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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Bezerra de Menezes - O Cristão Espírita - Azamor Serrão - A casa de Deus



Bezerra de Menezes - O Cristão Espírita - Azamor Serrão


A casa de Deus

A casa de Deus, filhos, é o universo inteiro, porque Deus está em toda parte, a revelar-se para que as forças do mal não conduzam para as trevas os que buscam a luz, para orientar-lhes a caminhada pela estrada da vida, em roteiro seguro para perfeita união com o Pai, que é o supremo amor, a suprema alegria, tão bem representado pelo espelho sublime que sua imagem reflete - Jesus.

O nosso Mestre amado ensina-nos em seu Evangelho de amor o caminho da Verdade, fazendo de nossos corações um verdadeiro templo de Deus, pelas vibrações celestiais que deles emanam. Esses corações, alimentados por pensamentos puros de mentes já iluminadas para orientar as atitudes fraternas de paz e amor a serviço do Cristo de Deus, esclarecem as ovelhas a fim de que não se desviem do caminho verdadeiro, fazendo das casas de oração casas de comércio. Onde as almas se reúnem para o maravilhoso encontro com Deus, não se permite nem um só gesto que identifique qualquer transação comercial, porque o ouro traz a ambição e a ambição pelo ouro é que perde as almas, interrompendo a caminhada para Deus.

O Mestre Jesus nos adverte quanto a isso de forma bem concisa, que não deixa nem uma dúvida. Mas certos orientadores religiosos é que não querem entender a Divina Mensagem do Mestre.

Quando Jesus fez sua entrada triunfal em Jerusalém, o povo veio alegremente para as ruas para recebê-lo, bradando em vozes fortes e cheias de entusiasmo: "Viva Deus nas alturas e Jesus entre os homens!"

Jesus foi ao templo. Pelos pátios, pelos arredores e dentro do templo, se fazia mercado de animais, cereais e tudo quanto aquela gente possuía para vender, com o consentimento dos sacerdotes. Então, Jesus mandou que se retirassem dali com suas mercadorias, pois era sacrilégio fazer da casa de orações um covil de especulações e trapaças. O templo é lugar consagrado às súplicas das criaturas a seu Criador.

Foi para terem aquele recanto reservado, onde pudessem falar com Deus e seus anjos (ou Espíritos), que os homens construíram seus templos. É ali que as almas de abrem, cheias de fé, porque lá estão as vibrações puríssimas do Amor do Pai para as suas criaturas.

Ali é a famosa escada de Jacó, por onde sobem as preces, as súplicas, as manifestações de amor e gratidão, e por onde descem, em catadupas de amor, as bênçãos e as respostas que os céus enviam às almas da Terra. Profanar um templo é grande crime. Por isso, o Divino Senhor espantou daquele lugar sagrado os que o maculavam com sua cobiça e egoísmo. Naquele acumulado de vibrações de Amor, de Prece, de Perdão, na explosão da sua fé e confiança em Deus, as criaturas achavam-se em Jesus. Ele estava ali na manifestação da mais alcandorada efusão de amor para com Deus; e, por isso, Ele disse: "A minha casa é casa de oração". Sim, ali, e "onde quer se faça oração, está Ele", «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei". De qualquer forma que o homem se una com o seu Deus, está unido com o Cristo, porque Ele disse: "Eu e meu Pai somos Um". Assim, bem claro ficou seu pensamento quando disse a João: "Não proibais que curem em meu nome, esses não são contra mim". E para que estejamos com Cristo, necessário se faz cumpramos seus ensinamentos evangélicos, não desobedecendo as suas determinações e procurando estar com Ele tanto quanto Ele está conosco.

Deus nos guarde e Jesus nos abençoe


Bezerra de Menezes






(Mensagem de Bezerra de Menezes recebida por Azamor Serrão, transcrita de O Cristão Espírita, Ed. 02, outubro de 1965)


Assistido por Bezerra de Menezes, Azamor Serrão exercia sua intensa mediunidade receitista num centro em Botafogo, Rio de Janeiro, na Rua da Matriz – “Tenda dos Irmãos do Oriente”. Era um centro de natureza mista, isto é, meio espírita, meio umbandista, meio orientalista. Priorizava o fenômeno mediúnico visando consultas, conversas com espíritos e desobsessão, sem grande preocupação com o estudo regular da codificação kardequiana.

Sob a inspiração de Bezerra de Menezes e Ali-Omar, lá pelos idos de 1959, Azamor decidiu-se então a liderar um movimento em prol de estudos intensivos das obras de Kardec. Logo formava-se um pequeno grupo, de 19 companheiros, constituindo a “Iniciação Espírita Bezerra de Menezes”.







segunda-feira, 6 de março de 2023

Allan Kardec - Revista Espírita - Ano VI, Outubro de 1863 - Benfeitores anônimos



Allan Kardec - Revista Espírita - Ano VI, Outubro de 1863


Benfeitores anônimos


O fato seguinte é relatado pelo Patrie, de abril último:

“O proprietário de uma casa na Rua do Cherche-Midi tinha permitido anteontem que o inquilino se mudasse sem saldar a conta, entretanto, mediante um reconhecimento de seu débito. Mas, enquanto carregavam os móveis, o proprietário arrependeu-se e quis ser pago antes da retirada dos móveis. O locatário se desesperava, sua mulher chorava, e dois filhos em tenra idade imitavam a mãe. Um cavalheiro, condecorado com a Legião de Honra, passava no momento por aquela rua. Ele parou. Tocado por esse espetáculo desolador, aproximou-se do infeliz devedor, e, sabedor do montante devido pelo aluguel, entregou-lhe duas notas e desapareceu, acompanhado pelas bênçãos daquela família que ele salvava do desespero.”

“O Opinion du Midi, jornal de Nîmes, em julho relatava outro caso do mesmo gênero:

“Acaba de passar-se um fato tão estranho, pelo mistério com que se realizou, quão tocante por seu objetivo e pela delicadeza do procedimento do seu autor.

“Há três dias noticiamos que um violento incêndio tinha consumido quase que inteiramente a loja e as oficinas de um tal Sr. Marteau, marceneiro em Nîmes. Contamos a dor desse infeliz em presença de um sinistro que consumava a sua ruína, pois o seguro que tinha feito era infinitamente inferior ao valor das mercadorias destruídas.

“Soubemos hoje que três carretas contendo madeira de várias qualidades e instrumentos de trabalho foram levadas à frente da casa do Sr. Marteau e descarregadas em suas oficinas meio devoradas pelo fogo.

“O encarregado do transporte respondeu às interpelações, alegando a ignorância em que se achava relativamente ao nome do doador cuja vontade executava. Alegou não conhecer a pessoa que o havia encarregado de transportar a madeira e os utensílios ao Sr. Marteau, e nada saber além dessa incumbência. Retirou-se após ter descarregado as três viaturas.

“A alegria e a felicidade substituíram no Sr. Marteau o aba­timento de que era impossível tirá-lo desde o dia do incêndio.

“Que o generoso desconhecido que tão nobremente veio em socorro de um infortúnio que, sem ele, talvez tivesse sido irreparável, receba aqui os agradecimentos e as bênçãos de uma família que desde hoje lhe deve a mais doce consolação e que em breve talvez lhe deva a prosperidade.”

O coração fica novamente sereno ao se ler fatos semelhantes, que vêm, de vez em quando, fazer a contrapartida aos relatos de crimes e torpezas que os jornais exibem em suas colunas.

Fatos como os acima relatados provam que a virtude não está inteiramente banida da Terra, como julgam certos pessimistas. Sem dúvida o mal ainda domina, mas quando se procura na sombra, verifica-se que sob a erva daninha há mais violetas, isto é, maior número de boas almas do que se espera. Se elas aparecem tão esparsas, é que a verdadeira virtude não se põe em evidência, por ser humilde. Ela se contenta com os prazeres do coração e com a aprovação da consciência, ao passo que o vício se manifesta afrontosamente, em plena luz. Ele faz barulho, porque é orgulhoso. O orgulho e a humildade são os dois polos do coração humano. Um atrai todo o bem, o outro, todo o mal. Um tem calma, o outro, tempestade. A consciência é a bússola que indica a rota conducente a cada um deles.

O benfeitor anônimo, como aquele que não espera a morte para dar aos que não têm, é, sem contradita, o tipo do homem de bem por excelência; é a personificação da virtude modesta, aquela que não busca aplausos dos homens.

