Mostrando postagens com marcador dezembro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dezembro. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Bernard Palissy - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano I, Dezembro de 1858 - Dissertações de além-túmulo - As flores



Bernard Palissy - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano I, Dezembro de 1858 - Dissertações de além-túmulo


As flores 


As flores foram criadas no mundo como símbolos da beleza, da pureza e da esperança.

Como é que o homem que vê as corolas se abrirem todas as primaveras e as flores se fanarem para dar lugar a frutos deliciosos não pensa que assim sua vida murchará, mas para dar frutos eternos? Que vos importam, pois, as tempestades e as torrentes? Essas flores jamais perecerão, como não perece a mais frágil obra do Criador. Coragem, pois, homens que caís pela estrada; levantai-vos como o lírio após a tempestade, mais puros e mais radiosos. Como às flores, os ventos vos açoitam por todos os lados; eles vos derribam e vos arrastam pela lama, mas quando o sol reaparece, reerguei também vossas cabeças, com mais nobreza e mais grandeza.

Amai as flores. Elas são o emblema de vossa vida e não deveis corar por serdes a elas comparados. Tende-as nos vossos jardins, nas vossas casas, mesmo nos vossos templos, pois elas são agradáveis em qualquer lugar. Onde quer que estejam, elas inspiram a poesia e elevam a alma de quem sabe compreendê-las. Não foi nas flores que Deus manifestou todas as suas magnificências? Como conheceríeis as cores suaves com que o Criador alegrou a Natureza se não fossem as flores? Antes que o homem tivesse cavado as entranhas da Terra para achar o rubi e o topázio, ele tinha as flores diante de si, e essa variedade infinita de nuanças já o consolava da monotonia da superfície da Terra. Amai, pois, as flores: sereis mais puros e mais amoráveis; sereis talvez mais crianças, mas sereis os filhos queridos de Deus, e vossas almas simples e sem mácula serão acessíveis a todo o seu amor, a toda a alegria com que ele aquecerá os vossos corações.

As flores querem ser tratadas por mãos esclarecidas. A inteligência é necessária à sua prosperidade. Durante muito tempo estivestes errados na Terra, deixando tal cuidado a mãos inábeis, que as mutilavam, julgando embelezá-las. Nada mais triste que as árvores redondas ou pontiagudas de alguns dos vossos jardins, pirâmides de verdura que fazem o efeito de um monte de feno. Deixai que a natureza se desenvolva sob mil formas diversas. Aí está a graça. Feliz aquele que sabe admirar a beleza de uma haste que se balouça, semeando a poeira fecundante. Feliz aquele que vê em suas cores brilhantes um infinito de graça, de delicadeza, de colorido, de nuanças que fogem e se buscam, se perdem e se reencontram. Feliz aquele que sabe compreender a beleza da gradação dos tons! Desde a raiz escura que se consorcia com a terra, como as cores se fundem até o escarlate da tulipa e da papoula! (Por que esses nomes rudes e bizarros?) Estudai tudo isto e observai as folhas que surgem umas das outras como gerações infinitas, até o seu completo desabrochar sob a abóboda celeste.

Não parece que as flores saem da Terra para lançar-se em direção a outros mundos? Não parece que muitas vezes vergam dolorosamente a cabeça por não poderem elevar-se ainda mais alto? Não julgamos que as flores, por sua beleza, estão mais próximas de Deus? Imitai-as, pois, e tornai-vos cada vez maiores, cada vez mais belos.

Vossa maneira de aprender Botânica também é defeituosa. Não basta saber o nome de uma planta. Recrutar-te-ei, quando tiveres tempo, para trabalhar também numa obra desse gênero. Deixo para mais tarde as lições que hoje desejaria dar-te. Elas serão mais úteis quando tivermos oportunidade de aplicá-las. Então falaremos dos gêneros de culturas; dos lugares que lhes convêm; da adequação do edifício para o arejamento e a salubridade das habitações.

Se publicares isto, corta os últimos parágrafos, para que não sejam tomados como anúncios. 


Bernard Palissy







OBSERVAÇÃO: Esta comunicação e a seguinte foram obtidas pelo Sr. F..., o mesmo de quem falamos em nosso número de outubro, a propósito dos obsedados e subjugados. Por aí se pode julgar a diferença entre a natureza de suas comunicações atuais e as de outrora. Sua vontade triunfou completamente da obsessão de que era vítima, e seu mau Espírito não reapareceu. Estas duas dissertações lhe foram ditadas por Bernard Palissy.







sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858 - Dezembro - Sensações dos Espíritos - O períspirito




Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858 - Dezembro

Sensações dos Espíritos
O períspirito


Sofrem os Espíritos? Que sensações experimentam? Tais perguntas nos são naturalmente dirigidas e procuramos respondê-las. Inicialmente devemos dizer que para tanto não nos contentamos com respostas dos Espíritos. De certo modo tivemos que considerar a sensação como um fato, através de numerosas observações.

Numa de nossas reuniões, pouco depois de havermos recebido de São Luís uma bela dissertação sobre a avareza, cuja publicação foi feita em nosso número de fevereiro, um dos nossos associados contou o fato que se segue, a respeito daquela dissertação.

“Numa pequena reunião de amigos, ocupávamo-nos de evocações quando, inopinadamente e sem que o tivéssemos chamado, apresentou-se um Espírito que havíamos conhecido muito bem, e que em vida poderia ter servido de modelo ao retrato do avarento feito por São Luís: um desses homens que vivem miseravelmente no meio da fortuna; que se privam, não pelos outros, mas para acumular sem proveito para ninguém. Foi no inverno e nós estávamos perto do fogo. De repente aquele Espírito trouxe à nossa lembrança o seu nome, no qual estávamos longe de pensar e nos pediu permissão para vir durante três dias aquecer-se à nossa lareira, dizendo que sentia horrivelmente o frio que voluntariamente suportara durante a vida e que, por avareza, obrigara os outros a suportar. Isto seria um alívio, acrescentou ele, se quiserdes conceder-mo.”

Aquele espírito experimentava penosa sensação de frio. Mas como a experimentava? Nisto é que estava a dificuldade.

A esse respeito, dirigimos a São Luís as perguntas que se seguem.


1. ─ Teríeis a bondade de dizer-nos como esse Espírito de avarento, que não tinha mais o corpo material, podia sentir frio e pedir para se aquecer?

─ Podes imaginar os sofrimentos do Espírito pelos sofrimentos morais.

2. ─ Compreendemos os sofrimentos morais, como pesares, remorsos, vergonha, mas o calor, o frio e a dor física não são efeitos morais. Os Espíritos experimentam esta espécie de sensações?

─ Tua alma sente frio? Não, mas tem a consciência da sensação que age sobre o corpo.

3. ─ Parece disso decorrer que esse Espírito de avarento não sentia um frio real, mas que ele tinha a lembrança da sensação do frio que havia suportado, e essa lembrança, que lhe era como uma realidade, tornava-se um suplício.

─ É mais ou menos isto. Fique bem entendido que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente, entre a dor física e a dor moral. Não se deve confundir o efeito com a causa.

─ Se bem compreendemos, poder-se-ia, ao que parece, explicar as coisas do seguinte modo: O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primeira, é pelo menos a causa imediata. A alma tem a percepção dessa dor. Essa percepção é o efeito. A lembrança que disso conserva pode ser tão penosa quanto a realidade, mas não pode ter ação física. Realmente, nem frio nem calor intensos podem desorganizar-lhe os tecidos. A alma nem pode ficar gelada nem se queimar. Não vemos diariamente a lembrança ou a apreensão de um mal físico produzir o efeito da realidade? Ocasionar até a morte? Todo mundo sabe que pessoas amputadas sentem dor no membro que não existe mais. Certamente esse membro não é nem a sede, nem mesmo o ponto de partida da dor. O cérebro conservou-lhe a impressão, eis tudo. 

4. Pode-se pois crer que existe algo de análogo nos sofrimentos do Espírito após a morte. Estas reflexões estão corretas?

─ Sim. Mais tarde compreendereis ainda melhor. Esperai que outros fatos vos forneçam novos pontos de observação. Então podereis tirar conclusões mais completas.

Isto se passava no começo do ano de 1858. Efetivamente, desde então um estudo mais aprofundado do perispírito, que representa um importante papel em todos os fenômenos espíritas e do qual ainda não se havia tomado conhecimento: as aparições vaporosas ou tangíveis; o estado do Espírito no momento da morte; a ideia, tão frequente no Espírito, de que ainda se acha vivo; o quadro impressionante dos suicidas, dos suplicados, dos que se absorveram nos prazeres materiais e tantos outros fatos vieram lançar uma luz sobre esta questão e deram lugar a explicações cujo resumo fazemos a seguir:

O perispírito é o laço que une o Espírito à matéria do corpo; ele é tirado do meio ambiente, do fluido universal; ele tem, simultaneamente, algo da eletricidade, do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria: é o princípio da vida orgânica, mas não o é da vida intelectual. A vida intelectual está no Espírito. Ele é, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, essas sensações estão localizadas nos órgãos que lhe servem de canais. Destruído o corpo, as sensações tornam-se gerais. Eis por que o Espírito não diz que sofre mais da cabeça do que dos pés. Além disso, é necessário não confundir as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as do corpo. Não podemos tomar estas últimas senão como termo de comparação e não como analogia. Um excesso de calor ou de frio pode desorganizar os tecidos do corpo, entretanto não pode atingir o perispírito. Desprendido do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é o do corpo. Contudo, não é um sofrimento exclusivamente moral, como o remorso, de vez que ele se queixa de frio ou de calor; ele não sofre mais no inverno do que no verão; vimo-los passar através das chamas sem experimentar nenhum sofrimento. Assim, nenhuma impressão sobre eles pode exercer a temperatura. A dor que sentem não é, pois, uma dor física, propriamente dita. É um vago sentimento íntimo, de que o próprio Espírito nem sempre se dá conta com precisão, porque a dor não é localizada e não é produzida por agentes externos. É mais uma lembrança do que uma realidade, posto seja uma lembrança realmente penosa. Há, entretanto, algo mais que uma lembrança, como passaremos a ver.

Ensina-nos a experiência que no momento da morte o perispírito se desprende mais ou menos lentamente do corpo. Durante os primeiros instantes o Espírito não se dá conta da situação; não se julga morto; sente-se vivo; vê seu o corpo ao lado; sabe que é o dele, mas não compreende que do mesmo esteja separado. Esse estado dura enquanto existe uma ligação entre o corpo e o perispírito.

Recordemos a evocação do suicida da casa de banhos da Samaritana, descrita em nosso número de junho. Como todos os outros, ele dizia: “Não, eu não estou morto.” Mas acrescentava: “Entretanto, sinto que os vermes me roem.” Ora, seguramente os vermes não roem o perispírito e, ainda menos o Espírito. Apenas roem o corpo. Como a separação do corpo e do perispírito não era completa, o resultado era uma espécie de repercussão moral que lhe transmitia a sensação do que acontecia no corpo. Repercussão talvez não seja o vocábulo, o qual poderia fazer supor um efeito muito material. Era antes a visão daquilo que se passava em seu corpo, ao qual estava ligado o seu perispírito, que lhe produzia uma ilusão, que ele tomava como realidade. Assim, não é uma lembrança, pois que em vida não tinha sido roído pelos vermes. Era um sentimento atual.

Vemos por aí as deduções que podem ser tiradas dos fatos, quando observados com atenção. Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito, por intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, aquilo que é chamado fluido nervoso. Morto, o corpo não mais sente, porque nele já não há Espírito nem perispírito. Desprendido do corpo, o perispírito experimenta a sensação. Entretanto, como esta não lhe chega através de um canal limitado, é geral. Ora, como na realidade existe apenas um agente transmissor, desde que é o Espírito que tem a consciência, disto resulta que se pudesse existir um perispírito sem Espírito, este não sentiria mais do que o corpo quando morto. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a qualquer sensação dolorosa. É isto o que acontece com os Espíritos completamente depurados. Sabemos que quanto mais se depuram, tanto mais eterizada se torna a essência do perispírito, de onde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o perispírito se torna menos grosseiro.

Dir-se-á, entretanto, que as sensações agradáveis são transmitidas ao Espírito pelo perispírito, assim como as desagradáveis. Ora, se o Espírito puro é inacessível a umas, deve sê-lo igualmente a outras. Sim, sem dúvida, às que provêm unicamente da influência da matéria que conhecemos. O som de nossos instrumentos, o perfume de nossas flores nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, há nele sensações íntimas, de um encanto indefinível do qual nenhuma ideia podemos fazer, porque a tal respeito somos como cegos de nascença em relação à luz. Sabemos que isto existe, mas por que meio? Daqui não passam nossos conhecimentos. Sabemos que há percepção, sensação, audição, visão; que essas faculdades são atributos do ser inteiro e não, como no homem, de uma parte do ser. Mas, ainda uma vez, por que meio? Eis o que ignoramos. Os próprios Espíritos não nos podem dar esclarecimentos sobre isso porque nossa linguagem não é apta a exprimir ideias que não possuímos, do mesmo modo que um povo cego não teria palavras para exprimir os efeitos da luz, ou a linguagem dos selvagens, meios para descrever as nossas artes, as nossas ciências e as nossas doutrinas filosóficas.

Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões de nossa matéria, queremos referir-nos aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não tem analogia aqui na Terra. Já o mesmo não se dá com aqueles cujo perispírito é mais denso. Esses percebem os nossos sons, os nossos odores, mas não por uma parte limitada do seu ser, como quando vivos. Poder-se-ia dizer que as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o seu ser e assim chegam ao sensorium commune, que é o próprio Espírito, posto que de maneira diferente e talvez mesmo com uma impressão diferente, o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o som de nossa voz, entretanto nos entendem sem o recurso da palavra, pela simples transmissão do pensamento, o que vem em apoio àquilo que dizíamos, isto é, que tal penetração é tanto mais fácil quanto mais desmaterializado é o Espírito.

Quanto à visão, ela independe da nossa luz. A faculdade de ver é um atributo essencial da alma. Para ela não existe obscuridade. No entanto, ela é mais extensa e penetrante naqueles que são mais depurados. A alma, ou Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as percepções. Na vida corpórea estas são obliteradas pela grosseria de nossos órgãos. Na vida extracorpórea são cada vez menos obliteradas, à medida que se depura o envoltório semimaterial.

Tirado do meio ambiente, esse envoltório varia segundo a natureza dos mundos. Passando de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório como nós mudamos as roupas ao passar do inverno ao verão, ou do polo ao equador. Quando nos vêm visitar, os Espíritos mais elevados revestem-se, pois, de seu perispírito terrestre e a partir de então suas percepções se operam como nos nossos Espíritos comuns. Mas todos, tanto inferiores como superiores, nem ouvem nem sentem senão aquilo que querem ouvir ou sentir. Sem órgãos sensitivos, podem, à vontade, tornar as suas percepções ativas ou anulá-las. Existe apenas uma coisa que são obrigados a ouvir: os conselhos dos bons Espíritos.

A vista é sempre ativa, mas podem tornar-se reciprocamente invisíveis uns para os outros. Segundo a posição que ocupam, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, mas não dos superiores.

Nos primeiros momentos que se seguem à morte, a visão do Espírito é sempre confusa e perturbada. Torna-se clara à medida que se desprende e pode adquirir a mesma clareza que durante a vida, independentemente de sua penetração através dos corpos para nós opacos. Quanto à sua extensão através do espaço infinito, tanto no passado como no futuro, depende do grau de pureza e de elevação do Espírito.

Dirão que toda esta teoria não é nada animadora. Imaginávamos que uma vez desembaraçados do grosseiro envoltório material, instrumento de nossas dores, não mais sofreríamos. Eis que nos ensinais que sofreremos ainda. De uma ou de outra forma, não haverá menos sofrimento. Ai de nós!

Sim, nós podemos continuar sofrendo, e muito, e por muito tempo, mas também podemos deixar de sofrer, até mesmo a partir do momento em que deixamos a vida corpórea.

Os sofrimentos terrenos são por vezes independentes de nós. Muitos, porém, são consequência de nossa vontade. Remontemos à fonte e veremos que a maior parte deles resultam de causas que poderíamos ter evitado. Quantos males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus excessos, à sua ambição, numa palavra, às suas paixões?

O homem que tivesse vivido sobriamente; que não tivesse abusado de nada; que sempre tivesse sido simples em seus gostos e modesto nos seus desejos, pouparse-ia a muitas tribulações.

O mesmo se dá com o Espírito. Os sofrimentos que padece são sempre consequência da maneira como viveu na Terra. Certamente não sofrerá mais de gota ou de reumatismo, mas terá outros sofrimentos que não são menores. Vimos que seus sofrimentos são o resultado dos laços que ainda existem entre ele e a matéria; que quanto mais desvinculado da influência da matéria ou, por outras palavras, quanto mais desmaterializado, menos sensações penosas terá. Ora, dele depende libertar-se de tal influência, já nesta vida. Ele possui o livre-arbítrio e, consequentemente, a escolha entre fazer ou deixar de fazer. Que domine as suas paixões animais; que não tenha ódio, inveja, ciúme e orgulho; que não se deixe dominar pelo egoísmo; que purifique sua alma pelos bons sentimentos; que pratique o bem; que não atribua às coisas deste mundo senão a importância que merecem e então, mesmo que ainda esteja em seu envoltório corporal, já estará depurado e desprendido da matéria. Quando deixar esse envoltório, não sofrerá mais sua influência. Os sofrimentos físicos que houver experimentado não lhe deixarão uma lembrança penosa. Não lhe restará nenhuma impressão desagradável, porque elas terão afetado o corpo, mas não o Espírito; será feliz por ter-se libertado e a calma de consciência o livrará de qualquer sofrimento moral.

Interrogamos milhares de Espíritos que pertenceram a todas as camadas da Sociedade e a todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos de sua vida espírita, desde o momento em que deixaram o corpo; seguimo-los passo a passo nessa vida de além-túmulo, a fim de observar as mudanças neles operadas, nas suas ideias e nas suas sensações. A esse respeito, não foram as criaturas mais vulgares as que ofereceram material menos interessante para estudo. Ora, nós vimos sempre que os sofrimentos dependem da conduta, cujas consequências eles sofrem, e que essa nova existência é fonte de inefável felicidade para aqueles que seguiram o bom caminho, de onde se segue que os que sofrem, sofrem porque o quiseram e que não devem queixar-se senão de si mesmos, quer neste mundo, quer no outro.

Certos críticos ridicularizaram algumas das nossas evocações, como, por exemplo, a do assassino Lemaire [1], achando estranho que nos ocupássemos de seres tão ignóbeis, quando temos tantos Espíritos superiores à nossa disposição. Esquecem que é exatamente por isto que, de certo modo, apuramos a natureza do fato ou, melhor dizendo, em sua ignorância da ciência espírita, não veem nesses diálogos mais que uma conversa mais ou menos divertida, cujo alcance não compreendem.

Lemos algures que um filósofo dizia, depois de haver conversado com um camponês: “Aprendi mais com esse rústico do que com todos os sábios.” É que ele podia ver além da superfície. Para o bom observador nada é perdido. Ele encontra ensinamentos úteis até no criptógramo que cresce nas esterqueiras. Recusa-se o médico a tocar numa ferida horrenda quando se trata de encontrar a causa de um mal?

Ainda uma palavra sobre o assunto. Os sofrimentos de além-túmulo têm um termo. Sabemos que aos mais inferiores Espíritos é permitido elevar-se e purificar-se por novas provas. Isto pode ser demorado, muito demorado, mas dele depende abreviar esse tempo penoso, porque Deus o escuta sempre, desde que se submeta à sua vontade. Quanto mais desmaterializado é o Espírito, mais vastas e lúcidas são as suas percepções; quanto mais se acha sob o império da matéria, o que depende inteiramente do seu gênero de vida terrena, mais limitadas e veladas serão elas. Quanto mais a visão moral de um se estende para o infinito, tanto mais a do outro se restringe.

Assim, pois, os Espíritos inferiores têm apenas uma noção vaga, confusa, incompleta e por vezes nula do futuro. Eles não veem o termo de seus sofrimentos e por isso pensam sofrer eternamente, o que é para eles um castigo. Se a posição de uns é aflitiva, terrível mesmo, não é, entretanto, desesperadora; a dos outros é, porém, eminentemente consoladora. A nós, pois, cabe escolher. Isto é da mais alta moralidade.

Os cépticos duvidam da sorte que nos aguarda após a morte. Nós lhes mostramos exatamente o que acontece, com o que julgamos prestar-lhes um serviço. Assim, vimos mais de um voltar atrás de seu erro ou, pelo menos, começar a refletir sobre aquilo de que antes fazia troça.

Nada como nos darmos conta da possibilidade das coisas. Se sempre tivesse sido assim, não haveria tantos incrédulos, e tanto a religião como a moral pública ganhariam com isso. Para muitos a dúvida religiosa provém da dificuldade de compreenderem certas coisas. São Espíritos positivos não predispostos à fé cega, que só admitem aquilo que para eles tem uma razão de ser. Tornai essas coisas acessíveis à sua inteligência e eles as aceitarão, porque, no fundo, não pedem mais do que isso a fim de crerem e porque a dúvida lhes é uma situação mais penosa do que imaginamos ou do que eles ousam confessar.

Em tudo quanto dissemos não há um sistema ou ideias pessoais. Também não foram alguns Espíritos privilegiados que nos ditaram esta teoria. Ela é resultado de estudos feitos sobre individualidades, corroborados e confirmados por Espíritos cuja linguagem nenhuma dúvida pode deixar quanto à sua superioridade. Julgamo-los por suas palavras e não por seu nome ou pelo nome que podem atribuir-se.


Allan Kardec






[1] Vide Revista Espírita nº 1.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Allan Kardec - Revista Espírita - Ano XI, Dezembro de 1868 - Da comunhão do pensamento - A propósito da comemoração dos mortos




Allan Kardec - Revista Espírita - Ano XI, Dezembro de 1868 - Da comunhão do pensamento


A propósito da comemoração dos mortos

 
A Sociedade Espírita de Paris reuniu-se especialmente, pela primeira vez, a 2 de novembro de 1864, visando oferecer uma piedosa lembrança a seus falecidos colegas e irmãos espíritas. Naquela ocasião o Sr. Allan Kardec desenvolveu o princípio da comunhão de pensamentos, no discurso seguinte:

Caros irmãos e irmãs espíritas,

Estamos reunidos, neste dia consagrado pela tradição à comemoração dos mortos, para dar àqueles dos nossos irmãos que deixaram a Terra, um testemunho particular de simpatia, para dar continuidade às relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós enquanto eles estavam vivos, e para chamar para eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, por que nos reunirmos? Por que nos desviarmos de nossas ocupações? Não pode cada um fazer em particular aquilo que nos propomos fazer em comum? Não o faz cada um de nós pelos seus? Não se pode fazê-lo todos os dias e a cada hora do dia? Então, que utilidade pode haver em reunir-se num dia determinado? É sobre este ponto, senhores, que me proponho apresentar-vos algumas considerações.

A disposição com que a ideia desta reunião foi acolhida é a primeira resposta a essas diversas questões. Ela é o indício da necessidade que experimentamos ao nos acharmos juntos numa comunhão de pensamentos.

Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? É permitido duvidar disto, pelo menos por parte da maioria. O Espiritismo, que nos ensina tantas coisas pelas leis que revela, vem ainda nos explicar a causa, os efeitos e o poder desta situação do espírito.

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força. É, porém, uma força puramente moral e abstrata? Não, pois do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, da comunhão de pensamentos. Para compreendê-lo é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

O pensamento é o atributo característico do ser espiritual. É ele que distingue o espírito da matéria. Sem o pensamento, o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se ele tem o poder de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser esse poder sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se dizer, portanto, com toda certeza, que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembleia é um foco de onde se irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um produz a sua nota. Disso resulta grande quantidade de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Entretanto, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, há também pensamentos harmônicos e discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se ele for discordante, a impressão será penosa. Ora, para tanto, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras, porquanto a radiação fluídica não deixa de existir, quer seja ou não expressa. Se todos forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e se sentirão à vontade. No entanto, se ali se misturam alguns maus pensamentos, eles produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Essa é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina algo como que uma atmosfera salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios salutares. Assim também se explicam a ansiedade e o mal-estar indefinível que sentimos num meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.

A comunhão de pensamentos produz, pois, uma espécie de efeito físico que age sobre o moral. É isto que somente o Espiritismo poderia tornar compreensível. O homem o sente instintivamente, porquanto procura as reuniões onde sabe que vai encontrar essa comunhão; nessas reuniões homogêneas e simpáticas, ele absorve novas forças morais. Pode-se dizer que ele aí recupera as perdas fluídicas que ocorrem diariamente pela radiação do pensamento, assim como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.

Essas considerações, senhores e caros irmãos, parecem afastar-nos do objetivo principal de nossa reunião, contudo, elas para aqui nos conduzem diretamente. As reuniões que têm por objetivo a comemoração dos mortos repousam na comunhão de pensamentos. Para compreender a sua utilidade, era necessário bem definir a natureza e os efeitos dessa comunhão.

Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de comparações muito materiais, e talvez até mesmo um pouco forçadas, que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra. No entanto, é procedendo por analogia, do conhecido para o desconhecido, que chegamos a nos dar conta, pelo menos aproximadamente, do que escapa aos nossos sentidos. É a tais comparações que a Doutrina Espírita deve, em grande parte, ter sido facilmente compreendida, mesmo pelas mais vulgares inteligências, ao passo que se eu tivesse ficado nas abstrações da filosofia metafísica, ela seria partilhada, ainda hoje, apenas por algumas inteligências de escol. Ora, desde o princípio, importava que ela fosse aceita pelas massas, porque a opinião das massas exerce uma pressão que acaba fazendo lei e triunfando das oposições mais tenazes. Eis por que me esforcei em simplificá-la e torná-la clara, a fim de colocá-la ao alcance de todos, com o risco de fazê-la contestada por algumas pessoas quanto ao título de filosofia, porque ela não é suficientemente abstrata e porque ela saiu do nevoeiro da metafísica clássica.

Aos efeitos que acabo de descrever, no que concerne à comunhão de pensamentos, junta-se um outro, que é sua consequência natural, e que importa não perder de vista. É a força que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidas. Sendo a vontade uma força ativa, essa força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número de braços.

Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos há, numa reunião onde reina perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva que nem sempre possui um indivíduo isolado. Se até o presente as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter uma perfeita homogeneidade de pensamentos, o que se deve à imperfeição da natureza humana na Terra. Quanto mais numerosas forem as reuniões, mais aí se mesclam elementos heterogêneos, que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como grãos de areia numa engrenagem. Não é assim nos mundos mais avançados, e esse estado de coisas mudará na Terra, à medida que os homens aqui se tornarem melhores.

Para os espíritas, a comunhão de pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Temos visto o efeito desta comunhão de homem a homem. O Espiritismo nos prova que ele não é menor dos homens aos Espíritos, e vice-versa. Com efeito, se o pensamento coletivo adquire força pela quantidade, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objetivo, terá mais força para neutralizar a ação dos maus Espíritos. Assim, vejamos que a tática destes últimos é levar à divisão e ao isolamento. Sozinho, um homem pode sucumbir, ao passo que se sua vontade for corroborada por outras vontades, ele poderá resistir, conforme o axioma: A união faz a força, axioma verdadeiro ao moral como ao físico.

Por outro lado, se a ação dos Espíritos malévolos pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos bons Espíritos será secundada, e sua influência salutar não encontrará obstáculos; seus eflúvios fluídicos, não sendo impedidos por correntes contrárias, se espalharão sobre todos os assistentes, precisamente porque todos os terão atraído pelo pensamento, não cada um em proveito pessoal, mas em proveito de todos, conforme a lei da caridade. Esses eflúvios descerão sobre eles em línguas de fogo, para nos servirmos de uma admirável imagem do Evangelho.

Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens se assistem entre si, e ao mesmo tempo assistem os Espíritos e são por eles assistidos. As relações do mundo visível com o mundo invisível deixam de ser individuais e passam a ser coletivas, e por isto mesmo mais poderosas, para proveito das massas, bem como dos indivíduos. Numa palavra, ela estabelece a solidariedade, que é a base da fraternidade. Ninguém trabalha apenas para si, mas para todos, e trabalhando por todos, cada um aí encontra seu quinhão. É isto que não compreende o egoísmo.

Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que elas podem e devem exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser a libertação do pensamento das constrições da matéria. Infelizmente, a maioria se afasta deste princípio à medida que fizeram da religião uma questão de forma. Disto resultou que cada um fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quite com Deus e com os homens, porquanto praticou uma fórmula. Disso resulta, ainda, que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por conta própria, e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes. Ele está isolado no meio da multidão, e não pensa no céu senão para si mesmo.

Certamente não era assim que o entendia Jesus, quando disse: Quando muitos de vós estiverdes reunidos em meu nome, eu estarei em vosso meio. “Reunidos em meu nome” quer dizer: com um pensamento comum, mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, em palavras e em ações. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece como seus discípulos.

Tocadas por esses abusos e desvios, algumas pessoas negam a utilidade das assembleias religiosas e, consequentemente, dos edifícios a elas consagrados. Em seu radicalismo, pensam que seria melhor construir hospitais do que templos, tendo em vista que o templo de Deus está em toda parte, e que Deus pode ser adorado em toda parte; que cada um pode orar em sua casa e a qualquer hora, ao passo que os pobres, os doentes e os enfermos necessitam de um lugar de refúgio.

Mas porque se cometem abusos, porque se afastam do reto caminho, segue-se que não existe o caminho reto e que tudo de que se abusa é mau? Certamente não. Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos que deve ser a essência das assembleias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Que os materialistas professem semelhantes ideias, compreende-se, porque em todas as coisas eles fazem abstração da vida espiritual, mas da parte de espiritualistas, e mais ainda dos espíritas, seria um contrassenso. O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, fartamente dotados pelo coração, para que sua fé e caridade não necessitem ser aquecidas num foco comum, é possível, mas não é assim com as massas, às quais falta um estimulante, sem o qual poderiam deixar-se tomar pela indiferença. Além disso, qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter que aprender no tocante aos seus interesses futuros e bastante perfeito para prescindir de conselhos para a vida presente? É ele sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não. À maioria faltam ensinamentos diretos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência. Sem contradita, tais ensinos podem ser dados em toda parte, sob a abóbada do céu como sob o teto de um templo. Mas, por que os homens não haveriam de ter lugares especiais para as coisas celestes, como os têm para as terrenas? Por que não teriam assembleias religiosas, como têm assembleias políticas, científicas e industriais? Isto não impede as fundações em benefício dos infelizes, mas nós dizemos, além disto, que quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu, haverá aqui menos gente nos hospitais.

Falando de maneira geral e sem alusão a nenhum culto, se as assembleias religiosas muitas vezes se afastaram de seu objetivo primitivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se os ensinamentos que aí são dados nem sempre seguiram o movimento progressivo da Humanidade, é que os homens não realizam todos os progressos ao mesmo tempo. O que eles não fazem num período, fazem em outro. À medida que se esclarecem, eles veem as lacunas existentes em suas instituições, e as preenchem; eles compreendem que o que era bom numa época, em relação ao grau da civilização, torna-se insuficiente numa etapa mais adiantada, e restabelecem o nível. Sabemos que o Espiritismo é a grande alavanca do progresso em todas as coisas. Ele marca uma era de renovação. Saibamos, pois, esperar, e não peçamos a uma época mais do que ela pode dar. Como acontece com as plantas, é preciso que as ideias amadureçam para serem colhidos os frutos. Saibamos, além disso, fazer as necessárias concessões às épocas de transição, pois nada, na natureza, se opera de maneira brusca e instantânea.

Pelo motivo que hoje nos reúne, senhores e caros irmãos, julguei oportuno aproveitar a circunstância para desenvolver o princípio da comunhão de pensamentos, do ponto de vista do Espiritismo. Sendo o nosso objetivo unirmo-nos em intenção para oferecer, em comum, um testemunho particular de simpatia aos nossos irmãos falecidos, poderia ser útil chamar nossa atenção para as vantagens da reunião. Graças ao Espiritismo, compreendemos o poder e os efeitos do pensamento coletivo e podemos melhor explicar o sentimento de bem-estar que se experimenta num meio homogêneo e simpático, mas igualmente sabemos que o mesmo se dá com os Espíritos, porque eles sabem receber os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes que para eles se elevam como uma nuvem de perfume. Os que são felizes experimentam uma alegria maior neste concerto harmonioso; os que sofrem sentem com isso um maior alívio. Cada um de nós, em particular, ora de preferência por aqueles que lhe interessam ou que ele mais estima. Façamos que aqui todos tenham sua parte nas preces que dirigimos a Deus.


Allan Kardec






terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Joanna de Ângelis - Psicografia - Divaldo P. Franco - Cizânia




Joanna de Ângelis - Psicografia - Divaldo P. Franco


Cizânia


O espírito de cizânia que predomina em muitos grupos humanos decorre dos conflitos de indivíduos que não se encontram psicologicamente amadurecidos para o convívio em sociedade.

Sempre encontram razão para gerar dificuldades, nos relacionamentos, apontando erros e poupando-se a solucioná-los.

Enfrentando desafios interiores de ajustamento e equilíbrio pessoal, transferem para os outros os tormentos de que são objeto, criando situações embaraçosas, perturbando a ordem, apresentando-se como salvadores dos demais e vítimas de todos.

Atormentados, em si mesmos, não crêem nos valores ético-morais do grupo em que se encontram, tornando-se, invariavelmente, aqueles que sempre discordam, que possuem melhores e mais profundos conhecimentos, no entanto, que se dizem perseguidos e malsinados.

Apresentam-se, não poucas vezes, travestidos de uma humildade que estão longe de possuir, ou são arrogantes, prepotentes, atribuindo-se valores que igualmente não possuem.

Agitados, dão a impressão de operosos, quando, em realidade, são apenas instáveis emocionalmente, abraçando diferentes propostas de trabalho, que não sabem executar.

Habilmente, apresentam suas idéias, mas transferem o esforço para os outros, desejosos sempre que os seus amigos abandonem os seus próprios compromissos, a fim de ajudá-los naquilo que pretendem, por considerarem ser de suma importância, quando não passam de campeonatos de vaidade pessoal e de promoção do ego.

São gentis na aparência e, quando contrariados, logo apresentam a outra face, a da agressividade.

Impulsivos, falam sem pensar, escrevem desarrazoadas acusações, dominados pela ira, acreditando-se únicos possuidores da verdade, que dizem defender.

São insinuantes, a princípio, para logo demonstrarem as reações íntimas e absurdas.

Fazem-se iracundos com facilidade e expressam sentimentos que não são verdadeiros, quando desejam conquistar simpatizantes para os seus objetivos.

Insinuam-se com facilidade onde desejam reinar, a fim de alterarem o clima de fraternidade, mediante intrigas bem trabalhadas, acusações descabidas, frutos da inveja e da insensatez.

A cizânia é uma arte terrível, de que se utilizam os Espíritos moralmente fracos, para torpedearem as realizações edificantes.

Tem cuidado com eles.

Não disponhas do teu tempo, gastando-o inutilmente nas discussões infindáveis que geram, a fim de lograrem a autopromoção.

Incapazes de produzir com elevação moral exaltam-se, apresentando-se como grandes realizadores, assim diminuindo o esforço dos outros, de que se utilizam, na condição de defensores dos Espíritos nobres que deram sua quota de sacrifício em favor dos ideais que abraçavam, como se estes necessitassem dos seus encômios e referências.

Esses indivíduos encontram-se por toda parte.

Imiscuem-se nos labores edificantes que já encontraram em realização, desejando a autopromoção, e logo geram dificuldades que perturbam e produzem sofrimento às pessoas honestas, normalmente suas vítimas.

São acusadores sistemáticos, perversos, dissimulando-se de colaboradores ou apresentando-se como vigias que ajudam, preservando o patrimônio superior que dizem ameaçados.

Não se dão conta de que os ideais sempre vicejaram antes deles, prosseguirão apesar deles e após passarem no rumo da sepultura...

Se te encontras abraçando uma realização dignificadora, não ficarás livre da sua peçonha, nem dos seus espículos.

Não percas tempo defendendo-te ou acusando-os.

Segue adiante!

Ninguém alcança o acume de um monte, se permanece na baixada evitando cair nos precipícios ou tentando eliminá-los.

Tampouco procures justificar-te, quando eles criarem embaraços para os teus pés.

Considera-os doentes espirituais e compadece-te das suas façanhas infelizes, mas não pretendas salvá-los.

Cuida de promover o teu serviço, dando-lhe continuidade e vivenciando-o com alegria, sem queixas nem reclamações.

Mesmo o Colégio Apostólico sofreu, periodicamente, o fermento da cizânia, que o amor de uns e a abnegação de outros conseguiu diluir.

Desde que não buscas o aplauso, nem os benefícios imediatos do reconhecimento humano, prossegue em frente, aplainando o solo do ideal, ensementando as plântulas que formarão a paisagem do futuro, enfrentando sol e chuva, calor e frio, com o entusiasmo de quem se entrega a Deus e n'Ele confia.

O espírito de cizânia é artifício do Mal, que se apresenta em todos os segmentos da sociedade de hoje, como existiu ontem, e provavelmente ainda estará presente por algum período nos dias do futuro.

Nunca desanimes, nem te deixes influenciar pelas propostas da cizânia.

Enquanto luz o amor, serve e passa.

Deixa que prossiga vicejando o entusiasmo haurido no Bem e nada poderá impedir-te o avanço.

Trabalha-te interiormente o lado negativo da personalidade e luariza-te, harmonizando-te no próprio ideal de produzir para a Verdade.

Com essa disposição chegarás ao túmulo sem recordações infelizes, sem tormentos dispensáveis e com inefável alegria.

Vencendo-te, a ti mesmo, terás conseguido a maior vitória da existência carnal.


Joanna de Ângelis



Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na noite de 31 de dezembro
de 2004, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.