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domingo, 22 de janeiro de 2023

Allan Kardec - Revista Espírita - Novembro, 1861 - O Espiritismo na América



Allan Kardec - Revista Espírita - Novembro, 1861


O Espiritismo na América


O Espiritismo conta, na América, com homens eminentes que desde o princípio lhe avaliaram o alcance e nele viram algo mais do que simples manifestações. Nesse número está o juiz Edmonds, de Nova York, cujos escritos sobre tão importante assunto são justamente apreciados e muito pouco conhecidos na Europa, onde não foram traduzidos. Devemos ser gratos à Srta. Guérin por nos dar uma ideia deles por alguns fragmentos publicados em sua brochura, levando-nos a lamentar não tenha ela acabado sua obra por uma tradução completa. Ela junta alguns extratos não menos notáveis do Dr. Hare, da Filadélfia, que, também ele, foi um dos primeiros a ter coragem de afirmar a sua fé nas novas revelações.

A Srta. Guérin, que residiu muito tempo na América, onde viu se produzirem e se desenvolverem as primeiras manifestações, é uma dessas espíritas sinceras, conscienciosas, que tudo julgam com calma, sangue-frio e sem entusiasmo. Tivemos a honra de conhecê-la pessoalmente e sentimo-nos felizes por lhe dar aqui um testemunho merecido de nossa profunda estima. Pelo fragmento de seu prefácio que transcrevemos abaixo, pode-se ver que nossa opinião é justamente motivada.

“Como os americanos, temos a fé profunda, a esperança radiosa de que esta doutrina, tão eminentemente baseada na caridade ─ não esmola, mas amor ─ seja bem aquela que deve regenerar e pacificar o mundo. Nunca a solidariedade fraterna foi mais claramente demonstrada, nem de maneira mais sedutora. Vindo consolar-nos, ajudar-nos, instruir-nos, indicar-nos, enfim, o melhor uso a ser feito de nossas faculdades, em vista do futuro, os Espíritos são tão evidentemente desinteressados, que o homem não os pode ouvir muito tempo sem experimentar o desejo de imitá-los; sem procurar ao seu redor alguém para participar dos benefícios que lhe dispensam tão generosamente. Ele o faz com muito mais boa vontade porque compreende enfim que é esse o preço do seu próprio progresso, e que no grande livro de Deus não são levados a seu crédito senão os atos praticados com vistas ao bem-estar material ou moral de seus irmãos. O que os Espíritos fazem com sucesso neste momento foi tentado muitas vezes na Terra por corações nobres e almas corajosas, mas que foram e são ainda desconhecidos e ridicularizados. Suspeitam de seu devotamento e só quando desaparecerem é que têm chance de ser julgados com imparcialidade. Eis por que Deus lhes permite continuem a obra após aquilo a que chamamos morte.

É o caso de repetir com Davis: “Não temais, irmãos; sendo mortal, o erro não pode viver; sendo imortal, a verdade não pode morrer!” 

Clémence Guérin


A passagem seguinte, do juiz Edmonds, mostrará com que justeza tinha ele entrevisto as consequências do Espiritismo. Não se deve esquecer que ele escrevia em 1854, época em que o Espiritismo ainda era novo na América, como na Europa.

 “Outros julgarão se minhas deduções são verdadeiras ou falsas. Meu objetivo será atingido se, falando do efeito produzido em meu espírito por essas revelações, fiz brotar em alguns o desejo de também pesquisar e assim levar novas luzes ao estudo desses fenômenos, porque até aqui os mais veementes adversários, os que, na sua indignação, gritam contra a impostura, são também os mais obstinados na sua resolução de nada ver ou ouvir sobre este assunto; os mais decididos a permanecer na ignorância completa da natureza dos fatos. Homens com reputação de saber, senão de Ciência, não temem comprometê-la dando explicações que a ninguém satisfazem, baseadas em observações superficiais, feitas com uma leviandade que faria corar um estudante.

“Entretanto, não é uma coisa indiferente esse novo poder inerente ao homem (connected with man) e que, sem a menor dúvida, terá sobre o seu destino uma considerável influência para o bem ou para o mal.

“E já podemos ver que desde a origem, apenas há cinco anos, a ideia espiritualista se propagou com uma rapidez que a religião cristã não havia igualado em cem anos. Ela não procura os lugares desertos, não se cerca de mistérios, mas vem abertamente aos homens, provocando um minucioso exame, não pedindo uma fé cega, mas, em todas as circunstâncias, recomendando o exercício da razão e do julgamento livre.

“Vimos que os ataques dos filósofos não conseguiram desviar um só crente; que os sarcasmos da imprensa e os anátemas da cátedra são igualmente impotentes para deter o progresso, e, sobretudo, já podemos constatar sua influência moralizadora. O verdadeiro crente torna-se sempre mais prudente e melhor (a wise and better man), porque lhe foi demonstrado que a existência do homem após a morte está positivamente provada. Todos quantos, séria e sinceramente, conduziram suas investigações sobre o assunto, tiveram suas provas irrecusáveis. Como poderia ser diferente? Eis uma inteligência que nos fala todos os dias. É um amigo. (Em geral os americanos começam conversando com parentes ou amigos). Ele prova a sua identidade por mil circunstâncias que não deixam a menor dúvida, por meio de recordações que só ele pode conhecer. Ele nos fala das consequências da vida terrena e nos pinta a vida futura em cores tão racionais que nós sentimos que diz a verdade, pois é conforme à ideia íntima que tínhamos da Divindade e dos deveres que ela nos impõe.

“Aqueles que amamos não são separados de nós pela morte, mas muitas vezes estão juntos de nós, ajudam-nos e nos consolam pela esperança de uma reunião certa. Quantas vezes os ouvi, por mim mesmo ou através de outros! Quantas pessoas desoladas vi acalmadas pela suave certeza de que o ser querido “trazido pelos laços do amor, volteia em torno delas, fala-lhes ao ouvido, contempla a sua alma, conversa com o seu Espírito!”

“Assim, a morte está despojada do cortejo de terrores misteriosos e indefinidos com que foi cercada por aqueles que esperam mais da degradante paixão do medo que do nobre sentimento de amor.

“Notemos de passagem que, sejam quais forem as nuanças no ensino da nova filosofia, todos os seus discípulos entendem que a morte não é um espantalho, mas um fenômeno natural; a passagem a uma existência em que, livre de mil males da vida material e dos entraves que o confinam num só planeta, o Espírito pode percorrer a imensidade dos mundos e alçar voo para regiões onde a glória de Deus é realmente visível.

“Está igualmente demonstrado que nossos mais secretos pensamentos são conhecidos pelos seres que, tendo sido amados, continuam a velar por nós. É em vão que a gente tentaria subtrair-se a essa inquisição, terrível por sua própria benevolência. Não é possível duvidar disto, como eles queriam. Muitas vezes fiquei estupefato e tive arrepios a esta revelação, imprevista mas irrecusável, de que os mais íntimos refolhos da consciência podem ser examinados por aqueles mesmos aos quais queríamos ocultar nossas fraquezas.

“Não está aí um freio salutar contra os maus pensamentos, os atos criminosos, na maioria das vezes cometidos porque o culpado se garantiu por estas palavras: “Não o saberão...?” Se algo pode confirmar esta verdade tão terrificante para alguns, é a lembrança do que cada um experimenta após uma boa ação, mesmo quando ficou secreta: um contentamento íntimo a nenhum outro comparável. Esses o sabem bem, pois a mão esquerda ignora o que dá a direita. É, pois, racional crer que se nossos amigos nos podem felicitar, também nos podem censurar; se veem nossos atos meritórios, veem também nossos erros.

“A isto não hesitamos em atribuir o fato incontestável e incontestado de que não há verdadeiro crente que não se tenha tornado melhor.

“De nossa conduta depende nosso destino futuro. Não de nossa adesão a esta ou àquela seita religiosa, mas de nossa submissão a este grande preceito: AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO... Não devemos adiar a nossa conversão. Nós próprios devemos trabalhar pela nossa salvação, não mais tarde, mas agora; não amanhã, mas hoje.

“Nada há de mais consolador, de mais fortificante para a alma virtuosa, através das provas e vicissitudes desta vida, que a certeza completa de que sua felicidade futura depende de suas ações, que ela pode dirigir.

“Por outro lado, o vicioso, o mau, o cruel, o egoísta, especialmente o egoísta, sofrerá por si e pelos outros (self and mutual torments), tormentos mais terríveis que os do inferno material, tal qual a imaginação mais desordenada jamais conseguiu pintar.”


Allan Kardec
















quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Léon de Muriane - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano V, Novembro de 1862 - Dissertações espíritas - Fundamentos da ordem social




Léon de Muriane - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano V, Novembro de 1862 - Dissertações espíritas


Fundamentos da ordem social


Ei-vos reunidos para ver o Espiritismo em sua fonte, a fim de olhar de frente essa ideia e de apreciar as grandes ondas de amor que ela prodigaliza aos que a conhecem.

O Espiritismo é o progresso moral; é a elevação do Espírito na via conducente a Deus. O progresso é a fraternidade em seu nascedouro, porque a fraternidade completa, tal qual pode o Espírito imaginá-la, é a perfeição.

A fraternidade pura é um perfume do alto, uma emanação do infinito, um átomo da inteligência celeste; é a base de todas as instituições morais e o único meio de elevar a uma condição social que possa subsistir e produzir os efeitos dignos da grande causa pela qual combateis.

Sede irmãos, portanto, se quiserdes que o germe lançado entre vós se desenvolva e se torne a árvore que buscais. A união é a força soberana que baixa à Terra, e a fraternidade é a simpatia da união, é a poesia, o encanto, o ideal no positivo.

Precisais ser unidos para serdes fortes e ser fortes para fundardes uma instituição que não repouse senão sobre a verdade, tornada tão tocante e tão admirável, tão simples e tão sublime. As forças divididas aniquilam-se. Reunidas, são cada vez mais fortes.

E se se considerar o progresso de cada criatura, se se refletir no amor e na caridade que brota de cada coração, a diferença será muito maior. Sob o sublime influxo desse sopro inefável, os laços de família se apertam, mas os laços sociais, tão vagamente definidos, se esboçam, se aproximam e acabam formando um único feixe de todos esses pensamentos, de todos esses desejos, de todos esses objetivos de natureza diversa.

O que é que vedes sem a fraternidade? O egoísmo e a ambição. Cada um tem o seu objetivo; cada um o persegue por seu lado; cada um marcha a seu modo, e todos são fatalmente arrastados para o abismo onde mergulham, há séculos, todos os esforços humanos. Com a união há um só objetivo, pois há um só pensamento, um só desejo, um só coração.

Uni-vos, pois, meus amigos, é o que incessantemente vos repete a voz de nosso mundo. Uni-vos e chegareis mais depressa ao vosso objetivo.

É sobretudo nessa reunião inteiramente simpática que deveis tomar a resolução irrevogável de serdes unidos por um pensamento comum a todos os espíritas da Terra, para oferecerdes a homenagem do vosso reconhecimento àquele que vos abriu o caminho do bem supremo; àquele que trouxe a felicidade às vossas cabeças, a alegria aos vossos corações e a fé aos vossos Espíritos.

Vosso reconhecimento é sua recompensa atual. Não lho recuseis, portanto, e fazendo a oferta a uma só voz, dareis o primeiro exemplo de verdadeira fraternidade.

 
Léon de Muriane
Espírito Protetor




Lyon, 16 de setembro de 1862 - Médium: Sr. Émile V...
 
NOTA: Esta comunicação foi obtida num grupo particular, presidido pelo Sr. Allan Kardec.

OBSERVAÇÃO: Esse nome, Léon de Muriane, é completamente desconhecido, até do médium. Isso prova que para ser um Espírito elevado é desnecessário ter o nome inscrito no calendário ou nos fastos da história, e que entre os que se comunicam, muitos há que não têm um nome conhecido.




sábado, 28 de agosto de 2021

Bezerra de Menezes - Psicofonia - Divaldo P. Franco - Gloriosa vitória da Luz contra a treva!




Bezerra de Menezes - Psicofonia - Divaldo P. Franco


Gloriosa vitória da Luz contra a treva!


Filhas e filhos bem-amados! Que a paz de nosso Senhor Jesus Cristo permaneça em nossos corações!

Anoitece!…

Os dias gloriosos da ciência e da tecnologia de ponta estão sombreados pelas inquietações do sentimento humano que parece desvairar em toda parte. O inconformismo, o desespero e o sofrimento assinalam a geração presente como a consequência do mau uso do livre-arbítrio nos dias do passado.

Todos anelávamos que estas fossem as horas da paz, amparados pelo conhecimento libertador da ignorância que a muitos tem proporcionado conforto e bem-estar; raramente, equilíbrio e paz. A Barca Terrestre experimenta as ondas terríveis do mar agitado pelos conceitos da loucura e da desarmonia.

No entanto, Cristo vela e conduz, na condição de Nauta Divino, a embarcação ao porto de segurança. Provavelmente, algumas dores se farão volumosas e terrificantes. Sucede, porém, que as almas rebeldes somente aquiescem diante de sofrimentos que as submetem à diretriz da fraternidade e do amor.

O Espiritismo veio no momento próprio quando a filosofia desvairava em várias denominações no século das luzes. E hoje, novamente, a mensagem de redenção da Humanidade alcança as criaturas humanas com a filosofia do bem, como sendo a única que é capaz de proporcionar plenitude e esperanças quase não mais aguardadas.

Não desanimeis, não permitais que o mau humor e as injunções penosas que vos rodeiam os passos e tentam penetrar no vosso lar logrem o êxito que a invigilância, não raro, faculta. Tende tento e mantende-vos em equilíbrio interior quanto seja possível.

Este é o grande momento em que as Escrituras desde há muito prenunciam como da mudança que se vem operando e atingem a sua culminância.

Nas experiências vividas nestes dias, no encontro do Conselho Federativo Nacional, conseguimos pacificar os corações e apoiar as ideias iluminativas no clima do Cristianismo Primitivo.

Não podemos viver a Doutrina Espírita sem a ética moral do Evangelho de Jesus. A Humanidade tem sede de exemplos e está cansada de palavras.

Sois as cartas vivas do Evangelho e perseverai no objetivo sagrado de confortar os que choram, mas não apenas consolá-los, senão apontardes os caminhos pelos quais encontrarão a felicidade anelada.

São graves os testemunhos que todos nós, Espíritos desencarnados e encarnados em perfeita comunhão, deveremos oferecer, quais lograram os mártires das primeiras horas da fé cristã. Nesse passado que já vai distante, as perseguições vinham de fora para dentro. Agora, as angústias e as dores são do íntimo para fora, em razão das terríveis perturbações provocadas pelos inimigos da luz que se travestem de missionários de uma Nova Era. Sim, a Era Nova irá caracterizar a grandeza do amor na operosidade da caridade junto a Humanidade terrestre.

O Brasil prossegue convidado a desempenhar a missão que foi confiada a Ismael pelo Divino Mestre. E neste momento, turbado pelas paixões e pelos interesses vis, torna-se indispensável a serenidade da fé para que sejam enfrentados os terríveis vírus da crueldade, do materialismo e da indiferença pelo amor às forças vivas da Natureza culminando na criatura humana.

Vós perguntais por que estamos em um momento tão difícil de violência e deveremos agir como mansos e pacíficos se tudo nos chama a definições drásticas da violência que cada dia é mais perversa?!

O exemplo é Jesus, o Cordeiro de Deus imolado numa cruz de vergonha que Ele transformou em asas para a sublimação de todos os espíritos.

Não tergiverseis nem permiti-vos enfraquecer na luta. É o fogo que purifica os metais, que dá resistência à argila e que modifica as paisagens.

É a dor a mensageira que Deus oferece àqueles aos quais ama de tal forma que, assinalados pelo ferrete do sofrimento, não tem outra alternativa senão a marcha na direção do calvário sublimador.

Poderia parecer que se trata de uma proposta masoquista em que a dor é preferencial. Não se trata desta questão patológica. A Terra ainda é o planeta de provas e expiações e todos nela nos encontramos à busca do depuramento da inferioridade que teima em permanecer como herança perigosa das fases que já deveriam estar ultrapassadas, e não foi conseguida essa vitória. Mas, logo depois da noite tenebrosa suavemente a madrugada irisa com as estrelas da alegria em um amanhecer de bênçãos e confortos para a vida gloriosa da imortalidade!

Filhas e filhos do coração! Não fostes vós que vos candidatastes, foi o Senhor da Vida que fez um giro ao entardecer e convidou-vos à última hora para a Seara de Redenção. Alegrai-vos porque o vosso será o mesmo salário dos heróis da hora primeira e exultai porque já vos encontrais ao lado do Dono da Vinha que logo mais estará convocando-vos para a prestação de contas e ireis apresentar o glorioso resultado da vitória da luz contra a treva.

Estais sob cuidados especiais. Não só de Ismael, mas de toda a equipe que zela pelo planeta neste momento decisivo, um dos mais graves da história da Terra: o grande salto para a Era da Felicidade.

Em nome dos Espíritos-espíritas, que estão convosco inaugurando o período da compreensão das diferenças, da compaixão pelos adversários, do entendimento dos opositores, com a disposição de abraçá-los a todos para apresentar-lhes ao Mestre, condutor do rebanho no qual vos encontrais, rejubilamo-nos e exaltamos Aquele que permanece o caminho na busca da verdade e da vida que é Jesus.

Muita paz, filhas e filhos do coração! É o que vos deseja o amigo paternal e humílimo de sempre,


Bezerra

Muita paz!



Psicofonia de Divaldo Pereira Franco em 10.11.2019, no encerramento da reunião ordinária do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira realizada em Brasília, DF. Revisada pelo autor espiritual.



VIDEO: 

Divaldo Pereira Franco, palestra em Brasília, no dia 10 de Novembro de 2019.
FEBtv - Tv da Federação Espírita Brasileira









domingo, 2 de agosto de 2020

Allan Kardec - Revista Espírita 1865 - Novembro - Alocução



Allan Kardec - Revista Espírita 1865 - Novembro


Alocução


Senhores e caros colegas,

No momento de retomar o curso de nossos trabalhos, é para todos nós, e para mim em particular, uma grande satisfação encontrarmo-nos novamente reunidos. Sem dúvida vamos reencontrar nossos bons guias espirituais. Façamos votos para que, graças ao seu concurso, este ano seja fecundo em resultados. Ao ensejo, permiti-me dirigir-vos algumas palavras a propósito.

Os acontecimentos marcham com rapidez, e como os trabalhos que me restam para terminar são consideráveis, devo apressar-me, a fim de estar pronto em tempo oportuno. Em presença da grandeza e da gravidade dos acontecimentos que tudo faz pressentir, os incidentes secundários são insignificantes; as questões pessoais passam, mas a coisas capitais ficam.

Assim, é preciso ligar às coisas uma importância apenas relativa e, pelo que pessoalmente me concerne, devo afastar de minhas preocupações o que é apenas secundário e que poderia retardar-me ou me desviar do objetivo principal. Este objetivo cada vez se desenha mais nitidamente, e o que aprendi nestes últimos tempos foram sobretudo os meios de atingi-lo mais seguramente e de superar os obstáculos.

Deus me guarde de ter a presunção de me julgar o único capaz, ou mais capaz do que qualquer outro, ou o único encarregado de realizar os desígnios da Providência. Não. Tal pensamento está longe de mim. Neste grande movimento renovador, tenho minha parte de ação. Assim, só falo do que me concerne; mas o que posso afirmar sem vã fanfarronada é que, no papel que me incumbe, não me faltarão coragem nem perseverança. Jamais fraquejei, mas hoje que vejo a rota iluminar-se com uma claridade maravilhosa, sinto as forças crescerem. Jamais duvidei, mas hoje, graças às novas luzes que a Deus aprouve dar-me, tenho certeza, e o digo a todos os nossos irmãos, com mais segurança do que nunca: Coragem e perseverança, porque um deslumbrante sucesso coroará os nossos esforços.

Malgrado o estado próspero do Espiritismo, seria abusar estranhamente crer que de agora em diante ele vai marchar sem obstáculos. Ao contrário, devemos esperar novas dificuldades e novas lutas. Assim, ainda teremos que atravessar momentos penosos, porque nossos adversários não se dão por vencidos e disputarão o terreno palmo a palmo. Mas é nos momentos críticos que se conhecem os corações sólidos, os devotamentos verdadeiros. É então que as convicções profundas se distinguem das crenças superficiais ou simuladas. Na paz não há mérito em ter coragem. Neste momento nossos chefes invisíveis contam os seus soldados e as dificuldades para eles são um meio de pôr em evidência aqueles sobre os quais podem apoiar-se. Também é para nós um meio de saber realmente quem está conosco ou contra nós.

A tática dos nossos adversários ─ não seria demais repeti-lo ─ é neste momento procurar dividir os adeptos, lançando inopinadamente os fachos da discórdia, excitando os desfalecimentos verdadeiros ou simulados; e, é preciso dizer, eles têm como auxiliares certos Espíritos que se veem perturbados pelo aparecimento de uma fé que deve religar os homens num sentimento comum de fraternidade. Assim, estas palavras de um de nossos guias são perfeitamente verdadeiras: o Espiritismo revoluciona o mundo visível e o mundo invisível.

Há algum tempo os nossos adversários têm em mira as sociedades e as reuniões espíritas, onde semeiam em profusão o fermento da discórdia e do ciúme. Homens de vista curta, enceguecidos pela paixão, julgam ter conquistado uma grande vitória, quando conseguiram causar algumas perturbações numa localidade, como se o Espiritismo estivesse enfeudado num lugar qualquer, ou encarnado em alguns indivíduos! Ele está em toda parte, na Terra e no espaço! O movimento não é dado pelos homens, mas pelos Espíritos prepostos por Deus. Ele é irresistível porque é providencial. Não é, pois, uma revolução humana que se possa deter pela força material. Assim, quem se julgará capaz de travá-lo atirando uma pedrinha debaixo da roda? Pigmeu na mão de Deus, ele será arrastado pelo turbilhão.

Que todos os Espíritas sinceros se unam, pois, numa santa comunhão de pensamentos, para enfrentar a tempestade; que todos os que estão penetrados da grandeza do objetivo ponham de lado as pueris questões secundárias; que façam calar as suscetibilidades do amor-próprio, para ver apenas a importância do resultado para o qual a Providência conduz a Humanidade.

Como se sabe, o que falta aos que confundem o Espiritismo com a charlatanice é saber o que é o Espiritismo. Sem dúvida poderão sabê-lo pelos livros, quando se derem ao trabalho. Mas, que é a teoria ao lado da prática? Não basta dizer que a doutrina é bela; é necessário que os que a professam mostrem a sua aplicação. Cabe, pois, aos adeptos dedicados à causa, provar o que ela é, por sua maneira de agir, quer em particular, quer nas reuniões, evitando, com o máximo cuidado, tudo quanto pudesse dar margem à malevolência e produzir nos incrédulos uma impressão desfavorável. Quem quer que se encerre nos princípios da doutrina poderá ousadamente desafiar a crítica e jamais incorrerá na censura da autoridade, nem na severidade da lei.

Posta em evidência mais que qualquer outra, a Sociedade de Paris, sobretudo, deve dar o exemplo. Sentimo-nos todos felizes ao dizer que ela jamais faltou aos seus deveres e por termos constatado a boa impressão produzida por seu caráter eminentemente sério, pela gravidade e pelo recolhimento que presidem às suas reuniões. É um motivo a mais para ela evitar escrupulosamente até as aparências do que poderia comprometer a reputação que adquiriu. Incumbe a cada um de nós velar por isso, no próprio interesse da causa. É preciso que a qualidade de membro, ou de médium a lhe prestar concurso, seja um título de confiança e de consideração. Conto, pois, com a cooperação de todos os nossos colegas, cada um no limite de suas possibilidades. Não se deve perder de vista que as questões de pessoas devem apagar-se ante a questão do interesse geral. As circunstâncias em que vamos entrar são graves, repito, e cada um de nós terá sua missão, pequena ou grande. Por isso devemos pôr-nos em condições de cumpri-la, pois disso nos pedirão contas. Peço me perdoeis esta linguagem um pouco austera na retomada de nossos trabalhos, mas ela é imposta pelas circunstâncias.

Senhores, em nossa primeira reunião, um dos nossos colegas falta corporalmente à chamada. Durante nosso recesso, o Sr. Nant, pai de nossa boa e excelente espírita, a Sra. Breul, retornou ao mundo dos Espíritos, de onde, esperamos, terá a bondade de vir até nós. Em seus funerais, rendemos-lhe um justo tributo de simpatia, que julgamos dever renovar hoje e ficaremos felizes se dentro em breve ele tiver a bondade de dirigir-nos algumas palavras e, no futuro, juntar-se aos bons Espíritos que nos ajudam com seus conselhos. Peçamo-lhes, senhores, que tenham a bondade de continuarem a dar-nos a sua assistência.


Allan Kardec








Na reabertura das sessões da sociedade de Paris, a 6 de outubro de 1865

Fonte: Ipeak - Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec