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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Henrique - Livro Claramente Vivos - Familiares diversos / Chico Xavier - Cap. 6 - Somos o que sentimos




Henrique - Livro Claramente Vivos - Familiares diversos / Chico Xavier - Cap. 6 - Somos o que sentimos



“Veia” (1) querida, abençoe seu filho, enquanto rogo a Deus nos proteja a todos. É verdade por dentro do coração.

Creio que ainda não havia encontrado uma noite de Natal com a sua companhia, na alegria iluminada de preces e lágrimas, quanto a de hoje.

Creia, Dona Augustinha, que o Livro da Vida é feito de páginas vivas, que às vezes nos sangram o coração. Mas não apenas pelas impressões de interpretação difícil do sofrimento que observamos nos outros, mas sobretudo de alegria indefinível ante o mergulho de nosso entendimento nas Leis de Deus.

Agora, vejo melhor. A dor é uma oportunidade. A luta da Terra é um desafio à nossa capacidade de compreender e auxiliar.

Hoje, tivemos uma noite da Família Maior. Em cada criatura que visitamos, vi a imagem dos nossos entes queridos. Estranho pensar que precisamos, por vezes, de perder o espólio das células físicas para enxergarmos a realidade.

Por aí, a gente promete, promete e promete, mas raramente não se adia a execução dos votos formulados. Não sei realmente se teria penetrado a beleza do Natal, se estivesse aí vestindo a farda do corpo denso.

Talvez que numa hora desta, com certeza falaria em Natal, distanciadamente, qual se Jesus houvesse sido no mundo um nome raro ou um grande artista da bondade que nos bastaria admirar.

Entretanto, “Veia” querida, meus companheiros de festa, hoje, em sua companhia, foram meu pai Gastão, foi o amigo Oscar, o meu avô Manoel e o meu tio Labieno, sem falar do nosso caro amigo Alvicto (2) e outros muitos que partilhamos a visitação fraterna, em nome do Eterno Amigo.

O nome de Jesus soou nesta noite para seu filho com novo sentido. O nome santo que eu nem sempre soube entender, demonstrava o pranto de alegria dos enfermos algemados aos catres de purgação, significava a expectativa de tantas crianças que fitavam o pão como quem encontra um tesouro; expressava a esperança das mães agoniadas de dor com a perda de filhos queridos, e me obrigava a refletir que as provações alheias são talvez sempre mais complicadas e mais dolorosas do que as nossas.

E aqui a caravana fazia pausa, a fim de ouvir os irmãos “do avesso” — o lado em que nos encontramos —, a região dos que perderam o corpo e ainda não conseguiram desvincular os pensamentos, desarraigando-os da Terra ou das situações obscuras da Terra.

Não sei aclarar pra vocês o que se passa com a gente, por aqui. Um nó na garganta parece atar as ideias na cabeça e liberar as lágrimas no coração. O cérebro se prende ao dever de meditar sobre nós mesmos, e a alma chora de júbilo pela possibilidade de se redescobrir.

Recebi tanto de você e doei tão pouco, mas tão pouco em se referindo a mim mesmo: Tive um pai maravilhoso, e em você o anjo maternal que me guiava sem que eu quisesse aceitar de todo o caminho que a sua ternura me indicava, um irmão amigo em nosso Eduardo, irmãs queridas em Márcia e Ângela, (3) e outros irmãos devotados no Mário Lúcio e no Luiz Antônio. (4)

Tive o tio Wilson a me obter trabalho e a tia Gilca, (5) que é sempre um retrato de sua bondade maternal —, entretanto, penso no que poderia ter feito e não fiz. Você dirá que não é assim, que fui um modelo no seu figurino de virtudes, e compreendo que toda mãe é assim mesmo — “um anjo de Deus velando sobre nós”. 

Mas por dentro de mim, vou recolhendo instruções para uma iniciação que me conduza a uma Vida Superior. Digo assim, porque agora percebo que a paisagem externa é o nosso próprio reflexo.

Somos o que sentimos, vivemos naquilo que pensamos, e criamos naquilo que estejamos fazendo. Uma página humana ao vivo, vale por muitas lições lidas.

Peça, querida mãe, a Deus por seu Henrique. Desejo melhorar-me, compreender e fazer alguma luz nas sombras de minh'alma. Os exemplos de serenidade e paz dos corações humildes são luzes que nos descobrem perante nós mesmos.

Até confrontarmos as nossas provas com as dificuldades dos outros, as escamas do egoísmo nos recobrem a visão, e caminhar para diante escalando as pedreiras do progresso espiritual é muito difícil para os destreinados, qual ainda sou, distanciado que vivi das telas de angústia silenciosa de tantos que sabem aceitar a dor por instrutora íntima de nossas experiências.

Agradeço o Natal que o seu carinho me deu, e embora me reconheça de mãos vazias, ofereço a você a renovação de minhas promessas de rapaz, no sentido de seguir cada vez mais integrado no ritmo de seus passos, no anseio de elevar-me aos cimos do bem. 

Não há pretensão nos meus anseios, porquanto confesso com os meus desejos a incapacidade espiritual em que ainda me encontro para a identificação mais ampla dos ensinamentos do Cristo. 

Deus acumule as suas reservas de abnegação e paciência no caminho em que jornadeamos juntos, de vez que nos achamos escorados em seu carinho e em seu trabalho.

“Veia”, você tem razão como sempre. Necessitamos aprender a servir com intensidade constante e crescente. Não importa que alguém nos considere birutados pela fé religiosa. É preciso esquecer essas jogadas dos que brincam de viver e sacar a Verdade de nós, por nós mesmos.

Silêncio para qualquer apontamento irônico. Os que adoram indiferença ou sarcasmo, voltarão um dia ao rumo certo. 

E quem avança na estrada, não dispõe de tempo a fim de passar recibo em ofensas, ou retirar sarrafos que se nos atirem. 

O próximo é a ponte ou o viaduto, em que nos aproximamos cada vez mais de Deus, quando seguimos adiante, procurando auxiliar e esquecer.

Mãe querida, muito obrigado. É tudo o que lhe posso dizer. Agradeço a você não ficar parada em casa, cozinhando lembranças amargas. Estamos juntos e caminharemos unidos para a frente. Você, “Veia”, está me apontando a senda verdadeira para o reencontro com a Família Maior, em que todos nós integramos.

Nosso Alvicto abraça a nossa irmã Lélia, e pede-lhe prosseguir na humildade e no silêncio de mãe, em que ela vem conhecendo sob novos prismas. Ele declara que a filha Simone, tanto quanto o Luiz e o Antenorzinho, (6) estão sempre em seus braços de trabalhador — braços de vigilância e carinho com que nosso amigo continua velando pelo campo doméstico. Ninguém consegue desinteressar-se do mundo, no que se reporte ao mundo daqueles que lhe são amados. Estamos todos magneticamente interligados uns com os outros, na marcha.

Dia a dia, a melhora vai pintando em nós um novo quadro de compreensão humana. Por isso é que peço a você muita serenidade e confiança em Deus e na vida.

Enquanto a porteira estiver fechada do lado de cá, isso é sinal de que o seu menino Henrique não pode abri-la. E isso acontece, “Veia”, porque as Leis de Deus querem você ainda por aí nas tarefas do auxílio.

É preciso fazermos força e aceitar a luta que se nos oferece. A evolução é vagarosa.

A cabeça não dá para conter todos os ensinamentos da vida, de uma só vez, e nem o coração é caixa forte, tão forte, que consiga guardar todas as emoções de que necessitamos para a promoção.

Hoje é um contratempo, amanhã uma desilusão, depois de amanhã é uma prova maior contendo novas exortações, e a gente vai indo…

De quando em quando, um companheiro tropeça ou cai ribanceira abaixo, mas a equipe estaca, na medida possível, e presta socorro indispensável ao companheiro em problemas de omissão.

De qualquer modo, regozijemo-nos. Regozijemo-nos porque um Natal diferente está acontecendo em nós.

