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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1 - Dores do Martírio



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1


Dores do Martírio


"Não imaginais, portanto, que, para viverdes em comunicação constante conosco, para viverdes sob as vistas do Senhor, seja preciso vos cilicieis e cubrais de cinzas. Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem." O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. 17 - Item 10

"No capítulo do crescimento espiritual torna-se essencial distinguir o que são as dores do crescimento e as dores do martírio. Não existe reforma íntima sem sofrimento, mas martírio é uma forma de autopunição, são penitências psicológicas que nos impomos como se, com isso, estivéssemos melhorando.

Em razão do complexo de inferioridade que assola expressiva parcela das almas da Terra, e cientes de que semelhante violência psicológica se deve ao nosso voluntário afastamento de Deus, ao longo das etapas evolutivas, fazendo-nos sentir inseguros e impotentes, hoje criamos as capas mentais para nos sentirmos minimamente bem e levar avante o desejo de existir e viver. Essas capas são as estruturas do eu ideal que nos leva a crer sermos mais do que realmente somos, uma defesa contra as mazelas que não queremos aceitar em nós mesmos.

A melhoria íntima autêntica ocorre pelo processo de conscientização, e não pelas dores decorrentes de cobranças e conflitos interiores, que instalam circuitos fechados e pane na vida mental.

Sem dúvida, todos sofremos para crescer; martírio, no entanto, é o excesso que nasce da incapacidade de gerir com equilíbrio o mundo emotivo, assumindo proporções e facetas diversificadas conforme o temperamento e as necessidades de cada qual. Não o confundamos também com sacrifício – ato que ocasiona dores intensas com o objetivo de alcançar alguma meta ou superar alguma dificuldade.

O que define a condição psíquica de martirizar-se é o fato de se crer no desenvolvimento de qualidades que, de fato, não estão sendo trabalhadas na intimidade. São as dores impostas a nós mesmos pelas atitudes de desamor, quando acreditamos no eu ideal e negamos ou fugimos de eu real.

Quase sempre as dores do martírio decorrem de não querermos experimentar as dores do crescimento. Um exemplo típico é quando somos convocados a examinar certa imperfeição apontada por alguém e, entre a dor da autoavaliação e a dor da negação, preferimos a segunda, a qual integra a lista das dores-excesso.

Dentre as formas autopunitivas mais comuns, destacamos que a maneira pela qual reagimos a nossos erros tem sido um canal de acesso a infinitas dimensões expiatórias. Muitos corações transformam o erro e a insatisfação com suas experiências em quedas lamentáveis e irrecuperáveis, quando a escola da vida é um gesto de sabedoria e complacência, convidando  sempre a nos reerguer e recomeçar perante os insucessos do caminho.

Quando se diz “não posso mais falhar” será mais difícil a conquista de si mesmo. Dessa forma começamos a conhecer os grandes inimigos do autoamor no nosso íntimo. Um deles é o perfeccionismo – uma das fontes de martírio que costumam dizimar a energia de muitos aprendizes da espiritualização. Querendo se transformar, partem para um processo de não aceitação de si mesmos e de autorreprovação muito cruel, inclinando-se para a condenação. A questão não é de lutar contra nós mesmos, e sim conquistar essa parte enferma, recuperá-la, e isso jamais conseguiremos se não aprendermos a amar a esse nosso lado doentio.

Essa forma inadequada de reagir a nossos erros abre porta para muitas consequências graves, e às vezes maiores que o próprio erro em si, tais como: estado íntimo de desconforto e desassossego quase permanente, torturante sensação de perda de controle sobre a existência, baixa tolerância à frustração, ansiedade de origem ignorada, medos incontroláveis de situações irreais, irritações sem motivos claros, angústia perante o porvir com aflição e sofrimento por antecipação, excesso de imaginação ante fatos corriqueiros da vida, descrença no esforço de mudança e nas tarefas doutrinárias, mau humor, decisões infelizes no clima emotivo de confusão mental, intenso desgaste energético decorrente de conflitos, desânimo – são algumas dores do martírio.

Quando permanecem prolongadamente, esses estados psicológicos configuram uma auto-obsessão que pode atingir o campo do vampirismo e de ilimitadas doenças físicas.

Poder-se-ia indagar a origem mais profunda de tantas lutas e teríamos que vagar por um leque de alternativas tão amplo quanto são as individualidades. Todavia, para nossos propósitos desse momento, convém refletirmos sobre uma das mais pertinentes atitudes que têm levado os discípulos espíritas aos sofrimentos voluntários com o seu processo de interiorização. Sejamos claros e evitemos subterfúgios para o nosso bem. O culto à dor tornou-se uma constante nos ambientes espíritas. Condicionou-se a ideia de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a dor punitiva como instrumento de libertação, quando, na verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas que continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.

Não é a intensidade da dor que educa, é sim o esforço de aprender a amenizá-la.

O espírita costuma neurotizar a proposta da reforma íntima. É a neurose de santificação, um modo imaturo de agir em razão da ausência de noções mais profundas sobre a sua verdadeira realidade espiritual. Constatamos que existe muita impaciência com a reforma íntima por causa da angústia causada ao espírito por entrar em contato com sua verdadeira condição diante do Universo. Cria para si mesmo, através de mecanismos mentais, as virtudes de adorno ou compensações artificiais a fim de sentir-se valorizado perante a consciência e o próximo. São os esconderijos psíquicos nos quais quase sempre nos enfurnamos para não tomar contato com a verdade pessoal.

Essa neurotização da virtude gera um sistema de vida cheia de hábitos e condutas rígidas, a título de seguir orientações da doutrina. Adotam-se procedimentos que não são sentidos e avaliados pela arte de pensar. Isso nos desaproxima ainda mais da autêntica mudança, e passamos então a nos preocupar com o que não devemos fazer, esquecendo o que devíamos estar fazendo. Certamente esse caminho gera martírio e ônus para a vida mental.

Existem muitas dores naturais no crescimento espiritual que estabelecem um processo crônico de pressão psicológica, entretanto, diferem muita da autoflagelação, porque elas impulsionam e fazem parte da grande batalha pela promoção de todos nós. Observa-se, inclusive, que alguns corações sinceros, inseridos no esforço autoeducativo, experimentam essa silenciosa expiação, mas, por desconhecerem os percalços do trabalho renovador, terminam por desistir de prosseguir e se atolam no desânimo. Acreditam-se piores quando constatam semelhantes quadros de dor psicológica e deduzem que, ao invés de progredirem, estão em plena derrocada. Diga-se de passagem, não são poucos os quadros que temos observado com essas características no seio do movimento doutrinário.

Frequentemente existe um trio de malfeitores da alma que chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: culpa, baixa autoestima e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos a gerenciá-los. Assim, a culpa se transforma em autoaferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa autoestima se converte em capacidade de descobrir valores e o medo de errar se promove a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.

Diante do exposto, indaguemos sobre quais seriam as medidas que deveriam ser implementadas nos núcleos educativos do Espiritismo, em favor da melhor compreensão dos roteiros de transformação interior. Aprofundemos o debate entre dirigentes sobre quais iniciativas poderiam ser facilitadas aos novos trabalhadores em favor de um aprendizado sem os torturantes conflitos originados da crueldade aplicada nos mesmos, quando não somos criativos o bastante para lidar com nossa sombra e tombarmos em martírios inúteis.

Reforma íntima deve ser considerada melhoria de nós mesmos, e não a anulação de uma parte de nós considerada ruim. Uma proposta de aperfeiçoamento gradativo cujo objetivo maior é a nossa felicidade.

Quem está na reforma interior tem um referencial fundamental para se autoanalisar ao longo da caminhada educativa, um termômetro das almas que aprimoram; inevitavelmente, quem se renova alcança a maior conquista das pessoas livres e felizes: o prazer de viver."


Ermance Dufaux












quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio: Autotransformação com leveza e esperança - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 24 - Ícones




Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima sem Martírio: Autotransformação com leveza e esperança - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 24


Ícones


"Entretanto, abandonando de todo a idolatria, os judeus desprezaram a lei moral para se aferrarem ao mais fácil: a prática do culto exterior." (O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 18 - Item 2)


A palavra integral significa por inteiro, total. Quando mencionamos o homem integral, estamos referindo ao ser na sua completude, a integração de todas as suas partes num todo.

O homem integral harmoniza os seus opostos e resgata a sua identidade original, já que ao longo da caminhada evolutiva estruturou uma imagem irreal do Eu Divino no espelho da vida mental que nomeamos como falso eu, com a qual temos caminhado há milênios no trajeto da evolução.

A vida é dialética, tem aparentes contradições porque consiste de opostos, que são, em verdade, complementares. Basta observar: noite e dia, vida e morte, verão e inverno, razão e intuição, bem e mal, claro e escuro, masculino e feminino. Sem os opostos não existe a vida.

Aprendemos, no entanto, a estabelecer divisões, uma visão cartesiana de partir o indivisível, estabelecendo, assim, a luta contra o que se convencionou considerar como sendo mau, não aceitável, feio e inutilizável. Nasce, então, o conflito, a perturbação, a cobrança.

Olhar as duas faces da moeda é uma grande sabedoria de vida. É uma atitude saudável a ser cultivada com cuidado no processo de transformação, que é a grande razão de nossa peregrinação pela Terra.

Luz e sombra são opostos. No entanto, uma depende da outra, assim como o passo da perna direita depende do passo da perna esquerda. Luz e sombra, perfeição e imperfeição são faces de uma mesma estrutura da alma, razão pela qual será impróprio adotar o conceito de eliminação para os assuntos da vida interior. Nunca eliminamos uma parte, mas a integramos.

Contudo, esse processo de integração gera um doloroso sentimento de perda, necessário ao progresso. Perde-se o velho para construir o novo. Na verdade, efetuamos uma reconstrução marcada por etapas desafiantes. Perde-­se a velha identidade e não se sabe como construir o que se deve ser agora, a nova identidade.

O conhecimento espírita é uma mola propulsora de semelhante operação da vida mental. Ao adquirir a noção da imortalidade, a alma sensibiliza-se para novas escaladas. Decide pela transformação, mas observa de pronto que mudar não é tarefa simples, que se concretiza de uma hora para outra. Assim, enquanto a criatura não constrói o homem novo e singular, único e incomparável que todos deveremos erguer na intimidade, ocorre um natural processo de imitação que o leva a fazer cópias de conduta do que lhe parece ser ideal. São os estereótipos espíritas – referências que adotamos, espontaneamente, para avaliar o proceder perante a nova visão de vida.

Por um tempo esse será o caminho natural da maioria dos candidatos à renovação de si mesmos. Carecem de referências externas que funcionam como boias indicadoras para sua elaboração interior dos conhecimentos novos. Um livro, um palestrante, um devotado seareiro da caridade ou mesmo um amigo espiritual poderão se tornar bússolas para o progresso pessoal, o que é muito natural.

Contudo, semelhante identificação natural pode adoecer em razão de vários fatores dolorosos para a alma em reforma íntima, ensejando que essa relação educativa com os referenciais caminhe para matizes diversos. Um dos mais comuns desvios nesse tema é a idolatria.

Idolatria é o excessivo entusiasmo e admiração por uma pessoa com a qual partilhamos ou não a convivência. São oradores, médiuns e trabalhadores que costumam se destacar pelas virtudes ou experiências, e que são tomados à conta de ícones, com os quais delineamos a noção pessoal de limite máximo ou modelo para os novos passos assumidos na caminhada espiritual.

Os ícones na história grega são as divindades que representam valores excelsos e santificados.

Sem considerar os naturais sentimentos de admiração e entusiasmo dirigidos a quem fez por merecê-­los, quase sempre nas causas dessa idolatria encontra-­se o mecanismo defensivo da mente, pelo qual é projetado no outro aquilo que gostaríamos de ser.

Dois graves problemas, entre os muitos, decorrem dessa relação idólatra: as exageradas expectativas e a prisão aos padrões.

As expectativas transferidas ao ícone carreiam desejos e anseios que se tornam âncoras de segurança para os problemas individuais. Caso a criatura se habitue ao conforto de escorar-­se psicologicamente no outro e fugir do seu esforço autoeducativo, passará ao terreno das ilusões, sentindo-­se e acreditando-­se tão virtuosa ou capaz quanto ele. Ocorre, então, uma absorção da identidade alheia. É como ser alguém com os valores do outro.

Quanto aos padrões, vamos verificar uma outra questão que tem trazido muitos desajustes: o hábito do dogmatismo, uma velha tendência humana de ouvir a palavra dos homens santificados pela hierarquia religiosa. Pessoas que se tornam carismáticas por sua natural forma de ser ou pelo valoroso desempenho doutrinário são, comumente, colocadas como astros ou missionários de grande envergadura, fazendo de seu proceder e de suas palavras, ideias conclusivas e definitivas sobre as mais diversas vivências da espiritualidade ou sobre quaisquer problemáticas humanas, como se possuíssem a visão integral de tais questões.

Quaisquer dessas vivências, expectativas elevadas ou criação de modelos podem nos trazer muita decepção e revolta. Somos todos aprendizes, uns com mais, outros com menos experiência. Todos, no entanto, sem exceção, como aprendizes do progresso e gestores do bem. Podemos sempre aprender algo com alguém, desde que tenhamos visão e predisposição à alteridade. O que hoje entendemos como sendo excepcional em alguém, amanhã poderá não ser tão útil para nossa percepção mutável e ascensional.

Por mais bem sucedida a reencarnação na melhoria espiritual, isso será apenas o primeiro passo de uma longa jornada. Então porque glórias fictícias com ídolos com pés de barro? Missionários e virtuosos? São muito raros na Terra. Para conhecê-los é muito fácil, nenhum deles aceita uma relação de idolatria, enquanto se verifica outro gênero de conduta com muitos que se julgam ou são julgados como tais.

Muitas vezes os "ídolos espíritas" que miramos não suportariam ter feridas as cordas dos interesses pessoais. Bastaria alguém cumprir o dever – ainda poucas vezes exercido – de questioná-­los com fraternidade para se rebelarem. Acostumou-se tanto a essa convenção em nossos ambientes de cristianismo redivivo, que já não se indaga ou filosofia, apenas se crê. Especialmente se determinadas fontes consagradas, sejam homens, instituições ou mesmo desencarnados, expedem ideias ou teorias, não se pesquisa, não se analisa com a prudência que manda o bom senso, apenas crê-­se. Não existem debates e, o que é mais lamentável, muitos corações incensados pela reverência excessiva não fazem nada para dela afastar os menos vividos, os quais terminam, em muitos casos, como pupilos mimados e protegidos que fazem escola...

Apesar da constatação desses malefícios, tudo isso faz parte da sequência histórica de nossas vidas. Quando refletimos sobre a questão, é no intuito de chamar a atenção de todos nós para os prejuízos de continuarmos cultivando semelhantes expressões de infantilidade emocional. Existe, de fato, uma velha tendência que nos acompanha, a qual podemos declinar como hábito da canonização psíquica.

Muitos ídolos adoram as bajulações e burburinhos em torno de seu nome. São folgas que não deveríamos buscar para nossa vida!

Os ídolos deveriam se educar e educar os outros para assumirem a condição de condutores, aqueles que lideram promovendo, libertando, e não fazendo coleção de admiradores para alimentar seu personalismo.

Como bons espíritas, apenas começamos os serviços de transformar a autoimagem de orgulho, profundamente cristalizada nos recessos da mente. Quando nos adornamos com qualidades e virtudes que imaginamos possuir, perdemos a oportunidade de ser nós mesmos, de eleger a autenticidade como nossa conduta, de construir o quanto antes a nova identidade que almejamos.

Inspiremo-­nos em nossas referências, todavia, não façamos deles ídolos. Ouçamo-­los, tiremos o proveito de suas conquistas, os respeitemo-nos e façamos tudo isso com equilíbrio, nem mais, nem menos.

Retifiquemos os nossos conceitos sobre lideranças no melhor proveito das oportunidades das sementeiras espíritas.

Líderes autênticos são dinamizadores incansáveis da criatividade e dos valores alheios. São estimuladores das singularidades humanas.

Por isso suas qualidades são empatia, confiança, capacidade de descobrir pendores.

Líderes que se integram na dinâmica de agentes da obra do Pai assumem a postura de serem livres, sem apego às suas vitórias ou realizações.

Sua alegria reside em ser útil e ver as obras sob sua tutela crescer em satisfação coletiva.

Dirigir, à luz das claridades espíritas, é valorizar o distinto, o diferente, e não apenas os semelhantes, atendendo sempre ao bem geral. Isso se chama conduta de alteridade.

Expoentes sempre surgirão. O que importa é o que faremos deles ou com eles. Evitemos, também, a substituição que tem se tornado frequente: não os deixemos para aferrarmos às práticas. A isso se referia Kardec quando disse: "Entretanto, abandonando de todo a idolatria, os judeus desprezaram a lei moral, para se aferrarem ao mais fácil: a prática do culto exterior."


Ermance Dufaux


Fonte: Reforma Íntima sem Martírio-pdf



VÍDEO:

Cap 24 Ícones - Reforma Íntima sem Martírio
Cintia Cava





Um convite à auto-educação através do aperfeiçoamento espiritual. Como lidar com a vida íntima sem culpas e sem conflitos? O trato do mundo íntimo ainda reflete descontrole e insatisfação. Convidamos você para estas reflexões de pacificação e estímulo na aceitação ativa da realidade interior com propósitos transformadores. Fortalecer o bem que está adormecido na consciência e educar nossos sentimentos.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1 - Dores do Martírio




Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley S. de Oliveira - Cap. 1


Dores do Martírio


"Não imaginais, portanto, que, para viverdes em comunicação constante conosco, para viverdes sob as vistas do Senhor, seja preciso vos cilicieis e cubrais de cinzas. Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem." O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. 17 - Item 10

"No capítulo do crescimento espiritual torna-se essencial distinguir o que são as dores do crescimento e as dores do martírio. Não existe reforma íntima sem sofrimento, mas martírio é uma forma de autopunição, são penitências psicológicas que nos impomos como se, com isso, estivéssemos melhorando.

Em razão do complexo de inferioridade que assola expressiva parcela das almas da Terra, e cientes de que semelhante violência psicológica se deve ao nosso voluntário afastamento de Deus, ao longo das etapas evolutivas, fazendo-nos sentir inseguros e impotentes, hoje criamos as capas mentais para nos sentirmos minimamente bem e levar avante o desejo de existir e viver. Essas capas são as estruturas do eu ideal que nos leva a crer sermos mais do que realmente somos, uma defesa contra as mazelas que não queremos aceitar em nós mesmos.

A melhoria íntima autêntica ocorre pelo processo de conscientização, e não pelas dores decorrentes de cobranças e conflitos interiores, que instalam circuitos fechados e pane na vida mental.

Sem dúvida, todos sofremos para crescer; martírio, no entanto, é o excesso que nasce da incapacidade de gerir com equilíbrio o mundo emotivo, assumindo proporções e facetas diversificadas conforme o temperamento e as necessidades de cada qual. Não o confundamos também com sacrifício – ato que ocasiona dores intensas com o objetivo de alcançar alguma meta ou superar alguma dificuldade.

O que define a condição psíquica de martirizar-se é o fato de se crer no desenvolvimento de qualidades que, de fato, não estão sendo trabalhadas na intimidade. São as dores impostas a nós mesmos pelas atitudes de desamor, quando acreditamos no eu ideal e negamos ou fugimos de eu real.

Quase sempre as dores do martírio decorrem de não querermos experimentar as dores do crescimento. Um exemplo típico é quando somos convocados a examinar certa imperfeição apontada por alguém e, entre a dor da autoavaliação e a dor da negação, preferimos a segunda, a qual integra a lista das dores-excesso.

Dentre as formas autopunitivas mais comuns, destacamos que a maneira pela qual reagimos a nossos erros tem sido um canal de acesso a infinitas dimensões expiatórias. Muitos corações transformam o erro e a insatisfação com suas experiências em quedas lamentáveis e irrecuperáveis, quando a escola da vida é um gesto de sabedoria e complacência, convidando  sempre a nos reerguer e recomeçar perante os insucessos do caminho.

Quando se diz “não posso mais falhar” será mais difícil a conquista de si mesmo. Dessa forma começamos a conhecer os grandes inimigos do autoamor no nosso íntimo. Um deles é o perfeccionismo – uma das fontes de martírio que costumam dizimar a energia de muitos aprendizes da espiritualização. Querendo se transformar, partem para um processo de não aceitação de si mesmos e de autorreprovação muito cruel, inclinando-se para a condenação. A questão não é de lutar contra nós mesmos, e sim conquistar essa parte enferma, recuperá-la, e isso jamais conseguiremos se não aprendermos a amar a esse nosso lado doentio.

Essa forma inadequada de reagir a nossos erros abre porta para muitas consequências graves, e às vezes maiores que o próprio erro em si, tais como: estado íntimo de desconforto e desassossego quase permanente, torturante sensação de perda de controle sobre a existência, baixa tolerância à frustração, ansiedade de origem ignorada, medos incontroláveis de situações irreais, irritações sem motivos claros, angústia perante o porvir com aflição e sofrimento por antecipação, excesso de imaginação ante fatos corriqueiros da vida, descrença no esforço de mudança e nas tarefas doutrinárias, mau humor, decisões infelizes no clima emotivo de confusão mental, intenso desgaste energético decorrente de conflitos, desânimo – são algumas dores do martírio.

Quando permanecem prolongadamente, esses estados psicológicos configuram uma auto-obsessão que pode atingir o campo do vampirismo e de ilimitadas doenças físicas.

Poder-se-ia indagar a origem mais profunda de tantas lutas e teríamos que vagar por um leque de alternativas tão amplo quanto são as individualidades. Todavia, para nossos propósitos desse momento, convém refletirmos sobre uma das mais pertinentes atitudes que têm levado os discípulos espíritas aos sofrimentos voluntários com o seu processo de interiorização. Sejamos claros e evitemos subterfúgios para o nosso bem. O culto à dor tornou-se uma constante nos ambientes espíritas. Condicionou-se a ideia de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar. Portanto, passou-se a compreender a dor punitiva como instrumento de libertação, quando, na verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas que continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.

Não é a intensidade da dor que educa, é sim o esforço de aprender a amenizá-la.

O espírita costuma neurotizar a proposta da reforma íntima. É a neurose de santificação, um modo imaturo de agir em razão da ausência de noções mais profundas sobre a sua verdadeira realidade espiritual. Constatamos que existe muita impaciência com a reforma íntima por causa da angústia causada ao espírito por entrar em contato com sua verdadeira condição diante do Universo. Cria para si mesmo, através de mecanismos mentais, as virtudes de adorno ou compensações artificiais a fim de sentir-se valorizado perante a consciência e o próximo. São os esconderijos psíquicos nos quais quase sempre nos enfurnamos para não tomar contato com a verdade pessoal.

Essa neurotização da virtude gera um sistema de vida cheia de hábitos e condutas rígidas, a título de seguir orientações da doutrina. Adotam-se procedimentos que não são sentidos e avaliados pela arte de pensar. Isso nos desaproxima ainda mais da autêntica mudança, e passamos então a nos preocupar com o que não devemos fazer, esquecendo o que devíamos estar fazendo. Certamente esse caminho gera martírio e ônus para a vida mental.

Existem muitas dores naturais no crescimento espiritual que estabelecem um processo crônico de pressão psicológica, entretanto, diferem muita da autoflagelação, porque elas impulsionam e fazem parte da grande batalha pela promoção de todos nós. Observa-se, inclusive, que alguns corações sinceros, inseridos no esforço autoeducativo, experimentam essa silenciosa expiação, mas, por desconhecerem os percalços do trabalho renovador, terminam por desistir de prosseguir e se atolam no desânimo. Acreditam-se piores quando constatam semelhantes quadros de dor psicológica e deduzem que, ao invés de progredirem, estão em plena derrocada. Diga-se de passagem, não são poucos os quadros que temos observado com essas características no seio do movimento doutrinário.

Frequentemente existe um trio de malfeitores da alma que chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: culpa, baixa autoestima e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos a gerenciá-los. Assim, a culpa se transforma em autoaferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa autoestima se converte em capacidade de descobrir valores e o medo de errar se promove a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.

Diante do exposto, indaguemos sobre quais seriam as medidas que deveriam ser implementadas nos núcleos educativos do Espiritismo, em favor da melhor compreensão dos roteiros de transformação interior. Aprofundemos o debate entre dirigentes sobre quais iniciativas poderiam ser facilitadas aos novos trabalhadores em favor de um aprendizado sem os torturantes conflitos originados da crueldade aplicada nos mesmos, quando não somos criativos o bastante para lidar com nossa sombra e tombarmos em martírios inúteis.

Reforma íntima deve ser considerada melhoria de nós mesmos, e não a anulação de uma parte de nós considerada ruim. Uma proposta de aperfeiçoamento gradativo cujo objetivo maior é a nossa felicidade.

Quem está na reforma interior tem um referencial fundamental para se autoanalisar ao longo da caminhada educativa, um termômetro das almas que aprimoram; inevitavelmente, quem se renova alcança a maior conquista das pessoas livres e felizes: o prazer de viver."


Ermance Dufaux







sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 2 - Ética da transformação




Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 2


Ética da transformação


“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral (...)” (Evangelho Segundo Espiritismo - Capítulo XVII - item 4)


A reforma íntima é um trabalho processual. Processual significa aquilo que obedece a uma sequência. Em conceito bem claro, é a habilidade de lidar com as características da personalidade melhorando os traços que compõem suas formas de manifestação. Caráter, temperamento, valores, vícios, hábitos e desejos são alguns desses caracteres que podem ser renovados ou aprimorados.

Nessa saga de mutação e crescimento, o maior obstáculo a transpor é o interesse pessoal, o conjunto de viciações do ego repetido durante variadas existências corporais e que cristalizaram a mente nos domínios do personalismo.

O hábito de atender incondicionalmente as imposições dos desejos e aspirações pessoais levou-nos à cruel escravização, da qual muito será exigido nos esforços reeducativos para nos libertarmos do “império do eu”.

Negar a si mesmo ou “despersonificar-se”, esvaziar-se de “si”, tirar a máscara é o objetivo maior da renovação espiritual. Esse o grande desafio a ser seguido por todos os que se comprometeram com seriedade nas nobres finalidades do Espiritismo com Jesus e Kardec.

Extenso será esse caminho reeducativo na vitória sobre nossa personalidade manhosa e talhada pelo egoísmo... O meio prático e eficaz de consegui-lo, conforme ensinam os Bons Espíritos da codificação, é o conhecimento de si mesmo.

Entretanto, para levar o homem ao aprimoramento, o autodescobrimento exige uma nova ética nas relações consigo e com a vida: é a ética da transformação, sem a qual a incursão no mundo íntimo pode estacionar em mera atitude de devassar a subconsciência sem propósitos de mudança para melhor. O Espiritismo é inesgotável manancial no alcance desse objetivo. Seu conteúdo moral é autêntico celeiro de rotas para quantos desejem assumir o compromisso de sua transformação pessoal com segurança e equilíbrio. Sem psicologismo ou atitudes de superfície, a Doutrina Espírita é um tratado de crescimento integral que esquadrinha os vários níveis existenciais do ser na ótica imortalista.

Nem sempre, porém, verifica-se tanta clareza de raciocínios entre os espíritas acerca dessa questão. Conceitos mal formulados sobre o que seja a renovação interior têm levado muitos corações sinceros a algumas atitudes de puritanismo e moralismo, que não correspondem ao lídimo trabalho transformador da personalidade, em direção aos valores capazes de solidificar a paz, a saúde e a liberdade na vida das criaturas. Por esse motivo, será imperioso que as agremiações do mundo, erguidas em nome do Espiritismo ou aquelas outras que expandam a luz da espiritualização entre os homens, investiguem melhores noções sobre a ética da transformação, a fim de oferecer a seus profitentes uma base mais cristalina sobre os caminhos e percalços no sentido da iluminação de si mesmos.

A prática essencial e meta fundamental dos ensinos dos Bons Espíritos são a melhora da humanidade, a formação do homem de bem. O Espiritismo, em verdade, está nos elos que criamos, uns com os outros e que passam a fazer parte da personalidade nova que estamos esculpindo com o buril da educação. Os “ritos” ou práticas doutrinárias são recursos didáticos para o aprendizado do amor – finalidade maior de nossa causa. Na falta do amor, as práticas perdem seu sentido divino e primordial.

Em face dessas reflexões, evidencia-se a urgência da edificação de laços de afeto nos agrupamentos humanos, no intuito de fixarmos na intimidade as mensagens do evangelho e do bem universal. Afeto é a seiva vitalizadora dos processos relacionais e o construtor de sentidos nobres para a existência dos homens.

O autoconhecimento, através das luzes de imortalidade que se espraia dos fundamentos espíritas, é um mapa de como chegar ao “eu verdadeiro”, à consciência. Todavia, essa viagem não pode ser feita somente com o mapa, necessita de suprimentos morais preventivos e fortalecedores, necessita de uma ética de paz consigo próprio. Somente se conhecer não basta, é necessário um intenso labor de autoaceitação para não cairmos nas garras de perigosas ameaças nessa “viagem de retorno a Deus”, cujas mais conhecidas são a culpa, a autopunição e a baixa autoestima, às quais estabelecem o clima psicológico do martírio. É preciso uma ética que assegure à transformação pessoal um resultado libertador de saúde e harmonia interior. Tomar posse da verdade sobre si mesmo é um ato muito doloroso para a maioria das criaturas. À guisa de sugestões maleáveis, consideremos alguns comportamentos que serão efetivos roteiros de combate, vigília e treinamento para instauração das linhas éticas no processo autotransformador:

Postura de aprendiz – Jamais perder o viçoso interesse em buscar o novo, o desconhecido. Sempre há algo para aprender e conceitos a reciclar. A postura de aprendiz se traduz no ato da curiosidade incessante, que brota da alma como sendo a sede de entender o universo e nossa parte na “dança dos ritmos cósmicos”. Romper com os preconceitos e fugir do estado doentio da autossuficiência.

Observação de si mesmo – É o estudo atento de nosso mundo subjetivo, o conhecimento das nossas emoções, o não julgamento e a autoavaliação constante. Tendemos a avaliar o próximo e esquecer do serviço que nos compete, no entanto, relembremos que perante a imortalidade só responderemos por nós, no que tange ao serviço de edificação dos princípios do bem na intimidade.

Renúncia – A mudança íntima exige uma seletividade social dos ambientes e costumes, em razão dos estímulos que produzem reflexo no mundo mental. No entanto, a renúncia deve ampliar-se também ao terreno das opiniões pessoais e valores institucionais, para os quais, frequentemente, orgulho ilude.

Aceitação da sombra – Sem aceitação da nossa realidade presente, poderemos instaurar um regime de cobranças injustas e intermináveis conosco e posteriormente com os outros. A mudança para melhor não implica em destruir o que fomos, mas dar nova direção e maior aproveitamento a tudo que conquistamos, inclusive nossos erros.

Autoperdão – A aceitação, para ser plena, precisa do perdão. Recomeço é a palavra de ordem nos serviços de transformação pessoal. Sem ela o sofrimento e a flagelação poderão estipular provas dolorosas para a alma. É uma postura de perdão às faltas que cometemos, mas que gostaríamos de não cometer mais.

Cumplicidade com a decisão de crescer – O objetivo da renovação espiritual é gradativo e exige devoção. Não é serviço para fins de semana durante a nossa presença nas tarefas do bem, mas serviço continuado a cada instante da nossa vida, onde estivermos. Somente assumindo com muita seriedade esse desafio o levaremos avante. Imprescindível a atitude de comprometimento com a meta de crescimento que assumimos. Somos egressos de experiências frustradas no desafio do aperfeiçoamento pessoal, portanto, muito facilmente somos atraídos para ilusões variadas. Somente com severidade e muita disciplina construiremos o homem novo almejado.

Vigilância – É a atitude de cuidar da vida mental. Cultivar o hábito da higiene dos pensamentos, da meditação no conhecimento de si, da absorção de nutrição mental digna das boas leituras, conversas, diversões e ações sociais. Vigilância é a postura da mente alerta, ativa, sempre voltada a ideais enriquecedores.

Oração – É a terapia da mente. Sem oração dificilmente recolheremos os germens divinos do bem que constituem as correntes de Energia Superior da Vida. Através dela, igualmente, despertamos na intimidade forças nobres que se encontram adormecidas ou sufocadas pelos nossos descuidos de cada dia.

Trabalho – Os Sábios Guias da codificação asseveram que toda ocupação útil é trabalho. Dar utilidade a cada momento dos nossos dias é sublime investimento de segurança e defesa aos projetos de crescimento interior.

Tolerância – toda evolução é concretizada na tolerância. Deus é tolerância. Há tempo para tudo e tudo tem seu momento. Os objetivos da melhoria requerem essa complacência conosco para que haja mais resultados satisfatórios. Complacência não significa conivência ou conformismo, mas caridade com nossos esforços.

Amor incondicional – aprender o autoamor é o maior desafio de quem assume o compromisso da reforma íntima, porque a tendência humana é desgostar de sua história de evolução, quando toma consciência do ponto em que se encontra ante os Estatutos Universais da Lei Divina. Sem autoamor a reforma íntima reduz-se a “tortura íntima”. Aprender a gostar de si mesmo, independente do que fizemos no passado e do queremos ser no futuro, é estima a si próprio, um estado interior de júbilo com nosso retorno lento, porém gradativo, para a identificação plena com o Pai.

Socialização – se o interesse pessoal é o grande adversário de nosso progresso, então a ação em grupos de educação espiritual será excelente medicação contra o personalismo e a vaidade. Destaquemos assim o valor das tarefas doutrinárias regadas de afetividade e siso moral. São treinamentos na aquisição de novos impulsos.

Caridade – se socializar pode imprimir novos impulsos e reflexões no terreno da vida mental, a caridade é o “dínamo de sentimentos nobres” que secundarão o processo socializador, levando-o ao nível de abençoada escola do afeto e revitalização dos ensinamentos espíritas.

Conviveremos bem com os outros na proporção em que estivermos convivendo bem conosco mesmo. A adoção de uma ética de paz, no transcorrer da metamorfose de nós próprios, será medida salutar no alcance das metas que almejamos, ao tempo em que constituirá garantia de bem-estar e motivação para a continuidade do processo.

O exercício de negar a si mesmo não inclui o descuido pessoal, confundindo a sombra que precisamos reciclar com necessidades pessoais que não devemos desprezar, para o bem-estar e equilíbrio.

Cuidemos apenas de atrelar essas necessidades de conformidade com os nossos rumos que escolhemos. Fazemos essa menção porque muitos corações queridos do ideal supõem que reformar é negar ou mesmo castigar a si, quando o objetivo do projeto de mudança espiritual é tornar o homem mais feliz e integrado à sua divina tarefa perante a vida.

Nos celeiros de luz dos repositórios do Evangelho, verificamos um exemplo de rara beleza e oportunidade que servirá como diretriz segura para a “despersonificação” dos servidores do Cristo, na obra do amor: Ananias, o apóstolo chamado para curar os olhos do doutor de Tarso. Quando o Mestre o chama pelo nome, o colaborador humilde, com prontidão e livre dos interesses pessoais, responde sabiamente: “Eis-me aqui Senhor!”

O nome dessa virtude no dicionário cristão é disponibilidade para servir e aprender, o programa ético mais completo e eficaz para quantos desejam a autoiluminação.


Ermance Dufaux 










quinta-feira, 16 de julho de 2020

Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 2 - Ética da transformação



Ermance Dufaux - Livro Reforma Íntima Sem Martírio - As dores psicológicas do crescimento interior - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 2


Ética da transformação


“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral (...)” (Evangelho Segundo Espiritismo - Capítulo XVII - item 4)


A reforma íntima é um trabalho processual. Processual significa aquilo que obedece a uma sequência. Em conceito bem claro, é a habilidade de lidar com as características da personalidade melhorando os traços que compõem suas formas de manifestação. Caráter, temperamento, valores, vícios, hábitos e desejos são alguns desses caracteres que podem ser renovados ou aprimorados.

Nessa saga de mutação e crescimento, o maior obstáculo a transpor é o interesse pessoal, o conjunto de viciações do ego repetido durante variadas existências corporais e que cristalizaram a mente nos domínios do personalismo.

O hábito de atender incondicionalmente as imposições dos desejos e aspirações pessoais levou-nos à cruel escravização, da qual muito será exigido nos esforços reeducativos para nos libertarmos do “império do eu”.

Negar a si mesmo ou “despersonificar-se”, esvaziar-se de “si”, tirar a máscara é o objetivo maior da renovação espiritual. Esse o grande desafio a ser seguido por todos os que se comprometeram com seriedade nas nobres finalidades do Espiritismo com Jesus e Kardec.

Extenso será esse caminho reeducativo na vitória sobre nossa personalidade manhosa e talhada pelo egoísmo... O meio prático e eficaz de consegui-lo, conforme ensinam os Bons Espíritos da codificação, é o conhecimento de si mesmo.

Entretanto, para levar o homem ao aprimoramento, o autodescobrimento exige uma nova ética nas relações consigo e com a vida: é a ética da transformação, sem a qual a incursão no mundo íntimo pode estacionar em mera atitude de devassar a subconsciência sem propósitos de mudança para melhor. O Espiritismo é inesgotável manancial no alcance desse objetivo. Seu conteúdo moral é autêntico celeiro de rotas para quantos desejem assumir o compromisso de sua transformação pessoal com segurança e equilíbrio. Sem psicologismo ou atitudes de superfície, a Doutrina Espírita é um tratado de crescimento integral que esquadrinha os vários níveis existenciais do ser na ótica imortalista.

Nem sempre, porém, verifica-se tanta clareza de raciocínios entre os espíritas acerca dessa questão. Conceitos mal formulados sobre o que seja a renovação interior têm levado muitos corações sinceros a algumas atitudes de puritanismo e moralismo, que não correspondem ao lídimo trabalho transformador da personalidade, em direção aos valores capazes de solidificar a paz, a saúde e a liberdade na vida das criaturas. Por esse motivo, será imperioso que as agremiações do mundo, erguidas em nome do Espiritismo ou aquelas outras que expandam a luz da espiritualização entre os homens, investiguem melhores noções sobre a ética da transformação, a fim de oferecer a seus profitentes uma base mais cristalina sobre os caminhos e percalços no sentido da iluminação de si mesmos.

A prática essencial e meta fundamental dos ensinos dos Bons Espíritos são a melhora da humanidade, a formação do homem de bem. O Espiritismo, em verdade, está nos elos que criamos, uns com os outros e que passam a fazer parte da personalidade nova que estamos esculpindo com o buril da educação. Os “ritos” ou práticas doutrinárias são recursos didáticos para o aprendizado do amor – finalidade maior de nossa causa. Na falta do amor, as práticas perdem seu sentido divino e primordial.

Em face dessas reflexões, evidencia-se a urgência da edificação de laços de afeto nos agrupamentos humanos, no intuito de fixarmos na intimidade as mensagens do evangelho e do bem universal. Afeto é a seiva vitalizadora dos processos relacionais e o construtor de sentidos nobres para a existência dos homens.

O autoconhecimento, através das luzes de imortalidade que se espraia dos fundamentos espíritas, é um mapa de como chegar ao “eu verdadeiro”, à consciência. Todavia, essa viagem não pode ser feita somente com o mapa, necessita de suprimentos morais preventivos e fortalecedores, necessita de uma ética de paz consigo próprio. Somente se conhecer não basta, é necessário um intenso labor de autoaceitação para não cairmos nas garras de perigosas ameaças nessa “viagem de retorno a Deus”, cujas mais conhecidas são a culpa, a autopunição e a baixa autoestima, às quais estabelecem o clima psicológico do martírio. É preciso uma ética que assegure à transformação pessoal um resultado libertador de saúde e harmonia interior. Tomar posse da verdade sobre si mesmo é um ato muito doloroso para a maioria das criaturas. À guisa de sugestões maleáveis, consideremos alguns comportamentos que serão efetivos roteiros de combate, vigília e treinamento para instauração das linhas éticas no processo autotransformador:

Postura de aprendiz – Jamais perder o viçoso interesse em buscar o novo, o desconhecido. Sempre há algo para aprender e conceitos a reciclar. A postura de aprendiz se traduz no ato da curiosidade incessante, que brota da alma como sendo a sede de entender o universo e nossa parte na “dança dos ritmos cósmicos”. Romper com os preconceitos e fugir do estado doentio da autossuficiência.

Observação de si mesmo – É o estudo atento de nosso mundo subjetivo, o conhecimento das nossas emoções, o não julgamento e a autoavaliação constante. Tendemos a avaliar o próximo e esquecer do serviço que nos compete, no entanto, relembremos que perante a imortalidade só responderemos por nós, no que tange ao serviço de edificação dos princípios do bem na intimidade.

Renúncia – A mudança íntima exige uma seletividade social dos ambientes e costumes, em razão dos estímulos que produzem reflexo no mundo mental. No entanto, a renúncia deve ampliar-se também ao terreno das opiniões pessoais e valores institucionais, para os quais, frequentemente, orgulho ilude.

Aceitação da sombra – Sem aceitação da nossa realidade presente, poderemos instaurar um regime de cobranças injustas e intermináveis conosco e posteriormente com os outros. A mudança para melhor não implica em destruir o que fomos, mas dar nova direção e maior aproveitamento a tudo que conquistamos, inclusive nossos erros.

Autoperdão – A aceitação, para ser plena, precisa do perdão. Recomeço é a palavra de ordem nos serviços de transformação pessoal. Sem ela o sofrimento e a flagelação poderão estipular provas dolorosas para a alma. É uma postura de perdão às faltas que cometemos, mas que gostaríamos de não cometer mais.

Cumplicidade com a decisão de crescer – O objetivo da renovação espiritual é gradativo e exige devoção. Não é serviço para fins de semana durante a nossa presença nas tarefas do bem, mas serviço continuado a cada instante da nossa vida, onde estivermos. Somente assumindo com muita seriedade esse desafio o levaremos avante. Imprescindível a atitude de comprometimento com a meta de crescimento que assumimos. Somos egressos de experiências frustradas no desafio do aperfeiçoamento pessoal, portanto, muito facilmente somos atraídos para ilusões variadas. Somente com severidade e muita disciplina construiremos o homem novo almejado.

Vigilância – É a atitude de cuidar da vida mental. Cultivar o hábito da higiene dos pensamentos, da meditação no conhecimento de si, da absorção de nutrição mental digna das boas leituras, conversas, diversões e ações sociais. Vigilância é a postura da mente alerta, ativa, sempre voltada a ideais enriquecedores.

Oração – É a terapia da mente. Sem oração dificilmente recolheremos os germens divinos do bem que constituem as correntes de Energia Superior da Vida. Através dela, igualmente, despertamos na intimidade forças nobres que se encontram adormecidas ou sufocadas pelos nossos descuidos de cada dia.

Trabalho – Os Sábios Guias da codificação asseveram que toda ocupação útil é trabalho. Dar utilidade a cada momento dos nossos dias é sublime investimento de segurança e defesa aos projetos de crescimento interior.

Tolerância – toda evolução é concretizada na tolerância. Deus é tolerância. Há tempo para tudo e tudo tem seu momento. Os objetivos da melhoria requerem essa complacência conosco para que haja mais resultados satisfatórios. Complacência não significa conivência ou conformismo, mas caridade com nossos esforços.

Amor incondicional – aprender o autoamor é o maior desafio de quem assume o compromisso da reforma íntima, porque a tendência humana é desgostar de sua história de evolução, quando toma consciência do ponto em que se encontra ante os Estatutos Universais da Lei Divina. Sem autoamor a reforma íntima reduz-se a “tortura íntima”. Aprender a gostar de si mesmo, independente do que fizemos no passado e do queremos ser no futuro, é estima a si próprio, um estado interior de júbilo com nosso retorno lento, porém gradativo, para a identificação plena com o Pai.

Socialização – se o interesse pessoal é o grande adversário de nosso progresso, então a ação em grupos de educação espiritual será excelente medicação contra o personalismo e a vaidade. Destaquemos assim o valor das tarefas doutrinárias regadas de afetividade e siso moral. São treinamentos na aquisição de novos impulsos.

Caridade – se socializar pode imprimir novos impulsos e reflexões no terreno da vida mental, a caridade é o “dínamo de sentimentos nobres” que secundarão o processo socializador, levando-o ao nível de abençoada escola do afeto e revitalização dos ensinamentos espíritas.

Conviveremos bem com os outros na proporção em que estivermos convivendo bem conosco mesmo. A adoção de uma ética de paz, no transcorrer da metamorfose de nós próprios, será medida salutar no alcance das metas que almejamos, ao tempo em que constituirá garantia de bem-estar e motivação para a continuidade do processo.

O exercício de negar a si mesmo não inclui o descuido pessoal, confundindo a sombra que precisamos reciclar com necessidades pessoais que não devemos desprezar, para o bem-estar e equilíbrio.

Cuidemos apenas de atrelar essas necessidades de conformidade com os nossos rumos que escolhemos. Fazemos essa menção porque muitos corações queridos do ideal supõem que reformar é negar ou mesmo castigar a si, quando o objetivo do projeto de mudança espiritual é tornar o homem mais feliz e integrado à sua divina tarefa perante a vida.

Nos celeiros de luz dos repositórios do Evangelho, verificamos um exemplo de rara beleza e oportunidade que servirá como diretriz segura para a “despersonificação” dos servidores do Cristo, na obra do amor: Ananias, o apóstolo chamado para curar os olhos do doutor de Tarso. Quando o Mestre o chama pelo nome, o colaborador humilde, com prontidão e livre dos interesses pessoais, responde sabiamente: “Eis-me aqui Senhor!”

O nome dessa virtude no dicionário cristão é disponibilidade para servir e aprender, o programa ético mais completo e eficaz para quantos desejam a autoiluminação.


Ermance Dufaux 










quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ermance Dufaux - Livro Jesus a inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 10 - Por que você sente angústia?



Ermance Dufaux - Livro Jesus a inspiração das Relações Luminosas - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 10


Por que você sente angústia?


“E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.” (Lucas 10:30)


A angústia é uma dor que se aloja no peito, sufoca sua iniciativa e o faz perder a noção do que está acontecendo com você, criando uma profunda sensação de instabilidade que não lhe permite saber o que fazer para se recompor. Entretanto, ela tem um significado fundamental no equilíbrio e na sanidade do ser.

A angústia vem com a finalidade de avisar que seu mundo interior está se desorganizando ou já está desorganizado. Quase sempre se trata de algo antigo que você ainda não compreendeu ou não tem consciência para mudar.

Em muitos casos, a angústia é o termômetro emocional que o alerta sobre o quanto você está se autoabandonando e tomando a direção contrária às suas necessidades de realização interior. Ela surge quando você está se desconectando de sua autenticidade, de sua verdade pessoal e de seu caminho individual no mapa da existência. Não enfrentar seus medos, querer ter controle de tudo, usar de muita perfeição nas atitudes, conviver exaustivamente com a culpa e outros caminhos da dor emocional resultam nesse autoabandono.

Memorize essa ideia: ninguém e nada pode preencher mais o seu coração do que você mesmo. Entregar ao outro essa tarefa é terceirizar sua felicidade.

Quando você aprender a construir e a pavimentar o seu caminho com autoamor, sua vida emocional dispensará o corretivo da angústia. Ela apenas serve para trazer você de volta a si mesmo. É uma dor que sinaliza o desvio de rota na caminhada da evolução. É você querendo resolver coisas de fora sem realizar a mudança interior.

A estrada do autoabandono é um roteiro de descida espiritual semelhante a do homem que saía de Jerusalém, cidade que simboliza as conquistas espirituais, para Jericó, centro das transições mercantilistas e materiais da época. Nessa atitude de se abandonar, você cai na mão dos velhos salteadores, como o orgulho, o ciúme, a inveja, o destempero, a compulsão em fazer escolhas pelos outros, a tristeza pela vida não ser como gostaria, a impaciência com a melhoria e o progresso das pessoas que ama, a sensação de fracasso diante dos seus deveres e tantas outras frustrações da sua vida. Depois desses assaltos emocionais, surge a terrível sensação de perda, de despojamento, junto da dor das pancadas da culpa e, por fim, a angústia toma conta do seu mundo interior, deixando-o meio morto.

Quando se vir acometido pela angústia, faça duas perguntas: o que eu estou tentando controlar? O que eu não estou aceitando? Em seguida, busque uma mudança no padrão do seu comportamento, tomando por base as respostas.

Com essas duas perguntas, você tem enormes chances de entender o que está acontecendo ou de iniciar e promover a recuperação de seu estado íntimo.

Se não houver melhoras, será necessária uma investigação mais profunda.

O Controle sobre o que não é para ser administrável, especialmente os relacionamentos e as situações inalcançáveis, mais o fato de não aceitar os acontecimentos na vida, são causas muito presentes nos quadros de angústia.

São dois comportamentos que consomem muita energia e afastam você de si mesmo.


Ermance Dufaux 



Frase terapêutica

Autoabandono é você se sacrificar por alguém, receber desprezo e ainda chamar isso de amor.






Ermance Dufaux - Livro Vibrações de Paz em Família - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 49 - Projeções



Ermance Dufaux - Livro Vibrações de Paz em Família - Wanderley Soares de Oliveira - Cap. 49


Projeções


Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro de teu olho, estando uma trave no teu? (Mateus, 7:4)


Projete na vida aquilo que você tem na intimidade.

Evite, assim, acusar ou repreender severamente os que convivem com você.

Se, realmente, alguém necessitar de corretivo, aplique-o com doçura e elegância moral em seu próprio favor, a fim de preservar o seu equilíbrio.

Fazendo assim atingirás metas com muito mais alegria e sucesso, mantendo sua sombra pessoal sob a tutela amorosa e terna da sua luz interior, distante da rispidez, da mágoa e da culpa.

Reprimendas e críticas, lamentações e queixas em relação aos outros são pesados fardos que você coloca sobre os próprios ombros. 

Experimente dizer: Eu sou livre! Solto toda contrariedade e rancor para que a vida abundante me conforte e me eleve. 

Eu sou livre! Livre para amar! Livre para amparar sem querer resolver o que não me pertence ! 

Livre eu sou!


Ermance Dufaux










Fonte: Vibrações de paz em família