sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

André Luiz - Livro Mecanismos da Mediunidade - Chico Xavier / Waldo Vieira - Cap. 11 - Onda mental



André Luiz - Livro Mecanismos da Mediunidade - Chico Xavier / Waldo Vieira - Cap. 11


Onda mental 


ONDA HERTZIANA. — Examinando sumariamente as forças corpusculares de que se constituem todas as correntes atômicas do Plano Físico, podemos compreender sem dificuldade, no pensamento ou radiação mental, a substância de todos os fenômenos do Espírito, a expressar-se por ondas de múltiplas frequências.

Valendo-nos de ideia imperfeita, podemos compará-lo, de início, à onda hertziana, tomando o cérebro como sendo um aparelho emissor e receptor ao mesmo tempo.

PENSAMENTO E TELEVISÃO. — Recorrendo ainda a recursos igualmente incompletos, recordemos a televisão, cujos serviços se verificam à base de poderosos feixes eletrônicos devidamente controlados.

Nos transmissores dessa espécie, é imperioso conjugar a aparelhagem necessária à captação, transformação, irradiação e recepção dos sons e das imagens de modo simultâneo.

De igual maneira, até certo ponto, o pensamento, a formular-se em ondas, age de cérebro a cérebro; quanto a corrente de elétrons, de transmissor a receptor, em televisão.

Não desconhecemos que todo Espírito é fulcro gerador de vida onde se encontre.

E toda espécie de vida começa no impulso mental.

Sempre que pensamos, expressando o campo íntimo na ideação e na palavra, na atitude e no exemplo, criamos formas-pensamentos ou imagens-moldes que arrojamos para fora de nós, pela atmosfera psíquica que nos caracteriza a presença.

Sobre todos os que nos aceitem o modo de sentir e de ser, consciente ou inconscientemente, atuamos à maneira do hipnotizador sobre o hipnotizado, verificando-se o inverso toda vez que aderimos ao modo de ser e de sentir dos outros.

O campo espiritual de quem sugestiona gera no âmbito da própria imaginação os esboços ou planos que se propõe exteriorizar, assemelhando-se, então, à câmara de imagens do transmissor vulgar, em que o iconoscópio, com o jogo de lentes adequadas, focaliza a cena sobre a face sensível do mosaico que existe numa das extremidades dele mesmo, iconoscópio, ao passo que um dispositivo explorador, situado na outra extremidade, fornece um feixe tênue de elétrons ou raio explorador que percorre toda a superfície do mosaico.

Quando o raio explorador alcança a superfície do mosaico, desprende-se deste uma corrente elétrica de potência proporcional à luminosidade da região que está atravessando e, compreendendo-se que a maior ou menor luminosidade dos pontos diversos do mosaico equivale à imagem sobre ele mesmo refletida, perceberemos com facilidade que as variações de intensidade da corrente fornecida pelo mosaico equivalem à metamorfose das cenas em eletricidade, variações que respondem pelas modificações das cores e respectivos semitons.

As imagens arremessadas através do dispositivo de focalização da câmara, atingindo o mosaico, se fazem invisíveis ao olhar comum.

Nessa fase da transmissão, os vários pontos do mosaico acumulam maior ou menor corrente elétrica, segundo a porção de luz a incidir sobre eles.

Somente depois dessa operação, que prossegue em variadas minudências técnicas, é que a cena passa ao transmissor da imagem, a reconstituir-se, através do cinescópio ou válvula da imagem, no aparelho receptor, válvula essa cujo funcionamento é quase análogo ao do iconoscópio, na transmissão, embora fisicamente não se pareçam.

CÉLULAS E PEÇAS. — Com muito mais primor de organização, o cérebro ou cabine de manifestação do Espírito, tanto quanto possamos conhecer-nos, do ponto de vista da estrutura mental, em nossa presente condição evolutiva, possui nas células e implementos que o servem aparelhagens correspondentes às peças empregadas em televisão para a emissão e recepção das correntes eletrônicas, exteriorizando as ondas que lhe são características, a transportarem consigo estímulos, imagens, vozes, cores, palavras e sinais múltiplos, através de vias aferentes e eferentes, nas faixas de sintonia natural.

As válvulas, câmaras, antenas e tubos destinados à emissão dos elétrons, ao controle dos elétrons emitidos, à formação dos feixes corpusculares e respectiva deflexão vertical e horizontal e a operações outras para que o mosaico ou espelho elétrico forneça os sinais de vídeo, equivalentes à metamorfose da cena em corrente elétrica, e para que a tela fluorescente converta de novo os sinais de vídeo na própria cena óptica, a exprimir-se nos quadros televisionados, — configuram-se, admiravelmente, nos recursos sensíveis do cérebro, sistema nervoso, plexos e glândulas endócrinas, enriquecidos de outros elementos sensoriais no veículo físico e psicossomático, cabendo-nos, ainda, acentuar que a nossa comparação peca demasiado pela pobreza conceptual, porquanto, em televisão, na atualidade, há conjuntos distintos para emissão e recepção, quando o Espírito, na engrenagem individual do cérebro, conta com recursos avançados para serviços de emissão e recepção simultâneos.

ALAVANCA DA VONTADE. — Reconhecemos que toda criatura dispõe de oscilações mentais próprias, pelas quais entra em combinação espontânea com a onda de outras criaturas desencarnadas ou encarnadas que se lhe afinem com as inclinações e desejos, atitudes e obras, no quimismo inelutável do pensamento.

Compreendendo-se que toda partícula de matéria em movimentação se caracteriza por impulso inconfundível, fácil ser-nos-á observar que cada Espírito, pelo poder vibratório de que seja dotado, imprimirá aos seus recursos mentais o tipo de onda ou fluxo energético que lhe define a personalidade, a evidenciar-se nas faixas superiores da vida, na proporção das grandezas morais, do ponto de vista de amor e sabedoria, que já tenha acumulado em si mesmo.

E para manejar as correntes mentais, em serviço de projeção das próprias energias e de assimilação das energias alheias, dispõe a alma, em si, da alavanca da vontade, por ela vagarosamente construída em milênios e milênios de trabalho automatizante.

A princípio, adstrita aos círculos angustos do primitivismo, a vontade, agarrada ao instinto de preservação, faz do Espírito um inveterado monomaníaco do prazer inferior.

Avançando pelo terreno inicial da experiência, aparece o homem qual molusco inteligente, sempre disposto a fechar o circuito das próprias oscilações mentais sobre si mesmo, em monoideísmo intermitente.

VONTADE E APERFEIÇOAMENTO. — A memória e a imaginação, ainda curtas, limitam a volição do homem a simples tendência que, no fundo, é aspecto primário da faculdade de decidir.

Ele mesmo opera a retração da onda mental que o personaliza, repelindo as vibrações que o inclinem ao burilamento sempre difícil e à expansão sempre laboriosa, para deter-se no reino afetivo das vibrações que o atraem, onde encontra os mesmos tipos de onda dos que se lhe assemelham, capazes de entreter-lhe a egolatria, no gregarismo das longas simbioses em repetidas reencarnações de aprendizagem.

A civilização, porém, chega sempre.

O progresso impõe novos métodos e a dor estilhaça envoltórios.

As modificações da escolha acompanham a ascensão do conhecimento.

A vontade de prazer e a vontade de domínio, no curso de largos séculos, convertem-se em prazer de aperfeiçoar e servir, acompanhados de autodomínio.

CÍCLOTRON DA VONTADE. — Arremessa a criatura, naturalmente, a própria onda mental na direção dos Espíritos que penetraram mais amplos horizontes da evolução.

Alcançando semelhante estágio de consciência, a vontade, no campo do Espírito, desempenha o papel do cíclotron no mundo da Química, bombardeando automaticamente os princípios mentais que se lhe contraponham aos impulsos. 

E é, ainda, com essa faculdade determinante que ela preside as junções de onda, junto àquelas que se proponha assimilar, no plano das sintonias, de vez que, quanto mais elevado o discernimento, mais livre se lhe fará a criação mental originária para libertar e aprisionar, enriquecer e sublimar, agravar os males ou acrescentar os próprios bens na esfera do destino.


André Luiz











quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Emmanuel - Livro Alma e Coração - Chico Xavier - Cap. 29 - Distúrbios emocionais



Emmanuel - Livro Alma e Coração - Chico Xavier - Cap. 29


Distúrbios emocionais


Enquanto nos demoramos encarnados no Plano terrestre, um tipo de impaciência existe, sutil, capaz de arrastar-nos aos piores distúrbios emotivos: a revolta contra nós mesmos.

Acolhemos receios infundados, em torno de opiniões que formulem de nós, seja por deformidades físicas, frustrações orgânicas, conflitos psicológicos ou empeços sociais de que sejamos portadores, e adotamos o medo por norma de ação, no exagerado apreço a nós mesmos, e dessa inquietação sistemática comumente se deriva um desgosto contínuo contra as forças vivas que nos entretecem o veículo de manifestação. 

E tanto espancamos mentalmente esses recursos que acabamos neuróticos, fatigados, enfermos ou obsessos, escorregando mecanicamente para a calha da desencarnação prematura. 

Tudo por falta de paciência com as nossas provações ou com os nossos defeitos.

Decerto, ninguém nasce no corpo físico para louvar as deficiências que carrega ou ampliá-las, mas é preciso aceitar-nos como somos e fazer o melhor de nós.

Desinibição construtiva. 

Compreensão do aprendizado que se tem pela frente.

Acolher o instrumento físico de que o Alto Comando da Vida nos considera necessitados, tanto para resgatar culpas do pretérito na esfera individual, quanto para a consecução de empresas endereçadas ao benefício coletivo, e realizar todo o bem que pudermos.

O corpo carnal de que dispões ou a paisagem doméstico-social em que te situas, representam em si o utensílio certo e o lugar justo, indispensáveis à provação regeneradora ou à missão específica a que te deves afeiçoar. 

Por isso mesmo, o ponto nevrálgico da existência é o teste difícil que te exercita a resistência moral, temperando-te o caráter, no rumo do serviço maior do futuro.

Nossas perturbações emocionais quase sempre decorrem da nossa relutância em aceitar alguns dos aspectos menos agradáveis, conquanto passageiros da nossa vida. 

Saibamos, pois, rentear com eles, honestamente, corajosamente. Nada de subterfúgios. 

Temos um corpo defeituoso ou estamos em posição vulnerável à crítica? Seja assim. 

Contrariamente a isso, porém, reflitamos que ninguém está órfão da Bondade de Deus e, confiando-nos a Deus, procuremos concretizar tudo de bom ou de belo, no círculo de trabalho que se nos atribui.

Por outro lado, vale observar que reconhecer a existência do erro ou do desajuste em nós é sinal de melhoria e progresso. 

Os espíritos embutidos na inércia não enxergam as próprias necessidades morais. Acomodam-se à suposta satisfação dos sentidos em que se lhes anestesia a consciência, até que a dor os desperte, a fim de que retomem o esforço que lhes compete na jornada de evolução e aprimoramento.

Agradeçamos, desse modo, a luz espiritual de que já dispomos para analisar a nossa personalidade e, abraçando as tarefas de equilíbrio ou reequilíbrio que nos compete efetuar no próprio Espírito, enfrentemos os nossos obstáculos com paciência e serenidade, na certeza de que podemos solucionar todos os problemas na oficina do serviço com a bênção de Deus.


Emmanuel














quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Humberto de Campos - Livro Lázaro Redivivo - Chico Xavier - Cap. 41 - Adivinhações



Humberto de Campos - Livro Lázaro Redivivo - Chico Xavier - Cap. 41


Adivinhações


Meu amigo: você ainda pertence ao número daqueles que consideram os Espíritos desencarnados adivinhadores e pergunta o motivo pelo qual não pulverizamos as afirmativas dos detratores gratuitos e apressados do Espiritismo cristão. Julga você, acompanhando as águas de muita gente, que somos novas edições do velho Tirésias, precursor da “buena-dicha” e que, à maneira dos criados linguarudos, devemos estar em dia com todos os segredos do próximo, a fim de, por esse processo fácil, dar-lhe a conhecer nossas atividades espirituais, de modo concreto e insofismável.

Creia, porém, que a lógica não autoriza semelhantes suposições. Se o Espiritismo tivesse por advogados tão somente os magos do revelacionismo barato, a grande doutrina jamais passaria de movimento anedótico, em que o palpite e o boato se encarregariam de interceptar a luz divina. Reduzir-se-iam as sessões a espetáculos caseiros, com a supervisão de palhaços sem corpo físico, e os assistentes voltariam à posição psíquica das crianças curiosas, que frequentam as salas de mágica, atentando apenas para a varinha do feiticeiro.

Acredita você que a Providência Divina permitiria o regresso dos mortos apenas para isso? O fenômeno transcendente da comunicação com o Plano espiritual estaria circunscrito a meras demonstrações telepáticas?

Para muitas pessoas, a finalidade de nosso intercâmbio consiste em convencer os corações mais endurecidos, sem esforço. Os pais mortos imporiam convicções aos filhos, adivinhando-lhes as intenções e anulando-lhes o livre-arbítrio, na esfera das realizações materiais. Os esposos falecidos continuariam à testa da casa, satisfazendo caprichos da companheira, por mais disparatados que fossem. Entretanto, a morte é chave de emancipação para quantos esperam a liberdade construtiva. 

E aqui, no “outro mundo”, somos naturalmente compelidos a imediato reajustamento do quadro de opiniões pessoais. As afirmações quixotescas dos adversários da verdade não chegam a modificar um til nas leis universais e as suas arremetidas injuriosas contra os servidores fiéis da causa do bem não passam de bulha infantil, em torno das sublimes fontes da Nova Revelação. 

Aliás, é razoável que digam insultos e asneiras, atendendo aos impulsos da boca deseducada. Ignoram a grandeza do verbo criador e, por vezes, não passam de anões espirituais fantasiados de gigantes físicos. Nós outros, porém, que atravessamos a experiência do sepulcro, não podemos cair no mesmo nível. 

É indispensável examinar os problemas graves da vida, penetrar o conhecimento do destino e da dor, amparar a compreensão de eternidade nascente no mundo, e não seria lícito perder as horas em atender aos serviços de adivinhação barata. 

Além disso, é preciso ponderar as deploráveis consequências das informações prematuras. Referir-se-á você, naturalmente, aos belos serviços da psicometria na divulgação da doutrina consoladora. Sim, é certo. 

Não julgue, todavia, que esses trabalhos se efetuam sem o controle das inteligências esclarecidas de nossa esfera de ação. E não só os desencarnados necessitam disciplina em suas doações verbais: também os médiuns devem sofrear o desejo de adiantar ilações do que observam em silêncio, porque em assuntos de espiritualidade toda a prudência se faz imprescindível.

Li, algures, a história de um vidente moderno que passava por ser maravilhosamente verdadeiro. Certa vez, foi visitado por um homem que lhe pedia socorro para as aflições psíquicas. O cliente inquieto trazia consigo um quadro doloroso. 

Na existência passada, fora homicida e, no campo mental, embora a bênção do olvido no renascimento físico, estampava ainda a cena lamentável do pretérito delituoso. Desde a infância, em razão do resgate que deveria levar a efeito, era atormentado de pesadelos e tentações que pareciam sem termo. 

Davam-no os médicos por vítima de perturbações congênitas, e como não lhe solucionavam a questão angustiosa recorreu ao sensitivo, sequioso de paz íntima. O médium, usando a sua faculdade de penetração noutros domínios vibratórios e sentindo-se vaidoso da franqueza que lhe era característica, movimentou o cabedal das apreciações próprias e falou-lhe abertamente do que via. 

Sem o espírito da caridade construtora, concluiu o vidente loquaz que o quadro significava assassinato em futuro próximo, asseverando que o consulente mataria um homem. Retirou-se o enfermo d'alma em condições terríveis. 

Sugestionado pelo médium invigilante, passou a viver muito mais do passado criminoso, reconstituindo instintivamente as ideias sinistras de outra época. Deveria matar alguém e preparou-se para o horrível acontecimento. Correram os anos. Um, dois, três, quatro… 

O enfermo procurou eliminar diversos parentes e amigos sem resultado. Perdera o contato com o trabalho sadio. A ideia fixa do crime empolgava-o. Não dormia, alimentava-se mal e convertera-se em perigoso alienado, fora do hospício. 

A sua situação continuava angustiosa quando, certa noite, encontrou um homem a meditar numa ponte solitária. Não teria chegado o momento? — Pensou. Não lhe cabia assassinar um homem? Perturbado, aflito, precipitou-se sobre o desconhecido e apunhalou-o. Mais alguns instantes e aclarava-se a identidade do morto. 

O assassinado era o vidente, fornecedor do pensamento inicial do crime. A ideia, pequena e insignificante a princípio, desenvolvera-se, crescera e agira contra o seu próprio criador.

Compreende você a responsabilidade dos que fazem conclusões precipitadas ou que adiantam informações prematuras? Responderemos por todas as imagens mentais que criarmos nos cérebros alheios.

Natural, portanto, nosso retraimento em matéria de pareceres inoportunos e novidades sensacionais. A obra evolutiva de cada um de nós pede tempo e experiência.

Se você deseja cooperar nas fileiras do Espiritismo cristão, instrua-se no conhecimento da verdade e edifique-se na prática do bem, abstendo-se de exigir o concurso dos seus amigos desencarnados, no campo do revelacionismo fácil. Divulgue, onde você vive e trabalha, a mensagem de boa vontade e colaboração evangélica que a fé e o esforço próprio gravaram em seu coração. Quanto aos detratores e perseguidores vulgares, não lhes conceda o apreço que estão muito longe de merecer. Entregue-os à luz abençoada da consciência, porque o sofrimento e a morte se encarregarão de transformá-los, no instante oportuno.



Humberto de Campos
Irmão X














André Luiz - Livro Nos Domínios da Mediunidade - Chico Xavier - Cap. 20 - Mediunidade e oração



André Luiz - Livro Nos Domínios da Mediunidade - Chico Xavier - Cap. 20


Mediunidade e oração


Em estreito aposento, uma senhora, aparentando setenta anos de idade, acusava aflitiva dispneia.

A pequena Márcia, agitando um leque improvisado, propiciava-lhe ar fresco.

Ao lado da enferma, porém, uma entidade de aspecto desagradável exibia estranha máscara de perturbação e sofrimento, imantando-se a ela e agravando-lhe os tormentos físicos.

Tratava-se de um homem desencarnado, demonstrando no olhar a alienação mental evidente.

Enquanto Anésia se acomodava, junto à doente, com inexcedível ternura, procurando esquecer-se de si mesma para ajudá-la, Áulus informou, prestimoso:

— Temos aqui nossa irmã Elisa, em avançado processo liberatório… Vive as últimas horas no corpo carnal…

— E este homem de triste apresentação que lhe guarda a cabeceira? — Perguntou Hilário, indicando a entidade que não nos via.

— Este é um infortunado filho de nossa veneranda amiga, há muitos anos distanciado da experiência física. Teve a infelicidade de chafurdar no vício da embriaguez e foi assassinado numa noite de extravagância. A genitora, porém, dele se recorda, como a um herói, e, a evocá-lo incessantemente, retém o infeliz ao pé do próprio leito.

— Ora essa! Por quê?

O Assistente modificou o tom de voz e recomendou-nos serenidade. Analisaríamos o caso em momento oportuno. O problema de Anésia pedia colaboração imediata.

Realmente, a pobre senhora, de fisionomia fatigada, acariciava a enferma com palavras de amor, mas Dona Elisa parecia aloucada, distante…

Anésia desfez-se em lágrimas.

— Por que chorar, mãezinha? Vovó não está pior…

A voz meiga de Márcia ressoou no quarto, modulada com inefável carinho.

A menina, que nem de longe poderia perceber a tortura materna, enlaçou a genitora convidando-a à oração.

Dona Anésia desejou a presença das filhas mais velhas, contudo, Marcina e Marta alegaram que o natalício de uma companheira de trabalho lhes impunha a necessidade de sair por alguns minutos.

A dona da casa sentou-se rente à enferma e, acompanhada pela atenção da filhinha, pronunciou sentida prece.

À medida que orava, funda modificação se lhe imprimia ao mundo interior. Os dardos de tristeza, que lhe dilaceravam a alma, desapareceram ante os raios de branda luz a se lhe exteriorizarem do coração. Desde esse instante, qual se houvera acendido uma lâmpada em plena obscuridade, vários desencarnados sofredores penetraram o quarto, abeirando-se dela, à maneira de doentes, solicitando medicação.

Nenhum deles nos assinalava a presença e, diante da nossa curiosidade silenciosa, Áulus aclarou:

— São companheiros que trazem ainda a mente em teor vibratório idêntico ao da existência na carne. 

Na fase em que estagiam, mais depressa se ajustam com o auxílio dos encarnados, em cuja faixa de impressões ainda respiram. Quantos se encontram em semelhante estado, dentro do raio de ação das preces de nossa amiga, recebem o toque de espiritualidade que emana do serviço dessa natureza e, quando sensíveis ao bem ou sedentos de renovação interior, dão-se pressa em responder ao apelo de elevação que os visita, aderindo à oração, de cujo sublime poder recolhem esclarecimento e consolo, amparo e benefício.

— Quanto valor num insignificante ato de fé!…

O Assistente afagou a fronte inquieta de Hilário e concordou:

— Sim o homem terrestre criou enormes complicações ao seu caminho, contudo, a morte constrange-o a regressar aos alicerces da simplicidade para a regeneração da própria vida.

A essa altura, Anésia abriu precioso livro de meditações evangélicas, acreditando agir ao acaso, mas o tema, em verdade, foi escolhido por Teonília, que lhe vigiava, bondosa, os movimentos.

Com surpresa, a dona da casa notou que o texto se reportava à necessidade do trabalho e do perdão.

Dócil, correspondendo à influenciação da mentora espiritual, a esposa de Jovino começou a falar sabiamente sobre os impositivos do serviço e da tolerância construtiva, em favor da edificação justa do bem.

A voz dela, fluente e suave, transmitia, sem que ela mesma percebesse, o pensamento de Teonília que, com isso, buscava socorrer-lhe o coração atormentado.

Numa pausa mais longa, Márcia reparou com inteligência:

— Continue, mãezinha! Continue… Tenho a ideia de que nos achamos à frente de enorme multidão…

E sem refletir que estava pregando, acima de tudo, para si mesma, Anésia adiantou:

— Sim, minha filha, estamos sozinhas porque a vovó, fatigada, não nos ouve. Isso, porém, é só na aparência. Muitos irmãos desencarnados, decerto, permanecem aqui conosco e acompanham nosso culto de oração.

E prosseguiu nos comentários que, efetivamente, acendiam novo ânimo nas almas presentes, ávidas de luz, tanto quanto sequiosas de paz e refazimento.

Terminada a tarefa, Márcia despediu-se da mãezinha com um beijo.

O serviço escolar da manhã exigia o repouso mais cedo.

Depois de afetuosas recomendações à menina, viu-se Anésia a sós com a genitora semi-inconsciente.

Acariciou-lhe o rosto pergaminhado e pálido, acomodou-lhe a cabeça suarenta nos travesseiros e estirou-se ao lado dela, como que procurando pensar, pensar…

Áulus fez significativo gesto a Teonília e exclamou:

— Este é o momento exato.

Cuidadosamente, começaram ambos a aplicar-lhe passes sobre a cabeça, concentrando energia magnética ao longo das células corticais.

Anésia viu-se presa de branda hipnose, que ela própria atribuía ao cansaço e não relutou.

Em breves instantes, deixava o corpo denso na prostração do sono, vindo ao nosso encontro em desdobramento quase natural.

Não parecia, contudo, tão consciente em nosso Plano quanto seria de desejar.

Centralizada no afeto ao marido, Jovino constituía-lhe obcecante preocupação. Reconheceu Teonília e Áulus por benfeitores e lançou-nos significativo olhar de simpatia, no entanto, mostrava-se atordoada, aflita… Queria ver o esposo, ouvir o esposo…

O Assistente deliberou satisfazê-la.

Amparada pelos braços da admirável amiga, tomou a direção que lhe pareceu acertada, como quem possuía, de antemão, todos os dados necessários à localização do marido.

Áulus conosco explicou que as almas, quando associadas entre si, vivem ligadas umas às outras pela imanação magnética, superando obstáculos e distâncias.

Em vasto salão de um clube noturno, surpreendemos Jovino e a mulher que se fizera nossa conhecida nos fenômenos telepáticos, integrando um grupo alegre, em atitudes de profunda intimidade afetiva.

Rodeando o conjunto, diversas entidades, estranhas para nós, formavam vicioso círculo de vampiros que não nas registaram a presença.

O anedotário menos edificante prendia as atenções.

Ao defrontar o companheiro na posição em que se achava, Anésia desferiu doloroso grito e caiu em pranto.

Seguida por nós, recuou ferida de aflição e assombro e tão logo nos vimos na via pública, bafejados pelo ar leve da noite, o Assistente abraçou-a, paternal.

Notando-a mais senhora de si, embora o sofrimento lhe transfigurasse o rosto, falou-lhe com extremado carinho:

— Minha irmã, recomponha-se. Você orou, pedindo assistência espiritual, e aqui estamos, trazendo-lhe solidariedade. Reanime-se! Não perca a esperança!…

— Esperança? — Clamou a pobre criatura em lágrimas. — Fui traída, miseravelmente traída…

E o entendimento, entre os dois, prosseguiu comovente e expressivo.

— Traída por quem?

— Por meu esposo, que falhou aos compromissos do casamento.

— Mas você admite, porventura, que o casamento seja uma simples excursão no jardim da carne? Supôs que o matrimônio terrestre fosse apenas a música da ilusão a eternizar-se no tempo? 

Minha amiga, o lar é uma escola em que as almas se reaproximam para o serviço da sua própria regeneração, com vistas ao aprimoramento que nos cabe apresentar de futuro. Você ignora que no educandário há professores e alunos? Desconhece que os melhores devem ajudar aos menos bons?

A interlocutora, chamada a brios, sustou a lamentação. Ainda assim, após fitar o nosso orientador com entranhada confiança, alegou, triste:

— Mas Jovino…

Áulus, porém, cortou-lhe a frase, acrescentando:

— Esquece-se de que seu esposo precisa muito mais agora de seu entendimento e carinho? 

Nem sempre a mulher poderá ver no companheiro o homem amado com ternura, mas sim um filho espiritual necessitado de compreensão e sacrifício para soerguer-se, como também nem sempre o homem conseguirá contemplar na esposa a flor de seus primeiros sonhos, mas sim uma filha do coração, a requisitar-lhe tolerância e bondade, a fim de que se transfira da sombra para a luz. 

Anésia, o amor não é tão somente a ventura rósea e doce do sexo perfeitamente atendido. É uma luz que brilha mais alto, inspirando a coragem da renúncia e do perdão incondicionais, em favor do ser e dos seres que nós amamos. 

Jovino é uma planta que o Senhor lhe confiou às mãos de jardineira. É compreensível que a planta seja assaltada pelos parasitas ou pelos vermes da morte, todavia, nada há a recear se a jardineira está vigilante…

Nesse ponto das belas palavras do instrutor, a mãezinha de Márcia voltou-se para ele, à maneira de uma doente agarrando-se ao médico, e rogou em voz súplice:

— Sim, sim… Reconheço… Entretanto, não me deixe sozinha… Sinto-me atribulada. Que fazer da mulher que o domina? Nela vejo a perturbação e o fel de nossa casa… Assemelha-se a um Espírito diabólico, fascinando-o e destruindo-o…

— Não se refira a ela assim, com palavras amargas! É também nossa irmã, vitimada por lastimáveis enganos!…

— Mas como aceitá-la? Percebo-lhe a influência maligna… Parece uma serpente invisível, trazendo consigo pavorosos monstros para junto de nós… Nosso templo doméstico, por isso, transformou-se num inferno em que não mais nos entendemos… Tudo agora é fracasso, desarmonia e insegurança… Que fazer de semelhante criatura?

— Compadeçamo-nos dela! Terrível ser-lhe-á o despertamento.

— Compaixão?

— E que outra melhor represália senão essa?

— Não seria mais justo situá-la na reparação dos próprios erros? Não seria mais certo relegá-la ao lugar escuro que merece?

Áulus, porém, tomou-lhe a destra inquieta e esclareceu:

— Abstenhamo-nos de julgar. Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. 

A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte? 

Por mais aflitiva lhe seja a lembrança dessa mulher, recorde-a em suas preces e em suas meditações, por irmã necessitada de nossa assistência fraterna. 

Ainda não readquirimos nossa memória integral do passado e nem sabemos o que nos ocorrerá no futuro… Quem terá sido ela no pretérito? Alguém que ajudamos ou ferimos? Quem será para nós no porvir? Nossa mãe ou nossa filha? 

Não condene! O ódio é como o incêndio que tudo consome, mas o amor sabe como apagar o fogo e reconstruir. 

Segundo a Lei, o bem neutraliza o mal, que se transforma, por fim, em servidor do próprio bem. 

Ainda que tudo pareça conspirar contra a sua felicidade, ame e ajude sempre, porque o tempo se incumbirá de expulsar as trevas que nos visitam, à medida que se nos aumente o mérito moral.

Anésia, assemelhando-se a uma criança resignada, pousou no benfeitor os olhos límpidos, como a prometer-lhe obediência, e Áulus, afagando-a, recomendou:

— Volte ao lar e use a humildade e o perdão, o trabalho e a prece, a bondade e o silêncio, na defesa de sua segurança. A mãezinha enferma e as filhinhas reclamam-lhe amor puro, tanto quanto o nosso Jovino, que voltará, mais experiente, ao refúgio de seu coração.

Anésia ergueu a cabeça para o firmamento constelado de luz, pronunciando uma oração de louvor e, em seguida, tornou a casa.

Vimo-la despertar no corpo carnal, de alma renovada, quase feliz…

Enxugou as lágrimas que lhe banhavam o rosto e tentou ansiosamente recordar, ponto a ponto, a entrevista que tivera conosco.

Em verdade, não conseguiu alinhar senão fragmentárias reminiscências, mas reconheceu-se reconfortada, sem revolta e sem amargura, como se mãos intangíveis lhe houvessem lavado a mente, conferindo-lhe uma compreensão mais clara da vida.

Recordou Jovino e a mulher que o hipnotizava, compadecidamente, como pessoas a lhe exigirem tolerância e piedade.

Profundo entendimento brotava-lhe agora do espírito. A compreensão da irmã superara o desequilíbrio da mulher.

E pensava: “Que lhe adiantaria a revolta ou o desânimo, quando lhe competia a defesa do lar? Fazendo justiça com as próprias mãos, não prejudicaria aqueles que lhe constituíam a riqueza do coração?! 

Em qualquer parte, o escândalo é a ruína da felicidade… Não devia render graças a Deus por sentir-se na condição da esposa digna? 

Sim, decerto a pobre criatura que lhe perturbava o marido não havia acordado ainda para a responsabilidade e para o discernimento. Necessitava, pois, de compaixão e de amparo, ao invés de crítica e azedume…”

Consolada e satisfeita, passou à medicação da genitora.

Hilário, admirado, exaltou os méritos da oração, ao que Áulus enunciou:

— Em todos os processos de nosso intercâmbio com os encarnados, desde a mediunidade torturada à mediunidade gloriosa, a prece é abençoada luz, assimilando correntes superiores de força mental que nos auxiliam no resgate ou na ascensão.

Indicando a dona da casa, agora em serviço no aposento, meu colega observou:

— Vemos, então, em nossa amiga preciosa mediunidade a desenvolver-se…

— Como acontece a milhões de pessoas disse o orientador, — ela detém consigo recursos medianímicos apreciáveis, que podem ser inclinados para o bem ou para o mal, competindo-lhe a obrigação de construir dentro de si mesma a fortaleza de conhecimento e vigilância, na qual possa desfrutar, em pensamento, as companhias espirituais que mais lhe convenham à felicidade.

— E pela prece busca solução para os enigmas que lhe flagelam a existência…

Áulus sorriu e ajuntou:

— Encontramos aqui precioso ensinamento acerca da oração… Anésia, mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha doente aproxima-se da morte, entretanto, nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provações que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente transforma as situações.

O Assistente, contudo, interrompeu-se e lembrou-nos o horário de volta.

Por solicitação de Teonília, examinou a doente e concluiu que a desencarnação de Dona Elisa estava próxima.

Externei o desejo de analisar-lhe o campo orgânico; todavia, o instrutor recordou-nos a hora avançada e prometeu voltar conosco, em tarefa de assistência à velhinha na noite próxima.


André Luiz






Vídeo: 

CAPÍTULO 20 - MEDIUNIDADE E ORAÇÃO
O Espírito da Letra


Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Analisando a obra de André Luiz Nos Domínios da Mediunidade - Psicografia de Chico Xavier 

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Auta de Souza - Livro Auta de Souza - Chico Xavier - Cap. 62 - Na luz perene



Auta de Souza - Livro Auta de Souza - Chico Xavier - Cap. 62


Na luz perene 


Não te rendas aos golpes da amargura,
Nem conserves a mágoa no teu ninho;
A dor que atinge extremos de tortura
É refúgio real no torvelinho.

Colhe as flores da estrada com brandura,
E planta novos sonhos de carinho;
Socorre a inquietação que te procura,
E eis que a paz te enobrece no caminho.

Se te escasseia o amor à própria vida,
Descerás para a sombra, instante a instante,
Ao tributo fatal da morte infrene.

Mas se buscas sorrir e dar guarida
Ao cansado viajor de passo errante,
Renascerás, feliz, na Luz Perene!…


Auta de Souza












Cairbar Schutel - Livro Praça da Amizade - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 15 - Citações do progresso



Cairbar Schutel - Livro Praça da Amizade - Espíritos Diversos / Chico Xavier - Cap. 15


Citações do progresso


Não te lastimes quando as circunstâncias te exigirem essa ou aquela mudança; isso é sinal de que a vida te favorece a renovação.


Cairbar Schutel








Bezerra de Menezes - Livro Cartas do Coração - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 27 - Nos serviços de cura



Bezerra de Menezes - Livro Cartas do Coração - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 27


Nos serviços de cura


Não basta rogar ajuda para si.

É indispensável o auxílio aos outros.

Não vale a revelação de humildade na indefinida repetição dos pedidos de socorro.

É preciso não reincidirmos nas faltas.

Não há grande mérito em solicitarmos perdão diariamente.

É necessário desculparmos com sinceridade as ofensas alheias.

Não há segurança definitiva para nós se apenas fazemos luz na residência dos vizinhos.

É imprescindível acendê-la no próprio coração.

Não nos sintamos garantidos pela certeza de ensinarmos o bem a outrem.

É imperioso cultivá-lo por nossa vez.

Não é serviço completo a ministração da verdade construtiva ao próximo.

Preparemos o coração para ouvi-la de outros lábios, com referência às nossas próprias necessidades, sem irritação e sem revolta.

Não é integral a medicação para as vísceras enfermas.

É indispensável que não haja ódio e desespero no coração.

Não adianta o auxílio do Plano Superior, quando o homem não se preocupa em retê-lo.

Antes de tudo, é preciso purificar o vaso humano para que se não perca a essência divina.

Não basta suplicar a intercessão dos bons.

Convençamo-nos de que a nossa renovação para o bem, com Jesus, é sagrado impositivo da vida.

Não basta restaurar simplesmente o corpo físico.

É inadiável o dever de buscarmos a cura espiritual para a vida eterna.


Bezerra de Menezes