Mostrando postagens com marcador Os Mensageiros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Os Mensageiros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 4 - O caso Vicente



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 4


O caso Vicente
 

Impossível traduzir meu contentamento com a nova companhia.

Vicente, semblante muito calmo, olhar inteligente e lúcido, irradiava carinho e bondade, sensatez e compreensão.

Disse-me de sua alegria por haver encontrado um companheiro médico, alojou-me convenientemente junto dele, demonstrando extrema generosidade fraternal.

Era o primeiro colega na profissão, igualmente recém-chegado das Esferas da Crosta, de quem me aproximava de modo direto.

Trocamos ideias largamente sobre as surpresas que nos defrontavam. Comentamos as dificuldades oriundas da ilusão terrestre, a miopia da pequena ciência, os problemas profundos e sedutores da medicina espiritual.

Vicente, conquanto não tivesse ainda qualquer visita ao Plano dos encarnados, em caráter de serviço, admirava Aniceto extraordinariamente, e punha-me ao corrente dos estudos valiosos a que se entregava junto dele.

Estava cheio de conceitos entusiásticos. Em pouco mais de uma hora, nossa intimidade semelhava-se ao sentimento de dois irmãos unidos, desde muito, nos laços espirituais. O novo companheiro conquistara-me infinita confiança.

Evidenciando nímia delicadeza, indagou da minha posição perante os parentes terrestres, ao que respondi com a história resumida de minha singular aventura, ao conhecer as segundas núpcias de minha viúva. 

Imprimi toda a ênfase possível ao meu relatório verbal, sensibilizando-me, profundamente, no curso da narrativa. Em cada pormenor culminante dos fatos, detinha-me de propósito, salientando meus velhos sofrimentos e relacionando dissabores que me pareciam insuperáveis.

Vicente ouviu silencioso, sorrindo a intervalos. Quando terminei a comovida exposição, ele pôs-me a destra no ombro e murmurou:

— Não se julgue desventurado e incompreendido. Saiba, meu caro André, que você foi muitíssimo feliz.

— Como assim?

— Sua Zélia respeitou o companheiro até ao fim, e o segundo matrimônio, em tais circunstâncias, não é de admirar. No meu caso, porém, a coisa foi muito pior.

E, dado meu justo espanto, o novo amigo continuou:

— Explico-me.

Meditou alguns instantes, como quem alinhava reminiscências, e prosseguiu:

— Não pode você imaginar como foi intenso o sonho de amor do meu casamento. Logo após a aquisição do diploma profissional, aos vinte e cinco anos, esposei Rosalinda, exultante de ventura. Não levava à esposa tão somente uma situação material confortadora e sólida, no terreno financeiro, mas também os meus tesouros de afeto e devotamento. 

Minha felicidade não tinha limites. Em pouco tempo, dois filhinhos enriqueceram-me o lar ditoso. Meu bem-estar era inexprimível. Em virtude das reservas bancárias, não me especializei na clínica, consagrando-me, todavia, apaixonadamente, ao laboratório. 

Atendendo aos meus pendores, não me foi difícil atrair a confiança de numerosos colegas e vários centros de estudos, multiplicando pesquisas e resultados brilhantes. 

E Rosalinda era a minha primeira e melhor colaboradora. De quando em quando, notava-lhe o enfado no trato com os tubos de ensaio, mas minha esposa sabia então calar as contrariedades pequeninas, a favor da nossa felicidade doméstica. Parecia compreender-me integralmente. Era, aos meus olhos, a mãe dedicada e companheira sem defeitos.

Contávamos dez anos de ventura conjugal, quando meu irmão Eleutério, advogado, solteiro, algo mais velho que eu, deliberou localizar-se junto de nós. Rosalinda foi inexcedível em atenções, considerando que se tratava de pessoa de minha família. Eleutério entrou em nossa casa como irmão. Embora residisse em hotel, compartilhava dos nossos serões caseiros, sempre bem posto e interessado em agradar.

Observei, desde então, que minha mulher se modificava pouco a pouco. Exigiu fosse contratada uma auxiliar que a substituísse nos meus serviços, alegando que os nossos filhinhos não dispensavam assistência maternal, mais assídua. Anuí, satisfeito. Tratava-se, afinal, de providência interessante ao bem-estar de nossos filhos. 

Contudo, a transformação de Rosalinda assumiu caráter impressionante. Passou a não comparecer ao laboratório, onde tantas vezes nos abraçávamos, alegremente, ao vermos coroadas de êxito nossas pesquisas mais sérias. Preferia o cinema ou a estação de repouso, em companhia de Eleutério.

Isso me entristecia bastante, mas eu não poderia desconfiar da conduta de meu irmão. Fora sempre criterioso, em família, não obstante ousado e filaucioso nas atividades profissionais.

Minha vida doméstica, antes tão feliz, passou a ser de solidão assaz amarga, que eu tentava iludir com o trabalho persistente e honesto.

Assim corriam as coisas, quando singular transformação me alterou a experiência. Pequena borbulha na fossa nasal, que nunca me trouxera incômodos de qualquer natureza, depois de levemente ferida, tomou caráter de extrema gravidade. Em poucas horas, declarou-se a septicemia. 

Reuniram-se colegas em verdadeira assembleia, junto de meu leito. Inúteis, todavia, todos os cuidados; anuladas as melhores expressões de assistência. Compreendi que o fim se aproximava, rápido. 

Rosalinda e Eleutério pareciam consternados e, até hoje, guardo a impressão de rever-lhes o olhar ansioso, no momento em que a neblina da morte me envolvia os olhos materiais.

Nessa altura, Vicente fez longo estacato, como a fixar reminiscências mais dolorosas, e continuou menos vivaz:

— Depois de algum tempo de tristes perturbações nas zonas inferiores, quando já me encontrava restabelecido, em “Nosso Lar”, certifiquei-me de toda a verdade. 

