Allan Kardec - O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 11 - Amar o próximo como a si mesmo - Instrução dos Espíritos
O egoísmo
O egoísmo, chaga da Humanidade, tem que desaparecer da Terra, a cujo progresso moral obsta. Ao Espiritismo está reservada a tarefa de fazê-la ascender na hierarquia dos mundos. O egoísmo é, pois, o alvo para o qual todos os verdadeiros crentes devem dirigir suas armas, suas forças, sua coragem. Digo: coragem, porque dela muito mais necessita cada um para vencer-se a si mesmo, do que para vencer os outros. Que cada um, portanto, empregue todos os esforços a combatê-lo em si, certo de que esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho é a fonte de todas as misérias do mundo terreno. É a negação da caridade e, por conseguinte, o maior obstáculo à felicidade dos homens.
Jesus vos deu o exemplo da caridade e Pôncio Pilatos o do egoísmo, pois, quando o Justo vai percorrer as santas estações do seu martírio, Pilatos lava as mãos dizendo: Que me importa! E diz aos judeus: Este homem é justo, por que o quereis crucificar? E, entretanto, deixa que o conduzam ao suplício.
É a esse antagonismo entre a caridade e o egoísmo, à invasão do coração humano por essa lepra que se deve atribuir o fato de não haver ainda o Cristianismo desempenhado por completo a sua missão. Cabem-vos a vós, novos apóstolos da fé, que os Espíritos superiores esclarecem, o encargo e o dever de extirpar esse mal, a fim de dar ao Cristianismo toda a sua força e desobstruir o caminho dos pedrouços que lhe embaraçam a marcha. Expulsai da Terra o egoísmo para que ela possa subir na escala dos mundos, porquanto já é tempo de a Humanidade envergar sua veste viril, para o que cumpre que primeiramente o expulseis dos vossos corações. – Emmanuel. (Paris, 1861.)
Se os homens se amassem com mútuo amor, mais bem praticada seria a caridade; mas, para isso, mister fora vos esforçásseis por largar essa couraça que vos cobre os corações, a fim de se tornarem eles mais sensíveis aos sofrimentos alheios. A rigidez mata os bons sentimentos; o Cristo jamais se escusava; não repelia aquele que o buscava, fosse quem fosse: socorria assim a mulher adúltera, como o criminoso; nunca temeu que a sua reputação sofresse por isso. Quando o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se na Terra a caridade reinasse, o mau não imperaria nela; fugiria envergonhado; ocultar-se-ia, visto que em toda parte se acharia deslocado. O mal então desapareceria, ficai bem certos.
Começai vós por dar o exemplo; sede caridosos para com todos indistintamente; esforçai-vos por não atentar nos que vos olham com desdém e deixai a Deus o encargo de fazer toda a justiça, a Deus que todos os dias separa, no seu reino, o joio do trigo.
O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade. Digo mais: não haverá segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, a vida será sempre uma carreira em que vencerá o mais esperto, uma luta de interesses, em que se calcarão aos pés as mais santas afeições, em que nem sequer os sagrados laços da família serão respeitados. – Pascal. (Sens, 1862.)
André Luiz - Livro Nos Domínios da Mediunidade - Chico Xavier - Cap. 14
Em serviço espiritual
(Sumário)
Distanciávamo-nos da instituição, quando o marido desencarnado de Dona Celina, cuja presença assinaláramos no decurso da reunião, se aproximou de nós.
Demonstrava conhecer nosso orientador, porque estacou ao nosso lado e exclamou:
— Meu caro Assistente, por obséquio…
Áulus apresentou-nos o novo amigo:
— É o nosso irmão Abelardo Martins. Foi o esposo de nossa cooperadora Celina e vem-se adaptando aos nossos regimes de ação.
Via-se, de pronto, que Abelardo não era uma entidade de escol. As maneiras e a voz traíam-lhe a condição espiritual de criatura ainda profundamente arraigada aos hábitos terrestres.
— Meu caro Assistente — continuou, inquieto —, venho rogar-lhe auxílio em favor de Libório.
O socorro do grupo melhorou-lhe as disposições, mas agora é a mulher que piorou, perseguindo-o…
— Conte conosco — aderiu o orientador, de boa vontade —, contudo, é importante que Celina nos ajude.
E, afagando-lhe os ombros, concluiu:
— Volte à companheira e, tão logo se desligue Celina do corpo, pela influência do sono, traga-a em sua companhia, a fim de que possamos seguir todos juntos. Aguardá-los-emos no jardim próximo.
O interlocutor afastou-se, contente, enquanto penetrávamos enorme praça arborizada.
Detivemo-nos, à espera dos companheiros, e, aproveitando os minutos, Áulus se reportou à solicitação recebida.
Abelardo interessava-se por Libório dos Santos, o primeiro comunicante daquela noite, que víramos amparado, por intermédio de Dona Eugênia.
E, alongando explicações, informou-nos que o esposo de Dona Celina vagueara por muito tempo, em desespero.
Na experiência física, fora um homem temperamental e não se resignara, de imediato, às imposições da morte.
Atrabiliário e voluntarioso, desencarnara muito cedo, em razão dos excessos que lhe minaram a força orgânica.
Tentou, em vão, obsidiar a esposa, cujo concurso reclamava qual se lhe fora simples serva.
Reconhecendo-se incapaz de vampirizá-la, excursionou, alguns anos, no domínio das sombras, entre Espíritos rebelados e irreverentes, até que as orações da companheira, coadjuvadas pela intercessão de muitos amigos, conseguiram demovê-lo.
Curvara-se, enfim, à evidência dos fatos.
Reconheceu a impropriedade da intemperança mental em que se comprazia e, depois de convenientemente preparado pela assistência do grupo de amigos que acabávamos de deixar, foi admitido numa organização socorrista, em que passou a servir como vigilante de irmãos desequilibrados.
Tão logo o Assistente completou a rápida biografia, Hilário considerou, curioso:
— O contato com Abelardo suscita indagações interessantes… Continuará ele, porventura, em comunhão com a esposa?
— Sim — elucidou o orientador —, o amor entre ambos tem profundas raízes no pretérito.
— Apesar da diferença em que se exprimem?
— Por que não? Acaso, o Pai Celestial deixa de amar-nos, não obstante as falhas com que pautamos, ainda, a vida que nos é própria?
— Realmente — concordou meu colega, um tanto desapontado —, este argumento é indiscutível. Entretanto, Abelardo religou-se à mulher?
— Perfeitamente. Nela encontra valioso incentivo ao trabalho de auto-recuperação em que estagia.
— Mas, na posição de Espírito desencarnado, chega a partilhar-lhe o templo doméstico?
— Tanto quanto lhe é possível. Por haver descido consideravelmente à indisciplina e à perturbação, ainda sofre as consequências desagradáveis do desequilíbrio a que se rendeu e, por esse motivo, o lar terreno, com a ternura da esposa, é o maior paraíso que poderá receber por enquanto. Diariamente se entrega ao serviço árduo, na obra assistencial em favor de companheiros ensandecidos, mas descansa, sempre que oportuno, no jardim familiar, ao lado da companheira. Uma vez por semana, acompanha-lhe o culto íntimo de oração, é-lhe firme associado nas tarefas mediúnicas e, todas as noites em que se sentem favorecidos pelas circunstâncias, consagram-se ambos ao trabalho de auxílio aos doentes. Não foram apenas cônjuges, conforme as disposições da carne. São infinitamente amigos e Abelardo agora procura aproveitar o tempo, a benefício do seu reajuste, sonhando receber a esposa com novos títulos de elevação, quando Celina for novamente trazida à pátria espiritual.
— Isso, porém, é comum? A separação dos casais é apenas imaginária?
— Um caso não faz regra — ponderou o Assistente bem-humorado. — Onde não prevalecem as afinidades do sentimento, o matrimônio terrestre é um serviço redentor e nada mais. Na maioria das situações, a morte do corpo somente ratifica uma separação que já existia na experiência vulgar. Nesses casos, o cônjuge que abandona o envoltório físico se retira da prova a que se submeteu, à maneira do devedor que atingiu a paz do resgate. Todavia, quando os laços da alma sobrepairam às emoções da jornada humana, ainda mesmo que surja o segundo casamento para o cônjuge que se demora no mundo, a comunhão espiritual continua, sublime, em doce e constante permuta de vibrações e pensamentos.
Hilário refletiu alguns momentos e conjeturou:
— A travessia pelo túmulo impõe efetivamente ao Espírito singulares modificações… Cada viajor em sua estrada, cada coração com seu problema…
— Bem-aventurados os que se renovam para o bem! — exclamou Áulus, satisfeito. — O verdadeiro amor é a sublimação em marcha, através da renúncia. Quem não puder ceder, a favor da alegria da criatura amada, sem dúvida saberá querer com entusiasmo e carinho, mas não saberá coroar-se com a glória do amor puro. Depois da morte, habitualmente aprendemos, no sacrifício dos próprios sonhos, a ciência de amar, não segundo nossos desejos, mas de conformidade com a Lei do Senhor: mães obrigadas a entregar os filhinhos a provas de que necessitam, pais que se veem compelidos a renovar projetos de proteção à família, esposas constrangidas a entregar os maridos a outras almas irmãs, esposos que são impelidos a aceitar a colaboração das segundas núpcias, no lar de que foram desalojados… Tudo isso encontramos na vizinhança da Terra. A morte é uma intimação ao entendimento fraternal… E quando lhe não aceitamos o desafio, o sofrimento é o nosso quinhão…
E, com largo sorriso, ajuntou:
— Quando o amor não sabe dividir-se, a felicidade não consegue multiplicar-se.
A conversação prosseguia valiosa e animada, quando Abelardo e Celina chegaram até nós.
Vinham reconfortados, felizes.
Em companhia da esposa, o novo amigo parecia mais leve e radiante, como se lhe absorvesse a vitalidade e a alegria.
Notei que Hilário, pela expressão fisionômica, trazia consigo um novo mundo de indagações a exteriorizar.
Contudo, Áulus advertiu:
— Sigamos! É necessário agir com presteza.
A breve tempo, penetramos nebulosa região, dentro da noite.
Os astros desapareceram a nossos olhos.
Tive a impressão de que o piche gaseificado era o elemento preponderante naquele ambiente.
Em derredor, proliferavam soluços e imprecações, mas a pequenina lâmpada que Abelardo agora empunhava, auxiliando-nos, não nos permitia enxergar senão o trilho estreito que nos cabia percorrer.
Findos alguns minutos de marcha, atingimos uma construção mal iluminada, em que vários enfermos se demoravam, sob a assistência de enfermeiros atenciosos.
Entramos.
Áulus explicou que estávamos ali diante de um hospital de emergência, dos muitos que se estendem nas regiões purgatoriais.
Tudo pobreza, necessidade, sofrimento…
— Este é o meu templo atual de trabalho disse-nos Abelardo, orgulhoso de ser ali uma peça importante na máquina de serviço.
O irmão Justino, diretor da instituição, veio até nós e cumprimentou-nos.
Pediu escusas por lhe não ser possível acompanhar-nos. A casa jazia repleta de psicopatas desencarnados e não poderia, dessa forma, deter-se naquele momento.
Deu-nos, porém, permissão para agir com plena liberdade.
A desarmonia era efetivamente tão grande no local que não pude sopitar meu espanto.
Como cogitar de reajuste num meio atormentado quanto aquele?
O Assistente, contudo, amparou-me, aclarando:
— Importa reconhecer que este pouso é um refúgio para desesperados. Segundo a reação que apresentam, são conduzidos, de pronto, a estabelecimentos de recuperação positiva ou regressam às linhas de aflição de que procedem. Aqui apenas atravessam pequeno estágio de recuperação.
Alcançáramos o leito simples em que Libório, de olhar esgazeado, se mostrava distante de qualquer interesse pela nossa presença.
Enxergava-nos, impassível.
Exibia o semblante dos loucos, quando transfigurados por ocultas flagelações.
Um dos guardas veio até nós e comunicou a Abelardo que o doente trazido à internação denotava crescente angústia.
Áulus auscultou-o, paternalmente, e, em seguida, informou:
— O pensamento da irmã encarnada que o nosso amigo vampiriza está presente nele, atormentando-o. Acham-se ambos sintonizados na mesma onda. É um caso de perseguição recíproca. Os benefícios recolhidos no grupo estão agora eclipsados pelas sugestões arremessadas de longe.
— Temos então aqui — aleguei — um símile perfeito do que verificamos comumente na Terra, nos setores da mediunidade torturada. Médiuns existem que, aliviados dos vexames que recebem por parte de entidades inferiores, depressa como que lhes reclamam a presença, religando-se a elas automaticamente, embora o nosso mais sadio propósito de libertá-los.
— Sim — aprovou o orientador —, enquanto não lhes modificamos as disposições espirituais, favorecendo-lhes a criação de novos pensamentos, jazem no regime da escravidão mútua, em que obsessores e obsidiados se nutrem das emanações uns dos outros. Temem a separação, pelos hábitos cristalizados em que se associam, segundo os princípios da afinidade, e daí surgem os impedimentos para a dupla recuperação que lhes desejamos.
O doente fizera-se mais angustiado, mais pálido.
Parecia registrar uma tempestade interior, pavorosa e incoercível.
