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terça-feira, 30 de abril de 2024

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 31 - Os maiores inimigos



Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 31


Os maiores inimigos


Certa feita, Simão Pedro perguntou a Jesus:

— Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.

Iam os dois de caminho, entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.

O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.

Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:

— A experiência tudo revela no momento preciso.

— Oh! — exclamou Simão, impaciente — a experiência demora muitíssimo…

O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:

— Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.

Pedro calou-se, desencantado.

Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.

Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:

— Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.

Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.

Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.

O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:

— Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?

A resposta veio clara e breve:

— Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

— Terás observado a regra sublime, neste conflito? — continuou o Cristo, serenamente — recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.

Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.

O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.

Terminando, o Cristo indagou-lhe:

— Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?

— Até setenta vezes sete — replicou o apóstolo, humilde.

O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:

— A dureza é um carrasco da alma.

Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.

Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:

— Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.

Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:

— Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?

E, ante o companheiro desapontado, concluiu:

— A vaidade é um verdugo sutil.

Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das ideias novas.

À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesareia, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.

Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.

O esclarecimento veio depressa:

— Nunca.

O Cristo sorriu e observou:

— Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.

Em seguida, acrescentou:

— Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.

O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.

O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:

— Pedro, há precisamente uma hora procuravas situar o domicílio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência… Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.

E, sorrindo, finalizou:

— Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.


Humberto de Campos
(Irmão X)















quinta-feira, 7 de março de 2024

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 45 - A Escritura do Evangelho



Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 45


A Escritura do Evangelho


Quando Jesus recomendou a pregação da Boa Nova, em diversos rumos, reuniu-se o pequeno colégio apostólico, em torno d’Ele, na humilde residência de Pedro, onde choveram as perguntas no inquérito afetuoso.

— Mestre — disse Filipe, ponderado —, se os maus nos impedirem os passos, que faremos? caber-nos-á recurso à autoridade punitiva?

— Nossa missão — replicou Jesus, pensativo — destina-se a converter maldade em bondade, sombra em luz. Ainda que semelhante transformação nos custe sacrifício e tempo, o programa não pode ser outro.

— Mas… — obtemperou Tomé — e se formos atacados por criminosos?

— Mesmo assim — confirmou o Cristo —, nosso ministério é de redenção, perdoando e amando sempre. Persistindo no bem, atingiremos a vitória final.

— Senhor — objetou Tiago, filho de Alfeu —, se interpelados pelos fariseus, amantes da Lei, que diretrizes tomaremos? São eles depositários de sagrados textos, com que justificam habilmente a orgulhosa conduta que adotam. São arguciosos e discutidores. Dizem-se herdeiros dos Profetas. Como agir, se o Novo Reino determina a fraternidade, isenta da tirania?

— Ainda aí — explicou o Messias Nazareno —, cabe-nos testemunhar as ideias novas. Consagraremos a Lei de Moisés com o nosso respeito. Contudo, renovar-lhe-emos o sentido sublime, tal qual a semente que se desdobra em frutos abençoados. A justiça constituirá a raiz de nosso trabalho terrestre. Todavia, só o espírito de sacrifício garantir-nos-á a colheita.

Verificando-se ligeira pausa, Tadeu, que se impressionara vivamente com a resposta, acrescentou:

— E se os casuístas nos confundirem?

— Rogaremos a inspiração divina para a nossa expressão humana.

— Mas, que sucederá se o nosso entendimento permanecer obscuro, a ponto de não conseguirmos registrar o socorro do Alto? — insistiu o apóstolo.

Esclareceu Jesus, sorridente:

— Será então necessário purificar o vaso do coração, esperando a claridade de cima.

Nesse ponto, André interferiu, perguntando:

— Mestre, em nossa pregação, chamaremos indistintamente as criaturas?

— Ajudaremos a todos, sem exigências — respondeu o Salvador, com significativa inflexão na voz.

— Senhor — interrogou Simão, precavido —, temos boa vontade, mas somos também fracos pecadores. E se cairmos na estrada? e se, muitas vezes, ouvirmos as sugestões do mal, despertando, depois, nas teias do remorso?

— Pedro — retrucou o Divino Amigo —, levantar e prosseguir é o remédio.

— No entanto — teimou o pescador —, e se a nossa queda for tão desastrosa que impossibilite o reerguimento imediato?

— Rearticularemos os braços desconjuntados, remendaremos o coração em frangalhos e louvaremos o Pai pelas proveitosas lições que houvermos recolhido, seguindo adiante…

— E se os demônios nos atacarem? — interrogou João, de olhos límpidos.

— Atraí-los-emos à glória do trabalho pacífico.

— Se nos odiarem e perseguirem? — comentou Tiago, filho de Zebedeu.

— Serão amparados por nós, no asilo do amor e da oração.

— E se esses inimigos poderosos e inteligentes nos destruírem? — inquiriu o filho de Kerioth.

— O Espírito é imortal — elucidou Jesus, calmamente — e a justiça enraíza-se em toda parte.

Foi então que Levi, homem prático e habituado à estatística, observou, prudente:

— Senhor, o fariseu lê o Torá, baseando-se nas suas instruções; o saduceu possui rolos preciosos a que recorre na propaganda dos princípios que abraça; o gentio, sustentando as suas escolas, conta com milhares de pergaminhos, arquivando pensamentos e convicções dos filósofos gregos e persas, egípcios e romanos… E nós? a que documentos recorreremos? que material mobilizaremos para ensinar em nome do Pai Sábio e Misericordioso?!

O Mestre meditou longamente e falou:

— Usaremos a palavra, quando for necessário, sabendo porém que o verbo degradado estabelece o domínio das perturbações e das trevas. Valer-nos-emos dos caracteres escritos na extensão do Reino do Céu. No entanto, não ignoraremos que as praças do mundo exibem numerosos escribas de túnicas compridas, cujo pensamento escuro fortalece o império da incompreensão e da sombra. Utilizaremos, pois, todos os recursos humanos, no apostolado, entendendo, contudo, que o material precioso de exposição da Boa Nova reside em nós mesmos. O próximo consultará a mensagem do Pai em nossa própria vida, através de nossos atos e palavras, resoluções e atitudes…

Pousando a destra no peito, acentuou:

— A escritura divina do Evangelho é o próprio coração do discípulo.

Os doze companheiros entreolharam-se, admirados, e o silêncio caiu entre eles, enquanto as águas cristalinas, não longe, refletiam o céu imensamente azul, cortado de brisas vespertinas que anunciavam as primeiras visões da noite…


Humberto de Campos
(Irmão X)












domingo, 11 de dezembro de 2022

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 15 - O candidato apressado



Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 15


O candidato apressado


Quando Tiago, filho de Zebedeu, seguia o Mestre, a pequena distância, junto às margens do Jordão, eis que se aproxima jovem e piedoso senhor de terras, interessado em aderir ao Reino do Céu.

Resoluto, avançou para o apóstolo e indagou:

— Em verdade, o Messias é portador de uma Boa Nova?

O seguidor do Nazareno, mostrando imensa alegria no olhar cândido e lúcido, informou, feliz:

— Sim, é o mensageiro da Vida Eterna. Teremos, com Ele, o mundo renovado: nem opressores, nem vítimas, e, sim, irmãos, filhos do mesmo Pai…

— A que lema ele obedece? — inquiriu o rapaz, dono de extensa propriedade.

— O amor a Deus, acima de tudo, e ao próximo como a nós mesmos — respondeu Tiago, sem titubear.

— E a norma de trabalho?

— Bondade para com todos os seres, inclusive os próprios inimigos.

— O programa?

— Cooperação com o Pai Supremo, sob todos os aspectos, em favor do mundo regenerado.

— O objetivo?

— Felicidade para todas as criaturas.

— Que diretrizes estatui para os momentos difíceis?

— Perdão extenso e sincero, esquecimento do mal, auxílio mútuo, fraternidade legítima, oração pelos adversários e perseguidores, serviço desinteressado e ação altruística sem recompensa, com absoluta perseverança no bem, até ao fim da luta.

— Espera vencer sem exército e sem armas?

— O Mestre confia no concurso dos homens de boa vontade, na salvação da Terra.

— E, mesmo assim, admite a vitória final?

— Sem dúvida. Nossa batalha é a da luz contra a sombra; dispensa a competição sangrenta.

— Que pede o condutor do movimento, além das qualidades nobres mais comuns?

— Extrema fidelidade a Deus, num coração valoroso e fraterno, disposto a servir na Terra em nome do Céu.

O moço rico exibiu estranho fulgor nos olhos móveis e perguntou, após ligeira pausa:

— Acredita possível meu ingresso no círculo do Profeta?

— Como não? — exclamou Tiago, doce e ingênuo.

E o rapaz passou a monologar, evidenciando sublime idealismo:

— Desde muitos anos, sonho com a renovação. Nossos costumes sofrem decadência. As vozes da Lei parecem mortas nos escritos sagrados. Fenece o povo escolhido, como a erva improdutiva que a Natureza amaldiçoa. O romano orgulhoso domina em toda parte. O mundo é uma fornalha ardente, em que os legionários consomem os escravos. Enquanto isto, Israel dorme, imprevidente, olvidando a missão que Jeová lhe confiou…

Tiago assinalava-lhe os argumentos, deslumbrado. Nunca vira entusiasmo tão vibrante em homem tão jovem.

— O Messias nazareno — prosseguiu o rapaz, em tom beatífico — é o embaixador da verdade. É indispensável segui-lo na santificação. O Templo de Jerusalém é a casa bendita de nossa fé; entretanto, o luxo desbordante do culto externo, regado a sangue de touros e cabritos, obriga-nos a pensar em castigo próximo. Cerremos fileiras com o Restaurador. Nossos antepassados aguardavam-No. Aproximemo-nos d’Ele, a fim de executar-lhe os planos celestiais.

Demorando agora o olhar na radiante fisionomia do filho de Zebedeu, acrescentou:

— Não posso viver noutro clima… Procurarei o Messias e trabalharei na edificação da nova Terra!…

Desvencilhou-se do cabaz de uvas amadurecidas que sustinha na mão direita e gritou:

— Não perderei mais tempo!…

Afastou-se, lépido, sem que o discípulo do Cristo lhe pudesse acompanhar as passadas largas.

Marcos, o evangelista, descreve-nos o episódio, no capítulo dez, encontrando-se a narrativa nos versículos dezessete a vinte e dois.

Pôs-se o rapaz a caminho e chegou, correndo, ao lado de Jesus. Arfava, cansado. Pretendia imediata admissão no Reino do Céu e, ajoelhando-se, exclamou para o Cristo:

— Bom Mestre, que farei para herdar a Vida Eterna? O Divino Amigo contemplou-o, sem surpresa, e interrogou:

— Por que me chamas bom? ninguém é bom, senão um, que é Deus.

Diante da insistência do candidato, indagou o Senhor quanto aos propósitos que o moviam, esclarecendo o rapaz que, desde a meninice, guardara os mandamentos da Lei. Jamais adulterara, nunca matara, nunca furtara e honrava pai e mãe em todos os dias da vida.

Terminando o ligeiro relatório, o jovem inquiriu, aflito:

— Posso incorporar-me, Senhor, ao Reino de Deus? O Mestre, porém, sorriu, e explicou:

— Uma coisa te falta. Vai, dispõe de tudo o que te prende aos interesses da vida material, dando o que te pertence aos necessitados e aos pobres. Terás, assim, um tesouro no Céu. Feito isto, vem e segue-me.

Foi, então, que o admirável idealista exibiu intraduzível mudança. Num momento, esqueceu o domínio romano, a impenitência dos israelitas, o sonho de redenção do Templo, a Boa Nova e o mundo renovado. Extrema palidez cobriu-lhe o rosto, e ele, que chegara correndo, retirou-se, em definitivo, passo a passo, muito triste…


Humberto de Campos
Irmão X










domingo, 25 de setembro de 2022

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 45 - A Escritura do Evangelho



Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 45


A Escritura do Evangelho


Quando Jesus recomendou a pregação da Boa Nova, em diversos rumos, reuniu-se o pequeno colégio apostólico, em torno d’Ele, na humilde residência de Pedro, onde choveram as perguntas no inquérito afetuoso.

— Mestre — disse Filipe, ponderado —, se os maus nos impedirem os passos, que faremos? caber-nos-á recurso à autoridade punitiva?

— Nossa missão — replicou Jesus, pensativo — destina-se a converter maldade em bondade, sombra em luz. Ainda que semelhante transformação nos custe sacrifício e tempo, o programa não pode ser outro.

— Mas… — obtemperou Tomé — e se formos atacados por criminosos?

— Mesmo assim — confirmou o Cristo —, nosso ministério é de redenção, perdoando e amando sempre. Persistindo no bem, atingiremos a vitória final.

— Senhor — objetou Tiago, filho de Alfeu —, se interpelados pelos fariseus, amantes da Lei, que diretrizes tomaremos? São eles depositários de sagrados textos, com que justificam habilmente a orgulhosa conduta que adotam. São arguciosos e discutidores. Dizem-se herdeiros dos Profetas. Como agir, se o Novo Reino determina a fraternidade, isenta da tirania?

— Ainda aí — explicou o Messias Nazareno —, cabe-nos testemunhar as ideias novas. Consagraremos a Lei de Moisés com o nosso respeito. Contudo, renovar-lhe-emos o sentido sublime, tal qual a semente que se desdobra em frutos abençoados. A justiça constituirá a raiz de nosso trabalho terrestre. Todavia, só o espírito de sacrifício garantir-nos-á a colheita.

Verificando-se ligeira pausa, Tadeu, que se impressionara vivamente com a resposta, acrescentou:

— E se os casuístas nos confundirem?

— Rogaremos a inspiração divina para a nossa expressão humana.

— Mas, que sucederá se o nosso entendimento permanecer obscuro, a ponto de não conseguirmos registrar o socorro do Alto? — insistiu o apóstolo.

Esclareceu Jesus, sorridente:

— Será então necessário purificar o vaso do coração, esperando a claridade de cima.

Nesse ponto, André interferiu, perguntando:

— Mestre, em nossa pregação, chamaremos indistintamente as criaturas?

— Ajudaremos a todos, sem exigências — respondeu o Salvador, com significativa inflexão na voz.

— Senhor — interrogou Simão, precavido —, temos boa vontade, mas somos também fracos pecadores. E se cairmos na estrada? e se, muitas vezes, ouvirmos as sugestões do mal, despertando, depois, nas teias do remorso?

— Pedro — retrucou o Divino Amigo —, levantar e prosseguir é o remédio.

— No entanto — teimou o pescador —, e se a nossa queda for tão desastrosa que impossibilite o reerguimento imediato?

— Rearticularemos os braços desconjuntados, remendaremos o coração em frangalhos e louvaremos o Pai pelas proveitosas lições que houvermos recolhido, seguindo adiante…

— E se os demônios nos atacarem? — interrogou João, de olhos límpidos.

— Atraí-los-emos à glória do trabalho pacífico.

— Se nos odiarem e perseguirem? — comentou Tiago, filho de Zebedeu.

— Serão amparados por nós, no asilo do amor e da oração.

— E se esses inimigos poderosos e inteligentes nos destruírem? — inquiriu o filho de Kerioth.

— O Espírito é imortal — elucidou Jesus, calmamente — e a justiça enraíza-se em toda parte.

Foi então que Levi, homem prático e habituado à estatística, observou, prudente:

— Senhor, o fariseu lê o Torá, baseando-se nas suas instruções; o saduceu possui rolos preciosos a que recorre na propaganda dos princípios que abraça; o gentio, sustentando as suas escolas, conta com milhares de pergaminhos, arquivando pensamentos e convicções dos filósofos gregos e persas, egípcios e romanos… E nós? a que documentos recorreremos? que material mobilizaremos para ensinar em nome do Pai Sábio e Misericordioso?!

O Mestre meditou longamente e falou:

— Usaremos a palavra, quando for necessário, sabendo porém que o verbo degradado estabelece o domínio das perturbações e das trevas. Valer-nos-emos dos caracteres escritos na extensão do Reino do Céu. No entanto, não ignoraremos que as praças do mundo exibem numerosos escribas de túnicas compridas, cujo pensamento escuro fortalece o império da incompreensão e da sombra. Utilizaremos, pois, todos os recursos humanos, no apostolado, entendendo, contudo, que o material precioso de exposição da Boa Nova reside em nós mesmos. O próximo consultará a mensagem do Pai em nossa própria vida, através de nossos atos e palavras, resoluções e atitudes…

Pousando a destra no peito, acentuou:

— A escritura divina do Evangelho é o próprio coração do discípulo.

Os doze companheiros entreolharam-se, admirados, e o silêncio caiu entre eles, enquanto as águas cristalinas, não longe, refletiam o céu imensamente azul, cortado de brisas vespertinas que anunciavam as primeiras visões da noite…


Humberto de Campos
(Irmão X)












terça-feira, 16 de março de 2021

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 31 - Os maiores inimigos




Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 31


Os maiores inimigos


Certa feita, Simão Pedro perguntou a Jesus:

— Senhor, como saberei onde vivem nossos maiores inimigos? Quero combatê-los, a fim de trabalhar com eficiência pelo Reino de Deus.

Iam os dois de caminho, entre Cafarnaum e Magdala, ao sol rutilante de perfumada manhã.

O Mestre ouviu e mergulhou-se em longa meditação.

Insistindo, porém, o discípulo, ele respondeu benevolamente:

— A experiência tudo revela no momento preciso.

— Oh! — exclamou Simão, impaciente — a experiência demora muitíssimo…

O Amigo Divino esclareceu, imperturbável:

— Para os que possuem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir”, uma hora, às vezes, basta ao aprendizado de inesquecíveis lições.

Pedro calou-se, desencantado.

Antes que pudesse retornar às interrogações, notou que alguém se esgueirava por trás de velhas figueiras, erguidas à margem. O apóstolo empalideceu e obrigou o Mestre a interromper a marcha, declarando que o desconhecido era um fariseu que procurava assassiná-lo. Com palavras ásperas desafiou o viajante anônimo a afastar-se, ameaçando-o, sob forte irritação. E quando tentava agarrá-lo, à viva força, diamantina risada se fez ouvir. A suposição era injusta. Ao invés de um fariseu, foi André, o próprio irmão dele, quem surgiu sorridente, associando-se à pequena caravana.

Jesus endereçou expressivo gesto a Simão e obtemperou:

— Pedro, nunca te esqueças de que o medo é um adversário terrível.

Recomposto o grupo, não haviam avançado muito, quando avistaram um levita que recitava passagens da Tora e lhes dirigiu a palavra, menos respeitoso.

Simão inchou-se de cólera. Reagiu e discutiu, longe das noções de tolerância fraterna, até que o interlocutor fugiu, amedrontado.

O Mestre, até então silencioso, fixou no aprendiz os olhos muito lúcidos e inquiriu:

— Pedro, qual é a primeira obrigação do homem que se candidata ao Reino Celeste?

A resposta veio clara e breve:

— Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

— Terás observado a regra sublime, neste conflito? — continuou o Cristo, serenamente — recorda que, antes de tudo, é indispensável nosso auxílio ao que ignora o verdadeiro bem e não olvides que a cólera é um perseguidor cruel.

Mais alguns passos e encontraram Teofrasto, judeu grego dado à venda de perfumes, que informou sobre certo Zeconias, leproso curado pelo profeta nazareno e que fugira para Jerusalém, onde acusava o Messias com falsas alegações.

O pescador não se conteve. Gritou que Zeconias era um ingrato, relacionou os benefícios que Jesus lhe prestara e internou-se em longos e amargosos comentários, amaldiçoando-lhe o nome.

Terminando, o Cristo indagou-lhe:

— Pedro, quantas vezes perdoarás a teu irmão?

— Até setenta vezes sete — replicou o apóstolo, humilde.

O Amigo Celeste contemplou-o, calmo, e rematou:

— A dureza é um carrasco da alma.

Não atravessaram grande distância e cruzaram com Rufo Grácus, velho romano semiparalítico, que lhes sorriu, desdenhoso, do alto da liteira sustentada pelos escravos fortes.

Marcando-lhe o gesto sarcástico, Simão falou sem rebuços:

— Desejaria curar aquele pecador impenitente, a fim de dobrar-lhe o coração para Deus.

Jesus, porém, afagou-lhe o ombro e ajuntou:

— Por que instituiríamos a violência no mundo, se o próprio Pai nunca se impôs a ninguém?

E, ante o companheiro desapontado, concluiu:

— A vaidade é um verdugo sutil.

Daí a minutos, para repasto ligeiro, chegavam à hospedaria modesta de Aminadab, um seguidor das ideias novas.

À mesa, um certo Zadias, liberto de Cesareia, se pôs a comentar os acontecimentos políticos da época. Indicou os erros e desmandos da Corte Imperial, ao que Simão correspondeu, colaborando na poda verbalística. Dignitários e filósofos, administradores e artistas de além-mar sofreram apontamentos ferinos. Tibério foi invocado com impiedosas recriminações.

Finda a animada palestra, Jesus perguntou ao discípulo se acaso estivera alguma vez em Roma.

O esclarecimento veio depressa:

— Nunca.

O Cristo sorriu e observou:

— Falaste com tamanha desenvoltura sobre o Imperador que me pareceu estar diante de alguém que com ele houvesse privado intimamente.

Em seguida, acrescentou:

— Estejamos convictos de que a maledicência é algoz terrível.

O pescador de Cafarnaum silenciou, desconcertado.

O Mestre contemplou a paisagem exterior, fitando a posição do astro do dia, como a consultar o tempo, e, voltando-se para o companheiro invigilante, acentuou, bondoso:

— Pedro, há precisamente uma hora procuravas situar o domicílio de nossos maiores adversários. De então para cá, cinco apareceram, entre nós: o medo, a cólera, a dureza, a vaidade e a maledicência… Como reconheces, nossos piores inimigos moram em nosso próprio coração.

E, sorrindo, finalizou:

— Dentro de nós mesmos, será travada a guerra maior.


Irmão X
(Humberto de Campos)






quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 36 - Nas hesitações de Pedro



Humberto de Campos - Livro Luz Acima - Chico Xavier - Cap. 36


Nas hesitações de Pedro


Logo depois de se estabelecerem os apóstolos em Jerusalém, em seguida às revelações do Pentecostes, ia o serviço de assistência social maravilhosamente organizado, não obstante as perseguições que se esboçavam, quando a casa acolhedora, dirigida por Simão Pedro, foi procurada por infeliz mulher. Trazia consigo todos os estigmas das pecadoras. Fora lapidada e exibia manchas sanguinolentas na roupa em frangalhos. Pronunciava palavras torpes. Revelava-se semilouca e doente.

As senhoras do reduto cristão retraíram-se, alarmadas. E o próprio Pedro, que recebera preciosas lições do Senhor, vacilou quanto à atitude que lhe seria adequada.

Como haver-se nas circunstâncias? Destinava-se aquele abrigo ao recolhimento de criaturas desventuradas; entretanto, como classificar a triste posição daquela mulher que, naturalmente, buscara o vaso da angústia nos excessivos gozos da vida? Não estaria a sofredora resgatando os próprios débitos? Se bebera com loucura na taça dos prazeres, não lhe caberia o fel da aflição?

Dispunha-se a rogar-lhe que se afastasse do asilo, quando recordou a necessidade de orar. Se o caso era omisso nas disposições que regiam o instituto fraterno, tornava-se imperioso consultar a inspiração do Messias.

O Mestre lhe ditaria o recurso. Buscar-lhe-ia, por isso, o conselho na prece ardente.

Enquanto a infortunada aguardava resposta, sob o apupo de pequena multidão que lhe contemplava as feridas, o apóstolo buscou a solidão do santuário doméstico e exorou a proteção do Amigo Divino, que fora crucificado.

Em breves instantes, viu Jesus, nimbado de claridade resplandecente, não longe de suas mãos, que se estenderam suplicantes.

— Mestre — rogou Pedro, atacando diretamente o assunto, como quem sabia da brevidade daqueles momentos inesquecíveis —, temos à entrada uma pecadora, reconhecidamente entregue ao mal! Ajuda-me, inspira-me!… que farei?!…

O Salvador entreabriu os lábios sublimes e falou:

— Pedro, eu não vim curar os sãos…

O discípulo entendeu a referência, mas, ponderando a grave responsabilidade de quem administra, acentuou:

— Senhor, estamos agora sem tua orientação direta e visível. Recebê-la-emos neste lar, para quê? A fim de julgá-la?

Com o mesmo olhar sereno, Jesus replicou:

— Nesse mister permanecem na Terra numerosos juízes.

— Para fazer-lhe sentir a extensão dos erros? — indagou Simão, em lágrimas.

— Não, Pedro — tornou o Mestre —, para dar-lhe conhecimento da penúria em que vive, conta nossa irmã, nas vias públicas, milhares de bocas que amaldiçoam e outras tantas mãos que apedrejam.

— Para conferir-lhe a noção do padecimento em que se mergulhou por si mesma?

— Também não. Em tarefa ingrata como essa, vivem aqueles que a exploram, dando-lhe fome e sede, pranto e aflição…

— Para dizer-lhe das penas que a esperam neste e no “outro mundo”?

— Ainda não. Nesse labor terrível respiram os Espíritos acusadores, que não hesitam na condenação em nome do Pai, olvidando as próprias faltas…

O ex-pescador de Cafarnaum, então, chorou, súplice, porque no íntimo desejava conformar-se com os ditames da justiça, exemplificando, simultaneamente, com o amor que o Cristo lhe havia legado. Arquejava, soluçante, ignorando como prosseguir nas indagações, mas Jesus dele se acercou, iluminado e benevolente… Enxugou-lhe as lágrimas que corriam abundantes e esclareceu:

— Pedro, para ferir e amaldiçoar, sentenciar e punir, a cidade e o campo estão cheios de maus servidores. Nosso ministério ultrapassa a própria justiça. O Evangelho, para ser realizado, reclama o concurso de quem ampara e educa, edifica e salva, consola e renuncia, ama e perdoa… 

Abre acesso à nossa irmã transviada e auxilia-a no reerguimento. Não a precipites em despenhadeiros mais fundos… Arranca-a da morte e traze-a para a vida… Não te esqueças de que somos portadores da Boa Nova da Salvação!…

Logo após, entrou em silêncio, diluindo-se-lhe a figura irradiante na claridade evanescente da hora vespertina.

O apóstolo levantou-se, deu alguns passos, atravessou extensa fileira de irmãos espantados, abriu, de manso, a porta e dirigiu-se à mulher, acolhedor:

— Entre, a casa é sua!

— Quem sois? — interrogou a infeliz, assombrada.

— Eu? — falou Pedro, com os olhos empapuçados de chorar.

E concluiu:

— Sou seu irmão.


Irmão X
(Humberto de Campos)