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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Emmanuel - Livro Palavras do Infinito - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 3ª Parte - Cap. 6 - A crise espiritual, fonte dos males atuais



Emmanuel - Livro Palavras do Infinito - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 3ª Parte - Cap. 6


A crise espiritual, fonte dos males atuais


— Estão certos, no seu julgamento, quantos encontram, nas crises atuais, as modalidades várias de uma crise única — a de ordem espiritual.

Há por todo o canto, o fermento revolucionário. Falece à política autoridade para organizar um programa que corresponda aos anseios gerais. A ciência, a cada passo, se encontra num turbilhão de perplexidades. As religiões criaram um Deus antropomórfico, pondo de lado o “Reino do Céu” para alcançarem, por quaisquer meios, o “Reino da Terra”.

A alma humana, dentro dessas vibrações antagônicas, perde-se num emaranhado de conjecturas e de sofrimentos.

Essa inquietação geral, a ausência de paz nos corações, estabelecem a crise avassaladora que abrange todos os domínios da atividade humana.

As classes são dominadas pelos desvios de toda a ordem; vícios do pensamento, vícios dos costumes, vícios da alimentação. Que se poderia fazer para que a ordem se restabelecesse, para que o bem-estar social se efetivasse?

Far-se-ia mister pirogravar, no coração de cada homem, a legenda célebre de Delfos.

Observa-se, em todos os setores dos trabalhos do mundo, uma luta tenaz dos anseios do Espírito que almeja paz e libertação.

Há quase dois milênios, quando a civilização, simbolizada no poderio romano, se entregava a todos os desregramentos e desvarios, fez-se ouvir a voz consoladora do Mestre, o Salvador esperado por muitos séculos de ansiedade e profecias.

Sob a sua divina influência, uma transformação radical se operou dentro da civilização trabalhada pelos hábitos perniciosos. A sua vida sacrificada foi legada ao homem como o sublime modelo; sua palavra foi deixada no mundo como a lei áurea de liberdade das almas.

Passado, porém, o arrebatamento da fé, novamente os abusos da maldade humana se fizeram sentir por toda a parte, e dos quais se observa, na atualidade, a culminância.

Todavia ainda é para Jesus que os homens necessitam voltar os seus olhos. A missão do moderno espiritualismo é trazer a chave dos conhecimentos acerca dos seus grandes e inolvidáveis ensinamentos. Enquanto não compreenderem os homens os seus deveres de fraternidade cristã, não há possibilidade de se evitar as crises que assoberbam o mundo.

A guerra continuará amortalhando os corações; os artigos de primeira necessidade serão destruídos pela falsa diretriz econômica de alguns países, quando muitos choram a falta de pão; a confusão prosseguirá dentro de todos os seus matizes, até que a crise espiritual seja solucionada pelo esforço do homem, a fim de que a luz se faça no seu coração. O que se depreende, pois, do confusionismo hodierno, é que os homens necessitam mais de verdade que de dinheiro, de mais luz espiritual que de pão.

Emmanuel








Recebida em Pedro Leopoldo a 24 de junho de 1935. 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Humberto de Campos - Livro Palavras do Infinito - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 3 - Aos meus filhos




Humberto de Campos - Livro Palavras do Infinito - Espíritos Diversos / Chico Xavier - 1ª Parte - Cap. 3


Aos meus filhos


Meus filhos, venho falar a vocês como alguém que abandonasse a noite de Tirésias, no carro fulgurante de Apolo, subindo aos cumes dourados e perfumados do Hélicon. Tudo é harmonia e beleza na companhia dos numes e dos gênios, mas o pensamento de um cego, em reabrindo os olhos nas rutilâncias da luz, é para os que ficaram, lá longe, dentro da noite onde apenas a esperança é uma estrela de luz doce e triste.

Não venho da minha casa subterrânea de São João Batista,[1] como os mortos que os larápios, às vezes, fazem regressar aos tormentos da Terra, por mal dos seus pecados. Na derradeira morada do meu corpo ficaram os meus olhos enfermos e as minhas disposições orgânicas. Cá estou como se houvesse sorvido um néctar de juventude no banquete dos deuses.

Entretanto, meus filhos, levanta-se entre nós um rochedo de mistério e de silêncio.

Eu sou eu. Fui o pai de vocês e vocês foram meus filhos. Agora somos irmãos. Nada há de mais belo do que a lei de solidariedade fraterna, delineada pelo Criador na sua glória inacessível. A morte não suprimiu a minha afetividade e ainda possuo o coração de homem para o qual vocês são as melhores criaturas desse mundo.

Dizem que Orfeu, quando tangia as cordas de sua lira, sensibilizava as feras que se agrupavam enternecidas para escutá-lo. As árvores vinham de longe, transportadas na sua harmonia. Os rios sustavam o curso nas suas correntes impetuosas, quedando-se para ouvi-lo. Havia deslumbramentos na paisagem musicalizada. A morte, meus filhos, cantou para mim, tocando o seu alaúde. Todas as minhas convicções deixaram os seus lugares primitivos para sentir a grandeza do seu canto.

Não posso transmitir esse mistério maravilhoso através dos métodos imperfeitos de que disponho. E, se pudesse, existe agora entre nós: o fantasma da dúvida.

Convidado pelo Senhor, eu também estive no banquete da vida. Não nos palácios da popularidade ou da juventude efêmera, mas no átrio pobre e triste do sofrimento onde se conservam temporariamente os mendigos da sua casa. Minha primeira dor foi a minha primeira luz. E quando os infortúnios formaram uma teia imensa de amarguras para o meu destino, senti-me na posse do celeiro de claridades da sabedoria. Minhas dores eram a minha prosperidade. Porém qual o cortesão de Dionísio, vi a dúvida como espada afiadíssima balouçando-se sobre a minha cabeça. Aí na Terra, entre a crença e a descrença, está sempre ela, a espada de Dâmocles. Isso é uma fatalidade.

Venho até vocês cheio de amorosa ternura e se não me posso individualizar, apresentando-me como o pai carinhoso, não podem vocês garantir a impossibilidade da minha sobrevivência. A dúvida entre nós é como a noite. O amor, entretanto, luariza estas sombras. Um morto, como eu, não pode esperar a certeza ou a negação dos vivos que receberem a sua mensagem para a qual há de prevalecer o argumento dubitativo. E nem pode exigir outra coisa quem no mundo não procederia de outra forma.

Sinto hoje, mais que nunca, a necessidade de me impessoalizar, de ser novamente o filho ignorado de dona Anica, a boa e santa velhinha, que continua sendo para mim a mais santa das mães. Tenho necessidade de me esquecer de mim mesmo. Todavia, antes que se cumpra este meu desejo, volto para falar a vocês paternalmente como no tempo em que destruía o fosfato do cérebro a fim de adquirir combustível para o estômago.

— Meus filhos!… Meus filhos!… Estou vivendo… Não me veem?… Mas, olhem, olhem o meu coração como está batendo ainda por vocês!…

Aqui, meus filhos, não me perguntaram se eu havia descido gloriosamente as escadas do Petit Trianon; não fui inquirido a respeito dos meus triunfos literários e não me solicitaram informes sobre o meu fardão acadêmico. Em compensação, fui arguido acerca das causas dos humildes e dos infortunados pelas quais me bati.

Vivam pois com prudência na superfície desse mundo de futilidades e de glórias vãs.

Num dos mais delicados poemas de Wilde, as Órcades lamentam a morte de Narciso junto de sua fonte predileta, transformada numa taça de lágrimas.

— Não nos admira — suspiram elas — que tanto tenhas chorado!… Era tão lindo!…

— Era belo Narciso? — perguntou o lago.

— Quem melhor do que tu poderia sabe-lo, se nos desprezava a todas para estender-se nas relvas da tua margem, baixando os olhos para contemplar, no diamante da tua onda, a sua formosura?…

A fonte respondeu:

— Eu adorava Narciso porque, quando me procurava com os olhos, eu via, no espelho das suas pupilas, o reflexo da minha própria beleza.

Em sua generalidade, meus filhos, os homens, quando não são Narciso, enamorados de sua própria formosura, são a fonte de Narciso.

Não venho exortar a vocês como sacerdote; conheço de sobra as fraquezas humanas. Vivam porém a vida do trabalho e da saúde, longe da vaidade corruptora. E, na religião da consciência retilínea, não se esqueçam de rezar. Eu, que era um homem tão perverso e tão triste, estou aprendendo de novo a minha prece, como fazia na infância, ao pé de minha mãe, na Parnaíba.

— Venham, meus filhos!… Ajoelhemos de mãos postas… Não veem que cheguei de tão longe?! Fui mais feliz que o Rico e o Lázaro da parábola, que não puderam voltar… Ajoelhemos no templo do Espírito; inclinem vocês a fronte sobre o meu coração. Cabem todos nos meus braços? Cabem, sim…

Vamos rezar com o pensamento em Deus, com a alma no Infinito. Pai Nosso… que estais no Céu… santificado seja o vosso nome…


Humberto de Campos
(Irmão X)


(Recebida em Pedro Leopoldo em 9 de abril de 1935)
[1] O Espírito se refere ao cemitério de São João.