— Tudo indica a vizinhança da irmã que se lhe apoderou da mente. Nosso companheiro se revela mais dominado, mais aflito…
Mal acabara o orientador de formular o seu prognóstico e a pobre mulher, desligada do corpo físico pela atuação do sono, apareceu à nossa frente, reclamando feroz:
— Libório! Libório! por que te ausentaste? Não me abandones! Regressemos para nossa casa! Atende, atende!…
— Que vemos? — exclamou Hilário, intrigado. — Não será esta a criatura que o serviço desta noite pretende isolar das más influências?
E porque o orientador respondesse de modo afirmativo, meu colega continuou:
— Deus de bondade! mas não está ela interessada no reajustamento da própria saúde? não roga socorro à instituição que frequenta?
— Isso é o que ela julga querer — explicou Áulus, cuidadoso —, entretanto, no íntimo, alimenta-se com os fluidos enfermiços do companheiro desencarnado e apega-se a ele, instintivamente. Milhares de pessoas são assim. Registram doenças de variados matizes e com elas se adaptam para mais segura acomodação com o menor esforço. Dizem-se prejudicadas e inquietas, todavia, quando se lhes subtrai a moléstia de que se fazem portadoras, sentem-se vazias e padecentes, provocando sintomas e impressões com que evocam as enfermidades a se exprimirem, de novo, em diferentes manifestações, auxiliando-as a cultivar a posição de vítimas, na qual se comprazem. Isso acontece na maioria dos fenômenos de obsessão. Encarnados e desencarnados se prendem uns aos outros, sob vigorosa fascinação mútua, até que o centro de vida mental se lhes altere. É por esse motivo que, em muitas ocasiões, as dores maiores são chamadas a funcionar sobre as dores menores, com o objetivo de acordar as almas viciadas nesse gênero de trocas inferiores.
A esse tempo, a recém-chegada conseguira abeirar-se mais intimamente de Libório, que passou a demonstrar visível satisfação. Sorria ele agora à maneira de uma criança contente.
Identificando, porém, a presença de Dona Celina, a infeliz bradou, colérica:
— Quem é esta mulher? dize! dize!…
Nossa abnegada amiga avançou para ela com simplicidade e implorou:
— Minha irmã, acalme-se! Libório está fatigado, enfermo! Ajudemo-lo a repousar!…
A interlocutora não lhe suportou o olhar doce e benigno e, longe de reconhecer a prestimosa médium do grupo a que se associara, enceguecida de ciúme, gritou para o enfermo palavras amargas, que não seria lícito reproduzir, e abandonou o recinto, em desabalada carreira.
— Como vemos, a Bondade Divina é tão grande que até os nossos sentimentos menos dignos são aproveitados em nossa própria defesa. O despeito da visitante, encontrando Celina junto do enfermo, dar-nos-á tréguas valiosas, de vez que teremos algum tempo para auxiliá-lo nas reflexões necessárias. Quando acordar no corpo carnal, pela manhã, nossa pobre amiga lembrar-se-á vagamente de haver sonhado com Libório, ao lado de uma companheira, pintando um quadro de impressões a seu bel-prazer, porquanto cada mente vê nos outros aquilo que traz em si mesma.
Abelardo estava satisfeito. Acariciava o doente, antevendo-lhe as melhoras.
Hilário, semi-espantado, considerou:
— O que me assombra é reconhecer o serviço incessante por toda a parte. Na vigília e no sono, na vida e na morte…
Respondeu Áulus, sorrindo:
— Sim, a inércia é simplesmente ilusão e a preguiça é fuga que a Lei pune com as aflições da retaguarda.
Mas, nossa tarefa estava agora cumprida. E, por isso, afastamo-nos.
Daí a minutos, despedindo-nos, prometeu o Assistente reecontrar-nos, para a continuidade de nossas observações, na noite seguinte.
Vemos aqui o caso de um marido temperamental e atrabiliário que cedo desencarnou e a seguir tentou transformar a viúva em serva, não o conseguindo, sendo ela médium vigilante, de excelsas virtudes. Em conseqüência, tal marido estagiou em zonas purgatoriais até reconsiderar suas atitudes. Aí, então, passou a contar com o auxílio da ex-esposa (embora não seja regra, foi-lhe permitido semanalmente se aproximar do antigo lar), onde a acompanha no culto íntimo da oração e nas tarefas mediúnicas.
É citado o "piche gaseificado" que predomina nos ambientes trevosos.
Há proveitosa lição sobre obsessão recíproca entre encarnado e desencarnado.
Ressentimento não se constitui tão só do azedume que se nos introduz no espírito, quando a incompreensão nos torna intolerantes, à frente das grandes dificuldades de alguém.
Existem igualmente os pequeninos contratempos do cotidiano que, sem a precisa defesa da vigilância, acabam por transformar-nos o coração em vaso de fel, a expelir germes de obsessão e desequilíbrio, ambientando a enfermidade ou favorecendo a morte.