Voltando ao lar terreno, encontrei a grande surpresa. Rosalinda havia desposado Eleutério em segundas núpcias.

— Como são idênticas as nossas histórias! — Exclamei impressionado.

— Isso é que não, — protestou a sorrir.

E continuou:

— Outra surpresa me dilacerava o coração. Somente ao regressar ao lar, soube que fora vítima de odioso crime. Meu próprio irmão inspirou a trama sutil e perversa. Minha mulher e ele apaixonaram-se perdidamente um pelo outro e cederam a tentações inferiores. 

Não havia que recorrer a divórcio, e, mesmo que a legislação o facultasse, constituiria um escândalo o afastamento de Rosalinda para unir-se, publicamente, ao cunhado. Eleutério lembrou, porém, que possuíamos experiências de laboratório e sugeriu a Rosalinda a ideia de me aplicarem determinada cultura microbiana, que ele mesmo se incumbiria de obter, na primeira oportunidade. 

A pobre da companheira não vacilou, e, valendo-se do meu sono descuidado, introduziu na minúscula espinha nasal, algo ferida, o vírus destruidor.

E aí tem você o meu caso naturalmente resumido.

Eu estava assombrado.

— E os criminosos? — Perguntei.

Vicente sorriu ligeiramente e informou:

— Rosalinda e Eleutério vivem aparentemente felizes, são excelentes materialistas, por enquanto, e gozam, no mundo transitório, grande fortuna amoedada e alto conceito social.

— Mas… e a justiça? — Indaguei, aterrado.

— Ora, André, — esclareceu serenamente, — tudo vem a seu tempo, tanto no bem quanto no mal. Primeiro a semente, depois os frutos.

Percebendo-me, porém, as tristes impressões, Vicente concluiu:

— Não falemos mais nisto. Aproxima-se a hora da instrução. Atendamos às nossas necessidades essenciais, auxiliando os nossos amados, que ainda permanecem a distância, nos Círculos terrestres. 

Não se impressione. A árvore, para produzir, não reclama as folhas mortas. Para nós, atualmente, meu amigo, o mal é simples resultado da ignorância e nada mais.


André Luiz 





VÍDEO: 

Os Mensageiros - Cap. 04 - O Caso Vicente
O Espírito da Letra 

Apresentação: André Luiz Ruiz 




O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 




sexta-feira, 6 de outubro de 2023

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 9 - Ouvindo impressões



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 9


Ouvindo impressões


Deixando Acelino em conversação mais íntima com Otávio, fui levado por Vicente a outro ângulo da sala.

Muitos grupos se mantinham em palestra interessante e educativa, observando eu que quase todos comentavam as derrotas sofridas na Terra.

— Fiz quanto pude! — Exclamava uma velhinha simpática para duas companheiras que a escutavam atentamente; — no entanto, os laços de família são muito fortes. Algo fazia-se ouvir sempre, com voz muito alta, em meu espírito, compelindo-me ao desempenho da tarefa; mas… e o marido? 

Amâncio nunca se conformou. Se os enfermos me procuravam no receituário comum, agravava-se-lhe a neurastenia; se os companheiros de doutrina me convidavam aos estudos evangélicos, revoltava-se, ciumento. Que pensam vocês? Chegava a mobilizar minhas filhas contra mim. Como seria possível, em tais circunstâncias, atender a obrigações mediúnicas?

— Todavia, — ponderou uma das senhoras que parecia mais segura de si, — sempre temos recursos e pretextos para fugir às culpas. Encaremos nossos problemas com realismo. Há de convir que, com o socorro da boa vontade, sempre lhe ficariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem. 

Talvez pudesse conquistar o entendimento do esposo e a colaboração afetuosa das filhas, se trabalhasse em silêncio, mostrando sincera disposição para o sacrifício. Nossos atos, Mariana, são muito mais contagiosos que as nossas palavras.

— Sim, — respondeu a interlocutora, emitindo voz diferente, — concordo com a observação. Em verdade, nunca pude sofrer a incompreensão dos meus, sem reclamar.

— Para trabalharmos com eficiência, — tornou a companheira, sensata, — é preciso saber calar, antes de tudo. 

Teríamos atendido perfeitamente aos nossos deveres, se tivéssemos usado todas as receitas de obediência e otimismo que fornecemos aos outros. Aconselhar é sempre útil, mas aconselhar excessivamente pode traduzir esquecimentos de nossas obrigações. 

Assim digo, porque meu caso, a bem dizer, é muito semelhante ao seu. Fomos ao Círculo carnal para construir com Jesus, mas caímos na tolice de acreditar que andávamos pela Terra para discutir nossos caprichos. 

Não executei minha tarefa mediúnica, em virtude da irritação que me dominou, dada a indiferença dos meus familiares pelos serviços espirituais. Nossos instrutores, aqui, muito me recomendaram, antes, que para bem ensinar é necessário exemplificar melhor. 

Entretanto, por minha desventura, tudo esqueci no trabalho temporário da Terra. Se meu marido fazia ponderações, criava eu contrafações. Não suportava qualquer parecer contrário ao meu ponto de vista, em matéria de crença, incapaz de perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos. 

Das irreflexões nasceu minha perda última, na qual agravei, de muito, as responsabilidades. Quase mensalmente, Joaquim e eu nos empenhávamos em discussões e não trocávamos apenas os insultos contundentes, mas também os fluidos venenosos, segregados por nossa mente rebelde e enfermiça. Entre os conflitos e suas consequências, passei o tempo inutilizada para qualquer trabalho de elevação espiritual.

Nesse instante, chamou-me Vicente para apresentar um amigo.

Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente:

— Afinal, Ernestina, — indagava uma delas à mais jovem, — qual foi a causa do seu desastre?

— Apenas o medo, minha amiga, — explicou-se a interpelada, — tive medo de tudo e de todos. Foi o meu grande mal.

