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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

André Luiz - Livro Nosso Lar - Chico Xavier - Cap. 27 - O trabalho, enfim



André Luiz - Livro Nosso Lar - Chico Xavier - Cap. 27


O trabalho, enfim


Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos. Não era bem o hospital de sangue, nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica. Era uma série de câmaras vastas, ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos.

Singular vozerio pairava no ar. Gemidos, soluços, frases dolorosas pronunciadas a esmo… Rostos escaveirados, mãos esqueléticas, faces monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.

Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar.

Tobias, imperturbável, chamou velha servidora, que acudiu atenciosamente:

— Vejo poucos auxiliares, — disse admirado, — que aconteceu?

— O Ministro Flácus, — esclareceu a velhinha em tom respeitoso, — determinou que a maioria acompanhasse os Samaritanos [1] para os serviços de hoje, nas regiões do Umbral.

— Há que multiplicar energias, — tornou ele sereno, — não temos tempo a perder.

— Irmão Tobias!… Irmão Tobias!… Por caridade! — Gritou um ancião, gesticulando, agarrado ao leito, à maneira de louco, — estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra… Socorro! Socorro! Quero sair, sair!… quero ar, muito ar!

Tobias aproximou-se, examinou-o com atenção e perguntou:

— Por que teria o Ribeiro piorado tanto?

— Experimentou uma crise de grandes proporções, — explicou a serva, — e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios, emitidos pelos parentes encarnados, era a causa fundamental desse agravo de perturbação. Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo, o pobre não tem resistido, como seria de desejar.

Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo, a serviçal prosseguia esclarecendo:

— Hoje, muito cedo, ele se ausentou sem consentimento nosso, a correr desabaladamente. Gritava que lhe exigiam a presença no lar, que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos; que era crueldade retê-lo aqui, distante do lar. 

Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito, mas foi impossível. Deliberei, então, aplicar alguns passes de prostração. Subtraí-lhe as forças e a motilidade, a benefício dele mesmo.

— Fez muito bem, — acentuou Tobias, pensativo, — vou pedir providências contra a atitude da família. É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações, para que nos deixe o Ribeiro em paz.

Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima, verificando a legítima expressão de um dementado. Chamara Tobias, como a criança que conhece o benfeitor, mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito.

Notando-me a admiração, o novo orientador explicou:

— O pobrezinho permanece na fase de pesadelo, em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias. O homem, meu caro, encontra na vida real o que amontoou para si mesmo. Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões.

Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos, conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação; entretanto, recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias, relativas à curiosidade, e calei. 

Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança. Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras, que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama. Ribeiro, muito trêmulo, rosto ceráceo, esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas.

Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas, sentindo a desagradável exalação ambiente, oriunda, como vim a saber mais tarde, das emanações mentais dos que ali se congregavam, com as dolorosas impressões da morte física e, muita vez, sob o império de baixos pensamentos.

— Reservam-se estas câmaras, — explicou o companheiro bondosamente, — apenas a entidades de natureza masculina.

— Tobias! Tobias… Estou morrendo à fome e sede! — Bradava um estagiário.

— Socorro, irmão!… — Gritava outro.

— Por amor de Deus!… Não suporto mais!… — Exclamava ainda outro.

Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas, não contive a interrogação penosa:

— Meu amigo, como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados! Por que este quadro angustioso?

Tobias respondeu sem se perturbar:

— Não devemos observar aqui somente dor e desolação. Lembre, meu irmão, que estes doentes estão atendidos, que já se retiraram do Umbral, onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes, descuidosos de si mesmos.  

Nestes pavilhões, pelo menos, já se preparam para o serviço regenerador. Quanto às lágrimas que vertem, recordemos que devem a si próprios esses padecimentos. A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração.

E depois de uma pausa, em que parecia surdo a tantos clamores, acentuou:

— São contrabandistas na vida eterna.

— Como assim? — Atalhei, interessado.