Amigos diversos se reúnem agora conosco. Um deles, o nosso caro Júnior, (7) solicita seja você a intérprete do carinho e das lembranças dele à família. Sem dúvida, comunicou-se atarantado, qual nos ocorre muitas vezes, e deu a impressão de que usou cerimônia e algum desinteresse para com os parentes.

Mas não é fácil escrever pela mediunidade, ao redor de muita gente. Se nos internamos em ternura, mesmo autêntica, para com os nossos entes amados, fornecemos a impressão de Espíritos agarrados às convenções humanas, e se evidenciamos algum equilíbrio, exportamos a ideia de que andamos por aqui desmemoriados ou indiferentes.

Mas não é bem assim. Quando nos expressamos na mediunidade pelas primeiras vezes, parecemo-nos com os estreantes de palco. Muitas vezes, esquecemos o papel a representar, e fica a impressão de que estamos distantes daquilo que é mais nosso.

Sigamos, porém, para a frente, contando as bênçãos, e a soma das bênçãos excederá de muito a conta dos nossos supostos lapsos de atenção.

A vida é um cântico de amor, e não existem notas dissonantes suscetíveis de desfigurá-lo. Amar-nos-emos sempre, e amar-nos-emos cada vez mais.

“Veia” querida, por meu pai Gastão e por todos os nossos, deixamos aqui, a você, os nossos votos de Feliz Natal e Feliz Ano Novo, entendendo sempre que a nossa felicidade real se inicia do ponto em que começamos a trabalhar em favor dos outros.

Terminando, peço a você dizer ao tio Wilson que o tio Jorginho (8) tem visitado a todos os nossos, e que vem se promovendo cada vez mais no serviço ao próximo — escola em que nem todos aceitam com facilidade, onde estamos.

A todos os nossos aquele plá do Natal, carregado com as diferenças que estou registrando; aceitar Jesus mais e permanecer menos conosco, de vez que só Jesus nos arranca de nossos pensamentos inferiores.

Muita alegria e paz a todos, e para você, querida Dona Augustinha, o coração de seu filho na forma de uma estrela de esperança, a esperança de merecer o seu carinho e prosseguir aprendendo com os seus passos.

Muitos beijos em sua fronte querida, com todo o carinho e gratidão de seu filho, sempre cada vez mais seu,


Henrique





ALEGRIA ILUMINADA DE PRECES E LÁGRIMAS

Remetendo o leitor à obra Enxugando Lágrimas, n onde comparece Henrique e existem dados biográficos mais extensos sobre o jovem Autor Espiritual, limitemo-nos, aqui, aos elementos indispensáveis para o estudo do capítulo a que denominamos “Somos o que sentimos”.

Filho de Gastão Henrique Gregoris e de D. Augusta Soares Gregoris, nasceu Henrique Emmanuel Gregoris em Goiânia, a 7 de julho de 1952, aí desencarnando a 10 de fevereiro de 1976, em consequência de acidente com arma de fogo.

O amigo com quem Henrique se encontrava, no local da ocorrência, foi, meses depois, absolvido pela Justiça.

A família Gregoris, não concordando com semelhante determinação, apelou à Instância Superior, mas, para surpresa de todos, o médium Chico Xavier, dois dias depois, em Goiânia, pessoalmente, transmitiu o recado do Espírito de Henrique, solicitando à D. Augustinha que perdoasse o amigo.

E assim foi feito.

(1) — “Veia “: Henrique prossegue usando o tratamento carinhoso, ao se dirigir à sua genitora.

(2) — Pai Gastão, amigo Oscar, avô Manoel, tio Labieno e amigo Alvicto: Sobre os nomes citados — Gastão Henrique Gregoris; Oscar Masaaki Tsuruda; Manoel Soares; Labieno Soares e Alvicto Osoris Nogueira — Cf. Enxugando Lágrimas, págs. 63-68 e 94-136.

(3) — Eduardo, Márcia e Ângela: Irmãos de Henrique.

(4) — Mário Lúcio e Luiz Antônio: Cunhados do comunicante.

(5) — Tio Wilson e tia Gilca: Trata-se do Sr. Wilson e D. Gilca Fidalgo, residentes em Brasília, D.F.

(6) — Lélia, Simone, Luiz e Antenorzinho: Familiares do Espírito de Alvicto, residentes e muito estimados em Goiânia.

(7) — Júnior: O Espírito se refere a Juarez Távora de Azeredo Coutinho Júnior, filho do Sr. Juarez Távora de Azeredo Coutinho e de D. Glória Coutinho, desencarnado em acidente, a 15 de dezembro de 1976.

(8) — Jorginho: Alusão ao filho do Sr. Jorge Fidalgo e de D. Maria Fidalgo, desencarnado, há alguns anos, em Brasília, DF., vítima de acidente.

A mensagem de Henrique, psicografada pelo médium Xavier, em sua residência, na noite de Natal — 24 de dezembro de 1977, em Uberaba, Minas, com efeito, dá-nos o que pensar.

Observemos, apenas, os seguintes passos:

a) “Somos o que sentimos, vivemos naquilo que pensamos, e criamos naquilo que estejamos fazendo. Uma página humana ao vivo, vale por muitas lições lidas.” Quando as criaturas humanas compreenderem a realidade desta passagem, a nosso ver, a Terra já terá passado à condição de Mundo de Regeneração. Que todos nós, sem perda de tempo, principalmente os que lavram o campo da paternidade e da maternidade, nos conscientizemos de semelhante verdade, a fim de que possamos colaborar para que a Terra, quanto antes, conclua o seu abençoado estágio de Mundo de Expiações e Provas.

b) Sobre o egoísmo, cujas escamas nos recobrem a visão, consultemos os n.os 913 a 917 de O Livro dos Espíritos, e o nº 11 do Cap. XI de O Evangelho segundo o Espiritismo, ambos de Allan Kardec.

c) “Necessitamos aprender a servir com intensidade constante e crescente. Não importa que alguém nos considere birutados pela fé religiosa. É preciso esquecer essas jogadas dos que brincam de viver e sacar a Verdade de nós, por nós mesmos.” — Quantos há que se afastam das atividades religiosas, com medo de que alguém os tenha à conta de fracos? Lembremo-nos, a propósito, das palavras do Codificador do Espiritismo, ao final da questão nº 148 de O Livro dos Espíritos, quando nos recorda que se a nossa sociedade fosse fundada sobre o materialismo, “os seus membros se despedaçariam entre si, como animais ferozes.”

d) Depois de nos recomendar “silêncio para qualquer apontamento irônico”, — e de nos mostrar que a evolução é longa, e de que é preciso fazermos força e aceitar a luta que se nos oferece, arremata Henrique:

“De qualquer modo, regozijemo-nos. Regozijemo-nos porque um Natal diferente está acontecendo em nós.”





domingo, 25 de outubro de 2020

Marco Antônio Araújo - Livro Claramente Vivos - Familiares Diversos / Chico Xavier - Cap. 4 - “Creia, mamãe, ninguém está só”




Marco Antônio Araújo - Livro Claramente Vivos - Familiares Diversos / Chico Xavier - Cap. 4


“Creia, mamãe, ninguém está só”


Mãezinha Maura, É a sua prece de amor que espero em forma de bênção.

Pensamos que há muito tempo sem qualquer intercâmbio entre nós. Sei que você e meu pai guardam essa opinião. Entretanto, se é verdade que a saudade é uma força que a gente supõe capaz de paralisar ponteiros de relógio, o progresso nos dá uma impressão de tamanha velocidade nos dias da Terra, que sete anos se nos afiguram apenas alguns minutos.

Alegrias de infância, esperanças de juventude, preocupações de estudos, responsabilidades de rapaz que começa a imaginar os planos de trabalho na carreira escolhida, são hoje telas que ficaram dependuradas nas paredes de nossa memória, enquanto a marcha para a frente continua inexorável.

Não se admire, mãezinha, se lhe disser que estamos tão juntos, quase como ontem, no mesmo campo do dia a dia.

Sei tudo o que passou depois daquela viagem frustrada: uma sede enorme de refazimento no lar, a licença de três dias para restauração de forças, um carro alugado às pressas, de parceria com um amigo anônimo, e a queda espetacular do corpo físico, num acidente impossível de se evitar; tudo se dissociou como por encanto…

Nem meu pai teria o engenheiro filho, nem você teria o filho engenheiro. A lei do Senhor estava em caminho, à minha espera. Pormenorizar agora os fatos nas minudências do ocorrido, é desnecessário.

Encontrei um amigo em Dr. Alberto, n um novo pai em meu bisavô Joaquim, n um protetor em meu querido avô Araújo, e um enfermeiro dedicado no irmão Serapião Ribeiro.  

Falando com tanta naturalidade sobre o assunto, pode parecer a você que estou fazendo esnobação, mas não é isso. Sofri muito. Hoje, o tempo fez a função do vento sobre um montão de brasas…

Aquele fogo de dor cedeu lugar a uma grande paz, e é com essa paz que respondo a todos os seus escritos de amor materno, explicando que estamos hoje mais juntos, que seus ombros ficaram escalavrados de tantas cargas de aflição, e não tenho qualquer dúvida, mas a prece foi a nossa lâmpada acesa, afugentando as sombras.

Mãezinha, agradeço tudo o que você me dedica em suas páginas de saudade e carinho. Sei que o papai é o nosso amigo de sempre, no entanto, ouço a sua voz me chamando ao diálogo.

Creia, mamãe, ninguém está só. Não é determinação de Deus que a criatura viva inteiramente isolada, sem manifestar os próprios pensamentos.

É por isso que depois do casamento de nossa Rose fiquei muito feliz ao vê-la no Centro Espírita-Cristão, buscando auxiliar ao seu filho na pessoa dos outros. Ah! querida mamãe, esse é o melhor rumo para a verdadeira consolação.

Não julgue que eu tenha vindo para cá fora do tempo, porque o tempo é um contabilista que nunca se engana. Sigamos para frente.

O verdadeiro parentesco nasce no coração de cada um. Aqui, na vida espiritual, as diferenças são tantas, que não é fácil ganhar a família da Terra. As criaturas se apegam umas às outras, segundo as afinidades com que se apresentam.

Por isso, mãezinha, venho aprendendo que o trabalho é a outra face do estudo. Não adiantaria conhecer sem fazer.

E esse seu exemplo, passando a me procurar nos necessitados, me comove muitíssimo.

Sei que você adoeceu depois de minha vinda, e que as lutas de serviço aumentaram para nós em todos os setores. Mas peço-lhe pensar, não nos obstáculos já vencidos, e sim que podemos abrigar ideais novos e belos em nossas próprias almas.

Não quero dizer com isso que estaremos agindo sem o concurso do meu querido papai João, porque, de um modo ou de outro, ele estará sempre incorporado aos nossos projetos para o futuro.

Peço-lhe não interrogar tanto a Deus por que eu estaria chegando em casa fora das férias. Estaria usufruindo pedaços de tempo que obtivera junto a colegas de serviço, e queria descansar ao seu lado, e junto da Rose e do papai.

Levava comigo vários assuntos para nossos entendimentos. Enfileirara notas, fizera apontamentos… Entretanto, a ordem não era para mim de repouso compulsório, e sim de mudança definitiva.

Ninguém pode conhecer o minuto próximo. Por isso, rogo-lhe calma e consolação.

Não se permita chorar tanto. Fitemos o azul do céu, de almas lavadas pelo sofrimento, que nos formou por mestre de vida.

Encontrar-nos-emos mais tarde, em presença e voz. Por agora, permaneça firme em suas concentrações e em suas preces.

Estarei em seu trabalho, durante o dia, e, à noite, quando seu Espírito se desprende do corpo, embora ligeiramente, está você em minhas tarefas, como não podia ser de outro modo.

Alegre-se. Cultive o otimismo e a esperança. Tristeza é uma sombra que apenas prejudica quem a conserva por teimosia dentro da própria alma. Continuemos contentes, animados e felizes pelas bênçãos de Deus que temos recebido.

Tenho estado em suas tarefas, e procuro exercitar essa yoga de alegria e de esperança, auxiliando aos nossos companheiros, tanto quanto possível, a desfazer nuvens de apreensões e sombras de sofrimento.

Ajude como sempre ao papai na solução dos problemas de nossos tempos, e aconselhe nossa Rose. Ela quer ser psicóloga com palma e vitória, mas não se esqueça de que ser mãe é mais importante. Não desejo expressar qualquer desaprovação à escolha dela. Ela pode realizar as melhores aquisições em psicologia, mas não deve querer começar corrigindo essa ciência de hoje.

Se a psicologia de hoje não aceita a ideia religiosa, ela é livre para servir aos ideais que a enobrecem, oferecendo aos outros o melhor que ela consiga.

Não é interessante que o aluno se manifeste contra o professor quando a colisão das ideias apareça. Haverá tempo bastante para que nossa Rose se prepare com mais segurança. Após o título obtido, ela pode indiscutivelmente fazer muito em favor dos outros.

Agora, lutar pelos pontos de vista, pessoalmente, tão nossos, seria o mesmo que alterar o curso de um rio em cujas águas precisamos navegar a favor, pelo menos até o término da viagem. Há ocasião de analisar e ocasião de trabalhar. Rose poderá fazer muito, e estaremos com ela.

Mamãe, diga a meu pai do amor que nos reúne uns aos outros. Ele estará sempre em meu coração, tanto quanto o seu coração maternal está comigo.

Agradeço as flores renovadas à frente de minhas lembranças, e agradeço tudo o que faz em meu favor.

Em Araguari, as nossas tarefas não se modificaram de essência. Sustentamo-nos reciprocamente. E sou eu quem agradece todo esse imenso amor que recebo.

Mãezinha, nosso irmão Ascelino ainda não pode comunicar-se através do lápis, mas me pediu dizer à nossa irmãzinha, tia Doralice, que ele vai bem, até que as forças se lhe refaçam…

Se soubessem na Terra quanto nos valem na vida espiritual as preces de coragem e de paz, decerto que os nossos entes amados saberiam nos socorrer sem tantas recordações amargas.

Estamos em marcha, marcha para a frente, e isso é aquilo de que necessitamos. Seguir sempre adiante, esquecendo o inútil na retaguarda. Desse modo, mãezinha, a paz nos felicitará mais depressa.

Agradeço-lhe quanto faz por minha renovação para o bem, e prometo-lhe fazer o possível por você, quando estiver em condições de receber o privilégio de trabalhar mais para merecer mais trabalho, até que o servir se nos faça a alegria perfeita.

Mãezinha, continue avançando otimista e feliz. Não se desgaste. Atenda às próprias forças.

Começamos a trabalhar juntos nas tarefas mediúnicas, e isso quer dizer que não me alterarei por aqui, até que você volte.

O que desejo possa ser muito para adiante, a fim de que você na Terra viva feliz, no máximo de tempo, em favor de nós todos.

Peço-lhe não registre qualquer falta de notícias minhas, porque coração a coração, vivemos na mesma faixa de sentimentos e ideias, à maneira de duas árvores que se apoiam uma na outra.

Abrace a meu pai com esse respeito no amor que ele cultivou no coração do filho agradecido.

Ao Cláudio, Rose e familinha, o meu afeto constante. E a você, mãe querida, o pensamento e o amor, o carinho e a saudade-esperança do filho sempre em suas horas, por vida de sua vida e coração de seu coração,


Marco Antônio Araújo 





PRECE DE AMOR EM FORMA DE BENÇÃO

Tendo solicitado aos confrades Urbano T. Vieira e D. Ondina a gentileza de entrevistarem os pais de Marco Antônio, em Araguari, recebemos a seguinte carta do primeiro, que transcrevemos, na íntegra:

“Prezado Dr. Elias:

A pedido de nossa comum amiga Dona Maura, fornecemos os seguintes dados, a propósito da Mensagem de Marco Antônio:


BIOGRAFIA:

1) — Marco Antônio Araújo:

— Nascimento: 19 de agosto de 1943.

— Desencarnação: 6 de junho de 1971.

— Cursava o último ano de Engenharia Civil, na Universidade Federal de Belo Horizonte (MG).

— Pais: Sr. João Pereira de Araújo e D. Maura Silva de Araújo, residentes na Rua Dr. Afrânio, 221, em Araguari (MG).

2) — Maura Silva de Araújo: progenitora.

3) — Efetivamente, os pais aguardavam há muito tempo a manifestação do filho.

4) — Aproveitando recesso escolar, em fim de semana, demandava Marco Antônio o lar em Araguari, para descanso, tendo realizado normalmente a viagem de ônibus de Belo Horizonte a Uberlândia, onde tomou táxi para Araguari, na madrugada de 6 de junho de 1971, sendo vitimado em acidente fatal (juntamente com outro — Sr. Heleno —, também de Araguari), assim que o carro transpôs o Rio Araguari, em perigosa curva.

5) — Cursava o último ano de Engenharia.

6) — Dr. Alberto Moreira: antigo médico, muito humanitário de Araguari, desencarnado em 1956, homenageando a cujos méritos a Municipalidade de Araguari colocou seu nome em uma das principais ruas da cidade (Rua Dr. Alberto Moreira).

7) — Bisavô paterno: Sr. Joaquim Gonçalves de Araújo.

8) — Avô paterno: Sr. Sidney Pereira de Araújo.

9) — Serapião Ribeiro: Espírito Protetor de inúmeros Centros Espíritas da Região.

10) — “Aquele fogo de dor cedeu lugar a uma grande paz e é com essa paz que respondo a todos os seus escritos de amor materno…” — Diz D. Maura: “Sempre escrevi bilhetinhos e poesias, e colocava dentro da gaveta de sua mesa, o que faço ainda hoje.”

11) — Rose: Sra. Rosemarie Araújo Paes de Almeida, casada com o Engenheiro Dr. Cláudio Paes de Almeida.

12) — No Centro Espírita-Cristão: Centro Espírita Caminho da Luz, Araguari (MG) — Rua Jaime Gomes, 532.

13) — “Levava comigo vários assuntos para nossos entendimentos.” — Marco Antônio trazia consigo uma pasta com anotações (inúmeras páginas com pensamentos, decisões pessoais, orientações, etc.), que foi entregue aos pais, após o acidente.

14) — “Ajude como sempre ao papai na solução dos problemas de nossos tempos, e aconselhe nossa Rose.” — Sendo Marco nove anos mais velho que Rose e dada a profunda afinidade entre eles, sempre dispensou especial carinho e muito à irmã, tendo mesmo esta recebido a presente mensagem como oportuna e necessária orientação, já que vem fazendo com brilhantismo o Curso de Psicologia e, efetivamente, entrando muitas vezes em choque com professores em face de aspectos de estudos diante da Religião.

15) — “Nosso irmão Ascelino”: Engenheiro, desencarnado há quatro anos, na estrada de Uberlândia a Goiânia, cuja cunhada Doralice (tia paterna de Marco), estava presente à reunião da noite de 12 de agosto de 1978, no Grupo Espírita da Prece.

16) — “Ao Cláudio, Rose e familinha o meu afeto constante.” — O casal Rose / Dr. Cláudio tem dois filhinhos.


Aí estão os dados que Dona Maura e eu julgamos oportuno mandar para você. Ela, Dona Maura e seu marido, Sr. João Pereira Araújo, estão ao inteiro dispor para quaisquer outros dados: é só você pedir e mandaremos. Disponha.

Aquele abraço de sempre,

Urbano T. Vieira

Araguari (MG), 15/FEV./1979.”