— Mas, como tudo isto impressiona! Você foi muitíssimo preparada. Recordo-me ainda das nossas lições em conjunto. As instrutoras do Esclarecimento confiavam extraordinariamente no seu concurso. Seu aproveitamento era um padrão para nós outras.

— Sim, minha querida Benita, suas reminiscências fazem-me sentir, com mais clareza, a extensão da minha bancarrota pessoal. Entretanto, não devo fugir à realidade. Fui a culpada de tudo. Preparei-me o bastante para resgatar antigos débitos e efetuar edificações novas; contudo, não vigiei como se impunha. 

O chamamento ao serviço ressoou no tempo próprio, orientando-me o raciocínio os melhores esclarecimentos; nossos instrutores me proporcionavam os mais santos incentivos, mas desconfiei dos homens, dos desencarnados e até de mim mesma. 

Nos estudiosos do Plano físico, enxergava pessoas de má fé; nos irmãos invisíveis, presumia encontrar apenas galhofeiros fantasiados de orientadores, e, em mim mesma, receava as tendências nocivas. Muitos amigos tinham-me em conta de virtuosa, pelo rigorismo das minhas exigências; todavia, no fundo, eu não passava de enferma voluntária, carregada de aflições inúteis.

— Foi uma grande infantilidade da sua parte, — retrucou a outra, — você olvidou que, na Esfera carnal, o maior interesse da alma é a realização de algo útil para o bem de todos, com vistas ao Infinito e à Eternidade. 

Nesse mister, é indispensável contar com o assédio de todos os elementos contrários. Ironias da ignorância, ataques da insensatez, sugestões inferiores da nossa própria animalidade surgirão, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel. São circunstâncias lógicas e fatais do serviço, porque não vamos ao Mundo Físico para descanso injustificável, mas para lutar pela nossa melhoria, a despeito de todo impedimento fortuito.

— Compreendo, agora, — disse a outra; — todavia, o receio das mistificações prejudicou minha bela oportunidade.

É, minha amiga, — tornou a interlocutora, — é tarde para lamentar. Tanto tememos as mistificações, que acabamos por mistificar os serviços do Cristo.

Escutava a palestra, com interesse crescente, mas o companheiro levou-me adiante para novas apresentações.

Atendia a esses agradáveis deveres da sociedade de “Nosso Lar”, mas, para não perder ensejo de instruir-me, continuava atento às conversações em torno. Alguns cavalheiros mantinham discreta permuta de pareceres.

— Reconheço que fali, — dizia um deles em tom grave, — e muito já expiei nas regiões inferiores, mas aguardo novos recursos da Providência.

— Faltou-lhe, porém, bastante orientação para o caminho? — Perguntava um companheiro.

— Explico-me: — Esclareceu o primeiro, — faltou-me o amparo da esposa. Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas. A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica. Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia. 

Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância. Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas. 

Quando me senti sem a generosa companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substituí-la, e fui acidentado. Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, me arrastou a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz. 

Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes; entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada.

Tornara-se a palestra sumamente interessante. Desejava acompanhar-lhe o curso, mas Vicente chamou-me a atenção para outro assunto e era necessário acompanhá-lo.


André Luiz





VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 09 - Ouvindo impressões
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier.


segunda-feira, 30 de maio de 2022

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 40 - Rumo ao campo



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 40


Rumo ao campo


Quase todos os servidores espirituais puseram-se a caminho de tarefas variadas. Somente alguns amigos permaneceriam na residência de Dona Isabel, em missão de auxílio e vigilância.

Notei que Aniceto continuava distribuindo instruções diversas, dirigindo-se, em caráter confidencial, a determinados companheiros, a respeito da missão que lhe confiara Telésforo.

Antes do meio-dia, porém, convidou-nos a acompanhá-lo.

— Na oficina, — disse-nos, bondoso, — encontramos revigoramento imprescindível ao trabalho. Recebemos reforços de energia, alimentamo-nos convenientemente para prosseguir no esforço, mas convenhamos que, para muitos de nós, a noite representou uma série de atividades longas e exaustivas. Necessitamos de algum descanso. Voltaremos ao crepúsculo.

Aonde iríamos? Ignorava. Recordei que, de fato, se alguns haviam repousado no santuário doméstico, durante a noite, a maioria havia trabalhado intensamente, e concluí que, se muitos pela manhã haviam tomado rumo às obrigações, outros teriam buscado o repouso indispensável.

— Aonde vão? — Perguntou um companheiro da vigilância, que se fizera nosso amigo.

Antes que respondêssemos, Aniceto esclareceu:

— Vamos ao campo.

E, dirigindo-se especialmente a Vicente e a mim, considerou:

— Utilizemos a volitação, mesmo porque não temos objetivos imediatos no centro urbano. Notei que movimentava agora minhas faculdades volitantes com facilidade crescente. 

A excursão educativa, com escala pelo Posto de Socorro de Campo da Paz, fizera-me grande bem. Melhorara em adestramento, sentia-me fortalecido ante as vibrações de ordem inferior, mobilizava os recursos próprios sem dificuldade. 

Reparei, igualmente, que minhas possibilidades visuais cresciam sensivelmente. Volitando, não observara, até então, o que agora verificava, extremamente surpreendido. 

Dantes, via somente os homens, os animais, veículos e edifícios chumbados ao solo. Agora, a visão dilatava-se. Reconhecia, de longe, o peso considerável do ar que se agarrava à superfície. 

Tive a impressão de que nadávamos em alta zona do mar de oxigênio, vendo em baixo, em águas turvas, enorme quantidade de irmãos nossos a se arrastarem pesadamente, metidos em escafandros muito densos, no fundo lodoso do oceano.

— Estão vendo aquelas manchas escuras na via pública? — Indagava nosso orientador, percebendo-nos a estranheza e o desejo de aprender cada vez mais.

Como não soubéssemos definir com exatidão, prosseguia explicando:

— São nuvens de bactérias variadas. Flutuam, quase sempre também, em grupos compactos, obedecendo ao princípio das afinidades. Reparem aqueles arabescos de sombra…

E indicava-nos certos edifícios e certas regiões citadinas.

— Observem os grandes núcleos pardacentos ou completamente obscuros!… São zonas de matéria mental inferior, matéria que é expelida incessantemente por certa classe de pessoas. 

Se demorarmos em nossas investigações, veremos igualmente os monstros que se arrastam nos passos das criaturas, atraídos por elas mesmas…

Imprimindo grave inflexão às palavras, considerou:

— Tanto assalta o homem a nuvem de bactérias destruidoras da vida física, quanto as formas caprichosas das sombras que ameaçam o equilíbrio mental. 

Como veem, o “orai e vigiai” do Evangelho tem profunda importância em qualquer situação e a qualquer tempo. 

Somente os homens de mentalidade positiva, na Esfera da espiritualidade superior, conseguem sobrepor-se às influências múltiplas de natureza menos digna.

Interessado, contudo, em maior esclarecimento, perguntei:

— Mas a matéria mental emitida pelo homem inferior tem vida própria como o núcleo de corpúsculos microscópicos de que se originam as enfermidades corporais?

O mentor generoso sorriu singularmente e acentuou:

— Como não? Vocês, presentemente, não desconhecem que o homem terreno vive num aparelho psicofísico. Não podemos considerar somente, no capítulo das moléstias, a situação fisiológica propriamente dita, mas também o quadro psíquico da personalidade encarnada. 

Ora, se temos a nuvem de bactérias produzidas pelo corpo doente, temos a nuvem de larvas mentais produzidas pela mente enferma, em identidade da circunstâncias. 

Desse modo, na esfera das criaturas desprevenidas de recursos espirituais, tanto adoecem corpos, como almas. No futuro, por esse mesmo motivo, a medicina da alma absorverá a medicina do corpo. 

Poderemos, na atualidade da Terra, fornecer tratamento ao organismo de carne. Semelhante tarefa dignifica a missão do consolo, da instrução e do alívio. Mas, no que concerne à cura real, somos forçados a reconhecer que esta pertence exclusivamente ao homem-espírito.

— Deus meu! — Exclamou Vicente, espantado, — a que perigos está submetido o homem comum!

— Por isso, — tornou Aniceto, cuidadoso, — a existência terrestre é uma gloriosa oportunidade para os que se interessam pelo conhecimento e elevação de si mesmos. 

E, por esta mesma razão, ensinamos a necessidade da fé religiosa entre as criaturas humanas. 

Desenvolvendo essa campanha, não pretendemos intensificar as paixões nefastas do sectarismo, mas criar um estado positivo de confiança, otimismo e ânimo sadio na mente de cada companheiro encarnado. Até agora, apenas a fé pode proporcionar essa realização

As ciências e as filosofias preparam o campo; entretanto, a fé que vence a morte, é a semente vital. Possuindo-lhe o valor eterno, encontra o homem bastante dinamismo espiritual para combater até à vitória plena em si mesmo.

Compreendendo que precisaria completar o esclarecimento, exclamou, depois de pausa mais longa:

— Todos precisamos saber emitir e saber receber. Para alcançarem a posição de equilíbrio, nesse mister, empenham-se os homens encarnados e nós outros, em luta incessante. 7 E já que conhecemos alguma coisa da eternidade, é preciso não esquecer que toda queda prejudica a realização, e todo esforço nobre ajuda sempre.

As explicações recebidas não poderiam ser mais claras. Aquela visão, porém, de ruas repletas de pontos sombrios a se deslocarem vagarosos, atingindo homens e máquinas, nas vias públicas, assombrava-me.

Sequioso de ensinamentos, tornei ao assunto:

— A lição para mim tem valores incalculáveis. E quando penso no alto poder reprodutivo da flora microbiana…

Aniceto, contudo, não me deixou terminar. Conhecendo, de antemão, minha pergunta natural, cortou-me a frase, exclamando:

— Sim, André; se não fosse o poder muito maior da luz solar, casada ao magnetismo terrestre, poder esse que destrói intensivamente para selecionar as manifestações da vida, na Esfera da Crosta, a flora microbiana de ordem inferior não teria permitido a existência dum só homem na superfície do globo. 4 Por esta razão, o solo e as plantas estão cheios de princípios curativos e transformadores.

E, abanando significativamente a cabeça, concluiu:

Nada obstante esse poder imenso, recurso divino, enquanto os homens, herdeiros de Deus, cultivarem o campo inferior da vida, haverá também criações inferiores, em número bastante para a batalha sem tréguas em que devem ganhar os valores legítimos da evolução.


André Luiz




VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 40 - Rumo ao campo
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 21 - Espíritos dementados




André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 21


Espíritos dementados
(Sumário)


Inúmeros servidores acompanhavam-nos ao serviço. Movimentavam-se carregadores sem conta. Conduziam grandes botijas d’água, caldeirões de sopa, vasos de substância medicamentosa, em galeotas diversas.

Mais alguns passos e notei que centenas de entidades se reuniam em vastos albergues, olhos vagueantes e rostos sombrios, parecendo uma assembleia de loucos em manicômio de amplas proporções.

Alfredo aconselhou umas tantas providências de serviço à maioria dos técnicos do sopro curativo, os quais se desviaram de nós, rumo às edificações situadas em zona diferente.

Gentilmente nos explicava que os benfeitores de “Campo da Paz” localizavam, ali, grande número de Espíritos enfermos, mais desequilibrados que propriamente perversos. Os doentes que tínhamos sob os olhos permaneciam em melhores condições. Já se locomoviam e muitos deles já conversavam, apesar do desequilíbrio que lhes assinalava as palavras e pensamentos.

Esclarecia-nos sobre as múltiplas obrigações do trabalho de rotina, quando algumas entidades se acercaram, respeitosas:

— Senhor Alfredo — disse um velho de barbas muito alvas —, estou aguardando o resultado da minha petição. Em que ficamos, quanto às minhas terras e os escravos? Paguei bom preço ao Carmo Garcia. Sabe o senhor que venho sendo perseguido durante muitos anos, e não posso perder mais tempo. Quando volto para casa? Creio esteja o senhor ciente da necessidade de eu voltar ao seio dos meus. Esperam-me a mulher e os filhos.

Como excelente médico da alma, Alfredo prestou a maior atenção e respondeu, como se estivesse tratando com pessoa de bom senso:

— Sim, Malaquias, você reclama com razão, mas sua saúde não permite o regresso apressado. Você sabe que sua esposa, Dona Sinhá, pediu fosse você aqui tratado convenientemente. Creio que ela deve estar muito tranquila a seu respeito. Suas ideias, porém, meu amigo, não estão ainda bem coordenadas. Temos alguma coisa mais a fazer. Porque preocupar-se tanto, assim, com as terras e os escravos? Primeiramente a saúde, Malaquias; não esqueça a saúde!

O velho sorriu, como o doente apoiado na firmeza e no otimismo do médico.

— Reconheço que as suas observações são justas, mas meus filhos não se movem sem mim, são preguiçosos e necessitam da minha presença.

Mas, doutrinando sutilmente o pobre velhinho, o administrador objetou:

— Entretanto, donde vieram os filhos para os seus braços paternos? Não vieram das mãos de Deus?

— Sim, sim… — afirmava o ancião, trêmulo e satisfeito.

— Pois é isso, Malaquias, chegam instantes na vida, em que precisamos devolver a Deus o que a Ele pertence. Além do mais, seus filhos são também responsáveis, e, se forem ociosos, responderão pelos males que criarem em torno de si mesmos. Por agora, é indispensável que você se refaça, aclare as ideias e sossegue o coração.

O velho sorriu, confortado, mas, antes que pudesse falar de novo, um cavalheiro, denotando nobre aprumo, adiantou-se, exclamando:

— E a solução do meu processo, senhor Alfredo? Sinto-me prejudicado pelos parentes de má fé. Minha parte na herança dos avós é cobiçada pelos primos. Segundo já lhe fiz ver, meu quinhão é superior aos demais. Soube, todavia, que o Visconde de Cairu interpôs toda a sua influência contra mim. Ninguém ignora tratar-se de um grande velhaco. Que não poderá ele fazer com as artimanhas políticas? Está mal informado a meu respeito. O senhor enviou meu pedido ao Imperador?

— Já expedi a mensagem — esclareceu Alfredo com carinho fraternal —, o Imperador certamente levará em conta a solicitação.

— Entretanto, a demora é muito grande!… — falou o cavalheiro, impaciente, como se estivesse diante de um subordinado vulgar.

— Mas, meu caro Aristarco — respondeu o administrador, muito calmo —, acredito que você está sendo experimentado para conhecer a grandeza da herança divina. Que valem os patrimônios terrestres, ante os patrimônios imperecíveis? Não pense no que tem perdido; medite nos bens sublimes que poderá alcançar, diante dá Vida Eterna. Esqueça os primos ambiciosos e o Visconde que não o compreendeu. Terão eles de deixar quanto possuem, no campo transitório, a fim de prestarem contas à Divindade. Nunca pensou nisto?

Aristarco pareceu perder, por momentos, a inquietação, sorriu francamente e respondeu:

— É verdade! Os tratantes morrerão…

Uma senhora, mostrando-se aflita, pôs-se à nossa frente e interpelou, altiva:

— Senhor Alfredo, peço-lhe não me retenha aqui. Meu marido é nosso próprio adversário. Prometeu perseguir as filhas, tão logo me ausentasse de casa. Aqui permanecendo, estou certa de que ele nos dissipará os bens, desmoralizar-nos-á o nome. Por favor, autorize o meu regresso. O coração me diz que as filhinhas estão desesperadas. Convenço-me, cada vez mais, de que a minha moléstia teve origem neste estado de coisas…

— Já sei, minha irmã — respondeu o nosso amigo com a mesma solicitude —; no entanto, que adiantaria regressar, tão fortemente atormentada? Não será melhor curar-se, tranquilizar o espírito para ajudar as filhinhas com eficiência?

— Mas, nem sequer sei onde estou — reclamou a pobre senhora, torcendo as mãos —, creio me tenham trazido ao fim do mundo, para tratamento de uma simples perda de sentidos!

— Todavia, ninguém a maltrata — disse o interlocutor, bondosamente — e seu caso não é tão simples como parece. Tenha calma. Os laços consanguíneos são edificantes, mas, acima deles, vibra a família universal. Há criaturas suportando fardos muito mais pesados que o seu. Aprenda, quanto esteja em suas possibilidades, a desfazer-se de aquisições passageiras, para ganhar os eternos bens.

A infeliz não sorriu como os outros. Fechando-se em sombria catadura, afastou-se pesadamente, olhos fulgurantes de cólera, como se a mente estivesse cravada muito longe, incapaz de qualquer compreensão.

Adiantaram-se outros enfermos, mas o administrador falou em voz alta:

— Não posso atender a todos no momento. Depois de amanhã, serão recebidos para explicações.

E, voltando-se para nós, esclareceu a sorrir:

— No Círculo carnal, seriam todos absolutamente normais; no entanto, aqui, são verdadeiros loucos. São desencarnados que, por muito tempo, se agarraram aos problemas inferiores. Reclamam providências, sem falar no ensejo de iluminação que menosprezaram, acusam os outros, sem relacionarem os próprios erros. Procurei ouvi-los para lhes dar uma ideia do nosso trabalho, no setor dos que se desequilibram mentalmente por excesso de centralização em propósitos inferiores. Não é crime interessar-se alguém pelas atividades rurais, pela recepção de uma herança, pelo bem-estar da família; mas, no fundo, o velhinho que reclama terras e escravos nunca pensou senão em tirania no campo; o cavalheiro, que aguarda a herança, deseja lesar os primos; e a senhora, que se revelou tão interessada pelo ambiente doméstico, desencarnou quando pretendia envenenar o marido, às ocultas. Conheço-lhes os processos, um a um. Acordaram de longo sono, na inconsciência, e julgam-se ainda encarnados, supondo igualmente que podem dissimular as pretensões criminosas.

Eu estava assombrado. Expressando minha profunda admiração, perguntei:

— Esses doentes demoram-se aqui? Como alcançaram o Posto?

Gentil, como sempre, Alfredo respondeu:

— Foram recolhidos em pior estado. Já estiveram em pesado sono durante muito tempo e vão readquirindo a memória, gradativamente, até que possam ser encaminhados aos Institutos Magnéticos de “Campo da Paz”, a fim de receberem maiores auxílios e necessários esclarecimentos.


André Luiz






VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 21 - Espíritos dementados
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier.


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 26 - Ouvindo servidores



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 26


Ouvindo servidores
(Sumário)


Notei que o trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem, não obstante o respeito natural às noções de hierarquia.

Enquanto palestrávamos animadamente, Ismália recebia servidoras numerosas, em atitude verdadeiramente maternal, embora muitas mostrassem o rosto envelhecido, parecendo avós da esposa do administrador. Aniceto nos ministrava lições de vulto, extraídas de circunstâncias aparentemente inexpressivas, e Alfredo recebia os colaboradores de todas as condições, não só com espírito de solidariedade, mas também de imenso afeto. Ria-se carinhosamente ou fornecia pareceres, sem o mínimo gesto de impaciência ou irritação.

Aquele clima de concórdia fazia-me enorme bem. Tudo respirava ordem e compreensão, bondade e harmonia. A atitude paterna do administrador do Posto de Socorro, expressa em energia e amizade, organização e entendimento, atraía-me com força.

Pedi permissão ao nosso orientador para ouvir os esclarecimentos prestados àqueles numerosos cooperadores.

Aproximei-me, impressionado.

Nesse momento, um colaborador de maneiras simpáticas dirigia-lhe a palavra, com grande interesse. Tratava-se de um velhinho de humilde expressão, que lhe falava com mostras de justo respeito.

— E o senhor recebeu as notícias?

— Sim, Alonso — atendia o chefe, sem afetação —, nossos mensageiros cientificaram-me dos detalhes mínimos. Sua viúva continua muitíssimo acabrunhada, os filhinhos gozam saúde, mas permanecem na mesma ansiedade por motivo de sua ausência.

O velho, que parecia muito bondoso, esboçou um gesto de confirmação e acrescentou:

— Tenho sentido tanta falta deles!

Nos olhos transparecia a tristeza resignada, de quem deseja alguma coisa, medindo a extensão dos obstáculos.

— Você, porém, Alonso — continuou Alfredo, comovido —, não deve angustiar-se. Sei que está trabalhando agora pelo futuro da família. Na Terra, na qualidade de pais, conseguimos movimentar muitas providências a favor dos filhos; entretanto, aqui, podemos realizar certas medidas em benefício deles, com maior segurança. Nem sempre agimos no mundo com a necessária visão; mas aqui é possível sentir, de mais perto, os interesses imperecíveis daqueles que amamos. O sentimento elevado é sempre um caminho reto para nossa alma; todavia, não podemos dizer o mesmo, a respeito do sentimentalismo cultivado no Círculo da Crosta. É preciso que você tenha muito cuidado em não desorganizar a mente. A saudade que fere, impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil. É enfermidade do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento.

Alonso deixou de sorrir, mostrou os olhos rasos d’água e falou em voz súplice:

— Reconheço, senhor Alfredo, a oportunidade de suas observações. Graças a Jesus, venho melhorando minha vida mental, nos deveres novos que me concedeu e, de fato, sinto-me renovado espiritualmente. Sei que sua palavra não me advertiria sem razão, mas, ousaria pedir licença para visitar a esposa e os filhos. A noite, quando me concentro nas preces habituais, sinto, em torno de mim, os seus pensamentos. Esses pensamentos me penetram fundo, atraindo-me toda a atenção para a Terra. As vezes, consigo repousar um pouco, mas com muita dificuldade. Sei que a esposa e os filhos estão chamando, dolorosamente, por mim. Esta certeza me perturba de algum modo. Não tenho sentido a mesma firmeza para o trabalho diário e desejaria remediar a situação. Reconheço que minhas obrigações, presentemente, são outras e que devo estar conformado; no entanto, confesso que minha luta espiritual tem sido bem grande. Estou certo de que me perdoará a fraqueza. Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável?

E, revelando o enorme anseio d’alma, enxugou os olhos e prosseguiu:

— Quisera rogar aos meus calma e coragem, esclarecendo que meu coração inda é frágil e necessita do amparo deles; estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa atender às atuais obrigações, sem desfalecimentos. Quem sabe me concederá, agora, a permissão precisa? Temos bem perto de nossa casa um grupo de amigos espiritistas… talvez não me fosse difícil transmitir algumas palavras, breves que fossem, tentando tranquilizar a esposa e os filhos!…

Alfredo, imperturbável, não respondeu negativamente. Parecia compreender toda a inquietação do servidor simpático e humilde. Observei-lhe no olhar, muito lúcido, o desejo sincero de atender, e, com extrema simpatia por sua conduta generosa, ouvi-o ponderar:

— Não será impossível satisfaze-lo, meu caro Alonso! Nossos emissários poderão conduzi-lo, nas viagens comuns; entretanto, creia que, como amigo, ficaria preocupado com você, pela manutenção de sua paz. Não posso abusar da autoridade e sei que cada um tem a experiência que lhe cabe, mas creio seja de seu vital interesse o fortalecimento do coração. É imprescindível conformarmo-nos com os desígnios do Eterno. Você e sua mulher não ficariam separados se não necessitassem de experiências novas. As dificuldades que ela vem amargando com a sua ausência, sofre-as também você com a separação dela. Tenho a impressão, Alonso, de que Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado, melhorando o coração. A soledade, porém, quando aproveitada pela alma, precede o sublime reencontro. Além disso, você não deve ignorar que os filhos pertencem a Deus, que cada um deles precisa definir responsabilidades e cogitar da própria realização. Por enquanto, vivem chorosos, desalentados. A revolta lhes visita a alma invigilante. Estabeleceu-se a desordem doméstica, depois da sua vinda. Entretanto, que fazer senão pedir para eles e para nós a bênção do Eterno? Precisam eles da conformação com a realidade justa, e você, que já lhes deu o que era razoável, necessita, igualmente, evolver e aperfeiçoar-se na senda nova a que fomos chamados. Em que ficaria, meu caro, se permitisse a invasão total do sentimentalismo doentio em seus pensamentos? Tão dedicado é você à família do sangue, que, por agora, não o sinto com bastante preparo a tudo ver no antigo lar, sem sofrer desastrosamente. Há tempos, autorizei a visita de dois colegas nossos à Esfera da Crosta, a fim de reverem as viúvas e abraçarem de novo os filhinhos; mas foram tão violentamente surpreendidos pela situação, que não puderam voltar aos seus deveres aqui, lá ficando agarrados ao ninho que haviam abandonado. Não vigiaram o coração, convenientemente. Ouviram, em demasia, o pranto dos familiares terrestres, envolveram-se nos pesados fluidos do clima doméstico e, passada a semana de licença, não conseguiram erguer-se para o regresso. Estavam como pássaros aprisionados pelo visgo das tentações. Os encarregados do noticiário particular voltaram ao Posto sem eles, com grande surpresa para mim. E, francamente, não sei quando poderão reassumir as funções que lhes cabem. O prejuízo de ambos é muito grande.

Depois de pequena pausa, Alfredo rematou:

— Os voos de grande altura pedem asas fortes.

Alonso, que ouvia de olhos arregalados, considerou resignado:

— Desisto do pedido. O senhor tem razão. O administrador abraçou-o e murmurou:

— Deus ilumine o seu entendimento.

Admiradíssimo, reparei que outros colaboradores se aproximavam, rogando esclarecimentos, pareceres, edificando-me no exemplo do administrador amigo, que respondia em voz firme e afetuosa, demonstrando interesse de irmão.


André Luiz




Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano



VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 26 - Ouvindo servidores (André Luiz = Chico Xavier)
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz





O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 17 - O romance de Alfredo



André Luiz - Livro Os Mensageiros - Chico Xavier - Cap. 17


O romance de Alfredo
(Sumário)


Depois de alguns minutos, utilizados por nós no serviço da higiene reconfortadora, Alfredo convidou-nos à mesa, onde Ismália, com extrema fidalguia, mandou servir frutos diversos.

Os senhores do castelo não podiam ser mais gentis.

Servidores iam e vinham, com grande júbilo a lhes transparecer do rosto.

A palestra de Alfredo e as observações de Ismália estavam cheias de notas interessantes e educativas.

— E qual a sua impressão dos serviços em geral? — perguntou Aniceto, atencioso, dirigindo-se ao dono da casa.

— Excelente, quanto às oportunidades de realização que nos oferecem — respondeu Alfredo em tom significativo —; entretanto, não tenho o mesmo parecer quanto à situação em curso. As zonas a que servimos estão repletas de novidades dolorosas. O presente período humano é de conflitos devastadores e as vibrações contraditórias que nos atingem são de molde a enfraquecer qualquer ânimo menos decidido. Desencarnados e encarnados empenham-se em batalhas destruidoras. É uma lástima.

— Multiplica-se o número de necessitados que recorrem ao Posto? — continuou indagando nosso orientador.

— Enormemente. Nossa produção de alimentos e remédios tem sido integralmente absorvida pelos famintos e doentes. Tenho quinhentos cooperadores, mas nos sentimos presentemente incapazes de atender a todas as obrigações. As massas de sofredores são incontáveis. Noutro tempo, nossa paisagem se mantinha sem sombras, durante muitas semanas, mas agora…

Nesse instante, Ismália pediu licença para dirigir-se ao interior. E como Alfredo fixasse os olhos nos meus, aventurei-me a considerar:

— Ainda bem que tendes uma abnegada companheira ao vosso lado.

Ele e Aniceto sorriram, quase a um só tempo, falando-nos o administrador:

— Ah! meus amigos, por enquanto, não tenho essa felicidade em caráter definitivo. Minha esposa e eu temos o divino compromisso da união eterna, mas ainda não lhe mereço a presença contínua. Ela é a bondade celeste, e eu, a realidade humana.

Depois de pequena pausa, prosseguiu com gentileza:

— Aniceto conhece-nos a história. Vocês, porém, a ignoram. Sentir-me-ei, portanto, contente, em relatar algumas lembranças, com benefício duplo. Aliviarei o coração, uma vez mais, contando minhas faltas, e vocês dois, que talvez tenham em breve novos serviços na Terra, aproveitarão, por certo, alguma coisa das minhas experiências.

Ismália e eu guardávamos um escrínio de felicidade no mundo; no entanto, os salteadores perversos espreitavam-nos a ventura. Minha responsabilidade era enorme no campo dos negócios materiais, e, longe de compreender as obrigações sublimes de esposo e pai, não procurava atender aos deveres justos para com o lar e os dois filhinhos que Deus me enviara ao círculo doméstico. Ismália, porém, era a providência de nossa casa. Esqueci-me, contudo, de que a virtude, a qualquer tempo, será atormentada pelo vício e minha nobre companheira foi vítima da maldade de um amigo desleal, com quem tinha eu inúmeros interesses em comum, no campo monetário. Minha esposa sofreu, em silêncio, a perseguição dele por alguns anos consecutivos. E quando meu desventurado sócio verificou a inutilidade da atitude criminosa, em franco desespero buscou envenenar-me o espírito desprevenido. Começou por advertir-me, quanto ao procedimento dela. Atordoou-me, envolvendo-a em acusações descabidas. Subornou criados domésticos e colocou espiões que seguissem minha querida Ismália, nas tarefas de esposa e mãe. Esse homem exercia profunda influência sobre mim, e, atendendo aos laços que nos uniam, minha companheira jamais se sentiu com bastante coragem para denunciá-lo. Enquanto dava ouvidos à calúnia, fora de meu círculo doméstico, tornara-me intolerável dentro dele. Não sabia contemplar minha esposa com a despreocupação e a confiança absoluta de outra época. Via o mal nos seus mínimos gestos e queria descobrir segundas intenções nas suas frases mais inocentes. Cheguei a acusá-la, veladamente. Ismália chorou e calou-se. Por fim, nosso infeliz perseguidor subornou um homem de baixa condição que permaneceu, certa noite, ao lado de nossos aposentos particulares como vulgar ladrão, às ocultas, sendo eu convocado à prova máxima. Penetrei no quarto em extremo desespero e acusei em voz alta ao ver a companheira profundamente tranquila. Ismália levantou-se, receosa da minha saúde mental, mas não lhe atendi os rogos, procurando, como louco, o conspurcador da minha honra… Abri violentamente grande armário antigo, vasculhando o quarto. Nesse instante, o vulto de um homem esgueirou-se na sombra, do aposento próximo, e, antes que eu pudesse agarrá-lo no meu ódio infrene, saltou a janela, alcançando o pomar de nossa casa. Corri, desesperado, detonando balas a esmo, mas, nada consegui. Regressei ao quarto e, para cúmulo da calúnia odiosa, o desconhecido deixara, atrás de si, um chapéu novo, rigorosamente moderno, para que se acentuassem meus sentimentos terríveis. Olhos congestos, vomitando insultos, quis eliminar Ismália, banhada em lágrimas a meus pés; no entanto, alguma coisa, que nunca pude compreender na Terra, paralisou-me o braço quase homicida. Vociferando blasfêmias, surdo aos rogos dela, afastei-me do lar, tomado de horror. No dia imediato, fiz valer meu direito exclusivo sobre os filhos e providenciei para que Ismália, convertida em estátua de dor, fosse restituída à fazenda paterna. Contratei uma governanta para os meninos e, logo após, tomei um paquete para a Europa, onde me demorei mais de três anos. Nunca me propus a verificações sérias, e, embora tivesse o espírito incessantemente atormentado, humilhei os sentimentos mais íntimos, jamais procurando notícias da companheira caluniada. Certo dia, recebi uma carta lacônica na costa francesa. Um parente dava-me informações da esposa. Após dois anos angustiosos, entre a saudade e o abandono, Ismália fora colhida pela tuberculose, falecendo em terrível martirológio moral. Deliberei, então, a volta. Fixei-me novamente no Rio, eduquei os filhinhos e conservei a dolorosa viuvez no desencanto do coração. Os anos rolaram uns sobre os outros, quando fui chamado à cabeceira do ex-sócio agonizante. O infeliz, em face da morte, confessou o crime odioso, pedindo um perdão que, infelizmente, não pude conceder. Transformei-me, desde então, num louco irremediável. Cansado, envelhecido, procurei a propriedade rural dos sogros, tentando reparar, de alguma sorte a injustiça, mas a morte não me deu ensejo e voltei para a Esfera dos desencarnados, em tristes condições espirituais.

Nesse instante, fez uma pausa, para continuar comovido:

— Não preciso dizer que recebi de Ismália todo o amparo de que necessitava. Todavia, infelizmente para mim, estávamos separados. Não mereci a bênção da união sublime. Ismália segue-me de perto, mas tem residência num Plano superior, que devo esforçar-me por alcançar. Desde muito, dediquei-me aos serviços do nosso Posto de Socorro, consagrei-me aos ignorantes e sofredores, e minha santa Ismália vem até aqui, mensalmente, incentivar-me o bom ânimo e amparar-me nas lutas.

— Mas não poderia ela transferir-se definitivamente para aqui? — indagou Vicente, tão impressionado quanto eu, com o romance comovedor.

Alfredo sorriu e falou:

— Sei que Ismália tem trabalhado para isso, que seu ideal de união eterna é idêntico ao meu, atendendo à circunstância de estar o superior sempre em posição de dar ao inferior; mas não ignoro que foi advertida por nossos maiores, sobre as minhas atuais necessidades de esforço e solidão. Preciso conhecer o preço da felicidade, para não menosprezar, de novo, as bênçãos de Deus. Minha esposa deseja descer para encontrar-se definitivamente comigo; entretanto, é necessário que eu aprenda a subir e, por este motivo, ainda não recebemos a devida permissão para o definitivo consórcio espiritual.

Observando-nos a emoção, concluiu:

— Estou resgatando crimes de precipitação. Pela impulsividade delituosa, perdi minha paz, meu lar e minha devotada companheira. Conforme ouviram, não matei nem roubei a ninguém, mas envenenei-me a mim próprio. A calúnia é um monstro invisível, que ataca o homem através dos ouvidos invigilantes e dos olhos desprevenidos.


André Luiz






Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano


VÍDEO:

Os Mensageiros - Cap. 17 - O romance de Alfredo
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz





O Espírito da Letra - Os Mensageiros - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier.