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terça-feira, 12 de julho de 2022

Hammed - Livro La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto - Cap. 14 - O Moleiro, O Menino e o Burro - Agradar a Gregos e Troianos



Hammed - Livro La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto - Cap. 14


O Moleiro, O Menino e o Burro - Agradar a Gregos e Troianos


A gênese do insucesso é a "atitude de querer agradar a todos". Essa postura mental resulta da crença fundamentada na perfeição e pode nos levar diretamente à decepção, à adversidade e ao revés." - Hammed

"O MOLEIRO, O MENINO E O BURRO"

Na Grécia antiga, originou-se este apólogo contado por Malherbe, poeta invulgar, a Racan, também poeta, quando este lhe pediu sugestão sobre uma decisão a respeito da vida.

Perguntou Racan a quem deveria ele satisfazer: deveria ele satisfazer às suas vontades, satisfazer às vontades da corte ou às do povo?

Malherbe pensou um pouco e disse:

- Não sei se é prudente contentar toda a gente. Eis um conto que poderá ajudá-la a encontrar a resposta:

Um velho moleiro e seu filho, que já tinha os seus quinze anos, foram vender seu burro, um dia, no mercado.

O moleiro e seu filho levavam o animal e, a fim de não cansá-la e alcançarem bom preço, resolveram conduzi-lo, desde o começo, com as patas amarradas e presas num varal carregado pelos dois.

O primeiro que os viu quase morreu de rir.

O moleiro, então, colocou o animal no chão, mandou seu filho montar e continuou andando. Nisso, passaram três comerciantes e, horrorizados com a cena, comentaram:

- Onde já se viu? O rapaz, robusto, montado no burro, e o velho, a pé.

O moleiro, então, pediu que o filho descesse e cedesse o lugar para ele. Passaram três moças e uma delas disse:

- Que falta de vergonha! O marmanjo vai sentado como um rei e o pobre menino a pé.

O moleiro, embora soubesse que sua idade permitia que ele seguisse montado, colocou o filho na garupa e continuou o seu caminho.

Nem bem o burro deu trinta passos, passou um outro grupo e um deles comentou:
- Vocês não têm dó do seu animal doméstico? Como podem sobrecarregar assim o pobre burrico? Se vão vendê-lo na feira, ele vai chegar lá no puro osso!

- Por Deus - diz o moleiro -, sofre da moleira quem quer agradar a gregos e troianos!

E mais uma vez o moleiro procurou agradar ao caminhante. Os dois desceram do burro e seguiram pela estrada: o burro na frente e eles atrás. Alguém os viu e fez chacota:

- Dois burros andando, enquanto o outro trota!

Quem tem cão não precisa ir à caça com gato; quem tem burro não gasta a sola do sapato. Que queiram ir a pé é natural. Então, para que trazer o animal? Belo trio de burros!

Pensou o moleiro:

- Certamente, como um burro eu agi, mas daqui para frente farei como achar bom, sem escutar ninguém.

E assim ele fez. Quanto a vós, quer sigais Marte, o amor ou o rei.

Quer fiqueis na província ou sejais viajante,

Quer prefirais casar ou vos tornar abade;

Todos hão de falar, falar, falar...

"AGRADAR A GREGOS E TROIANOS"

O extraordinário filósofo e psicólogo William James escreveu: "Quando você precisa tomar uma decisão e não a toma, está tomando a decisão de nada fazer" .

Ele se fascinava mais com a atenção em si mesma do que com os objetos aos quais se presta atenção. Por isso, acreditamos que a forma mais apropriada de nos levar ao êxito é possuirmos uma predisposição interna firmada na frase: "Devo parar de escutar simplesmente o que as pessoas dizem; só presto atenção no porquê elas dizem".

As decisões bem-sucedidas têm como procedência as experiências adquiridas. E estas têm como raiz as decisões malsucedidas.

A gênese do insucesso é a "atitude de querer agradar a todos". Essa postura mental resulta da crença fundamentada na perfeição e pode nos levar diretamente à decepção, à adversidade e ao revés.

Os esquemas mentais dos que "querem agradar a todos" são "paradigmatizados", isto é, foram edificados em exemplos supostamente perfeitos, que devem moldar condutas e padrões impecáveis. Entretanto, são esses mesmos paradigmas que devem ser contestados, pois eles são suscetíveis a pontos de vista diferentes, juízos relativos e às mais diversas controvérsias.

Muitas pessoas passam várias horas do dia preocupadas em manter condutas uniformizadas, temerosas da reprovação ou pouco-caso dos outros. Improvisam situações e diálogos para atrair a aprovação alheia, e muitas, apesar de todo o desempenho e desgaste energético, nunca conseguem satisfazer a nada nem a ninguém.

É bem verdade que precisamos ser acolhidos pelo calor humano, pela estima das pessoas que respeitamos e pelo apreço dos que nos são importantes; caso contrário, nossa auto-estima corre sério perigo de desmoronar. Entretanto, precisamos lembrar que somos nós mesmos que criamos a "cor e o grau" de nossas lentes e, a partir daí, passamos a enxergar a realidade com a "tonalidade" ou com a "vista curta", ou melhor, com pouca ou nenhuma lucidez para perceber e entender os fatos e acontecimentos que nos rodeiam .

A estrutura mental das criaturas obstinadas em "fazer as coisas para agradar a tudo e a todos" caracteriza-se pelo dualismo e pelo culto à linearidade. Não percebem que ordem e desordem, construção e destruição, harmonia e desarmonia, convivem juntas e que a mesma criatura é amada e odiada. As cores escuras dão às claras um valor cromático, e assim sucessivamente.

Esses indivíduos buscam compreender a condição humana dividindo-a em dois princípios antagônicos, dessemelhantes e hierárquicos. Desejam racionalizar sentimentos e emoções, "eclesiastizar" a vida como se pudessem separá-la de tudo, codificando-a como se fosse uma instituição ou sistema, segundo a visão deles.

Viver de forma hierárquica é se conduzir acreditando que a existência humana funciona à base de uma escala de valores, de grandeza ou de importância, onde criações e criaturas devem se sujeitar uns aos outros.

O conservadorismo hierarquista (culto à hierarquia) mantém certas doutrinas elitistas que conceberam a existência de seres superiores e seres inferiores, e que os primeiros estão naturalmente destinados a mandar e os segundos, a obedecer. Pode significar mais especificamente graduação das diferentes categorias de membros de uma organização, instituição ou religião.

Quantas vezes os homens agem de modo semelhante ao do moleiro, imaginando que poderão satisfazer a todos e não se dando conta da impossibilidade de concretizarem tal façanha! A fábula ilustra um preceito que demonstra a necessidade de acreditarmos em nosso julgamento interno e que, independentemente do que façamos, sempre haverá alguém que discordará de nossa ação ou conduta.

Concluímos que cabe só a nós desenvolver a própria existência, vivenciando os acertos e desacertos que as experiências da vida nos oferecem como aprendizado, e determinar o que é melhor e correto para nossa vida.

CONCEITOS-CHAVE

A - HIERARQUIA

Do grego hieros (sagrado) + arquia (comando, autoridade). O mesmo que governo sagrado. O termo hierarquia eclesiástica designa, na religião católica, o suposto poder dado por Cristo aos apóstolos para formarem e governarem a Igreja. Atualmente, entende-se por hierarquia qualquer sistema onde a distribuição do poder é desigual, através de um sistema de graus ou linhas de comando em ordem de valores e importância (as pessoas não usufruem as mesmas vantagens, benefícios e direitos).

B - APROVAÇÃO

O ato de aprovar não significa simplesmente o de aplaudir as atitudes inadequadas ou condutas infelizes das pessoas; significa unicamente respeitá-las, aceitar a alteridade, a distinção, a natureza ou a condição do que elas são, sem viver desesperadamente uma existência inteira tentando modificá-las, custe o que custar. Ao aceitarmos as pessoas como são, e não como gostaríamos que fossem, deixamos de despender uma energia imensa para moldá-las ao nosso bel-prazer e, então, poderemos redirecionar essa mesma energia para discernirmos e compreendermos a alteridade que há em tudo. Agindo assim, vamos construir relacionamentos mais saudáveis e felizes.

C - COERÊNCIA EXISTENCIAL

É a habilidade de distinguir os valores éticos e estéticos para formar uma opinião pessoal não influenciada pela razão comum, preconceitos, egocentrismo e influências sociais. É a capacidade de não adotar como verdade absoluta o ponto de vista da maioria, e sim, construir o próprio julgamento sobre as coisas através da reflexão e avaliação de evidências. O pensador crítico levanta dúvidas sobre aquilo em que habitualmente se acredita e não aceita passivamente as idéias dos outros. Está habituado a fazer reflexões, por isso sabe que suas idéias não são fatos e que podem ser questionadas. Ele valoriza a lógica e a observação cuidadosa porque deseja compreender melhor a realidade.

MORAL DA HISTÓRIA:

Enfim, não se pode agradar a todos, mas uma coisa é certa: ao tomarmos decisões, ou recuamos diante da crítica e começamos tudo de novo, ou desobrigamo-nos abertamente da aprovação alheia e seguimos em frente, compreenda quem quiser compreender, doa a quem doer. É impossível contentar a todos. Se fizermos ou deixarmos de fazer, sempre existirá alguém que fará uso de ironia e de expressões de duplo sentido, ou seja, utilizará as "cantigas de escárnio e maldizer"! (As cantigas de escárnio e maldizer são um gênero de poesia da Idade Média. Fazem parte do período literário chamado Trovadorismo. A principal característica dessas cantigas é a crítica ou sátira dirigida a uma pessoa real que era alguém próximo ou do mesmo círculo social do trovador. Apresentam grande interesse histórico, pois são verdadeiros relatos dos costumes e vícios, principalmente da corte, mas também dos próprios jograis e menestréis), cujo objeto da sátira será sempre a pessoa que se queira difamar.

REFLEXÕES SOBRE ESTA FÁBULA E O EVANGELHO:

"( ... ) é preciso, numa palavra, colocar-se acima da Humanidade, para renunciar à satisfação que proporciona o testemunho dos homens e esperar a aprovação de Deus. Aquele que estima a aprovação dos homens mais do que a de Deus prova que tem mais fé nos homens do que em Deus ( .. .)" (ESE, cap. 13, Item 3, Boa Nova Editora)

"É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo." (Gálatas, 1: 1O.)

"Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos bem instalados". La Rochefoucauld


Hammed





VÍDEO:

Fábulas de La Fontaine - Ep. 9 - Agradar a Gregos e Troianos

Apresentação: Larissa Chaves.
Com base na fábula "O moleiro, o menino e o burro". Narração: Júlia Mattos.




Estudo sob a ótica espírita com base na obra "La Fontaine um estudo do comportamento humano", de Hammed e psicografada por Francisco do Espírito Santo Neto. 

Edição: Ricardo Valois 
Apoio: Marina Valois 
Música: Título: Rosalie's Waltz 
Compositor: José da Vēde 

Imagens: 



sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Hammed - Livro La Fontaine - um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto - O Lobo e o Cachorro - Ajustar as velas do barco




Hammed - Livro La Fontaine - um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto


O Lobo e o Cachorro - Ajustar as velas do barco 


"Muitos de nós desconhecemos o verdadeiro significado da liberdade, dádiva concedida ao indivíduo de poder exprimir-se, responsavelmente, consciência e natureza (...) A propósito, é bom lembrar que 'viver solto' é completamente diferente de 'viver livre'. - Hammed


O LOBO E O CACHORRO


Um lobo, que era magro de dar dó, pois boa vida não lhe davam os cães de guarda, certo dia encontra um desses animais, tão gordo e tão forte que era de fazer inveja.

O cão, que estava perdido, pois se distanciou dos donos enquanto eles passeavam, em vez de atacar o lobo, deu-lhe um pedaço da carne que trazia.

O lobo come com prazer, mas, temendo que o cão o atacasse, como os outros cachorros que tentavam se aproveitar de sua fraqueza, dirigiu-lhe a palavra humildemente e fez um elogio, dizendo-lhe que admirava sua robustez e que gostaria de ficar como ele.

O cão explicou-lhe: - Se quer ser bonito e gordo como eu, deixe o bosque e me acompanhe. Seus semelhantes são miseráveis, pobres diabos sem opção, cuja única condição é morrer de fome. Venha comigo e você terá um destino melhor.

O lobo perguntou: - O que será necessário fazer?

E o cachorro respondeu: - Quase nada. É mesmo pouca coisa: basta afugentar os que portam cacetes, ou vêm mendigar; defender a todos os da casa, e ao dono com agrados receber. Em troca da caça que você conseguir, as pessoas lhe darão moradia, carnes - quem sabe, até lombo, restos de ossos de peru, perdiz, frango e pombos ... Isso sem falar de muitas carícias. Venha comigo. Você irá sentir prazer em ter um senhor.

O lobo, já antevendo tamanha felicidade, chora de emoção e decide acompanhar o cão de guarda. Percorrendo o caminho que o levaria à fartura e aos bons tratos, ele vê algo que lhe pareceu suspeito no pescoço do cachorro e pergunta:

- Que é isso em seu pescoço, amigo?

- Nada ...

- Mas como nada? E essa pelada?

- Essa é a marca da coleira que põem em meu pescoço quando fico preso.

- Coleira? Preso? - indaga o lobo algo surpreso. - Não se pode sair quando se queira?

- Nem sempre, e importa?

- Claro! Isso tem muita importância. Eu nunca trocaria por qualquer iguaria a liberdade. De todas as suas refeições eu não quero nenhuma. O preço que eu teria que pagar por elas é muito alto.

Dizendo isso, o senhor lobo desaparece por entre o verde do bosque e vai caçar.


AJUSTAR AS VELAS DO BARCO...


A criatura independente e que goza de certa autonomia está apta à autorrealização, porque age, pensa, vê e sente por si mesma. Por sinal, quase sempre hostilizamos aqueles que são realmente livres, porque eles abalam nossos conceitos de vida alienada e enfadonha.

O ser liberto se autorrealiza, porque cria e produz a partir do seu plano ou projeto íntimo; conhece e vivencia a atualidade, no próprio tempo e/ou espaço, de tal modo que o âmago é quem sempre guia e orienta, conduz e ilumina a todo momento.

A pessoa livre é segura, por isso não necessita de inúmeros conselheiros, das crenças impostas, das idéias e ideais dos que se autodenominam porta-vozes do povo. Quando nos deixamos levar pelo "canto da sereia", perdemos o contato com Deus em nós.

Eis aqui uma maneira de ser livre: não ser escravo da opinião ou julgamento da massa comum, não se iludir com as aparências exteriores ou promessas espetaculares e viver o máximo possível os fatos reais, respeitando o tempo de cada conquista e reconhecendo em cada pessoa o grau evolutivo que lhe é devido.

Todos nós queremos a liberdade. Não obstante, vivemos amarrados e totalmente encarcerados por uma infinidade de ditadores externos e internos.

A liberdade não é alguma coisa que se adquire e que se dê por encerrada. Não é algo que se conquista de uma só vez, e sim uma tarefa permanente, algo que se constrói e que se deve elaborar dia após dia.

Só a possuem pessoas corajosas, as que conseguiram romper os grilhões que, diariamente, a vida em sociedade lança sobre nossas mentes.

Apenas é livre a criatura que não dá ouvidos às vozes da esclerosada opinião social. Precisamos, sim, avaliar, ponderar e julgar o que devemos ou não fazer, de acordo com nossas metas e possibilidades, e não com os pareceres alheios.

Muitos de nós desconhecemos o verdadeiro significado da liberdade, dádiva concedida ao indivíduo de poder exprimir-se, responsavelmente, de acordo com a sua vontade, consciência e natureza.

Não raro os homens trazem a "marca da coleira", como o "cão" desta fábula. Vivem alienados, distanciados das realidades que os cercam, ou melhor, sem conhecer ou compreender os impulsos íntimos (fatores sociais, emocionais e culturais), que os levam a agir e viver de forma prescritiva. A propósito, é bom lembrar que "viver solto" é completamente diferente de "viver livre".

Diante dos poucos que auxiliam libertar, há uma multidão dos que tendem aprisionar.

Se nós verdadeiramente queremos auxiliar os que amamos a serem livres, concedemos-lhes autonomia e independência tal como preservamos para nós a capacidade de nos auto governar. No entanto é bom lembrarmos de que somente Deus faz tudo para todos.

Jamais devemos ser conduzidos por padrões estereotipados. É fato alienante estar com a mente cheia de conhecimentos dos outros e não adquiridos por nós. Aprendendo a pensar por nós mesmos, experimentamos a liberdade.

CONCEITOS-CHAVE

A - ALIENAÇÃO:

É o estado doentio de um indivíduo que perdeu o contato consigo mesmo e com o que acontece em seu derredor. As pessoas alienadas carecem de si mesmas e se tornam sua própria negação. Existem coisas que não basta tê-las aprendido só pelas vias do intelecto; para assimilá-las realmente, é necessário utilizar as vias intuitivas da própria alma.

B - PROJETO ÍNTIMO:

Desejo vocacional nada tem a ver com a ansiedade de ter uma profissão que garanta bens sociais, monetários e muito prestígio. Na realidade, desejo vocacional ou projeto íntimo são a mesma coisa. O termo vocação tem abrangência bem maior do que se pensa e alcance metafísico que abarca o acúmulo de conhecimentos que o espírito armazenou ao longo das diversas encarnações. Quem persiste em seu projeto íntimo não se queixa da ventania, nem espera que ela passe; simplesmente ajusta as velas do barco da própria existência.

C - NORMATIVO:

Aquilo que não permite contestação ou contradição; que serve de norma absoluta; que estabelece padrões de comportamento perfeito.

MORAL DA HISTÓRIA

Quem age segundo o ponto de vista dos outros está muito longe de ser um homem livre. De todos os bens que o homem possa ter, o mais valioso é a liberdade. Não há utilidade, conveniência nem prazeres que compensem o seu sacrifício. A liberdade é tão-somente a capacidade de viver com as conseqüências dos próprios atos e atitudes. Não podemos mensurar a liberdade de ninguém, pois todos nós ainda não sabemos o que é ser livre de verdade. Liberdade em si não consiste em viver simplesmente livre de grilhões e sem controle, mas, sim, em ser o próprio mediador na contenção dos ímpetos, na avaliação das ações, no limite dos anseios e na moderação das emoções. Podemos ser livres sem ferir a nós e aos outros. Na realidade, ao descartarmos o "livro das convenções" teremos mais alegria e dádiva sem violar os direitos naturais que regem todos os seres humanos.

REFLEXÕES SOBRE ESTA FÁBULA E O EVANGELHO:

"( ... ) A máxima: Fora da caridade não há salvação é a consagração do princípio da igualdade diante de Deus e da liberdade de consciência; com esta máxima por regra, todos os homens são irmãos, e qualquer que seja a sua maneira de adorar a Deus, eles se estendem às mãos e oram uns pelos outros. ( .. .)" ( ESE, Cap XV, item 8, Boa Nova Editora)

"Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade." (II Coríntios, 3:17.)

"Não desejaríamos as coisas com ardor se soubéssemos perfeitamente o que desejamos." - La Rochefoucauld


Hammed




VÍDEO:


Fábulas de La Fontaine - com Larissa Chaves.
Com base na fábula "O Lobo e o Cachorro". Narração: Júlia Mattos.
Inspiração Espírita


Ep. 3 - Ajustar as velas do barco




Estudo sob a ótica espírita com base na obra "La Fontaine um estudo do comportamento humano", de Hammed e psicografada por Francisco do Espírito Santo Neto.

Edição: Ricardo Valois
Apoio: Marina Valois
Música: Rosalie's Waltz
Compositor: José da Vēde



quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Hammed - Livro La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto - Cap. 14 - O Moleiro, O Menino e o Burro - Agradar a Gregos e Troianos




Hammed - Livro La Fontaine - Um Estudo do Comportamento Humano - Francisco do Espírito Santo Neto - Cap. 14


O Moleiro, O Menino e o Burro - Agradar a Gregos e Troianos


A gênese do insucesso é a "atitude de querer agradar a todos". Essa postura mental resulta da crença fundamentada na perfeição e pode nos levar diretamente à decepção, à adversidade e ao revés." - Hammed

"O MOLEIRO, O MENINO E O BURRO"

Na Grécia antiga, originou-se este apólogo contado por Malherbe, poeta invulgar, a Racan, também poeta, quando este lhe pediu sugestão sobre uma decisão a respeito da vida.

Perguntou Racan a quem deveria ele satisfazer: deveria ele satisfazer às suas vontades, satisfazer às vontades da corte ou às do povo?

Malherbe pensou um pouco e disse:

- Não sei se é prudente contentar toda a gente. Eis um conto que poderá ajudá-la a encontrar a resposta:

Um velho moleiro e seu filho, que já tinha os seus quinze anos, foram vender seu burro, um dia, no mercado.

O moleiro e seu filho levavam o animal e, a fim de não cansá-la e alcançarem bom preço, resolveram conduzi-lo, desde o começo, com as patas amarradas e presas num varal carregado pelos dois.

O primeiro que os viu quase morreu de rir.

O moleiro, então, colocou o animal no chão, mandou seu filho montar e continuou andando. Nisso, passaram três comerciantes e, horrorizados com a cena, comentaram:

- Onde já se viu? O rapaz, robusto, montado no burro, e o velho, a pé.

O moleiro, então, pediu que o filho descesse e cedesse o lugar para ele. Passaram três moças e uma delas disse:

- Que falta de vergonha! O marmanjo vai sentado como um rei e o pobre menino a pé.

O moleiro, embora soubesse que sua idade permitia que ele seguisse montado, colocou o filho na garupa e continuou o seu caminho.

Nem bem o burro deu trinta passos, passou um outro grupo e um deles comentou:
- Vocês não têm dó do seu animal doméstico? Como podem sobrecarregar assim o pobre burrico? Se vão vendê-lo na feira, ele vai chegar lá no puro osso!

- Por Deus - diz o moleiro -, sofre da moleira quem quer agradar a gregos e troianos!

E mais uma vez o moleiro procurou agradar ao caminhante. Os dois desceram do burro e seguiram pela estrada: o burro na frente e eles atrás. Alguém os viu e fez chacota:

- Dois burros andando, enquanto o outro trota!

Quem tem cão não precisa ir à caça com gato; quem tem burro não gasta a sola do sapato. Que queiram ir a pé é natural. Então, para que trazer o animal? Belo trio de burros!

Pensou o moleiro:

- Certamente, como um burro eu agi, mas daqui para frente farei como achar bom, sem escutar ninguém.

E assim ele fez. Quanto a vós, quer sigais Marte, o amor ou o rei.

Quer fiqueis na província ou sejais viajante,

Quer prefirais casar ou vos tornar abade;

Todos hão de falar, falar, falar...

"AGRADAR A GREGOS E TROIANOS"

O extraordinário filósofo e psicólogo William James escreveu: "Quando você precisa tomar uma decisão e não a toma, está tomando a decisão de nada fazer" .

Ele se fascinava mais com a atenção em si mesma do que com os objetos aos quais se presta atenção. Por isso, acreditamos que a forma mais apropriada de nos levar ao êxito é possuirmos uma predisposição interna firmada na frase: "Devo parar de escutar simplesmente o que as pessoas dizem; só presto atenção no porquê elas dizem".

As decisões bem-sucedidas têm como procedência as experiências adquiridas. E estas têm como raiz as decisões malsucedidas.

A gênese do insucesso é a "atitude de querer agradar a todos". Essa postura mental resulta da crença fundamentada na perfeição e pode nos levar diretamente à decepção, à adversidade e ao revés.

Os esquemas mentais dos que "querem agradar a todos" são "paradigmatizados", isto é, foram edificados em exemplos supostamente perfeitos, que devem moldar condutas e padrões impecáveis. Entretanto, são esses mesmos paradigmas que devem ser contestados, pois eles são suscetíveis a pontos de vista diferentes, juízos relativos e às mais diversas controvérsias.

Muitas pessoas passam várias horas do dia preocupadas em manter condutas uniformizadas, temerosas da reprovação ou pouco-caso dos outros. Improvisam situações e diálogos para atrair a aprovação alheia, e muitas, apesar de todo o desempenho e desgaste energético, nunca conseguem satisfazer a nada nem a ninguém.

É bem verdade que precisamos ser acolhidos pelo calor humano, pela estima das pessoas que respeitamos e pelo apreço dos que nos são importantes; caso contrário, nossa auto-estima corre sério perigo de desmoronar. Entretanto, precisamos lembrar que somos nós mesmos que criamos a "cor e o grau" de nossas lentes e, a partir daí, passamos a enxergar a realidade com a "tonalidade" ou com a "vista curta", ou melhor, com pouca ou nenhuma lucidez para perceber e entender os fatos e acontecimentos que nos rodeiam .

A estrutura mental das criaturas obstinadas em "fazer as coisas para agradar a tudo e a todos" caracteriza-se pelo dualismo e pelo culto à linearidade. Não percebem que ordem e desordem, construção e destruição, harmonia e desarmonia, convivem juntas e que a mesma criatura é amada e odiada. As cores escuras dão às claras um valor cromático, e assim sucessivamente.

Esses indivíduos buscam compreender a condição humana dividindo-a em dois princípios antagônicos, dessemelhantes e hierárquicos. Desejam racionalizar sentimentos e emoções, "eclesiastizar" a vida como se pudessem separá-la de tudo, codificando-a como se fosse uma instituição ou sistema, segundo a visão deles.

Viver de forma hierárquica é se conduzir acreditando que a existência humana funciona à base de uma escala de valores, de grandeza ou de importância, onde criações e criaturas devem se sujeitar uns aos outros.

O conservadorismo hierarquista (culto à hierarquia) mantém certas doutrinas elitistas que conceberam a existência de seres superiores e seres inferiores, e que os primeiros estão naturalmente destinados a mandar e os segundos, a obedecer. Pode significar mais especificamente graduação das diferentes categorias de membros de uma organização, instituição ou religião.

Quantas vezes os homens agem de modo semelhante ao do moleiro, imaginando que poderão satisfazer a todos e não se dando conta da impossibilidade de concretizarem tal façanha! A fábula ilustra um preceito que demonstra a necessidade de acreditarmos em nosso julgamento interno e que, independentemente do que façamos, sempre haverá alguém que discordará de nossa ação ou conduta.

Concluímos que cabe só a nós desenvolver a própria existência, vivenciando os acertos e desacertos que as experiências da vida nos oferecem como aprendizado, e determinar o que é melhor e correto para nossa vida.

CONCEITOS-CHAVE

A - HIERARQUIA

Do grego hieros (sagrado) + arquia (comando, autoridade). O mesmo que governo sagrado. O termo hierarquia eclesiástica designa, na religião católica, o suposto poder dado por Cristo aos apóstolos para formarem e governarem a Igreja. Atualmente, entende-se por hierarquia qualquer sistema onde a distribuição do poder é desigual, através de um sistema de graus ou linhas de comando em ordem de valores e importância (as pessoas não usufruem as mesmas vantagens, benefícios e direitos).

B - APROVAÇÃO

O ato de aprovar não significa simplesmente o de aplaudir as atitudes inadequadas ou condutas infelizes das pessoas; significa unicamente respeitá-las, aceitar a alteridade, a distinção, a natureza ou a condição do que elas são, sem viver desesperadamente uma existência inteira tentando modificá-las, custe o que custar. Ao aceitarmos as pessoas como são, e não como gostaríamos que fossem, deixamos de despender uma energia imensa para moldá-las ao nosso bel-prazer e, então, poderemos redirecionar essa mesma energia para discernirmos e compreendermos a alteridade que há em tudo. Agindo assim, vamos construir relacionamentos mais saudáveis e felizes.

C - COERÊNCIA EXISTENCIAL

É a habilidade de distinguir os valores éticos e estéticos para formar uma opinião pessoal não influenciada pela razão comum, preconceitos, egocentrismo e influências sociais. É a capacidade de não adotar como verdade absoluta o ponto de vista da maioria, e sim, construir o próprio julgamento sobre as coisas através da reflexão e avaliação de evidências. O pensador crítico levanta dúvidas sobre aquilo em que habitualmente se acredita e não aceita passivamente as idéias dos outros. Está habituado a fazer reflexões, por isso sabe que suas idéias não são fatos e que podem ser questionadas. Ele valoriza a lógica e a observação cuidadosa porque deseja compreender melhor a realidade.

MORAL DA HISTÓRIA:

Enfim, não se pode agradar a todos, mas uma coisa é certa: ao tomarmos decisões, ou recuamos diante da crítica e começamos tudo de novo, ou desobrigamo-nos abertamente da aprovação alheia e seguimos em frente, compreenda quem quiser compreender, doa a quem doer. É impossível contentar a todos. Se fizermos ou deixarmos de fazer, sempre existirá alguém que fará uso de ironia e de expressões de duplo sentido, ou seja, utilizará as "cantigas de escárnio e maldizer"! (As cantigas de escárnio e maldizer são um gênero de poesia da Idade Média. Fazem parte do período literário chamado Trovadorismo. A principal característica dessas cantigas é a crítica ou sátira dirigida a uma pessoa real que era alguém próximo ou do mesmo círculo social do trovador. Apresentam grande interesse histórico, pois são verdadeiros relatos dos costumes e vícios, principalmente da corte, mas também dos próprios jograis e menestréis), cujo objeto da sátira será sempre a pessoa que se queira difamar.

REFLEXÕES SOBRE ESTA FÁBULA E O EVANGELHO:

"( ... ) é preciso, numa palavra, colocar-se acima da Humanidade, para renunciar à satisfação que proporciona o testemunho dos homens e esperar a aprovação de Deus. Aquele que estima a aprovação dos homens mais do que a de Deus prova que tem mais fé nos homens do que em Deus ( .. .)" (ESE, cap. 13, Item 3, Boa Nova Editora)

"É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo." (Gálatas, 1: 1O.)

"Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos bem instalados". La Rochefoucauld


Hammed





VÍDEO:

Fábulas de La Fontaine - Ep. 9 - Agradar a Gregos e Troianos

Apresentação: Larissa Chaves.
Com base na fábula "O moleiro, o menino e o burro". Narração: Júlia Mattos.




Estudo sob a ótica espírita com base na obra "La Fontaine um estudo do comportamento humano", de Hammed e psicografada por Francisco do Espírito Santo Neto. 

Edição: Ricardo Valois 
Apoio: Marina Valois 
Música: Título: Rosalie's Waltz 
Compositor: José da Vēde 

Imagens: