Miramez - Livro Máximas de Luz - João Nunes Maia - Cap. 11
Atribulação
18. Quando o Cristo disse: “Bem-aventurados os aflitos, o reino dos céus lhes pertence”, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam sobre a palha. Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem. A prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações.
O militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o repouso no campo nenhuma ascensão de posto lhe faculta. Sede, pois, como o militar e não desejeis um repouso em que o vosso corpo se enervaria e se entorpeceria a vossa alma. Alegrai-vos, quando Deus vos enviar para a luta. Não consiste esta no fogo da batalha, mas nos amargores da vida, onde, às vezes, de mais coragem se há mister do que num combate sangrento, porquanto não é raro que aquele que se mantém firme em presença do inimigo fraqueje nas tenazes de uma pena moral. Nenhuma recompensa obtém o homem por essa espécie de coragem; mas, Deus lhe reserva palmas de vitória e uma situação gloriosa. Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais forte.”
Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso. Lacordaire. Havre, 1863. (E.S.E. Cap. V)
O sofrimento é bem reconhecido nos meios espiritualistas como sendo meio de ascensão espiritual, quando recebido com paciência e resignação. São lições de aprendizado nos caminhos que cada um tem de percorrer. Devemos, por isso, amar a todo tipo de aflições, mas nunca procurar padecimentos, com a falsa ideia de que eles nos elevam.
O Cristo, quando disse “Bem-aventurados os aflitos, que deles é o reino dos céus” não se referia a esses aflitos escandalosos, que mostram as aflições, procurando compaixão dos outros; os que semeiam ideias negativas, mostrando a dor em tudo, continuam, mesmo no mundo espiritual, nas trevas, por pensar nelas e divulgá-las.
As bem-aventuranças são para os que sofrem amando a dor e extraindo dela o que ela traz de educação, abrindo os ouvidos à sua palavra, no silêncio da própria vida, como sendo a educadora de grande valor, e mesmo uma mensageira de Deus, que abre os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos. Ver nos sofrimentos somente atribulações é desconfiar da Divindade e não aceitar a lei de justiça, que evidencia Deus ajudando a todos os Seus filhos.
Quando se é oprimido, é necessário esquecer a revolta e procurar na tolerância a razão do que está acontecendo; se Deus está em toda parte, está certamente vendo Seus filhos passarem pelas aflições e, na hora certa, quando assimiladas as lições, Ele oferece o amparo proveitoso. As tormentas acontecem para acordar a alma, no aspecto de que ela está esquecida, mostrando os caminhos que lhe favorecem a paz.
Bem-aventurados os aflitos, aqueles que a natureza oprime por todos os meios, para os fazer sentir, ver e se decidirem a melhorar, mudando de vida, que sentem a necessidade do perdão, corrigindo os impulsos do revide, cortando as arestas da valentia, no esquecimento das faltas.
Bem-aventurados os aflitos que, mesmo na aflição e entristecidos, ainda procuram e acham meios de servir ao ofensor e orar por eles, que trabalham em favor de todos, sem escolher somente os que estão mais próximos da sua sintonia, que "amam o próximo como a si mesmos".
É dever do companheiro que já conhece o Cristo, que O identifica sempre nos caminhos, ser mortificado; no entanto, que os ouvidos estejam em conexão com o verbo do Senhor, na prática da caridade para se fazer reconhecido como instrumento do amor. A opressão pode ocorrer sempre nos caminhos do verdadeiro cristão, mas, em vez de desviá-lo do caminho do bem, o fenômeno se dá ao contrário, despertando no seu coração mais amor, mais fraternidade, mais benevolência, mais entendimento para com todos os acontecimentos; é sempre luz nos caminhos de quem anda nas trevas.
A aflição é oportunidade para o cristão de provar a sua fé, a sua coragem para enfrentar as duras horas que tem de passar ao acompanhar o Cristo; os Seus discípulos cresceram dando testemunhos nas aflições, nas fogueiras, nas cruzes, nos arrochos, nas prisões, mostrando ao seu Mestre que assimilaram as lições, na profundidade que elas foram ministradas.
Quem deseja acompanhar o Cristo tem de dar os testemunhos, transformando as aflições em esperanças, mudando o desconforto em prazeres, transmutando a cruz em glória, e todos os padecimentos em ensejos para despertar os valores da vida, na intimidade do coração. Aí podemos entender o que disse Jesus acerca das bem-aventuranças, conhecendo os valores do Espírito e vivendo-os na glória da verdadeira vida: devemos começar entendendo a nós mesmos, que o entendimento para com os outros ficará mais fácil, estendendo esse respeito a tudo que se integra à criação de Deus.
As tribulações são passageiras, as aflições são breves e a dor permanecerá conosco até compreendermos as suas lições.
Agradeçamos a Deus, no profundo da alma, pela chegada da Doutrina Espírita, esse vaso escolhido que desceu dos céus pelos mais altos instrumentos de Deus, e entregue a um dos mais lúcidos discípulos de Jesus, para ter a alegria de distribuir aos novos discípulos na Terra, o que fez com maestria e amor.
A luz nunca faltou, na Terra, para aqueles que desejam iluminar e se encontram preparados, mas nunca aconteceu como agora; o que nos parece é que o céu verdadeiramente desceu à velha Terra para confundir os sábios, elevar os humildes e glorificar os justos, dando a cada um segundo as suas necessidades.
Não temamos as aflições; sejam elas quais forem, compreendamos suas lições, toleremos, confiemos em Deus, tenhamos fé e paciência, e não culpemos a ninguém pelos possíveis tormentos, que a luz em nossos corações se acenderá como o sol do meio-dia.
