Mostrando postagens com marcador Março. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Março. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Allan Kardec - Revista Espírita - Março 1859 - Diatribes



Allan Kardec - Revista Espírita - Março 1859


Diatribes


Com certeza algumas pessoas esperam encontrar aqui uma resposta a certos ataques pouco comedidos à Sociedade, a nós pessoalmente e, em geral, aos partidários do Espiritismo, ataques dos quais temos sido vítimas nos últimos tempos.

Pedimos que se reportem ao nosso artigo sobre a polêmica espírita, que abriu o nosso número de novembro último, no qual fizemos a nossa profissão de fé a respeito. Poucas palavras devemos acrescentar, uma vez que não nos sobra tempo para discussões ociosas. Que aqueles que têm tempo a perder para rir de tudo, mesmo daquilo que não compreendem; para a maledicência; para a calúnia ou para as piadas, fiquem satisfeitos: não temos a pretensão de lhes criar obstáculos. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, composta de homens dignos por seu saber e por sua posição, tanto franceses como estrangeiros, médicos, escritores, artistas, funcionários, oficiais, negociantes, etc., recebendo diariamente as mais altas notabilidades sociais e tendo correspondência com todas as partes do mundo, está acima das pequenas intrigas do ciúme e do amor-próprio. Ela prossegue seus trabalhos na calma e no recolhimento, sem se inquietar com as piadas de mau gosto que não poupam nem mesmo as mais respeitáveis organizações.

Com referência ao Espiritismo em geral, que é uma das potências da Natureza, a zombaria virá a dobrar-se, como se dobrou de encontro a tantas outras coisas consagradas pelo tempo. Essa utopia, essa maluquice, como o classificam certas pessoas, já deu a volta ao mundo e nem mesmo todas as diatribes impedirão a sua marcha, do mesmo modo que outrora os anátemas não impediram que a Terra girasse. Deixemos, pois, que os gracejadores riam à vontade, desde que assim lhes apraz. Fá-lo-ão à custa do espírito. Se eles riem da religião, por que não haveriam de rir do Espiritismo, que é uma ciência? Esperamos que nos prestem mais serviços do que prejuízos e que nos poupem despesas de publicidade, porque não há um só de seus artigos, mais ou menos espirituosos, que não tenha produzido a venda de alguns de nossos livros e que não nos tenha proporcionado alguns assi­nantes. Obrigado, pois, pelo serviço que nos prestam involuntariamente.

Também pouco diremos quanto ao que nos toca pessoalmente. Perdem seu tempo todos quantos nos atacam ostensiva ou disfarçadamente, se julgam que nos perturbam. Também se enganam, se pensam em nos barrar o caminho, pois nada pedimos e apenas aspiramos a tornar-nos útil, no limite das forças que Deus nos concedeu. Por mais modesta que seja a nossa posição, contentamo-nos com aquilo que para muitos seria mediocridade. Não ambicionamos posição, nem honras ou fortuna. Não desejamos o mundo nem os seus prazeres. Aquilo que não podemos ter não nos causa desgosto e o vemos com a mais completa indiferença. Isso não é compatível com nossos gostos, consequentemente não invejamos a nenhum daqueles que possuem tais vantagens, se vantagens há ─ o que a nossos olhos é um problema ─ porque os prazeres pueris deste mundo não asseguram um melhor lugar no outro, muito pelo contrário. Nossa vida é toda de trabalho e de estudo e consagramos ao trabalho até os momentos de repouso. Nisto não há nada que possa causar inveja. Como tantos outros, trazemos a nossa pedra ao edifício que se ergue; entretanto, coraríamos se disso fizéssemos um degrau para atingir fosse o que fosse. Que outros tragam mais pedras que nós! Que outros trabalhem tanto e melhor que nós e os veremos com sincera alegria. O que queremos, antes de mais nada e acima de tudo, é o triunfo da Verdade, venha de onde vier, pois não temos a pretensão de ver sozinho a luz. Se isso deve proporcionar alguma glória, o campo a todos está aberto e estenderemos a mão a todos aqueles que, neste duro curso da vida, nos seguirem lealmente, com abnegação e sem segundas intenções pessoais.

Sabíamos muito bem que, arvorando abertamente a bandeira das ideias das quais nos fizemos um dos propagadores, afrontando preconceitos, atrairíamos inimigos, sempre prontos a desferir setas envenenadas contra quem quer que erga a cabeça e se ponha em evidência. Há, porém, uma diferença entre eles e nós. Não queremos para eles o mal que nos procuram fazer, porque compreendemos a fragilidade humana e é somente nisto que a eles nos julgamos superior. O homem se avilta pela inveja, pelo ódio, pelo ciúme e por todas as paixões mesquinhas, mas eleva-se pelo esquecimento das ofensas. Eis a moral espírita. Não tem ela tanto valor quanto a das pessoas que estraçalham o próximo? Ela nos foi ditada pelos Espíritos que nos assistem. Por aí podemos julgar se eles são bons ou maus. Ela nos mostra as coisas do alto tão grandes, e as de baixo tão pequenas que apenas devemos lamentar aqueles que voluntariamente se torturam para proporcionar efêmeras satisfações ao seu amor-próprio.

Allan Kardec














quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Santo Agostinho - Revista Espírita - Ano V - Março de 1862 - Ensinos e dissertações espíritas - A vinha do Senhor



Santo Agostinho - Revista Espírita - Ano V - Março de 1862 - Ensinos e dissertações espíritas


A vinha do Senhor


Todos, enfim, virão trabalhar na vinha. Já os vejo que correm e chegam numerosos. Vamos à obra, filhos! Eis que Deus quer que todos vós trabalheis.

Semeai, semeai, e um dia colhereis com abundância. Vede o belo Sol no Oriente, como se ergue radioso e deslumbrante! Vem aquecer-vos e fazer crescerem os frutos da vinha. Vamos, filhos! As vindimas serão esplêndidas e cada um de vós virá beber a taça do vinho sagrado da regeneração. É o vinho do Senhor que será servido no banquete da fraternidade universal! Aí todas as nações serão reunidas em uma só e mesma família e cantarão louvores a um mesmo Deus. Armai-vos, pois, de arados e cutelos, vós que quereis viver eternamente. Amarrai as cepas, para que não caiam e se mantenham eretas, e suas pontas subirão ao Céu. Umas terão cem côvados, e os Espíritos dos mundos etéreos virão espremer os bagos e refrescar-se; o suco será de tal modo poderoso que dará força e coragem aos fracos. Será o leite a alimentar as crianças.

Eis a vindima que se vai fazer, e já se faz. Preparam-se os vasos que devem conter o sagrado licor. Aproximai os lábios, vós que quereis provar, porque esse licor vos embriagará de celeste ebriez e vereis Deus em vossos sonhos, enquanto esperais que a realidade suceda ao sonho.

Filhos! Essa vinha esplêndida que deve erguer-se para Deus é o Espiritismo. Adeptos fervorosos, é necessário mostrá-la pujante e forte e vós, crianças, é necessário que ajudeis os fortes a mantê-la e propagá-la. Cortai os brotos e plantai-os em outro campo. Eles produzirão novas vinhas e outros brotos em todos os países do mundo.

Sim, digo eu, enfim todo o mundo beberá do suco da vinha e bebereis no reino do Cristo, com o Pai celeste! Sede, pois, fortes e dispostos e não vivais vida austera. Deus não pede que vivais em austeridades e privações; não pede que vos cubrais com o cilício; quer que vivais apenas conforme a caridade e o coração. Ele não quer mortificações que destroem o corpo. Ele quer que cada um se aqueça ao seu Sol, e se fez uns raios mais frios que outros, foi para dar a compreender a todos quanto é forte e poderoso. Não, não vos cubrais de cilício; não sevicieis a vossa carne aos golpes da disciplina. Para trabalhar na vinha é necessário ser robusto e poderoso. O homem deve ter o vigor que Deus lhe deu. Ele não criou a Humanidade para transformá-la em raça bastarda e esquálida; ele a fez com a manifestação de sua glória e de seu poder.

Vós que quereis viver a verdadeira vida, estais nas vias do Senhor quando tiverdes dado o pão aos infelizes, o óbolo aos sofredores e a vossa prece a Deus. Então, quando a morte vos fechar as pálpebras, o anjo do Senhor proclamará os vossos benefícios e vossa alma, transportada nas asas brancas da caridade, subirá para Deus tão bela e pura quanto o lírio que se abre pela manhã a um sol primaveril.

Orai, amai e fazei a caridade, meus irmãos. A vinha é grande. O campo do Senhor é grande. Vinde, vinde, que Deus e o Cristo vos chamam e eu vos abençoo.


Santo Agostinho
Sociedade espírita de Paris. Médium: Sr. E. Vézy









Fonte: 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Elisabeth de França - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V, Março de 1862 - Ensinos e dissertações espíritas - Caridade para com os criminosos - Problema moral




Elisabeth de França - Revista Espírita - Allan Kardec - Ano V, Março de 1862 - Ensinos e dissertações espíritas - Caridade para com os criminosos


Problema moral


A verdadeira caridade é um dos mais sublimes ensinamentos dados por Deus ao mundo. Deve existir entre os verdadeiros discípulos de sua dou­trina uma fraternidade completa. Vós deveis amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos se se arrependerem, como a vós mesmos, pelas falhas que cometerdes contra a sua lei. Pensai que sois mais repreensíveis e mais culpados que aqueles a quem recusais o perdão e a comiseração, pois muitas vezes eles não conhecem Deus como o conheceis e lhes será pedido menos do que a vós.

Não julgueis. Oh! Não julgueis, minhas caras amigas, porque o julgamento que fizerdes vos será aplicado ainda mais severamente, e necessitais de indulgência para os pecados que incessantemente cometeis. Não sabeis que há muitas ações que são crimes ante os olhos do Deus de pureza e que o mundo nem considera faltas leves?

A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que dais, nem mesmo nas palavras de consolo com que a acompanhais. Não. Não é somente isso que Deus exige de vós. A caridade sublime ensinada por Jesus Cristo também consiste na benevolência concedida sempre e em todas as coisas ao vosso próximo. Podeis, ainda, exercer essa virtude sublime para com muitas criaturas que não necessitam de esmola, mas que palavras amorosas e consoladoras encorajarão e as conduzirão ao Senhor.

Os tempos estão próximos, eu ainda vos digo, nos quais reinará a grande fraternidade neste globo. A lei do Cristo é a que regerá os homens. Só ela será o freio e a esperança, e conduzirá as almas às moradas da bem-aventurança.

Amai-vos, pois, como filhos de um mesmo pai. Não façais diferença entre os outros infelizes, porque Deus quer que todos sejam iguais. Assim, a ninguém desprezeis. Deus permite que grandes criminosos estejam em vosso meio, a fim de que vos sirvam de ensinamento. Em breve, quando os homens forem conduzidos pelas verdadeiras leis de Deus, não haverá mais necessidade desses ensinamentos, e todos os Espíritos impuros e revoltados serão espalhados por mundos inferiores, em harmonia com as suas inclinações.

A esses, de quem vos falo, deveis o auxílio das vossas preces: é a verdadeira caridade. Não se deve dizer de um criminoso: “É um miserável; deve-se expurgar de sua presença a Terra; a morte que lhe infligem é muito suave para um ser de sua espécie”. Não. Não é assim que deveis falar. Olhai o vosso modelo, Jesus. Que dizia ele ao ver o malfeitor ao seu lado? Ele o lamentava; considerava-o um doente muito infeliz e estendia-lhe a mão. Na realidade, tal não podeis fazer, mas ao menos podeis orar por esse infeliz e assistir o seu Espírito nos momentos que ainda deve passar na Terra. O arrependimento pode tocar o seu coração se orardes com fé. Ele é vosso próximo, tanto quanto o melhor dos homens. Sua alma transviada e revoltada foi criada, como a vossa, à imagem de Deus perfeito. Assim, orai por ele. Não o julgueis, pois não o deveis. Só Deus o julgará.


Elisabeth de França
Havre, 1862




Escrevem-nos que logo depois de uma conversa a respeito do assassino Dumollard, o Espírito da Sra. Elisabeth de França, que já havia dado várias mensagen.:

Seu nome era Elisabeth-Philippine-Marie-Helène. Nasceu no palácio de Versailles em 1764, tendo sido a última filha do Delfim Louis e de Marie Josephine de Saxe e, portanto, irmã de Luís XVI. Ficou órfã aos três anos de idade. Subindo ao trono, Luís XVI lhe deu o Castelo de Montreuil, mas viveu sempre junto ao rei, sobre o qual exerceu influência benéfica. Recusou casar-se com o Infante de Espanha e com o Duque de Aosta. Foi aprisionada com a família real. Depois da execução de sua cunhada, a rainha Maria Antonieta, cuidava da sobrinha. Separada desta, foi encerrada na Conciergerie, levada ao tribunal revolucionário a 9 de maio de 1794 e decapitada no dia seguinte.

Dissertação inserida no Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XI, item 14, com o título “Caridade para com os criminosos.”

Paris. Tipografia de Cosson & Cia. Rua do Four-St-Germain, 43.





terça-feira, 22 de junho de 2021

Um Espírito - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano XI - Março de 1868 - Instruções dos Espíritos - A regeneração




Um Espírito - Revista Espírita - Allan Kardec, Ano XI - Março de 1868 - Instruções dos Espíritos


A regeneração
 

“Naquele tempo não haverá mais gritos, nem luto, nem trabalho, porque o que era antes terá passado.”


Esta predição do Apocalipse foi ditada há dezoito séculos, e ainda se espera que tais palavras se realizem, porque sempre se encaram os acontecimentos quando se passaram e não quando se desenrolam aos nossos olhos.

Entretanto, essa época predita já chegou. Não há mais dores para aquele que soube colocar-se à margem da estrada, a fim de deixar passarem as mesquinharias da vida, sem detê-las para delas fazer uma arma ofensiva contra a Sociedade.

Estais em meio a estes tempos como a espiga dourada está na colheita; viveis sob os olhares de Deus e sua radiação vos ilumina! De onde vem que vos inquietais com a marcha dos acontecimentos que foram previstos por Deus, quando apenas éreis as crianças da geração de que falava Jesus quando ele dizia: “Antes que esta geração passe acontecerão grandes coisas?”

O que sois, Deus o sabia; o que sereis, Deus o vê! Cabe-vos bem vos penetrardes do caminho que vos é traçado, porque vossa tarefa é de vos submeterdes a tudo o que Deus decidiu. Vossa resignação, e sobretudo a vossa amenidade, não são senão testemunhos de vossa inteligência e de vossa fé na Eternidade.

Acima de vós, neste Universo onde se move o vosso mundo, planam os Espíritos mensageiros que receberam a missão de vos guiar. Eles sabem quando se realizarão os acontecimentos preditos. Eis por que vos dizem: “Não haverá mais gritos, nem luto, nem trabalho.”

Sem dúvida não pode mais haver grito para aquele que se submete às vontades de Deus, e que aceita as suas provações. Não há mais luto porque sabeis que os Espíritos que vos precederam não estão perdidos para vós, mas que eles estão em viagem. Ora, não se veste luto quando um amigo está ausente.

O próprio trabalho torna-se um favor, porque se sabe que ele é um concurso à obra harmônica que Deus dirige; então executa-se a sua parte de trabalho com a solicitude do estatuário que se põe a polir a sua estátua. É a recompensa infinita que Deus vos concede.

Entretanto, ainda encontrareis entraves em vossas tentativas para chegar ao melhoramento social. É que jamais se chega ao resultado sem que a luta venha ratificar os esforços. O artista é obrigado a vencer os obstáculos que se opõem à irradiação de seu pensamento. Ele só se torna vitorioso quando soube elevar-se acima das privações e dos vapores brumosos que envolvem seu gênio, ao nascer.

A ideia que surge foi semeada pelos Espíritos, quando Deus lhes disse: “Ide e instruí as nações. Ide e espalhai a luz.” Essa ideia que cresceu com a rapidez de uma inundação, naturalmente deve ter encontrado contraditores, oponentes e incrédulos. Ela não seria a fonte da vida se devesse ter sucumbido sob as troças que a acolheram em seu começo. Mas o próprio Deus guiava esse pensamento através da imensidade; ele o fecundava na Terra, e ninguém o destruirá! Seria inútil que procurassem extirpá-lo pelas raízes; trabalhariam em vão para aniquilá-lo nos corações; as crianças trazem-no ao nascer, e dir-se-ia que um sopro de Deus o incrusta em seu berço, como outrora a Estrela do Oriente iluminava os que vinham à presença de Jesus, portador da ideia regeneradora do Cristianismo.

Bem vedes, pois, que esta geração não passará sem que aconteçam grandes coisas, pois que com a ideia, a fé se eleva e a esperança irradia... Coragem! O que foi predito pelo Cristo deve realizar-se. Nestes tempos de aspiração à verdade, a luz que aclara todo homem que vem a este mundo brilha de novo sobre vós. Perseverai na luta, sede firmes e desconfiai das armadilhas que vos preparam. Ficai ligados a essa bandeira em que escrevestes: Fora da caridade não há salvação, e depois esperai, porque aquele que recebeu a missão de vos regenerar volta, e ele disse: “Bem-aventurados aqueles que conhecerem o meu novo nome!”


Um Espírito

Lyon, 11 de março de 1867- Médium: Sra. B...






sexta-feira, 21 de maio de 2021

Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858 - Março - O Sr. Home - II




Allan Kardec - Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858 - Março


O Sr. Home - II


Como dissemos, o Sr. Home é um médium do gênero daqueles sob cuja influência se produzem, mais especialmente, fenômenos físicos, sem excluir por isso as manifestações inteligentes. Todo efeito que revela a ação de uma vontade livre é, por isso mesmo, inteligente, isto é, deixa de ser puramente mecânico e não poderia ser atribuído a um agente exclusivamente material. Daí às comunicações instrutivas de um elevado alcance moral e filosófico há, entretanto, uma grande distância e não é de nosso conhecimento que o Sr. Home as obtenha de tal natureza. Não sendo um médium escrevente, a maioria das respostas são dadas por batidas vibradas, indicativas das letras do alfabeto, meio sempre imperfeito e bastante lento que dificilmente se presta a desenvolvimentos de certa extensão. Entretanto, ele também consegue a escrita, mas por processo de que falaremos daqui a pouco.

Digamos, de início, como princípio geral, que as manifestações ostensivas, aquelas que nos chocam os sentidos, podem ser espontâneas ou provocadas. As primeiras são independentes da vontade; muitas vezes, mesmo, dão-se contra a vontade daquele que lhes é objeto e para quem nem sempre são agradáveis. Fatos deste gênero são frequentes e, sem remontar aos relatos mais ou menos autênticos dos tempos remotos, a História contemporânea oferece-nos numerosos exemplos cuja causa, a princípio ignorada, está hoje perfeitamente conhecida: tais são, por exemplo, os ruídos insólitos, os movimentos desordenados dos objetos, o puxar de cortinas, o arrancar das cobertas, certas aparições, etc.

Algumas pessoas são dotadas de uma faculdade especial que lhes dá o poder de provocar esses fenômenos, ao menos parcialmente, por assim dizer, à vontade. Essa faculdade não é muito rara e, em cem pessoas, pelo menos cinquenta a possuem, em maior ou menor grau.

O que distingue o Sr. Home é que nele a faculdade está desenvolvida, como nos médiuns de sua espécie, de modo por assim dizer excepcional. Uns não conseguem mais do que leves pancadas ou um insignificante deslocamento de uma mesa, enquanto que sob a influência do Sr. Home fazem-se ouvir os ruídos mais retumbantes e todo o mobiliário de uma sala pode ser revirado e os móveis amontoados uns sobre os outros. Por mais surpreendentes que pareçam tais fenômenos, o entusiasmo de alguns admiradores muito zelosos ainda achou um jeito de amplificá-los por meio de pura invencionice. Por outro lado, os detratores não ficaram inativos: contaram a seu respeito toda sorte de histórias que só se passaram em sua imaginação.

Eis um exemplo:

O Marquês de..., uma das figuras que mais interesse demonstraram pelo Sr. Home, e em cuja residência ele era recebido na intimidade, achava-se um dia com ele na ópera. Na plateia estava o Sr. P..., um dos nossos assinantes, que conhece ambos pessoalmente. Seu vizinho estabelece conversa com ele. O assunto é o Sr. Home.

─ O senhor acreditaria, diz ele, que aquele pretenso feiticeiro, aquele charlatão, encontrou meios de penetrar em casa do Marquês de... mas os seus artifícios foram descobertos e ele foi posto na rua a pontapés, como um vil intrigante?

─ O senhor tem certeza? pergunta o Sr. P... O senhor conhece o marquês?

─ Certamente, responde o interlocutor.

─ Nesse caso, retorquiu o Sr. P..., olhe para aquele camarote. O senhor poderá vê-lo, em companhia do próprio Home, no qual não parece que queira dar pontapés.

Diante disso, o nosso infeliz boateiro, achando melhor não continuar a conversa, tomou o chapéu e desapareceu.

Por aí se pode avaliar o valor de certas afirmações. Por certo, se alguns fatos divulgados pela maledicência fossem verdadeiros, ter-lhe-iam fechado muitas portas. Entretanto, como as casas mais respeitáveis sempre lhe estiveram abertas, é de concluir-se que sempre e por toda parte ele se conduziu como um cavalheiro. Aliás, basta haver conversado um pouco com o Sr. Home para ver que, com a sua timidez e sua simplicidade de caráter, ele seria o mais desajeitado dos embusteiros. Insistimos neste ponto pela moralidade da causa.

Voltemos às suas manifestações.

Como o nosso objetivo é dar a conhecer a verdade, no interesse da Ciência, tudo quanto relataremos foi colhido em fontes de tal maneira autênticas que lhe podemos garantir a mais escrupulosa exatidão: obtivemo-lo de testemunhas oculares muito sérias, muito esclarecidas e altamente colocadas, de modo que sua sinceridade não poderá ser posta em dúvida. Se se dissesse que tais pessoas poderiam ter sido, de boa-fé, vítimas de uma ilusão, responderíamos que há circunstâncias que afastam toda suposição desse gênero. Aliás, tais pessoas estavam muito interessadas em conhecer a verdade para não se premunirem contra qualquer falsa aparência.

Geralmente o Sr. Home inicia suas sessões pelos fatos conhecidos: pancadas numa mesa, ou em qualquer outra parte do apartamento, pela maneira como já o descrevemos. Vem a seguir o movimento da mesa, que se opera, a princípio, pela imposição de mãos, dele só ou de várias pessoas reunidas, depois à distância e sem contato: é uma espécie de ensaio. Muito frequentemente ele não obtém mais que isto. Depende da disposição em que se encontra e, algumas vezes também, da dos assistentes. Há pessoas perante as quais jamais produziu coisa alguma, mesmo pessoas amigas. Não nos alongaremos sobre esses fenômenos hoje tão conhecidos e que não se distinguem senão por sua rapidez e energia. Muitas vezes, após várias oscilações e balanços, a mesa se destaca do solo e eleva-se gradativamente, lentamente, por pequenos impulsos, não apenas alguns centímetros, mas até o teto e fora do alcance das mãos. Depois de haver ficado suspensa no espaço durante alguns segundos, desce como havia subido, lentamente, gradativamente.

A suspensão de um corpo inerte e de um peso específico incomparavelmente maior que o do ar é um fato conhecido e, pois, compreende-se que o mesmo se possa dar com um corpo animado. Não nos consta que o Sr. Home tivesse agido sobre outra pessoa além dele mesmo; ainda assim o fato não ocorreu só em Paris, mas em vários lugares, tanto em Florença quanto na França, e principalmente em Bordéus, em presença das mais respeitáveis testemunhas, cujos nomes citaríamos, caso fosse preciso.

Como a mesa, ele foi elevado até o teto e desceu do mesmo modo. O que há de bizarro neste fenômeno é que não se produz por um ato de sua vontade. Ele mesmo nos disse que não se apercebe do fato e pensa que está sempre no solo, salvo quando olha para baixo. São as testemunhas que o veem elevar-se. Quanto a ele, nesses momentos experimenta a sensação produzida pelo balanço do navio sobre as ondas. Aliás, este fato não é absolutamente peculiar ao Sr. Home. A História registra diversos exemplos autênticos, que relataremos posteriormente.

De todas as manifestações produzidas pelo Sr. Home, a mais extraordinária é, sem dúvida, a das aparições, razão por que nelas mais insistimos, à vista das graves consequências daí decorrentes e da luz que elas lançam sobre uma porção de outros fatos. O mesmo se dá com os sons produzidos no ar; instrumentos de música que tocam sozinhos, etc. Examinaremos tais fenômenos detalhadamente no próximo número.

De volta de uma viagem à Holanda, onde produziu uma sensação profunda na corte e na alta sociedade, o Sr. Home acaba de partir para a Itália. Com a saúde gravemente alterada, ele necessitava de um clima mais suave.

Confirmamos prazerosamente a notícia dada por alguns jornais, de um legado de 6.000 francos de renda que lhe fez uma senhora inglesa por ele convertida à Doutrina Espírita e em reconhecimento pela satisfação que ela experimentou. Sob todos os aspectos, o Sr. Home merecia esta prova de consideração. De parte da doadora, o ato é um precedente que terá o aplauso de todos quantos partilham de nossas convicções. Esperemos que um dia a Doutrina tenha o seu Mecenas: a posteridade inscreverá seu nome entre os benfeitores da Humanidade.

A Religião nos ensina a existência da alma e a sua imortalidade; o Espiritismo dá-nos a sua prova viva e palpável, não mais pelo raciocínio, mas pelos fatos.

O materialismo é um dos vícios da Sociedade atual, porque engendra o egoísmo. Que há, realmente, fora do eu, para que tudo seja referido à matéria e à vida presente?

Intimamente ligada às ideias religiosas, esclarecendo-nos sobre a nossa natureza, a Doutrina Espírita nos mostra a felicidade na prática das virtudes evangélicas; ela lembra ao homem os seus deveres para com Deus, para com a Sociedade e para consigo mesmo. Ajudar na sua propagação é desferir um golpe mortal na chaga do cepticismo que nos invade como um mal contagioso. Honra, pois, aos que empregam nessa obra os bens com que Deus os favoreceu na Terra!


Allan Kardec






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Rossini - Revista Espírita - Allan Kardec - 1869, Março - Dissertações espíritas - A música e as harmonias celestes




Rossini - Revista Espírita - Allan Kardec - 1869, Março - Dissertações espíritas


A música e as harmonias celestes


Senhores, tendes razão de me lembrar minha promessa, porque o tempo, que passa tão rapidamente no mundo do espaço, tem minutos eternos para aquele que o sofre sob o amplexo da provação! Há alguns dias, algumas semanas, eu contava como vós; cada dia acrescentava toda uma série de vicissitudes às vicissitudes já suportadas, e a taça se ia enchendo piano, piano.

Ah! Não sabeis quanto o renome de grande homem é difícil de suportar! Não desejeis a glória; não sejais conhecidos: sede úteis. A popularidade tem os seus espinhos e, mais de uma vez, vi-me ferido pelas carícias demasiado brutais da multidão.

Hoje, a fumaça do incenso não mais me inebria. Pairo sobre as mesquinharias do passado, e é um horizonte sem limites que se estende ante a minha insaciável curiosidade. Assim, as horas caem aos punhados na ampulheta secular, e procuro sempre, sempre estudo sem jamais contar o tempo decorrido.

Sim, eu vos prometi. Mas quem pode gabar-se de cumprir uma promessa, quando os elementos necessários para cumpri-la pertencem ao futuro? O poderoso do mundo, ainda sob o bafejo da adulação dos cortesãos, pôde querer enfrentar o problema corpo a corpo; mas não era mais de uma luta fictícia que se travava aqui; não havia mais bravos, brilhantes aclamações para me encorajar e superar minha fraqueza. Era, e é ainda, um trabalho sobre-humano a que me entreguei. É contra ele que luto sempre, e, se espero triunfar, não obstante não posso dissimular o meu esgotamento. Estou vencido... em apuros!... Repouso antes de explorar de novo, mas, se hoje não posso falar-vos do que será o futuro, talvez possa apreciar o presente: ser crítico, depois de ter sido criticado. Vós me julgareis e não me aprovareis se eu não for justo, o que tentarei fazer, evitando personalismos.

Por que, então, tantos músicos e tão poucos artistas? Tantos compositores e tão poucas verdades musicais? Ah! É que não há, como se pensa, imaginação que a Arte possa criar; não há outro mestre e outro criador senão a verdade. Sem ela não há nada, ou só há uma arte de contrabando, pedras falsas, contrafação. O pintor pode criar a ilusão e mostrar branco onde não pôs senão uma mistura de cores sem nome; as oposições das nuanças criam uma aparência, e foi assim, por exemplo, que Horace Vernet pôde fazer parecer de um branco brilhante um magnífico cavalo baio.

Mas a nota só tem um som. O encadeamento dos sons não produz uma harmonia, uma verdade, senão quando as ondas sonoras se fazem o eco de outra verdade. Para ser músico não é necessário nada além de alinhar notas sobre um pentagrama, de maneira a conservar a justeza das relações musicais; só assim se consegue produzir ruídos agradáveis; mas é o sentimento que nasce da pena do verdadeiro artista, é ele que canta, que chora, que ri... Ele assovia na folhagem com o vento tempestuoso; ele salta com a vaga espumante; ele ruge com o tigre furioso!... Mas para dar uma alma à música, para fazê-la chorar, rir, uivar, é preciso que ele próprio tenha experimentado esses diferentes sentimentos, de dor, de alegria, de cólera!

É com o sorriso nos lábios e a incredulidade no coração que personificais um mártir cristão? Será um cético do amor que fará um Romeu, uma Julieta? É um vivedor despreocupado que criará a Margarida de Fausto? Não! É necessária a paixão por inteiro para aquele que faz vibrar a paixão!... E eis por que, quando se preenchem tantas folhas, as obras são tão raras e as verdades excepcionais; é que não se crê, é que a alma não vibra. O som que se escuta é o do ouro que tine, do vinho que crepita!... A inspiração é a mulher que exibe uma beleza mentirosa; e como não possuímos senão defeitos e virtudes fingidas, não produzimos senão um verniz, uma maquiagem musical. Raspai a superfície e logo encontrareis a pedra.

ROSSINI.

 

(17 de janeiro de 1869 - Médium: Sr. Nivard)

 

O silêncio que guardei sobre a pergunta que me dirigiu o mestre da Doutrina Espírita foi explicado. Era conveniente, antes de abordar este assunto difícil, recolher-me, lembrar-me, e condensar os elementos que me estavam à mão. Eu não tinha que estudar música, tinha apenas que classificar os argumentos com método, a fim de apresentar um resumo capaz de dar uma ideia de minha concepção sobre a harmonia. Esse trabalho, que não fiz sem dificuldade, está terminado, e estou pronto para submetê-lo à apreciação dos espíritas.

A harmonia é difícil de definir. Muitas vezes confundem-na com a música, com os sons resultantes de um arranjo de notas e das vibrações dos instrumentos ao reproduzirem esse arranjo. Mas a harmonia não é isto, como a chama não é a luz. A chama resulta da combinação de dois gases: ela é tangível; a luz que ela projeta é um efeito dessa combinação, e não a própria chama: ela não é tangível. Aqui o efeito é superior à causa. Assim se dá com a harmonia. Ela resulta de um arranjo musical; é um efeito igualmente superior à causa: a causa é brutal e tangível; o efeito é sutil e não é tangível.

Pode-se conceber a luz sem chama e compreender a harmonia sem música. A alma é apta a perceber a harmonia fora de todo concurso de instrumentação, como é apta a ver a luz fora de todo concurso de combinações materiais. A luz é um sentido íntimo que a alma possui. Quanto mais desenvolvido esse sentido, melhor ela percebe a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma; ela é percebida em razão do desenvolvimento desse sentido. Fora do mundo material, isto é, fora das causas tangíveis, a luz e a harmonia são de essência divina; nós as possuímos em razão dos esforços feitos para adquiri-las. Se comparo a luz e a harmonia, é para melhor me fazer compreender, e também porque essas duas sublimes satisfações da alma são filhas de Deus, e, por consequência, são irmãs.

A harmonia do espaço é tão complexa, tem tantos graus que eu conheço, e muitos mais ainda que me são ocultos no éter infinito, que aquele que estiver colocado a uma certa altura de percepções, é como que tomado de admiração ao contemplar essas harmonias diversas, que constituiriam, se fossem reunidas, a mais insuportável cacofonia, ao passo que, ao contrário, percebidas separadamente, elas constituem a harmonia particular a cada grau. Essas harmonias são elementares e grosseiras nos graus inferiores; levam ao êxtase nos graus superiores. Tal harmonia que desagrada um Espírito de percepções sutis, deslumbra um Espírito de percepções grosseiras; e quando ao Espírito inferior é dado deleitar-se nas delícias das harmonias superiores, ele é colhido pelo êxtase e a prece o penetra; o encantamento o arrasta às esferas elevadas do mundo moral; ele vive uma vida superior à sua e desejaria continuar a viver sempre assim. Mas, quando a harmonia cessa de invadi-lo, ele desperta, ou, se preferirem, ele adormece; em todo caso, volta à realidade de sua situação, e nos lamentos que deixa escapar por ter descido se exala uma prece ao Eterno, pedindo forças para subir. É para ele um grande motivo de emulação.

Não tentarei dar a explicação dos efeitos musicais que produz o Espírito agindo sobre o éter. O que é certo é que o Espírito produz os sons que quer, e que ele não pode querer o que não sabe. Ora, então, aquele que compreende muito, que tem a harmonia em si, que dela está saturado, que goza, ele próprio, o seu sentido íntimo, esse nada impalpável, essa abstração que é a concepção da harmonia, age quando quer sobre o fluido universal que, instrumento fiel, reproduz o que o Espírito concebe e quer. O éter vibra sob a ação da vontade do Espírito; a harmonia que ele traz em si se concretiza, por assim dizer; ela se exala terna e suave como o perfume da violeta, ou ruge como a tempestade, ou rebenta como o raio, ou se lamenta como a brisa; ela é rápida como o relâmpago, ou lenta como a nuvem; ela é entrecortada como um soluço, ou uniforme como a relva; ela é agitada como uma catarata, ou calma como um lago; ela murmura como um regato ou estruge como uma torrente. Ora tem a agreste aspereza das montanhas, ora a frescura de um oásis; é sucessivamente triste e melancólica como a noite, animada e alegre como o dia; é caprichosa como a criança, consoladora como a mãe e protetora como o pai; é desordenada como a paixão, límpida como o amor e grandiosa como a Natureza. Quando ela chega a este último termo, confunde-se com a prece, glorifica a Deus e leva ao deslumbramento aquele que a produz ou a concebe.

Oh! Comparação! Comparação! Por que se é obrigado a empregar-te? Por que dobrar-se às tuas necessidades degradantes e tomar à Natureza tangível, imagens grosseiras para fazer conceber a sublime harmonia em que se deleita o Espírito? E ainda, a despeito das comparações, não se pode dar a compreender essa abstração, que é um sentimento, quando ela é causa, e uma sensação quando ela se torna um efeito?

O Espírito que tem o sentimento da harmonia é como o Espírito que tem a aquisição intelectual; um e outro gozam constantemente da propriedade inalienável que conquistaram. O Espírito inteligente, que ensina sua ciência aos que ignoram, experimenta a felicidade de ensinar, porque sabe que torna felizes aqueles a quem instrui; o Espírito que faz ressoar no éter os acordes da harmonia que nele está, experimenta a felicidade de ver satisfeitos os que o escutam.

A harmonia, a ciência e a virtude são as três grandes concepções do Espírito: a primeira o deslumbra, a segunda o esclarece, a terceira o eleva. Possuídas em sua plenitude, elas se confundem e constituem a pureza. Ó Espíritos puros que as contendes! Descei às nossas trevas e clareai a nossa marcha; mostrai-nos o caminho que tomastes, para que sigamos as vossas pegadas!

E quando penso que esses Espíritos cuja existência posso compreender são seres finitos, átomos, em face do Senhor universal e eterno, minha razão fica confusa, pensando na grandeza de Deus e da felicidade infinita que ele goza em si mesmo, pelo simples fato de sua pureza infinita, porquanto tudo o que a criatura adquire não é senão uma parcela que emana do Criador. Ora, se a parcela chega a fascinar pela vontade, a cativar e a deslumbrar pela suavidade, a resplender pela virtude, que deve então produzir a fonte eterna e infinita de onde foi tirada? Se o Espírito, ser criado, chega a tirar de sua pureza tanta felicidade, que ideia se deve fazer da que o Criador tira de sua pureza absoluta? Eterno problema!

O compositor que concebe a harmonia e a traduz na grosseira linguagem chamada música, concretiza a ideia e escreve-a. O artista apreende a forma e toma do instrumento que lhe deve permitir exprimir a ideia. O ar posto em atividade pelo instrumento leva-a ao ouvido, que a transmite à alma do ouvinte. Mas o compositor foi impotente para exprimir inteiramente a harmonia que concebia, por falta de uma linguagem suficiente; por sua vez, o executante não compreendeu toda a ideia escrita, e o instrumento indócil de que ele se serve não lhe permite traduzir tudo quanto ele compreendeu. O ouvido é ferido pelo ar grosseiro que o cerca, e a alma recebe, enfim, por um órgão rebelde, a horrível tradução da ideia nascida na alma do maestro.

A ideia do maestro era o seu sentimento íntimo. Embora deturpada pelos agentes de instrumentação e de percepção, contudo produz sensações nos que escutam a sua tradução; essas sensações são a harmonia. A música as produziu; elas são efeitos desta última. A música foi posta a serviço do sentimento para produzir a sensação. O sentimento, no compositor, é a harmonia; a sensação, no ouvinte, também é harmonia, com a diferença de que é concebida por um e recebida pelo outro. A música é o médium da harmonia; ela a recebe e a dá, como o refletor é o médium da luz, como tu és o médium dos Espíritos. Ela a dá mais ou menos deturpada, conforme seja mais ou menos bem executada; o refletor envia melhor ou pior a luz, conforme ele seja mais ou menos brilhante e polido; o médium exprime mais ou menos os pensamentos do Espírito, conforme seja mais ou menos flexível.

E agora que a harmonia está bem compreendida em sua significação; que se sabe que ela é concebida pela alma e transmitida à alma, compreender-se-á a diferença que existe entre a harmonia da Terra e a do espaço.

Entre vós tudo é grosseiro: o instrumento de tradução e o instrumento de percepção. Entre nós, tudo é sutil. Vós tendes o ar, nós temos o éter. Tendes o órgão que obstrui e vela; em nós a percepção é direta e nada a vela. Entre vós, o autor é traduzido; entre nós, ele fala sem intermediário e na língua que exprime todas as concepções. Entretanto, essas harmonias têm a mesma fonte, como a luz da Lua tem a mesma fonte que é o Sol; assim como a luz da Lua é reflexo da do Sol, harmonia da Terra não passa de reflexo da harmonia do espaço.

A harmonia é tão indefinível quanto a felicidade, o medo, a cólera: é um sentimento. Não se compreende senão quando se possui, e não se possui senão quando se adquiriu.

O homem que é alegre não pode explicar sua alegria; o que é medroso não pode explicar seu medo. Eles podem relatar os fatos que provocam esses sentimentos, defini-los, descrevê-los, mas os sentimentos ficam sem explicação. O fato que causa a alegria de um, nada produzirá em outro; o objeto que ocasiona o medo em um, produzirá a coragem no outro. As mesmas causas são seguidas de efeitos contrários. Isto não se dá em Física, mas se dá em Metafísica. Isto se dá porque o sentimento é propriedade da alma, e as almas diferem entre si em sensibilidade, em impressionabilidade, em liberdade.

A música, que é a causa secundária da harmonia percebida, penetra e transporta um e deixa o outro frio e indiferente. É que o primeiro está em estado de receber a impressão produzida pela harmonia e o segundo num estado contrário; ele escuta o ar que vibra, mas não compreende a ideia que ele lhe traz. Este chega ao aborrecimento e adormece; aquele ao entusiasmo e chora. Evidentemente, o homem que goza as delícias da harmonia é mais elevado, mais depurado que aquele que ela não pode penetrar; sua alma está mais apta para sentir; ela desprende-se mais facilmente e a harmonia a ajuda a se desprender; ela a transporta e lhe permite ver melhor o mundo moral. Disto deve-se concluir que a música é essencialmente moralizadora, porque leva a harmonia às almas e a harmonia as eleva e as engrandece.

A influência da música sobre a alma, sobre o seu progresso moral, é reconhecida por todo mundo, mas a razão dessa influência geralmente é ignorada. Sua explicação está inteiramente neste fato: A harmonia coloca a alma sob o poder de um sentimento que a desmaterializa. Tal sentimento existe em um certo grau, mas se desenvolve sob a ação de um sentimento similar mais elevado. Aquele que é privado desse sentimento a ele é trazido gradativamente; também ele acaba por se deixar penetrar e arrastar ao mundo ideal, onde ele esquece, por um instante, os grosseiros prazeres que prefere à divina harmonia.

E agora, se considerarmos que a harmonia emana do conceito do Espírito, deduziremos que se a música exerce uma influência feliz sobre a alma, a alma, que a concebe, também exerce sua influência sobre a música. A alma virtuosa, que tem a paixão do bem, do belo, do grande, e que adquiriu harmonia, produzirá obras-primas capazes de penetrar as almas mais encouraçadas e de comovê-las. Se o compositor é terra a terra, como expressará a virtude que ele desdenha, o belo que ele ignora e o grande que ele não compreende? Suas composições serão o reflexo de seus gostos sensuais, de sua leviandade, de sua despreocupação. Elas serão ora licenciosas, ora obscenas, ora cômicas e ora burlescas; comunicarão aos ouvintes os sentimentos que exprimirem, e os perverterão, em vez de melhorá-los.

O Espiritismo, moralizando os homens, exercerá uma grande influência sobre a música. Produzirá mais compositores virtuosos, que comunicarão suas virtudes, fazendo ouvir suas composições.

As pessoas rirão menos e chorarão mais; a hilaridade abrirá espaço para a emoção; a feiúra dará lugar à beleza e o cômico à grandeza.

Por outro lado, os ouvintes que o Espiritismo tiver preparado para receber facilmente a harmonia sentirão, ouvindo música séria, um verdadeiro encanto. Eles desdenharão a música frívola e licenciosa que se apodera das massas. Quando o grotesco e o obsceno forem substituídos pelo belo e pelo bem, desaparecerão os compositores dessa ordem, porque, sem ouvintes, eles nada ganharão, e é para ganhar que se conspurcam.

Oh! sim, o Espiritismo terá influência sobre a música! Como não seria assim? Seu advento mudará a Arte, depurando-a. Sua fonte é divina, sua força o conduzirá por toda parte onde houver homens para amar, para se elevar e para compreender. Ele tornar-se-á o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas lhe pedirão suas inspirações, e ele lhas fornecerá, porque ele é rico, porque ele é inesgotável.

O Espírito do maestro Rossini, em nova existência, virá continuar a arte que ele considera como o primeiro estágio de todas. O Espiritismo será o seu símbolo e o inspirador de suas composições.


Rossini



Paris, grupo Desliens, 5 de janeiro de 1869 – Médium: Sr. Desliens