Analisemos essas diminutas irregularidades que nos será lícito classificar como sendo cargas de sombra íntima:
o descontentamento à mesa porque a refeição não apresente o prato ideal;
a impaciência ante a condução retardada;
a indisposição contra o clima;
a contrariedade em serviço;
o constrangimento para desculpar um amigo;
o mal-estar perante um desafeto;
o melindre desperto, em ouvindo opiniões que se nos mostrem desfavoráveis;
o desagrado nas compras;
o desgosto injustificável em família, unicamente pelo motivo desse ou daquele parente não pensar pela nossa cabeça;
os cuidados exagerados com obstáculos naturais na experiência comum;
a pressa e a agitação desnecessárias;
o descontrole ante uma visita-problema;
a exasperação diante de uma tarefa extra-programa;
o desespero contra as provas inevitáveis que a vida nos oferece a cada um.
Tanto pesa na balança o quilo de chumbo em massa, quanto o quilo de palha nela depositado, de haste em haste.
Meditemos, em torno disso, e reconheceremos que o perdão incondicional deve também alcançar as mínimas circunstâncias que se nos façam adversas.
Em síntese, para que a paz more conosco, assegurando-nos proveito e alegria, nos caminhos do tempo, é forçoso não apenas trabalhar e servir sempre, mas igualmente compreender e abençoar.
Emmanuel - Livro Ceifa de Luz - Chico Xavier, Cap. 06
Em ti próprio
“De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.” — PAULO (Romanos, 14:12)
Escutarás muita gente a falar de compreensão e talvez que, sob o reflexo condicionado, repetirás os belos conceitos que ouviste, através de preleções que te angariarão simpatia e respeito.
Entretanto, se não colocares o assunto nas entranhas da alma, situando-te no lugar daqueles que precisam de entendimento, quase nada saberás de compreensão, além da certeza de que temos nela preciosa virtude.
Falarás de paciência e assinalarás muitas vozes, em torno de ti, referindo-se a ela, no entanto, se no imo do próprio ser não tens necessidade de sofrer por algum ente amado, muito pouco perceberás, acerca de calma e tolerância.
Exaltarás o amor, a bondade, a paz e a união, mas se nas profundezas do espírito não sentires, algum dia, o sofrimento a ensinar-te o valor da nota de consolação sobre a dor de que te lamentas; a significação da migalha de socorro que outrem te estenda em teus dias de carência material; a importância da desculpa de alguém a essa ou àquela falta que cometeste e o poder do gesto de pacificação da parte de algum amigo que te restituiu a harmonia, em tuas próprias vivências, ignorarás realmente o que sejam entendimento e generosidade, perdão e segurança íntima.
Seja qual seja a dificuldade em que te vejas, abstém-te de carregar o fardo das aflições e das perguntas sem remédio.
Penetra no silêncio da própria alma, escuta os pensamentos que te nascem do próprio ser e reconhecerás que a solução fundamental de todos os problemas da vida surgirá de ti mesmo.
Ermance Dufaux - Livro Escutando Sentimentos: a Atitude de Amar-nos Como Merecemos - Wanderley S. de Oliveira - Prefácio
Escutando a Alma
"Ouça quem tem ouvidos de ouvir." O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. 17 - Item 5
Os apontamentos aqui organizados constituem indicativas às preces angustiadas de milhões de almas que anseiam a felicidade sem saber como e o que fazer para alcançá-la.
Inúmeras dessas rogativas partem de corações queridos iluminados com o conhecimento espírita. Aflitos uns, desanimados outros, apesar do clarão do saber doutrinário, sentem-se frustrados ao examinarem sua vida interior. Tarefas e orientação, prece e esforço, segundo suas súplicas, não têm sido suficientes. Continuam, dia após dia, carregando o martírio mental sem soluções ou alternativas de sossego e paz interior.
Adentramos o período da maioridade. O Espiritismo é uma semente viçosa e promissora cultivada com sacrifício e renúncia por lavradores heroicos. Contudo, de que servirá as sementes se não forem lançadas no terreno fértil? É sob o Sol escaldante deste momento de transição que nos compete lavrar o chão e dominar o arado para o plantio de um novo tempo na própria intimidade.
O período de maioridade das ideias espíritas será alcançado com a instauração das atitudes de amor em nossas relações. Para isso, torna-se indispensável aprofundar a sonda da investigação mental no reino subjetivo dos sentimentos.
Quando conseguirmos melhor desenvoltura para mapear nossa vida moral com intenções nobres, renovaremos a conduta manifestando serenidade e autocontrole. O caminho é universal. É o mesmo para todos: o bem e o amor. A forma de caminhar, porém, é essencialmente individual, particular.
A mensagem espírita, em muitas ocasiões, é difundida como ameaça e recebida como tormenta por muitos adeptos. Ressalta excessivamente as feridas, estipulam rigidez de conduta e excessos normativos. Urge dar um '"novo sentido" à mensagem consoladora. A Doutrina Espírita é a Boa Nova dos tempos modernos. Sua mais nobre característica consoladora somente será comprovada quando seus postulados estiverem a serviço da libertação de consciências, através da responsabilidade e do amor.
Nas preces angustiadas de muitos adeptos, ouvimos as indagações: "O que me falta fazer para ser feliz?", "Onde estou falhando?", "Será uma obsessão que me persegue?', "Por que me encontro assim?", "Não deveria estar melhor?", "Como harmonizar padrões doutrinários com sentimentos pessoais?." E as questões multiplicam ao infinito traduzindo apelos comoventes e dúvidas sinceras.
A pedido de Doutor Bezerra de Menezes - amorável tutor das dores humanas - destinamos ao mundo físico este volume singelo. Aqui anotamos alguns ensinos inesquecíveis que marcaram a visita de uma semana do instrutor Calderaro ao Hospital Esperança, cuja missão foi a realização de serviços complexos nas mais profundas plagas de sofrimento da erraticidade.
Nossos núcleos de amor cristão e espírita alicerçaram bases seguras para informação doutrinária no século XX. Compete-nos agora semear o afeto, as propostas renovadoras do coração, o desenvolvimento das habilidades emocionais. O século XXI é o século do sentimento.
Trabalhar pelo desenvolvimento dos potenciais e das virtudes humanas, esse o objetivo sagrado da mensagem imortalista do Espiritismo no século XXI. Educar para ser, educar para conviver bem consigo, educar para ser feliz, eis os pilares da harmonia interior e da felicidade à luz do Espírito imortal neste século do coração.
A informação consola e instrui. A transformação liberta e moraliza.
A informação impulsiona. A transformação descobre.
Os informados pensam. Os transformados criam.
A teoria impulsiona a busca de novos valores. A reeducação dos sentimentos enseja a paz interior.
As diretrizes doutrinárias estimulam convenções que servem de limites disciplinadores. A renovação da sensibilidade conduz-nos ao encontro da singularidade que permite a plenitude íntima.
Inteligência - o instrumento evolutivo para as conquistas de fora.
Sentimento - conquista evolutiva para aquisições íntimas.
Na acústica da alma existem mensagens sobre o Plano do Criador para nosso destino. Aprender a ouvi-las é exercitar, diariamente, a plena atenção aos ditames libertadores dos sentimentos. Interferências internas e externas subtraem-nos, constantemente, a apreensão desses "recados do coração".
Escutar os sentimentos não significa adotá-los prontamente, mas aceitá-los em nossa intimidade e criar uma relação amigável com todos eles. Aceitá-los sem reprimir ou se envergonhar. Essa atitude é o primeiro passo para um diálogo educativo com nosso mundo íntimo. Somente assim teremos uma conexão com nossa real identidade psicológica, possibilitando a rica aventura do autodescobrimento no rumo da singularidade - a identidade cósmica do Espírito.
Escutar os sentimentos é cuidar de si, amar a si mesmo. É uma mudança de atitude consigo. O ato de existir ocorre no sentimento. Quem pensa corretamente sobrevive; quem sente nobremente existe. O pensamento é a janela para a realidade; o sentimento é o ponto de encontro com a Verdade. É pela nossa forma de sentir a vida que nos tornamos singulares, únicos e celebramos a individualidade. Quando entramos em sintonia com nossa exclusividade e manifestamos o que somos, a felicidade acontece em nossas vidas.
O sentimento é a maior conquista evolutiva do Espírito. Aprendendo a escutá-lo, estaremos entendendo melhor a nossa alma. Não existe um só sentimento que não tenha importância no processo do crescimento pessoal. Quando digo a mim mesmo "não posso sentir isto", simplesmente estou desprezando a oportunidade de autoinvestigação, de saber qual é ou quais são as mensagens profundas da vida mental.
O exercício do autoamor está em aprender a ouvir a "voz do coração", pois nele residem os ditames para nossa paz e harmonia.
Os sentimentos são guias infalíveis da alma na sua busca de ascensão e liberdade. O autoamor consiste na arte de aprender a escutá-los, estudar a linguagem do coração.
Pela linguagem dos sentimentos, entendemos o "apoio" do universo a nosso favor. Mas como seguir nossos sentimentos com tantas ilusões? Eis a ingente tarefa de nossos grêmios de amor espírita-cristão: educar para ouvir os nossos sentimentos. Radiografar nosso coração. Desenvolver estudos sistematizados de si mesmo.
Temos nos esforçado tanto quanto possível para aplicar as orientações da doutrina com nosso próximo. Mas... E nós? Como cuidar de nós próprios? A proposta libertadora de Jesus estabelece: "amai ao próximo", e acrescenta: "como a ti mesmo".
Os impulsos do self não atendidos, com o tempo, transformam-se em tristeza, angústia, desânimo, mau-humor, depressão, irritação, melindre e insatisfação crônica.
Além dos fatores de ordem evolutiva, encontramos gravames sociais para a questão da baixa autoestima.
As gerações nascidas na segunda metade do século XX atingem o alvorecer do século XXI com "feridas psicológicas" profundas resultantes de uma sociedade repressiva, cujas relações de amor, com raras e heroicas exceções, foram vividas de modo condicional através de exigências. Para ser amada, a criança teve que atender a estereótipos de conduta. Um amor compensatório. Um rigor que afasta o ser humano de sua individualidade soterrando sua vocação, seus instintos, suas habilidades e até mesmo imperfeições. O pior efeito dessa repressão social é a distância que se criou dos sentimentos.
Essa geração pós-guerra vive na atualidade o conflito decorrente de céleres mudanças na educação e na ciência, que constrange ao gigantesco desafio de responder à intrigante questão: quem sou eu?
Paciência, atenção, perdão, tolerância, não julgamento, caridade e tantos outros ensinos do Evangelho que procuramos na relação com o próximo, devem ser aplicados, igualmente, a nós mesmos. Então surge a pergunta: Como?
Distante de nós a pretensão de responder. Nossa proposta consiste em oferecer alguns subsídios para pensarmos juntos sobre essa questão. Moveu-nos apenas o sentimento de ser útil, compartilhar vivências que suscitem o debate, a reflexão conjunta, a meditação e o estudo em nossos grupos de amor espírita e cristão. Grupos dispostos a compreender a linguagem emocional sob a ótica da imortalidade.
Temos no Hospital Esperança os grupos de reencontro, que são atividades de psicologia da alma com fins terapêuticos e educacionais - verdadeiras oficinas do sentimento. No plano físico, atividades similares poderão constituir uma autêntica pedagogia de contextualização para a mensagem de amor contida no Evangelho e na codificação Kardequiana.
Nestas páginas oferecemos alguns enfoques elementares para a composição de grupos de estudos à luz da mensagem renovadora do Espiritismo, cujo objetivo seja discutir o ingente desafio de aprender a amar a nós mesmos tanto quanto merecemos, promovendo o desenvolvimento pessoal à luz da imortalidade. Grupos de reencontro que se estruturem como encantadoras oficinas do coração.
Nossos textos nada possuem de conclusivos. Ao contrário, são sugestões singelas com intuito de serem debatidos, pesquisados e contestados, visando ampliação do entendimento e uma reformulação de conceitos sobre a arte de sentir e viver. Exaramos algumas ideias que nos auxiliam a pensar em nosso bem sem sermos egoístas, conquistarmos autonomia sem vaidade, galgarmos os degraus do autoamor sem arrogância.
Fique claro: autoamor não é treinar o pensamento para beneficiar a si, mas educar o sentimento para "escutar" Deus em nós. Descobrir nosso valor pessoal na Obra da Criação.
Tecemos nossas considerações inspiradas em O Evangelho Segundo O Espiritismo. As palavras imorredouras da Boa Nova constituem o cânone mais completo de psicologia da felicidade para os habitantes do planeta Terra.
Façamos o mergulho interior na fala do Mestre: "Ouça quem tem ouvidos de ouvir."
Em outra ocasião (...) voltou-se para a multidão, e disse: quem tocou nas minhas vestes? (1). Escutando e auscultando o coração feminino que lhe procurou rico de sensibilidade e afeto.
Escutemos a alma e suas manifestações no coração! Celebremos a experiência de amarmo-nos tanto quanto merecemos!
O eminente Doutor Carl Gustav Jung asseverou: "Nenhuma circunstância exterior substitui a experiência interna. E é só à luz dos acontecimentos internos que entendo a mim mesmo. São eles que constituem a singularidade de minha vida" (2).
Escutemos os sentimentos e nossa vida terá mais encanto, alegria e paz.