O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme:

— Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos Planos do Espírito. Supunham que o prazer criminoso, o poder do dinheiro, a revolta contra a lei, a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também, oferecendo-lhes ensejos a disparates novos. 

Foram negociantes imprevidentes. Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais. Não aprenderam as mais simples operações de câmbio no mundo. 

Quando iam a Londres, trocavam contos de réis por libras esterlinas; entretanto, nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade. Agora… que fazer? Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma.

Realíssimo! Tobias não podia ser mais lógico.

Meu novo instrutor, após distribuir conforto e esclarecimento a granel, conduziu-me a vasta câmara anexa, em forma de grande enfermaria, notificando:

— Vejamos alguns dos infelizes semimortos.

Narcisa, a servidora, acompanhava-nos, solícita. Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa. Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos, evidenciando apenas leves movimentos de respiração.

Fazendo gesto significativo com o indicador, Tobias esclareceu:

— Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes. Chamamos-lhes crentes negativos. 

Ao invés de aceitarem o Senhor, eram vassalos intransigentes do egoísmo; ao invés de crerem na vida, no movimento, no trabalho, admitiam somente o nada, a imobilidade e a vitória do crime. 

Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e, como não tinham qualquer ideia do bem, a serviço da coletividade, não há outro recurso senão dormirem longos anos, em pesadelos sinistros.

Não conseguia externar meu espanto.

Muito cuidadoso, Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento, sob meus olhos atônitos. Finda a operação nos dois primeiros, começaram ambos a expelir negra substância pela boca, espécie de vômito escuro e viscoso, com terríveis emanações cadavéricas.

— São fluidos venenosos que segregam, — explicou Tobias, muito calmo.

Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza, mas debalde. Grande número deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida. Foi então, que, instintivamente, agarrei-me aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor.

A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão, ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos.

O serviço continuou por todo o dia, custando-me abençoado suor, e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo, na enfermagem rudimentar.


André Luiz


[1] Organização de Espíritos benfeitores em “Nosso Lar”. — Nota do autor espiritual.



VÍDEO: 


Nosso Lar - Cap. 27- Parte 01-02-03 - O trabalho, enfim
O Espírito da Letra 

Apresentação: André Luiz Ruiz 










O Espírito da Letra - Nosso Lar - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier.




quinta-feira, 3 de junho de 2021

Chico Xavier - Livro A Terra e o Semeador - Emmanuel / Chico Xavier - Cap 7 - Autorretrato




Chico Xavier - Livro A Terra e o Semeador - Emmanuel / Chico Xavier - Cap 7


Autorretrato


Símbolo do amor simples e puro, da humildade e da bondade, Francisco Cândido Xavier o famoso médium — é hoje focalizado de Transinha (1). Respondendo 19 perguntas, em momento algum, esquivou-se e procurou demonstrar em todas, um retrato singelo da verdade, a verdade que se vê tangida em sua própria pessoa. Dispensamos a colocação das perguntas porque as respostas estão dizendo tudo.


— O TRABALHO

R — O trabalho foi sempre para mim uma bênção de paz e refazimento, com o qual encontro o esquecimento, pelo menos temporário, das imperfeições que carrego.


Chico Xavier 




(1) Entrevista de Vera Arantes Campos, responsável pela seção “Transinha” do “Jornal da Manhã”, Uberaba, MG, 17 de agosto de 1972.




Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Santo Agostinho - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IX, Junho de 1866 - Dissertações espíritas - O trabalho




Santo Agostinho - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IX, Junho de 1866 - Dissertações espíritas


