Mostrando postagens com marcador Pontos e Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pontos e Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de março de 2025

Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 47 - O tempo urge



Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 47


O tempo urge


Quando o Senhor determinou que algumas das Virtudes Celestes viessem ao mundo, trazendo a Felicidade para as criaturas, a Fé acercou-se do Homem, antes das demais, e disse-lhe compassiva:

— O Poder Superior governa-nos o destino. Confia na Providência do Pai Misericordioso e aprende a contemplar mais longe…

O Homem sorriu e replicou:

— O tempo urge. Viverei seguro na máquina de ganhar e guardar facilmente. Não aceito outras deliberações que não sejam minhas.

Veio a Humildade e pediu:

— Meu filho, não te vanglories do que possuís, porque Deus concede os recursos no momento preciso e retoma-os, quando julga oportuno. Sê simples para contentar a ti mesmo.

— O tempo urge, — exclamou o Homem, sarcástico, — e se o minuto é meu, que me importa a eternidade? Gozarei o dia, segundo meus desejos. Não tenho necessidade de submeter-me para ser feliz.

Chegou a Bondade e suplicou:

— Ajuda no caminho para que outros te beneficiem. Nem todos os instantes pertencem à primavera. Sê compreensivo e generoso! O rico pede cooperação fraternal, a fim de que a fortuna o não encegueça; e o pobre reclama concurso, para que a escassez não o conduza ao desespero.

— O tempo urge, — gritou o Homem, — e não posso deter-me em ninharias. Quem dá, espalha; quem nega, concentra. Minha defesa aparece em primeiro lugar.

Surgiu a Paz e implorou:

— Amigo, esquece o mal e glorifica o bem. Não entronizes a discórdia. Cede em favor dos necessitados. Não te detenhas no egoísmo voraz.

— O tempo urge, — respondeu o Homem, — e se eu renunciar em benefício alheio, que será de mim? Cedendo, perderei. Não guardo vocação para a derrota.

Em seguida, compareceu a Paciência e aconselhou:

— Age com calma. Não exijas serviçais em toda parte, porque a tarefa de outros é igualmente respeitável. Socorre os semelhantes, conscientes das próprias necessidades espirituais. Não esmagues as esperanças dos pequeninos e atende à justiça onde estiveres.

— O tempo urge, — repetiu o Homem irônico, — e as horas correm excessivamente apressadas para que me entregue a problemas de tolerância. Fixando direitos alheios, não perceberei os que me dizem respeito.

Logo após, abeirou-se dele a Compaixão, implorando:

— Irmão, apieda-te dos fracos!…

O interpelado não lhe permitiu continuar.

— O tempo urge, — bradou, — e a questão dos pusilânimes não me atinge. Sou forte e nada possuo de comum com os inúteis e inábeis.

A Caridade apareceu e apelou:

— Meu amigo, perdoa e ajuda para que a tranquilidade more contigo. Tudo passa na carne. A eternidade reside em teu coração. Por que não te amoldares à lei do amor, a benefício da própria iluminação?

O Homem, porém, redarguiu, entediado:

— O tempo urge! Deixem-me! Conheço o caminho e vencerei por mim. Quem perdoa, opera contra a dignidade pessoal e quem muito ampara desampara-se.

Então, reconhecendo o Senhor que o Homem estragava o tempo e consumia a vida, inutilmente, sem qualquer consideração para com as Virtudes salvadoras, enviou-lhe alguns dos seus Poderes, de modo a chamá-lo a Juízo.

Aproximou-se inicialmente a Dor.

Não lhe deu conselho algum.

Privou-o do equilíbrio orgânico e acamou-o.

O Homem modificou gesto e linguagem, suplicando:

— Quem me acode? Compadeçam-se de mim!…

Mas a Dor respondeu apenas:

— O tempo urge.

Logo após, veio a Verdade e apodreceu-lhe o corpo.

O Homem rogou:

— Piedade! Piedade! Salvem-me!…

A Verdade, contudo, limitou-se a dizer:

— O tempo urge.

Em seguida, veio a Morte.

O Homem reconheceu-a, apavorado, e pôs-se a gritar:

— Livrem-me do fim! Não posso partir!… Não estou preparado!… Socorro!… Socorro!…

A Morte, no entanto, repetiu:

— O tempo urge.

E arrebatou-lhe a alma.


Irmão X
(Humberto de Campos)











segunda-feira, 18 de março de 2024

Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 27 - Espiritismo científico apenas?



Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 27


Espiritismo científico apenas?


Grande contingente de estudiosos das teses espiritistas pleiteia agora uma situação especial de evidência para o Espiritismo estritamente científico, pugnando pelo esquecimento dos tesouros evangélicos. Alguns vão ao extremo de condenar a prática da prece. Outros apontam as tarefas de consolação com uma pontinha de ridículo na observação impensada e mordaz. 

A invocação dos ensinamentos do Cristo provoca-lhes estranheza ao coração. São discípulos que esqueceram suas origens, olvidando o carinho das mãos dedicadas que lhes guiaram os passos vacilantes do princípio.

Querem fenômenos e prosélitos.

Seria interessante para os novos trabalhadores do Evangelho povoarem seus centros de oração e de estudo com balanças, agulhas, trenas e máquinas elétricas. No meio de todo esse aparelhamento, haveria uma cátedra para o estranho Colombo, disposto à maravilhosa descoberta do Plano espiritual, sentado calmamente em sua cadeira. A operação mais difícil seria encontrar o Espírito verdadeiramente sábio e amigo, que viesse de sua adaptação aos desígnios de Deus para tocar o botão misterioso da maquinaria humana, como o pequeno vagabundo contratado repentinamente, nos palcos improvisados, para os toques da mágica imprevista.

É certo que ninguém poderá excluir as características científicas no exame transcendente do intercâmbio entre os vivos da Terra e os vivos do Infinito. Toda indagação séria é justa e toda análise conscienciosa produzirá os frutos doces da verdade. Charles Richet, com toda a sua impertinência de pesquisador, prestou grande serviço à divulgação dos novos ensinamentos; suas perquirições desapaixonadas e incessantes impuseram respeito aos valores psíquicos, entre os espíritos mais empedernidos de nossa época.

Mas, entre a mentalidade indagadora e a mentalidade leviana existe considerável distância.

A grande questão de todos os tempos não é propriamente a de conhecer, mas a de entender a finalidade do conhecimento.

O Espiritismo constitui a porta da esperança para um mundo melhor. Seus fenômenos representam chamamentos comuns para uma compreensão mais elevada dos valores da vida. O intercâmbio entre a natureza visível e a invisível conduz a profundas ilações de ordem moral, que é necessário não esquecer. Sua expressão religiosa com o Cristo tem de ser essencial. Sua mensagem permanente tem no Evangelho os primórdios eternos. Nada poderá realizar de substancialmente útil, sem aquele Divino Amigo dos homens.

Instalar mais uma ciência puramente intelectual, onde todas as expressões científicas do cérebro sem o coração já faliram desastradamente, no capítulo da elevação real da criatura, não constituiria uma leviandade de consequências fatais?

A plataforma espiritista, em todos os lugares, será, antes de tudo, uma aleluia dos corações. Suas vozes deverão reviver as lições incompreendidas daquele Mestre amoroso e sábio que veio salvar os pecadores.

O Evangelho está repleto das expressões “subir ao monte”. Jesus pregava no “monte”. Comumente, os discípulos iam encontrá-lo aí, de modo a lhe ouvirem o ensinamento.

Nós, entretanto, os Espíritos pobres e endividados, que nos encontramos em esforços de autorreajustamento sobre a Terra, na carne ou fora de seus liames, constituímos a pesada multidão de seres indecisos no vale sombrio da morte, da enfermidade, do sofrimento. Para encontrarmos o Cristo, é indispensável a viagem difícil da montanha. É preciso alçar o coração, no sacrifício, e marchar, marchar, não obstante todos os apelos das ambições desvairadas, vencendo as sugestões do egoísmo e da tentação do bem-estar, que, por vezes, se manifestam, inesperadamente, nas observações afetuosas, de timbre familiar.

A realização cristã, que é o primeiro programa do Espiritismo santificante, não se conquista tão só com as rotulagens científicas e deduções filosóficas, mais ou menos brilhantes. Os antepassados dos discípulos atuais, nas diversas famílias religiosas do Cristianismo, adquiriram os valores da fé com a própria vida. Para conduzirem um mundo que se perdia na destruição e na indiferença, a tomar conhecimento do Cristo, nunca se vestiram com a túnica da inconstância. Padeceram e morreram. Deram-se em holocausto, imolando-se a si próprios.

A inquietação tem sido um mal de todos os séculos. Mas, seria justo perguntarmos ao homem dos tempos que correm, quando os problemas da profundidade submarina e da estratosfera o preocupam, porque se espanta consigo próprio, entre as muralhas dos livros de paz e as ruínas fumegantes das guerras.

Enquanto o Espiritismo se constitui em fonte de alívio para a compacta fileira de infelizes que buscam ansiosamente as suas águas confortadoras e claras, alguns de seus estudiosos se deixam empolgar pela mania das novidades, ansiosos pela atenção balofa dos publicistas sem consciência dos valores sentimentais.

De nossos núcleos, temos de afirmar que, sem a sintonia com o Cristo, qualquer edificação será inútil.

Taunay, em suas “Reminiscências”, conta que o Conselheiro Paulino José Soares de Souza era o provedor da Santa Casa da Misericórdia, no Rio de Janeiro, quando as autoridades republicanas, logo após a queda do Império, o intimaram a eliminar o “Deus guarde” dos seus expedientes oficiais, nas relações com o Governo.

Mas o Conselheiro experiente respondeu sem titubear:

— Não me é possível aceder às indicações de V. Ex.ª, porquanto, neste estabelecimento, ainda há Deus e nem se pode dispensá-lo, entre tantos sofrimentos e misérias dos homens. 

E prosseguiu com as mesmas expressões.

Aos que nos disserem de um Espiritismo científico apenas, tomados pelo entusiasmo fácil dos jogos de palavras, responderemos igualmente:

— Não nos seria lícito seguir em vossas águas, porque, entre nós, antes de tudo, prevalecem os fundamentos da verdade com Jesus-Cristo e, considerando a extensão de nossas necessidades, não sabemos daqui a quantos séculos poderemos pensar em modificação das velhas fórmulas.


Humberto de Campos
(Irmão X)












quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 37 - Natal simbólico



Humberto de Campos - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 37


Natal simbólico


Harmonias cariciosas atravessavam a paisagem, quando o lúcido mensageiro continuou:

— Cada Espírito é um mundo onde o Cristo deve nascer…

Fora loucura esperar a reforma do mundo, sem o homem reformado. Jamais conheceremos povos cristãos, sem edificarmos a alma cristã…

Eis por que o Natal do Senhor se reveste de profunda importância para cada um de nós em particular.

Temos conosco oceanos de bênçãos divinas, maravilhosos continentes de possibilidades, florestas de sentimentos por educar, desertos de ignorância por corrigir, inumeráveis tribos de pensamentos que nos povoam a infinita extensão do mundo interior. De quando em quando, tempestades renovadoras varrem-nos o íntimo, furacões implacáveis atingem nossos ídolos mentirosos.

Quantas vezes, o interesse egoístico foi o nosso perverso inspirador?

Examinando a movimentação de nossas ideias próprias, verificamos que todo princípio nobre serviu de precursor ao conhecimento inicial do Cristo.

Verificou-se a vinda de Jesus numa época de recenseamento.

Alcançamos a transformação essencial justamente em fase de contas espirituais com a nossa própria consciência, seja pela dor ou pela madureza de raciocínio.

Não havia lugar para o Senhor.

Nunca possuímos espaço mental para a inspiração divina, absorvidos de ansiedades do coração ou limitados pela ignorância.

A única estalagem ao Hóspede Sublime foi a Manjedoura.

Não oferecemos ao pensamento evangélico senão algumas palhas misérrimas de nossa boa vontade, no lugar mais escuro de nossa mente.

Surge o Infante Celestial dentro da noite.

Quase sempre, não sentimos a Bondade do Senhor senão no ápice das sombras de nossas inquietações e falências.

A estrela prodigiosa rompe as trevas no grande silêncio.

Quando o gérmen do Cristo desponta em nossas almas, a estrela da divina esperança desafia nossas trevas interiores, obscurecendo o passado, clareando o presente e indicando o porvir.

Animais em bando são as primeiras visitas ao Enviado Celeste.

Na soledade de nossa transformação moral, em face da alvorada nova, os sentimentos animalizados de nosso ser são os primeiros a defrontar o ideal do Mestre.

Chegam pastores que se envolvem na intensa luz dos anjos que velam o berço divino.

Nossos pensamentos mais simples e mais puros aproximam-se da ideia nova, contagiando-se da claridade sublime, oriunda dos gênios superiores que nos presidem aos destinos e que se acercam de nós, afugentando a incompreensão e o temor.

Cantam milícias celestiais.

No instante de nossa renovação em Cristo, velhos companheiros nossos, já redimidos, exultam de contentamento na esfera superior, dando glória a Deus e bendizendo os Espíritos de boa vontade.

Divulgam os pastores a notícia maravilhosa. Nossos pensamentos, felicitados pelo impulso criador de Jesus, comunicam-se entre si, organizando-se para a vida nova.

Surge a visita inesperada dos magos.

Sentindo-nos a modificação, o mundo observa-nos de modo especial.

Os servos fiéis, como Simeão, expressam grande júbilo, mas revelam apreensões justas, declarando que o Menino surgira para a queda e elevação de muitos em Israel.

Acalentamos o pensamento renovador, no recesso d'alma, para a destruição de nossos ídolos de barro e desenvolvimento dos germens de espiritualidade superior.

Ferido na vaidade e na ambição, Herodes determina a morte do Pequenino Emissário.

A ignorância que nos governa, desde muitos milênios, trabalha contra a ideia redentora, movimentando todas as possibilidades ao seu alcance.

Conserva-se Jesus na casa simples de Nazaré.

Nunca poderemos fornecer testemunho à Humanidade, antes de faze-lo junto aos nossos, elevando o espírito do grupo a que Deus nos conduziu.

Trabalha o Pequeno Embaixador numa carpintaria.

Em toda realização superior, não poderemos desdenhar o esforço próprio.

Mais tarde, o Celeste Menino surpreende os velhos doutores.

O pensamento cristão entra em choque, desde cedo, com todas as nossas antigas convenções relativas à riqueza e à pobreza, ao prazer e ao sofrimento, à obediência e à mordomia, à filosofia e à instrução, à fé e à ciência.

Trava-se, então, dentro de nosso mundo individual, a grande batalha.

A essa altura, o mensageiro fez longa pausa.

Flores de luz choviam de mais alto, como alegrias do Natal, banhando-nos a fronte. Os demais companheiros e eu aguardávamos, ansiosos, a continuação da mensagem sublime; entretanto, o missionário generoso sorriu paternalmente e rematou:

— Aqui termino minhas humildes lembranças do Natal simbólico. Segundo observais, o Evangelho de Nosso Senhor não é livro para os museus, mas roteiro palpitante da vida.


Humberto de Campos
(Irmão X)











quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Irmão X - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 50 - Ano Novo




Irmão X - Livro Pontos e Contos - Chico Xavier - Cap. 50


Ano Novo


Quando o desvelado orientador chegou ao Planeta, encaminhando o aprendiz à experiência nova, o lar estava em festa, na celebração do Ano Novo.