Nutrida pelas melhores esperanças de cooperar e servir, destino aos leitores e amigos de ideal um abraço afetuoso.
Ermance Dufaux
Setembro de 2006
(1) Mateus 9:29.
(2) C. G. Jung, "Entrevistas e Encontros", Editora Cultrix.
SELF*
"É o arquétipo da totalidade, isto é, tendência existente no inconsciente de todo ser humano à busca do máximo de si mesmo e ao encontro com Deus. É o centro organizador da psiquê. É o centro do aparelho psíquico, englobando o consciente e o inconsciente. Como arquétipo, se apresenta nos sonhos, mitos e contos de fadas como uma personalidade superior, como um rei, um salvador ou um redentor. É uma dimensão da qual o ego evolui e se constitui. O Self é o arquétipo central da ordem, da organização. São numerosos os símbolos oníricos do Self, a maioria deles aparecendo como figura central no sonho".
(trecho extraído da obra "Mito Pessoal e Destino Humano" do escritor espírita e psicólogo Adenáuer Novaes)
SOMBRA*
"É a parte da personalidade que é por nós negada ou desconhecida, cujos conteúdos são incompatíveis com a conduta consciente".
(trecho extraído da obra "Psicologia e Espiritualidade" do escritor espírita e psicólogo Adenáuer Novaes).
* Nota do Médium: Conceitos Junguianos usados pela autora espiritual na obra.
Miramez - Livro Cura-Te a Ti Mesmo - João Nunes Maia - Pág. 47
Persistência
O milagre da fé
Quando falamos em fé, abre-se na alma um campo imenso de alegria, pois foi Jesus quem valorizou a confiança nas criaturas, quando dizia “A tua fé te curou”.
Conscientizemo-nos de que temos em nós todas as qualidades que poderão nos levar à felicidade, curando todos os nossos desequilíbrios, removendo todas as nossas enfermidades, caso as tenhamos. Podemos dizer que esse é o milagre da fé, força poderosa que reside em nós em forma de valores da vida, que bastam ser despertados em nosso próprio bem, que o Bem maior já aconteceu com a doação destes dons incomparáveis de vida eterna, pela Misericórdia Divina.
No entanto, para que possamos esperar essas luzes na nossa intimidade, convém saber que é necessário cultivar a persistência, na busca da ciência do amor, na constância da caridade bem orientada, na perseverança do perdão a todos aqueles que nos ofendem e caluniam, na firmeza de todos os ideais da fraternidade. Tendo essa firmeza até o fim, seremos salvos das investidas do mal, alcançando a harmonia em todos os sentimentos.
A fé é força divina, sendo o conjunto das virtudes que se apoderam da nossa consciência, instalando o amor em nosso coração. O Espírito, mesmo movendo-se em um corpo físico, pode acionar as forças da fé; depende dele mesmo, no aprimoramento das suas qualidades, no campo dos sentimentos, alinhavando, todos os dias, a força mental na educação dos seus próprios pensamentos, cuja convivência com eles ainda são segredos, sendo área enorme para ser trabalhada pela, disciplina, como pela instrução.
Todavia, não podemos esmorecer; ao contrário, devemos enfrentar todos os meios de educar e aprender, que a ação de Deus não se fará esperar. O tempo vai nos revelando a verdade, de acordo com o crescimento das qualidades. Vale dizer que sejamos perseverantes no ideal do bem comum, confiando sempre em Deus, que Ele não nos deixará órfãos. Pelas vias dos benfeitores espirituais, o Senhor nos ajuda e, para tanto, tenhamos Fé.
Como nos fala o Evangelho Segundo o Espiritismo, “a fé é a substância das coisas pensadas”, e nós dizemos que ela é também a sublimidade dos nossos sentimentos e a segurança da nossa vida.
Onde estiveres, tem certeza do que estás fazendo, para que te firmes no conhecimento da verdade. Em tudo a força da fé penetra, tomando-se um milagre da natureza em nosso benefício, compreendendo que é vontade de Deus que, pela verdadeira fé, faça o Cristo em nós como motivo da glória celestial.
No futuro, a própria medicina haverá de consubstanciar-se na fé, porque ela predispõe o organismo para a cura de si mesmo. Toda alma perseverante no bem alcança a presença do Criador em todos os seus caminhos e vive feliz, por escutar a voz de Jesus a lhe dizer “A paz seja contigo” e mais adiante, torna a ouvir: “A tua fé te curou!”
Todo aquele perseverante nas lições do Mestre ganha terreno no ambiente do amor e quem ama nas modalidades que Jesus ensinou e viveu, sente a claridade dos Céus a convidá-lo para a felicidade.