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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.

Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito frequentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às joias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis












Fonte: O Porquê da Vida -pdf

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Léon Denis - Livro Giovana - O Porquê da Vida - Cap. VI, Pág. 126 - Justiça e progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI, Pág. 126


Justiça e progresso


(...) Horas sucedem-se às horas. Maurício lá está, meio inclinado sobre esse fogo que crepita e cuja fumaça se espalha na atmosfera úmida. Sonha a felicidade que fugiu, as esperanças perdidas. O desânimo de novo se apodera dele; o desgosto da vida, esse desgosto amargo de outrora, o invade novamente; idéias de suicídio germinam no íntimo do seu pensamento. Anoitece e o fogo vai-se extinguir; Maurício, porém, compraz-se nessa obscuridade cada vez mais completa. Um farfalhar faz-se ouvir atrás de si. Volta-se e nada vê. Foi sem dúvida o barulho do vento ou os passos da criada no quarto próximo. Perto da chaminé há um piano, cujas teclas estão mudas desde muito tempo. De repente, escapam-se sons desse móvel hermeticamente fechado. Confuso, de surpresa, Maurício presta atenção. Essa música é muito sua conhecida, é uma ária de Mignon, a predileta de Giovana e que ela gostava de tocar à tarde, depois do jantar.

O coração de Maurício confrange-se; seus olhos se umedecem de lágrimas. Levanta-se e rodeia o piano ninguém! o banco está vazio. Volta para o seu lugar. Será uma ilusão dos sentidos? Uma sombra branca ocupa a poltrona que ele havia deixado. Tremendo, aproxima-se.

Esses olhos, esse olhar límpido, esses cabelos louros como espigas maduras, essa boca sorridente, esse talhe esbelto, alto, é a imagem de Giovana. Oh! magia! então o túmulo restitui os seus hóspedes! Uma voz vem acariciar-lhe os ouvidos: "Amigo, nada receies, sou eu mesma, não tentes tocar-me, não sou mais que um Espírito. Não te aproximes mais, escuta-me."

Maurício ajoelha-se, chora: "ó meu anjo, ó minha noiva, és tu, então?"

- “Sim, sou tua noiva, tua muito antes desta vida. Escuta, um laço eterno nos une. Nós nos conhecemos há séculos, temos vivido lado a lado sobre muitas plagas, temos percorrido muitas existências. A primeira vez que te encontrei na Terra, era eu bem fraca, bem tímida e a vida então era dura. Tu me tomaste pela mão, me serviste de apoio; desde esse momento, não nos deixamos mais. Sempre seguíamos um ao outro em nossas vidas materiais, andando no mesmo caminho, amando-nos, sustentando-nos um ao outro. Metido em combates, em empresas guerreiras, tu não podias realizar os progressos necessários para que teu Espírito livre, purificado, pudesse deixar este mundo grosseiro. Deus quis experimentar-te; separou-nos. Eu podia elevar-me para outras esferas mais felizes, enquanto que tu devias prosseguir sozinho a tua prova aqui embaixo. Preferi, porém, esperar-te no espaço. Efetuaste duas existências desde então e, durante seu curso, testemunha invisível de teus pensamentos, não cessei de velar”. por ti. Cada vez que a morte arrancava tua alma à matéria, tu me reencontravas e o desejo de te elevares fazia-te retomar com mais ardor o fardo da encarnação. Desta vez eu também pedi, tanto supliquei ao Senhor, que ele me permitiu voltar a Terra, tomar aí um corpo e ser uma voz para ensinar-te o bem, a verdade. Nossos amigos no espaço nos aproximaram, nos reuniram, mas por um tempo limitado. Eu não podia ficar mais tempo neste planeta: meu papel estava preenchido. Não devia ser tua aqui na Terra.

“Chegou à hora em que os Espíritos podem, segundo a permissão divina, comunicar-se com os humanos. Assim, eu torno a vir para guiar-te, encorajar-te, consolar-te. Se queres que esta existência terrestre seja a última para ti, se queres que ao sair dela sejamos reunidos para nunca mais nos separarmos, consagra tua vida a teus irmãos, ensina-lhes a verdade. Dize-lhes que o fim da existência não é adquirir bens efêmeros, mas esclarecer a inteligência, purificar o coração, elevar-se para Deus. Revela-lhes as grandes leis do Universo, a ascensão dos Espíritos para a perfeição. Ensina-lhes as vidas múltiplas e solidárias, os mundos inumeráveis, as humanidades irmãs. Mostra-lhes a harmonia moral que rege o infinito”.

“Deixa após ti as sombras da matéria, as mas paixões; dá a todos o exemplo do sacrifício, do trabalho, da virtude. Tem confiança na divina justiça. Fita a todo o momento a luz longínqua que ilumina o alvo, o alvo supremo, que deve reunir-nos no amor, na felicidade”.

"Põe mãos à obra sem tardança; nós te sustentaremos, nós te inspiraremos. Estarei junto de ti durante a luta,
envolver-te-ei com um fluido benéfico. Assim como nesta tarde, tornar-me-ei novamente visível a teus olhos, revelar-te-ei o que ignoras ainda. E um dia, quando tudo que há em ti de material e ínfimo se tiver dissipado, unidos, confundidos, nos elevaremos juntos para o Eterno, juntando nossas vozes ao hino universal que sobe de esfera em esfera até Ele." 

Encontrei Maurício Ferrand, faz alguns anos, em uma grande cidade, além dos Alpes. Havia começado a sua obra. Pela pena, pela palavra, trabalhava para derramar esta doutrina conhecida pelo nome de Espiritismo. Os sarcasmos e zombarias choviam sobre ele de todas as partes. Cépticos, devotos, indiferentes uniam-se todos para o abaterem. Ele, porém, calmo, resignado, não perseverava menos em sua tarefa. "Que me importa - dizia - o desdém destes homens? Dia virá em que as provas os obrigarão a compreender que esta vida não é tudo, e pensarão em Deus, em seu futuro esplendoroso. Pode ser que então se recordem do que lhes digo. A semente neles lançada poderá germinar. E, além disso, acrescentou, fitando o Espaço - e uma lágrima brilhou em seus olhos -, o que eu faço é para obedecer àqueles que me amam para aproximar-me deles."


Léon Denis









Giovanna (Nouvelle) Paris (1880) - Novela Espírita Escrita por Léon Denis


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso




Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as consequências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, frequentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.
Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis







Fonte: O Porquê da Vida -pdf

sábado, 5 de setembro de 2020

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as consequências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, frequentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.
Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis







Fonte: O Porquê da Vida -pdf

terça-feira, 9 de junho de 2020

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso



Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.

Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito frequentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às joias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida?" E responderá : - "Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!"


Léon Denis












Fonte: O Porquê da Vida -pdf

sábado, 7 de dezembro de 2019

Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. IV - Justiça e Progresso




Léon Denis - Livro O Porquê da Vida - Cap. VI 


Justiça e Progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.

Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estoica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.

De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.

Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?

A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!

E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.

Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.

Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram. 

E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.

Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições,que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.

A riqueza proporciona ao homem, meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.

A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.

A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caráteres, o desespero,o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.

Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se.
Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.

Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração. 

Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.

E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.

Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: "Que fez da vida? » E responderá : - « Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos! »


Léon Denis 


Fonte: O Consolador