terça-feira, 31 de agosto de 2021

Joanna de Ângelis - Livro Conflitos Existenciais - Divaldo P. Franco - Cap. 3 - Raiva - Pág. 25 - Raiva e primarismo




Joanna de Ângelis - Livro Conflitos Existenciais - Divaldo P. Franco - Cap. 3 - Raiva - Pág. 25


Raiva e primarismo


A raiva é um sentimento que se exterioriza toda vez que o ego sente-se ferido, liberando esse abominável adversário que destrói a paz no indivíduo. Instala-se inesperadamente, em face de qualquer conflito expresso ou oculto, desferindo golpes violentos de injúria e de agressividade.

Inerente a todos os animais, no ser humano, porque portador de vontade e discernimento, é responsável por transtornos que conseguem obscurecer lhe a razão e perturbar lhe o equilíbrio, produzindo danos emocionais de pequeno ou grande alcance, a depender da extensão e da profundidade de que se reveste.

Quando existe a primazia dos instintos agressivos, na contextura do ser, este, diante de qualquer ocorrência desagradável, real ou imaginária, rebolca-se na situação danosa, em agitação inconsequente, cujos resultados são sempre la­mentáveis, quando não funestos.

Predominando nele o instinto de arbitrária domi­nação, em falsa postura de superioridade, percebendo a fragilidade dessa conduta e a impossibilidade de impor-se, porque não considerado quanto gostaria, recorre ao me­canismo psicológico da raiva para exteriorizar a violência ancestral que lhe dorme no íntimo.

A semelhança de um incêndio que pode começar numa fagulha e trazer prejuízos incalculáveis pela sua ex­tensão, a raiva também pode ser ateada por uma simples insinuação de pequena monta, transformando-se em vul­cão de cólera destruidora, que avassala.

Há indivíduos especialmente dotados da facilidade de enraivecer-se, que alternam essa emoção com a psicastenia - palavra cunhada por C. G. Jung, como uma fraque­za psíquica responsável por um estado de astenia psíquica constitucional, com forte tendência para a depressão, o medo, a incapacidade de suportar desafios e dificuldades mentais...

A raiva produz uma elevada descarga de adrenalina e cortisol no sistema circulatório, alcançando o sistema nervoso central, que se agita, produzindo ansiedade e manten­do o sangue na parte superior do corpo, no que resultam diversos prejuízos para as organizações física, emocional e psíquica. Repetindo-se com frequência, produz o endurecimen­to das artérias e predispõe a vários distúrbios orgânicos... 

De alguma forma, a raiva é um mecanismo de defesa do instinto de conservação da vida, que se opõe a qual­quer ocorrência que interpreta como agressão, reagindo, de imediato, quando deveria agir de maneira racional. Porque tolda a faculdade de discernir, irrompe, desastrosa, assinalando a sua passagem por desconforto, cansaço e amolentamento das forças, logo cessa o seu furor...

O animal selvagem, quando perseguido ou esfaimado ataca, para logo acalmar-se, conseguido o seu objetivo.

O ser humano, além dessa conduta, agride antes, por medo de ser agredido, aumentando a gravidade de qual­quer ato sob a coerção do pânico que se lhe instala de mo­mento, ante situações que considera perigosas, evitando racionalizar a atitude, antes parecendo comprazer-se nela, sustentando a sua superioridade sobre o outro, aquele a quem atribui o perigo que lhe ronda.

O seu processo de evolução do pensamento e da consciência, porque estacionado nos remanescentes do período egocêntrico, ora transformado em egoico, estimula esse comportamento inoportuno e prejudicial, cujos efei­tos danosos logo serão sentidos em toda a sua extensão.

O círculo da raiva é vicioso, porque o indivíduo adapta-se a essa injunção, passando a gerar um compor­tamento agressivo, quando não vivenciando uma postura contínua de mau humor.

Essa raiva inditosa é resultado de pequenas frustra­ções e contínuas castrações psicológicas, muitas vezes ini­ciada na constelação familiar, quando pais rigorosos e im­prudentes, violentos e injustos, assumem postura coercitiva em relação aos filhos, impondo-se-lhes, sem a possibilidade de diálogos esclarecedores. Lentamente vão-se acumulando esses estados de amargura pela falta de oportunidade de defesa ou de justificação, que se convertem em revolta surda, explodindo, indevidamente, quando já se faz uma carga muito pesada na conduta.

Por natural necessidade de afirmação da personalida­de, a criança é teimosa, especialmente por falta de discerni­mento, por necessidade de adquirir experiências, gerando atrito com os pais e familiares mais velhos, que nem sem­pre estão dispostos a conversar com esclarecimentos ou sa­bem como equacionar esses conflitos do desenvolvimento intelectual e emocional do educando.

Exigem silêncio, respeito, não permitindo as discus­sões francas e próprias para os esclarecimentos que se tor­nam necessários ao entendimento das situações existenciais e das possibilidades de ação, no que é ou não concernente a cada um cumprir. Também ocorre quando são genitores descuidados que não se interessam pelos problemas da prole, causando-lhe um fundo ressentimento, a princípio inconsciente, para desbordar em raiva acumulada.

Outras vezes, como resultado da timidez, o indiví­duo refugia-se na raiva, e porque não a pode expressar, foge para transtornos profundos que o maceram.

A falta de conhecimento das próprias debilidades emocionais faz que não disponha de equilíbrio para enfrentamentos, competições, discussões, derrapando facil­mente no comportamento infeliz da raiva.

Acidentes automobilísticos, em grande número, são resultado da raiva mal contida de condutores que não se conformam quando outrem deseja ultrapassá-los na rodo­via, nas ruas e avenidas, embora estivessem viajando em marcha reduzida. Sentindo-se subestimado pelo outro -raciocínio muito pessoal e sem fundamento — em vez de cederem a passagem, quando observam que o outro veículo se lhes emparelha, aceleram e avançam ambos, raivosos, até o surgimento de um terceiro em sentido oposto, obedecendo, porém, as regras, no que se transforma em tragédia. Bastasse um pouco de bom-tom, de serenidade, para cooperarem um com o outro, e tudo seria resolvido sem qualquer dano.

Durante os desportos, na política, na religião, na arte, participando ou acompanhando-os, não admitem es­ses aficionados a vitória do outro, a quem consideram adversário, quando é somente competidor, enraivecendo-se e dando lugar a situações graves, muitas vezes redundando em crimes absurdos.

A raiva é choque violento que abala profundamente o ser humano, deixando rastros de desalento e de infelicidade.

Ela está habitualmente presente nos debates domés­ticos, quando os parceiros não admitem ser admoestados ou convidados à reflexão por atitudes incompatíveis com a própria afetividade ou decorrentes de situações que sur­gem, necessárias para os esclarecimentos que facultem a melhora de conduta.

Em vez da análise tranquila do fenômeno, a tirania do ego exalta-o, o instinto de predominância do mais forte ressuma e a pessoa acredita que está sendo diminuída, cri­ticada, passando a reagir antes de ouvir, a defender-se antes da acusação, partindo para a agressão desnecessária, de que sempre arrepende-se depois. 


Joanna de Ângelis








Miramez - Livro Segurança Mediúnica - João Nunes Maia - Cap. 20 - O Passe por Dentro




Miramez - Livro Segurança Mediúnica - João Nunes Maia - Cap. 20


O Passe por Dentro


O passe é um socorro urgente que a Doutrina Espírita adoptou e vem aprimorando cada vez mais nos anos que decorrem da sua existência benfeitora. A aplicação do passe está ao alcance de muitas criaturas, desde que tenham o dom de curar. No entanto, até determinados limites, todos os homens podem aliviar os enfermos pela imposição das mãos e fluidificação das águas.

Podes observar muitas pessoas, mesmo familiares, doentes e machucados, que melhoraram ao simples toque das mãos! Isto acontece todos os dias. As mãos são dotadas de grande poder curador, principalmente quando são movidas por mente que não desconhece as leis do amor, da fraternidade e da fé.

O agente divino circula em todo o nosso corpo e passa pelas mãos, por ordem mental, indo restabelecer o órgão em desequilíbrio ou o tecido desajustado. A mente educada entra em cadeia com outra mente desencarnada que tenha o mesmo ideal e eis que se operam maravilhas em nome da caridade.

A vida é um eterno fluxo e refluxo de energias circulando em ondas, que se fazem e refazem nas gamas correspondentes à harmonia, onde esta se mostrar necessária. A linfa divina vibra em toda parte à espera do pedido, como se fosse oração. É obediente ao comando dos pensamentos e estes, educados com o Cristo, restabelecem os desajustes onde eles estiverem, criam condições de paz onde esta se faz necessária e mantém serenidade onde haja carência de um ambiente tranquilo.

Tudo de bom está ao alcance das mãos. Em torno da nossa mente vibram e cantam, em todas as faixas, ondas de luz de todos os tipos, desejando ser usadas por leis que assessoram o Bem Universal. Como coadjuvante da restauração se encontra o amor, inspirando a mente para exercitar os dons de cura em si mesmo e em todos os companheiros que se encontram sofrendo.

Como aqui tratamos do passe de curar por dentro, este não deixa de ser um autotratamento que o médium, ou a criatura que deseja se curar, pode fazer em si mesmo, confiando nos poderes de Deus e naquilo que pode usar em seu favor. O primeiro passo é a fé. Ela ativa variados meios no organismo para que este se predisponha no sentido de receber o agente curador que, neste caso, pode ser a água fluidificada. Tomar água fluidificada é tomar o passe por dentro. Todavia, deves cooperar com a disposição mental, de modo que te sintas tomando os melhores remédios do mundo. A fé ativa a luz interior em muitas frequências e oferece o restabelecimento para várias enfermidades ou desequilíbrios, inclusive os psíquicos.

Ajuda-te, meu irmão, que o céu te ajudará, dependendo de abrires as portas do teu coração. Começa pela prece, pois ela pode descobrir em ti o tesouro da fé e da crença nas forças superiores da Vida. Descobre Deus em teu próprio coração e pede a Cristo que te leve a essa fonte inesgotável de vida, para que possas viver bem. O nosso interior ainda é desconhecido por nós. Nele reside tudo: o céu, a terra e as estrelas, como cópia exata do Universo.

Que queres mais? Dá os primeiros passos, que os caminhos aparecerão. "Pedi e obtereis", disse Jesus. Pede o que desejas, mas aprende a pedir. Se tens sede, busca a água, pois o Mestre nos disse: "Buscai e achareis".
Deus evita ensinar claramente aos Seus filhos quais os caminhos a tomar, apresentando-nos apenas a direção maior. Nós é que temos de decifrar o código que nos revela a nossa felicidade. O médium, principalmente, deve aprender a tratar de si mesmo, recorrendo aos irmãos de crença em último caso, libertando-se da costumeira dependência. Não queremos, com isso, colocar-te sob a influência do orgulho e ia vaidade.

O passe no centro espírita não deve ser obrigatório, para não cair no fanatismo. Quem está assistindo a uma reunião bem orientada já respira, por lei, os eflúvios superiores que são carreados para ali, em favor de todos os participantes. O passe é mesmo um socorro para quem não sabe manejar as suas próprias qualidades, ou para um doente que não sai do leito ou, ainda, para um que esteja sob forte provação. O passe requer tempo e energias, muitas vezes vindas de longe. A maior intenção da espiritualidade superior é a de que aprendamos os conceitos de Jesus e vivamos neles todos os dias, sem medo de que sejam condicionados na nossa mente.

Procura as causas das enfermidades e não seus efeitos, como fazem na Terra. Consta no Evangelho que não devemos misturar vinho novo em odres velhos, nem remendar roupas velhas com pano novo. E, acima da cura das enfermidades do corpo, existem as doenças da alma, que são as piores. O passe por dentro que devemos receber, encarnados e desencarnados, é a reforma dos nossos costumes, tão falada e anunciada pela nossa literatura.

Esquece o ódio, desconhece o ciúme e a vingança, foge das críticas e das ofensas, porque nesse regime de conserto interior, estamos curando por dentro as velhas enfermidades que nos fazem sofrer. Mas, antes disso, até chegares lá, toma a tua água magnetizada pelo amor e faz a tua terapia no ambiente da oração, pois a alegria não faz esperar e o amor te falará brevemente de Jesus nascendo em teu coração, a dizer-te: "A paz esteja contigo".


Miramez








Emmanuel - Livro Taça de Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 17 - Orar




Emmanuel - Livro Taça de Luz - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 17


Orar


Pedi e obtereis — ensinou o Mestre Divino. Semelhante lição, todavia, abrange todos os setores da vida, tanto no que se refira ao bem, quanto ao mal.

Qualquer propósito é oração.

A prece nasce das fontes da alma, na feição de simples desejo, que emerge do sentimento para o cérebro, transformando-se em pensamento que é força de atração.

Nesse sentido, todo anseio recebe resposta.

Há orações que são atendidas, de imediato enquanto que outras, à maneira de sementes raras, reclamam largo tempo para a germinação, florescimento e frutificação.

Necessário, portanto, vigiar sobre o manancial de nossas aspirações.

As rogativas do bem elevam-se às Esferas Superiores, ao passo que os anelos do mal descem às zonas de purgação das trevas indefiníveis.

Anjos existem, habilitados a satisfazer aos bons, da mesma forma que entidades da sombra se acham a postos, a fim de colaborarem com os maus.

Forneçamos os temas elogiáveis ou infelizes de nossas cogitações mais íntimas e os executores invisíveis se manifestarão ativos, contribuindo na realização de nossos projetos, de conformidade com a natureza de nossas intenções.

Reconhecendo que ainda não sabemos pedir, de vez que, na maioria das vezes, ignoramos a essência de nossas próprias necessidades, imitemos o Divino Amigo, na oração dominical, quando nos ensina a endereçar as nossas súplicas ao Pai Todo-Misericordioso, na base da confiança perfeita: — “Faça-se a Tua Vontade justa e soberana, na Terra e em toda parte”. 

O ensinamento do Cristo guarda absoluta atualidade, nas menores características do nosso tempo, entendendo-se que desejar é função de todos, enquanto que orar com proveito é serviço que raros corações sabem fazer.


Emmanuel





(Psicografado em 1952, no Centro Espírita Luiz Gonzaga, na cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais.)


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Espírito Ayrtes - Livro Tua Casa - João Nunes Maia - Cap. 19 - Teus pensamentos




Espírito Ayrtes - Livro Tua Casa - João Nunes Maia - Cap. 19


Teus pensamentos


Os teus pensamentos são forças cativas ao teu dispor; entretanto, se não usares bem essa energia divina, ficarás escravo dela, porque nunca influenciamos sem sermos influenciados, jamais escravizamos sem sermos escravizados. Essa é uma lei divina e universal; nossos pensamentos são irradiações assimiladas por nós, do pensamento de Deus.

E a bondade do Senhor é tão grande, que nos favorece com o livre arbítrio no campo da formação das idéias e com o que nelas podemos gravar pelos sentimentos. Vejamos a nossa responsabilidade naquilo que pensamos, falamos e fazemos! Precisamos aprender a fazer bem a nossa parte e para que isso aconteça, o nosso melhor caminho é Jesus; Ele nos revelou as leis naturais no Seu Evangelho; mesmo envolvida na letra em alguns pontos, lá se encontra a luz que brilhará em todas as trevas da ignorância humana.

Tem zelo com a tua imaginação na proporção de tuas forças, pois sempre existe alguém invisível te ajudando a pensar e o teu esforço será muito valioso, desde que as tuas intenções sejam nobres. Parece que não, mas as idéias têm vida, sensibilidade e obedecem aos comandos da alma; porém, elas se reúnem com as suas naturezas. O cuidado na formação das idéias é de muita importância para a nossa paz, porque a vida feliz é harmoniosa e a felicidade não é de outra forma.

O argumento desta página é Honestidade. Consolida-se plenamente com o mundo mental e é, pois, um meio que nos ajuda na disciplina dos pensamentos. A honra contigo mesmo favorece a verdade e a consciência encontrará ambiente para a correção das faltas, de maneira que a mentira não escape da nossa limpeza; mentir para nós mesmos é engendrar-nos nas maiores das ilusões, A criatura que já conquistou a probabilidade é sempre tranquila e confia nas suas próprias atitudes, passando a mostrar às outras irmãs a sua sinceridade. Isso se faz e se deve fazer dentro da modéstia, que deve caracterizar o seu modo de ser. Todo Espírito - encarnado e desencarnado - deve alimentar a disposição de sempre avançar, sem esquecer a sua parte de esforço, isto é, a decência impulsionada pelo amor.

Estamos mais apropriadamente falando ao lar, onde existe uma família, um casal que queira nos ouvir; podemos trocar idéias e fazer dessas idéias uma filosofia de vida, para que a vida se torne mais saudável e sejamos mais felizes. 

Ao procurares o leito para o descanso, rememora o que fizeste durante o dia, e corrige no outro dia, se for o caso, alguns deslizes. Entrega o corpo ao descanso no ambiente da oração, que conjugado com uma leitura sadia, é força que te dará tranquilidade no descanso. Se a Terra é uma escola humana, o mundo dos Espíritos é uma universidade espiritual; nunca ficaremos inativos; a vida é um mover-se constante, em todas as dimensões. Confere com o Cristo os teus pensamentos, para que a tua casa fique em paz.


Espírito Ayrtes







Fonte: Tua Casa-pdf

André Luiz - Livro Entre a Terra e o Céu - Chico Xavier - Cap. 40 - Em prece




André Luiz - Livro Entre a Terra e o Céu - Chico Xavier - Cap. 40


Em prece


Um ano depois do casamento de Antonina, dirigimo-nos todos juntos à residência do ferroviário, na qual tantas vezes nos reuníramos entre a prece e a expectação.

A vida marchara como sempre…

Júlio e Leonardo haviam renascido em paz, quase que ao mesmo tempo, trazendo ao mundo elevados programas de serviço. Recém-chegados à Terra, sorriam ingenuamente para nós, conchegados ao colo materno.

Amaro e Zulmira, Silva e Antonina, cônscios das obrigações que haviam assumido, prosseguiam juntos, entrelaçados na mesma compreensão fraternal.

O singelo domicílio mostrava-se magnificamente florido, superlotado de amigos sorridentes.

Lucas e Evelina celebravam os esponsais.

Nos dois Planos, entre encarnados e desencarnados, tudo era esperança e alegria, paz e amor.

Os noivos fitavam-se venturosos e Odila, na função de sacerdotisa do lar, ia e vinha, pondo e dispondo na direção do acontecimento.

Entardecia, quando o juiz, com a felicidade de todos, lido o contrato de matrimônio, pronunciou o clássico “declaro-vos casados em nome da Lei”.

Oscularam-se os nubentes com inexcedível afeto e vimos espantados que Odila, em muda oração, se transfigurava, coroando-se de luz. Desvelou os olhos que se nos afiguraram mais lúcidos e contemplou a filha, embevecidamente.

Obedecendo, porém, a secreto impulso, ao invés de caminhar na direção de Evelina, dirigiu-se para Zulmira, enlaçando-a em lágrimas.

Havia naquele gesto tanto carinho natural e tanto reconhecimento espontâneo, que intensa emotividade nos tomou de assalto. Transfundiam-se ali dois corações maternos, na mesma vibração de paz, haurida na vitória interior pelo dever bem cumprido.

Envolta na faixa de ternura em que se via mergulhada, a segunda esposa de Amaro começou a chorar, possuída de inexprimível contentamento, como se inarticulada melodia do Céu lhe invadisse, por inteiro, o coração.

Ali mesmo, homem tocado de fé viva, o dono da casa rogou a Antonina pronunciasse o agradecimento a Jesus.

A esposa de Silva não vacilou.

Cerrando as pálpebras, parecia procurar-nos em espírito, qual antena vibrátil, atraindo a onda sonora.

Clarêncio abeirou-se dela e, tocando-lhe a fronte com a destra, entrou em meditação. Suavemente impulsionada pelo Ministro, nossa amiga orou com sentida inflexão de voz:

Amado Jesus, abençoa a nossa hora festiva que te oferecemos em sinal de carinho e gratidão.

Ajuda aos nossos companheiros que hoje se consorciam, convertendo-lhes a esperança em doce realidade.

Ensina-nos, Senhor, a receber no lar a cartilha de luz que nos deste no mundo — generosa escola de nossos corações para a vida imortal.

Faze-nos compreender, no campo em que lutamos, a rica sementeira de renovação e fraternidade em que, a todos, nos cabe aprender e servir.

Que possamos, enfim, ser mais irmãos uns dos outros, no cultivo da paz, pelo esforço no bem.

Tu que consagraste a ventura doméstica, nas bodas de Canã, transforma a água viva de nossos sentimentos em dons inefáveis de trabalho e alegria.

Reflete o teu amor na simplicidade de nossa existência, como o Sol se retrata no fio d’água humilde.

Guia-nos, Mestre, para o teu coração que anelamos eterno e soberano sobre os nossos destinos, e que a tua bondade comande a nossa vida é o nosso voto ardente, agora e para sempre. Assim seja.

Calara-se Antonina.

Doce exaltação emotiva pairava em todos os semblantes.

Odila, sensibilizada, reunia Amaro e Zulmira nos braços, quais se lhe fossem filhos do coração.

Fitei a esposa de Silva, de quem o Ministro se afastara, e lembrei a noite em que lhe visitei o domicílio pela primeira vez.

Nunca me esqueci da excursão em que fomos designados para acompanhá-la em visitação ao filhinho, quando ignorávamos totalmente a importância de sua participação no drama que iríamos viver.

Dirigi-me ao instrutor e indaguei se ele, Clarêncio, conhecia a posição de nossa amiga, ao tempo de nosso primeiro contato.

— Sim, sim… — Respondeu, gentil, — mas não lhes dei a conhecer antecipadamente a significação dela no romance vivo que estamos acompanhando, porque todos nós, meu amigo, precisamos reconhecer que o trabalho é a nossa lição. Movamos a mente no serviço que nos compete e adquiriremos a chave de todos os enigmas.

O apontamento era dos mais expressivos, mas não pude delongar a conversação, de vez que Irmã Clara, agora abraçada a Odila, convidava-nos ao regresso.

Entre adeuses cariciosos, Lucas e Evelina haviam tomado o auto que os conduziria a experiências novas na capital bandeirante.

A festa alcançara o fim…

Ao lado de nosso orientador, perguntei, reverente:

— Nossa história terminará, assim, com um casamento risonho, à moda de um filme bem acabado?

Clarêncio estampou o sorriso de sua velha sabedoria e falou:

— Não, André. A história não acabou. O que passou foi a crise que nos ofereceu motivo a tantas lições. Nossos amigos, pelo esforço admirável com que se dedicaram ao reajuste, dispõem agora de alguns anos de paz relativa, nos quais poderão replantar o campo do destino. 

Entretanto, mais tarde, voltarão por aqui a dor e a prova, a enfermidade e a morte, conferindo o aproveitamento de cada um. É a luta aperfeiçoando a vida, até que a nossa vida se harmonize, sem luta, com os Desígnios do Senhor.

O Ministro não logrou prosseguir.

Nossa caravana, constituída por dezenas de companheiros, iniciara a volta.

A viagem, diante do firmamento que acendia flamejantes lumes, não podia ser mais bela…

Chegados, porém, ao Lar da Bênção, notamos que Odila chorava copiosamente.

Aquela alma varonil de mulher vencera a batalha consigo mesma, no entanto, não parecia satisfeita com o próprio triunfo. Clara conseguira-lhe brilhante posição de trabalho nas Esferas mais altas, contudo, nossa heroína revelava-se em penosa consternação.

Penetrando o santuário de Blandina, onde tantas vezes nos reuníramos para examinar os problemas que nos afligiam de perto, o Ministro abraçou-a e recomendou, paternal:

— Odila, enquanto celebramos tua vitória, dize que Céu procuras!

Ela caminhou para Irmã Clara e osculou-lhe a destra, num gesto mudo de reconhecimento e, depois, voltando-se para o nosso instrutor, respondeu com humildade:

— Devotado benfeitor, meu lar terrestre é o meu paraíso…

— Mas não ignoras que o domicílio do mundo não te pertence mais.

— Sim, — concordou a interlocutora, respeitosa, — sei disso, entretanto, desejo servir a ele, sem que ele seja meu… Amo meu esposo por inesquecível companheiro da vida eterna, abençoando a admirável mulher a quem ele agora pertence e que passei a querer por filha de minha ternura… Amo meus filhos, apesar de saber que não podem presentemente sentir o calor de meu coração… Deus sabe que hoje amo sem o propósito de ser amada, que me proponho oferecer-me sem retribuição, a fim de aprender com Jesus a dar sem receber…

A emoção embargou-lhe a voz.

De nosso lado, tínhamos nossos olhos marejados de pranto.

Visivelmente comovido, Clarêncio levantou-lhe a fronte submissa, afagou-lhe os cabelos e, colocando-lhe uma flor de luz sobre o peito, exclamou:

— Onde permanece o nosso amor, aí fulgura o Céu que sonhamos. Mereces o paraíso que procuras. Retorna, Odila, ao teu lar quando quiseres. Sê para o teu esposo e para as almas que o seguem o astro de cada noite e a bênção de cada dia! O amor puro outorga-te esse direito. Volta e ama…

E, quando te ergueres do vale humano, teu coração será como faixa de sol, trazendo ao Cristo os corações que pastorearás no campo imenso da vida!

Odila ajoelhou-se e beijou-lhe as mãos veneráveis.

Nesse instante, funda saudade assomou-me à alma opressa.

Experimentei a estranha sensação do pai que busca inutilmente os filhos arrebatados ao seu carinho. Ave distante da paisagem que a vira nascer, vi-me atormentado pelo anseio de recuperar, de imediato, o meu ninho…

Lágrimas quentes derramavam-se de meu coração pela concha dos olhos e, temendo perturbar a harmonia reinante, demandei o jardim próximo e, sozinho, fitei o firmamento, pintalgado de estrelas…

O vento que soprava célere parecia dizer-me:

— “Confia!…”

O perfume das flores, de passagem por mim, apelava em silêncio:

— “Não te detenhas!”

E as constelações faiscantes, pendendo da Altura, davam-me a impressão de acenos da luz eterna, concitando-me sem palavras:

— “Luta e aperfeiçoa-te! A plenitude do teu amor brilhará também um dia!…”

Então, numa prece de agradecimento ao Pai Celestial, percebi que meu espírito pacificado sorria, de novo, ao toque inefável de sublime esperança.


André Luiz





VÍDEO:

Entre a Terra e o Céu - Cap. 40 - Em prece
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Analisando a obra de André Luiz Entre a Terra e o Céu - Psicografia de Chico Xavier 

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Francisco Xavier - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. 12 - Amai os vossos inimigos - Instruções dos Espíritos - O Duelo - Item 14




Francisco Xavier - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec - Cap. 12 - Amai os vossos inimigos - Instruções dos Espíritos


O Duelo 


14. Que juízo farão de mim, costumais dizer, se eu recusar a reparação que se me exige, ou se não a reclamar de quem me ofendeu? Os loucos, como vós, os homens atrasados vos censurarão; mas, os que se acham esclarecidos pelo facho do progresso intelectual e moral dirão que procedeis de acordo com a verdadeira sabedoria. Refleti um pouco. Por motivo de uma palavra dita às vezes impensadamente, ou inofensiva, vinda de um dos vossos irmãos, o vosso orgulho se sente ferido, respondeis de modo acre e daí uma provocação. Antes que chegue o momento decisivo, inquiris de vós mesmos se procedeis como cristãos? Que contas ficareis devendo à sociedade, por a privardes de um de seus membros? Pensastes no remorso que vos assaltará, por haverdes roubado a uma mulher o marido, a uma mãe o filho, ao filho o pai que lhes servia de amparo? Certamente, o autor da ofensa deve uma reparação; porém, não lhe será mais honroso dá-la espontaneamente, reconhecendo suas faltas, do que expor a vida daquele que tem o direito de se queixar? Quanto ao ofendido, convenho em que, algumas vezes, por ele achar-se gravemente ferido, ou em sua pessoa, ou nas dos que lhe são mais caros, não está em jogo somente o amor-próprio: o coração se acha magoado, sofre. Mas, além de ser estúpido arriscar a vida, lançando-se contra um miserável capaz de praticar infâmias, dar-se-á que, morto este, a afronta, qualquer que seja, deixa de existir? Não é exato que o sangue derramado imprime retumbância maior a um fato que, se falso, cairia por si mesmo, e que, se verdadeiro, deve ficar sepultado no silêncio? Nada mais restará, pois, senão a satisfação da sede de vingança. Ah! triste satisfação que quase sempre dá lugar, já nesta vida, a causticantes remorsos. Se é o ofendido que sucumbe, onde a reparação?

Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão seus atos e palavras a esta máxima: “Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam.” Em se verificando isso, desaparecerão todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das guerras, que são os duelos de povo a povo.


Francisco Xavier
Bordéus, 1861



Francisco Xavier: conhecido como Apóstolo das Índias, amigo e discípulo de Inácio de Loyola, nasceu no castelo de Xavier, em Navarra, no ano de 1506. Célebre por suas numerosas missões na Ásia Oriental e Japão, onde esteve a serviço de Portugal. Em 1542 foi para a Índia, chegando a Goa, antiga colônia portuguesa, nos primeiros dias de maio. Desencarnou naquela cidade em 1552, sendo ali sepultado. (N.T.)



Emmanuel - Livro Opinião Espírita - Emmanuel / André Luiz - Chico Xavier / Waldo Vieira - Cap. 6 - Facho libertador




Emmanuel - Livro Opinião Espírita - Emmanuel / André Luiz - Chico Xavier / Waldo Vieira - Cap. 6


Facho libertador


O Evangelho segundo o Espiritismo — Cap. VI — Item 4


Consolador prometido por Jesus, o Espiritismo alcança o homem por mensageiro divino, estendendo-lhe as chaves da própria libertação.

Rompe os limites que lhe circunvalam o planeta, em forma de horizontes, e descortina-lhe a visão do Universo, povoado de mundos inumeráveis, rasgando a venda de ilusão que lhe empana a ideia da vida.

Funde as grades da incompreensão, entre as quais se acredita cobaia pensante em vale de lágrimas, e fala-lhe da justiça perfeita e da bondade incomensurável do Criador que concede oportunidades iguais a todas as criaturas, nos planos multiformes da Criação, extirpando a cegueira que lhe obscurece o entendimento e ensinando-lhe a reconhecer que deve a si mesmo o bem ou o mal, que lhe repontem da senda.

Parte as grilhetas de sombra, que lhe encerram a inteligência em falsos princípios de maldição e favor, impropriamente atribuídos à Excelsa Providência, e oferece-lhe o conhecimento de reencarnação do Espírito, em aperfeiçoamento gradativo na Terra ou em outros mundos.

Derrete as algemas de tristeza que lhe aprisionam o sentimento, na tenebrosa perspectiva de eterno adeus perante a morte, e clareia-lhe o raciocínio na consoladora luz da sobrevivência, para além da estância física.

Solucionando em cada um de nós os problemas da evolução e do ser, da dor e do destino, o Espiritismo é o facho libertador, desatando correntes de angústia, demolindo muralhas de separação, eliminando clausuras de pessimismo e abolindo cativeiros de ignorância.

Se te encontras, quanto nós, entre aqueles que tanto recebem da Nova Revelação, perguntemos a nós mesmos o que lhe damos em serviço e apoio, cooperação e amor, porque sendo o Espiritismo crédito e prestígio de Cristo entregues às nossas consciências endividadas, é natural que a conta e o rendimento que se relacionem com ele seja responsabilidade em nossas mãos.


Emmanuel





(Psicografia de Francisco C. Xavier)