O trabalho


A medida do trabalho imposto a cada Espírito, encarnado ou desencarnado, é a certeza de ter realizado escrupulosamente a missão que lhe foi confiada. Ora, cada um tem uma missão a cumprir: este, numa grande escala, aquele em escala menor. Entretanto, relativamente, as obrigações são todas iguais e Deus vos pedirá conta do óbolo posto em vossas mãos. Se ganhastes uma vantagem, se dobrastes a soma, certamente cumpristes o vosso dever, porque obedecestes à ordem suprema. Se, em vez de ter aumentado este óbolo o tivésseis perdido, é certo que teríeis abusado da confiança que o vosso Criador tinha depositado em vós; por isso, sereis tratado como um ladrão, porque tomastes e não restituístes; longe de aumentar, dissipastes. Ora, se, como acabo de dizer, cada criatura é obrigada a receber e dar, quanto mais, espíritas, tendes de obedecer a essa lei divina, tanto mais esforço deveis fazer para cumprir este dever perante o Senhor, que vos escolheu para partilhar seus trabalhos e vos convidou à sua mesa. Pensai, meus irmãos, que o dom que vos é dado é um dos soberanos bens de Deus. Não vos envaideçais por isto, mas envidai todos os esforços para merecer este alto favor. Se os títulos que poderíeis receber de um grande da Terra, se os seus favores são algo de belo aos vossos olhos, tanto mais vos deveríeis sentir felizes com os dons do Senhor dos mundos; dons incorruptíveis e imperecíveis, que vos elevam acima de vossos irmãos e para vós serão a fonte de alegrias puras e santas!

Mas quereis ser os seus únicos possuidores? Como egoístas, quereríeis guardar só para vós tanta felicidade e alegria? Oh! não; fostes escolhidos como depositários. As riquezas que brilham aos vossos olhos não são vossas, mas pertencem a todos os vossos irmãos em geral. Deveis, pois, aumentá-las e distribuí-las. Como o bom jardineiro que conserva e multiplica suas flores, e vos apresenta no rigor do inverno as delícias da primavera; como no triste mês de novembro nascem rosas e lírios, assim estais encarregados de semear e cultivar em vosso campo moral, flores de todas as estações, flores que desafiarão o sopro do aquilão e o vento sufocante do deserto; flores que, uma vez desabrochadas em seus pedicelos, não passarão nem jamais murcharão; mas, brilhantes e vivazes, serão o emblema da verdura e das cores eternas. O coração humano é um solo fértil em afeição e em doces sentimentos, um campo cheio de sublimes aspirações, quando cultivado pelas mãos da caridade e da religião.

Oh! não reserveis apenas para vós esses pedúnculos sobre os quais crescem sempre tão doces frutos! Oferecei-os aos vossos irmãos, convidai-os a vir saborear, sentir o perfume de vossas flores, a aprender a cultivar os vossos campos. Nós vos assistiremos, encontraremos regatos frescos que, correndo suavemente, darão força às plantas exóticas, que são os germes da terra celeste: Vinde! trabalharemos convosco, partilharemos vossa fadiga, a fim de que também possais acumular esses bens e deles fazer participar outros irmãos, em caso de necessidade. Deus nos dá e nós, reconhecidos por seus dons, os multiplicamos o mais possível. Deus nos incumbe da nossa própria melhoria e da dos outros; cumpriremos nossas obrigações e santificaremos sua vontade sublime.

Espíritas, é a vós que me dirijo. Preparamos o vosso campo; agora agi de maneira que todos que necessitarem possam fruir largamente. Lembrai-vos de que todos os ódios, todos os rancores, todas as inimizades devem desaparecer diante de vossos deveres: instruir os ignorantes, assistir os fracos, ter compaixão dos aflitos, defender os inocentes, lastimar os que estão no erro e perdoar aos inimigos. Todas essas virtudes devem crescer em abundância no vosso campo, e deveis implantá-las nos dos vossos irmãos. Recolhereis uma ampla colheita e sereis abençoados por vosso Pai, que está nos céus!

Meus caros filhos, quis dizer-vos todas essas coisas, a fim de vos encorajar a suportar com paciência todos aqueles que, inimigos da nova doutrina, buscam vos denegrir e vos afligir. Deus está convosco, não o duvideis. A palavra de nosso Pai celeste desceu ao vosso globo, como no dia da criação. Ele vos envia uma nova luz, luz cheia de esplendor e de verdade.

Aproximai-vos, ligai-vos estreitamente a ele e segui corajosamente o caminho que se abre à vossa frente.


Santo Agostinho