segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Ermance Dufaux - Livro Prazer de Viver - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 3 - O Poder da Resignação



Ermance Dufaux - Livro Prazer de Viver - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 3


O Poder da Resignação

 
"O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena". (O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo V, item 13)

Quanto desespero e amargura, tristeza e desistência, martírio e revolta, fantasia e aflição tem cultivado a esmagadora maioria dos homens reencarnados, por não saberem construir sentidos espirituais elevados às suas provações?

Qual conquista será maior para a alma na Terra do que a compreensão sagrada dos objectivos de todos os reveses e experiências?

Somente quem saiba dar significado santificado a cada lance de dor ou a cada benefício do caminho, pode aquilatar a importância dessa vitória.

A forma de encarar a vida terrena, por isso mesmo, deveria ser tema de urgente aprofundamento dos trabalhadores espíritas.

Com todo carinho e respeito, sugerimos aos nossos parceiros de ideal uma urgente revisão de conceitos, quando afirmam imperativamente que o espírita possui uma fé racional.

Se assim o fosse, teríamos mais amplos voos de conscientização e comprometimento com a causa que abraçamos, e melhores reacções perante os testemunhos e sofrimentos diante da vida no corpo.

Temos ainda uma fé embrionária e sufocada por conceitos ancestrais do religiosismo, com forte inclinação para o dogmatismo.

A fé racional se inicia quando passamos a encontrar no campo mental, alguns subsídios testados na arte de meditar sobre nós mesmos.

Compreendendo melhor o que ocorre com a própria vida interior, capacitamo-nos em maior escala para avaliar os desígnios Divinos nas ocorrências que nos cercam.

Outro traço marcante de que a fé racional começa a se desenvolver em nossos sentimentos, é quando começamos a abdicar de coleccionar certezas sobre a vida.

Mais que nunca, na etapa evolutiva que assinala nosso progresso, somos convocados a revisar, reciclar, analisar por outro ângulo, repensar ideias, reavaliar métodos, renovar posturas perante pessoas e fatos.

Certeza instituída é, quase sempre, acesso à zona de conforto.

O momento de vida da Terra, a cada dia mais, nos convida a aprender como conviver com as incertezas acerca de tudo à nossa volta.

Uma parte do sentimento de segurança vai surgir dessa forma de conduzir nossas acções; e, então, as palavras controle, disciplina e planeamento serão usadas dentro da óptica de relatividade constantes.

Quando necessário, a fim de que haja dinamismo em nossos projectos de vida, seremos chamados a repensá-las.

Assim se expressou Allan Kardec sobre o assunto:

A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer.

"E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender". (1)

A aquisição dessa fé conduz o Espírito ao estado de resignação que lhe permite a harmonia, perante a dor e os testes existenciais.

Resignação é o conjunto de habilidades que nos possibilitam uma visão optimista da vida, por meio de escolhas conscientes e de uma conduta de auto-amor; distante da postura de vítimas e do sentimentalismo.

Crenças sadias, capacidade de adiar gratificações pessoais e sentimento de gratidão são as principais habilidades que conduzem o homem a ser resignado.

O homem que se contenta ante os desafios e contrariedades, capacidade decorrente do hábito de se pensar sobre a vida, é alguém dotado de uma força propulsora e calmante.

Essa condição lhe permite escolher com inteligência e equilíbrio a forma adequada de agir e reagir nas turbulências, imprevistos e provas.

Essa força realizadora, independentemente das condições adversas, é o resultado do desapego de seus próprios conceitos, é o espírito de prontidão da alma que sabe que a todo instante, na vida corporal, estará sendo chamada a novos aprendizados que vão abalar suas certezas, a convocando a rever muitas de suas convicções.

Os resignados, por isso, possuem mais saúde e resistência às dores da vida, são mais desprendidos e encontram sempre boas soluções para seus trâmites provacionais.

Possuem metas, mas sabem lhes dar cursos maleáveis, conforme a necessidade.

Sofrem, todavia, procuram a utilidade sagrada do sofrimento e dão significado e sentido educativo e libertador aos mais dolorosos dramas.

Dessa forma, podem experimentar o cansaço, a raiva, a perda, a ansiedade, o medo, entretanto, jamais cruzam os braços e continuam firmes nas aferições, sempre em busca das soluções.

Essa é a chamada resignação activa, dinâmica, educativa, pródiga de resiliência.

Bem diferente é aquele que entende resignação como tolerar sofrimento em silêncio, chamado aguentador da vida".

Ele aguenta a dor, resistem a ela, briga com ela, quando deveria entender-se com ela.

Em verdade, eles obedecem aos imperativos da dor, razão pela qual asseverou o espírito Lázaro:

"A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair." (2)

Resiliência = capacidade de superar adversidades aprendendo com elas.

Poder de superação.

O termo vem de uma propriedade da Física sobre a capacidade que os corpos têm de voltar à sua forma original, depois de submetidos a um esforço intenso da razão; a resignação é o consentimento do coração, (...)'

Na obediência cumprimos o dever imposto pela consciência no amor vamos muito além e transformamos o dever em degrau de ascensão nas profundezas do coração, livrando-nos do amargor e crueza das expiações.

Hoje, além das provas adicionais ou voluntárias, que poderiam ser evitadas, temos de considerar o tema "ónus voluntário de sofrimento nas provas necessárias", ou seja, o acréscimo dispensável de dor pela ausência da resignação.

Em razão do apego a coisas e pessoas, negócios e pontos de vista, os testes humanos são ampliados pela forma rebelde de reagir.

Cada problema de nossas vidas tem objectivos bem definidos pela Sábia Providência de Deus.

Vivê-los sem entender esses fins é o mesmo que sofrer por sofrer.

Eis a razão da oportuna advertência de Lacordaire, quando diz:

"Mas, ah! Poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus.

O desânimo é uma falta.

Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem".

Ser resignado não significa viver sem sofrer, negando o sofrimento.

Essa atitude, quase sempre, é a recusa inconsciente dos sentimentos, uma defesa perante as agressões da dor.

Mecanismos defensivos que aliviam a angústia de nosso sofrer.

Contudo, os que verdadeiramente são resignados, vão mais além e colocam-se imunes à mágoa e à revolta em razão do amplo poder de aceitação e compreensão, decorrente da análise positiva que fazem sobre suas experiências, valores e imperfeições.

Aldous Huxley afirmou:

"Experiência não é o que acontece a você. É o que você faz com o que acontece a você".

Sem dúvida, a resignação é caminho para ser feliz, porque felicidade é uma questão de construção íntima da visão iluminada sobre o existir, e quem aprende a existir adquire a sabedoria de compreender e aceitar.


Ermance Dufaux








(1) O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo XIX - A fé transporta montanhas - A fé religiosa - Condição da fé inabalável, item 7
(2) O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo IX — Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos, item 8



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