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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Bezerra de Menezes - Livro A Coragem da Fé - Carlos A. Baccelli - Cap. 17 - Depois da morte



Bezerra de Menezes - Livro A Coragem da Fé - Carlos A. Baccelli - Cap. 17


Depois da morte


Filhos, depois da morte é que valorizareis, com maior propriedade, cada minuto que a Divina Providência vos concedeu no corpo físico... Além das estreitas fronteiras do túmulo é que lamentareis a oportunidade de ascensão espiritual que malbaratastes, permitindo-vos envolver em questiúnculas de somenos...

Quando vos contemplardes, redivivos, na Vida que se desdobra para lá do sepulcro, é que observareis o que fizestes de vós mesmos na imagem que se vos refletirá no espelho da própria consciência...

Quando maior lucidez vos favorecer nas Dimensões do Infinito, sereis invadidos pelo inevitável remorso de quem, sobre a Terra, não se ocupou quanto deveria da Verdade que transcende os interesses imediatos dos homens...

Pranteareis, então, a inversão de valores a que consagrastes a existência, reconhecendo-vos na condição do aluno leviano que tudo daria para voltar às primeiras lições, na escola que desprezou, e recomeçar o aprendizado...

Olhareis o céu constelado na vastidão do Cosmos que não alcançais e suspirareis, de novo, pelo aconchego do ninho terrestre, robustecendo as asas frágeis nos voos em que muitos vos antecederam...

Então, porque disputastes sem medir conseqüências para a felicidade alheia, tornareis ao mundo sem que a luta vos conceda tréguas à paz...

Caminhareis entre a renúncia e o sacrifício, silenciando queixas e dores, para as quais, na maioria das vezes, os que renteiam convosco serão omissos...

Tomando nos ombros a cruz que desprezastes, seguireis com determinação em meio a injúrias e apupos, à semelhança Daquele que, um dia, nos mostrou o caminho de acesso à Grande Altura!...

Filhos, não relegueis a plano secundário o que vos seja de interesse para a vida fora das dimensões da matéria que logo chega.

Enquanto vos sorri o Dia e a Grande Noite não vem, trabalhai com afinco preparando o lugar que vos aguarda em plena imortalidade.

Ainda hoje, modificai os vossos propósitos para o bem e sejam mais nobres os vossos passos na Vida!


Bezerra de Menezes










 

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 45 - Orgulho, riqueza e pobreza



Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 45


Orgulho, riqueza e pobreza


De todos os males o orgulho é o mais temível, pois deixa em sua passagem o germe de quase todos os vícios. É uma hidra monstruosa, sempre a procriar e cuja prole é bastante numerosa. Desde que penetra as almas, como se fossem praças conquistadas, ele de tudo se assenhoreia, instala-se à vontade e fortifica-se até se tornar inexpugnável.

Ai de quem se deixou apanhar pelo orgulho! Melhor fora ter deixado arrancar do próprio peito o coração do que deixá-lo insinuar-se. Não poderá libertar-se desse tirano senão a preço de terríveis lutas, depois de dolorosas provações e de muitas existências obscuras, depois de bastantes insultos e humilhações, porque nisso somente é que está o remédio eficaz para os males que o orgulho engendra.

Este cancro é o maior flagelo da Humanidade. Dele procedem todos os transtornos da vida social, as rivalidades das classes e dos povos, as intrigas, o ódio, a guerra. Inspirador de loucas ambições, o orgulho tem coberto de sangue e ruínas este mundo, e é ainda ele que origina os nossos padecimentos de além-túmulo, pois seus efeitos ultrapassam a morte e alcançam nossos destinos longínquos. O orgulho não nos desvia somente do amor de nossos semelhantes, pois também nos estorva todo aperfeiçoamento, engodando-nos com a superestima nosso valor ou cegando-nos sobre os nossos defeitos. Só o exame rigoroso de nossos atos e pensamentos pode induzir-nos a frutuosa reforma. E como se submeterá o orgulhoso a esse exame? De todos os homens ele é quem menos se conhece. 

Enfatuado e presumido, coisa alguma pode desenganá-lo, porque evita o quanto serviria para esclarecê-lo, aborrece-o a contradição e só se compras no convívio dos aduladores.

Assim como o verme estraga um belo fruto, assim o orgulho corrompe as obras mais meritórias. Não raro as torna nocivas a quem as pratica, pois todo o bem realizado com ostentação e com secreto desejo de aplausos e lauréis depõe contra o próprio autor. Na vida espiritual, as intenções, as causas ocultas que nos inspiraram reaparecem como testemunhas; acabrunham o orgulhoso e fazem desaparecer-lhe os ilusórios méritos.

O orgulho encobre-nos toda a verdade. Para estudar frutuosamente o Universo e suas leis, é necessário, antes de tudo, a simplicidade, a sinceridade, a Inteireza do coração e do espírito, virtudes estas desconhecidas ao orgulhoso. É-lhe insuportável que tantos entes e tantas coisas o tornem subalterno. Para si, nada existe além daquilo que está ao seu alcance; tampouco admite que seu saber e sua compreensão sejam limitados.

O homem simples, humilde em sentimentos, rico em qualidades morais, embora seja inferior em faculdades, apossar-se-á mais depressa da verdade do que o soberbo ou presunçoso da ciência terrestre que se revolta contra a lei que o rebaixa e derrui o seu prestigio.

O ensino dos Espíritos patenteia-nos a triste situação dos orgulhosos na vida de além-túmulo. Os humildes e pequenos deste mundo acham-se ai exaltados; os soberbos e os vaidosos aí são apoucados e humilhados. É que uns levaram consigo o que constitui a verdadeira supremacia: as virtudes, as qualidades adquiridas pelo sofrimento; ao passo que outros tiveram de largar, no momento da morte, todos os seus títulos, todos os bens de fortuna e seu vão saber, tudo o que neste mundo lhes formava a glória; e sua felicidade esvaiu-se como fumo. Chegam ao espaço pobres, esbulhados; e este súbito desnudamento, contrastando com o passado esplendor, desconsola-os e sobremodo os mortifica. Avistam, então, na luz, esses a quem haviam desprezado e pisoteado aqui na Terra. O mesmo terá de suceder nas reencarnações futuras. O orgulho e a voraz ambição não se podem abater e suprimir senão por meio de existências atribuladas, de trabalho e de renúncia, no decorrer das quais a alma orgulhosa reflete, reconhece a sua fraqueza e, pouco a pouco, vai-se permeando a melhores sentimentos.

Com um pouco de reflexão e sensatez evitaríamos esses males. Por que consentir que o orgulho nos invada e domine, quando apenas basta refleti  sobre o pouco que somos? Será o corpo, os nossos adornos físicos que nos inspiram a vaidade? A beleza é de pouca duração; uma só enfermidade pode destruí-la. Dia por dia, o tempo tudo consome e, dentro em pouco, só ruínas restarão: o corpo tornar-se-á então algo repugnante. Será a nossa superioridade sobre a Natureza? Se o mais poderoso, o mais bem dotado de nós, for transportado pelos elementos desencadeados; se se achar insulado e exposto às cóleras do oceano; se estiver no meio dos furores do vento, das ondas ou dos fogos subterrâneos, toda a sua fraqueza então se patenteará!

Assim, todas as distinções sociais, os títulos e as vantagens da fortuna medem-se pelo seu justo valor. Todos são iguais diante do perigo, do sofrimento e da morte. Todos os homens, desde o mais altamente colocado até o mais miserável, são construídos da mesma argila. Revestidos de andrajos ou de suntuosos hábitos, os seus corpos são animados por Espíritos da mesma origem e todos reunir-se-ão na vida futura. Aí somente o valor moral é que os distingue. O que tiver sido grande na Terra pode tornar-se um dos últimos no espaço; o mendigo, talvez, aí, venha a revestir uma brilhante roupagem. Não desprezemos, pois, a ninguém. Não sejamos vaidosos com os favores e vantagens que fenecem, pois não podemos saber o que nos está. reservado para o dia seguinte.

Se Jesus prometeu aos humildes e aos pequenos a entrada nos reinos celestes, é porque a riqueza e o poder engendram, muitíssimas vezes, o orgulho; no entanto, uma vida laboriosa e obscura é o tônico mais eficaz para o progresso moral. No cumprimento dos deveres cotidianos o trabalhador é menos assediado pelas tentações, pelos desejos e ruins paixões; pode entregar-se à meditação, desvendar sua consciência; o homem mundano, ao contrário, fica absorvido pelas ocupações frívolas, pela especulação e pelo prazer.

Tantos e tão fortes são os vínculos com que a riqueza nos prende à Terra que a morte nem sempre consegue quebrá-los a fim de nos libertar. Daí as angústias que o rico sofre na vida futura. É, portanto, fácil de compreender que, efetivamente, nada nos pertence nesta Terra. Esses bens que tanto prezamos só aparentemente nos pertencem. Centenas, ou, por outra, milhares de homens antes de nós supuseram possui-los; milhares de outros depois de nós acalentar-se-ão com essas mesmas ilusões, mas todos têm de abandoná-los cedo ou tarde. O próprio corpo humano é um empréstimo da Natureza, e ela sabe perfeitamente no-lo retomar quando lhe convém. As únicas aquisições duráveis são as de ordem Intelectual e moral.

Da paixão pelos bens materiais surgem quase sempre a inveja e o ciúme.

Desde que esses males se implantem em nós, podemos considerar-nos sem repouso e sem paz. A vida torna-se um tormento perpétuo. Os felizes sucessos e a opulência alheia excitam ardentes cobiças no invejoso, inspiram-lhe a febre abrasadora da ganância. O seu alvo é suplantar os outros, é adquirir riquezas que nem mesmo sabe fruir. Haverá existência mais lastimável? Não será um suplício de todos os instantes o correr-se atrás de venturas quiméricas, o entregar-se a futilidades que geram o desespero quando se esvaem?

Entretanto, a riqueza por si só não é um grande mal; torna-se boa ou ruim, conforme a utilidade que lhe damos. O necessário é que não inspire nem orgulho nem Insensibilidade moral. É preciso que sejamos senhores da fortuna e não seus escravos, e que mostremos que lhe somos superiores, desinteressados e generosos. Em tais condições, essa provação tão arriscada torna-se fácil de suportar. Assim, ela não entibia os caracteres, não desperta essa sensualidade quase inseparável do bem-estar.

A prosperidade é perigosa por causa das tentações, da fascinação que exerce sobre os espíritos. Entretanto, pode tornar-se origem de um grande bem, quando regulada com critério e moderação.

Com a riqueza podemos contribuir para o progresso intelectual da Humanidade, para a melhoria das sociedades, criando instituições de beneficência ou escolas, fazendo que os deserdados participem das descobertas da Ciência e das revelações do belo em todas as suas formas. Mas a riqueza deve também assistir aqueles que lutam contra as necessidades, que imploram trabalho e socorro.

Consagrar esses recursos à satisfação exclusiva da vaidade e dos sentidos é perder uma existência, é criar por si mesmo penosos obstáculos.

O rico deverá prestar contas do depósito que lhe foi confiado para o bem de todos. Quando a lei Inexorável e o grito da consciência se erguerem contra ele, nesse novo mundo, onde o ouro não tem mais influência, que responderá à acusação de haver desviado, em seu único proveito, aquilo com que devia apaziguar a fome e os sofrimentos alheios? Inevitavelmente, ficará envergonhado e confuso.

Quando um Espírito não se julga suficientemente prevenido contra as seduções da riqueza, deverá afastar-se dessa prova perigosa, dar preferência a uma vida simples, que o isole das vertigens da fortuna e da grandeza. Se, apesar de tudo, a sorte do destino designá-lo a ocupar uma posição elevada neste mundo, ele não deverá regozijar-se, pois, desde então, são muito maiores as suas responsabilidades e os seus compromissos. Mas também não deve lastimar-se, no caso de ser colocado entre as classes inferiores da sociedade. A tarefa dos humildes é a mais meritória; são estes os que suportam todo o peso da civilização, é do seu trabalho que a Humanidade vive e se alimenta. O pobre deve ser sagrado para todos, porque foi nessa condição que Jesus quis nascer e morrer; da pobreza também saíram Epicteto, Francisco de Assis, Miguel Ângelo, Vicente de Paulo, e tantos outros grandes Espíritos que viveram neste mundo. Eles sabiam que o trabalho, as privações e o sofrimento desenvolvem as forças viris da alma e que a prosperidade aniquila-as. Pelo desprendimento das coisas humanas, uns acharam a santificação, outros encontraram a potência que caracteriza o Gênio.

A pobreza ensina a nos compadecermos dos males alheios e, fazendo-nos  melhor compreendê-los, une nos a todos os que sofrem; dá valor a mil coisas indiferentes aos que são felizes. Quem desconhece tais princípios, fica sempre ignorando um dos lados mais sensíveis da vida.

Não invejemos os ricos, cujo aparente esplendor oculta muitas misérias morais. Não esqueçamos de que sob o cilicio da pobreza ocultam-se as virtudes mais sublimes, a abnegação, o espírito de sacrifício. Não esqueçamos jamais que é pelo trabalho, pelo sofrimento e pela imolação contínua dos pequenos que as sociedades vivem, protegem-se e renovam-se.


Léon Denis





VÍDEO: 

Depois da Morte #59 - [Parte 5ª - Cap. 45] - Orgulho, riqueza e pobreza
NEPE Paulo de Tarso

Apresentação: Artur Valadares




Série de estudos, com Artur Valadares, da obra "Depois da Morte", de Léon Denis.


segunda-feira, 24 de julho de 2023

Léon Denis - Livro Depois da Morte - Pág. 200/201 - Conclusão



Léon Denis - Livro Depois da Morte - Pág. 200/201

Conclusão



Vinde saciar-vos nesta fonte celeste, vós todos que sofreis, vós todos que tendes sede da verdade. Ela verterá em vossa alma o frescor e a regeneração. Vivificados por ela, sustentareis mais animadamente os combates da existência; sabereis viver e morrer dignamente.

Observai com assiduidade os fenômenos sobre os quais repousam estes ensinos, mas não façais deles um divertimento. Refleti que é muito sério o fato de nos comunicarmos com os mortos, de receber deles a solução dos grandes problemas. Considerai que esses fenômenos vão suscitar maior revolução moral do que as que têm sido registradas pela História, abrindo a todos os povos a perspectiva Ignorada das vidas futuras. Aquilo que, para milhares de gerações, para a imensa maioria dos homens que nos precederam tinha sido uma hipótese, torna-se, agora, uma realidade. Tal revelação tem direito à vossa atenção e ao vosso respeito. Utilizai-a somente com critério, para vosso bem e dos vossos semelhantes.

Nessas condições, os Espíritos elevados assistir-vos-ão; mas, se vos servirdes do Espiritismo para frivolidades, sabei que vos tomareis presa inevitável dos Espíritos enganadores, vítima dos seus embustes en das suas mistificações.

E tu, meu irmão, meu amigo, que recebeste estas verdades no teu coração e que lhes conheces o valor, permita-me um derradeiro apelo, uma última exortação.

Lembra-te de que a vida é curta. Enquanto ela durar, esforça-te para adquirir o que vieste procurar neste mundo: o verdadeiro aperfeiçoamento.

Possa teu ser espiritual daqui sair melhor e mais puro do que quando entrou! Acautela-te das armadilhas da carne; reflete que a Terra é um campo de batalha onde a alma é a todo momento assaltada pela matéria e pelos sentidos.

Luta corajosamente contra as paixões vis; luta pelo espírito e pelo coração; corrige teus defeitos, adoça teu caráter, fortifica tua vontade. Eleva-te, pelo pensamento, acima das vulgaridades terrestres; dilata as tuas aspirações sobre o céu luminoso.

Lembra-te de que tudo o que for material é efêmero. As gerações passam como vagas do mar, os impérios esboroam-se, os próprios mundos perecem, os sóis extinguem-se; tudo foge, tudo se dissipa. Mas há duas coisas que vem de Deus e que são imutáveis como Ele, duas coisas que resplandecem acima da miragem das glórias mundanas: são a Sabedoria e a Virtude.

Conquista-as por teus esforços e, alcançando-as, elevar-te-ás acima do que é passageiro e transitório, para só gozares o que é eterno.


Léon Denis 










Fonte: Depois da Morte - pdf

terça-feira, 11 de julho de 2023

Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 8 - A crise moral



Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 8


A crise moral


Do exame precedente resulta que dois sistemas contraditórios e opostos partilham o mundo do pensamento. Nosso tempo é, nesse ponto de vista, um tempo de perturbação e de transição. A fé religiosa esmoreceu e as grandes linhas da filosofia do futuro só aparecem, ainda, para uma minoria de pesquisadores.

Certamente, a época em que vivemos é grande pela soma dos progressos realizados. A civilização moderna, extremamente utilitária, transformou a face da Terra; reaproximou os povos, suprimindo-lhes as distâncias. A instrução foi estendida; as instituições foram melhoradas. O direito substitui o privilégio, e a liberdade triunfa do espírito de rotina e do princípio de autoridade. Uma grande batalha se trava entre o passado, que não quer morrer, e o futuro, que se esforça para nascer para a vida. Em favor dessa luta, o mundo se agita e caminha; uma impulsão irresistível o arrasta; e o caminho percorrido, os resultados adquiridos nos fazem pressagiar conquistas ainda mais maravilhosas. 

Todavia, se os progressos de ordem material e de ordem intelectual são notáveis, por outro lado, o avanço moral é nulo. Nesse ponto, o mundo parece recuar muito mais; as sociedades humanas, febrilmente absorvidas pelas questões políticas, pelas empresas industriais e financeiras, sacrificam ao bem-estar seus interesses morais.

Se a obra da civilização nos aparece sob aspectos magníficos, ela tem também, como todas as coisas humanas, sombras escondidas. Sem dúvida, ela melhorou numa certa medida as condições da existência, mas multiplicou as necessidades de tanto satisfazê-las; aguçando os apetites, os desejos, favoreceu tanto o sensualismo que aumentou a depravação. O amor ao prazer, ao luxo, às riquezas tornou-se cada vez mais ardente. Quer-se adquirir, quer-se possuir a qualquer preço.

Daí, essas especulações desavergonhadas que se instalam em plena luz. Daí, esse abatimento dos caracteres e das consciências, esse culto fervoroso que se rende à fortuna, verdadeiro ídolo cujos altares substituíram os das divindades decaídas.

A ciência e a indústria centuplicaram as riquezas da Humanidade, mas dessas riquezas apenas uma pequena parte dos seus membros aproveitaram diretamente. A sorte dos pequenos tornou-se precária, e a fraternidade ocupou mais lugar nos discursos do que nos corações. No meio das cidades opulentas, pode-se ainda morrer de fome. As usinas, as aglomerações operárias, focos de corrupção física e moral, tornaram-se como que infernos do trabalho.

A embriaguez, a prostituição, a libertinagem, espalham-se por toda a parte seus venenos, empobrecendo as gerações e secam a vida na sua fonte, enquanto que as páginas públicas semeiam, à porfia, a injúria, a mentira, e uma literatura malsã excita os cérebros e debilita as almas.

Cada dia, a desesperança causa novamente devastações: o número de suicidas que, em 1820, era de mil e quinhentos, na França, é agora de mais de oito mil. Oito mil seres, a cada ano, desertam das lutas fecundas da vida por falta de energia e de senso moral e se refugiam no que acreditam ser o nada! O número dos crimes e delitos triplicou há cinquenta anos. Entre os condenados, a proporção dos adolescentes é considerável. É preciso ver nesse estado de coisas os efeitos do contágio do meio, dos maus exemplos recebidos desde a infância, a ausência de firmeza dos pais e  a falta de educação na família? Há tudo isso, e mais ainda.

Nossos males provêm daquilo que o homem ignora de si mesmo, apesar dos progressos da Ciência e o desenvolvimento da instrução. Ele sabe pouca coisa das leis do Universo; ele nada sabe das forças que nele estão. O “Conhece-te a ti mesmo” do filósofo grego permaneceu, para a imensa maioria dos humanos, como um apelo estéril. Não há mais que vinte séculos, menos talvez, o homem de hoje não sabe o que ele é, de onde vem, para onde vai, qual é o seu objetivo real da existência. Nenhum ensinamento veio dar-lhe a noção exata do seu papel nesse mundo nem de seus destinos.

O espírito humano flutua, indeciso, entre as solicitações de duas potências.

De um lado, as religiões com seu cortejo de erros e de superstições, seu espírito de dominação e de intolerância; mas também, com as consolações das quais são a fonte e as fracas luzes que guardaram das verdades primordiais.

Do outro, a Ciência, materialista nos seus princípios como nos seus fins, com suas frias negações e sua tendência exagerada ao individualismo; mas também, com o prestígio das suas descobertas e de seus benefícios.

E esses dois colossos, a religião sem-provas e a Ciência sem-ideal, desafiam-se, exterminam-se, combatem-se sem poder vencer-se, pois cada uma delas responde a uma necessidade imperiosa do homem, uma, falando ao seu coração, a outra, dirigindo-se ao seu espírito e à sua razão. Em torno delas acumulam-se as ruínas de numerosas esperanças e de aspirações destruídas; os sentimentos generosos enfraquecem-se, a divisão e o ódio substituem a benevolência e a concórdia.

No meio dessa confusão de ideias, a consciência perdeu o seu caminho. Ela vai, ansiosa, ao acaso e, na incerteza que pesa sobre ela, o bem e o justo curvam-se. A situação moral de todos os infelizes que se dobram sob o fardo da vida tornou-se intolerável; entre duas doutrinas que apenas oferecem como perspectivas às suas dores, como termo aos seus males, uma, o nada, a outra, um paraíso quase inacessível ou uma eternidade de suplícios.

As consequências desse conflito se fazem sentir em toda a parte, na família, no ensino e na sociedade. A educação viril desapareceu. Nem a Ciência, nem a religião sabem mais fazer as almas fortes e bem armadas para os combates da vida. A Filosofia, ela própria, dirigindo-se somente a algumas inteligências abstratas, abdica dos seus direitos sobre a vida social e perde toda a influência.

Como a Humanidade sairá desse estado de crise? Só há um meio para isso: encontrar um terreno de conciliação onde as duas forças inimigas, o sentimento e a razão, possam unir-se para o bem e a salvação de todos. Pois todo ser humano traz em si essas duas forças, sob o império das quais ele pensa e age, alternadamente. Seu acordo obtém das suas faculdades o equilíbrio e a harmonia, centuplica seus meios de ação e dá à sua vida a retidão, a unidade de tendências e de vistas, enquanto que suas contradições e suas lutas causam-lhe a desordem. E o que se produz em cada um de nós, manifesta-se na sociedade inteira e causa a perturbação moral da qual ela sofre. 

Para colocar um fim nisso, é preciso que a luz se faça aos olhos de todos, grandes e pequenos, ricos ou pobres, homens, mulheres e crianças; é preciso que um novo ensino popular venha esclarecer as almas sobre sua origem, seus deveres e seu destino.

Pois tudo está aí. Unicamente, as soluções formuladas por esse ensino podem servir de base a uma educação viril, tornar a Humanidade verdadeiramente forte e livre. Sua importância é capital, tanto para o indivíduo, que elas dirigirão na sua tarefa cotidiana, como para a sociedade, à qual regularão as instituições e as relações.

A ideia que o homem faz do Universo, de suas leis, do papel que lhe cabe nesse vasto teatro, recai sobre toda a sua vida e influi sobre suas determinações. É segundo ela que ele traça um plano de conduta, fixa para si um objetivo e caminha para ele. Procuraríamos também, em vão, evitar esses problemas. Eles se impõem ao nosso espírito; eles nos dominam, envolvem-nos nas suas profundezas; formam o eixo de qualquer civilização.

Cada vez que uma concepção nova do mundo e da vida penetra no espírito humano e infiltra-se, pouco a pouco, em todos os meios, a ordem social, as instituições e os costumes ressentem-se, imediatamente, disso.

As concepções católicas criaram a civilização da Idade Média e dividiram a sociedade feudal, monárquica, autoritária. Então, na Terra como no Céu, era o reino da graça e do bel-prazer. Essas concepções viveram; não encontram mais lugar no mundo moderno. Mas, abandonando as antigas crenças, o presente não soube substituí-las. O Positivismo materialista e ateu apenas vê na vida uma combinação passageira de matéria e de força, um mecanismo brutal nas leis do Universo. Nenhuma noção de justiça, de solidariedade, de responsabilidade. Daí, um relaxamento geral dos laços sociais, um ceticismo pessimista, um desprezo por qualquer lei e por qualquer autoridade, que poderiam nos conduzir aos abismos.

Essas doutrinas materialistas trouxeram para uns o desencorajamento, para outros, uma recrudescência da cobiça, por toda a parte elas arrastaram ao culto do ouro e da carne. Sob sua influência, uma geração educou-se, geração desprovida de ideal, sem-fé no futuro, duvidando dela mesma e de tudo.

As religiões dogmáticas nos conduziam ao arbítrio e ao despotismo; o materialismo atingiu, logicamente, inevitavelmente, à anarquia e ao niilismo. É por isso que devemos considerá-lo como um perigo, como uma causa de decadência e de rebaixamento.

Talvez considerem essas apreciações excessivas e seremos taxados de exagero. Basta-nos, nesse caso, nos reportarmos às obras dos materialistas eminentes e citarmos suas próprias conclusões.

Eis, por exemplo, o que escrevia, entre tantos outros, o Sr. Jules Soury:

“Se há alguma coisa de vão e inútil no mundo, é o nascimento, a existência e a morte dos inumeráveis parasitas, faunas e floras, que vegetam como um bolor e se agitam na superfície desse ínfimo planeta. Indiferente em si mesma, necessária, em todo caso, já que ela é, essa existência que tem como condição a luta encarniçada de todos contra todos, a violência ou a astúcia, o amor, mais amargo que a morte, parecerá, pelo menos para todos os seres verdadeiramente conscientes, um sonho sinistro, uma alucinação dolorosa, ao preço da qual o nada seria um bem”.


Léon Denis





*Jules Soury (Paris, 1842 – Paris, 1915) foi um teórico e historiador francês da neuropsicologia.


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Léon Denis - Livro Depois da Morte - 5ª Parte - O Caminho Reto - Cap. 44 - Fé, Esperança, Consolações



Léon Denis - Livro Depois da Morte - 5ª Parte - O Caminho Reto - Cap. 44


Fé, Esperança, Consolações


A fé é a confiança da criatura em seus destinos, é o sentimento que a eleva à infinita Potestade, é a certeza de estar no caminho que vai ter à verdade. A fé cega é como o farol cujo vermelho clarão não pode traspassar o nevoeiro; a fé esclarecida é foco elétrico que ilumina com brilhante luz a estrada a percorrer.

Ninguém adquire essa fé sem ter passado pelas tribulações da dúvida, sem ter padecido as angústias que embaraçam o caminho dos investigadores. Muitos param em esmorecida indecisão e flutuam longo tempo entre opostas correntezas. Feliz quem crê, sabe, vê e caminha firme. A fé então é profunda, inabalável, e o habilita a superar os maiores obstáculos. Foi neste sentido que se disse que a fé transporta montanhas, pois, como tais, podem ser consideradas as dificuldades que os inovadores encontram no seu caminho, ou sejam as paixões, a ignorância, os preconceitos e o interesse material

Geralmente, considera-se a fé somente como crença em certos dogmas religiosos, aceitos sem exame. Mas a verdadeira fé está na convicção que nos anima e nos arrebata para os ideais elevados. Há a fé em si próprio, em uma obra material qualquer, a fé política, a fé na pátria. Para o artista, para o pensador, a fé é o sentimento do ideal, é a visão do sublime fanal aceso pela mão divina, nos alcantis eternos, a fim de guiar a Humanidade ao Bem e à Verdade.

É cega a fé religiosa que anula a razão e se submete ao juízo dos outros, que aceita um corpo de doutrina verdadeiro ou falso, e a ele se cativa totalmente. Na sua impaciência e nos seus excessos, a fé cega recorre facilmente à perfídia, à subjugação, e conduz ao fanatismo.

Ainda sob este aspecto, ela é um poderoso incentivo, pois tem ensinado os homens a se humilharem e a sofrerem. Pervertida pelo espírito de domínio, ela tem sido a causa de muitos crimes ,mas , em suas conseqüências funestas , também deixa transparecer as suas grandes vantagens.

Ora, se a fé cega pôde produzir tais efeitos, o que não fará a fé esclarecida pela razão, a fé que julga, discerne e compreende? Certos teólogos nos exortam a desprezar a razão, a renegá-la, a rebatê-la.

Deveremos por isso repudiá-la, mesmo quando ela nos mostra o bem e o belo? Esses teólogos alegam os erros em que a razão caiu e parecem esquecer lastimosamente que a razão foi quem descobriu esses erros e nos ajudou a corrigi-los.

A razão é uma faculdade superior, destinada a esclarecer-nos sobre todas as coisas e que, como todas as outras faculdades, se desenvolve e se aumenta pelo exercício. A razão humana é um reflexo da Razão eterna. E, Deus em nós. disse S. Paulo. Desconhecer-lhe o valor e a utilidade é menosprezar a natureza humana, é ultrajar a própria Divindade. Querer substituir a razão pela fé é ignorar que ambas são solidárias e inseparáveis, que se consolidam e se vivificam uma à outra. A união de ambas abre ao pensamento um campo mais vasto: harmoniza as nossas faculdades e nos traz a paz interna.

A fé é mãe dos nobres sentimentos e dos grandes feitos. O homem profundamente firme e convicto é imperturbável diante do perigo, do mesmo modo que nas tribulações. Superior às lisonjas, às seduções, às ameaças, ao bramir das paixões, ele ouve uma voz ressoar nas profundezas da sua consciência, instigando-o à luta, encorajando-o nos momentos perigosos.

Para produzir tais resultados, a fé precisa repousar na base sólida que lhe oferecem o livre exame e a liberdade de pensamento. Em vez de dogmas e mistérios, cumpre que ela só reconheça princípios decorrentes da observação direta, do estudo das leis naturais. Tal é o caráter da fé espírita.

A filosofia dos Espíritos vem oferecer-nos uma fé racional e, por isso mesmo, robusta. O conhecimento do mundo invisível, a confiança numa lei superior de justiça e progresso imprime a essa fé um duplo caráter de calma e segurança.

Efetivamente, que poderemos temer, quando sabemos que a alma é imortal e quando, após os cuidados e consumições da vida, além da noite sombria em que tudo parece afundar-se, vemos despontar a suave claridade dos dias infindáveis?

Essencializados da ideia de que esta vida não é mais que um instante no conjunto da existência integral, suportaremos, com paciência, os males inevitáveis que ela engendra. A perspectiva dos tempos que se nos abrem dar-nos-á o poder de dominar as mesquinharias presentes e de nos colocarmos acima dos vaivéns da fortuna. Assim, sentir-nos-emos mais livres e mais bem armados para a luta.

O espírita conhece e compreende a causa de seus males; sabe que todo sofrimento é legítimo e aceita-o sem murmurar; sabe que a morte nada aniquila, que os nossos sentimentos perduram na vida de além-túmulo e que todos os que se amaram na Terra tornam a encontrar-se, libertos de todas as misérias, longe desta lutuosa morada; conhece que só há separação para os maus. Dessas crenças resultam-lhe consolações que os indiferentes e os cépticos ignoram. Se, de uma extremidade a outra do mundo, todas as almas comungassem nessa fé poderosa, assistiríamos à maior transformação moral que a História jamais registrou.

Mas essa fé poucos, ainda, possuem. O Espírito de Verdade tem falado à Terra, mas insignificante número o tem ouvido atentamente. Entre os filhos dos homens, não são os poderosos os que o escutam e, sim, os humildes, os pequenos, os deserdados, todos os que têm sede de esperança. Os grandes e os afortunados têm rejeitado os seus ensinos, como há dezenove séculos repeliram o próprio Cristo. Os membros do clero e as associações sábias coligaram-se contra esse “desmancha-prazeres”, que vinha comprometer os interesses, o repouso e derruir-lhes as afirmações. Poucos homens têm a coragem de se desdizerem e de confessarem que se enganaram. O orgulho escraviza-os totalmente! Preferem combater durante toda a vida esta verdade ameaçadora que vai arrasar suas obras efêmeras. Outros, muito secretamente, reconhecem a beleza, a magnitude desta doutrina, mas se atemorizam ante suas exigências morais. Agarrados aos prazeres, almejando viver a seu gosto, indiferentes à existência futura, afastam de seus pensamentos tudo quanto poderia induzi-los a repudiar hábitos que, embora reconheçam como perniciosos, não deixam de ser afagados. Que amargas decepções irão colher por causa dessas loucas evasivas!

A nossa sociedade, absorvida completamente pelas especulações, pouco se preocupa com o ensino moral. Inúmeras opiniões contraditórias chocam-se; no meio desse confuso turbilhão da vida, o homem poucas vezes se detém para refletir.

Mas todo ânimo sincero, que procura a fé e a verdade, há de encontrá-la na revelação nova. Um influxo celeste estender-se-á sobre ele a fim de guiá-lo para esse sol nascente, que um dia iluminará a Humanidade inteira.


Léon Denis












terça-feira, 13 de setembro de 2022

Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 6, pág. 36/40 - O Cristianismo



Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 6, pág. 36/40


O Cristianismo


Conforme a História, é no deserto que ostensivamente aparece a crença no Deus único, a idéia-mãe de onde devia sair o Cristianismo. Através das solidões pedregosas do Sinai, Moisés, o iniciado do Egito, guiava para a terra prometida o povo por cujo intermédio o pensamento monoteísta, até então confinado nos Mistérios, ia entrar no grande movimento religioso e espalhar-se pelo mundo.

Ao povo de Israel coube um papel considerável. Sua história é como um traço de união que liga o Oriente ao Ocidente, a ciência secreta dos templos à religião vulgarizada. Apesar das suas desordens e das suas máculas, a despeito desse sombrio exclusivismo que é uma das faces do seu caráter, ele tem o mérito de haver adotado, até enraizar-se em si, esse dogma da unidade de Deus, cujas conseqüências ultrapassaram as suas vistas, preparando a fusão dos povos em uma família universal, debaixo de um mesmo Pai e sob uma só Lei.

Essa perspectiva, grandiosa e extensa, somente foi reconhecida ou pressentida pelos profetas que precederam a vinda do Cristo. Mas esse ideal oculto, prosseguindo, transformado pelo Filho de Maria, dele recebeu radiante esplendor, também comunicado às nações pagãs pelos seus discípulos. A dispersão dos judeus ainda mais auxiliou a sua difusão. Segundo sua marcha através das civilizações decaídas e das vicissitudes dos tempos, ele ficará gravado em traços indeléveis na consciência da Humanidade.

Um pouco antes da era atual, à proporção que o poder romano cresce e se estende, vê-se a doutrina secreta recuar, perder a sua autoridade. São raros os verdadeiros iniciados. O pensamento se materializa, os espíritos se corrompem. A Índia fica como adormecida num sonho: extingue-se a lâmpada dos santuários egípcios e a Grécia, assenhoreada pelos retóricos e pelos sofistas, insulta os sábios, proscreve os filósofos, profana os Mistérios. Os oráculos ficam mudos. A superstição e a idolatria invadem os templos. E a orgia romana se desencadeia pelo mundo, com suas saturnais, sua luxúria desenfreada, seus inebriamentos bestiais. Do alto do Capitólio, a prostituta saciada domina povos e reis. César, imperador e deus, se entroniza numa apoteose ensanguentada!

Entretanto, nas margens do Mar Morto, alguns homens conservam no recesso a tradição dos profetas e o segredo da pura doutrina. Os essênios, grupo de iniciados cujas colônias se estendem até o vale do Nilo, abertamente se entregam ao exercício da medicina, porém o seu fim real é mais elevado: consiste em ensinar, a um pequeno número de adeptos, as leis superiores do Universo e da vida. Sua doutrina é quase idêntica à de Pitágoras. Admitem a preexistência e as vidas sucessivas da alma; prestam a Deus o culto do espírito.

Nos essênios, como entre os sacerdotes de Mênfis, a iniciação é graduada e requer vários anos de preparo. 

Seus costumes são irrepreensíveis; passam a vida no estudo e na contemplação, longe das agitações políticas, longe dos enredos do sacerdócio ávido e invejoso.

Foi evidentemente entre eles que Jesus passou os anos que precederam o seu apostolado, anos sobre os quais os Evangelhos guardam um silêncio absoluto. Tudo o indica: a identidade dos seus intuitos com os dos essênios, o auxílio que estes lhe prestaram em várias circunstâncias, a hospitalidade gratuita que, a título de adepto, ele recebia, e a fusão final da ordem com os primeiros cristãos, fusão de que saiu o Cristianismo esotérico.

Mas, na falta de iniciação superior, o Cristo possuía uma alma bastante vasta, bem superabundante de luz e de amor, para nela sorver os elementos da sua missão. Jamais a Terra viu passar maior Espírito. Uma serenidade celeste envolvia-lhe a fronte. Nele se uniam todas as perfeições para formarem um tipo de pureza ideal, de inefável bondade.

Há em seu coração imensa piedade pelos humildes, pelos deserdados. Todas as dores humanas, todos os gemidos, todas as misérias encontram nele um eco. Para acalmar esses males, para secar essas lágrimas, para consolar, para curar, para salvar, ele irá ao sacrifício de a própria vida oferecer em holocausto a fim de reerguer a Humanidade. Quando, pálido, se dirige para o Calvário e é pregado ao madeiro infamante, encontra ainda em sua agonia a força de orar por seus carrascos e de pronunciar estas palavras que nenhum impulso de ternura ultrapassará jamais:

“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!” Entre os grandes missionários, o Cristo, o primeiro de todos, comunicou às multidões as verdades que até então tinham sido o privilégio de pequeno número. Para ele, o ensino oculto tornava-se acessível aos mais humildes, senão pela inteligência ao menos pelo coração, e lhes oferecia esse ensino sob formas que o mundo não tinha conhecido, com uma potência de amor, uma doçura penetrante e uma fé comunicativa que faziam fundir os gelos do cepticismo, eletrizar os ouvintes e arrastá-los após si.

O que ele chamava “pregar o Evangelho do reino dos céus aos simples” era pôr ao alcance de todos o conhecimento da imortalidade e o do Pai comum. Os tesouros intelectuais, que os adeptos avaros só distribuíam com prudência, o Cristo os espalhava pela grande família humana, por esses milhões de seres, curvados sobre a Terra, que nada sabiam do destino e que esperavam, na incerteza e no sofrimento, a palavra nova que os devia consolar e reanimar. Essa palavra, esse ensino, ele distribuiu sem contar e lhes deu a consagração do seu suplício e da sua morte. A cruz, esse símbolo antigo dos iniciados, que se encontra em todos os templos do Egito e da Índia, tornou-se, pelo sacrifício de Jesus, o sinal da elevação da Humanidade, tirada do abismo das trevas e das paixões inferiores, para ter enfim acesso à vida eterna, à vida das almas regeneradas.

O sermão da montanha condensa e resume o ensino popular de Jesus. Aí se mostra a lei moral com todas as suas conseqüências; nele os homens aprendem que as qualidades brilhantes não fazem sua elevação nem sua felicidade, mas que só poderão isto conseguir pelas virtudes modestas e ocultas – a Humildade, a Bondade, a Caridade:

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque é para eles o reino dos céus.  – Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. – Bem-aventurados os que têm fome de Justiça, porque serão saciados. – Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. – Bem-aventurados os que têm o coração puro, porque verão a Deus.”

Assim se exprime Jesus. Suas palavras patenteiam ao homem perspectivas inesperadas. É no mais recôndito da alma que está a origem das alegrias futuras: “O reino dos céus está dentro de vós!” E cada um consegue realizá-lo pela subjugação dos sentidos, pelo perdão das injúrias e pelo amor ao próximo.

Para Jesus, no amor encerra-se toda a religião e toda a filosofia.

“Amai vossos inimigos; fazei bem àqueles que vos perseguem e caluniam, a fim de que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz com que o Sol tanto se levante para os bons como para os maus; que faz chover sobre os justos e injustos. Porque, se só amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis vós?”

Esse amor é Deus mesmo quem no-lo exemplifica, pois os seus braços estão sempre abertos ao arrependido. 

É o que se depreende das parábolas do filho pródigo e da ovelha desgarrada:

“Assim vosso Pai que está nos céus não quer que pereça um só de seus filhos.”

Não será isto a negação do inferno, cuja idéia se atribuiu a Jesus?

Se o Cristo mostra algum rigor e fala com veemência, é a esses fariseus hipócritas que torcem a lei moral, entregando-se às práticas minuciosas de devoção.

A seus olhos é mais louvável o samaritano cismático do que o sacerdote e o levita que desdenham socorrer um ferido. Ele desaprova as manifestações do culto exterior e levanta-se contra esses sacerdotes:

“Cegos condutores de cegos, homens de rapina e de corrupção que, a pretexto de longas preces, devoram os bens das viúvas e dos órfãos.”

Aos devotos que acreditam salvar-se pelo jejum e abstinência, diz:

“Não é o que entra pela boca que mancha o homem, mas o que dela sai.”

Aos partidários de longas orações, responde:

“Vosso Pai sabe aquilo de que tendes necessidade, antes que lho peçais.”

Jesus condenava o sacerdócio, recomendando aos seus discípulos não escolherem nenhum chefe, nenhum mestre. Seu culto era íntimo, o único digno de espíritos elevados, e a respeito do qual assim se exprime:

“Vai chegar o tempo em que os verdadeiros crentes adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são estes os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e cumpre que os seus filhos o adorem em espírito e verdade.”

O Cristo só impõe a prática do bem e da fraternidade:

“Amai vosso próximo como a vós mesmos e sede perfeitos assim como vosso Pai celeste é perfeito. Eis toda a lei e os profetas.”

Em sua simplicidade eloquente, este preceito revela o fim mais elevado da iniciação – a pesquisa da perfeição, que é, ao mesmo tempo, a do conhecimento e da felicidade. Ao lado desses ensinos que se dirigem aos simples, Jesus também deixou outros, onde a doutrina oculta dos Espíritos é reproduzida em traças de luz.  

Nem todos podiam subir a tais alturas e eis por que os tradutores e intérpretes do Evangelho alteraram, através dos séculos, a sua forma e corromperam-lhe o sentido. Apesar das alterações, é fácil reconstituir esse ensino a quem se liberta da superstição da letra para ver as coisas pela razão e pelo espírito. É principalmente no Evangelho de S. João que encontraremos feição ainda mais acentuada:

“Há diversas moradas na casa de meu pai. Vou preparar o vosso lugar e, depois que eu for e tudo houver arranjado, voltarei e vos chamarei a mim, para que onde eu estiver também vos encontreis.”

A casa do Pai é o céu infinito com os mundos que o povoam e a vida imensa, prodigiosa, que se espalha na sua superfície. São as inumeráveis estações na nossa jornada, que somos chamados a conhecer se seguirmos os preceitos de Jesus. Ele descerá até nós para induzir-nos, por exemplo, à conquista dos mundos superiores à Terra.

No Evangelho também se nos depara a afirmação das vidas sucessivas da alma:

“Em verdade, se o homem não renascer de novo não poderá entrar no reino de Deus. – O que nasce da carne é carne, o que nasce do espírito, é espírito. – Não vos admireis do que vos digo, pois é necessário nascerdes de novo. – O espírito sopra onde quer e entendeis a sua voz, mas não sabeis donde ela vem, nem para onde vai; também sucede o mesmo com todo homem que nasce do espírito.”

Quando os seus discípulos lhe interrogam: “Por que dizem os escribas que é preciso primeiro que Elias volte?”

Ele responde: “Elias já voltou, porém não o reconheceram.”

E os discípulos compreendem então que Jesus se referia a João Batista. Ainda em outra ocasião diz o seguinte:

“Em verdade, entre todos os filhos de mulher nenhum há maior que João Batista. E se quiserdes entender, é ele mesmo Elias que deve vir. Que ouça aquele que tem ouvidos para ouvir.”

O alvo a que tende cada um de nós e a sociedade inteira está claramente indicado. É o reinado do “Filho do homem”, do Cristo social, ou, em outros termos, o reinado da Verdade, da Justiça e do Amor. As vistas de Jesus dirigem-se para o futuro, para esses tempos que nos são anunciados.

“Enviar-vos-ei o Consolador. – Tinha ainda muitas coisas a dizer-vos, porém ainda não poderíeis compreendê-las. – Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vo-las ensinará e restabelecerá tudo no seu sentido verdadeiro.”

Algumas vezes, o Cristo resumia as verdades eternas em imagens grandiosas, em traços brilhantes. Nem sempre os apóstolos o compreendiam, mas ele deixava aos séculos e aos acontecimentos o cuidado de fazer frutificar esses princípios na consciência da Humanidade, como a chuva e o Sol fazem germinar a semente confiada à terra. É nesse sentido que assim se exprimiu: “O céu e a Terra passarão, porém não as minhas palavras.”

Jesus dirigia-se pois simultaneamente ao espírito e ao coração. Aqueles que não tivessem podido compreender Pitágoras e Platão, sentiam suas almas comoverem-se aos eloquentes apelos do Nazareno. É por aí que a doutrina cristã domina todas as outras. Para atingir a sabedoria, era preciso, nos santuários do Egito e da Grécia, franquear os degraus de uma longa e penosa iniciação, ao passo que pela caridade todos podiam tornar-se bons cristãos e irmãos em Jesus.

Mas, com o tempo, as verdades transcendentais se velaram. Aqueles que as possuíam foram suplantados pelos que acreditavam saber e o dogma material substituiu a pura doutrina. Dilatando-se, o Cristianismo perdeu em valor o que ganhava em extensão.

A ciência profunda de Jesus vinha juntar-se à potência fluídica do iniciado superior, da alma livre do jugo das paixões, cuja vontade domina a matéria e impera sobre as forças sutis da Natureza. O Cristo possuía a dupla vista; seu olhar sondava os pensamentos e as consciências; curava com uma palavra, com um sinal, ou mesmo somente bastando a sua presença. Eflúvios benéficos se lhe escapavam do ser e à sua ordem os maus espíritos se afastavam. Comunicava-se facilmente com as potências celestes e, nas horas de provação, alentava desse modo a força moral que lhe era necessária em sua viagem dolorosa. No Tabor, seus discípulos, deslumbrados, o vêem conversar com Moisés e Elias. É assim mesmo que mais tarde, depois de crucificado, Jesus lhes aparece na irradiação do seu corpo fluídico,  etéreo, desse corpo a que Paulo se refere nos seguintes termos: 

“Há em cada homem um corpo animal e um corpo espiritual.”   A existência desse corpo espiritual está demonstrada pelas experiências da psicologia moderna.

Não podem ser postas em dúvida tais aparições, pois explicam por si só a persistência da ideia cristã. Depois do suplício do Mestre e da dispersão dos discípulos, o Cristianismo estava moralmente morto. Foram, porém, as aparições e as conversas de Jesus que restituíram aos apóstolos sua energia e sua fé.


Léon Denis













quarta-feira, 6 de julho de 2022

Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 1 - As Religiões - A Doutrina Secreta



Léon Denis - Livro Depois da Morte - Cap. 1 - As Religiões


A Doutrina Secreta


Quando se lança um golpe de vista sobre o passado, quando se evoca a recordação das religiões desaparecidas, das crenças extintas, apodera-se de nós uma espécie de vertigem ante o aspecto das sinuosidades percorridas pelo pensamento humano. Lenta é sua marcha. Parece, a princípio, comprazer-se nas criptas sombrias da Índia, nos templos subterrâneos do Egito, nas catacumbas de Roma, na meia-luz das catedrais; parece preferir os lugares escuros à atmosfera pesada das escolas, o silêncio dos claustros às claridades do céu, aos livres espaços, em uma palavra, ao estudo da Natureza.

Um primeiro exame, uma comparação superficial das crenças e das superstições do passado conduz inevitavelmente à dúvida. Mas, levantando-se o véu exterior e brilhante que ocultava às massas os grandes mistérios, penetrando-se nos santuários da ideia religiosa, achamo-nos em presença de um fato de alcance considerável. As formas materiais, as cerimônias extravagantes dos cultos tinham por fim chocar a imaginação do povo. Por trás desses véus, as religiões antigas apareciam sob aspecto diverso, revestiam caráter grave e elevado, simultaneamente científico e filosófico. Seu ensino era duplo: exterior e público de um lado, interior e secreto de outro, e, neste último caso, reservado somente aos iniciados. Conseguiu-se, não há muito, reconstituir esse ensino secreto, após pacientes estudos e numerosas descobertas epigráficas. (1) Desde então, dissiparam-se a obscuridade e a confusão que reinavam nas questões religiosas; com a luz, fez-se a harmonia. Adquiriu-se a prova de que todos os ensinos religiosos do passado se ligam, porque, em sua base, se encontra uma só e mesma doutrina, transmitida de idade em idade a uma série ininterrupta de sábios e pensadores.

Todas as grandes religiões tiveram duas faces, uma aparente, outra oculta. Está nesta o espírito, naquela a forma ou a letra. Debaixo do símbolo material, dissimula-se o sentido profundo. O Bramanismo, na Índia, o Hermetismo, no Egito, o Politeísmo grego, o próprio Cristianismo, em sua origem, apresentam esse duplo aspecto. Julgá-las pela face exterior e vulgar é o mesmo que apreciar o valor moral de um homem pelos trajes. Para conhecê-las é preciso penetrar o pensamento íntimo que lhes inspira e motiva a existência; cumpre desprender do selo dos mitos e dogmas o princípio gerador que lhes comunica a força e a vida. Descobre-se, então, a doutrina única, superior, imutável, de que as religiões humanas não são mais que adaptações imperfeitas e transitórias, proporcionadas às necessidades dos tempos e dos meios.

Em nossa época, muitos fazem uma concepção do Universo, uma ideia da verdade, absolutamente exterior e material. A ciência moderna, em suas investigações, tem-se limitado a acumular o maior número de fatos e, depois, a deduzir daí as suas leis. Obteve, assim, maravilhosos resultados, porém, por tal preço, ficar-lhe-á sempre inacessível o conhecimento dos princípios superiores e das causas primitivas. As próprias causas secundárias escapam-lhe. O domínio invisível da vida é mais vasto do que aquele que é atingido pelos nossos sentidos: lá reinam essas causas de que somente vemos os efeitos.

Na antiguidade tinham outra maneira de ver, e um proceder muito diferente. Os sábios do Oriente e da Grécia não desdenhavam observar a natureza exterior, porém era sobretudo no estudo da alma, de suas potências íntimas, que descobriam os princípios eternos. Para eles, a alma era como um livro em que se inscrevem, em caracteres misteriosos, todas as realidades e todas as leis. Pela concentração de suas faculdades, pelo estudo profundo e meditativo de si mesmos, elevaram-se até à Causa sem causa, até ao princípio de que derivam os seres e as coisas. As leis inatas da inteligência explicavam-lhes a harmonia e a ordem da Natureza, assim como o estudo da alma lhes dava a chave dos problemas da vida.

A alma, acreditavam, colocada entre dois mundos, o visível e o oculto, o material e o espiritual, observando-os, penetrando em ambos, é o instrumento supremo do conhecimento. Conforme seu grau de adiantamento ou de pureza, reflete, com maior ou menor intensidade, os raios do foco divino. A razão e a consciência não só guiam nossa apreciação e nossos atos, mas também são os mais seguros meios para adquirir-se e possuir-se a verdade.

A tais pesquisas era consagrada a vida inteira dos iniciados. Não se limitavam, como em nossos dias, a preparar a mocidade com estudos prematuros, insuficientes, mal dirigidos, para as lutas e deveres da existência. Os adeptos eram escolhidos, preparados desde a infância para a carreira que deviam preencher e, depois, levados gradualmente aos píncaros intelectuais, de onde se pode dominar e julgar a vida. Os princípios da ciência secreta eram-lhes comunicados numa proporção relativa ao desenvolvimento das suas inteligências e qualidades morais. A iniciação era uma refundição completa do caráter, um acordar das faculdades latentes da alma. Somente quando tinha sabido extinguir em si o fogo das paixões, comprimir os desejos impuros, orientar os impulsos do seu ser para o Bem e para o Belo, é que o adepto participava dos grandes mistérios. Obtinha, então, certos poderes sobre a Natureza, e comunicava-se com as potências ocultas do Universo.

Não deixam subsistir dúvida alguma sobre tal ponto os testemunhos da História a respeito de Apolônio de Tiana e de Simão, o Mago, bem como os fatos, pretensamente miraculosos, levados a efeito por Moisés e pelo Cristo. Os iniciados conheciam os segredos das forças fluídicas e magnéticas. Esse domínio, pouco familiar aos sábios dos nossos dias, a quem se afiguram inexplicáveis os fenômenos do sonambulismo e da sugestão, no meio dos quais se debatem impotentes em conciliá-los com teorias preconcebidas, esse domínio, a ciência oriental dos santuários havia explorado, e estava possuidora de todas as suas chaves. Nele encontrava meios de ação incompreensíveis para o vulgo, mas facilmente explicáveis pelos fenômenos do Espiritismo. Em suas experiências fisiológicas, a ciência contemporânea chegou ao pórtico desse mundo oculto conhecido dos antigos e regido por leis exatas. Ainda bem perto está o dia em que a força dos acontecimentos e o exemplo dos audaciosos constrangê-la-ão a tal. Reconhecerá, então, que nada há aí de sobrenatural, mas, ao contrário, uma face ignorada da Natureza, uma manifestação das forças sutis, um aspecto novo da vida que enche o infinito.

Se, do domínio dos fatos, passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. Ao ver desta, a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do Espírito, única realidade permanente. A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável. O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaneamente triplo e uno – essência, substância e vida –, em que se resume todo o Universo. Daí o deísmo trinitário que, da Índia e do Egito, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã. Esta, dos três elementos do Ser, fez as pessoas. A alma humana, parcela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo. Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o corpo, o perispírito e a alma –, centros correspondentes da sensação, sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem reduzida do macrocosmo ou Grande-Todo. Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades latentes, a nossa razão e consciência. Tem duas faces a vida universal: a involução ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade divina.

Prendia-se a esta filosofia um feixe inteiro de ciências: a Ciência dos Números ou Matemáticas Sagradas, a Teogonia, a Cosmogonia, a Psicologia e a Física. Nelas, os métodos indutivo e experimental combinavam-se e serviam-se reciprocamente de verificação, formando, assim, um todo imponente, um edifício de proporções harmônicas.

Este ensino abria ao pensamento perspectivas suscetíveis de causarem vertigem aos espíritos mal preparados, e por isso era somente reservado aos fortes. Se, por verem o infinito, as almas débeis ficam perturbadas e desvairadas, as valentes fortificam-se e medram. É no conhecimento das leis superiores que estas vão beber a fé esclarecida, a confiança no futuro, a consolação na desgraça. Tal conhecimento produz benevolência para com os fracos, para com todos esses que se agitam ainda nos círculos inferiores da existência, vítimas das paixões e da ignorância; inspira tolerância para com todas as crenças. O iniciado sabia unir-se a todos e orar com todos. Honrava Brahma na Índia, Osíris em Mênfis, Júpiter na Olímpia, como pálidas imagens da Potência Suprema, diretora das almas e dos mundos. É assim que a verdadeira religião se eleva acima de todas as crenças e a nenhuma maldiz.

O ensino dos santuários produziu homens realmente prodigiosos pela elevação de vistas e pelo valor das obras realizadas, uma elite de pensadores e de homens de ação, cujos nomes se encontram em todas as páginas da História. Daí saíram os grandes reformadores, os fundadores de religiões, os ardentes propagandistas: Krishna, Zoroastro, Hermes, Moisés, Pitágoras, Platão e Jesus; todos os que têm posto ao alcance das multidões as verdades sublimes que fazem sua superioridade. Lançaram aos ventos a semente que fecunda as almas, promulgaram a lei moral, imutável, sempre e em toda parte semelhante a si mesma. Mas, não souberam os discípulos guardar intacta a herança dos mestres. Mortos estes, os seus ensinos ficaram desnaturados e desfigurados por alterações sucessivas. A mediocridade dos homens não era apta a perceber as coisas do espírito e bem depressa as religiões perderam a sua simplicidade e pureza primitivas. As verdades que tinham sido ensinadas foram sufocadas sob os pormenores de uma interpretação grosseira e material. Abusou-se dos símbolos para chocar a imaginação dos crentes e, muito breve, a idéia máter ficou sepultada e esquecida sob eles. A verdade é comparável às gotas de chuva que oscilam na extremidade de um ramo. Enquanto aí ficam suspensas, brilham como puros diamantes aos raios do Sol; desde, porém, que tocam o chão, confundem-se com todas as impurezas. O que nos vem de cima mancha-se ao contacto terrestre. Até mesmo ao seio dos templos levou o homem as suas concupiscências e misérias morais. Por isso, em cada religião, o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos céus.

Pergunta-se algumas vezes se a religião é necessária. A religião (do latim religare, ligar, unir), bem compreendida, deveria ser um laço que prendesse os homens entre si, unindo-os por um mesmo pensamento ao princípio superior das coisas. Há na alma um sentimento natural que a arrasta para um ideal de perfeição em que se identificam o Bem e a Justiça. Este sentimento, o mais nobre que poderemos experimentar, se fosse esclarecido pela Ciência, fortificado pela razão, apoiado na liberdade de consciência, viria a ser o móvel de grandes e generosas ações; mas, manchado, falseado, materializado, tornou-se, muitas vezes, pelas inquietações da teocracia, um instrumento de dominação egoística.

A religião é necessária e indestrutível porque se baseia na própria natureza do ser humano, do qual ela resume e exprime as aspirações elevadas. É, igualmente, a expressão das leis eternas e, sob este ponto de vista, tende a confundir-se com a filosofia, fazendo com que esta passe do domínio da teoria ao da execução, tornando-se vivaz e ativa.

Mas, para exercer uma influência salutar, para voltar a ser um incitante de progresso e elevação, a religião deve despojar-se dos disfarces com que se revestiu através dos séculos. Não são os seus elementos primordiais que devem desaparecer, mas, sim, as formas exteriores, os mitos obscuros, o culto, as cerimônias. Cumpre evitar confundir coisas tão dessemelhantes. A verdadeira religião é um sentimento; é no coração humano, e não nas formas ou manifestações exteriores, que está o melhor templo do Eterno. A verdadeira religião não poderia ser encerrada dentro de regras e ritos acanhados; não necessita de sacerdotes nem de fórmulas nem de imagens.

Pouco se inquieta com simulacros e modos de adorar; só julga os dogmas por sua influência sobre o aperfeiçoamento das sociedades. Abraça todos os cultos, todos os sacerdócios, eleva-se bastante e diz-lhes: A Verdade ainda está muito acima!

Entretanto, deve-se compreender que nem todos os homens se acham em vias de atingir esses píncaros intelectuais. Eis por que a tolerância e a benevolência são coisas que se impõem. Se, por um lado, o dever convida-nos a desprender os bons espíritos dos aspectos vulgares da religião, por outro, é preciso nos abstermos de lançar a pedra às almas sofredoras, lacrimosas, incapazes de assimilar noções abstratas, mas que encontram arrimo e conforto na sua cândida fé.

Verifica-se, porém, que, de dia para dia, diminui o número dos crentes sinceros. A ideia de Deus, outrora simples e grande nas almas, foi desnaturada pelo temor do inferno e perdeu seu poder. Na impossibilidade de se elevarem até ao absoluto, certos homens acreditaram ser necessário adaptar à sua forma e medida tudo o que queriam conceber. Foi assim que rebaixaram Deus ao nível deles próprios, atribuindo-lhe as suas paixões e fraquezas, amesquinhando a Natureza e o Universo, e, sob o prisma da ignorância, decompondo em cores diversas os argênteos raios da verdade. As claras noções da religião natural foram obscurecidas a bel-prazer. A ficção e a fantasia engendraram o erro e este, preso ao dogma, ergueu-se como um obstáculo no meio do caminho. A luz ficou velada para aqueles que se acreditavam seus depositários e as trevas, com que pretendiam envolver os outros, fizeram-se em si próprios e ao seu redor. Os dogmas perverteram o critério religioso, e o interesse de casta falseou o senso moral. Daí um acervo de superstições, de abusos e práticas idólatras, cujo espetáculo lançou tantos homens na negação.

A reação, porém, anuncia-se. As religiões, imobilizadas em seus dogmas como as múmias em suas faixas, agora agonizam, abafadas em seus invólucros materiais, enquanto tudo marcha e evolve em torno delas. Perderam quase toda a influência sobre os costumes, sobre a vida social, e estão destinadas a perecer. Mas, como todas as coisas, as religiões só morrem para renascer. A idéia que os homens fazem da Verdade modifica-se e dilata com o decorrer dos tempos. Eis por que as religiões, manifestações temporárias, vistas parciais da eterna Verdade, tendem a transformar-se desde que já tenham cumprido a sua tarefa, e não mais correspondam aos progressos e às necessidades da Humanidade. À medida que esta caminha, são precisas novas concepções, um ideal mais elevado, e isso só poderá ser encontrado nas descobertas da Ciência, nas intuições crescentes do pensamento. Chegamos a uma época da História em que as religiões encanecidas aluem-se por suas bases, época em que se prepara uma renovação filosófica e social. O progresso material e intelectual desafia o progresso moral. Na profundeza das almas agita-se um mundo de aspirações, que faz esforços por tomar forma e aparecer à vida. O sentimento e a razão, essas duas grandes forças imperecíveis como o Espírito humano, de que são atributos, forças hostis até hoje e que perturbavam a sociedade com os seus conflitos, semeando por toda parte a discórdia, a confusão e o ódio, tendem, finalmente, a se conciliarem. A religião deve perder seu caráter dogmático e sacerdotal para tornar-se científica; a ciência libertar-se-á dos baixios materialistas para esclarecer-se com um raio divino. Surgirá uma doutrina, idealista em suas tendências, positiva e experimental em seu método, apoiada sobre fatos inegáveis. Sistemas opostos na aparência, filosofias contraditórias e inimigas, o Espiritismo e o Naturalismo, entre outras, acharão, afinal, um terreno de reconciliação. Síntese poderosa, ela abraçará e ligará todas as concepções variadas do mundo e da vida, raios dispersos, faces variadas da Verdade.

Será a ressurreição, sob forma mais ampla e a todos acessível, dessa doutrina que o passado conheceu, será o aparecimento da religião natural que renascerá simples, sem cultos nem altares. Cada pai será sacerdote em sua família, ensinará e dará o exemplo. A religião passará para os atos, para o desejo ardente do bem; o holocausto será o sacrifício de nossas paixões, o aperfeiçoamento do Espírito humano. Tal é a doutrina superior, definitiva, universal, no seio da qual serão absorvidas, como os rios pelo oceano, todas as religiões passageiras, contraditórias, causas frequentes de dissidência e dilaceração para a Humanidade.


Léon Denis





(1) Ver “Essais sur l’histoire des rellglons”, por Max Muller; “La Mission
des Juifs”, por St-Yves d’Alveydre; “Les Grands Initlés”, por Ed. Schuré.
(2) Ver “La Suggestion Mentale”, por Ochorowlcz.

Fonte: Depois da Morte-pdf