sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Aires de Oliveira - Livro Comandos do Amor - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 9 - Luta



Aires de Oliveira - Livro Comandos do Amor - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 9


Luta


Meus amigos.

Agradeçamos na luta o clima renovador.

Nela possuímos o celeiro da experiência, onde o Espírito é capaz de amealhar os tesouros incorruptíveis da sabedoria e do amor.

A luta é alimento, pão da alma, força de crescimento do ser para a vida maior.

Sem que a vida e a morte estabeleçam conflito na Terra, a imortalidade não se divinizaria para os homens.

É necessário que a claridade combata a sombra, que a alegria sobrepuje o sofrimento, que a esperança fustigue a descrença, a fim de que possamos selecionar os valores que nos habilitem à vitória espiritual a que nos destinamos.

No mundo terrestre — bendita escola multimilenária do nosso aperfeiçoamento espiritual — tudo é exercício, experimentação e trabalho intenso.

Do atrito nasce a luz, quanto o equilíbrio nasce do esforço de adaptação.

É imperioso nos resignemos a perder quanto signifique roupagem servida e inútil para que nosso espírito avance, no rumo da transformação para as luzes mais altas.

Sem que a semente abandone o envoltório, não há germinação para a sementeira; sem o calor asfixiante o vaso nobre deixaria de existir; e, sem o cinzel que martiriza a pedra selvagem, a obra-prima da escultura jamais seria arrancada à matéria bruta para o nosso ideal de beleza.

Somos, porém, mais que a semente, mais que o vaso, mais que a estátua…

Somos filhos de Deus, em desenvolvimento, que podemos acelerar, aceitando as injunções da luta, ou que podemos atrasar, com a nossa preferência pelo repouso ou pela inércia.

Abracemos os nossos deveres, ainda que pesados, porque somente da cruz que é nossa, do testemunho que nos fala de perto e do Calvário que nos pertence é que surgirá para a nossa vida a eterna ressurreição.


Aires de Oliveira












André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 9 - Ouvindo impressões



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 9


Ouvindo impressões


Deixando Acelino em conversação mais íntima com Otávio, fui levado por Vicente a outro ângulo da sala.

Muitos grupos se mantinham em palestra interessante e educativa, observando eu que quase todos comentavam as derrotas sofridas na Terra.

— Fiz quanto pude! — Exclamava uma velhinha simpática para duas companheiras que a escutavam atentamente; — no entanto, os laços de família são muito fortes. Algo fazia-se ouvir sempre, com voz muito alta, em meu espírito, compelindo-me ao desempenho da tarefa; mas… e o marido? 

Amâncio nunca se conformou. Se os enfermos me procuravam no receituário comum, agravava-se-lhe a neurastenia; se os companheiros de doutrina me convidavam aos estudos evangélicos, revoltava-se, ciumento. Que pensam vocês? Chegava a mobilizar minhas filhas contra mim. Como seria possível, em tais circunstâncias, atender a obrigações mediúnicas?

— Todavia, — ponderou uma das senhoras que parecia mais segura de si, — sempre temos recursos e pretextos para fugir às culpas. Encaremos nossos problemas com realismo. Há de convir que, com o socorro da boa vontade, sempre lhe ficariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem. 

Talvez pudesse conquistar o entendimento do esposo e a colaboração afetuosa das filhas, se trabalhasse em silêncio, mostrando sincera disposição para o sacrifício. Nossos atos, Mariana, são muito mais contagiosos que as nossas palavras.

— Sim, — respondeu a interlocutora, emitindo voz diferente, — concordo com a observação. Em verdade, nunca pude sofrer a incompreensão dos meus, sem reclamar.

— Para trabalharmos com eficiência, — tornou a companheira, sensata, — é preciso saber calar, antes de tudo. 

Teríamos atendido perfeitamente aos nossos deveres, se tivéssemos usado todas as receitas de obediência e otimismo que fornecemos aos outros. Aconselhar é sempre útil, mas aconselhar excessivamente pode traduzir esquecimentos de nossas obrigações. 

Assim digo, porque meu caso, a bem dizer, é muito semelhante ao seu. Fomos ao Círculo carnal para construir com Jesus, mas caímos na tolice de acreditar que andávamos pela Terra para discutir nossos caprichos. 

Não executei minha tarefa mediúnica, em virtude da irritação que me dominou, dada a indiferença dos meus familiares pelos serviços espirituais. Nossos instrutores, aqui, muito me recomendaram, antes, que para bem ensinar é necessário exemplificar melhor. 

Entretanto, por minha desventura, tudo esqueci no trabalho temporário da Terra. Se meu marido fazia ponderações, criava eu contrafações. Não suportava qualquer parecer contrário ao meu ponto de vista, em matéria de crença, incapaz de perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos. 

Das irreflexões nasceu minha perda última, na qual agravei, de muito, as responsabilidades. Quase mensalmente, Joaquim e eu nos empenhávamos em discussões e não trocávamos apenas os insultos contundentes, mas também os fluidos venenosos, segregados por nossa mente rebelde e enfermiça. Entre os conflitos e suas consequências, passei o tempo inutilizada para qualquer trabalho de elevação espiritual.

Nesse instante, chamou-me Vicente para apresentar um amigo.

Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente:

— Afinal, Ernestina, — indagava uma delas à mais jovem, — qual foi a causa do seu desastre?

— Apenas o medo, minha amiga, — explicou-se a interpelada, — tive medo de tudo e de todos. Foi o meu grande mal.

— Mas, como tudo isto impressiona! Você foi muitíssimo preparada. Recordo-me ainda das nossas lições em conjunto. As instrutoras do Esclarecimento confiavam extraordinariamente no seu concurso. Seu aproveitamento era um padrão para nós outras.

— Sim, minha querida Benita, suas reminiscências fazem-me sentir, com mais clareza, a extensão da minha bancarrota pessoal. Entretanto, não devo fugir à realidade. Fui a culpada de tudo. Preparei-me o bastante para resgatar antigos débitos e efetuar edificações novas; contudo, não vigiei como se impunha. 

O chamamento ao serviço ressoou no tempo próprio, orientando-me o raciocínio os melhores esclarecimentos; nossos instrutores me proporcionavam os mais santos incentivos, mas desconfiei dos homens, dos desencarnados e até de mim mesma. 

Nos estudiosos do Plano físico, enxergava pessoas de má fé; nos irmãos invisíveis, presumia encontrar apenas galhofeiros fantasiados de orientadores, e, em mim mesma, receava as tendências nocivas. Muitos amigos tinham-me em conta de virtuosa, pelo rigorismo das minhas exigências; todavia, no fundo, eu não passava de enferma voluntária, carregada de aflições inúteis.

— Foi uma grande infantilidade da sua parte, — retrucou a outra, — você olvidou que, na Esfera carnal, o maior interesse da alma é a realização de algo útil para o bem de todos, com vistas ao Infinito e à Eternidade. 

Nesse mister, é indispensável contar com o assédio de todos os elementos contrários. Ironias da ignorância, ataques da insensatez, sugestões inferiores da nossa própria animalidade surgirão, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel. São circunstâncias lógicas e fatais do serviço, porque não vamos ao Mundo Físico para descanso injustificável, mas para lutar pela nossa melhoria, a despeito de todo impedimento fortuito.

— Compreendo, agora, — disse a outra; — todavia, o receio das mistificações prejudicou minha bela oportunidade.

É, minha amiga, — tornou a interlocutora, — é tarde para lamentar. Tanto tememos as mistificações, que acabamos por mistificar os serviços do Cristo.

Escutava a palestra, com interesse crescente, mas o companheiro levou-me adiante para novas apresentações.

Atendia a esses agradáveis deveres da sociedade de “Nosso Lar”, mas, para não perder ensejo de instruir-me, continuava atento às conversações em torno. Alguns cavalheiros mantinham discreta permuta de pareceres.

— Reconheço que fali, — dizia um deles em tom grave, — e muito já expiei nas regiões inferiores, mas aguardo novos recursos da Providência.

— Faltou-lhe, porém, bastante orientação para o caminho? — Perguntava um companheiro.

— Explico-me: — Esclareceu o primeiro, — faltou-me o amparo da esposa. Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas. A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica. Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia. 

Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância. Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas. 

Quando me senti sem a generosa companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substituí-la, e fui acidentado. Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, me arrastou a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz. 

Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes; entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada.

Tornara-se a palestra sumamente interessante. Desejava acompanhar-lhe o curso, mas Vicente chamou-me a atenção para outro assunto e era necessário acompanhá-lo.


André Luiz





VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 09 - Ouvindo impressões
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier.


Meimei - Livro Cartas do Coração - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 72 - Pensamentos



Meimei - Livro Cartas do Coração - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 72


Pensamentos


Meus irmãos:

Ajudemo-nos uns aos outros e Jesus nos ajudará.

A grande ciência que conquista a palma da vitória pode ser resumida em duas palavras: não desanimar.

Nossa família cresce à medida que crescemos com o Amor.

O Evangelho é manancial, é glória, é alegria.

Nunca permitamos que a tristeza ou o desânimo empanem o sol do nosso otimismo.

Cada alma possui mundos a conquistar e todos nós, além dessa herança comum, guardamos instrumentos de luz e fortaleza, recursos de paz e vida para o avanço prodigioso que a fé nos auxilia a sustentar.

Cada consciência é um destino. Cada alma tem o seu roteiro.

Cada coração é arquiteto da felicidade ou da infelicidade que vive a sentir.

Devemos criar flores onde as pedras se amontoam.

Cabe-nos alimentar, com o suor do rosto ou com o sangue do próprio coração, a ventura daqueles que amamos ou de quantos não puderam tecer conosco os laços da verdadeira simpatia fraternal.

Façamos o possível para estender a nossa lavoura de amor, compreensão e carinho, ainda que isso nos custe dores e feridas incontáveis.

A cisterna que esconde as próprias águas costuma transformar-se em residência de lodo e dos vermes consumidores da saúde, mas o poço que se derrama, cantando a alegria de servir, chama-se “fonte”.

Façamos de nossa existência um oásis de carinho e reconforto para quem passa… e aquele que passa em suor e lágrimas, em sombra ou dificuldade, é sempre mais digno de nossa ternura imensa.

Se não repararmos as rosas que desabrocham nos espinhos, os espinhos da luta jamais nos permitirão a colheita sublime das rosas da perfeita felicidade.

Quando o diamante comparece triunfal no tesouro de glórias da natureza, louva, sem palavras, o buril que o dilacerou para estruturar-lhe a forma.

O Amor é o tônico das almas.

A compreensão em Jesus é a maior fortuna para o nosso Espírito.

Aceitemos, serenos e conformados, os golpes do aperfeiçoamento necessário.

A morte é uma ilusão entre duas expressões da mesma vida.

A experiência na Terra é sempre curta, por mais longa que nos pareça.

Quem ama encontra mil assuntos dentro de si mesmo para cada momento de reencontro com os corações amados.

A verdadeira felicidade é simples no pedir e no realizar-se.

O romance das almas é divino e imperecível.

Deus dá tudo a quem tudo Lhe oferece.

Abracemos a caridade com decisão robusta. Ela é nossa lâmpada para a senda da reaproximação com o Cristo.

A morte do corpo é simples acidente para a alma… Além, despertamos na mesma posição interior em que nos achávamos e é tão impraticável a marcha para diante sem corações amigos que nos ajudem, quanto é impossível para a abelha seguir na direção do mel, sem flores ou recursos que a alimentem.

É preciso perder para achar, e nada possuir na Terra para entrarmos na posse dos Tesouros do Céu.

Atendamos ao Senhor para que o Senhor nos atenda. Cuidemos da vontade d’Ele e nossas aspirações serão realizadas.

A existência no corpo de carne é um sopro de vida que esmorece, rápido, através de um vaso de argila frágil.

Nosso destino é a Eternidade. A permanência na Terra, diante dela, é um minuto de sonho.

Entreguemos nosso espírito à noção de imortalidade e guardemos nosso amor nas fibras mais íntimas, conscientes de que ele constitui a nossa felicidade indestrutível, agora e para sempre.


Meimei










Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Emmanuel - Livro Irmão - Chico Xavier - Cap. 1 - Deus vem vindo



Emmanuel - Livro Irmão - Chico Xavier - Cap. 1


Deus vem vindo


Ninguém conhece as tribulações que te espancam por dentro da própria alma.

Observas-te no ápice da resistência e, em muitas ocasiões, te inclinas para a ideia de deserção…

Entretanto, insiste no cultivo da paciência, um tanto mais, e resguarda-te nos deveres que a Divina Providência te confiou.

Deus vem vindo…

Perdeste as mais belas aspirações, em vista dos golpes que a realidade te desferiu.

Por vezes, sentes o ímpeto de agir contra a própria existência…

Conserva-te, porém, na paciência, um tanto mais, e prossegue na execução dos teus próprios encargos.

Deus vem vindo…

A solidão te oprime os sentimentos, embora quase sempre te vejas na multidão.

Nesses instantes, parece-te que a morte se aproxima e, não raro, experimentas a tentação de abraçar a fuga e a irresponsabilidade…

No entanto, usa a paciência, um tanto mais, e persevera nas tarefas que a vida te deu a realizar.

Deus vem vindo…

Lembra os obstáculos e crises, quedas e provas que já atravessaste, dos quais sempre ressurgiste para o reequilíbrio e para a busca da felicidade, sem que saibas explicar de que maneira te refizeste para a alegria de viver e conviver.

Avalia as bênçãos que te marcam os dias e as vitórias íntimas que entesouraste no campo das próprias experiências e nunca te acomodes com o desespero. Se ainda não dispões de segurança a fim de sustentar a própria fé, acalma-te, trabalha, serve, espera e guarda a certeza de que Deus vem vindo…


Emmanuel











domingo, 1 de outubro de 2023

André Luiz - Livro Nosso Lar - Chico Xavier - Cap. 50 - Cidadão de Nosso Lar



André Luiz - Livro Nosso Lar - Chico Xavier - Cap. 50


Cidadão de Nosso Lar


Na segunda noite, sentia-me cansadíssimo. Começava a compreender o valor do alimento espiritual, através do amor e do entendimento recíprocos.

Em “Nosso Lar”, atravessava dias vários de serviço ativo, sem alimentação comum, no treinamento de elevação a que muitos de nós se consagravam. Bastava-me a presença dos amigos queridos, as manifestações de afeto, a absorção de elementos puros através do ar e da água; mas ali não encontrava senão escuro campo de batalha, onde os entes amados se convertiam em verdugos. As meditações preciosas que a palavra de Clarêncio me sugerira, davam-me certa calma ao coração. 4 Compreendia, finalmente, as necessidades humanas. Não era proprietário de Zélia, mas seu irmão e amigo. Não era dono de meus filhos e, sim, companheiro de luta e realização.

Recordei que a senhora Laura, certa feita, me afirmara que toda criatura, no testemunho, deve proceder como a abelha, acercando-se das flores da vida, que são as almas nobres, no campo das lembranças, extraindo de cada uma a substância dos bons exemplos, para adquirir o mel da sabedoria.

Apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe. Não se sacrificara ela por meu pai, a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração? “Nosso Lar” estava repleto de exemplos edificantes.

A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração.

Narcisa, sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual, de regresso ao mundo, em tarefa de auxílio.

A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior. E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia? Clarêncio me acolhera com devotamento de pai, a mãe de Lísias me recebera como filho, Tobias como irmão. 6 Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente, que se erguia, célere, no meu espírito.

Procurei abstrair-me das considerações aparentemente ingratas que ouvia no ambiente doméstico e deliberei colocar acima de tudo o amor divino, e, acima de todos os meus sentimentos pessoais, as justas necessidades dos meus semelhantes.

No meu cansaço, procurei o apartamento do enfermo, cujo estado se agravava de momento a momento. Zélia amparava-lhe a fronte e dizia, banhada em lágrimas:

— Ernesto, Ernesto, tem pena de mim, querido! Não me deixes só! Que será de mim se me faltares?

O doente acariciava-lhe as mãos e respondia com imenso afeto, apesar da forte dispneia.

Roguei ao Senhor energias necessárias para manter a compreensão imprescindível e passei a interpretar os cônjuges como se fossem meus irmãos.

Reconheci que Zélia e Ernesto se amavam intensamente. E, se de fato me sentia companheiro fraternal de ambos, devia auxiliá-los com os recursos ao meu alcance. Iniciei o trabalho procurando esclarecer os Espíritos infelizes que se mantinham em estreita ligação com o enfermo. Minhas dificuldades, porém, eram enormes. Sentia-me abatidíssimo.

Nessa emergência, lembrei certa lição de Tobias, quando me dissera: — “Aqui, em “Nosso Lar”, nem todos necessitam do aeróbus para se locomoverem; porque os habitantes mais elevados da colônia dispõem do poder de volitação; e nem todos precisam de aparelhos de comunicação para conversar a distância, por se manterem, entre si, num plano de perfeita sintonia de pensamentos. Os que se encontrem afinados desse modo, podem dispor, à vontade, do processo de conversação mental, apesar da distância”.

Lembrei quanto me seria útil a colaboração de Narcisa e experimentei. Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e, nas vibrações da prece, dirigi-me a Narcisa encarecendo socorro. Contava-lhe, em pensamento, minha experiência dolorosa, comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me não desamparasse.

Aconteceu, então, o que não poderia esperar.

Passados vinte minutos, mais ou menos, quando ainda não havia retirado a mente da rogativa, alguém me tocou de leve no ombro.

Era Narcisa que atendia, sorrindo:

— Ouvi seu apelo, meu amigo, e vim ao seu encontro.

Não cabia em mim de contentamento.

A mensageira do bem fixou o quadro, compreendeu a gravidade do momento e acrescentou:

— Não temos tempo a perder.

Antes de tudo, aplicou passes de reconforto ao doente, isolando-o das formas escuras, que se afastaram como por encanto. Em seguida, convidou-me com decisão:

— Vamos à Natureza.

Acompanhei-a sem hesitação, e ela, notando-me a estranheza, acentuou:

— Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. As forças naturais fazem o mesmo, nos reinos diversos em que se subdividem. Para o caso do nosso enfermo, precisamos das árvores. Elas nos auxiliarão eficazmente.

Admirado da lição nova, segui-a, silencioso. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes, Narcisa chamou alguém, com expressões que eu não podia compreender. Daí a momentos, oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo.

Imensamente surpreendido, vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. Devidamente informada pelos amigos, que me eram totalmente estranhos, a enfermeira explicou:

— São servidores comuns do reino vegetal, os irmãos que nos atenderam.

E, à vista da minha surpresa, rematou:

— Como vê, nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai. Em toda parte, se há quem necessite aprender, há quem ensine; e onde aparece a dificuldade, surge a Providência. O único desventurado, na obra divina, é o Espírito imprevidente, que se condenou às trevas da maldade.

Narcisa manipulou, em poucos instantes, certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira e, durante toda a noite, aplicamos o remédio ao enfermo, através da respiração comum e da absorção pelos poros.

O enfermo experimentou melhoras sensíveis. Pela manhã, cedo, o médico observou, extremamente surpreendido:

— Verificou-se esta noite extraordinária reação! Verdadeiro milagre da Natureza!

Zélia estava radiante. Encheu-se a casa de alegria nova. Por minha vez, experimentava grande júbilo n'alma. Profundo alento e belas esperanças revigoravam-me o ser. Reconhecia, eu mesmo, que vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim, para sempre.

Nesse dia, voltei a “Nosso Lar” em companhia de Narcisa e, pela primeira vez, experimentei a capacidade de volitação.

Num momento, ganhávamos grandes distâncias. A bandeira da alegria desfraldara-se em meu íntimo. Comunicando à enfermeira generosa minha impressão de leveza, ouvi-a esclarecer:

— Em “Nosso Lar”, grande parte dos companheiros poderia dispensar o aeróbus e transportar-se, à vontade, nas áreas de nosso domínio vibratório; mas, visto a maioria não ter adquirido essa faculdade, todos se abstêm de exercê-la em nossas vias públicas. Essa abstenção, todavia, não impede que utilizemos o processo longe da cidade, quando é preciso ganhar distância e tempo.

Nova compreensão e novos júbilos me enriqueciam o espírito. Instruído por Narcisa, ia da casa terrestre à cidade espiritual e vice-versa, sem dificuldade de vulto, intensificando o tratamento de Ernesto, cujas melhoras se firmaram, francas e rápidas.

Clarêncio visitava-me, diariamente, mostrando-se satisfeito com o meu trabalho.

Ao fim da semana, chegara ao termo de minha primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação. A alegria tornara aos cônjuges, que passei a estimar como irmãos.

Era preciso, pois, regressar aos deveres justos.

À luz dormente e cariciosa do crepúsculo, tomei o caminho de “Nosso Lar”, totalmente modificado. Naqueles sete dias rápidos, aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e da fraternidade legítimas. A tarde sublime enchia-me de magnos pensamentos.

Como é grande a Providência Divina! — Dizia, a monologar intimamente. — Com que sabedoria dispõe o Senhor todos os trabalhos e situações da vida! Com que amor atende a toda a Criação!

Algo, porém, arrancou-me da meditação a que me recolhera. Mais de duzentos companheiros vinham ao meu encontro.

Todos me saudavam, generosos e acolhedores, Lísias, Lascínia, Narcisa, Silveira, Tobias, Salústio e numerosos cooperadores das Câmaras ali estavam. Não sabia que atitude assumir, colhido, assim, de surpresa.

Foi, então, que o Ministro Clarêncio, surgindo à frente de todos, adiantou-se, estendeu-me a destra generosa e falou:

— Até hoje, André, você era meu pupilo na cidade; mas, doravante, em nome da Governadoria, declaro-o cidadão de “Nosso Lar”.

Por que tamanha magnanimidade se meu triunfo era tão pequenino? Não conseguia reter as lágrimas de emoção que me embargavam a voz. E, considerando a grandeza da Bondade Divina, atirei-me aos braços paternais de Clarêncio, a chorar de gratidão e de alegria.

André Luiz





VÍDEO:

Nosso Lar - Cap. 50 - Cidadão de "Nosso Lar"
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz 



O Espírito da Letra - Nosso Lar - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 


Emmanuel - Livro Seguindo Juntos - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 5 - Diante da fé



Emmanuel - Livro No Portal da Luz - Chico Xavier - Cap. 6


Tarefas de amor


Antes de examinar a nossa condição de Espíritos devedores, na esfera da consanguinidade, vejamos o lar enobrecido em sua função de oficina do amor.

Para isso, é importante figurar o teu próprio sonho de felicidade para além da experiência terrestre.

Se houvesses de partir agora, ao chamado da desencarnação, decerto rogarias para teu imediato proveito o céu do retorno aos entes amados.

Quem não terá, enquanto na Terra, residindo para lá das fronteiras da morte, um coração materno, um pai amigo, um irmão ou um companheiro?

Quem de nós não sentirá saudades de alguém, até que nos reunamos todos no doce país da União Sem Adeus? 

E muitos de nós, quando nos desenfaixamos do corpo denso, somos carinhosamente acolhidos pela dedicação dos que nos precederam, apesar dos desequilíbrios que demonstremos, para a devida restauração em bases de amor.

Assim também, os seres queridos do Plano Espiritual, quando necessitam do regresso ao Plano físico, ansiando a conquista de paz e reajustamento, escolhem o nosso clima doméstico para as temporadas de serviço regenerativo ou reequilibrante de que sejam carecedores, atendendo sempre aos imperativos do amor que nos associam.

Se guardas no lar alguém que te enternece pela enfermidade ou provação que apresente, não julgues teus cuidados à conta de culpa e resgate, mas, sim, desenvolve-os por tributo de reconhecimento e carinho, em favor daquele coração faminto de harmonia consigo mesmo que te procurou a companhia, em nome do afeto milenário que a ele te junge desde outra eras.

Lembra-te de que o débito da ternura e da gratidão jamais termina.

Teu lar é um ponto bendito do Universo em que te é possível exercer todas as formas de abnegação a benefício dos outros e de ti mesmo, perante Deus. Pensa nisso e o amor te iluminará.


Emmanuel










Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano

Rodrigues de Abreu - Livro Seguindo Juntos - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 4 - Ante a vida



Rodrigues de Abreu - Livro Seguindo Juntos - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 4


Ante a vida


Converte os teus momentos marchando, cada dia, em bênçãos de esperança e em migalhas de amor…

Não te esqueças que o corpo é a lira milagrosa em que deves tanger as cordas da bondade, a fim de que teu canto, precedendo-te os passos, fale por ti, mais alto, na Eterna Plenitude!…

Somos nós, em verdade, os escravos do Tempo, mas felizes senhores do minuto que passa.

Gastemos, pois, o instante que, célere, nos beija, avançando a servir, nas sendas de ascensão…

Um gesto de ternura.

Um sorriso mais doce.

Uma frase em que brilhe o grande entendimento.

Uma flor que transborde o perfume da paz.

Um aperto de mão que diga sem palavras a grande compreensão e o carinho fraterno.

Um pequeno serviço e a simples gentileza, o estímulo ao trabalho e o generoso auxílio, são moedas de amor que entesouras, além…

Segue, assim, deslumbrado ante o sol que fulgura nos caminhos do “Agora” e distribui, cantando, o bem e a simpatia, a virtude e a beleza, a fim de que “Amanhã”, subas, feliz, ao Céu no carro da alegria, recebendo, afinal, a riqueza da luz na Vida Imperecível.


Rodrigues de Abreu





Benedito Luís Rodrigues de Abreu (Capivari, 27 de setembro de 1897 — Bauru, 24 de novembro de 1927) foi um poeta brasileiro. Escreveu e publicou três livros. Num deles, "A sala dos passos perdidos", dizem que ele tinha frequentado as tradições da maçonaria. No outro, "Noturnos", com base no qual aceitava a reencarnação, ele diz: “E há tantas vidas como a meia-noite”. Na sua obra mais consagrada, que tem por título "Casa destelhada" e foi traduzida para diversos idiomas, ele faz essa comparação: “A minha alma, a inquilina, está pensando que é preciso mudar-se, que é preciso ir para uma casa bem coberta…” Ele começa a revelar as dificuldades com a tísica (tuberculose) que o levaria de volta à vida espiritual. "Com ele", escreveu Odilo Costa Filho (poeta, jornalista, cronista, membro da Academia Brasileira de Letras), "expira o Simbolismo no Brasil, e expira com beleza, dor e beleza".