Fazer o bem sem ostentação é um sinal inconteste de grande superioridade moral, porque é necessária uma fé viva em Deus e no futuro. É necessário fazer abstração da vida presente e identificar-se com a vida futura para esperar a aprovação de Deus e renunciar à satisfação proporcionada pelo testemunho atual dos homens.

O obsequiado abençoa de coração a mão generosa e desconhecida que o socorreu, e essa bênção sobe ao Céu mais que os aplausos da multidão. Aquele que preza mais o sufrágio dos homens que o de Deus prova ter mais fé nos homens do que em Deus e que para ele a vida presente tem mais valor que a vida futura. Se disser o contrário, age como quem não crê no que diz.

Quanta gente que não faz obséquios senão com a esperança de ver o obsequiado proclamar o benefício do alto dos telhados; que em plena luz daria uma grande soma, mas na obscuridade não daria uma simples moeda! Eis por que disse Jesus: “Os que fazem o bem com ostentação já receberam sua recompensa.” Com efeito, àquele que busca sua recompensa na Terra, Deus nada deve. Só lhe resta receber o preço de seu orgulho.

Talvez certos críticos perguntem: Que relação tem isto com o Espiritismo? Quantos casos não contareis, mais divertidos do que esta moral enfadonha! (Jugement de la morale spirite, do Sr. Figuier, vol. IV, pág. 369). Isto tem relação com o Espiritismo, no sentido que o Espiritismo, proporcionando uma fé inabalável na bondade de Deus e na vida futura, e graças a ele, fazendo os homens o bem pelo bem, eles serão um dia menos esparsos do que hoje. Então os jornais terão menos crimes e suicídios a registrar, e mais atos da natureza dos que deram lugar a estas reflexões.


Allan Kardec 












segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Allan Kardec - Revista Espírita - Ano VI, Outubro de 1863 - Benfeitores anônimos



Allan Kardec - Revista Espírita - Ano VI, Outubro de 1863


Benfeitores anônimos


O fato seguinte é relatado pelo Patrie, de abril último:

“O proprietário de uma casa na Rua do Cherche-Midi tinha permitido anteontem que o inquilino se mudasse sem saldar a conta, entretanto, mediante um reconhecimento de seu débito. Mas, enquanto carregavam os móveis, o proprietário arrependeu-se e quis ser pago antes da retirada dos móveis. O locatário se desesperava, sua mulher chorava, e dois filhos em tenra idade imitavam a mãe. Um cavalheiro, condecorado com a Legião de Honra, passava no momento por aquela rua. Ele parou. Tocado por esse espetáculo desolador, aproximou-se do infeliz devedor, e, sabedor do montante devido pelo aluguel, entregou-lhe duas notas e desapareceu, acompanhado pelas bênçãos daquela família que ele salvava do desespero.”

“O Opinion du Midi, jornal de Nîmes, em julho relatava outro caso do mesmo gênero:

“Acaba de passar-se um fato tão estranho, pelo mistério com que se realizou, quão tocante por seu objetivo e pela delicadeza do procedimento do seu autor.

“Há três dias noticiamos que um violento incêndio tinha consumido quase que inteiramente a loja e as oficinas de um tal Sr. Marteau, marceneiro em Nîmes. Contamos a dor desse infeliz em presença de um sinistro que consumava a sua ruína, pois o seguro que tinha feito era infinitamente inferior ao valor das mercadorias destruídas.

“Soubemos hoje que três carretas contendo madeira de várias qualidades e instrumentos de trabalho foram levadas à frente da casa do Sr. Marteau e descarregadas em suas oficinas meio devoradas pelo fogo.

“O encarregado do transporte respondeu às interpelações, alegando a ignorância em que se achava relativamente ao nome do doador cuja vontade executava. Alegou não conhecer a pessoa que o havia encarregado de transportar a madeira e os utensílios ao Sr. Marteau, e nada saber além dessa incumbência. Retirou-se após ter descarregado as três viaturas.

“A alegria e a felicidade substituíram no Sr. Marteau o aba­timento de que era impossível tirá-lo desde o dia do incêndio.

“Que o generoso desconhecido que tão nobremente veio em socorro de um infortúnio que, sem ele, talvez tivesse sido irreparável, receba aqui os agradecimentos e as bênçãos de uma família que desde hoje lhe deve a mais doce consolação e que em breve talvez lhe deva a prosperidade.”

O coração fica novamente sereno ao se ler fatos semelhantes, que vêm, de vez em quando, fazer a contrapartida aos relatos de crimes e torpezas que os jornais exibem em suas colunas.

Fatos como os acima relatados provam que a virtude não está inteiramente banida da Terra, como julgam certos pessimistas. Sem dúvida o mal ainda domina, mas quando se procura na sombra, verifica-se que sob a erva daninha há mais violetas, isto é, maior número de boas almas do que se espera. Se elas aparecem tão esparsas, é que a verdadeira virtude não se põe em evidência, por ser humilde. Ela se contenta com os prazeres do coração e com a aprovação da consciência, ao passo que o vício se manifesta afrontosamente, em plena luz. Ele faz barulho, porque é orgulhoso. O orgulho e a humildade são os dois polos do coração humano. Um atrai todo o bem, o outro, todo o mal. Um tem calma, o outro, tempestade. A consciência é a bússola que indica a rota conducente a cada um deles.

O benfeitor anônimo, como aquele que não espera a morte para dar aos que não têm, é, sem contradita, o tipo do homem de bem por excelência; é a personificação da virtude modesta, aquela que não busca aplausos dos homens.

Fazer o bem sem ostentação é um sinal inconteste de grande superioridade moral, porque é necessária uma fé viva em Deus e no futuro. É necessário fazer abstração da vida presente e identificar-se com a vida futura para esperar a aprovação de Deus e renunciar à satisfação proporcionada pelo testemunho atual dos homens.

O obsequiado abençoa de coração a mão generosa e desconhecida que o socorreu, e essa bênção sobe ao Céu mais que os aplausos da multidão. Aquele que preza mais o sufrágio dos homens que o de Deus prova ter mais fé nos homens do que em Deus e que para ele a vida presente tem mais valor que a vida futura. Se disser o contrário, age como quem não crê no que diz.

Quanta gente que não faz obséquios senão com a esperança de ver o obsequiado proclamar o benefício do alto dos telhados; que em plena luz daria uma grande soma, mas na obscuridade não daria uma simples moeda! Eis por que disse Jesus: “Os que fazem o bem com ostentação já receberam sua recompensa.” Com efeito, àquele que busca sua recompensa na Terra, Deus nada deve. Só lhe resta receber o preço de seu orgulho.

Talvez certos críticos perguntem: Que relação tem isto com o Espiritismo? Quantos casos não contareis, mais divertidos do que esta moral enfadonha! (Jugement de la morale spirite, do Sr. Figuier, vol. IV, pág. 369). Isto tem relação com o Espiritismo, no sentido que o Espiritismo, proporcionando uma fé inabalável na bondade de Deus e na vida futura, e graças a ele, fazendo os homens o bem pelo bem, eles serão um dia menos esparsos do que hoje. Então os jornais terão menos crimes e suicídios a registrar, e mais atos da natureza dos que deram lugar a estas reflexões.


Allan Kardec














segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Allan Kardec - Revista Espírita - Ano 3 - Outubro de 1860 - Banquete oferecido pelos Espíritas Lioneses ao Sr. Allan Kardec




Allan Kardec - Revista Espírita - Ano 3 - Outubro de 1860


Banquete oferecido pelos Espíritas Lioneses ao Sr. Allan Kardec


A 19 de setembro de 1860
 
Nessa reunião íntima e familiar, um dos sócios, Sr. Guillaume, teve a bondade de expor os sentimentos dos espíritas lioneses na alocução que segue. Lendo-a, todos compreenderão que devemos ter hesitado em publicá-la na Revista, apesar do desejo que nesse sentido nos foi expresso. Assim, só cedendo a instâncias foi que concordamos, temerosos, por outro lado, de que a recusa pudesse significar falta de reconhecimento aos testemunhos de simpatia que recebemos. Rogamos, pois, aos leitores, que façam abstração da pessoa e não vejam nas palavras senão uma homenagem prestada à Doutrina.


“Ao Sr. Allan Kardec; ao zeloso propagador da Doutrina Espírita!

“É à sua coragem, às suas luzes e à sua perseverança devotada que devemos a felicidade de estarmos hoje reunidos, neste banquete simpático e fraterno.

“Que todos os espíritas de Lyon jamais esqueçam que, se têm a felicidade de sentir-se melhorados, malgrado todas as influências perniciosas que sempre desviam o homem do caminho do bem, devem-no ao Livro dos Espíritos.

“Se sua existência se suavizou; se seu coração está mais depurado e mais afetuoso; se expulsaram a cólera e a vingança, devem-no ao Livro dos Espíritos.

“Se na vida privada suportam com coragem os revezes da fortuna; se repelem todos os meios baseados na astúcia e na mentira, para adquirirem os bens terrenos, devem-no ao Livro dos Espíritos, que os fez compreenderem a prova e acendeu-lhes a luz que expulsa as trevas.

“Se um dia, que talvez não esteja longe, os homens se tornarem humanos, fraternos e dedicados a uma mesma fé; se a caridade não mais for para eles uma palavra vã, isso ainda deverão ao Livro dos Espíritos, ditado pelos melhores dentre eles ao Sr. Allan Kardec, escolhido para espalhar a luz.

“À união sincera dos espíritas lioneses! À Sociedade Espírita Parisiense, cuja radiação a todos nos esclareceu, que é a sentinela avançada, encarregada de limpar a difícil estrada do progresso! Paris é o cérebro do Espiritismo, como Lyon deve merecer, por sua união, seu trabalho, suas luzes e seu amor, ser considerada o seu coração.

“Quando o coração e o espírito estiverem unidos na mesma fé, para atingir o mesmo objetivo, bem logo só haverá na França irmãos amorosos e dedicados. Cresçamos, pois, pela união no amor, e em breve os nossos sentimentos, os nossos princípios cobrirão o mundo inteiro. O Espiritismo, senhoras e senhores, é o único meio para chegarmos prontamente ao Reino de Deus.

“Honra à Sociedade Espírita Parisiense! Honra ao Sr. Allan Kardec, o fundador e o primeiro elo da grande corrente espírita!”

GUILLAUME



RESPOSTA DO SR. ALLAN KARDEC


Senhoras, senhores, e vós todos, meus caros e bons irmãos no Espiritismo.

A acolhida tão amiga e benevolente que recebo entre vós, desde a minha chegada, seria bastante para me encher de orgulho, se eu não compreendesse que tais testemunhos se dirigem menos à pessoa do que à Doutrina, da qual não passo de um dos mais humildes obreiros. É a consagração de um princípio e me sinto duplamente feliz, porque esse princípio deve um dia assegurar a felicidade do homem e o repouso da Sociedade, quando for bem compreendido, e ainda melhor quando for praticado. Seus adversários só o combatem porque não o compreendem. Cabe a nós; cabe aos verdadeiros espíritas, àqueles que veem no Espiritismo algo mais do que experiências mais ou menos curiosas, fazê-lo compreendido e propagá-lo, tanto pregando pelo exemplo quanto pela palavra. O Livro dos Espíritos teve como resultado demonstrar o seu alcance filosófico. Se esse livro tem qualquer mérito, seria presunção minha orgulhar-me disso, porque a doutrina que ele encerra não é criação minha. Toda honra pelo bem que ele fez cabe aos sábios Espíritos que o ditaram e que quiseram servir-se de mim. Posso, pois, ouvir o elogio sem que seja ferida a minha modéstia, e sem que o meu amor-próprio por isso fique exaltado. Se eu desejasse prevalecer-me disto, certamente teria reivindicado a sua concepção, em vez de atribuí-la aos Espíritos; e se se pudesse duvidar da superioridade daqueles que cooperaram, bastaria considerar a influência que ele exerceu em tão pouco tempo, só pelo poder da lógica, e sem qualquer dos meios materiais próprios para superexcitar a curiosidade.

Seja como for, senhores, a cordialidade do vosso acolhimento será para mim um poderoso encorajamento na tarefa laboriosa que empreendi e da qual fiz a razão de minha vida, porque me dá a certeza consoladora de que os homens de coração já não são tão raros neste século materialista, como gostam de proclamá-lo. Os sentimentos que fazem nascer em mim esses testemunhos benevolentes são melhor compreendidos do que expressados; e o que lhes dá, aos meus olhos, um valor inestimável, é que não têm por móvel qualquer consideração pessoal. Eu vo-lo agradeço do fundo do coração, em nome do Espiritismo, sobretudo em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que sentir-se-á feliz pelas mostras de simpatia que tendes a bondade de lhe dar, e orgulhosa de contar em Lyon tão grande número de bons e leais confrades. Permiti-me retraçar, nalgumas palavras, as impressões que levo de minha breve passagem entre vós.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi o número de adeptos. Eu bem sabia que Lyon os contava em grande número, mas estava longe de suspeitar fosse tão considerável, pois são contados às centenas e em breve, espero, serão incontáveis. Mas se Lyon se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que é ainda melhor. Por toda parte só encontrei espíritas sinceros, que compreendem a Doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista.

Há, senhores, três categorias de adeptos: Os primeiros se limitam a acreditar na realidade das manifestações e, antes de tudo, buscam os fenômenos. Para esses o Espiritismo é simplesmente uma série de fatos mais ou menos interessantes.

Os segundos veem mais do que os fatos. Compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral dele decorrente, mas não a praticam. Para eles, a caridade cristã é uma bela máxima, e eis tudo.

Os terceiros, enfim, não se contentam em admirar a moral: praticam-na e aceitam todas as suas consequências. Bem convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, buscam tirar proveito desses curtos instantes para marchar na via do progresso que lhes traçam os Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas inclinações más. Suas relações são sempre seguras, porque suas convicções afastam-nos de todo pensamento do mal. Em tudo a caridade lhes é regra de conduta. Estes são os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.

Ora, Senhores! Eu vos digo com satisfação que aqui não encontrei nenhum adepto da primeira categoria. Em parte alguma vi se ocuparem do Espiritismo por mera curiosidade. Em parte alguma vi se servirem das comunicações para assuntos fúteis. Em toda parte o objetivo é sério e as intenções honestas. A crer no que vejo e no que me dizem, há muitos da terceira categoria. Honra, pois, aos espíritas lioneses, por haverem tão largamente penetrado essa via progressiva, sem a qual o Espiritismo não teria objetivo. Tal exemplo não será perdido, e terá suas consequências. Não foi sem razão, bem o vejo, que outro dia os Espíritos me responderam, por um dos vossos mais dedicados médiuns, posto que um dos mais obscuros, quando eu lhes manifestava minha surpresa: “Por que admirar-te? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva. Ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração.” A coincidência desta resposta com a que vos foi dada precedentemente, e que o Sr. Guillaume acaba de recordar em sua alocução, tem algo de muito significativo.

A rapidez com que a Doutrina se propagou nos últimos tempos, malgrado a oposição que ainda encontra, ou talvez por causa dessa oposição, pode ensejar-nos prever o futuro. Evitemos, pois, por prudência, tudo quanto possa produzir uma impressão degradável. Evitemos, não digo de perder uma causa já assegurada, mas retardar-lhe o desenvolvimento. Sigamos nisto os conselhos dos sábios Espíritos e não esqueçamos que, no mundo, muitos resultados foram comprometidos por excesso de precipitação. Não esqueçamos, tampouco, que nossos inimigos do outro mundo, assim como os deste, podem procurar arrastar-nos por uma via perigosa.

Pedistes-me alguns conselhos e para mim é um prazer vos dar aqueles que a experiência puder sugerir-me. Não passarão, sempre, de uma opinião pessoal, que vos convido a ponderar com a vossa sabedoria e da qual fareis o uso que vos parecer mais adequado, pois não tenho a pretensão de me impor como árbitro absoluto.

Tínheis a intenção de formar uma grande sociedade. A respeito, já vos dei o meu modo de pensar e me limitarei a resumi-lo aqui.

Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas, nas quais reina a harmonia e uma comunhão de sentimentos. Ora, quanto maior for o número, tanto mais difícil será a obtenção dessa homogeneidade. Como é impossível que no começo de uma ciência, ainda tão nova, não surgissem algumas divergências na maneira de apreciar certas coisas, dessa divergência infalivelmente nasceria um mal-estar, que poderia conduzir à desunião. Ao contrário, os pequenos grupos serão sempre mais homogêneos. Nos pequenos grupos, todos se conhecem melhor, estão mais em família, e podem ser com melhor critério admitidos aqueles que desejamos. Como, em definitivo, todos tendem para um mesmo fim, podem entender-se perfeitamente e entender-se-ão tanto melhor por não haver aquela suscetibilidade incessante, que é incompatível com o recolhimento e a concentração de espírito. Os maus Espíritos que buscam incessantemente semear a discórdia, irritando suscetibilidades, terão sempre menos domínio num pequeno grupo do que num meio numeroso e heterogêneo. Numa palavra, a unidade de vistas e de sentimento será aí mais fácil de se estabelecer.

A multiplicidade de grupos tem outra vantagem: a de obter uma variedade muito maior de comunicações, pela diversidade de aptidões dos médiuns. Que essas reuniões parciais compartilhem com os outros pequenos grupos o que elas obtêm, cada uma por seu lado, e todas aproveitarão assim os seus mútuos trabalhos. Aliás, chegará o momento em que o número de aderentes não mais permitirá uma reunião única, e o grupo deverá fracionar-se pela força das coisas. Por isso seria melhor fazer imediatamente aquilo que serão obrigados a fazer mais tarde.

Do ponto de vista da propaganda, sem dúvida não é nas grandes reuniões que os neófitos podem colher elementos de convicção, mas na intimidade. Há, pois, um duplo motivo para preferir os pequenos grupos, que se podem multiplicar ao infinito. Ora, vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, inquestionavelmente obterão mais, e farão mais prosélitos do que uma reunião única de duzentas pessoas.

Falei, há pouco, das divergências que podem surgir, e disse que elas não devem criar obstáculos ao perfeito entendimento entre os centros. Com efeito, essas divergências só podem dar-se nos detalhes e não no fundo. O objetivo é o mesmo: o melhoramento moral; o meio é o mesmo: o ensinamento dado pelos Espíritos. Se tal ensino fosse contraditório; se, evidentemente, um devesse ser falso e o outro verdadeiro, notai bem que isto não poderia alterar o objetivo, que é o de conduzir o homem ao bem, para sua maior felicidade presente e futura. Ora, o bem não poderia ter dois pesos e duas medidas. Contudo, do ponto de vista científico ou dogmático, é útil, ou pelo menos interessante, saber quem está certo e quem está errado. Então! Tendes um critério infalível para apreciá-lo, quer se trate de simples detalhe ou de sistemas radicalmente divergentes. Isto não se aplica somente aos sistemas espíritas, mas a todos os sistemas filosóficos.

Examinai antes o que é mais lógico, o que melhor corresponde às vossas aspirações, que pode melhor atingir o objetivo. O mais verdadeiro será, evidentemente, aquele que explica melhor, que melhor dá a razão de tudo. Se se puder opor a um sistema um único fato em contradição com a sua teoria, é que a teoria é falsa ou incompleta. Examinai a seguir os resultados práticos de cada sistema. A verdade deve estar do lado daquele que produz maior soma de bem; que exerce uma influência mais salutar; que produz mais homens bons e virtuosos; que estimula ao bem pelos motivos mais puros e mais racionais. O objetivo constante a que o homem aspira é a felicidade. A verdade estará do lado do sistema que proporciona maior soma de satisfações morais; numa palavra, que torna as criaturas mais felizes.

Considerando-se que o ensino vem dos Espíritos, os diversos grupos, assim como os indivíduos, se acham sob a influência de certos Espíritos que presidem aos seus trabalhos, ou os dirigem moralmente. Se esses Espíritos não estiverem de acordo, a questão será saber qual deles merece mais confiança. Evidentemente será aquele cuja teoria não pode levantar qualquer objeção séria; numa palavra, aquele que, em todos os pontos, dá mais provas de sua superioridade. Se tudo for bom e racional nesse ensino, pouco importa o nome que tome o Espírito. Neste sentido, a questão de identidade é absolutamente secundária. Se, sob um nome respeitável, o ensino peca em suas qualidades essenciais, podeis seguramente concluir que é um nome apócrifo e que se trata um Espírito impostor ou que se diverte. Regra geral: jamais o nome é uma garantia. A única, a verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira por que este é expresso. Os Espíritos enganadores podem tudo imitar, tudo, menos a verdadeira sabedoria e o verdadeiro sentimento.

Senhores, não é intenção minha dar-vos aqui um curso de Espiritismo, e talvez eu abuse de vossa paciência com todos estes detalhes. Contudo, não posso furtar-me de acrescentar mais algumas palavras.

Acontece muitas vezes que para fazer com que sejam adotadas certas utopias, os Espíritos afetam um falso saber e tentam impô-las retirando do arsenal de palavras técnicas tudo quanto possa fascinar aquele que acredita muito facilmente. Têm ainda um meio mais eficiente, que é o de aparentar virtudes. Apoiados nas grandes palavras caridade, fraternidade, humildade, esperam obter livre passagem para os mais grosseiros absurdos; e é o que acontece muitas vezes, quando não se está prevenido. É preciso, pois, não se deixar levar pelas aparências, tanto da parte dos Espíritos quanto dos homens. Ora, confesso que esta é uma das maiores dificuldades. No entanto, nunca se disse que o Espiritismo é uma ciência fácil. Ele tem os seus escolhos, que só pela experiência podem ser evitados. Para não cair na cilada, é necessário, de princípio, guardar-se contra o entusiasmo que cega e contra o orgulho que leva certos médiuns a se julgarem os únicos intérpretes da verdade. É preciso tudo examinar friamente, tudo pesar maduramente, tudo controlar e, se se desconfia do próprio julgamento, o que por vezes é mais prudente, é preciso relatar a outros, seguindo o provérbio de que quatro olhos veem mais do que dois. Um falso amor-próprio ou uma obsessão podem, isoladamente, fazer persistir uma ideia notoriamente falsa e que é repelida pelo bom-senso de cada um.

Senhores, não ignoro que tenho aqui muitos inimigos. Isto vos espanta, no entanto, nada é mais verdadeiro. Sim, aqui há quem me ouça com ira; não digo entre vós, graças a Deus!, onde espero jamais ter senão amigos. Refiro-me aos Espíritos enganadores, que não querem que vos dê os meios de desmascará-los, desde que descubro as suas astúcias, pondo-vos em guarda, e lhes tiro o domínio que poderiam ter sobre vós. A tal respeito, senhores, dir-vos-ei que seria erro supor que eles exerçam esse domínio apenas sobre os médiuns. Tende a mais absoluta certeza de que, estando em toda parte, os Espíritos agem incessantemente sobre nós, sem o sabermos, quer sejamos ou não sejamos espíritas ou médiuns. A mediunidade não os atrai; ao contrário, ela dá os meios de conhecer seu inimigo, que se trai sempre. Sempre, ouvi bem, e que só abusa dos que se deixam abusar.

Isto, senhores, leva-me a completar meu pensamento sobre o que acabo de dizer a propósito das dissidências que poderiam surgir entre os diferentes grupos, por força da diversidade de ensino. Eu vos disse que, malgrado algumas divergências, eles poderiam entender-se e devem entender-se, desde que sejam verdadeiros espíritas. Eu vos dei o meio de controlar o valor das comunicações, que é o meio de apreciar a natureza das influências exercidas sobre cada um. Dado que toda influência boa emana de um bom Espírito; que tudo quanto é mau vem de uma fonte má; que os maus Espíritos são os inimigos da união e da concórdia, o grupo que for assistido pelo Espírito do mal será o que jogará pedras no outro e não lhe estenderá a mão. Quanto a mim, senhores, eu vos olho a todos como irmãos, quer estejais com a verdade, quer em erro. Mas vos declaro, alto e bom som, que estarei de corpo e alma com os que mostrarem mais caridade e mais abnegação. Se houvesse alguns, o que Deus não permita, que entretivessem sentimentos de ódio, de inveja ou de ciúme, eu os lamentaria, porque estariam sob má influência e eu preferiria supor que esses maus pensamentos lhes viessem de um Espírito estranho do que de seu próprio coração. Mas isto só me tornaria suspeita a veracidade das comunicações que pudessem receber, em virtude do princípio de que um Espírito realmente bom somente sugerirá bons sentimentos.

Terminarei, senhores, esta alocução, certamente já bem longa, com algumas considerações sobre as causas que devem assegurar o futuro do Espiritismo.

Compreendeis todos, pelo que tendes sob os olhos e pelo que sentis em vós mesmos, que num dia futuro o Espiritismo deve exercer uma imensa influência sobre a estrutura social. Mas o dia em que essa influência será generalizada ainda está longe, sem dúvida. São necessárias gerações para que o homem se despoje do homem velho. Contudo, desde agora, se o bem não pode ser geral, já é individual, e porque esse bem é efetivo, a doutrina que o proporciona é aceita com tanta facilidade. Direi mesmo que com muito entusiasmo, por muitos. Com efeito, abstração feita de sua racionalidade, que filosofia é mais capaz de libertar o pensamento do homem dos laços terrenos e de elevar sua alma para o infinito? Qual a que lhe dá uma ideia mais justa, mais lógica, mais apoiada em provas patentes, de sua natureza e de seu destino? Que seus adversários a substituam por algo de melhor; por uma doutrina mais consoladora que se acomode melhor à razão; que substitua a alegria inefável de saber que os seres que nos foram caros na Terra estão junto a nós, nos veem, nos ouvem, nos falam e nos aconselham; que dê um motivo mais legítimo à resignação; que faça temer menos a morte; que proporcione mais calma nas provas da vida; que substitua, enfim, essa suave quietude experimentada quando se pode dizer: sinto-me melhor. Ante uma doutrina que faça tudo isto melhor, o Espiritismo ensarilhará as armas.

O Espiritismo torna, pois, soberanamente feliz. Com ele, não mais isolamento nem desespero. Ele já poupou muitas faltas, impediu vários crimes, levou a paz a inúmeras famílias, corrigiu muitos desvios. Como será, então, quando os homens forem alimentados por tais ideias! Porque então, vindo o raciocínio, eles se fortalecerão e não mais renegarão sua alma. Sim, o Espiritismo torna feliz e é isto que lhe dá um poder irresistível e assegura o seu futuro triunfo. Os homens querem a felicidade; o Espiritismo a proporciona; eles se atirarão nos braços do Espiritismo. Querem aniquilá-lo? Então deem ao homem uma fonte maior de felicidade e de esperança. Isto quanto aos indivíduos.

Duas outras forças parecem ter receado o seu aparecimento: a autoridade civil e a autoridade religiosa. Por que isso? Porque não o conhecem. Hoje a Igreja começa a ver que nele encontrará poderosa arma para combater a incredulidade; a solução lógica de vários dogmas embaraçosos e, finalmente, que ele já traz de volta aos seus deveres de cristãos bom número de ovelhas desgarradas. Por seu lado, o poder civil começa a ver provas de sua benéfica influência sobre a moralidade das classes laboriosas, às quais essa doutrina inculca, pela convicção, ideias de ordem, de respeito à propriedade, e faz compreender o nada das utopias. Testemunha de metamorfoses morais quase miraculosas, em breve entreverá, na difusão dessas ideias, um alimento mais útil ao pensamento do que as alegrias dos cabarés ou o tumulto da praça pública e, consequentemente, uma salvaguarda para a Sociedade. Assim, povo, Igreja e poder, um dia vendo nele um dique contra a brutalidade das paixões, uma garantia da ordem e da tranquilidade, uma volta às ideias religiosas que se extinguem, ninguém terá interesse em entravá-lo. Ao contrário, cada um buscará nele um apoio. Aliás, quem poderá deter o curso desse rio de ideias que já rola suas águas benfazejas nos cinco continentes?

Tais são, meus caros confrades, as considerações que desejava submeter-vos. Termino agradecendo novamente vossa benévola acolhida, cuja lembrança estará sempre presente em minha memória. Agradeço igualmente aos bons Espíritos por toda a satisfação que me proporcionaram durante minha viagem, porque, por toda parte onde me detive, encontrei bons e sinceros espíritas e pude constatar, por meus próprios olhos, o imenso desenvolvimento dessas ideias e com que facilidade elas se enraízam. Por toda parte encontrei gente feliz, aflitos consolados, pesares acalmados, ódios apaziguados; por toda parte a confiança e a esperança sucedendo às angústias da dúvida e da incerteza. Ainda uma vez, o Espiritismo é a chave da verdadeira felicidade e aí está o segredo de seu poder irresistível. Então é utopia uma doutrina que faz tais prodígios? Que Deus, na sua bondade, meus caros amigos, se digne vos enviar bons Espíritos para vos assistir nas vossas comunicações, a fim de que vos esclareçam sobre as verdades que estais encarregados de espalhar. Um dia colhereis centuplicados os frutos do bom grão que houverdes semeado.

Que este repasto de amigos, meus mui amados confrades, como nos ágapes antigos, seja o penhor da união entre todos os verdadeiros espíritas!

Levanto um brinde aos espíritas lioneses, tanto em meu nome quanto no da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.


 Allan Kardec










quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Allan Kardec - Revista Espírita - Ano IX, Outubro de 1866 - Os tempos são chegados




Allan Kardec - Revista Espírita - Ano IX, Outubro de 1866


Os tempos são chegados


Os tempos marcados por Deus são chegados, dizem-nos de todos os lados, nos quais grandes acontecimentos vão realizar-se, para a regeneração da Humanidade. Em que sentido devem ser entendidas essas palavras proféticas?

Para os incrédulos elas não têm qualquer importância. Aos seus olhos não passam de expressão de uma crença pueril sem fundamento. Para a maioria dos crentes, elas têm algo de místico e de sobrenatural que lhes parece precursor do desmoronamento das leis da Natureza. Estas duas interpretações são igualmente errôneas: a primeira, porque implica a negação da Providência e porque os fatos realizados provam a verdade dessas palavras; a segunda, porque elas não anunciam a perturbação das leis da Natureza, mas a sua realização.

Procuremos, pois, o sentido mais racional.

Tudo é harmonia na obra da criação; tudo revela uma previdência que não se desmente nem nas menores nem nas maiores coisas. Então, para começar, devemos afastar toda ideia de capricho, inconciliável com a sabedoria divina; em segundo lugar, se nossa época está marcada para a realização de certas coisas, é que elas têm sua razão de ser na marcha geral do conjunto.

Isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Ele progride fisicamente pela transformação dos elementos que o compõem, e moralmente pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Esses dois progressos se seguem e marcham paralelamente, porque a perfeição da habitação está em relação com o habitante. Fisicamente, o globo sofreu transformações, constatadas pela Ciência, e que paulatinamente o tornaram habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados; moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que se opera o melhoramento do globo, sob o império das forças materiais, os homens a isso contribuem pelos esforços da inteligência. Eles saneiam regiões insalubres, tornam mais fáceis as comunicações e a terra mais produtiva.

Esse duplo progresso se realiza de duas maneiras: uma lenta, gradual e imperceptível; a outra por mudanças mais bruscas, em cada uma das quais se opera um movimento ascensional mais rápido, que marca, por caracteres distintos, os períodos progressivos da Humanidade. Esses movimentos, subordinados nos detalhes ao livre-arbítrio dos homens, são de certo modo fatais em seu conjunto, porque submetidos a leis, como os que se operam na germinação, no crescimento e na maturação das plantas, visto que o objetivo da Humanidade é o progresso, não obstante a marcha retardatária de algumas individualidades. Eis por que o movimento progressivo é algumas vezes parcial, isto é, limitado a uma raça ou a uma nação, outras vezes geral. O progresso da Humanidade se efetua, pois, em virtude de uma lei. Ora, como todas as leis da Natureza são a obra eterna da sabedoria e da presciência divinas, tudo quanto seja efeito dessas leis, é resultado da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Então, quando a Humanidade está madura para transpor um degrau, podemos dizer que os tempos marcados por Deus são chegados, como podemos dizer também que em tal estação eles chegaram para a maturação dos frutos e para a colheita.

Considerando-se que o movimento progressivo da Humanidade é inevitável porque está em a Natureza, não se segue que Deus a isso seja indiferente, e que depois de haver estabelecido leis, ele tenha entrado em inércia, deixando as coisas irem por si mesmas. Suas leis são eternas e imutáveis, sem dúvida, mas porque sua própria vontade é eterna e constante, e seu pensamento anima todas as coisas sem interrupção; porque seu pensamento, que tudo penetra, é a força inteligente e permanente que mantém tudo na harmonia, se esse pensamento deixasse de agir um só instante, o Universo seria como um relógio sem o balancim regulador. Assim, Deus vela incessantemente pela execução de suas leis, e os Espíritos que povoam o espaço são seus ministros encarregados dos detalhes, segundo as atribuições compatíveis com seu grau de adiantamento.

O Universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurável conduzido por um número não menos incomensurável de inteligências; um imenso governo em que cada ser inteligente tem seu quinhão de ação sob o olhar do soberano Senhor cuja vontade única mantém a unidade por toda parte. Sob o império desse vasto poder regulador, tudo se move, tudo funciona numa ordem perfeita. Aquilo que nos parecem perturbações, são os movimentos parciais e isolados que só nos parecem irregulares porque nossa visão é circunscrita. Se pudéssemos abarcar o seu conjunto, veríamos que essas irregularidades são apenas aparentes e que elas estão em harmonia com o todo.

A previsão dos movimentos progressivos da Humanidade nada tem de surpreendente para os seres desmaterializados, que veem o fim para onde tendem todas as coisas, alguns dos quais possuem o pensamento direto de Deus e julgam, pelos movimentos parciais, o tempo no qual poderá realizar-se um movimento geral, como julgamos previamente o tempo necessário para uma árvore dar frutos, e como os astrônomos calculam a época de um fenômeno astronômico pelo tempo que falta para um astro completar sua revolução.

Mas todos os que anunciam tais fenômenos, os autores de almanaques que predizem os eclipses e as marés, certamente não são, eles próprios, capazes de fazer os necessários cálculos. Eles são simples repetidores. Assim, há Espíritos secundários, cujo olhar é limitado, e que apenas repetem o que aos Espíritos superiores aprouve lhes revelar.

Até hoje a Humanidade realizou incontestáveis progressos. Por sua inteligência, os homens chegaram a resultados que jamais haviam atingido em termos de Ciências, Artes e bem-estar material. Resta-lhes ainda um grandioso resultado a atingir: fazer reinar entre si a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o seu bem-estar moral. Eles não podiam fazê-lo com suas crenças, nem com suas instituições caducas, restos de outros tempos, boas numa certa época, suficientes para um estado transitório, mas que, tendo dado o que comportavam, seriam hoje uma estagnação. Assim acontece com um menino, cujas motivações do período infantil são impotentes quando chega a idade madura. Já não é mais apenas o desenvolvimento da inteligência que é necessário aos homens, é a elevação do sentimento, e para tanto é preciso destruir tudo quanto poderia neles superexcitar o egoísmo e o orgulho.

É esse o período em que doravante eles vão entrar, e que marcará uma das principais fases da Humanidade. Essa fase que se elabora neste momento é o complemento necessário da etapa precedente, como a idade viril é o complemento da mocidade. Ela podia, pois, ser prevista e predita por antecipação, e é por isto que dizemos que os tempos marcados por Deus são chegados.

Neste tempo não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a um país, a um povo, a uma raça. É um movimento universal que se opera em termos de progresso moral.

Uma nova ordem de coisas tende a se estabelecer, e os homens que a ela mais se opõem, nela trabalham malgrado seu. A geração futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de elementos mais depurados, achar-se-á animada de ideias e sentimentos completamente diversos dos sentimentos que animam a geração presente, que se afasta a passos de gigante. O velho mundo morrerá e viverá na História, como hoje os tempos medievais, com seus costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.

Ademais, cada um sabe que a ordem atual das coisas deixa a desejar. Depois de ter, de certo modo, esgotado o bem-estar material, que é produto da inteligência, chega-se a compreender que o complemento desse bem-estar não pode estar senão no desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, mais se sente o que falta, sem contudo poder ainda defini-lo claramente: é o efeito do trabalho íntimo que se opera para a regeneração; têm-se desejos e aspirações que são como o pressentimento de um estado melhor.

Mas uma mudança tão radical quanto a que se elabora não pode realizar-se sem comoção; há lutas inevitáveis entre as ideias, e quem diz luta, diz alternativa de sucesso e de revés. Entretanto, como as ideias novas são as do progresso, e o progresso está nas leis da Natureza, elas não podem deixar de superar as ideias retrógradas. Desse conflito nascerão, forçosamente, perturbações temporárias, até que o terreno seja varrido dos obstáculos que se opõem à edificação do novo edifício social. É, pois, da luta das ideias que surgirão os graves acontecimentos anunciados, e não de cataclismos ou de catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais eram consequência do período de formação da Terra; hoje não são mais as entranhas da Terra que se agitam, são as da Humanidade.

A Humanidade é um ser coletivo, no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual, com a diferença que umas se realizam de ano a ano e as outras de século em século. Acompanhando-as em sua evolução através dos tempos, ver-se-á a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia particular.

Ao lado dos movimentos parciais, há um movimento geral que dá impulso à Humanidade inteira; mas o progresso de cada parte do conjunto é relativo ao seu grau de adiantamento. Tal seria uma família composta de vários filhos, dos quais o caçula está no berço e o mais velho com dez anos, por exemplo. Em dez anos o mais velho terá vinte e será um homem, enquanto o mais novo terá apenas dez, e embora mais crescido será ainda uma criança, mas, no devido tempo, tornar-se-á homem. É assim que acontece com as diversas frações da Humanidade: os mais jovens avançam, mas não poderiam atingir de um salto o nível dos mais velhos.

Tornando-se adulta, a Humanidade tem novas necessidades, aspirações mais amplas, mais elevadas. Ela compreende o vazio das ideias com que foi embalada, a insuficiência de suas instituições para a sua felicidade, e não mais encontra nesse estado das coisas as satisfações legítimas a que se sente chamada, por isso sacode os cueiros e se atira, impulsionada por uma força irresistível, na direção de plagas desconhecidas, em busca de novos horizontes menos limitados. E é no momento em que se encontra muito sufocada em sua esfera material, quando a vida intelectual transborda, quando se expande o sentimento da espiritualidade, que certos homens, pretensos filósofos, esperam encher o vazio com as doutrinas do niilismo e do materialismo! Estranha aberração! Esses mesmos homens que pretendem levá-la adiante, esforçam-se por contê-la no círculo estreito da matéria, de onde ela aspira sair; obstam-lhe a visão da vida infinita e lhe dizem, mostrando-lhe o sepulcro: Nec plus ultra.

A marcha progressiva da Humanidade opera-se de duas maneiras, como dissemos: uma gradual, lenta, imperceptível, se considerarmos as épocas menos remotas, o que se traduz por sucessivas melhoras nos costumes, nas leis, nos usos, e que não percebemos senão com o tempo, como as alterações que as correntes de água provocam na superfície do globo; a outra, por um movimento relativamente brusco, rápido, semelhante ao de uma torrente rompendo seus diques, que lhe faz transpor em alguns anos o espaço que teria levado séculos a percorrer. É então um cataclismo moral que em poucos instantes devora as instituições do passado e ao qual sucede uma nova ordem de coisas que se estabelece pouco a pouco, à medida que a calma se restabelece e se torna definitiva.

Para aquele que vive tempo suficiente para abarcar os dois aspectos da nova fase, parece que um mundo novo saiu das ruínas do antigo; o caráter, os costumes, os usos, tudo é mudado. É que, com efeito, homens novos, ou melhor, regenerados, surgiram. As ideias sustentadas pela geração que se extingue deram lugar a ideias novas, na geração que se ergue.

É a um desses períodos de transformação ou, se quiserem, de crescimento moral, que chegou a Humanidade. Da adolescência ela passa à idade viril. O passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às suas novas necessidades; ela não mais pode ser conduzida pelos mesmos meios; não mais se permite ilusões e artifícios. A razão amadurecida requer alimentos mais substanciais. O presente é efêmero; ela sente que seu destino é mais vasto e que a vida corporal é demasiadamente restrita para contê-la inteira. É por isso que ela mergulha o olhar no passado e no futuro, a fim de aí descobrir o mistério de sua existência e nele colher uma segurança consoladora.

Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas consequências e não o circunscreva à produção de alguns fenômenos, compreende que ele abre à Humanidade um novo caminho e lhe desdobra os horizontes do infinito. Iniciando-o nos mistérios do mundo invisível, mostra-lhe seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente ativo, tanto no estado espiritual quanto no estado corporal. O homem já não caminha cegamente. Ele sabe de onde vem, para onde vai e por que está na Terra. O futuro se lhe mostra em sua realidade, livre dos preconceitos da ignorância e da superstição; não é mais uma esperança, é uma verdade palpável, para ele tão certa quanto a sucessão dos dias e das noites. Ele sabe que o seu ser não está limitado a alguns instantes de uma existência cuja duração está submetida ao capricho do acaso; que a vida espiritual não é interrompida pela morte; que ele já viveu e viverá novamente, e que de tudo o que adquire em perfeição pelo trabalho nada fica perdido; encontra nas existências anteriores a razão do que ele é hoje, e do que hoje ele se faz, pode concluir o que será um dia.

Com o pensamento que a atividade e a cooperação individuais na obra geral da civilização são limitadas à vida presente, que nada fomos e nada seremos, que interesse tem para o homem o progresso ulterior da Humanidade? Que lhe importa que no futuro os povos sejam melhor governados, mais felizes, mais esclarecidos, melhores uns para com os outros? Considerando-se que disso ele não tira nenhum proveito, esse progresso para ele não é perdido? De que lhe serve trabalhar pelos que virão depois, se jamais deverá conhecê-los; se serão seres novos que logo mais também eles entrarão no nada? Sob o império da negação do futuro individual, tudo se reduz, forçosamente, às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.

Mas, ao contrário, que amplitude dá ao pensamento do homem a certeza da perpetuidade de seu ser espiritual! Que força, que coragem não adquire contra as vicissitudes da vida material! Que de mais racional, de mais grandioso, de mais digno do Criador que essa lei, segundo a qual a vida espiritual e a vida corporal não são senão dois modos de existência que se alternam para a realização do progresso! Que de mais justo e consolador que a ideia dos seres progredindo sem cessar, a princípio através das gerações de um mesmo mundo e, a seguir, de mundo em mundo, até a perfeição, sem solução de continuidade! Todas as ações têm, assim, um objetivo, porque, trabalhando para todos, trabalha-se para si, e vice-versa, de sorte que nem o progresso individual, nem o progresso geral jamais são estéreis, porquanto beneficiam tanto as gerações quanto as individualidades futuras, que não são outra coisa senão as individualidades passadas que atingiram um mais alto grau de adiantamento.

A vida espiritual é a vida normal e eterna do Espírito e a encarnação não é senão uma forma temporária de sua existência. Salvo a vestimenta exterior, há, pois, identidade entre os encarnados e os desencarnados; são as mesmas individualidades sob dois aspectos diferentes, ora pertencendo ao mundo visível, ora ao mundo invisível, encontrando-se ora num, ora noutro, concorrendo num e noutro para o mesmo objetivo, por meios apropriados à sua situação.

Dessa lei decorre a da perpetuidade das relações entre os seres. A morte não os separa e não põe um termo às suas relações de simpatia, nem aos seus deveres recíprocos. Daí a solidariedade de todos para cada um e de cada um para todos; daí, também, a fraternidade. Os homens não viverão felizes na Terra senão quando esses dois sentimentos tiverem entrado em seus corações e em seus costumes, porque então a eles sujeitarão suas leis e instituições. Será este um dos principais resultados da transformação que se opera.

Mas como conciliar os deveres da solidariedade e da fraternidade com a crença que a morte torna os homens para sempre estranhos uns aos outros? Pela lei da perpetuidade das relações que liga todos os seres, o Espiritismo funda esse duplo princípio sobre as próprias leis da Natureza. Disto faz não só um dever, mas uma necessidade. Pela da pluralidade das existências, o homem se liga ao que está feito e ao que será feito, aos homens do passado e aos do futuro; ele não mais pode dizer que nada tem de comum com os que morrem, pois uns e outros encontram-se incessantemente, neste e no outro mundo, para subirem juntos a escada do progresso e se prestarem mútuo apoio. A fraternidade não mais está circunscrita a alguns indivíduos que o acaso reúne durante a duração efêmera de uma vida; é perpétua como a vida do Espírito, universal como a Humanidade, que constitui uma grande família cujos membros são todos solidários reciprocamente, seja qual for a época em que tenham vivido.

Tais são as ideias que ressaltam do Espiritismo, e que ele suscitará entre todos os homens quando estiver universalmente difundido, compreendido, ensinado e praticado. Com o Espiritismo, a fraternidade, sinônimo da caridade pregada pelo Cristo, já não é uma palavra vã; ela tem a sua razão de ser. Do sentimento de fraternidade nasce o da reciprocidade e dos deveres sociais de homem a homem, de povo a povo, de raça a raça. Destes dois sentimentos bem compreendidos sairão, forçosamente, as mais proveitosas instituições para o bem-estar de todos.

A fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social. Mas não haverá fraternidade real, sólida e efetiva se não for apoiada em base inabalável, e essa base é a fé, não a fé em tais ou quais dogmas particulares, que mudam com os tempos e pelos quais os povos se atiram pedras, porque, anatematizando-se, eles entretêm o antagonismo, mas a fé nos princípios fundamentais que todo mundo pode aceitar: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a perpetuidade das relações entre os seres. Quando todos os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos, que esse Deus, soberanamente justo e bom, nada pode querer de injusto, que o mal vem dos homens e não dele, olhar-se-ão como filhos de um mesmo pai e dar-se-ão as mãos. Esta é a fé que o Espiritismo dá e que será, de agora em diante, o pivô em torno do qual mover-se-á o gênero humano, sejam quais forem as maneiras de o adorar e suas crenças particulares, que o Espiritismo respeita, mas das quais não tem que se ocupar. Apenas desta fé pode sair o verdadeiro progresso moral, porque só ela dá uma sanção lógica aos direitos legítimos e aos deveres. Sem ela, o direito é o que é dado pela força; o dever, um código humano imposto por constrangimento. Sem ela, o que é o homem? Um pouco de matéria que se dissolve, um ser efêmero que apenas passa. Sem ela o próprio gênio não é senão uma centelha que brilha um instante para extinguir-se para sempre, e certamente nisto não há motivo para reabilitá-lo a seus próprios olhos. Com tal pensamento, onde estão realmente os direitos e os deveres? Qual o objetivo do progresso? Somente esta fé faz o homem sentir sua dignidade pela perpetuidade e pela progressão de seu ser, não em um futuro mesquinho e circunscrito à sua personalidade, mas grandiosa e esplêndida; seu pensamento o eleva acima da Terra; ele se sente crescer, pensando que tem seu papel no Universo; que esse Universo é o seu domínio que um dia ele poderá percorrer, e que a morte não o transformará numa nulidade ou num ser inútil a si e aos outros.

O progresso intelectual realizado até hoje nas mais vastas proporções é um grande passo, e marca a primeira fase da Humanidade, mas ele sozinho é impotente para regenerá-la; enquanto o homem for dominado pelo orgulho e pelo egoísmo, utilizará sua inteligência e seus conhecimentos em proveito de suas paixões e de seus interesses pessoais, motivo pelo qual os aplica ao aperfeiçoamento dos meios de prejudicar os outros e de destruí-los.

Só o progresso moral pode assegurar a felicidade dos homens na Terra, pondo um freio nas paixões más; só ele pode fazer reinar a concórdia entre eles, a paz e a fraternidade. É ele que destruirá as barreiras dos povos; que fará caírem os preconceitos de casta e calar os antagonismos de seitas, ensinando aos homens a se olharem como irmãos chamados a se ajudarem mutuamente e não a viver uns às custas dos outros. É ainda o progresso moral, aqui secundado pelo progresso da inteligência, que confundirá os homens na mesma crença, estabelecida sobre as verdades eternas, não sujeitas a discussões, e por isto mesmo aceita por todos. A unidade de crença será o mais poderoso laço, o mais sólido fundamento da fraternidade universal, em todos os tempos quebrada pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem ver no próximo, inimigos que é preciso afugentar, combater, exterminar, em vez de irmãos que é preciso amar.

Um tal estado de coisas supõe uma radical mudança no sentimento das massas, um progresso geral que não poderia realizar-se senão saindo do círculo das ideias estreitas e terra a terra que fomentam o egoísmo. Em diversas épocas, homens de escol procuraram impelir a Humanidade por esse caminho, mas a Humanidade, ainda muito jovem, ficou surda, e seus ensinamentos foram como a boa semente que caiu sobre a pedra.

Hoje ela está madura para lançar suas vistas para mais alto do que o fez, a fim de assimilar ideias mais amplas e compreender o que não havia compreendido.

A geração que desaparece levará consigo seus preconceitos e seus erros; a geração que surge, fortalecida numa fonte mais depurada, imbuída de ideias mais sãs, imprimirá ao mundo o movimento ascensional no sentido do progresso moral que deve marcar a nova fase da Humanidade.

Essa fase se já revela por sinais inequívocos, por tentativas de reformas úteis, pelas ideias grandes e generosas que vêm à luz e que começam a encontrar eco. É assim que vemos serem fundadas muitas instituições protetoras, civilizadoras e emancipadoras, sob o impulso e por iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da regeneração; que as leis penais diariamente se impregnam de um sentimento mais humano. Os preconceitos de raça se abrandam e os povos começam a olhar-se como membros de uma grande família. Pela uniformidade e facilidade dos meios de transporte, eles suprimem as barreiras que os dividiam em todas as partes do mundo, reúnem-se em comissões universais para torneios pacíficos da inteligência. Mas falta para essas reformas uma base para se desenvolverem, para se completarem e se consolidarem, uma predisposição moral mais geral para frutificarem e se fazerem aceitas pelas massas. Isto não é menos um sinal característico do tempo, o prelúdio do que será realizado em mais vasta escala, à medida que o tempo se tornar propício.

Um sinal não menos característico do período em que entramos é a reação evidente que se opera nas ideias espiritualistas. Uma repulsa instintiva se manifesta contra as ideias materialistas, cujos representantes se tornam menos numerosos e menos absolutos. O espírito de incredulidade que se havia apoderado das massas, ignorantes ou esclarecidas, e que havia feito com que elas rejeitassem, juntamente com a forma, o próprio fundo de qualquer crença, parece ter sido um sono, ao sair do qual se experimenta a necessidade de respirar um ar mais vivificante. Involuntariamente, onde se fez o vazio, procura-se alguma coisa, um ponto de apoio, uma esperança.

Nesse grande movimento regenerador, o Espiritismo tem um papel considerável, não o Espiritismo ridículo inventado por uma crítica trocista, mas o Espiritismo filosófico, tal qual o compreende quem se dê ao trabalho de procurar a amêndoa dentro da casca. Pela prova que ele traz das verdades fundamentais, ele enche o vazio que a incredulidade engendra nas ideias e nas crenças; pela certeza que ele dá num futuro conforme à justiça de Deus, e que a mais severa razão pode admitir, ele tempera os amargores da vida e conjura os funestos efeitos do desespero.

Dando a conhecer novas leis da Natureza, ele dá a chave de fenômenos incompreendidos e de problemas até agora insolúveis e mata, ao mesmo tempo, a incredulidade e a superstição. Para ele não há sobrenatural nem maravilhoso; tudo se realiza no mundo em virtude de leis imutáveis. Longe de substituir um exclusivismo por outro, coloca-se como campeão absoluto da liberdade de consciência; combate o fanatismo sob todas as formas e o corta pela raiz, proclamando a salvação para todos os homens de bem e a possibilidade, para os mais imperfeitos, de chegar, pelos próprios esforços, pela expiação e pela reparação, à perfeição que, só ela, conduz à suprema felicidade. Em vez de desencorajar o fraco, encoraja-o, mostrando-lhe o fim que pode atingir.

Ele não diz: Fora do Espiritismo não há salvação, mas, com o Cristo: Fora da caridade não há salvação, princípio de união, de tolerância, que ligará os homens num sentimento comum de fraternidade, em vez de dividi-los em seitas inimigas. Por este outro princípio: Não há fé inabalável senão a que pode olhar a razão face a face em todas as idades da Humanidade, ele destrói o império da fé cega que aniquila a razão e da obediência passiva que embrutece; emancipa a inteligência do homem e levanta o seu moral.

Consequente consigo mesmo, ele não se impõe; diz o que é, o que quer, o que dá, e espera que a ele venham livremente, voluntariamente; quer ser aceito pela razão e não pela força. Ele respeita todas as crenças sinceras e não combate senão a incredulidade, o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia, que são as chagas da Sociedade e os mais sérios obstáculos ao progresso moral; mas não lança o anátema a ninguém, nem mesmo aos seus inimigos, porque está convencido que o caminho do bem está aberto aos mais imperfeitos, os quais, mais cedo ou mais tarde nele entrarão.

Se supusermos a maioria dos homens imbuídos desses sentimentos, facilmente poderemos imaginar as modificações que trarão às relações sociais: caridade, fraternidade, benevolência para com todos, tolerância para todas as crenças, tal será a sua divisa. É o objetivo a que, evidentemente, tende a Humanidade, o objeto de suas aspirações, de seus desejos, sem que se dê conta dos meios de realizá-los; ela tenta, tateia, mas é detida pelas resistências ativas ou pela força de inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e refratárias ao progresso. São essas resistências que devem ser vencidas, e isto será a obra da nova geração. Quem acompanhar o curso atual das coisas reconhecerá que tudo parece predestinado a lhe abrir o caminho. Ela terá a seu favor o duplo poder do número e das ideias, além da experiência do passado.

Assim, a nova geração marchará para a realização de todas as ideias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que tiver chegado. Caminhando o Espiritismo em busca do mesmo objetivo e realizando os seus planos, encontrar-se-á com ela no mesmo terreno, onde não serão concorrentes, mas colaboradores, prestando-se mútuo apoio. Os homens de progresso encontrarão nas ideias espíritas uma poderosa alavanca, e o Espiritismo encontrará nos homens novos, espíritos absolutamente dispostos a acolhê-lo. Nesse estado de coisas, que poderão fazer os que quiserem criar obstáculos?

Não é o Espiritismo que cria a renovação social, é a maturidade da Humanidade que faz dessa renovação uma necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplidão de suas vistas, pela generalidade das questões que abarca, o Espiritismo está, mais que qualquer outra doutrina, apto a secundar o movimento regenerador. É por isto que é seu contemporâneo. Ele veio no momento em que podia ser útil, porque também para ele os tempos são chegados. Mais cedo ele teria encontrado obstáculos intransponíveis; inevitavelmente teria sucumbido, porque os homens, satisfeitos com o que tinham, ainda não experimentavam a necessidade daquilo que ele traz. Hoje, nascido com o movimento das ideias que fermentam, ele encontra o terreno preparado para recebê-lo. Cansados da dúvida e da incerteza, apavorados com o abismo que se abre à sua frente, os espíritos o acolhem como uma tábua de salvação e uma suprema consolação.

Dizendo que a Humanidade está madura para a regeneração, isto não quer dizer que todos os indivíduos estejam no mesmo grau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão brotar; então eles se mostrarão mais adiantados do que se pensava, e seguirão com entusiasmo o impulso da maioria.

Há, entretanto, os que são fundamentalmente refratários, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente jamais se ligarão, pelo menos nesta existência, uns de boa-fé, por convicção; outros por interesse. Aqueles cujos interesses materiais estão ligados ao presente estado de coisas e que não estão suficientemente adiantados para deles libertar-se, aos quais o bem geral sensibiliza menos que o de sua pessoa, não podem ver sem apreensão o menor movimento reformador; a verdade é para eles uma questão secundária, ou melhor, a verdade está toda inteira no que não lhes causa nenhuma perturbação; todas as ideias progressistas são aos seus olhos ideias subversivas e é por isso que lhes votam um ódio implacável e lhes fazem uma guerra encarniçada. Muito inteligentes para não verem no Espiritismo um auxiliar dessas ideias e os elementos da transformação que temem, porque não se sentem à sua altura, eles se esforçam para abatê-lo; se o julgassem sem valor e sem autoridade, com ele não se preocupariam. Em outro momento já dissemos que “Quanto maior é uma ideia, mais adversários encontra, e pode medir-se a sua importância pela violência dos ataques de que ela é objeto.”

O número dos retardatários sem dúvida ainda é grande, mas o que podem eles fazer contra a onda que cresce, senão jogar pedras contra ela? Essa onda é a geração que surge, ao passo que eles desaparecem com a geração que diariamente vai se extinguindo a largos passos. Até lá eles defenderão o terreno palmo a palmo. Há, pois, uma luta inevitável, mas desigual, porque é a do passado decrépito que cai aos pedaços, contra o futuro juvenil; da estagnação contra o progresso; da criatura contra a vontade de Deus, pois os tempos marcados para eles são chegados.

 
Allan Kardec 




Nota: As reflexões que precedem são o desenvolvimento das instruções dadas pelos Espíritos sobre o mesmo assunto, num grande número de comunicações, a nós e a outras pessoas. A que publicamos a seguir é o resumo de várias conversas que tivemos, através de dois dos nossos médiuns habituais, em estado de sonambulismo extático, e que, ao despertar, não conservam nenhuma lembrança. Coordenamos metodicamente as ideias, a fim de lhes dar uma melhor sequência, eliminando todos os detalhes e acessórios supérfluos. Os pensamentos foram reproduzidos com muita exatidão, e as palavras são também tão textuais quanto foi possível recolhê-las pela audição.

Os tempos são chegados - Vide A Gênese,  cap. XVIII (N. Revisor)