Joanna de Ângelis - Livro Em Busca da Verdade - Divaldo Pereira Franco - Cap. 1 - O Ser Humano e sua totalidade
A aquisição da totalidade
Quando se conquista uma floresta densa, o primeiro movimento é o de abrir-se clareiras na sua escuridão e densidade, a fim de que entre a luz e haja espaço para a edificação do que se transformará em posto avançado de serviço e de repouso.
O inconsciente é uma floresta densa, a parte submersa de um iceberg flutuando sobre as águas tumultuadas da existência física.
A grande maioria dos atos e comportamentos humanos, na sua expressão mais volumosa, procede do inconsciente, sem a interferência da consciência lúcida.
No inconsciente coletivo, encontram-se arquivados toda a história da Humanidade, os diferentes períodos vivenciados, abrindo pequeno espaço ao inconsciente individual, encarregado dos registros atuais, desde a concepção até a atualidade.
Há profunda sensatez e veracidade na informação, considerando-se que o Self se estruturou ao largo das sucessivas reencarnações, por onde esse princípio inteligente desdobrou os conteúdos adormecidos em germe, seu Deus interno, até o momento da consciência.
As impressões que dizem respeito às memórias coletivas nesse grandioso inconsciente, têm procedência, porque se referem às vivências individuais ou às informações transmitidas pelos contemporâneos ou ascendentes que as viveram.
Para que haja uma real integração desses arquétipos predominantes em o ser humano, torna-se indispensável o amor a si mesmo, conforme a recomendação do sublime Psicoterapeuta Jesus Cristo.
Ele sabia da existência da sombra individual e coletiva, que aturdia o ser humano.
Na Sua proposta psicoterapêutica através do amor, Ele destacou aquele de natureza pessoal, a si mesmo, em razão dos escamoteamentos, quando se procura amar ao próximo, impossibilitado daquele que é devido a si mesmo, ao Self.
Essa é uma artimanha da sombra, disfarçando o transtorno da indiferença ou animosidade contra o próprio ser, dos conflitos perturbadores no íntimo, em fuga espetacular para a valorização do outro com desprezo pelos seus sentimentos, suas conquistas e seus prejuízos.
Quando o indivíduo não se ama, certamente apaixona-se, deslumbra-se, admira o outro a quem diz amar, até a convivência demonstrar que se tratou apenas de uma explosão sentimental sem profundidade nem significado.
Não são poucos aqueles que afirmam amar, para logo apresentar-se decepcionados por haverem constatado que o outro lhes é semelhante, portador também dos polos opostos, atrelado a dificuldades e limites, que o dito afetuoso gostaria que ele não tivesse, esperando compensações pelas próprias fraquezas.
O amor a si mesmo deve centralizar-se no autorrespeito e na autoconsideração que cada um se merece, identificando a sua sombra, que é familiar aos demais, aceitando-a e diluindo-a na mirífica luz da amizade e da compreensão.
Não se trata de ficar contra as imperfeições - a sombra interior - mas de identificá-la, para mais reforçá-la, o que aqui vale dizer, conscientizar-se da sua existência e considerá-la parte da sua vida.
Lutar contra a sombra representa proceder a um desgaste inútil de energia.
Quando é identificada, a energia retorna à psique, e, à medida que a mesma é integrada, mais vigor se apresenta no ser consciente.
É necessário, portanto, uma atitude ativa e não passiva, porque essa passividade, essa anuência com a ignorância, nada fazendo para modificar-lhe a estrutura, alterando-a e dissolvendo-a, fomenta a violência de todo porte, que desagua entre os poderosos terrestres em guerras hediondas, espraiando a sombra coletiva da arbitrariedade e da prepotência.
O bem e o mal têm a mesma origem na psique humana, resultando de experiências ancestrais que foram vividas pelo Self.
Da mesma forma, a sombra, os antagonismos podem e devem ser enfrentados através de diálogos com os opostos, que elucidam a sua finalidade e os seus gravames.
Nos relacionamentos entre amigos e parceiros, sempre ocorre a fragmentação, na qual a duração dessa convivência é de curto prazo, mesmo quando se inicia com entusiasmo e ardor.
De um para outro momento alguém nota que a sua voz interior não apenas critica-o, lamentando a conivência, informando da sua indignidade ou inferioridade em relação ao outro, como também pelo surgimento de uma agressão ferina, de apontamentos desagradáveis sobre o amigo ou parceiro...
Tal ocorrência produz o comportamento exterior sem correspondente íntimo, dando lugar ao cansaço ou à indiferença, ou a uma forma de saturação emocional, destituindo o prazer que antes era haurido naquele convívio.
Ninguém deve ignorar a voz interior, especialmente quando crítica ou mordaz, responsável por comentários depreciativos da própria pessoa ou de referência a outrem...
Torna-se necessário o seu enfrentamento lúcido e natural, diluindo a tensão que se estabelece entre o consciente e o inconsciente.
Normalmente, diante de uma bela performance exterior, irrompe interna a voz que censura, que abomina, que recalcitra em relação àquele desempenho.
Essa tormentosa sombra imanente na psique faz parte do ego à espera da valiosa contribuição do Self libertador.
Considere-se a existência da sombra como uma questão moral, não a ocultando através de sacrifícios, de sevícias e de autoflagelações para vencer o que se denominou como as tentações, porque tais comportamentos são pertinentes a ela mesma que, submetida por algum tempo, um dia irrompe em forma de desencanto ou de vulgaridade a que se entregam aqueles que, longamente, impediram-na de manifestar-se, acreditando falsamente na vitória sobre ela.
Devorar a sombra com integração lúcida na psique, é também uma forma de diluí-la, incorporando-a ao conjunto, trabalhando pela unidade.
Qualquer tipo de violência ou obstinação contrária, mais a reforça, enquanto que toda expressão de amor e de humildade em relação à mesma, libera-a.
Reconhecer-se imperfeito, como realmente se é, portador de ulcerações e de cicatrizes morais, é um ato de humildade real, que se deve manter com dignidade, enquanto que, divulgá-los, demonstrando simplicidade, é maneira de permanecer-se no estágio de dominação pela sombra que somente mudou de expressão e de comportamento.
Nada mais desagradável e mórbido do que a falsa humildade, aquela que exclui o indivíduo dos valores éticos elevados, que o subestima, expressando, disfarçadamente, presunção, diferenciamento das demais pessoas.
Jesus, que é inabordável psicologicamente, porque paira acima de todas as criaturas, como biótipo especial, jamais se subestimou ou adotou epítetos depreciativos para demonstrar humildade.
Pelo contrário, sempre referiu-se como o Enviado, o Messias, o Filho de Deus, a Luz do mundo, o Pão da vida, etc., demonstrando a Sua autoconsciência.
Entre a humildade e o exibicionismo permanece uma grande diferença.
Muita aparência humilde torna-se ostentação disfarçada, portanto, presença da sombra dominadora na conduta psicológica.
Em qualquer movimento religioso, que busca a superação dos conflitos, vale a pena considerar-se que convivem no mesmo indivíduo o anjo e o demônio, que necessitam harmonizar-se, descendo um na direção do outro que ascende no rumo do primeiro.
Quando se reconhece essa dualidade presente na psique, que é representativa do ser humano, uma das suas características, portanto, torna-se fácil a terapia equilibradora, unindo-a em um ser lúcido psiquicamente e generoso emocionalmente.
A integração é necessidade de vivenciar-se um labor consciente, de amadurecimento psicológico, de conquista emocional e espiritual.
Joanna de Ângelis

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