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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Santo Agostinho - Revista Espírita - Allan Kardec - Maio, 1859 - Mundos intermediários ou transitórios



Allan Kardec - Revista Espírita - Maio, 1859


Mundos intermediários ou transitórios


Vimos, numa das respostas dadas no artigo anterior que, ao que parece, haveria mundos destinados aos Espíritos errantes. A ideia desses mundos não perpassava na mente de nenhum dos assistentes e ninguém nela teria pensado se não fora a espontânea revelação de Mozart, o que constitui uma nova prova de que as comunicações espíritas podem ser independentes de toda opinião preconcebida. Com o objetivo de aprofundar esta questão, nós a submetemos a um outro Espírito, fora da Sociedade e por intermédio de outro médium, que não tinha nenhum conhecimento do assunto. 

A Santo Agostinho.

Existem mundos que servem de estações aos Espíritos errantes, ou como pontos de repouso, conforme nos disseram?

─ Existem, mas apresentam diferentes graus, isto é, ocupam posição intermediária entre os outros mundos, conforme a natureza dos Espíritos que os procuram e que aí gozam de maior ou menor bem-estar.

Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los à vontade?

─ Sim. Os Espíritos que os habitam podem afastar-se para ir aonde precisem. Imaginai-os como aves de arribação pousando sobre uma ilha a fim de refazerem as suas forças para prosseguirem em busca do seu destino.

Os Espíritos progridem enquanto estacionam nesses mundos intermediários?

─ Certamente. Os que assim se reúnem fazem-no com o fito de instruir-se e poderem mais facilmente obter permissão para irem a melhores lugares e alcançar a posição dos eleitos.

Esses mundos, por sua natureza especial, são perpetuamente reservados a Espíritos errantes?

─ Não. Sua situação é transitória.

São habitados simultaneamente por seres corpóreos?

─ Não.

Têm uma constituição semelhante à dos outros planetas?

─ Sim, mas a superfície é estéril.

Por que essa esterilidade?

─ Aqueles que os habitam de nada precisam.

Essa esterilidade é permanente e devida à sua natureza especial?

─ Não. Eles são transitoriamente estéreis.

Então esses mundos são desprovidos de belezas naturais?

─ A Natureza se traduz pelas belezas da imensidade, não menos admiráveis que as que chamais belezas naturais.

Há desses mundos em nosso sistema planetário?

─ Não.

Desde que se trata de um estado transitório, a Terra estará um dia nesse número?

─ Ela já esteve.

Em que época?

─ Durante a sua formação.


Santo Agostinho



NOTA: Mais uma vez esta comunicação confirma a grande verdade de que nada é inútil na Natureza. Todas as coisas têm um fim, um destino; nada é vazio, tudo é habitado; a vida está em toda parte. Assim, durante a longa série de séculos decorridos antes do aparecimento do homem na face da Terra; durante esses lentos períodos de transição, atestados pelas camadas geológicas; antes mesmo da formação dos primeiros seres orgânicos, sobre essa massa informe; nesse árido caos onde os elementos se confundiam, não havia ausência de vida. Seres que não tinham as nossas necessidades, nem as nossas sensações físicas aqui se refugiavam. Quis Deus que, mesmo nesse estado imperfeito, ela servisse para alguma coisa. Quem, pois, ousaria dizer que entre esses milhares de mundos que circulam na imensidade, um só e dos menores, perdido na multidão, teria o privilégio exclusivo de ser povoado? Qual seria, então, a utilidade dos outros? Deus tê-los-ia criado apenas para deleitar os nossos olhos? Suposição absurda, incompatível com a sabedoria que brilha em todas as suas obras. Ninguém contestará que há nesta ideia dos mundos ainda inadequados à vida material e no entanto povoados por seres vivos apropriados ao meio, algo de grandioso e de sublime, onde talvez se encontre a solução de muitos problemas.


Allan Kardec














Fonte: IPEAK

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Georges - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas - Progresso intelectual e moral



Georges - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas


Progresso intelectual e moral
(Enviada pelo Sr. Sabô, de Bordéus)


Venho dizer-vos que o progresso moral é o de mais útil aquisição, porque nos corrige as más inclinações e nos torna bons, caridosos e devotados aos nossos irmãos. Contudo, o progresso intelectual é também útil ao nosso adiantamento, porque eleva a alma e faz-nos julgar mais corretamente as nossas ações, assim facilitando o progresso moral. Inicia-nos aos ensinos que Deus nos proporciona há séculos por intermédio de tantos homens de méritos diversos, que vieram sob todas as formas e em todas as línguas para nos dar a conhecer a verdade, e que não eram senão Espíritos já adiantados, enviados por Deus para o desenvolvimento do entendimento humano. Mas, na época em que viveis, a luz que iluminava apenas um pequeno número vai brilhar para todos. Trabalhai, pois, para compreenderdes a grandeza, o poder, a majestade, a justiça de Deus; para compreenderdes a sublime beleza de suas obras; para compreenderdes as magníficas recompensas concedidas aos bons e os castigos infligidos aos maus; para compreenderdes, enfim, que o único objetivo que deveis aspirar é o de vos aproximardes dele.


Georges

(Bispo de Périgueux e de Sarlat, feliz por ser um dos guias do médium)
 









Fonte: Kardecpedia

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O Espírito da Fé - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano XI, Maio de 1868 - Jornal de estudos psicológicos - Dissertações dos Espíritos



O Espírito da Fé - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano XI, Maio de 1868 - Jornal de estudos psicológicos


Dissertações dos Espíritos
 

Onde estamos hoje? onde está a luz? Tudo é sombrio, tudo está turvo à nossa volta. Ontem era o passado; amanhã é o futuro; hoje é o presente… Que é que distingue esses três dias? Viveu-se ontem, vive-se ainda hoje, viver-se-á amanhã, e sempre no mesmo círculo. De onde sai, então, esta Humanidade e para onde vai ela? Mistério que só será esclarecido amanhã.

Moisés é o tempo passado; o Cristo, o tempo presente; o Messias a vir, que é o amanhã, ainda não apareceu… Moisés tinha que combater a idolatria; o Cristo, os fariseus; o Messias a vir terá também os seus adversários: a incredulidade, o cepticismo, o materialismo, o ateísmo e todos os vícios que acabrunham o gênero humano… Três épocas que marcam o progresso da Humanidade; parênteses filiais que se sucedem um ao outro; ontem era Moisés, hoje é o Cristo e amanhã será o novo Messias.

Digo que é o Cristo hoje, porque é a sua palavra, a sua doutrina, a sua caridade, todos os seus sublimes ensinamentos que devem espalhar-se por toda parte; porque, vós mesmos o vedes, a Humanidade não progrediu muito. Apenas dezoito séculos nos separam do Cristo: dezoito séculos de trevas, de tirania, de orgulho e de ambição.

Apropriai-vos do passado, do presente; amanhã contemplareis o vosso futuro… Idólatras do passado, fariseus do presente, adversários de amanhã, a luz brilha para todos os povos, para todos os mundos, para todos os indivíduos, e não quereis vê-la!

Criatura, tu desanimas hoje, que é o presente; esperas a realização dos prodígios anunciados; verás que se realizam. Logo toda a Terra tremerá… o século vinte ofuscará o brilho dos séculos precedentes, porque verá a realização do que foi predito.

O Messias que deve presidir ao grande movimento regenerador da Terra já nasceu [v. Comentários sobre os messias do Espiritismo], mas ainda não revelou sua missão, e não nos é permitido dizer nem o seu nome, nem o país onde habita; ele se anunciará por suas obras e os homens tremerão à sua voz potente, porque o número dos justos ainda é muito pequeno.

Ligai-vos à matéria, homens egoístas e ambiciosos, que não viveis senão para satisfazer as vossas paixões e os vossos desejos mundanos. O tempo é curto para vós; agarrai-o, enlaçai-o, porque ontem é passado, hoje se põe e logo será amanhã.

Ai! fariseu do presente, tu esperas sempre. Que ribombe o trovão, tu não te espantarás diante do relâmpago precursor que vem deslumbrar os teus olhos. Tu que te comprazes no egoísmo e no orgulho, que persistes no passado e no presente, teu futuro será ser rejeitado para um outro mundo, a fim de que teu Espírito possa chegar um dia à perfeição a que Deus te chama.

Vós, espíritas, que estais aqui, que recebeis as instruções dos Espíritos, sede pacientes, dóceis, conscientes de vossos atos; não desanimeis; esperai com calma esse amanhã que vos deve livrar de todas as perseguições. Deus, para quem nada é oculto, que lê nos corações, vos vê e não vos abandonará. A hora se aproxima e logo estaremos no amanhã.

Mas . esse Messias que deve vir é o próprio Cristo? questão difícil de compreender no tempo presente, e que amanhã será esclarecida. Como um bom pai de família, Deus, que é todo sabedoria, não impõe todo o trabalho a um só de seus filhos. Atribui a cada um a sua tarefa, segundo as necessidades do mundo para onde os envia. Disso devemos concluir que o novo Messias nem será tão grande, nem tão poderoso quanto o Cristo? Seria absurdo; mas esperai que soe a hora para compreender a obra dos mensageiros invisíveis, que vieram desbravar o caminho, porque os Espíritos fizeram um imenso trabalho. É o Espiritismo que deve remover as grandes pedras que poderiam dificultar a passagem daquele que deve vir. Esse homem será poderoso e forte, e numerosos Espíritos estão na Terra para aplanar o caminho e fazer cumprir o que foi predito.

Esse novo Messias será chamado o Cristo? É uma pergunta a que não posso responder; esperai o amanhã. Quantas coisas eu teria ainda a vos revelar! Mas eu paro, porque o dia de amanhã ainda não aparece. Mal nos aproximamos da meia-noite.

Amigos que estais aqui, todos animados do desejo do vosso adiantamento, trabalhai sobre vós mesmos para vos regenerardes, a fim de que o Mestre vos encontre preparados. Coragem, irmãos, porque o vosso esforço não será perdido; trabalhai para quebrar os laços da matéria, que impedem o Espírito de progredir.

Tende fé, porque ela conduz o homem seguramente ao fim de sua viagem. Tende amor, porque amar aos seus irmãos é amar a Deus. Vigiai e orai: a prece fortalece o Espírito que se deixa tomar pelo desânimo. Pedi ao vosso Pai celeste a força de triunfar dos obstáculos e das tentações. Armai-vos contra os vossos defeitos; mantende-vos prontos, porque o amanhã não está longe. A aurora do século marcado por Deus para a realização dos fatos que devem mudar a face deste mundo começa a surgir no horizonte.


O Espírito da Fé. 









terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Um Anjo da Guarda - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano III, Maio de 1860 - Ditados Espontâneos - I - Remorso e arrependimento



Um Anjo da Guarda - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano III, Maio de 1860 - Ditados Espontâneos - I


Remorso e arrependimento 


Estou contente por ver que vos reunis pela mesma fé e pelo amor de Deus Todo-Poderoso, nosso divino Senhor. Possa ele guiar-vos sempre no bom caminho e cumular-vos com seus benefícios, o que fará se vos tornardes dignos.

Amai-vos sempre uns aos outros, como irmãos; prestai-vos mútuo auxílio, e que o amor do próximo não vos seja uma palavra vazia de sentido.

Lembrai-vos de que a caridade é a mais bela das virtudes, e que, de todas, é a mais agradável a Deus; não só dessa caridade que dá um óbolo aos infelizes, mas a que vos leva a ter compaixão das misérias de nossos irmãos; que vos faz partilhar suas dores morais, aliviar o fardo que os oprime, a fim de lhes tornar a dor menos viva e a vida mais fácil.

Recordai-vos de que o arrependimento sincero obtém o perdão de todas as faltas, tamanha é a bondade de Deus. O remorso nada tem em comum com o arrependimento; o remorso, meus irmãos, já é o prelúdio do castigo. O arrependimento, a caridade, a fé, vos conduzirão às felicidades reservadas aos bons Espíritos.

Ides ouvir a palavra de um Espírito superior, bem-amado de Deus. Recolhei-vos e abri o coração às lições que ele vos dará.


Um Anjo-da-Guarda














domingo, 23 de julho de 2023

São Luís - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Allan Kardec - Maio - 1858 - O orgulho

 

São Luís - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Allan Kardec - Maio - 1858


O orgulho 


Dissertação moral ditada por São Luís à Srta. Ermance Dufaux.

Um homem soberbo possuía algumas jeiras de boa terra. Sentia-se orgulhoso das pesadas espigas que cobriam o seu campo e lançava o olhar desdenhoso sobre o campo estéril do humilde. Esse levantava-se ao cantar do galo e ficava o dia todo curvado sobre o solo ingrato; recolhia pacientemente os seixos e ia atirá-los à beira do caminho; revolvia profundamente a terra e arrancava com dificuldade os espinheiros que a cobriam. Ora, seu suor fecundou o campo e ele colheu o melhor trigo.

Entretanto, o joio crescia no campo do homem soberbo e abafava o trigo, enquanto o dono se vangloriava de sua fecundidade e olhava com piedade os esforços silenciosos do humilde.

Em verdade vos digo que o orgulho é semelhante ao joio que afoga o bom grão. Aquele dentre vós que se julga mais que seu irmão e que se vangloria, é insensato. Sábio é o que trabalha por si mesmo, como o humilde em seu campo, sem se envaidecer de sua obra.

Havia um homem rico e poderoso que desfrutava o favor do prín­cipe. Morava em palácios e numerosos servos esforçavam-se por adivinhar-lhe os desejos.

Um dia em que suas matilhas acuavam um cervo nas profundezas da floresta, ele avistou um pobre lenhador vergando ao peso de um feixe de lenha. Chamou-o e lhe disse:

─ Vil escravo! Por que passas pelo caminho sem te inclinares perante mim? Sou igual ao Senhor: nos conselhos minha voz decide a paz e a guerra, e os grandes do reino curvam-se em minha presença. Saiba que sou sábio entre os sábios, poderoso entre os poderosos, grande entre os grandes e minha elevação é obra de minhas mãos.

─ “Senhor! ─ respondeu o pobre homem ─ temi que minha saudação humilde vos fosse uma ofensa. Sou pobre e o único bem que possuo são os meus braços, mas não desejo vossas grandezas enganosas. Durmo o meu sono e não temo, como vós, que o prazer do senhor me faça cair em minha obscuridade.

Ora, o príncipe entediou-se do orgulho da soberba. Os grandes humilhados ergueram-se contra ele, que foi precipitado do pináculo de seu poder, como uma folha seca que o vento varre do cume da montanha. Mas o humilde continuou pacificamente seu rude trabalho, sem preocupação pelo dia seguinte.

Soberbo, humilha-te, porque a mão do Senhor curvará o teu orgulho até a poeira!

Escuta! Nasceste onde te lançou a sorte; saíste do seio materno fraco e nu como o último dos homens. Por que levantas a fronte mais alto que os teus semelhantes, tu que como eles nasceste para a dor para a morte?

Escuta! Tuas riquezas e tuas grandezas, vaidades das vaidades, escaparão de tuas mãos quando vier o grande dia, como as águas inconstantes da torrente que o sol evapora. Não levarás de tuas riquezas mais que as tábuas do esquife, e os títulos gravados na lápide funerária serão palavras vazias de sentido.

Escuta! O cão do coveiro brincará com os teus ossos, e eles serão misturados aos do mendigo; a tua poeira confundir-se-á com a dele, porque um dia vós ambos sereis apenas pó. Então amaldiçoarás os dons que recebeste, quando vires o mendigo revestido de sua glória, e chorarás o teu orgulho.

Humilha-te, soberbo, porque a mão do Senhor curvará o teu orgulho até o pó.


─ Por que São Luís nos fala em parábolas?

─ O Espírito humano gosta do mistério. A lição se grava melhor no coração quando nós a procuramos.

─ Parece que hoje a lição nos deve ser dada de maneira mais direta, sem termos que recorrer à alegoria.

─ Encontrá-la-eis no desenvolvimento. Desejo ser lido, e a moral necessita de um disfarce sob a atração do prazer.


São Luís










(19 e 26 de Janeiro de 1858)

domingo, 5 de março de 2023

São Luís - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Allan Kardec, Ano I, Maio de 1858 - O orgulho



São Luís - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - Allan Kardec, Ano I, Maio de 1858


O orgulho  
 

I

Um homem soberbo possuía algumas jeiras[1] de boa terra. Sentia-se orgulhoso das pesadas espigas que cobriam o seu campo e lançava o olhar desdenhoso sobre o campo estéril do humilde. Esse levantava-se ao cantar do galo e ficava o dia todo curvado sobre o solo ingrato; recolhia pacientemente os seixos e ia atirá-los à beira do caminho; revolvia profundamente a terra e arrancava com dificuldade os espinheiros que a cobriam. Ora, seu suor fecundou o campo e ele colheu o melhor trigo.

Entretanto, o joio crescia no campo do homem soberbo e abafava o trigo, enquanto o dono se vangloriava de sua fecundidade e olhava com piedade os esforços silenciosos do humilde.

Em verdade vos digo que o orgulho é semelhante ao joio que afoga o bom grão. Aquele dentre vós que se julga mais que seu irmão e que se vangloria, é insensato. Sábio é o que trabalha por si mesmo, como o humilde em seu campo, sem se envaidecer de sua obra.

II

Havia um homem rico e poderoso que desfrutava o favor do prín­cipe. Morava em palácios e numerosos servos esforçavam-se por adivinhar-lhe os desejos.

Um dia em que suas matilhas acuavam um cervo nas profundezas da floresta, ele avistou um pobre lenhador vergando ao peso de um feixe de lenha. Chamou-o e lhe disse:

─ Vil escravo! Por que passas pelo caminho sem te inclinares perante mim? Sou igual ao Senhor: nos conselhos minha voz decide a paz e a guerra, e os grandes do reino curvam-se em minha presença. Saiba que sou sábio entre os sábios, poderoso entre os poderosos, grande entre os grandes e minha elevação é obra de minhas mãos.

─ “Senhor! ─ respondeu o pobre homem ─ temi que minha saudação humilde vos fosse uma ofensa. Sou pobre e o único bem que possuo são os meus braços, mas não desejo vossas grandezas enganosas. Durmo o meu sono e não temo, como vós, que o prazer do senhor me faça cair em minha obscuridade.

Ora, o príncipe entediou-se do orgulho da soberba. Os grandes humilhados ergueram-se contra ele, que foi precipitado do pináculo de seu poder, como uma folha seca que o vento varre do cume da montanha. Mas o humilde continuou pacificamente seu rude trabalho, sem preocupação pelo dia seguinte.

III

Soberbo, humilha-te, porque a mão do Senhor curvará o teu orgulho até a poeira!

Escuta! Nasceste onde te lançou a sorte; saíste do seio materno fraco e nu como o último dos homens. Por que levantas a fronte mais alto que os teus semelhantes, tu que como eles nasceste para a dor para a morte?

Escuta! Tuas riquezas e tuas grandezas, vaidades das vaidades, escaparão de tuas mãos quando vier o grande dia, como as águas inconstantes da torrente que o sol evapora. Não levarás de tuas riquezas mais que as tábuas do esquife, e os títulos gravados na lápide funerária serão palavras vazias de sentido.

Escuta! O cão do coveiro brincará com os teus ossos, e eles serão misturados aos do mendigo; a tua poeira confundir-se-á com a dele, porque um dia vós ambos sereis apenas pó. Então amaldiçoarás os dons que recebeste, quando vires o mendigo revestido de sua glória, e chorarás o teu orgulho.

Humilha-te, soberbo, porque a mão do Senhor curvará o teu orgulho até o pó.


São Luís


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─ Por que São Luís nos fala em parábolas?

─ O Espírito humano gosta do mistério. A lição se grava melhor no coração quando nós a procuramos.

─ Parece que hoje a lição nos deve ser dada de maneira mais direta, sem termos que recorrer à alegoria.

─ Encontrá-la-eis no desenvolvimento. Desejo ser lido, e a moral necessita de um disfarce sob a atração do prazer.




Dissertação moral ditada por São Luis à Srta. Ermance Dufaux 
(19 e 26 de janeiro de 1858)





[1] Medida agrária com 0,2 hectare.


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Lamennais - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V - Maio de 1862 - O padeiro desumano - Suicídio



Lamennais - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V - Maio de 1862 - O padeiro desumano


Suicídio


Uma correspondência de Crefeld - Prússia Renana, de 25 de janeiro de 1862, e inserta em o Constitucionnel de 4 de fevereiro, contém o seguinte fato:

“Uma pobre viúva, mãe de três filhos, entra numa padaria e pede insistentemente que lhe vendam um pão fiado. O padeiro se recusa. A viúva reduz o pedido a meio pão e, por fim, a uma libra de pão, apenas para seus filhos famintos. O padeiro recusa ainda, deixa o lugar e vai para o fundo da padaria. Crendo não ser vista, a mulher toma um pão e sai. Mas o roubo, imediatamente descoberto, é denunciado à polícia.

“Um agente vai à casa da viúva e a surpreende cortando o pão em pedaços para os filhos. Ela não nega o roubo, mas se desculpa com a necessidade. Embora censurando a dureza do padeiro, o agente insiste para que ela o acompanhe até o comissário.

“A viúva pede apenas alguns instantes para trocar de roupa. Entra no quarto, mas demora bastante até que o agente, perdendo a paciência, resolve abrir a porta. A infeliz estava estirada no chão, coberta de sangue. Com a mesma faca com que cortava o pão para os filhos, tinha posto fim a seus dias.”

Tendo sido lida a notícia na sessão da Sociedade de 14 de fevereiro de 1862, foi proposta a evocação dessa infeliz, quando ela mesma veio manifestar-se espontaneamente, na comunicação que segue.

Acontece muitas vezes que assim se revelam Espíritos de quem falamos. É fora de dúvida que são atraídos pelo pensamento, o que é uma espécie de evocação tácita. Eles sabem que a gente se ocupa deles e vêm. Então se comunicam, se o momento é propício ou se acham um médium que lhes convém. De acordo com isso, compreende-se que não há necessidade de ser um médium, e nem mesmo de ser espírita, para atrair os Espíritos com os quais a gente se ocupa.

 “Deus foi bom para a pobre alucinada e venho agradecer-vos a simpatia que tivestes a bondade de me testemunhar. Ah! Diante da miséria e da fome de meus pobres filhinhos, esqueci-me e fali. Então eu disse a mim mesma: Se és impotente para alimentar teus filhos e o padeiro recusa o pão aos que não podem pagar; se não tens dinheiro nem trabalho, morre! Se não estiveres mais com eles, alguém virá em seu auxílio.

“Com efeito, hoje a caridade pública adotou esses pobres órfãos. Deus me perdoou, porque viu a razão vacilar no meu atroz desespero. Fui a vítima inocente de uma sociedade má, muito mal regulada. Ah! Agradecei a Deus por vos ter feito nascer neste belo país da França, onde a caridade vai descobrir e aliviar todas as misérias.

“Orai por mim, a fim de que possa em breve reparar a falta que cometi, não por covardia, mas por amor materno. Como os vossos Espíritos protetores são bons! Eles me consolam, me fortalecem, me encorajam dizendo que o meu sacrifício não foi desagradável ao grande Espírito que, sob os olhos e a mão de Deus, preside os destinos da Humanidade.”

(Médium: Sr. d’Ambel)



A pobre Mary

Em seguida a essa comunicação, o Espírito de Lamennais fez a seguinte apreciação sobre o fato:

“Essa infeliz mulher é uma das vítimas do vosso mundo, de vossas leis, de vossa sociedade. Deus julga as almas, mas também julga os tempos e as circunstâncias; julga as coisas forçadas e o desespero; julga o fundo e não a forma.

“Ouso afirmar que essa infeliz não morreu por crime, mas por pudor e por medo da vergonha. É que onde a justiça humana é inexorável, julga e condena os fatos materiais, a justiça divina constata o fundo do coração e o estado de consciência.

“Seria desejável que em certas naturezas privilegiadas fosse desenvolvido um dom que seria muito útil, não para os tribunais, mas para o adiantamento de algumas pessoas. Esse dom é uma espécie de sonambulismo do pensamento que descobre muitas vezes as coisas ocultas, mas que o homem habituado à rotina negligencia e atenua por sua falta de fé.

“É certo que um médium desse gênero, examinando essa pobre mulher, teria dito: ‘Essa mulher é abençoada por Deus porque é infeliz e esse homem é amaldiçoado porque recusou o pão’. Ó Deus! Quando, pois, todos os teus dons serão reconhecidos e postos em prática? Aos olhos de tua justiça, o que recusou o pão será punido porque o Cristo disse: ‘Aquele que dá pão a seu próximo, a mim o dá’.”


Lamennais

(Médium: Sr. A. Didier)













quinta-feira, 8 de abril de 2021

Pascal - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VIII, Maio de 1865 - Dissertações espíritas - As idéias preconcebidas




Pascal - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VIII, Maio de 1865 - Dissertações espíritas


As idéias preconcebidas


Nós vos temos dito muitas vezes que examineis as comunicações que vos são dadas, submetendo-as à análise da razão, e que não tomeis sem exame as inspirações que vêm agitar o vosso espírito, sob a influência de causas por vezes muito difíceis de constatar pelos encarnados, submetidos a diversões sem número.

As ideias puras que, por assim dizer, flutuam no espaço (segundo a ideia platônica), levadas pelos Espíritos, nem sempre podem alojar-se sós e isoladas no cérebro dos vossos médiuns. Muitas vezes elas encontram o lugar ocupado por ideias preconcebidas que se escoam com o jacto de inspiração, que o perturbam e o transformam de maneira inconsciente, é certo, mas algumas vezes de maneira bastante profunda para que a ideia espiritual seja, assim, inteiramente desnaturada.

A inspiração encerra dois elementos: o pensamento e o calor fluídico destinado a aquecer o espírito do médium, dando-lhe o que chamais a verve da composição. Se a inspiração encontrar o lugar ocupado por uma ideia preconcebida, da qual o médium não pode ou não quer desligar-se, nosso pensamento fica sem intérprete, e o calor fluídico se gasta em aquecer um pensamento que não é o nosso. Quantas vezes, em vosso mundo egoísta e apaixonado, vimos trazer o calor e a ideia! Desdenhais a ideia, que vossa consciência deveria fazer-vos reconhecer, e vos apoderais do calor em proveito de vossas paixões terrestres, assim por vezes dilapidando o bem de Deus em proveito do mal. Assim, quantas contas terão que prestar um dia todos os advogados das causas perdidas!

Sem dúvida seria desejável que as boas inspirações pudessem dominar sempre as ideias preconcebidas, mas, então, nós entravaríamos o livre-arbítrio da vontade do homem, e este último escaparia, assim, à responsabilidade que lhe pertence. Mas se somos apenas os conselheiros auxiliares da Humanidade, quantas vezes nos temos que felicitar, quando nossa ideia, batendo à porta de uma consciência reta, triunfa da ideia preconcebida e modifica a convicção do inspirado! Contudo, não se deveria crer que nosso auxílio mal-empregado não traia um pouco o mau uso que dele podem fazer. A convicção sincera encontra acentos que, partidos do coração, chegam ao coração; a convicção simulada pode satisfazer a convicções apaixonadas, vibrando em uníssono com a primeira, mas carrega um frio particular, que deixa a consciência insatisfeita e denota uma origem duvidosa.

Quereis saber de onde vêm os dois elementos da inspiração medianímica? A resposta é fácil: a ideia vem do mundo extraterreno, é a inspiração própria do Espírito. Quanto ao calor fluídico da inspiração, nós o encontramos e o tomamos de vós mesmos; é a parte quintessenciada do fluido vital em emanação. Algumas vezes tomamo-la do próprio inspirado, quando este é dotado de um certo poder fluídico (ou medianímico, como dizeis); o mais das vezes nós o tomamos em seu ambiente, na emanação de benevolência de que ele está mais ou menos rodeado. É por isto que se pode dizer com razão que a simpatia torna eloquente.

Se refletirdes atentamente nestas causas, encontrareis a explicação de muitos fatos que a princípio causam admiração, mas dos quais cada um possui uma certa intuição. Só a ideia não bastaria ao homem, se não lhe dessem a força para exprimi-la. O calor é para a ideia o que o perispírito é para o Espírito, o que o vosso corpo é para a alma. Sem o corpo a alma seria impotente para agitar a matéria; sem o calor, a ideia seria impotente para comover os corações.

A conclusão desta comunicação é que jamais deveis abdicar de vossa razão, no exame das inspirações que vos são submetidas. Quanto mais ideias adquiridas tem o médium, mais é ele susceptível de ideias preconcebidas; também mais deve fazer tábula rasa de seus próprios pensamentos, depositar as influências que o agitam e dar à sua consciência a abnegação necessária a uma boa comunicação. 


Pascal
Lyon, novembro de 1863 




(Médium Sr. X...)

sexta-feira, 19 de março de 2021

Vosso Espírito protetor - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas - Diferentes maneiras de fazer a caridade




Vosso Espírito protetor - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas


Diferentes maneiras de fazer a caridade


NOTA: A comunicação seguinte foi recebida em nossa presença, no grupo de Perrache:

“Sim, meu amigos, virei sempre ao vosso meio, sempre que for chamado. Ontem senti-me muito feliz entre vós, quando ouvi o autor dos livros que vos abriram os olhos testemunhar o desejo de vos ver reunidos, para vos dirigir palavras benevolentes. Para vós todos é ao mesmo tempo um grande ensinamento e poderosa lembrança. Apenas, quando vos falou do amor e da caridade, senti que diversos entre vós se perguntavam: “Como fazer a caridade? Às vezes não tenho nem o necessário”.

“A caridade, meus amigos, se faz de muitas maneiras. Podeis fazê-la por pensamento, palavras e obras. Em pensamento, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem ao menos ter visto a luz. Uma prece de coração os alivia. Por palavras, dirigindo aos vossos companheiros de todos os dias alguns conselhos bons. Dizei aos homens amargurados pelo desespero e pelas privações, e que blasfemam o nome do Todo-Poderoso: “Eu era como vós. Eu sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e, vede, estou agora radiante”. Aos velhos que vos disserem: “É inútil; estou no fim da carreira; morrerei como vivi”. Respondei-lhes: “Deus tem para vós todos uma justiça igual. Lembrai-vos dos trabalhadores da última hora”. Às crianças já viciadas por seu ambiente, que vão vagar pelas estradas, prontas a sucumbir a todas as más tentações, dizei: “Deus vos vê, caros meninos”, e não temais repetirlhes muitas vezes estas suaves palavras. Elas acabarão germinando em suas jovens inteligências e, em vez de pequenos vagabundos, tereis feito homens. Também isto é caridade.

Vários dentre vós também dizem: “Ora essa! Somos tão numerosos na Terra que Deus não pode ver-nos todos”. Escutai bem isto, meus amigos. Quando estais no pico de uma montanha, vosso olhar não abarca os milhares de grãos de areia que formam essa montanha? Então! É assim que Deus vos vê. Ele vos dá o livre-arbítrio, da mesma forma que dais a esses grãos de areia a liberdade de ir e vir, ao sabor do vento que os dispersa. Apenas Deus, em sua infinita misericórdia, pôs no fundo de vosso coração uma sentinela vigilante, chamada consciência. Escutai-a. Ela só vos dará bons conselhos. Por vezes vós a entorpeceis, opondo-lhe o Espírito do mal, e então ela se cala. Tende certeza, porém, que a pobre abandonada se fará ouvir, tão logo lhe tenhais deixado perceber a sombra do remorso. Escutai-a; interrogai-a, e muitas vezes vos achareis consolados pelo conselho que tiverdes recebido.

Meus amigos, a cada regimento novo o general entrega uma bandeira. Eu vos dou esta máxima do Cristo: “Amai-vos uns aos outros”. Praticai esta máxima. Univos em torno desta bandeira e dela recebereis a felicidade e a consolação”.


Vosso Espírito protetor



Sociedade Espírita de Lyon


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Georges - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas - Progresso intelectual e moral




Georges - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano IV, Maio de 1861 - Ensinamentos e dissertações espiritas


Progresso intelectual e moral
(Enviada pelo Sr. Sabô, de Bordéus)


Venho dizer-vos que o progresso moral é o de mais útil aquisição, porque nos corrige as más inclinações e nos torna bons, caridosos e devotados aos nossos irmãos. Contudo, o progresso intelectual é também útil ao nosso adiantamento, porque eleva a alma e faz-nos julgar mais corretamente as nossas ações, assim facilitando o progresso moral. Inicia-nos aos ensinos que Deus nos proporciona há séculos por intermédio de tantos homens de méritos diversos, que vieram sob todas as formas e em todas as línguas para nos dar a conhecer a verdade, e que não eram senão Espíritos já adiantados, enviados por Deus para o desenvolvimento do entendimento humano. Mas, na época em que viveis, a luz que iluminava apenas um pequeno número vai brilhar para todos. Trabalhai, pois, para compreenderdes a grandeza, o poder, a majestade, a justiça de Deus; para compreenderdes a sublime beleza de suas obras; para compreenderdes as magníficas recompensas concedidas aos bons e os castigos infligidos aos maus; para compreenderdes, enfim, que o único objetivo que deveis aspirar é o de vos aproximardes dele.


Georges

(Bispo de Périgueux e de Sarlat, feliz por ser um dos guias do médium)
 





sábado, 23 de janeiro de 2021

Um Anjo da Guarda - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano III, Maio de 1860 - Ditados Espontâneos - I - Remorso e arrependimento




Um Anjo da Guarda - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano III, Maio de 1860 - Ditados Espontâneos - I


Remorso e arrependimento 


Estou contente por ver que vos reunis pela mesma fé e pelo amor de Deus Todo-Poderoso, nosso divino Senhor. Possa ele guiar-vos sempre no bom caminho e cumular-vos com seus benefícios, o que fará se vos tornardes dignos.

Amai-vos sempre uns aos outros, como irmãos; prestai-vos mútuo auxílio, e que o amor do próximo não vos seja uma palavra vazia de sentido.

Lembrai-vos de que a caridade é a mais bela das virtudes, e que, de todas, é a mais agradável a Deus; não só dessa caridade que dá um óbolo aos infelizes, mas a que vos leva a ter compaixão das misérias de nossos irmãos; que vos faz partilhar suas dores morais, aliviar o fardo que os oprime, a fim de lhes tornar a dor menos viva e a vida mais fácil.

Recordai-vos de que o arrependimento sincero obtém o perdão de todas as faltas, tamanha é a bondade de Deus. O remorso nada tem em comum com o arrependimento; o remorso, meus irmãos, já é o prelúdio do castigo. O arrependimento, a caridade, a fé, vos conduzirão às felicidades reservadas aos bons Espíritos.

Ides ouvir a palavra de um Espírito superior, bem-amado de Deus. Recolhei-vos e abri o coração às lições que ele vos dará.


Um Anjo-da-Guarda







quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Espírito Familiar - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VI, Maio de 1863 - Dissertações espíritas - O livre-arbítrio e a presciência divina




Espírito Familiar - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano VI, Maio de 1863 - Dissertações espíritas


O livre-arbítrio e a presciência divina


(Thionville, 5 de janeiro de 1863. – Médium: Dr. R….)

Há uma grande lei que domina todo o Universo: a lei do Progresso. É em virtude dessa lei que o homem, criatura essencialmente imperfeita, deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição. Sem dúvida Deus sabe quanto tempo cada um levará para chegar ao fim; mas como todo progresso deve resultar de esforço tentado para o realizar, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar este ou aquele caminho. Com efeito, o verdadeiro mérito não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável.

Como cada um ignora o número de existências consagradas ao seu adiantamento moral, ninguém pode prejulgar nesta grande questão, e é aí, sobretudo, que brilha de maneira admirável a infinita bondade de nosso Pai celeste que, nada obstante o livre-arbítrio que nos conferiu, semeou em nosso caminho postes indicadores que iluminam os desvios. É, pois, por um resquício de predominância de matéria que muitos homens se obstinam em ficar surdos às advertências que lhes chegam de todos os lados, preferindo gastar em prazeres enganadores e efêmeros uma vida que lhes fora concedida para o progresso de seu Espírito.

Não se poderia afirmar, sem blasfêmia, que Deus tenha querido a infelicidade de suas criaturas, já que os infelizes expiam sempre, tanto numa vida anterior mal empregada, quanto por sua recusa em seguir o bom caminho, quando este lhe era claramente indicado.

Assim, depende de cada um abreviar a prova que deve sofrer. Para isto, guias seguros, bastante numerosos, lhe são concedidos, para que seja inteiramente responsável por sua recusa de seguir seus conselhos; e ainda neste caso, existe um meio certo de abrandar uma punição merecida, dando sinais de sincero arrependimento e recorrendo à prece, que jamais deixa de ser atendida, quando feita com fervor. O livre-arbítrio, pois, existe realmente no homem, mas com um guia: a consciência.

Vós todos que tendes acesso ao grande foco da nova ciência, não negligencieis de vos penetrar das eloquentes verdades que ela vos revela, e dos admiráveis princípios que são a sua consequência; segui-os fielmente: é aí, sobretudo, que refulge o vosso livre-arbítrio.

Pensai, por um lado, nas consequências fatais que arrastareis para vós ao vos recusardes a seguir o bom caminho, bem como nas magníficas recompensas que vos aguardam, caso obedeçais às instruções dos bons Espíritos; é aí que luzirá, por sua vez, a presciência divina.

Os homens se esforçam inutilmente em buscar a verdade por todos os meios que julgam ter na Ciência; esta verdade que lhes parece escapar caminha sempre ao seu lado e os cegos não a percebem!

Espíritos sábios de todos os países, aos quais é dado levantar a ponta do véu, não negligencieis os meios que vos são oferecidos pela Providência! Provocai nossas manifestações; fazei que delas se aproveitem sobretudo vossos irmãos menos favorecidos que vós; inculcai em todos os preceitos que vos chegam do mundo espiritual, e tereis bem merecido, porque havereis contribuído em larga escala para a realização dos desígnios da Providência.


Espírito Familiar 






domingo, 27 de setembro de 2020

Lamennais - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861 - Allan Kardec - Maio - Ensinamentos e dissertações espiritas - A pintura e a música




Lamennais - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861 - Allan Kardec - Maio - Ensinamentos e dissertações espiritas


A pintura e a música


A Arte foi definida cem mil vezes: é o belo, o verdadeiro, o bem. A música, que é um dos ramos da Arte, está inteiramente no domínio da sensação. Entendamo-nos e procuremos não ser obscuro. A sensação se produz no homem quando este compreende a Arte de duas maneiras distintas, mas estreitamente ligadas: A sensação do pensamento, que tem por conclusão a melancolia ou a filosofia, e depois a sensação que pertence toda ao coração. A música, a meu ver, é a arte que vai mais diretamente ao coração. A sensação ─ compreendei-me ─ está toda no coração. A pintura, a arquitetura, a escultura, a pintura antes de tudo, atingem muito mais a sensação cerebral. Numa palavra, a música vai do coração ao espírito, a pintura do pensamento ao coração. A exaltação religiosa criou o órgão. Na Terra, quando a poesia toca o órgão, os anjos do Céu lhe respondem. Assim, a música séria, religiosa, eleva a alma e os pensamentos. A música leve faz vibrar os nervos, nada mais. Eu bem que gostaria de citar algumas personalidades, mas não tenho o direito: não estou mais na Terra. Amai o Réquiem de Mozart, que o matou. Não desejo, mais do que os Espíritos, a vossa morte pela música, mas a morte viva; aí está o esquecimento de tudo quanto é terreno, pela elevação moral.


Lamennais


(Sociedade espírita de Paris - Médium: Sr. Alfred Didier)