Músicas alegres embalavam a casa, flores festivas enfeitavam a mesa lauta. Riam-se os jovens e as crianças, enquanto os velhos bebiam vinhos de júbilo.

O devotado amigo abraçou o tutelado e falou:

— Nova existência, meu filho, é qual Ano Novo. Enche-se o coração das esperanças mais belas. Troca-se o passado pelo presente. Rejubila-se a alma na oportunidade bendita. Promessas divinas florescem no coração.

O tempo é o tesouro infinito que o Criador concede às criaturas. Não esqueças, todavia, que a concessão de um tesouro é título de confiança e toda confiança traduz responsabilidade. Tanto prejudica a obra de Deus o avarento que restringe a circulação dos valores, como o perdulário que os dissipa, olvidando obrigações sagradas.

O tempo, desse modo, é benfeitor carinhoso e credor imparcial simultaneamente. Na Terra, a maioria dos homens não chegou ainda a compreendê-lo.

Os ignorantes perdem-no.

Os loucos matam-no.

Os maus envenenam-no.

Os indiferentes zombam dele.

Os vaidosos confundem-no.

Os velhacos enganam-no.

Os criminosos perturbam-no.

Riem-se dele os pândegos.

Os mentirosos ridicularizam-no.

Os tolos esquecem-no.

Os ociosos combatem-no.

Os tiranos abusam dele.

Os irônicos menosprezam-no.

Os arbitrários dominam-no.

Os revoltados acusam-no.

Aproveitam-no os trabalhadores fiéis.

O tempo, contudo, meu filho, pertence ao Senhor e ninguém pode subverter a ordem de Deus.

É por isso que, ao fim da existência, cada um recebe conforme usou o divino patrimônio.

Vale-te, pois, da oportunidade nova, sem olvidares o dever, convicto de que ninguém falará ou agirá no mundo, em vão.

O homem precipita-se. O tempo espera. O primeiro experimenta. O segundo determina.

Se atingiste a alegria de recomeçar, alcançarás, igualmente, o dia de acertar.

Lembra-te de que o tempo ensinará aos ignorantes.

Anulará os loucos.

Envenenará os maus.

Zombará dos indiferentes.

Confundirá os vaidosos.

Esclarecerá os velhacos.

Perturbará os criminosos.

Surpreenderá os pândegos.

Ridiculizará os mentirosos.

Corrigirá os tolos.

Combaterá os ociosos.

Ferirá os tiranos.

Menosprezará os irônicos.

Prenderá os arbitrários.

Acusará os revoltados.

Compensará os trabalhadores fiéis.

Calou-se o venerável ancião.

Havia risos à mesa doméstica, expectativa no candidato à reencarnação, sorrisos paternais no velhinho experiente.

O sábio abraçou novamente o discípulo e despediu-se rematando:

— Não te esqueças de que o tempo é generoso nas concessões e justo nas contas. Vai, porém, meu filho, e não temas.

Nesse instante, à maneira do homem, cheio de esperanças, que penetra o Ano Novo, o aprendiz reingressou na onda do nascimento.


Irmão X
(Humberto de Campos)







segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Irmão X (Humberto de Campos) - Livro À Luz da Oração/Pontos e Contos - Espíritos Diversos/Chico Xavier - Na Glória do Natal



Irmão X (Humberto de Campos) - Livro À Luz da Oração/Pontos e Contos - Espíritos Diversos/Chico Xavier


Na Glória do Natal


Senhor — rei divino projetado às sombras da manjedoura —, diante do teu berço de palha recordo-me de todos os conquistadores que te antecederam na Terra.

Em rápida digressão, vejo Sesóstris, em seu carro triunfal, pisando escravos e vencidos, em nome do Egito sábio, e Cambises, o rei dos persas, ocupando o vale do Nilo, antes poderoso e dominador.

Recordo as lutas sanguinolentas dos assírios, disputando a hegemonia do seu império dividido e infeliz.

Nabopolassar e Nabucodonosor reaparecem à minha frente, arrasando Nínive e atacando Jerusalém, cercados de súditos a se banquetearem sobre presas misérrimas para desaparecerem, depois, num sudário de cinza.

Não observo, contudo, apenas o gentio, na pilhagem e na discórdia, expandindo a própria ambição; o povo escolhido, apesar dos desígnios celestes que lhes fulguram na Lei, entrega-se, de quando em quando, à sementeira de miséria e ruína; revoluções e conflitos ceifam as doze tribos e o orgulho desvairado compele irmãos ao extermínio de irmãos.

Revejo os medas, açoitados pelos cimerianos e citas.

Dario surge, ao meu olhar assombrado, envolvido nos esplendores de Persépolis para mergulhar-se, em seguida, nos labirintos do túmulo.

Esparta e Atenas, entre códigos e espadas, se estraçalham mutuamente, no impulso de predomínio; numerosos tiranos, dentro de seus muros, manobram o cetro da governança, fomentando a humilhação e o luto.

Alexandre, à maneira de privilegiado, passa esmagando cidades e multidões, deixando um cortejo de lágrimas, atrás da fanfarra guerreira que lhe abre caminho à morte, em plena mocidade.

E os romanos, Senhor? Desde as alucinações dos descendentes de Príamo ao último dos imperadores, deposto por Odoacro, jamais esconderam a vocação do poder, arrojando povos livres ao despenhadeiro da destruição…

Todos os conquistadores vieram e dominaram, surgindo na condição de pirilampos barulhentos, confundidos, à pressa, num turbilhão de desencanto e poeira. Tu, porém, Soberano Senhor, Te contentaste com o berço da estrebaria!

Ministros e sábios não te contemplaram, na hora primeira, mas humildes pastores se ajoelharam, sorridentes, diante de Ti, buscando a luz de Teus olhos angelicais...

Hinos de guerra não se fizeram ouvir à tua chegada libertadora; todavia, em sinal de reconhecimento, cânticos abençoados de louvor subiram ao Céu, dos corações singelos que te exaltavam a Estrela Gloriosa, a resplandecer nos constelados caminhos.

Os outros, Senhor, conquistaram à custa de punhal e veneno, perseguição e força, usando exércitos e prisões, assassínio e tortura, traição e vingança, aviltamento e escravidão, títulos fantasiosos e arcas de ouro…

Tu, entretanto, perdoando e amando, levantando e curando, modificaste a obra de todos os déspotas e legisladores que procediam do Egito e da Assíria, da Judeia e da Fenícia, da Grécia e de Roma, renovando o mundo inteiro.

Não mobilizaste soldados, mas ensinaste a um punhado de homens valorosos a luminosa ciência do sacrifício e do amor. Não argumentaste com os reis e com os filósofos; no entanto, conversaste fraternalmente com algumas crianças e mulheres humildes, semeando a compreensão superior da vida no coração popular…

E por fim, Mestre, longe de escolheres um trono de púrpura a fim de administrares o Reino Divino de que te fizeste embaixador e ordenador, preferiste o sólio da cruz, de cujos braços duros e tristes ainda nos envias compassivo olhar, convidando-nos à caridade e à harmonia, ao entendimento e ao perdão…

Conquistador das almas e governador do mundo, agora que os teus tutelados afiam as armas para novos duelos sangrentos, neste século de esplendores e trevas, de renovação e morticínio, de esperanças e desilusões, ajuda-nos a dobrar a cerviz orgulhosa, diante do teu singelo berço de palha!…

Mestre da Verdade e do Bem, da Humildade e do Amor, permite que o astro sublime de teu Natal brilhe, ainda, na noite de nossas almas e estende-nos caridosas mãos para que nos livremos de velhas feridas, marchando ao teu encontro na verdadeira senda de redenção.


Irmão X




Fonte: Bíblia do Caminho † Testamento Xavieriano