

Criado simples e ignorante , o espírito tem como fatalidade a perfeição que lhe está destinada. Alcançá-la com rapidez ou demorar-se por consegui-la, depende da sua vontade , do seu livre-arbítrio.

Passando pela fieira da ignorância , adquiriu experiências mediante as quais pode discernir entre o que deve e o que lhe não é lícito realizar, optando pelas ações que lhe proporcionem ventura, bem-estar, sem os efeitos perniciosos, aqueles que se tornam desgastantes, afligentes.

Desse modo, torna-se responsável pelo seu destino, que está a construir, modificar, por meio das decisões e atitudes que se permita.

O bem é-lhe o fanal , e este se constitui de tudo aquilo que é conforme as leis de Deus, que são naturais, vigentes em toda parte.

A herança da ignorância primitiva prende-o no mal, que é contrário à lei de progresso, não , porém, retendo-o indefinidamente e impossibilitando-o de ser feliz.

Cumpre-lhe , portanto envidar esforços e romper os elos com a retaguarda, avançando nas experiências iluminativas, a principio com dificuldade, face à viciação instalada, para depois acelerar os mecanismos de desenvolvimento, por força mesmo do prazer e alegria fruídos.

Lentamente, em razão da própria consciência , descobre os tesouros preciosos que lhe estão à disposição e dos quais pode utilizar-se com infinitos benefícios.

Saúde e doença , paz e conflito, alegria e tristeza podem ser elegidos através do discernimento que guia as ações. Sem essa claridade, os estados negativos tornam-se-lhe habituais e , mesmo quando estabelecidos, podem alterar-se através do empenho empregado para vence-los.

Nunca te entregues à desesperança, ao abandono. Não és uma pedra solta, no leito do rio do destino, a rolar incessantemente. Tens uma meta, que te aguarda e que alcançarás.

Penetra-te , mediante a reflexão, e descobre as tuas incalculáveis possibilidades de realização.

Afirma-te o bem , a fim que o seu germe em ti fecunde e cresça. Serás o que penses e planejes, pois que da tua mente e do sentimento procedem os valores que são cultivados.

O teu estado natural é saúde. As enfermidades são os acidentes de trânsito das ações negativas, propiciando-te reabilitação. È indispensável manteres atenção e cuidado na conduta do veículo carnal. Assim , pensa no bem-estar, anela-o, estimulando-o com realizações corretas.

A tua constituição é harmônica. Os desequilíbrios são ocorrências, na corrente elétrica do teu sistema nervoso, por distorção de carga que as sensações cultivadas proporcionam . Mantém os interruptores da vigilância ligados, a fim de que impeçam as altas voltagens que os produzem.

Em tua origem és luz avançando para a grande luz. Só há sombras porque ainda não te dispuseste a movimentar os poderosos geradores de energia adormecida no teu interior. Faze claridade, iniciando com a chispa da boa vontade e deixando-a crescer até alcançar toda a potência de que dispõe.

O amor é o teu caminho, porque procede de Deus, que te criou. Desse modo verticaliza as tuas aspirações e agiganta os teus sentimentos na direção da causalidade primeira.

Tudo podes, se quiseres.

Tudo lograrás se te dispuseres.

Buscando penetrar na ordem das divinas leis que propiciam o entendimento da vida, Allan Kardec interrogou as venerandas entidades, conforme registrou na questão 117 de O Livro dos Espíritos:

Depende dos espíritos o progredirem mais ou menos rapidamente para a perfeição ?

"Certamente. Eles a alcançam mais ou menos rápido conforme o desejo que têm de alcança-la e a submissão que testemunham à vontade de Deus. Uma criança dócil não se instrui mais depressa do que outra recalcitrante?" 


Joanna de Ângelis













domingo, 27 de novembro de 2022

Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 2ª Parte - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - Capítulo 7 - Da volta do Espírito à vida corporal - Prelúdio da volta - Questão 343 (Miramez)



Allan Kardec - O Livro dos Espíritos - 2ª Parte  - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - Capítulo 7 - Da volta do Espírito à vida corporal


Prelúdio da volta 


343. Os Espíritos amigos que nos seguem os passos na vida serão talvez os que vemos em sonho, que nos testemunham afeto e que se nos apresentam com semblantes desconhecidos?

"Muito frequentemente são; eles vos vêm visitar, como ides visitar um encarcerado."


Allan Kardec



O Livro dos Espíritos comentado pelo Espírito Miramez

Questão 343 comentada

Em estado de sonho o Espírito encarnado pode se comunicar com os entes queridos que já se foram para o Além e, ao acordar, tem vaga lembrança desse encontro. Em poucos casos guarda lembranças vivas, sobre os assuntos ventilados. Os Espíritos-guias igualmente se comunicam com os seus tutelados pelas portas do sonho, em variadas formas, e as lições, mesmo ficando na inconsciência, servir-lhes-ão para a vida diária. Elas vêm emergindo para o consciente de maneira que afloram na mente como pensamentos próprios, e o raciocínio vai se utilizando desse intercâmbio com o coração, para a evolução natural do Espírito. O futuro nos espera para nos brindar com uma forma de sonho mais aperfeiçoado, que é o desdobramento consciente das criaturas encarnadas. Eis aí a porta da certeza espiritual, de que a vida continua. O Espírito, em estado de desdobramento, na consciência perfeita, tem uma visão do mundo espiritual também mais perfeita, muitas vezes mais do que encarcerado no corpo físico; no entanto , depois da viagem astral propriamente dita, os benfeitores da eternidade trazem seu tutelado para despertar e tornar a dormir, pois, o sono natural é bastante diferente do desdobramento. Nesse último, perde-se muita energia, na sua divina expressão.

Sonhos, todos os têm, todas as noites e com poucas recordações; o desdobramento se faz muito raro, porque ele obedece a uma escala muito grande. O desprendimento consciente é o mais difícil nos dias que correm, porém, a evolução das almas nos fala dessa necessidade para a humanidade. Na altura evolutiva das criaturas, se lhes forem concedidos todas as noites alguns minutos de desprendimento consciente, elas poderão ir se atrofiando até a desencarnação por quererem ficar na pátria do Espírito, que se lhes apresenta com maior harmonia. Precisa-se de preparo, dentro das diretrizes do Cristo.

"O Livro dos Espíritos" nos afigura a questão do mesmo modo com que se visita um encarcerado: os guias espirituais vem em auxílio dos encarnados como os tais presos na carne em determinadas provas e testes diferentes por passar. Convém anotar as reações que temos diante dos inimigos, no sentido de analisarmos o que vai passando pelos nossos sentimentos. Se sofremos com a injúria, certamente que ela conserva uma ferida em nosso coração; se sofremos com o desprezo, ele ainda mora em nosso sentimento; se sofremos com a violência dos depredadores, essa violência ainda não saiu do nosso mundo íntimo; se sofremos com todas as formas de maledicência, a revolta mora em nós. mostrando-se pela nossa posição ante os que nos ferem. Precisamos rever o nosso ambiente interno e renovar nossos sentimentos pela força do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dessa maneira, os nossos sonhos, tanto de encarnados como de desencarnados, tornar-se-ão lindos e perfeitos, na perfeita ordem do universo. Atraímos para nós, o que somos por dentro do coração.

Os sonhos, na literatura profana, são fatos vagos; na espiritualista séria, são portas para a realidade espiritual, onde encontramos a verdade diante das nossas necessidades espirituais. Estamos, assim, visitando os nossos queridos que já se foram, e aí a lei nos atende, mostrando o verdadeiro intercâmbio de todos os planos através dos chamados sonhos.

Quando os espíritas avivarem a consciência, começando a ler e entender a codificação do nosso querido preceptor Allan Kardec, tornar-se-ão como frutos maduros, que cairão da árvore da Terra ao chão da vida espiritual e virão a nascer de novo, com novas possibilidades de entender mais, entrando no progresso e assimilando o verdadeiro entendimento de Jesus acerca da vida que continua. A Doutrina dos Espíritos não é nem pode ser estável; ela acompanha o progresso e a ele se antecipa, quando os corações se acham em preparo.


Miramez



Filosofia Espírita Vol 7 - João Nunes Maia
Cap. 37 - Sonhando