Miramez - Livro Máximas de Luz - João Nunes Maia - Cap. 15
Se fosse bom
Os acontecimentos do mundo são orientados pelas leis naturais e eternas, feitas pelo Criador. Quando alguém desencarna, e que sua vida era apreciada pela honestidade, pode alguém desejar que tivesse sido um vizinho que não lhe é muito simpático, de conduta contrária aos princípios da moral. Pela ignorância, chega-se a desejar que fosse o segundo, lamentando; a perda do homem bom.
Na verdade, não se deve proceder dessa maneira, por saber Deus o que faz. O que deve no cartório da vida é que precisa ficar mais tempo na Terra, para saldar seus compromissos, pagar suas dívidas e aliviar a sua consciência. O que se encontra já favorecido pelo cumprimento dos seus deveres nada tem a saldar no banco universal; está sendo agraciado e, quando parte para o além, conheceu a verdade e ela o libertou das grades da carne.
Não se deve revoltar com os feitos da natureza. O que Deus faz é o mais acertado. A Terra é uma escola, mesmo que muitos a chamem de presídio; nela se aprendem os meios para adquirir a harmonia da intimidade e a alegria do coração. Deve-se confiar nas forças de Deus, e quando se sente gratidão por Ele, mesmo nas duras provas, algo de divino desabrocha dentro de si, ajudando a suportar os transes, na luta para a liberdade.
O homem bom recebe bondade pela lei de Justiça, e o homem mau somente recebe o que dá, pela mesma justiça. Se já sabemos desta verdade, o que devemos fazer na vida e pela vida? A razão nos diz que respeitemos a vontade de Deus, pelas Suas leis, que seremos agraciados pelo que somos.
Quando uma alma parte para o mundo espiritual, o dever dos encarnados é orar por ela, com todo amor, pois, essa é a vontade do Senhor; também os desencarnados devem orar pelos que ficam na Terra, porque também essa é a vontade do Criador. Quando acontece um desastre com o nosso próximo, e ele não desencarna, não devemos blasfemar, dizendo: “se fosse bom teria morrido”.
Aquele que partiu foi atendendo à vontade de Deus. Devemos limpar a nossa mente dos contrários, em se referindo ao Senhor, e sempre ter um pensamento de gratidão para com Ele, que é a fonte de vida, de onde saímos e vivemos pelo Seu amor. Amemos a Deus em todas as coisas, porque tudo surgiu pela Sua vontade magnânima e sábia, cheia de justiça e de paz.
Compete a cada um de nós, encarnados e desencarnados, esforçar-se no aprimoramento espiritual da vida, compreender que um pouco depende da alma, no tocante ao seu equilíbrio, à sua perfeição. Devemos consultar as grandes vidas, os livros que ajudam as criaturas a melhorarem, mas devemos lutar com nós mesmos, na vivência das virtudes. Não nos esqueçamos do Evangelho, marco de orientação da vida; ele nos ajuda a descobrir o Cristo dentro de nós e a ouvir a Sua voz de orientação espiritual, cujos meios nós mesmos é que descobrimos, por intuição divina.
Não se deve censurar o que não se compreende; tudo tem uma razão de ser na escola da vida. Deus atende Seus filhos em todos os departamentos educativos, espraiados na face da Terra. Aquele que perde tempo em ver os defeitos alheios, na lavoura dos outros, na extensão infinita, no finito interno, deixa a sua lavoura morrer abafada pelo mato, sem o devido socorro de suas próprias mãos.
A Doutrina dos Espíritos, como continuação da mensagem de Jesus, nos mostra claramente as leis esperando por nós, no respeito e na vivência, para que possamos viver em paz, respirando o ambiente do amor, compreendendo a caridade, sem esquecer o perdão. Se aceita a reencarnação como justa lei de Deus, pode entender o porquê das mortes que muitos chamam de prematuras; elas obedecem a uma lei, que vem beneficiar aqueles que partem para o mundo espiritual, abrindo as asas e voando livre em direção à casa paterna, de onde vieram em nome do amor. Morrer é viver.
Não existe aniquilamento no fenômeno conhecido por morte; ela consiste em libertação espiritual. Observemos os fenômenos da natureza, como se processa a vida das plantas, dos animais, das águas, da terra e mesmo de todas as divisões feitas pelo Criador. Devemos cultivar tudo ao alcance das nossas mãos, pois esse é o dever daqueles que já tiveram como prêmio a razão.
Miramez
O Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. V — Bem-aventurados os aflitos - Instruções dos Espíritos. - Se fosse um homem de bem, teria morrido.
22. Falando de um homem mau, que escapa de um perigo, costumais dizer: “Se fosse um homem bom, teria morrido.” Pois bem, assim falando, dizeis uma verdade, pois, com efeito, muito amiúde sucede dar Deus a um Espírito de progresso ainda incipiente prova mais longa, do que a um bom que, por prêmio do seu mérito, receberá a graça de ter tão curta quanto possível a sua provação. Por conseguinte, quando vos utilizais daquele axioma, não suspeitais de que proferis uma blasfêmia.
Se morre um homem de bem, cujo vizinho é mau homem, logo observais: “Antes fosse este.” Enunciais uma enormidade, porquanto aquele que parte concluiu a sua tarefa e o que fica talvez não haja principiado a sua. Por que, então, haveríeis de querer que ao mau faltasse tempo para terminá-la e que o outro permanecesse preso à gleba terrestre? Que diríeis se um prisioneiro, que cumpriu a sentença contra ele pronunciada, fosse conservado no cárcere, ao mesmo tempo que restituíssem à liberdade um que a esta não tivesse direito? Ficai sabendo que a verdadeira liberdade, para o Espírito, consiste no rompimento dos laços que o prendem ao corpo e que, enquanto vos achardes na Terra, estareis em cativeiro.
Habituai-vos a não censurar o que não podeis compreender e crede que Deus é justo em todas as coisas. Muitas vezes, o que vos parece um mal é um bem. Tão limitadas, no entanto, são as vossas faculdades, que o conjunto do grande todo não o apreendem os vossos sentidos obtusos. Esforçai-vos por sair, pelo pensamento, da vossa acanhada esfera e, à medida que vos elevardes, diminuirá para vós a importância da vida material que, nesse caso, se vos apresentará como simples incidente, no curso infinito da vossa existência espiritual, única existência verdadeira.
Fénelon.
Sens, 1861.
Fonte: Máximas de Luz; Kardecpedia

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