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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Emmanuel - Livro Renúncia - Chico Xavier - 2ª Parte - Cap. 5 - Provas redentoras



Emmanuel - Livro Renúncia - Chico Xavier - 2ª Parte - Cap. 5


Provas redentoras


A vida familiar no palacete da Cité tornara-se bem amarga. A viúva Davenport perambulava pelos aposentos, dementada e combalida. O velho Jaques, dominado pelos dissabores acerbos, vivia entre o leito da decrepitude e as lágrimas sem consolação. Beatriz, na sua mocidade cheia de sonhos, ainda não saíra da penosa estupefação, dando mostras de singular abatimento.

Foi aí que Alcíone fez valer as virtudes da sua fé, por maneira a satisfazer plenamente os novos deveres. Nunca abandonava Susana, de quem se fizera enfermeira dedicada e afetuosa. Robbie continuava trabalhando em São Jaques, vindo somente três vezes na semana visitar a irmã adotiva, sempre mergulhado em profunda melancolia.

Certa ocasião em que o velho professor entabulou com o rapaz uma palestra mais longa, Alcíone foi chamada pelo generoso velhinho, que a interpelou carinhosamente:

— Não posso consentir que o nosso Robbie continue ausente desta casa, por motivos de serviço. Considero mais acertado que deixe a igreja de São Jaques do Passo Alto, vindo morar conosco. Não podemos esquecer que ele é teu irmão, isto é, filho adotivo da nossa querida morta.

— Sim — respondeu a jovem, solícita — nada tenho a opor, mas olhe que seria uma falta grave o privar meu irmão dos benefícios do trabalho.

— Mas Robbie, Alcíone, é muito doente para desdobrar-se em tantas ocupações.

— Mas o senhor não está de acordo comigo, relativamente às vantagens de uma vida laboriosa? Não quero parecer cruel, antes quero reconhecer a magnanimidade do seu coração, com semelhante lembrança; mas o amor ao trabalho é uma das mais nobres heranças que mamãe nos deixou. Basta lembrar que, embora paralítica, ela costurou por muitos anos para nos criar e manter. Além do mais, é sempre útil ao enfermo entreter-se com alguma coisa. A inatividade costuma induzir-nos a falsas apreciações dos desígnios de Deus, a impaciências, a desesperações e rebeldias…

Percebendo que o amoroso ancião anotava-lhe mentalmente as palavras com sincera atenção, acrescentava, dirigindo-se ao rapaz:

— Não é verdade que sempre ganhaste muito com a dedicação ao trabalho, Robbie?

— Sim, isso é incontestável.

Mas, deixando perceber que desejava umas tantas alterações de regime, acrescentava:

— Entretanto, se possível, gostaria de transferir-me de São Jaques para outra parte. As recordações de São Marcelo me acabrunham e, depois, aquelas crianças irônicas muito me atormentam com os dichotes e indiretas.

— Ora, Robbie — disse Alcíone com bondosa austeridade —, ainda te preocupas com as tolices de meninos ignorantes?

— Estão sempre a tecer comentários dos meus aleijões…

— E que tem isso? Quando cumprimos nosso dever perante Deus e a consciência, a grosseria ou a ingratidão dos outros são relegadas ao baixo plano a que pertencem.

O bondoso ancião acompanhava a neta admirado de ver como conseguia aliar tão facilmente a energia à meiguice.

— Se invocas as lembranças de São Marcelo — prosseguiu a moça ternamente —, dando-me a entender tua saudade de mamãe, recorda que ela cumpriu o seu dever até ao fim, nunca nos pediu uma casa mais confortável, nunca reclamou contra as águas da chuva que invadiam nosso quarto, conservou-se de agulha na mão enquanto Deus lhe permitiu a graça de trabalhar, enriquecendo o nosso esforço… Os aleijões do corpo, Robbie, são melhores que os da alma…

O rapaz experimentou certo abalo ao ouvir as últimas palavras. Reconhecendo-lhe a estranheza, Jaques procurou intervir carinhosamente:

— Alcíone tem razão — exclamou atencioso —, o trabalho é uma bênção de Deus. Não te deves agastar, meu caro Robbie, com os obstáculos encontrados. Todos nós temos uma dificuldade a vencer na vida. O próprio Jesus não caminhou sobre flores.

E dirigindo à neta um olhar significativo, murmurava:

— Apesar disso, minha filha, espero não te aborreças se eu pedir a Henrique a colocação do rapaz mais próximo de nós. Poderá, por exemplo, empregar-se nos serviços de São Landry.

O filho adotivo de Madalena agradecia com a expressão satisfeita, enquanto a jovem concordava:

— Não tenho objeção a fazer, desde que Robbie continue a descobrir, cada dia, a grandeza do espírito de serviço.

Daí a alguns dias, Henrique de Saint-Pierre, o noivo de Beatriz, conseguia a mudança desejada, com grande júbilo para o rapaz, que se transferiu definitivamente para a Cité,  †  podendo assim ficar em contato diário com a irmã adotiva.

A dedicação de Alcíone à viúva Davenport era um exemplo vivo de amor, a calar fundo no coração dos familiares. A própria Beatriz parecia mais concentrada nos problemas graves da vida. Aquele ar de despreocupação, que lhe caracterizava a juventude, desaparecera. Tornara-se mais acessível aos criados, ouvia com interesse as advertências do avô, que não se sentia muito encorajado a prosseguir enfrentando as borrascas fortes do mundo. O noivo notara, satisfeitíssimo, aquela transformação. A jovem Davenport aliava, agora, à beleza juvenil, larga dose de reflexão ao cogitar dos problemas do destino e do sofrimento. A dor abrira-lhe novas possibilidades de inspiração religiosa. A perturbação mental da genitora impedia o culto doméstico, tais as condições precárias do seu organismo; mas, sempre que lhe era possível, lia e meditava longa e atentamente o Evangelho de Jesus. Sua conversação tornara-se mais rica e substanciosa. Alcíone tinha com isso grande consolo.

Havia um mês que morrera Madalena Vilamil.

O estado mental da viúva apenas se agravara. Noites inteiras passava ela em gritos alarmantes, em sinistras visões. Alquebrado pelos anos, cheio de achaques e mais pelos desgostos profundos que lhe golpearam o coração, o tio de Cirilo esperava a morte resignado. Beatriz atendia aos múltiplos encargos domésticos e apenas Alcíone velava pela doente, com as suas infinitas reservas de amor cristão.

Às vezes, alta noite, a demente sacudia-a com gestos de pavor:

— Vês, Alcíone? Satã vem chegando com as suas sentinelas perversas! Ah! que desejam de mim? Já confessei tudo… Esta casa não é lugar de demônios! Voltem para os infernos!… [1]

E rojava-se de joelhos, exclamando:

— Deus me livrará das fúrias do Maligno. Porque confessei a verdade, Satanás persegue minh’alma! Não a levarás, bandido!

— Não se exalte, senhora Susana — observava a moça com doçura. — Vamos orar pedindo a Deus calma e resignação. Tranquilize-se! O poder das trevas se anula; ante a luz divina. Vamos fugir para os braços de Deus, como as crianças que buscam o colo materno quando uma fera se aproxima!…

Suplicava a proteção de Deus, em voz alta, no que era seguida, palavra por palavra, pela infeliz demente.

Terminada a rogativa, Susana mostrava-se mais calma, agradecia com sorrisos infantis e ponderava:

— Só o teu coração compreende as minhas necessidades! Todos me dizem que estou alucinada, que não vejo senão perturbações do meu próprio espírito! Meu pai me manda reagir sem que eu possa faze-lo; minha filha crê que eu esteja sendo vítima de ilusões! Entretanto, Alcíone, o demônio vem sempre ao meu quarto tripudiar do meu remorso intraduzível! Quando oras comigo, ele se prontifica a sair, mas faz um sinal dando a entender que voltará no primeiro ensejo!…

— Acalme-se, senhora — procure pensar na magnanimidade da Providência Divina. Quando se aproximarem os maus Espíritos, ofereça-lhes um pensamento de sincera confiança no Altíssimo. Peçamos-lhes perdão pelo mal que acaso lhes tenhamos feito em outras eras, humilhemo-nos recordando Jesus, que era imaculado e aceitou a cruz imposta pelos algozes…

A enferma escutava-lhe as exortações carinhosas, de olhar desvairado e respondia:

— Teus conselhos são justos… Sabes que meu estado não é apenas uma alucinação…

— Sim, a senhora não mente.

Ao ouvi-la, Susana Davenport, em pleno desequilíbrio das faculdades mentais, exibia olhares mais estranhos e replicava, com os seus remorsos pungentes:

— Já menti quando sacrifiquei tua mãe, mas agora desejo só a verdade… Porque deixei a falsidade, Satanás me atormenta…

— Tudo isso, porém, passará depressa! — esclarecia a jovem pacientemente.

— Sim, passará… passará… — concluía a enferma atenuando a exaltação.

Em seguida, a filha de Madalena vigiava, em prece, até que a mãe de Beatriz conseguisse adormecer.

O ambiente doméstico continuava carregadíssimo.

Numa noite de grandes perturbações, Susana dirigiu-se à carinhosa enfermeira, em pranto convulsivo:

— Não me deixes ir para o cárcere! Já estou sendo castigada rudemente, minha santa menina! Não será melhor que a morte me colha aqui mesmo, como lição para todo o mundo? Muita gente na Cité há de evitar o pecado, quando souber que estou morrendo atormentada, no seio das coisas que pertenciam a tua mãe!…

Não pense nisso! — dizia a interlocutora generosa, tranquilizando-a. — Ninguém a levará daqui. Esta casa é sua e pessoa alguma poderá atentar contra os seus direitos.

— Hoje — voltava a exclamar a louca de olhos esgazeados — vi o infame Padeiro [2] aproximar-se de meu pai e soprar-lhe alguma coisa aos ouvidos. Daí a momentos, ele e Beatriz declaravam-se resolvidos a me afastar de casa.

— A senhora ficará comigo — murmurou a jovem Vilamil consolando-a —, não precisa inquietar-se porque, antes de tudo, Deus nunca nos abandonará.

Com efeito, no dia imediato, ao almoço, dando a impressão de que houvera pensado muitíssimo, antes de apresentar a proposta, Jaques falou, muito trêmulo:

— Minha querida Alcíone, Beatriz e eu estivemos pensando na dilação dos teus sacrifícios e no melhor meio de atender à situação da nossa doente. Como talvez não ignores, temos estabelecimentos em Paris onde a enferma pode ser bem tratada, sem exigir tanto da tua proverbial dedicação.

— Pensam, assim, em afastá-la do convívio doméstico? — perguntou a filha de Madalena surpreendida.

— Efetivamente; as prolongadas vigílias te consomem a saúde. Por minha vez, não te posso ajudar, dado o meu grande esgotamento físico.

— Não, não — retrucou Alcíone firmemente, não concordo. D. Susana não deve, não pode sair daqui. Estou habituada a vigílias e, além disso, a pobrezinha haveria de sofrer muito.

— Mas estaria a salvo de qualquer necessidade no estabelecimento onde tencionamos interná-la.

— Mas isso não lhe garantiria a tranquilidade nem melhoras quaisquer, pois o de que ela mais necessita é de carinho, no transe doloroso por que passa. Estou certa de que não lhe faltariam enfermeiras dedicadas, mas, ainda assim, sempre se consideraria abandonada por nós, no meio de doentes de toda espécie, quando pode perfeitamente tratar-se ao nosso lado, sem que lhe falte o conforto da ternura familiar.

Beatriz, que prestava grande atenção aos argumentos da irmã, objetou:

— Tua atitude é nobilíssima, porém nós não podemos pôr de lado a tua saúde. Além disso, as observações de minha mãe, no estado de loucura em que se encontra, são muito impressionantes para quantos nos visitam.

— Pois eu me comprometo a tê-la sob a minha guarda exclusiva. Não se preocupem comigo. Sinto-me forte. Os cuidados com a doente vêm constituindo para mim um grande consolo. A ausência de deveres imediatos nos inclina, por vezes, a reflexões indevidas. Eis por que a companhia de D. Susana tem sido de imensa utilidade para mim. Desde a partida de mamãe, sinto certo vazio na alma… Ao tocar o cravo para a enferma, recordo-me que seu espírito deve estar satisfeito. Será possível que desejem suprimir semelhante satisfação ao meu trabalho diário?

Beatriz lembrou a realização das suas aspirações de moça, sua infância confortada e a juventude feliz; comparou-a com a exemplificação de Alcíone e sentiu os olhos rasos d’água. Nem ela nem o avô se atreveram a falar mais na remoção da enferma.

Nesse ínterim, quando se levantaram da mesa, o velho Jaques valeu-se da oportunidade de estarem a sós os três e chamou a atenção da filha de Madalena para certo problema que o preocupava:

— Alcíone — disse afavelmente —, aproveitando este momento de calma, devo dizer-te que mandei buscar, por pessoa de confiança, tua certidão de batismo, em Versalhes; mas, quero crer que fosses batizada na Espanha, por iniciativa de Antero de Oviedo, porquanto em Versalhes nada se encontrou.

— Ah! sim… — murmurou a moça hesitante — posso saber o motivo da providência?

— É a necessidade de regularizarmos a questão da herança paterna: Beatriz e eu precisamos atender a essa parte.

A jovem Vilamil fez um gesto de grande admiração e exclamou:

— Por favor! Não façam isso!… Renuncio voluntariamente em favor de Beatriz. Sua felicidade, seus bens, são os meus.

— É impossível, minha filha — respondeu o avô atenciosamente —; é justo pensarmos no teu futuro. O destino dá muitas voltas e não seria razoável descuidar da tua situação, quando te assiste um direito sagrado!…

— Agradeço tanta dedicação — acentuou a moça com firmeza e ternura —, mas a minha renúncia à herança material de meu pai é decisão que não posso modificar.

— Por quê? — interrogou Beatriz ansiosa de repartir com a irmã o copioso quinhão de sua fortuna.

— Já que me perguntam, devo esclarecer. Minha irmã se casará muito breve e não temos o direito de degradar D. Susana no conceito do genro; que, afinal de contas, será também seu filho… Henrique de Saint-Pierre sempre enxergou na futura sogra uma desvelada amiga. Neste amargo período de enfermidade, tem-na tratado com especial carinho. Seria justo desfazer uma atitude tão nobre, tão só por uma razão de possibilidades financeiras, que passam com o tempo? Creio que não. Beatriz, por certo, receberá, das mãos do Altíssimo alguns filhinhos que lhe enriqueçam o coração feminino. Que seria das pobres crianças, quando se recordassem da avó, entre observações descaridosas e pouco dignas? Naturalmente que Saint-Pierre é incapaz de desfazer o noivado pela revelação do pretérito, mas nunca poderia subtrair do lar futuro o mau pensamento, acerca da genitora de sua companheira. Com o tempo, semelhante recordação poderia tornar-se para a querida Beatriz um fardo bastante pesado… Nem todo o dinheiro do mundo bastaria para lhe restituir a tranquilidade. Isso posto, que motivo nos poderia induzir a tornar D. Susana mais desventurada do que é? Descermos a certas explicações num processo de herança, seria enlamear sua memória para sempre. Seria um ato muito indigno de nós. Creio que meus pais, na vida espiritual em que se acham, aprovam plenamente esta conduta.

O bondoso ancião e a neta estavam profundamente surpreendidos. Nunca poderiam pensar que o desprendimento da filha de Madalena atingisse tamanha renúncia. Beatriz permanecia emocionada, sem saber manifestar a gratidão que lhe vibrava na alma. Foi o amoroso velhinho quem rompeu o silêncio, considerando:

— Gostaríamos de restabelecer a verdade, apesar de bastante dolorosa. Estou certo de que Henrique se conformaria de bom grado, e que Beatriz não sofreria qualquer dissabor de futuro, satisfeita e feliz por se edificar no teu exemplo. Quem sabe poderias ponderar o assunto com mais vagar e modificar tuas ideias neste particular?

— Não, não creiam, minha resolução é irrevogável.

— Essa resolução, Alcíone — prosseguiu o velho educador —, não poderia parecer menosprezo a um esforço de teu pai? Se Cirilo pudesse ver-te e falar-te, certamente que te arguiria por isso. A interpelada compreendeu que tal argumento era lançado, de maneira mais peremptória, ao seu coração afetivo, no intuito de lhe modificar as disposições íntimas, e retrucou com argumento ainda mais forte:

— A consciência me diz que o nosso amado ausente me abençoa as intenções. Além de tudo, meu genitor deixou-me uma herança muito sublime, para que eu viesse a preocupar-me com dinheiro. Deu-me um avô generoso e uma irmã devotada… E acaso deixei de receber esse legado santo?

Jaques experimentou alguma coisa no coração cansado, como nunca sucedera em todo o curso de sua longa existência. Reconhecido e feliz, exclamou:

— Deus abençoe todos os teus caminhos!…

— Suas bênçãos, meu avô, são para mim uma riqueza eterna…

Beatriz, sensibilizada ao extremo, beijou-a e retirou-se, enxugando uma lágrima.

E, dada a desistência completa de Alcíone, a situação no palacete dos Davenport continuou sem modificações apreciáveis.

A enferma, atendida em suas mínimas necessidades pela enfermeira afetuosa, continuava gozando a consideração de suas prestigiosas relações parisienses. Não raro, nobres damas da Corte visitavam-na, testemunhando-lhe carinhosa atenção. Retiravam-se, muitas vezes, fortemente impressionadas pelo que ouviam da pobre demente.

— Acreditas, Marcelina — dizia a enferma a uma colega da juventude —, que o demo não nos persiga diariamente? Vejo-o em luta constante, trabalhando por aniquilar minh’alma… Será que tu também tens algum crime a confessar? Se cometeste alguma falta grave, liberta-te do remorso quanto antes! Satanás nos está espreitando!…

E, rematando as considerações com gargalhadas sibilantes, gritava:

— Ah! Ah! Ah!… Vamos tirar as máscaras, vamos tirar as máscaras!…

As visitas, quase sempre se retiravam impressionadas e admiradas com a paciência da enfermeira.

Um ano fazia que Cirilo e Madalena haviam falecido, quando o velho Jaques apresentou sintomas alarmantes. O velho médico da família recomendou o máximo cuidado, porque o enfermo tinha a existência por um fio, podendo morrer de um momento para outro. Enquanto Beatriz se desfazia em lágrimas, Alcíone duplicava a coragem, de modo a atender os doentes, como se fazia necessário. Um portador foi enviado ao Norte, a fim de solicitar a presença de Carolina e dos seus.

Quando a senhora de Nemours chegou com os dois filhos, o genitor estava a despedir-se.

A irmã de Susana mui raramente vinha a Paris e, por ocasião da morte do cunhado e da enfermidade da irmã, limitara-se a escrever, enviando à viúva condolências e votos de pronto restabelecimento. Mas, percebendo que o velho pai estava prestes a deixar o mundo, dera-se pressa em se abeirar do seu leito, em vista da pequena fortuna do antigo educador de Blois.

Carolina encontrou a irmã em lamentável estado. Não obstante as preocupações egoísticas de um temperamento somítico, não abraçou Susana sem chorar. A desventurada viúva dirigiu-lhe comovedoras exortações, que lhe calavam fundo no espírito.

— Talvez não saibas, Carolina — dizia exaltada —, que me tornei criminosa aos olhos dos homens e diante de Deus… Condenei Madalena Vilamil ao desterro e à miséria, para desposar Cirilo, na América… Fiz tudo quanto quis, mas Deus deixa agora que o diabo me peça contas de meus atos condenáveis!…

— Acalme-se… — exclamava Alcíone em atitude de serva devotada. — A senhora está se entregando a emoções muito fortes com a chegada de sua irmã.

— Quem é esta enfermeira tão adequada às nossas necessidades? — perguntava Carolina à Beatriz, com interesse.

Vendo, porém, que a irmã encontrava certa dificuldade em se explicar, a própria Alcíone esclareceu:

— Sou empregada da senhora Davenport, ainda ao tempo em que ela gozava saúde.

— Pois bem, minha menina — replicava a visitante como quem se sente bem ao reconhecer que outros tomam para si o trabalho ou a dificuldade que lhe pertencem —, Deus há de ajudá-la pelo devotamento com que cumpre os seus deveres.

Carolina permanecia ali, sob forte impressão.

— A loucura de Susana é bem singular disse espantada. — Por que se referirá a crimes que absolutamente não praticou?

— Diz o médico — esclareceu a enfermeira com serenidade — que essa perturbação é comum à maioria dos que têm o cérebro transtornado. Em vista de D. Susana haver-se casado com o primo que a ela se unia, em segundas núpcias, parece sempre preocupada com o assunto, alegando situações imaginárias.

— A explicação do facultativo é muito plausível — acrescentava a tia de Beatriz —; minha irmã era muito amiga de Madalena Vilamil e, possivelmente, lembrar-se-á muito da extinta, nos delírios de sua demência.

— Acresce notar — ajuntava a filha de Madalena — que meu nome é Alcíone Vilamil e esta circunstância não deixará de influir no ânimo da enferma, sempre em minha companhia…

— Isso é muito curioso — explicava a interlocutora —, mesmo porque suas feições são muito semelhantes às da primeira esposa de Cirilo, quando moça.

— Muitos dizem isso — confirmava a moça, com humildade.

A senhora de Nemours não ocultou a simpatia que a enfermeira lhe inspirava, tecendo-lhe francos elogios, junto de Beatriz.

No dia imediato ao de sua chegada, eis que o velhinho generoso, depois de longos padecimentos físicos, despede-se do mundo com grande serenidade. Alcíone resistiu a todos os embates, heroicamente, transformando-se num anjo de socorro para cada um, em particular.

Depois do funeral, foi debalde que um dos jovens, filho de Carolina, insistiu para regressarem ao Norte. A esposa do Sr. de Nemours alegava, confidencialmente, precisar conhecer o testamento paterno. O genitor deixara regular quantia em dinheiro de contado, e Carolina queria tomar conhecimento das suas últimas disposições.

O documento, no entanto, aberto daí a três dias, reservava grande surpresa ao seu coração egoísta. Jaques Davenport deixava a pequena fortuna para Alcíone Vilamil, declarando que sua resolução obedecia ao fato de que as filhas e os netos se encontravam devidamente amparados por vastas possibilidades financeiras; e que a sua deliberação testamentária nada mais representava que um ato de gratidão para com a enfermeira amada, a cujo carinho se sentia ligado por eterno reconhecimento.

Alcíone chorou, comovidamente, ouvindo a leitura, e, enquanto Beatriz não conseguia dissimular a satisfação que lhe vagava n’alma, a tia mergulhava-se em contrariedade intraduzível.

Reconhecida a última vontade do morto, Carolina Davenport entrou a pensar seriamente na possibilidade de uma destituição. À noitinha, aproximou-se da filha de Susana, falando-lhe do assunto com gravidade.

— Beatriz — começou a dizer a senhora de Nemours algo irritada —, não posso calar a estranheza que me causou a disposição testamentária de papai. Francamente, estou decepcionada.

— Pois eu, titia, muito pelo contrário, penso de outro modo. Acho que vovô praticou um ato de grande justiça.

— Como assim? Não vejo razões que justifiquem esse ato. Nunca acreditei que meu pai olvidasse a prole para valorizar apenas os serviços de uma criada. Estou disposta a pleitear a anulação do testamento. Meu velho pai deve ter sido lamentavelmente enganado…

— Não diga isso! — tornou a sobrinha revelando nobre preocupação. — Alcíone, em nossa casa, desempenha o papel de uma filha. Sou testemunha da sua extrema dedicação. Aliás, até ontem, a senhora não lhe negou os maiores elogios…

— Sim, como serva. Não podia, porém, supor que papai houvesse atingido esses extremos de consideração.

— A senhora, minha tia — esclareceu Beatriz com a delicadeza firme de quem não está disposto a ceder —, é porque tem vivido ausente, anos consecutivos. Naturalmente, não pode aquilatar as elevadas qualidades de que Alcíone é portadora. Ainda é bastante feliz neste mundo, para conseguir enxergar as almas que desempenham a tarefa dos anjos. Desde que se casou, vive tranquilamente em sua propriedade, ao lado do esposo abastado e dos filhos que participam do seu bem-estar, inalterado até hoje. Aliás, devo dizer que esta opinião era a de vovô, sempre queixoso da sua ausência. Nós, porém, não podemos partilhar com a senhora a mesma apreciação. O falecimento de meu pai nos trouxe lições muito amargas, que Alcíone nos tem ensinado a compreender com a sua bondade sem limites… Em todo o curso da moléstia de minha mãe, seu devotamento tem tocado ao heroísmo.

A interlocutora parecia ouvir superficialmente os argumentos da jovem, respondendo com certa secura:

— Não posso aceitar a opinião da tua mocidade inexperiente. A meu ver, Alcíone é criatura com muitos predicados excelentes, mas não lhe vejo outros títulos que os de serva.

E mostrando o ciúme que lhe envenenava o espírito, em virtude da predileção paterna, rematava:

— Susana está demente, mas eu ainda não perdi a razão. Não concordo com a decisão testamentária e recorrerei à justiça.

A sobrinha, contudo, endereçando-lhe um olhar autoritário, sentenciou:

— Jamais supus que a senhora descesse a tal deliberação apenas por alguns milhares de francos, concedidos por um coração generoso a uma órfã. Saiba, porém, minha tia, que não ficarei inativa ante os juízes de Paris. Sua reclamação poderá vingar, mas eu darei à Alcíone, publicamente, um legado que possa equivaler à pequena herança deixada por vovô… Assim, nossos amigos terão ciência de que a reclamação não parte desta casa, e sim de um espírito inconformado e mesquinho.

Ante a nobre atitude de resistência, a senhora de Nemours fez um gesto de forte irritação e murmurou desolada:

— Insultas-me? És muito nova para discutir comigo. Estou a ver que tu e a serva transtornaram a cabeça do velhinho doente, induzindo-o a testamento tão singular…

— Poderá julgar como lhe ditam os sentimentos próprios.

Carolina corou, fortemente excitada e resmungou:

— Volto hoje mesmo para casa. E ficas ciente, Beatriz, que não precisamos do dinheiro do papai, nem do teu. Tratei do assunto da herança, porque todos somos obrigados a honrar a justiça, mas nunca precisarei dessa miséria de alguns escudos. E que Deus te proteja, para que a serva intrusa não te cause sérias decepções.

A sobrinha lançou-lhe um olhar altivo e murmurou muito calma:

— Agradeço a sua decisão de partir. É melhor que o escândalo fique só entre nós e que a senhora renuncie à primeira disposição que me levaria também a público, como sua adversária.

Não obstante a preocupação de abandonar o palacete da Cité, naquela mesma noite, Carolina Davenport, contida pelos filhos, esperou pela manhã, quando se retirou de Paris, despedindo-se da sobrinha secamente.

Por essa época, Henrique de Saint-Pierre começou a cooperar mais assiduamente na solução dos negócios que envolviam a antiga residência de Cirilo. No círculo de tantas dores e preocupações, somente a perspectiva do casamento próximo de Beatriz oferecia ensejo a determinadas esperanças de paz. A noiva aguardava as melhoras da genitora para marcar a data do consórcio. Desde há muito, o rapaz manifestava desejos de não adiar o enlace por mais tempo; no entanto, Beatriz não se sentia bem, entregando à Alcíone o peso de todos os encargos, relativamente à enferma. Susana, logo após o falecimento do velho professor, atingira um estado especial de inércia, piorando sempre, a olhos vistos. As duas filhas de Cirilo revezavam-se devotadamente no sentido de amparar a doente com todos os recursos ao seu alcance. Alcíone andava abatida. No entanto, as lutas agravavam-se, cada vez mais.

Certa noite, Robbie, já quase homem feito, demorou-se mais que de costume. A filha de Madalena inquietou-se, sentindo que algo de grave sucedera, amargurando-lhe o coração. De fato, enquanto confiava à irmã os pensamentos que a atormentavam, um portador do abade Durville, clérigo de São Landry, pedia sua presença urgente.

— Senhorita — exclamou respeitosamente, dirigindo-se à moça, que o ouvia  surpreendida —, o Sr. Robbie há duas horas foi vítima de um desastre, quando mal havia saído da igreja…

— Que foi? — inquiriu Alcíone sem disfarçar a enorme aflição.

— O rapaz ia distraído quando um carro o colheu, brutalmente: Os cavalos espantaram-se e o cocheiro não teve tempo de evitar o desastre lamentável.

— E como está ele?

— Muito mal. As feridas do peito sangram com abundância, mal pode falar e pediu ao Abade Durville que a prevenissem com urgência.

— Não há tempo a perder — murmurou Beatriz. Daí a minutos, o carro dos Davenport safa à pressa, conduzindo as duas irmãs.

Em um recanto da igreja de São Landry, o filho adotivo de Madalena experimentava o esgotamento rápido de suas forças. O sangue borbulhava, incessante, das feridas abertas. Debalde um médico aplicava os recursos limitados da sua ciência. O afluxo de sangue cedera em determinadas regiões, mas a incisão profunda, ao longo do peito, era uma fonte inestancável. Não havia mais esperanças. Durville e alguns companheiros assistiam-no, certos de que o músico estava perdido.

Percebendo a seu lado a irmã muito querida, o rapaz pareceu concentrar as energias supremas, no desejo de lhe transmitir os últimos pensamentos. A voz era-lhe como um sopro. Alcíone inclinou-se, esforçando-se para não chorar; beijou-o com enternecimento fraterno e sentou-se, ali mesmo, para que a fronte dilacerada lhe repousasse no regaço fraterno. O ferido esboçou um sorriso leve que sensibilizou os assistentes.

— Então, Robbie? como foi isso? — perguntou a irmã, quase colando os lábios aos seus ouvidos.

— Deve ser… a vontade de Deus… que se cumpriu…

Alcíone, muito comovida com a doce resignação do moribundo, voltou a dizer:

— Levar-te-ei comigo para casa. Haveremos de tratar das feridas, com atenção. O carro nos espera à porta.

O ferido tentou fazer um gesto que significasse a sua impossibilidade absoluta, chegando tão somente a murmurar:

— Não posso mais…

Beatriz procurou o facultativo, que tirava o avental tinto de sangue e pediu licença para mover o rapaz. O doutor, entretanto, não concordou, exclamando:

— É inútil! A providência apenas agravaria os padecimentos do infeliz. Seus minutos estão contados. O grande ferimento do peito, produzido pela pata do animal, é irremediável.

— O caso é assim tão grave? — indagou a filha de Susana, alarmada.

— A morte é uma questão de momentos — respondeu o médico, um tanto displicente.

Alcíone, que compreendia a situação, inclinara-se para o moribundo, como se estivesse acariciando um filhinho.

— No instante em que se verificou o desastre — esclarecia o Abade Durville em voz alta —, quis prender o cocheiro culpado, a fim de puni-lo, como de justiça, mas Robbie não consentiu, dizendo-se o único culpado do incidente.

O rapaz olhou a irmã, longamente, ansioso de ler no seu rosto a aprovação de sua atitude. A filha de Madalena entendeu a sua linguagem silenciosa e disse:

— Fizeste muito bem, Robbie. É preciso não disputarmos com o mundo, a fim de encontrarmos o caminho que conduz a Deus.

 O agonizante teve uma expressão de grande conforto íntimo e, reunindo as suas reduzidas possibilidades orgânicas, falou entrecortando as palavras:

— Desde que mandei os gendarmes libertar o cocheiro, por entender que me cabia a culpa… sinto que não tenho mais a pele negra, que tenho a mão e a perna… curadas… veja Alcíone…

E fazendo um esforço ao qual não podia corresponder a mão quase hirta, continuava, murmurando:

— Minha mão tem agora cinco dedos… e tenho a impressão de que me curei dos olhos para sempre… Somente não posso levantar-me e acompanhar-te… mas depois que dormir… penso que ficarei bom.

A irmã adotiva acentuou vertendo algumas lágrimas:

— São estas as provas redentoras, meu querido Robbie! Deus te restitui a saúde da alma, por te considerar novamente digno.

Mas o médico que conversava com Beatriz e o abade Durville, a distância de dois passos, acrescentava:

— Creio que a pobre rapariga não conhece o delírio da morte. O agonizante começa a desvairar. Deve ser o fim.

Longe de ouvir a opinião descriteriosa do mundo, Alcíone conchegava o irmão de encontro ao peito, elevando-se a Jesus em preces fervorosas.

— Sinto… muito sono… — disse Robbie num sopro débil.

A filha de Madalena afagou-o com mais ternura e o músico adormeceu para sempre, no mundo, para despertar numa vida mais alta.

O doloroso incidente, que arrebatara o irmão adotivo para a Esfera espiritual, deixara Alcíone muito mais abatida do que fora de prever. Saint-Pierre cuidou do funeral com a maior solicitude.

Terminada, porém, a cerimônia fúnebre, que se havia revestido de tocante simplicidade, a jovem Vilamil começou a experimentar penosa angústia no coração. Nunca sentira tamanha sensação de soledade no mundo. Robbie era o último traço da sua infância e da sua juventude. Amargurosa saudade empolgou-lhe o coração. A antiga chácara de Ávila ficara muito distanciada no tempo. Dolores e João de Deus, os bons amigos da meninice, jamais haviam dado sinal de vida, do seu longínquo recanto; padre Damiano e sua mãe haviam partido, seu pai e o avô lhes haviam seguido os passos no caminho da morte, Carlos afastara-se pela incompreensão, Robbie descera à sepultura.

Dominada pela tristeza dos espíritos solitários, a filha de Madalena recolheu-se ao aposento particular. Aí chegando, chorou convulsivamente, em atitude contraria a todos os seus hábitos. Abraçando o velho crucifixo, junto do qual tantas vezes D. Margarida e Madalena haviam chorado, dizia sentidamente:

— Ah! meu Jesus, não me desampares!…

Foi aí que a pobre louca, dando pela sua falta, aproximou-se, depois de abrir a porta levemente cerrada, exclamando de olhos inexpressivos, num impulso maquinal:

— Alcíone!… Alcíone!…

A interpelada enxugou o pranto, recolocou o crucifixo no lugar primitivo, levantou-se solícita e foi ao encontro da enferma, com ternura:

— Ah! como me esqueci da senhora!… E abraçando a pobre demente, conduziu-a com muito carinho ao quarto de dormir.


Emmanuel


[1] Todas as manifestações de Espíritos obsessores, no tempo antigo, eram tomadas à conta de aproximação de Satanás. — Nota de Emmanuel.

[2] O povo de Paris dava ao Espírito das trevas a designação de “Padeiro”, a fim de não pronunciar a palavra “Diabo”. — Nota de Emmanuel.




VÍDEO: 

Renúncia, pelo Espírito Emmanuel / Chico Xavier. (áudio novela).



AMOR E CARIDADE KARDEC BRASIL

A doce Alcíone pede para voltar à Terra e acompanhar o grande amor de seu passado, Carlos, numa nova existência de provas, sacrifícios e reparações. Em um exemplo de profunda dedicação ao próximo, ela demonstra toda sua lealdade ao ajudar de perto aquele por quem tanto havia intercedido no plano espiritual. Neste romance histórico envolvente, o Espírito Emmanuel nos transporta para a frívola Paris do século XVII, repleta de sentimentos violentos e ilusões materiais que se confrontam com as eternas verdades da alma. Por meio da psicogra­fia de Francisco Cândido Xavier, parceiro do autor espiritual, também conhecemos mais uma das encarnações de Emmanuel, desta vez como padre Damiano, vigário da igreja de São Vicente, em Ávila, na Espanha, e contemporâneo do casal protagonista.



domingo, 28 de julho de 2024

Emmanuel - Livro Renúncia - Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 6 - Novos rumos



Emmanuel - Livro Renúncia - Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 6


Novos rumos


A família Estigarríbia não voltou a renovar suas absurdas exigências e o próprio D. Alfonso fez o possível por demonstrar atitudes novas e mudança de propósitos, de sorte que a torpe extorsão não chegou a consumar-se. Ciente do fato, o bispo Molina desautorizou os criminosos intuitos e providenciou para que o confisco não ultrapassasse os limites indicados pelos inquisidores.

Encerrado o incidente, a vida na granja prosseguia em adorável simplicidade.

Alcíone fizera-se amiguinha fiel do Padre Damiano e Madalena parecia regozijar-se com a nova companhia.

O eclesiástico revelava ideias diferentes de sua época. Embebido nas veneráveis tradições do passado, não podia compreender os crimes tramados na sombra, em nome de Deus. Apreciava a filosofia antiga, desprezava os exageros do fanatismo e não concordava com a tirania do Santo Ofício.  †  Quase diariamente, à noite, ia à vivenda modesta da viúva Davenport, a cuja porta a pequenina Alcíone se postava para saudar graciosamente o cavalo paciente e manso, que o servia no pequeno trajeto.

As conversações interessantes desdobravam-se, animadoras. Madalena Vilamil parecia encontrar nas interpretações do religioso mais duradouras consolações.

— Padre Damiano — dizia —, a Igreja parece despreocupar-se de nossas amarguras. Em toda parte preponderam as injunções políticas, ao passo que Jesus foi bem claro nos ensinamentos relativos ao seu Reino, que ainda não é deste mundo. Todavia, em vez de cuidar da redenção das almas, a maioria dos clérigos permanece em disputas vãs. Vivemos uma época de trevas espessas. A Inquisição é muito mais poderosa que os reis sem coração. A que atribuir tais desmandos? Não considerais que temos sido escravos antes que devotos?

— Sim, minha filha — esclarecia o amigo com a sua madura experiência da vida —, tuas observações são justas. Deus cria a vida, não o cativeiro. Entretanto, esses clamorosos desvios são das instituições humanas. Os padres ambiciosos de poder temporal constituem fileira quase interminável nos tempos atuais, mas não poderão nunca destruir o Cristianismo na sua essência eterna, divina. A misericórdia de Deus lhes tolera os insultos, mas há de chegar o tempo de se restabelecer a verdade. Sou de opinião que todas as iniquidades da Terra são impotentes para aniquilar uma centelha de nossa fé.

A última frase despertou em Madalena pensamentos novos. Num belo minuto de meditação, esquecia as vicissitudes da Terra e as angústias do Tempo, para alcandorar-se nos sublimes problemas da alma.

— A fé? — obtemperou — como adquiri-la, padre? De mim a entendo como um estado superior, conseguido na oração. Tudo tenho feito por encontrar alívio e refúgio na confiança em Deus. No entanto, sinto-me bem longe da paz íntima que tanto ambiciono.

O eclesiástico lançou-lhe um olhar significativo, como a dizer que lhe era impossível resolver definitivamente a questão e explicou:

— Não poderemos criar os valores da fé, enquanto nos sobeje a inquietação, e acredito que nossas relações com a Divindade devem ser as mais simples possíveis. Quanto a mim, considero que cada dia é uma oportunidade renovada para o labor de nossa redenção. Resumo as minhas preces à vigília da manhã, na qual procuro a inspiração do Evangelho ou dos livros que nos suscitam desejos de perfeita união com o Cristo, e ao louvor da noite, quando busco examinar os ensejos de serviço ou testemunhos que o Senhor me facultou.

Ela não compreendeu a contento e interrogou:

— Mas… como?

— Toda a leitura edificante derivou da Providência por intermédio dos seus mensageiros, em nosso socorro; com as suas advertências e conceitos, sábios e preciosos, faço a vigília matinal e à noite rendo graças ao Pai, em consciência, pelos favores que me foram dispensados. Na vigília, estabeleço propósitos redentores; e no exame da noite julgo-me a mim mesmo, para verificar onde se cristalizaram minhas maiores fraquezas, a fim de emendá-las no dia imediato. O mundo, a meus olhos, é uma vasta oficina, onde poderemos consertar muita coisa, mas reconhecendo que os primeiros reparos são intrínsecos a nós mesmos.

Grandemente interessada, a suposta viúva de Cirilo insistiu:

— Se dais tanto valor ao esforço espiritual da manhã e às meditações da noite, como encarar o dia?

— Creio que entre a vigília e o louvor está o trabalho que o Senhor nos deferiu. O dia constitui o ensejo de concretizar as intenções que a matinal vigília nos sugere e que à noite balanceamos.

O reduzido auditório, isto é: Madalena, Alcíone e Dolores, bebia-lhe os conceitos com profunda atenção.

A serva, talvez impressionada pelas suas definições de trabalho, indagou:

— Padre Damiano, como proceder, então, nos dias em que as circunstâncias nos impeçam de trabalhar? Estaremos fugindo ao ensejo que Deus nos concedeu?

O religioso compreendeu o móvel da pergunta e tentou explicar:

— Acreditas, então, que só aos braços foram conferidas as atribuições de serviço? Os ouvidos trabalham quando ouvem, os pés quando caminham, a língua esforça-se, a inteligência atua. Quando cessam as possibilidades de ação no exterior, há no íntimo da criatura todo um mundo a desbravar. Chego a refletir que, às vezes, a enfermidade atormenta a criatura para que ela se volte para dentro de si e aproveite a oportunidade, no esforço laborioso de sua renovação.

Para a filha de D. Inácio, aquelas conclusões sobre a prece eram novas e surpreendentes. Tal como acontecia em todas as esferas religiosas do seu tempo, supunha que orar equivalia a pedir. As cerimônias da igreja, quase sempre, resumiam-se em longas súplicas, apenas. Os livros devocionais englobavam rogativas, da primeira à última página. Os ex-votos, as procissões, os sermões públicos, representavam pedidos insistentes. Por isso mesmo, a viúva inquiriu com certa indecisão:

— Vossos esclarecimentos quanto à oração me surpreendem; contudo, necessito expor minhas dúvidas mais íntimas. Não teria Deus concedido ao mundo a faculdade de rezar, a fim de que a alma humana aprendesse a pedir? Sempre conheci essa manifestação do sentimento como rogativa. Considero, entretanto, que, se toda a nossa atividade religiosa estivesse circunscrita aos atos precatórios, não passaríamos, neste mundo, de uma assembleia de mendigos. Que dizer do homem que reclamasse, de mãos postas, o manjar do Céu, somente por reter o suor na semeadura do seu quintal? Poderá alguém insistir na obtenção da verdadeira paz, quando ainda disputa a ferro e fogo a posse de bens perecíveis? Chegará alguém à esfera dos anjos, quando ainda não chegou a ser homem?

Reconhecendo o interesse despertado por suas palavras, Damiano sentiu-se encorajado e continuou:

— Naturalmente que deveremos apelar para o Céu, mas, no interpretar a prece como rogativa, suponho que não devemos ir além do “Pai Nosso”, porque, acima de tudo, julgo que a oração deve ser um esforço para nos melhorarmos. Deus nos procura a todo momento e o ato devocional será, então, tarefa incessante do espírito, apagando as imperfeições, para que o Pai nos encontre.

— Mas, criaturas há que maldizem o destino — acrescentou Madalena sumamente interessada. — Como não importunar o Céu, quando padecemos necessidades angustiosas? Para muita gente, a Terra não passa de odioso degredo e o corpo representa escuro cárcere.

— Não creio. Só há mendicidade em nossa alma. E no que se refere a paisagens do mundo, o próprio deserto tem a sua beleza. As estradas que pisamos estão repletas de perspectivas encantadoras. Uma folha da primavera ou um punhado de areia são documentos da glória de Deus em nossos caminhos. Quando nos referimos a regiões sombrias ou desoladas, geralmente esquecemos que elas se localizam em nosso mundo íntimo. A noção de cárcere, como a dor do remorso, nunca foram observadas no horizonte azul nem no canto dos pássaros, simplesmente porque residem dentro de nós mesmos.

— E o sofrimento, padre Damiano? — perguntou Madalena Vilamil, já tocada por aqueles altos conceitos. — Que me dizeis do problema do destino e da dor? Nosso futuro espiritual, após a morte, não está encerrado no Céu, no purgatório ou no inferno, sem remissão?

O interpelado sorriu e esclareceu:

— Esta palavra, ouvida pela Inquisição, representaria um crime de traição para o fanatismo de nossa época e nos levaria à fogueira. Esta circunstância nos leva a refletir na magnitude da tarefa a realizar, mas, se eu disser que minha interpretação é diferente? A morte não existe como a entendemos. O que se verifica, apenas, é uma transmutação de vida. Os teólogos suprimiram a chave simples das nossas crenças. Quando o corpo é reclamado pelo sepulcro, o Espírito volta à pátria de origem, e como a Natureza não dá saltos, as almas que alimentam aspirações puramente terrestres continuam no ambiente do mundo, embora sem o revestimento do corpo carnal. Desde a mais remota antiguidade, os homens se comunicaram com os seus semelhantes já mortos.

E, ante o olhar admirativo da jovem senhora, Damiano passou a recordar:

— Eneias fez consultas a Anquises, por meio dos estranhos poderes da feiticeira de Cumas ; Plutarco  afirmava que os seres de outro mundo se manifestaram nos Mistérios; Sócrates tinha seu gênio familiar; Apolônio de Tiana sentia-se auxiliado por entidades invisíveis; os imperadores romanos buscavam os pareceres dos habitantes de além-túmulo, com a cooperação dos Oráculos ; Vespasiano procurou a palavra dos numes tutelares no Oráculo de Geryon ; Tito fez o mesmo na Ilha de Chipre ; Trajano imitava-os, sondando as revelações do Oráculo de Heliópolis, na Síria; os cronistas do tempo antigo declaram que Augusto, depois de iniciado no culto de Elêusis, tinha contato com os fantasmas; nas páginas sagradas da Bíblia vemos Saul procurando o falecido Samuel por intermédio da pitonisa de Endor, e contemplamos os discípulos de Jesus bafejados pelo Espírito-Santo, no glorioso dia do Pentecostes…

É extraordinário! — exclamou a esposa de Cirilo felicitada por novas luzes. — Quer dizer que os entes queridos, que nos antecedem no túmulo, nos esperam no limiar da outra vida, para as alegrias do reencontro!?…

Damiano esboçou um gesto altamente significativo e acrescentou:

— Nem sempre será indispensável partir para reencontrar…

— Por quê? — interrogou admirada.

— Nossa época não comporta a divulgação das supremas verdades, mas nós nascemos e renascemos. A vida é uma só; entretanto, as experiências são diversas. O próprio Jesus declarou aos mentores de Israel que não era possível atingir o Reino de Deus sem renascer de novo. Inferno ou purgatório são estados do espírito em tribulação por faltas graves, ou em vias de penitência regeneradora.

A “viúva” Davenport teve a sensação de haver sido levada a um porto de grandiosas revelações. Recordou, subitamente, seu primeiro colóquio com o rapaz irlandês que elegera para seu companheiro de existência, quando lhe confiara as predições do velhinho de Granada. A figura quase apagada do egipciano erradio ressurgia-lhe nos arcanos da memória, com os mínimos contornos. Assim, reviu na tela imaginada as portas do Alhambra e as amiguinhas bem-amadas, destacando-se de todas as recordações as palavras conselheiras do desconhecido: “Prepara-te, minha filha, e une-te à fé em Deus, porque teu cálice, no mundo, transbordará de sofrimentos. Não vivemos apenas esta vida. Temos várias existências e a tua existência atual é promissora de tributos afanosos para a redenção.” Sinceramente impressionada, relatou o incidente, que o religioso acolheu com singular carinho.

— Podes crer — afirmou convicto — que esse ancião deveria ser um grande inspirado.

— Mas será possível que se troque de corpo como se muda de vestes?

— Justamente. Só isso, minha filha, explica as profundas diferenças do caminho. Nas estradas em que buscamos a luz da salvação, encontramos os seres humanos mais díspares. Ali, depara-se-nos um homem impiedoso, detentor de sólida fortuna; acolá, debate-se um justo entre a fome e a enfermidade, que parecem intermináveis. Num mesmo lar nascem santos e ladrões. Há pais excelentes cujos filhos são indesejáveis, monstruosos. Uma via pública exibe jovens elegantes e miseráveis criaturas que se arrastam entre a lepra e a cegueira. Poderias admitir que o Criador, magnânimo e sábio, deixasse de ser pai para ser um experimentador desalmado? Não admitamos esse absurdo teológico, mas ponderemos na verdade de que se cumpre, desde agora, o — “a cada um segundo suas obras”, dos ensinamentos de Jesus. Na obra divina, infinita e eterna, cada filho tem responsabilidade própria. A criatura se engrandecerá ou submeter-se-á ao rebaixamento, conforme utilize as possibilidades recebidas. No caminhar de cada dia, podemos observar os que ascendem, apesar dos dolorosos testemunhos; os que estacionam em receios inúteis; os que resgatam e os que contraem novas dívidas.

Madalena Vilamil, depois de apurar ainda mais as impressões próprias, considerou sensibilizada:

— Vossas razões me suscitam mais vastos raciocínios. Às vezes, padre, sonho com assembleias que me forçam a decisões prejudiciais, com praças armadas e onde minha voz ordena ações cruéis… Vejo-me, então, detentora de poderes, rodeada de súditos numerosos.. Em seguida, acordo exausta, com a impressão de haver regressado de uma região de reminiscências indesejáveis.

— Ah! sim? — murmurou Damiano com um sorriso — quem sabe a nossa permanência em Ávila constitui uma repetição de circunstâncias do passado ominoso? É possível que tenhamos tido riqueza e autoridade, exercendo tirania. A casa de Deus é cheia de justiça com misericórdia.

A viúva Davenport meditou alguns minutos nas provações sofridas, considerou a razoabilidade dos conceitos expendidos e concordou:

— É verdade. Minha existência parece obedecer a esse plano de tributos expiatórios. Desde criança, venho observando que nas situações decisivas sou obrigada a curvar-me às circunstâncias. Nos grandes lances tenho a impressão de que minha vontade é anulada por misterioso poder…

— E és muito feliz em não desobedecer.

— Entretanto, padre, as mágoas são muitas e rudes.

— Mas se o esforço divino de Jesus foi aureolado no Calvário, quem poderá pensar na glória celeste sem a coroa de espinhos? As pessoas felizes costumam não ter história, e, quando a possuem, nem sempre registram episódios mais dignos. Com essa ideia, não quero dizer que devamos andar no mundo como aventureiros do sofrimento, em farrapagem de trapos e lamentos, mas desejo realçar o valor das lutas incruentas do coração, que temperam o caráter e iluminam a vida A maioria dos santos esteve indecisa, até que o testemunho redentor, pela dilaceração de si mesmos, lhes abriu os horizontes infinitos da Eternidade. Nascemos e renascemos, até que possamos encontrar asas de sabedoria e de amor para os voos supremos.

— Vossas ideias a respeito da pluralidade de existências — disse Madalena — traduzem imensas consolações. Depois que voltei da França, já fui duas vezes à igreja de São Tomás assistir aos ofícios religiosos, mas nunca poderei definir as emoções que me assaltaram ao contemplar-lhe as imagens antigas. Ao ajoelhar-me próximo do púlpito, a grandeza do velho templo parecia revocar-me a lembranças imprecisas de outras eras, que eu não conseguiria definir. Terminada a missa, visitei todos os altares e extasiei-me na contemplação do velho claustro… Poderosas impressões dominaram-me o pensamento… Fiquei convencida de que cada coisa, ali, me era familiar e, contudo, quando menina, no internato, raras vezes visitei esse templo e nunca experimentei tais sensações.

— Sim — considerou Damiano em atitude de funda reflexão —, a igreja e o claustro de São Tomás têm sua história longa e estranha. Ali foram tomadas muitas deliberações importantes, nas reuniões dos reis católicos com os membros do Santo Ofício. 

Houve uma pausa e logo a moça interrompeu:

— Já que essas teorias tanto edificam, por que não cuida a Igreja de as divulgar?

— Por enquanto não devemos pensar nisso. Estas revelações espirituais nos chegam da mais remota antiguidade, mas a Igreja Católica não poderá tão cedo espalhar o clarão dessas verdades confortadoras A noite que desceu sobre nós ainda não terminou.

— Mas, acaso não se trata de consolações divinas?

— Sim, mas nossa crença atual tem sua base no terror da tirania religiosa e não na liberdade sublime do Evangelho. Se Jesus voltasse agora, à Terra, seria perseguido como impostor, com suplícios talvez maiores que os da cruz. A barca de Roma é diferente da barca da Galileia. Na primeira, temos sacerdotes ambiciosos e insaciáveis; na segunda, tínhamos pescadores. Em Roma, esplendem palácios; enquanto que em Belém  fulgia a manjedoura. No Vaticano, faíscam gemas preciosas da tiara pontifícia; em Jerusalém o cálice era de vinagre e a coroa tecida de espinhos.

Madalena recolhia as citações com indisfarçável interesse, enquanto o eclesiástico rematava:

— Compreendes as diferenças?

— Abraçais então a Reforma? — arriscou, referindo-se ao movimento religioso iniciado por Martinho Lutero.

— Aceito a necessidade da reforma íntima. Se os protestantes puderem alcançar semelhante renovação, por certo serão bem-aventurados. Quanto ao mais, se ainda me encontrasse sem responsabilidades definidas, seria justo empunhar uma espada de batalhador ativo em prol do restabelecimento da verdade; contudo, se Deus me chamou ao labor do ministério católico, devo obedecer, compreendendo que o meu combate é no silêncio e na meditação, longe dos olhos indiscretos do mundo.

Aquelas conversações construtivas repetiam-se diariamente. Quando o sacerdote não comparecia, a viúva Davenport, Dolores e João de Deus, seguidos de Alcíone, prosseguiam nos mesmos comentários. Eram passagens evangélicas, livrinhos de meditações, contos educativos, o material de luz das palestras fraternais do grupo modesto. Padre Damiano, de vez em quando, contava a história dos primeiros mártires do Cristianismo, e a recordação dos sacrifícios provocava um manancial de lágrimas benéficas. A lembrança de sua resistência heroica, de sua exemplificação de coragem, bondade e fé, acendia, em todos, novas claridades confortadoras.

Os meses corriam céleres para aquela reduzida assembleia de corações, que não desejava outra coisa senão a paz perfeita em Jesus.

A pequena Alcíone encontrava singular encanto nas descrições dos tempos remotos, em que os cristãos perseguidos se reuniam nas catacumbas abandonadas. A narrativa das festividades bárbaras da época de Nero marejava-lhe os olhos, mas, quando ouvia a leitura das respostas firmes dos mártires aos algozes, exultava de entusiasmo. Denunciando vocação para o sacrifício, certa vez interrogou:

— Padre Damiano, onde é agora o circo? E as feras? Ainda podemos sofrer para mostrar a Jesus que não estamos de acordo com os que o crucificaram?

O religioso achou muita graça na lembrança e explicou:

— Sem dúvida, poderemos testemunhar nossa fé a todo tempo, em todas as circunstâncias.

E observando que a criança aguardava resposta completa, concluiu sorrindo:

— Agora o circo é o mundo e, na maioria dos casos, as feras são os homens.

Dois anos, relativamente tranquilos, assim passaram. O religioso amigo vivia sempre na expectativa de uma surtida à América. Quando todos os planos pareciam ajustar-se ao cometimento, surgia um imprevisto dominante. Adiavam-se então as esperanças, indefinidamente. Madalena Vilamil, todavia, gozava melhor saúde, com exceção dos pés, que a obrigavam a se contentar com a pequenina paisagem da sua pobre granja. Movimentava-se, porém, sem maiores torturas, dentro de casa e no âmbito do quintal, e isso era motivo de enorme satisfação. As palestras e reflexões diárias, sobre a vida espiritual, renovavam-lhe as forças psíquicas. Tinha ilimitada confiança no futuro de além-túmulo. No trato das ideias novas, chegava à conclusão de que a viuvez e a pobreza material representavam condições do testemunho e em tudo havia possibilidades de honrar os decretos divinos. Recordava o passado, detinha-se nas reminiscências dos dias mais tormentosos e refletia que as piores situações haviam passado. Além do mais, a Providência lhe concedera um bálsamo celestial nas carícias da filhinha, cuja companhia representava o alfa e o ômega da sua vida. Sua fé religiosa ao influxo dos novos conhecimentos, ganhara maravilhosos poderes de resistência. Estava certa de que encontraria novamente o esposo e os pais, quando entregasse o corpo material às sombras do túmulo. Essa crença proporcionava-lhe constante renovação de energias morais, e chegada a noite, na hora das preces, sentia doce tranquilidade de consciência e infinita esperança a encher-lhe o ferido coração.

Por essa época, verificou-se memorável evento no sítio. Atendendo à generosa interferência de amigos, os Estigarríbias consentiram no casamento de João com a Dolores; e Madalena muito se regozijou com o feito. A cerimônia, muito simples, foi celebrada na residência da noiva, pelo padre Damiano, com a presença de D. Alfonso, que via no feito um elo a unir a fazenda poderosa à humilde chácara confinante.

João de Deus, no entanto, casara-se sob condição de continuar na mesma situação de semiliberto, da qual a esposa teria de compartilhar. Dolores, todavia, ficou livre para prosseguir cooperando com a ex-senhora, como lhe aprouvesse, apesar de Madalena ter agenciado outra serva, indispensável aos trabalhos da horta e do pomar.

A família Estigarríbia, desejando talvez apagar as más impressões do passado, mandou construir uma casinha modesta para o casal, justamente na divisa da chácara, para que a senhora Vilamil não ficasse afastada dos seus amigos prestimosos.

Dessarte, o casamento da serva não alterou o regime doméstico de Madalena, de maneira essencial.

E, como a interpenetração de Planos constitui fenômeno inelutável no curso da vida, vejamos o que ocorria a Antero de Oviedo no Plano espiritual.

Em região de sombras compactas, seu Espírito reparava com lágrimas de compunção a inconsciência de outrora. Azorragado pelo remorso, tinha a impressão de estar mergulhado em noite infinda, no bojo imenso de insondável abismo. Dois anos lhe pareciam dois séculos de amargor inconcebível. De quando em quando, tentava erguer-se do abatimento que o prostrava, para logo recair em marasmo de agonias, como se lhe não fora possível intentar, sequer, desprender-se daquela geena. 

A princípio, tinha fome e sede, mas, aos poucos, tais sensações cediam a padecimentos mais atrozes. As últimas impressões da morte trágica subsistiam e até se requintavam, esmagando-o, qual catadupa de indefiníveis angústias. Terrífico silêncio envolvia-o, uniforme, invariável. Quando ansiava por ouvir vozes humanas, chegavam-lhe ruídos confusos das gargalhadas escarninhas, deixando-o quase convicto de estar sendo espreitado por inimigos intangíveis, que, embora igualmente mergulhados no manto de trevas espessas, zombavam de Deus e das noções santificantes da vida.

Lágrimas dolorosas lavavam-lhe o rosto, incessantemente. Apesar de convencido do seu desprendimento do corpo casal, guardava a impressão nítida de sua personalidade humana.

Precito impenitente, recompunha os mínimos elos das experiências em que fracassara. A infância na Espanha, os desvelos maternais de D. Margarida, as preciosas oportunidades perdidas, tudo, tudo o atormentava e transformava o coração em fonte de pranto inestancável. As possibilidades de Paris apareciam-lhe agora como largos caminhos que o teriam conduzido ao dever mais nobre, e, no entanto, cruel e egoisticamente desprezado. A lembrança do crime praticado com a prima, enferma e indefesa, era uma úlcera envenenada que lhe agravava a desventura. Era como se ali a tivesse, recebendo a falsa notícia da morte do marido, acarinhando a recém-nascida, desfeita em pranto. Depois, era o moço irlandês viajando cheio de confiança nos seus préstimos fraternos, e — coisa extraordinária! — no pandemônio das recordações como que lhe ouvia as últimas palavras na véspera da partida.

Apuado pelo remorso, voltava às ruas parisienses devastadas pela varíola ascorosa, e debalde tentava regredir no tempo, a fim de corrigir o erro clamoroso. Nos pesadelos que o assediavam, revia a casa de Santo Honorato, ansioso por defender Madalena até ao fim, mas, simultaneamente, a lembrança do cemitério, com as aleivosas sugestões de Susana, passava-lhe no cérebro entontecido, qual nuvem de fogo. Uma azenha ao estridor de reminiscências amargas que pareciam não ter fim. A recordação do regresso à terra natal com propósitos ignóbeis e a insistência brutal por satisfaze-los com a prima, que deveria respeitar, levavam-no às raias da loucura. Federigo Izaza surgia-lhe como verdugo de cuja influência aviltante era preciso fugir, mesmo de longe.

Atemorizavam-no as reminiscências concernentes ao comércio e tráfico escravista. Revia as cenas torpes das embarcações negreiras, nas raras vezes que as visitara ao largo da costa africana. E ouvia as lamentações e o praguedo dos que se viam obrigados à separação dos entes queridos. Tudo lhe aflorava à mente dolorida, com prodigiosa vivacidade e nitidez.

Como não conseguira entrever a verdade na Terra? Que venda estranha lhe cegara os olhos? Por que não amparara Madalena nas vicissitudes da sorte, em vez de arruinar-lhe o porvir de esposa e mãe? Por que anuíra à criminosa sugestão de abusar das criaturas ignorantes, conduzindo-as a imerecido cativeiro, quando lhe competia auxiliá-las fraternalmente, por comezinho dever de humanidade?

Rememorando o passado, Antero de Oviedo chorava convulsivamente, azorragado na consciência.

O veneno fulminante, com que se suicidara, parecia corroer-lhe ainda as vísceras, num suplício sem fim.

Tremia, chorava, aniquilava-se dentro da sua imensa dor.

Todavia, o fato que mais o impressionava era ter a destra mirrada e um dos pés ressequido! A treva impedia-lhe a visão, mas, de quando em quando, pelo tato, com sensações dolorosas, ia compreendendo a singular anomalia.

Escoados mais de setecentos dias de incomensurável amargura, certa vez rogou a Deus, com todas as veras do coração, lhe permitisse uma esmola de luz no seio das trevas que o envolviam. Recordou a figura do Cristo, que jamais procurara entender na Terra, e chorou como nunca. Implorou, então, compungidamente, que o Salvador se apiedasse da sua angústia infinita. Em voz baixa, qual criança imbele, pediu com sinceridade, embora reconhecendo o demérito próprio, que o auxiliasse, permitindo que sua mãe adotiva viesse trazer-lhe uma palavra de coragem e reconforto.

Depois de assim recorrer com a humildade de quem suplica saturado de inútil desespero, viu, pela primeira vez, destacar-se na treva um círculo de claridades confortadoras. Tomado de assombro, sentiu que alguém se aproximava em seu socorro. Mais alguns instantes e o Espírito de D. Margarida tornava-se-lhe visível.

— Ah! minha mãe!… — exclamou, arrastando-se para beijar-lhe os pés — há quantos séculos me separei do seu coração afetuoso?

A esposa de D. Inácio, cercada por um halo de luz, tinha os olhos nevoados de lágrimas. Inclinou-se e murmurou docemente:

— Oh! meu filho, como te encontro!… Onde puseste o amor que te dei? Por que te chafurdaste no tremedal das paixões humanas, quando te ensinei a elevar o pensamento a Deus, desde os primeiros dias da tua infância?

Em atitude maternal, sentou-se ao seu lado e acariciou-lhe a cabeça, que o rapaz conservava sobre a mão esquerda, a chorar convulsivamente.

— Como te venho encontrar, Antero! Os mensageiros de Jesus permitiram viesse trazer-te alguma consolação. Reanima-te, filho!…

— Perdi tudo — exclamou o desventurado —, não me resta da experiência humana senão um mar de tormentos e lágrimas. E, por fim, minha mãe, Deus me atirou neste abismo nefando!…

Mas a nobre entidade lhe cortou a palavra, asseverando:

— Não blasfemes! Deus é Nosso Pai e nos criou para a luz eterna. Somos os responsáveis pela queda nos desfiladeiros cruciais. A Providência nos cerca de todos os carinhos, traça as sendas de amor que devemos trilhar e, no entanto, meu filho, no círculo da liberdade humana, relativa, a paixão nos aniquila o orgulho nos cega, o egoísmo nos encarcera em suas prisões malsãs. Como poderias afiançar que o Senhor te conduziu a esse  lugar tenebroso, se desprezaste o roteiro da sua infinita misericórdia?

Antero, entretanto, tocado pelas angustiosas recordações terrenas, obtemperou amargurado:

— Mas tudo no mundo conspirou contra mim!

— Não seria mais acertado dizeres que conspiraste contra tudo?! Combateste os sentimentos nobres que te infundi na infância; guerreaste a paz do nosso lar; tramaste contra os seres nascidos em

liberdade. Onde pus, em teu coração, os ensinos do Cristo, entronaste a indiferença; no caminho de duas almas em união santificada por Jesus, semeaste a mentira e o sofrimento; nas regiões por Deus destinadas à vida livre, plantaste os espinhos da escravidão. Não teria sido misericórdia arrancar-te aos sorvedouros do mal, trazendo-te a esta noite desolada para que pudesses meditar? Abençoa as dores que te ferem o espírito e estraçalham o coração. Essas amarguras atrozes obrigam-te a calar, para que a verdade te fale à consciência. Ainda para os mais broncos criminosos, endurecidos no mal, sempre surge um momento em que, premidos pela dor, são forçados a ouvir a voz de Deus.

O réprobo soluçava nos braços da interlocutora, qual filho ansioso por desabafar todas as mágoas no regaço materno. Aquelas palavras deram-lhe grande alento ao coração delido.

— Reconheço  a enormidade das minhas  faltas  — concordou humildemente —, no entanto, mãe, fui órfão de todas as alegrias!

— Não o foste tal, e sim, e só, um ser incontentável.

— Aspirações cortadas por um destino cruel…

— Ninguém pode alcançar felicidade quando transforma as aspirações em caprichos inferiores.

Traduzindo num gesto relutância e desacordo, ei-lo a insistir:

— Todas as lutas terrestres  ser-me-iam favoráveis se Madalena me houvesse atendido ao coração. Ao seu lado eu cultivaria a virtude, fugiria do mal, teria vencido as mais rudes batalhas, mas…

A nobre entidade, aproveitando a pausa reticenciosa, redarguiu com energia e serenidade:

— Não acuses tua irmã por faltas oriundas de tuas próprias fraquezas. Madalena jamais te faltou com a exemplificação fraternal. Assediada por necessidades cruéis, foi tua amiga desvelada; nas horas de incerteza, sempre teve uma palavra de inspiração para os teus desígnios. Que mais poderias desejar?

Ele abanou a cabeça e respondeu:

— Mas, de coração foi sempre inflexível. Talvez um gesto de ternura, um beijo, uma esperança… me salvassem…

— Como nunca te lembraste de lhe oferecer o carinho com desinteresse de coração? Por que não recordaste o beijo fraternal, com cuja essência poderias retificar a mentira execrável que lhe agravou os padecimentos no mundo? Viveste, meu filho, aproveitando as situações críticas para forjar ações criminosas; acompanhaste-lhe as lágrimas com atitudes frias e gozaste intimamente com a separação de duas almas que Jesus havia unido em suas bênçãos de amor. Que seria de ti se Madalena houvesse atendido aos teus arrastamentos inferiores, esquecendo os deveres sagrados de esposa e mãe? Terias uma noite mais densa, dores mais cruéis. Caíste, é verdade; mas, ainda podes orar, ainda tens a dádiva do pranto remissor!…

O sobrinho de D. Inácio, agora, parecia flagelado por uma tempestade de lágrimas. Tinha a impressão de recuperar a razão, mediante aquelas recriminações lançadas face a face pela lealdade da mãe adotiva. Nada obstante os sofrimentos experimentados, ainda não havia tudo aprendido. Somente agora conseguia esmar a extensão da sua cegueira criminosa no mundo. Esmagado pelo justo reconhecimento das faltas clamorosas, sentiu-se incapaz de algo mais objetar, permanecendo à mercê dos remorsos pungentes.

D. Margarida, depois de longa pausa, acariciou-lhe a mão mirrada e falou:

— Já refletiste nos resultados da empresa que tentaste no mundo? O menosprezo da oportunidade reparadora fere-te agora com amargas consequências. A mão que assinou documentos condenáveis, aí a tens mirrada; o pé que se moveu no rumo dos feitos delituosos está ressequido; os olhos que procuraram o mal repletam-se de sombras espessas…

Ao ouvir tais coisas, o rapaz mostrou reconhecer num gesto a sua penosa situação, mas, lembrando-se subitamente da presteza com que sua prece fora atendida, no caso da vinda de sua mãe pelos laços espirituais, asseverou humildemente:

— Rogarei a Jesus me socorra com a liberdade de movimentos.

— Sim — explicou D. Margarida —, o Senhor não te negará o quinhão da sua excelsa bondade, mas só ao contato de novas lutas terrenas conseguirás reintegrar-te nas faculdades sagradas que espezinhaste, esquecendo voluntariamente os mais nobres deveres.

— Como assim? — interrogou admirado.

— Jesus perdoa, não com as fórmulas verbais, tão fáceis de enunciar, mas com a renovação do ensejo de purificação. O corpo carnal é tenda preciosa, na qual podemos corrigir ou engrandecer a alma, apagar as nódoas do passado obscuro ou desenvolver asas divinas, por nos librarmos a pleno espaço em busca dos mundos superiores. Somente na Terra, meu filho, onde imprimiste tão negro cunho aos próprios erros, encontrarás meios de regenerar a saúde espiritual, pervertida no crime.

— Mas não bastaria a misericórdia divina a meu favor? — volveu ansioso, por afastar a perspectiva de humilhações no ambiente humano.

— A misericórdia jamais falta, em tempo algum; ela permanece na afeição sincera dos amigos espirituais, que velam por ti, e no próprio remorso que te molga o espírito desolado. Deus tudo concede, mas não nos isenta das experiências necessárias. O perdão do Pai, ao lavrador ocioso, está na repetição anual da época do plantio. Nessa renovação de possibilidades, o semeador indolente encontra os meios de regenerar-se, ao passo que o trabalhador diligente e ativo defronta condições de engrandecimento sempre maior. Compreendes, agora, o perdão de Deus?

— Compreendo!

— Pois bem; se rogaste ao Senhor a minha presença, implorei igualmente a Jesus me permitisse reorganizar as tuas possibilidades de trabalho no orbe terrestre. A bondade infinita do Mestre concedeu-me essa dita. Só assim poderás restabelecer o equilíbrio da tua personalidade.

E ante o gesto de espanto do rapaz, que a ouvia mudo, a benfeitora prosseguiu:

— Ainda poderás aproveitar a missão de Alcíone que voltou ao nosso núcleo familiar a fim de nos ensinar a todos a humildade, o amor, o perdão recíproco e a obediência a Deus. Não terás a beleza física de outros tempos, nem a liberdade plena de movimentos, mesmo porque regressarás ao mundo para um esforço de cura; todavia, se bem souberes renunciar aos teus caprichos, ao terminar as futuras provas estarás reintegrado na harmonia espiritual, para prosseguimento de novas tarefas evolutivas, na carne ou fora dela. Jesus me concedeu a felicidade de trazer-te esta dádiva. De ti, porém, depende agora prolongar teus sofrimentos expiatórios, ou assumir o compromisso de os abreviar.

Antero temia as angústias da Terra, mas, compreendendo a generosa intenção da venerável amiga, murmurou.

— Aceito.

Desde o momento em que se revelou absolutamente conformado, sentiu que o Espírito maternal o sustinha nos braços fortes e acolhedores.

Por quanto tempo andaram assim, os dois, através de extensas paragens sombrias? De si, não o saberia dizer.

Em dado instante, porém, viu-se, com a benfeitora, defronte de modesta vivenda cercada de arvoredo. Não teve dificuldade em identificar o teto humilde onde havia instalado Madalena. Aproximaram-se. A esposa de Cirilo entretinha-se a costurar junto da filha, que parecia muito atenta ao trabalho materno. O rapaz esboçou um gesto e teve uma exclamação de surpresa, mas logo compreendeu que ninguém dera pela sua presença naquele aposento banhado de sol.

D. Margarida tranquilizou-o com um gesto e acrescentou:

— Vês? Ela vem lutando heroicamente e aproveita agora as contingências da pobreza material para elevar-se a Deus.

O precito entrou a meditar profundamente. Daí a instantes, todavia, a graciosa Alcíone, como que tocada no imo do coração, exclamou com estranho fulgor nos grandes olhos:

— Mamãe, a senhora tem-se lembrado do primo Antero?

— Por que perguntas?

— É que hoje quero pedir a Deus por ele, quando a senhora for rezar.

— Pois sim — disse a esposa de Cirilo, comovida.

— Mamãe, há quanto tempo ele foi para o Céu? — interrogou a linda criança, na sua encantadora ingenuidade.

— Há pouco mais de dois anos.

Mal sabiam que Antero de Oviedo ali estava ajoelhado junto delas e desfeito em lágrimas, ao refletir que aqueles dois anos lhe pareciam dois longos séculos.


Emmanuel




ÁUDIO:

Bibliossíntese - RENÚNCIA, (Emmanuel) Chico Xavier
Portal Luz Espírita






Bibliossíntese é um projeto do Portal Luz Espírita cuja finalidade é dispor a síntese de livros de interesse ao estudo e divulgação do Espiritismo.

Nesta edição, baseada na obra "RENÚNCIA", ditada por Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, trazemos a inspiradora história do Espírito Alcíone em sua jornada missionária na Terra, em favor de um Espírito simpático, sob os riscos dos infortúnios comuns da vida material.