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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Amélia Rodrigues - Livro Vivendo Com Jesus - Divaldo P. Franco - Cap. 10 - O Grande Restaurador



Amélia Rodrigues - Livro Vivendo Com Jesus - Divaldo P. Franco - Cap. 10


O Grande Restaurador

Mateus 24:25 - João 2:3 - Mateus 11:28

As palavras que Ele pronunciava, emolduravam-se com os atos que Ele realizava. Identificado com Deus, Suas mãos produziam as curas mais diversas, e que nunca haviam acontecido antes.

De todo lugar, portanto, particularmente da Síria, traziam doentes: paralíticos, cegos, surdos, lunáticos, infelizes de todo porte, que chegavam exibindo suas dores mais cruéis e padecimentos sem conforto.

Jesus, tomado de compaixão, atendia-os, ministrando-lhes o bálsamo da misericórdia que escorria pelas mãos e alterava a tecedura orgânica desorganizada, restaurando lhes a saúde.

Era natural que, à medida que libertava os enfermos das suas mazelas, que eles próprios haviam buscado através da insensatez, da perversidade e do crime, mais necessitados O buscassem com avidez e tormentos. Ele, porém, não atendia a todos quantos se Lhe apresentassem procurando a recuperação orgânica, emocional ou mental. A Sua era uma terapia de profundidade, que sempre convocava o paciente a não voltar a pecar, evitando-se novos comprometimentos tormentosos, para que não acontecesse nada pior. Essa, sim, seria a cura real, a de natureza interior, mediante a transformação moral, em razão de se encontrar no imo do ser a causa do seu padecimento.

Conhecendo que todos os seres procedem de outros caminhos, os mais variados, que foram percorridos pelos multifários renascimentos carnais, cada qual imprime nos tecidos delicados do espírito os atos que praticaram, fazendo jus às ocorrências de dor e sombra em que se encontravam, assim como das alegrias e da saúde que os visitavam. A criatura é a semeadora, mas também a ceifeira dos próprios atos, que se insculpem nos refolhos do ser, desenhando as futuras experiências humanas no corpo.

Eis por que nem todos os doentes Lhe recebiam a atenção que esperavam encontrar. Não estavam em condições de ser libertados das aflições que engendraram antes para eles próprios, correndo o risco de logo que se encontrassem menos penalizados, corressem na busca de novas inquietações.

A sabedoria de Jesus é inigualável, porque penetra no âmago dos acontecimentos, de onde retira o conhecimento que faculta entender o que sucede com cada qual que O procura.

Aqueles homens e mulheres alienados, de membros paralisados, sem audição nem claridade ocular, procediam de abismos morais em que se atiraram espontaneamente, desde que luz em toda criatura a noção da Verdade, do dever e se encontram ínsitos os impulsos do amor e da paz. Não obstante, a teimosia rebelde despreza os sinais de perigo e impõe os caprichos da personalidade inquieta, desejando alterar os impositivos das leis universais a seu benefício, em detrimento das demais pessoas, no que resultam os dramas imediatos e futuros que sempre alcançam os infratores.

Jesus não se permitia alterar os soberanos códigos, beneficiando aqueles que se encontravam incursos nos resgates não concluídos, deixando outros ao abandono. A Sua é a justiça ideal, que não privilegia, nem esquece.

Temos a real demonstração no atendimento ao nato-cego. Aquele homem nascera cego e sofria, mas não reclamava. Quando Jesus passou próximo a ele, os amigos interrogaram:

— Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?

Como ele era cego de nascença, não poderia ter pecado na atual existência e igualmente não poderia resgatar dívidas de seus pais, caso fossem pecadores.

Jesus, que lhe penetrara a causalidade da cegueira, redarguiu, sereno:

— Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.

Tratava-se de um voluntário, que se apresentava no ministério de Jesus, a fim de que se pudessem manifestar as obras de Deus, o poder de que se encontrava possuidor o Mestre. E, ato contínuo, curou o homem, utilizando-se de um processo especial, que pudesse impressionar os circunstantes.

A Sua autoridade moral produzia vibrações que afastavam os Espíritos perversos, para os quais o verbo franco e gentil não lograva o êxito que se fazia necessário. Perdidos em si mesmo, conheciam da vida apenas o temor que experimentavam e que infligiam nas suas vítimas. Outros enfermos, no entanto, ao leve contato das Suas mãos recebiam a energia vitalizadora, que restaurava o campo vibratório onde se encontravam as matrizes geradoras das aflições, modificando lhes as estruturas e reabilitando o equilíbrio.

Dessa forma, era facultado ao endividado recuperar-se moralmente pelo Bem que pudesse fazer, pela utilidade de que se tornava portador, auxiliando outras pessoas que dele se acercassem.

A humanidade ainda padece essas conjunturas aflitivas que merece.

Existem muitos seres humanos que andam, porém, são paralíticos para o Bem, encontrando-se mutilados morais, dessa maneira sem interesse por movimentarem a máquina orgânica de que se utilizam para a própria como para a edificação do seu próximo. Caminham, e seus passos os dirigem para as sombras, a que se atiram com entusiasmo e expectativas de prazer, imobilizando-se nas paixões dissolventes que terão de vencer...

Há outros que pensam, mas a alucinação faz parte da sua agenda mental: devaneando no gozo, asfixiando-se nos vapores entorpecentes, longe de qualquer realização enobrecedora. Intoxicados pela ilusão dos sentidos, não conseguem liberar-se das fixações perniciosas que os atraem e os dominam.

(...) E quantos que têm olhos e ouvidos, mas apenas deles se utilizam para os interesses servis a que se entregam raramente direcionando a visão para o Alto e a audição para a mensagem de eterna beleza da vida?

Ainda buscam Jesus nos templos de fé, a que recorrem, uma que outra vez, mantendo a fantasia de merecer privilégios, de desfrutar regalias, sem qualquer compromisso com a realidade ou expectativa ditosa para o amanhã, sem a mórbida inclinação para o vício, para a perversão.

Alguns conseguem encontrá-lo, e se fascinam por breves momentos, logo O abandonando, porque não tiveram a sede de gozo atendida, nem se fizeram capazes de sacrificar a dependência tormentosa a fim de serem livres.

Não são poucos aqueles que se encontram escravizados à infelicidade por simples prazer a que se acostumaram, disputando a alegria de permanecer no pantanal das viciações morais.

Estão na luz do dia e deambulam nas sombras da noite. Possuem razão e discernimento, no entanto, os direcionam exclusivamente para os apetites apimentados do insaciável gozo.

Vivem iludidos e se exibem extravagantes, no palco terrestre, até quando as enfermidades dilaceradoras — de que ninguém se pode evadir —, ou a morte os dominam e consomem. Despertam, mais tarde, desiludidos e sem glórias, sem poder, empobrecidos de valores morais, que nunca os acumularam.

Jesus é, portanto, o grande restaurador, mas cada espírito tem o dever de permitir-se o trabalho de autorrenovação em favor da própria felicidade.

A Sua voz continua ecoando na acústica das almas:

—Vinde a mim, (...), e eu vos aliviarei!

É necessário, porém, ir a Ele... 


Amélia Rodrigues







Mateus 24:25 "Vejam que eu os avisei antecipadamente"

João 2:3 "Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho." 

Mateus 11:28 "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei"




quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Amélia Rodrigues - Livro Primícias do Reino - Divaldo P. Franco - Cap. 7 - O paralítico de Cafarnaum



Amélia Rodrigues - Livro Primícias do Reino - Divaldo P. Franco - Cap. 7


O paralítico de Cafarnaum


A cidadezinha repousava no lado setentrional do lago de Genesaré. Em derredor, os cômoros se estendiam prenhes de olivais verdejantes, vinhedos luxuriantes a se debruçarem sobre terras altas e penhascos nus, com rochas salientes. Os vales eram frescos, cortados por arroios cantantes e cascatinhas alvinitentes.

Suas praias e suas águas piscosas eram disputadas pelos pescadores; as redes demoravam-se abertas ao Sol, sombreando as pedras lapidadas pelo atrito das vagas; e, nas areias, figueiras velhas e tamareiras abriam os braços e leques balouçantes.

Cafarnaum era um poema de ternura com seu casario baixo, esparramado entre árvores frondosas, marchetadas por trepadeiras de miúdas flores coloridas.

Ele amava aquela cidade e a escolhera para o início do seu ministério de amor.

Maio desatava os raios ardentes do Sol e o arvoredo parecia de pedra, sem os meneios ondulatórios que os ventos lhe impõem.

Desde a véspera a notícia correra de boca em boca, atraindo curiosos e sofredores das cercanias.

Embora impusesse silêncio ao leproso que curara, e rogasse à sogra de Simão nada dizer do que lhe acontecera, o silêncio era quase impossível.

Os olhos da necessidade e do sofrimento espiam na penumbra as mais débeis flamas da esperança e atiram os aflitos na sua direção.

Doava o seu amor àquelas populações ribeirinhas com estremecimentos, pois que ali, também, reencontrava o amor nos corações simples e ingênuos das gentes.

Chegara o momento de o Pastor levantar-se para conduzir o rebanho imenso, vencer rudes tratos de terra, ásperos caminhos e transpor abismos.

Era o prelúdio da Mensagem e o início das Suas dores... 

As atividades foram febricitantes e variadas.

As queixas e dores da multidão encheram o ar de miasmas afligentes. Embora o número dos sarados, estes anunciavam, em alegria, a saúde recuperada e novos magotes chegavam em desalinho, a mercadejar as misérias em que se refugiavam.

A face do Rabi, serena, estava sulcada e o ar pesado na sala, sem ventilação, abafava. O tumulto não cessava, e os apelos e imprecações redobravam em todas as bocas... 

De pé, à porta, Simão deixa-se arrastar por indizível felicidade.

Atrás, no quintal do lar, que se alongava até a praia, estava o mar que ele muito amava. A frente, no meio da multidão, Ele estava curando e consolando as aflições da Terra, como Embaixador dos Céus. E intimamente agradecia a Deus por ter sido escolhida a sua casa, ter sido chamado ao Seu rebanho. As horas escoaram-se sem que disso se apercebesse; as emoções eram tantas e de tão difícil explicação, que deixava-se arrastar docilmente entre os jogos de dor e da alegria que presenciava: esgares se transformavam em sorrisos, lágrimas em cânticos, feridas purulentas em tecidos lavados... ante a imposição das Suas mãos, ou a vibração da Sua voz, ou a luz dos Seus olhos... 

Em Israel jamais se presenciara acontecimento parecido. Os Espíritos imundos fugiam, e a dor perdia a voz ante a ordem d’Ele... 

Os olhos de Simão, faiscantes, se encontraram com os olhos d’Ele. Teve, por momentos, a impressão de que Ele lhe pedia auxílio.

A face parecia transparente, e o cansaço se Lhe estampava no rosto suarento e sofrido... 

O rude pescador compreendeu: a multidão era insaciável, a dor não tinha limite; fazia-se mister ajudá-lO, retirando-O dali.

Rompeu a massa e gritou:

— O Mestre está fatigado!

Tomou-O pelo braço, carinhosamente, com ternura e O conduziu à praia.

As estrelas começavam a rutilar no firmamento vencido pelo crepúsculo, que deixava, além das montanhas do outro lado do lago, uma fímbria de ouro iriante.

Lufadas de vento morno chegavam à crista das vagas, e alvas rendas de espumas despedaçavam-se nas praias sequiosas dos beijos das águas.

O Rabi sentou-se sobre as raízes altas de velha árvore, que abria os braços em direção do lago e, em silêncio, perdeu-se em meditação.

Simão, como um amigo fiel, sentou-se ao lado e pôs-se a contemplar-lhe o rosto pálido, exaurido.

Os cabelos de cor âmbar, encaracolados, esvoaçavam em desalinho entre os pentes do vento, e os dois olhos pareciam profundos e misteriosos como o seio das águas a que ele se acostumara desde cedo.

Como era belo o Rabi! -, pensava Simão — possuindo uma beleza como os seus olhos jamais viram igual. Havia n´Ele qualquer coisa que O fazia diferente de todos os homens. Magro e bem constituído, não chegava a ser um atleta, mas não era também franzino, nem tíbio. Era dono de força grandiosa e de majestade invulgar. Simples e bom, era sábio e humilde. Profundo conhecedor das misérias humanas, procurava os oprimidos e sofredores para aliviá-los. Falava pouco e dizia muito, em palavras que todos pronunciavam, mas que ninguém pronunciava como Ele. Havia, no entanto, naquele Homem simples e puro, portador de invulgar beleza de corpo e espírito, tons de profunda melancolia!... 

Simão perdeu-se em meditação também.

Somente a noite falava e acompanhando as vozes da Natureza.

Inesperadamente, como se chegasse de muito longe, Simão voltou a fitá-lO, e só então percebeu. Os olhos grandes e claros do Rabi estavam imersos em lágrimas.

Com o coração desatrelado e em desassossego íntimo que dele se apossou, inquiriu, ansioso:
— Rabi, estás chorando?... 

— ... de felicidade, suponho, em se considerando os eventos felizes deste dia, não é verdade?

A interrogação continuou no ar, na noite murmurante.

A velha árvore sacudia os ramos, e a voz do lago fazia um cantochão especial com ondas arquejantes nas praias imensas.

— Choro, Simão! — respondeu pausadamente. — Choro, sim, de tristeza, compadecido.

— Mas, Mestre, não compreendo. Hoje Te expuseste aos fariseus astutos e solertes, aos escribas ambiciosos e falsos, que vieram espreitar, à malta dos traidores e, à vista de todos, perdoaste pecados e curaste, silenciando-os com sabedoria e elevação... e choras?!

— Sim! Pois que não me compreendeis, tu e eles. Certamente que não espero ser entendido. Tenho, no entanto, piedade deles, os desassisados, e os lamento.

Natanael Ben Elias, numa estalagem da cidade, exultava entre bilhas de vinho capitoso e amigos truculentos.

— Aconteceu-me um prodígio na minha desdita — comentava com alacridade.

— Fala-nos, conta-nos o que te aconteceu, pois que duvidamos do que nos narraram! —, exclamaram diversos a uma só voz.

— Sucedeu-me tão repentinamente — prosseguiu — que me encontro ainda atordoado.

Como todos sabem — enxugou o suor do rosto alterado pela emoção — desde há muito tempo a paralisia e as febres me rondavam o corpo, terminando por imobilizar-me em total prisão, num leito infecto e detestável, impedindo-me qualquer movimento.

Transformaram-me num réprobo repulsivo.

Esquecido, no meu catre, até há pouco, era vítima de extrema miséria física e moral.

Aguardava a morte, que tardava, como uma libertadora.

Ouvi falar d’Ele e chorava por conhecê-lO. Secreta intuição informava-me que Ele poderia curar-me...

Hoje, sabendo-O aqui, em Cafarnaum, pedi a amigos que me conduzissem à Sua presença, e estes, carregando o grabato onde eu expungia minhas amargas penas, levaram-me à casa onde Ele se encontrava. A multidão era tão compacta que não me puderam levar pela porta.

Em derredor o alarido, o desespero e as altercações compunham cenas lamentáveis e dolorosas.

Ante a aflição que se desenhava na minha face descarnada e o desespero que me dominou, um dos amigos alvitrou erguer-me ao terraço e descer-me pelo teto à sala onde Ele estava. E assim o fizeram. Subiram os degraus laterais da vivenda de Simão, o pescador, e arrebentaram os adobes, rasgando nervosamente as esteiras e ramos de palmeiras entre uma e outra trave de segurança, até conseguirem uma abertura suficiente para passar minha enxerga, descendo-me por ela, atado a cordas, até Ele.

A sala apinhada abriu pequeno espaço e, como se Ele me esperasse, fitou-me demoradamente, em silêncio, examinando a minha ruína orgânica. Descerrou os lábios e falou:

— Natanael Ben Elias, crês que Eu te posso curar?

A voz era veludada e forte, meiga, no entanto, firme.

— Sim — respondi-Lhe — creio-o!

Um estremecimento sacudiu-me. Houve um grande silêncio e mesmo o calor pareceu diminuir.

— Senhor! —, exclamei. — Como sabes o meu nome?

Conheces-me?

— Sim, eu te conheço, Natanael, desde ontem. Sou o Bom Pastor, e em razão disso conheço nominalmente todas as ovelhas que o Pai me confiou.

Não compreendi, confesso, o que Ele disse sobre o desde ontem.

Nunca O vira antes, nem jamais me visitara... 

— Teus pecados — exclamou — estão perdoados!

Houve murmurações e uma exaltação de ódio na assistência. Eu próprio me perturbei.

Quantas vezes eu pensara em seguir uma vida limpa e decente se voltasse a movimentar-me, a acionar as pernas, não saberia dizê-lo.

No entanto, àquela hora, eu indagava: seria Ele capaz de perdoar pecados? Não estaria blasfemando? O suor corria-me em bagas pelo corpo sujo e macilento.

Como se Ele ouvisse os pensamentos mais secretos, sem recear, desafiou:

— Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: Perdoados são os teus pecados; ou dizer: Levanta-te e anda?

E voltando-se para mim, distendeu os braços e alongou as mãos; falando-me, imperioso:

— Levanta-te: toma a cama, e vai para a tua casa.

Oscilei como uma cana ao vento, desejei falar algo e não pude.

Ergui a cama, explodi num grito de ventura: Salve, Rabi! E voltei dando hosanas, ante a admiração de quantos me conheciam.

Não compreendo, porém, o que me sucedeu; parece-me um sonho do qual receio acordar.

— Bebamos, em gáudio — gritaram todos em redor — comemorando a tua volta à saúde... e ao prazer. Exibe o corpo para que o vejamos sem marcas, sem feridas e mais o creiamos... 

Música sensual, soluçando entre dedos de mulheres infelizes, arrendadas na Núbia e outras terras para o comércio carnal, a empunharem instrumentos de cordas e adufes, enchendo a sala ampla, que exalava odores exóticos.

Lá fora a noite espiava a Terra pela visão das estrelas.

— Por que dizes que não Te compreendemos, Rabi? Estamos todos tão felizes!

— Simão, neste momento, enquanto consideras o Reino de Deus pelo que viste, Natanael, com alegria infantil, comenta o acontecimento entre amigos embriagados e mulheres infelizes.

Outros que recobraram o ânimo ou recuperaram a voz, entre exclamações de contentamento, precipitam-se nos despenhadeiros da insensatez, acarretando novos desequilíbrios, desta vez, irreversíveis.

Não creias que a Boa-nova traga alegrias superficiais, dessas que o desencanto e o sofrimento facilmente apagam.

O Filho do Homem, por isso mesmo, não é um remendão irresponsável, que sobre tecidos velhos e gastos costura pedaços novos, danificando mais a parte rasgada com um dilaceramento maior. Seria um desastre depositar em vasilhas imundas e velhas o vinho novo e capitoso, que fermentaria com precipitação.

A mensagem do Reino, mais do que uma promessa para o futuro, é uma realidade para o presente. Penetra o íntimo e dignifica, desvelando os painéis da vida em deslumbrantes cores... 

Eu sei, porém, que me não podeis entender, tu e eles, por enquanto. E assim será por algum tempo.

Mais tarde, quando a dor produzir amadurecimento maior nos Espíritos, eu enviarei Alguém em meu nome para dar prosseguimento ao serviço de iluminação de consciências. As sepulturas quebrarão o silêncio em que se guardam e Vozes, em toda parte, clamarão, lecionando esperanças sob os auspícios de mil consolações... 

O Mestre silenciou por um momento.

Os olhos do velho pescador, faiscantes, expressavam as emoções que lhe cantavam no âmago do ser.

O ar leve perpassava entre as folhas do arvoredo, enquanto a preamar predizia uma grande parada na pulsação da Natureza.

— E quando o Consolador chegar — interrogou o discípulo emocionado — os homens o receberão compreensivamente?

— Não, Simão! —, respondeu Jesus. — Não a princípio.

Os métodos eficazes para curar e disciplinar são severos e, por isso mesmo, indesejados. No entanto, esse Enviado ficará indefinidamente ao lado da Humanidade, ajudará sem cansaço e lentamente elaborará a Era da Paz e da Alegria sem jaça.

Removerá velhos óbices, promoverá a reestruturação social à base do amor que, então, invadirá todos os departamentos da vida, inaugurando sentimentos de solidariedade em todos os corações... 

A face do Mestre se transfigurara.

Simão não pôde sopitar as lágrimas que lhe correram espontâneas.

E os séculos correram ágeis através da ampulheta dos tempos.


Espírito Amélia Rodrigues 












sexta-feira, 19 de abril de 2024

Amélia Rodrigues - Livro Trigo de Deus - Divaldo P. Franco - Cap. 1 - Pescadores de Almas



Amélia Rodrigues - Livro Trigo de Deus - Divaldo P. Franco - Cap. 1


Pescadores de Almas

 
Pairavam no ar desconhecidas vibrações de paz e alegria.

Quase inaudível, escutava-se uma sinfonia que chegava de longe, tão suave como nunca se ouvira antes.

Aquela era uma região aprazível e abençoada. O lago, espelho imenso refletindo o céu, emoldurava-se de praias largas, adornadas de árvores vetustas, e da grama verde que parecia escorregar dos aclives cortados por ribeirinhos, nos quais se amontoavam as casas de pedras, que se multiplicavam nos vilarejos, povoados e cidades.

A Galileia, bela e simples, fora o cenário escolhido pelo Cantor, para apresentar a Sua mensagem e embalar o mundo com a Sua voz.

Em Cafarnaum todos se conheciam. Suas praias e ancoradouros sempre regurgitavam de pescadores, de negociantes, de homens da terra.

A profissão tradicional de amantes do mar passava de pais para filhos, de geração em geração.

Homens rudes e generosos, face ao trabalho a que se dedicavam, confraternizavam com vinhateiros, agricultores, as gentes humildes, raramente se envolvendo com as questões discutidas na sinagoga, desinteressados dos problemas das classes abastadas.

A vida pulsava naquelas áreas, no mercado, e os viajantes de outras províncias ali narravam os acontecimentos dos lugares distantes, causando deslumbramento.

As caravanas que venciam o Jordão, no rumo dos países fabulosos, seguiam outros caminhos, e os acontecimentos ali permaneciam inalterados.

A natureza bordara a paisagem com tons escarlates, e as boninas misturavam-se com as papoulas de haste esguia salpicando cores em toda parte.

Os problemas do cotidiano repetiam-se quase monótonos, sem alterarem o ritmo de vida das pessoas.

Por isso mesmo, percebia-se, sem palavras, que algo estava por acontecer.

A notícia chegou aos ouvidos do povo como uma eclosão de alegrias, embora confusamente.

Narrava-se que um homem singular e profeta aparecera e informara ser o Filho de Deus.

Não trazia insígnias, nem se fazia acompanhar de séquito algum deslumbrante.

Surgira inesperadamente e manifestara-se a pessoas diferentes, esclarecendo que viera fundar um reino de amor e de justiça para os deserdados e sofredores.

O mundo sempre esteve repleto de deserdados e sofredores. Marginalizados, em todos os tempos, buscavam consolo e a herança da paz.

Nunca houve quem os quisesse escutar ou socorrer, e, formando multidões, viviam escassamente, na miséria, na sordidez, no abandono...

Alguém interessar-se por eles, era-lhes uma grande surpresa, desconcertante ventura a que não se encontravam acostumados.

A boa nova, portanto, espalhou-se com velocidade, adiantando-se que, no sábado, Ele falaria num monte próximo a Cafarnaum.

Simão, também conhecido como Cefas, era irmão de André, ambos pescadores.

As suas preocupações restringiam-se às necessidades básicas da família, da vida. Sem aspirações maiores, limitavam-se à faina da pesca, à venda dos frutos do mar e aos deveres consequentes de uma existência simples.

Os amigos narraram-lhes as novidades, acrescentando, naturalmente, detalhes da própria imaginação.

As criaturas anelam por salvadores, que lhes solucionem os problemas, ajam no momento dos desafios e atuem por elas. Há uma latente irresponsabilidade, que deseja viver sem o trabalho, sem o sofrimento.

Em razão disso, a esperança de paz sempre se turba com a ambição da ociosidade.

Simão era homem céptico, sem sutilezas de comportamento.

Portador dos conflitos humanos naturais, enrijecera a fibra moral na atividade a que se entregava, desinteressando-se praticamente de tudo mais.

Ouvindo as informações e sentindo o entusiasmo ingênuo dos amigos, experimentou um desconhecido ressentimento do estranho Profeta, que certamente era mais um mistificador que vivia explorando a ignorância das massas.

Recusou-se a ir ouvi-lO.

Algo, porém, remoía-se-lhe intimamente, e uma estranha curiosidade empurrou-o, pela madrugada do sábado, a empreender a marcha na direção do lugar onde Ele iria apresentar-se.

Respirando o ar balsâmico e frio do amanhecer, o pescador viu-se surpreendido pelo número de pessoas silenciosas que seguiam pela estrada real.

Os rostos apresentavam-se expectantes uns, tensos outros; em todos, porém, estavam os sinais da esperança.

Enfermos de vários matizes eram conduzidos: cegos, coxos, paralíticos carregados, obsidiados, dementes, anciãos e outros cujas doenças eram a idade avançada, o desgaste, o abandono irrecuperável...

Um misto de piedade e ira tomou Simão.

Como as pessoas lhe pareciam estúpidas, entregando-se a qualquer aventureiro que surgisse — pensava, contrariado.

Quando atingiu o acume do cerro, a multidão era densa.

Dali podia-se ver o mar querido, refletindo o fogo do dia nascente.

Procurou ouvir alguns comentários. Todos falavam sobre as próprias necessidades e expectativas de receberem ajuda, solução para os problemas.

Naturalmente, acercou-se das primeiras filas, que renteavam uma larga pedra, qual se fora um palco natural no imenso cenário da natureza.

À medida que o Sol bordava de luz a terra, o vozerio aumentava e as queixas misturavam-se nas bocas dos sofredores.

Subitamente Ele apareceu. Esguio e belo, o rosto magro e queimado adornava-se de barba e cabelos à nazarena, onde brilhavam olhos transparentes como duas estrelas engastadas. A túnica descia-lhe até os pés, tecida na roca, em tom carregado de mármore...

Majestático, a Sua figura impôs silêncio sem dizer nada.

Uma exclamação de júbilo escapou dos lábios da multidão ao vê-lo.

Após os momentos de expectativa, Ele falou:

— A hora é esta, para a grande revolução pelo Reino de Deus.

Enquanto no mundo, a criatura somente experimenta aflições, porque tudo a quanto se aferra é efêmero. São passageiros os prazeres, o poder, a fortuna, a saúde, o próprio corpo... Essa ilusão de gozo é a geradora dos sofrimentos, em razão da transitoriedade dele e de como passam todas as coisas, por mais sejam aguardadas. Quando chegam e começam a ser fruídas, já se encontram em deperecimento, de passagem, deixando memórias, frustrações, ansiedades novas, amarguras...

O homem, prudente e sábio, que pensa no amanhã, reserva-se bens duradouros, que lhe favorecem tranquilidade e repouso. Esses bens imorredouros são as ações de amor, que proporcionam paz, o esforço para domar as paixões inferiores, que oferece a felicidade.

Fez um silêncio oportuno, a fim de facultar entendimento, reflexão, aos ouvintes.

Logo mais, prosseguiu:

— Eu vos convido a virdes comigo, para a fundação da Nova Era, que se instalará nos corações, modificando as estruturas atuais e instaurando o primado do amor...

Quando ia prosseguir, uma mulher, que trazia nos braços uma criança cega, rogou:

— Senhor, cura minha filha, e eu Te seguirei.

Os olhos da multidão n'Ele cravados, voltaram-se na direção daquela que se atrevera a interrompê-10.

Por encontrar-se atrás de Simão, e porque, trêmula, chorava, o pescador tomou-lhe a menina nos braços e avançou até a primeira fila.

Jesus acercou-se e mergulhou, nos olhos de Simão, o seu doce olhar, sem uma palavra. No entanto, emocionado, ele pareceu escutar no íntimo, a Sua voz, que dizia : Eu te conheço Simão, desde ontem...

Acompanhou-lhe a mão, cujos dedos tocaram os olhos mortos da criança, e ouviu-0 falar: Vê, filha, em nome de meu Pai.

A criança começou a chorar e gritar: Eu vejo, eu enxergo!

A mãe avançou e arrebatou-a, estuante.

Quando Ele desceu o braço, a manga da túnica rociou o tórax de Simão, que estremeceu, mergulhado na luz dos Seus olhos, e ali ficou, paralisado, havendo perdido o contato com o mundo sensorial.

Ao retornar, à realidade, sob a ardência do dia, estava a sós; todos se haviam ido; a hora avançava.

Simão, profundamente comovido, desceu a Cafamaum.

Já não era o mesmo. Nunca mais voltaria a ser o que fora. O que se passou nele, modificou-lhe a vida para todo o sempre, a partir daquele momento.

Interrogando-se, desejava saber de onde e desde quando O conhecia e O amava...

Na acústica da alma, ressoava-lhe a voz, confirmando, desde ontem...

André, os amigos notaram-lhe a modificação e a súbita tristeza que lhe refletia no rosto.

O encontro com a verdade liberta e algema o ser. Desencarcera-o do mundo, e aprisiona-o à Vida. 

Produz júbilo e traz melancolia. É pão que alimenta, mas, nutre somente a pouco e pouco até satisfazer plenamente.

Simão fez-se taciturno, como quem aguarda, embora permanecesse gentil e cumpridor dos deveres.

Foi nesse estado de espírito que, em formosa manhã, enquanto organizava as redes com o irmão, foi surpreendido pela presença do Amigo, que se lhes acercou e, com uma voz inesquecível, convidou-os:

— Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens. (Mateus 4:19 -Nota da Autora espiritual) Sem nenhuma contestação, eles abandonaram as redes e, embevecidos, dominados pela Sua presença, O seguiram.

Amo que chama os servos, senhor que conduz escravos, Ele os tomou e fez de suas vidas um poema de felicidade, com eles escrevendo a mais comovedora história do mundo, enquanto lançava as fundações do Reino de Deus nos corações.

Pescadores de almas, Ele os fez!


Amélia Rodrigues












terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Amélia Rodrigues - Livro Trigo de Deus - Divaldo P. Franco - Cap. 17 - Da oração dominical



Amélia Rodrigues - Livro Trigo de Deus - Divaldo P. Franco - Cap. 17


Da oração dominical (1)


Demoravam-se na paisagem tranquila os revérberos do entardecer, matizando com tons rosas, rubros e amarelos as nuvens passantes.

A brisa balouçava o leque verde das tamareiras exuberantes, carregadas de frutos.

Pairavam no ar, impregnando os corações, as ânsias e emoções dos acontecimentos que há pouco presenciaram.

O Mestre agigantava-se aos olhos da multidão.

O Seu estoicismo, revelado na conduta austera, exteriorizava-se na palavra ora dúlcida, ora enérgica, e nas ações enobrecidas com que favorecia aqueles que O buscavam.

Jamais alguém conseguira realizar tão admiráveis fenômenos de que somente Ele se fazia agente sublime.

A inveja rastreava-Lhe os passos, e as disputas vulgares entreteciam duelos emocionais entre os frívolos que Lhe buscavam a afeição.

O certo é que Ele viera para libertar as consciências e insculpir vidas nos painéis do amor.

Desse modo, as multidões sucediam-se-Lhe à volta, sedentas, emocionadas, confiantes.

Ele era portador das bênçãos de que todos necessitavam.

Na sua simplicidade afável, Ele penetrava os recônditos do ser, sem exibir-lhes as exulcerações.

Os Seus silêncios eram tão eloquentes quanto as Suas palavras, deixando impressas nas almas as marcas de luz da libertação.

A Sua voz, há pouco, terminara de envolver os homens nas esperanças e consolações do soberano código das Bem-aventuranças. (2) 

O odor de santidade e o vigor da sabedoria decorrentes da Carta Magna ainda inebriavam os ouvintes, quando os Seus discípulos d'Ele se acercaram, e um deles, comovido, interessado em compreendê-lO, interrogou:

— Senhor, por que orais tanto? Sempre quando terminadas as tarefas, por que buscais o silêncio e penetrais na oração?

Havia sadia curiosidade no questionamento do discípulo devotado.

Relanceando o olhar em torno e aplaudido pela musicalidade da Natureza em festa, Ele respondeu:

— A alma tem necessidade da oração, em maior dosagem do que o corpo de pão. 

"Orar é buscar Deus, penetrando-Lhe nas mercês e haurindo resistência nos Seus recursos divinos. 

"O silêncio propicia a busca; a solidão renova as energias e a comunhão com a Fonte Geradora de Vida faculta o prosseguimento dos compromissos abraçados."

— Mesmo vós — reinquiriu o amigo — que sois o Caminho para o Pai e o Seu Messias para a Humanidade, tendes necessidade de orar?

— A chama que ilumina — elucidou, paciente — gasta o combustível que a sustenta, e a chuva que irriga o solo retorna à nuvem de onde provém. "O intercâmbio de forças com o Pai Criador restaura-as na criatura, e eu próprio n'Ele encontro o reforço de sustentação para o messianato de amor em Seu nome. " Absorvido pelos ensinamentos elevados, João, que mais O amava, enternecido, inquiriu:

— E todos temos necessidade e dever de orar?

O Mestre benevolente envolveu o jovem em um luminoso olhar de bondade e elucidou:

— O homem. que ora eleva-se no rumo da Grande Luz e nimba-se de claridade radiosa.

Desejando que o ensinamento jamais fosse esquecido, o Mestre expôs:

— O Pai Celeste pode ser comparado a um rei poderoso que administra os seus domínios, mediante a cooperação de abnegados Ministros, que a seu turno se equipam de secretários, auxiliares e inumeráveis cooperadores abnegados. 

"Cada um deles rege um departamento específico, a fim de coordenar atividades e atender-lhes o impositivo. 

"À semelhança de todo reino, a variedade de deveres exige responsáveis para a sua execução. 

"O Ministério da oração é um dos mais delicados setores, exigindo hábeis servidores que se encarregam de registrar as solicitações em preces, selecioná-las e cuidar do seu atendimento conforme a procedência de cada emissão de onda mental. 

"Em razão disso, a oração deve ser uma vibração sincera, carregada de emoção, ao invés de expressivo palavreado sem a participação dos sentimentos honestos de elevação. 

"A oração é um apelo que, no entanto, deve alcançar mais ampla expressão, tornando-se, num momento, um hino de louvor; vezes outras, constituindo-se uma rogativa de auxílio e, por fim, um cântico de gratidão. 

"Examinados o mérito e as necessidades daquele que ora, são-lhe encaminhadas as respostas compatíveis com a sua realidade, tendo-se em vista sempre o seu progresso e crescimento diante da Vida. 

"Esse intercâmbio mental carreia vitalidade e restabelece os centros de energia da criatura que ora. "Claro está que este é um compromisso de cada indivíduo quite com os deveres sociais e comunitários, a fim de merecer usufruir os benefícios que a cidadania lhe confere. " 

Silenciando e permitindo que todos auscultassem as vozes inarticuladas da Natureza, aguardou que os companheiros assimilassem o ensinamento profundo, embora a linguagem simples de que se revestia.

Foi nesse comenos que um deles, profundamente sensibilizado, rogou:

— Senhor, ensina-nos, então, a orar.

E Ele abrindo a Sua boca e desatando as melodias latentes no coração, propôs-lhes a oração dominical, dizendo:

— Pai Nosso que estás nos céus...

A dúlcida palavra vestindo de sons o pensamento sublime, no qual estão exaradas todas as necessidades humanas, ofereceu-nos o legado precioso da prece, mediante a qual a criatura se comunica com o Seu Criador e este lhe responde pelos mecanismos santificantes da inspiração, equipando-a com os recursos próprios para enfrentar todos os dissabores, infortúnios, amarguras, desafios, ou as alegrias e benesses que fazem parte do seu dia a dia no formoso processo da sua evolução.


Amélia Rodrigues








(1) Mateus — 6 : 9 a 15 (Nota da Autora espiritual). 

(2) Os Evangelistas não precisam o local do acontecimento. Mateus situa-o após o “Sermão da Montanha”, de que nos utilizamos para os presentes comentários. Vide o livro Luz do Mundo — Cap. V de nossa autoria — Livraria Espírita Alvorada - Editora. (Nota da Autora espiritual)



sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Amélia Rodrigues - Livro Dias Venturosos - Divaldo P. Franco - Cap. 14 - Contradição da verdade



Amélia Rodrigues - Livro Dias Venturosos - Divaldo P. Franco - Cap. 14


Contradição da verdade


O lago, naquele momento, era a pauta musical virgem, na qual Ele escreveria a música sublime da perene sinfonia do amor.

As notas melódicas eram suas palavras de sabedoria, assinaladas pelo compasso da verdade.

Bailavam no ar as ansiedades gerais.

A brisa amena soprava, dobrando o dorso do trigal maduro em espigas de ouro, a esparramar-se pelo vale verde e pelos outeiros próximos.

A multidão se encontrava expectante, alerta, em movimentação contínua.

As notícias a respeito dos seus feitos precediam-No. Quando Ele chegava a algum lugar, já defrontava as dores e chagas humanas expostas, aguardando a sua providência misericordiosa.

Igualmente, misturados na mole humana, encontravam-se os inimigos do progresso, aqueles que se comprazem em confundir, em perturbar, malsinando os sentimentos de quem é bom e nobre.

Caracterizam-se pela adaptabilidade que têm às circunstâncias, facilmente gerando cizânias e falatórios, adversidades e crimes.

Ninguém que agasalhe ideais superiores consegue eximir-se à fúria desses famanazes, que vivem a soldo da própria morbidez.

Incapazes de triunfar através dos valores éticos e das realizações edificantes, transformam-se em verdugos gratuitos, alimentados pelos vis objetivos de lucros imediatos, que recebem de outros infelizes que os governam, que os comandam.

Jesus os enfrentaria com frequência: saduceus, samaritanos, herodianos, fariseus, todos aqueles que se atribuem valores e direitos que não possuem, aos outros os negando, gerando conflitos e fomentando ódios.

Naquele cenário especial, bordado de Sol, o Mestre, contemplando a massa, sentiu piedade dos homens e das suas misérias, como lhe era habitual.

Nesse momento, trouxeram-lhe um homem a quem um Espírito impunha cegueira, surdez e mudez.

A obsessão é enfermidade cruel, na qual os litigantes, em pugilato contínuo, se flagelam e estertoram sem cessar.

Filha dileta do ódio, alimenta-se do ressentimento, negando-se o afeto reconciliador, responsável pelo perdão.

A libertação das suas malhas intrincadas torna-se difícil, exceto quando os responsáveis se resolvem pela mudança de comportamento para a fraternidade.

Jesus, por ser o Senhor dos Espíritos, tinha o poder de deslindar deles os que tombaram nas suas amarras, receitando-lhes vida nova.

Encarcerado na explanação dolorosa, vagava nas sombras; impedido de registrar os sons e emiti-los, era alguém emparedado nos limites da própria desdita.

No íntimo, ele anelava pela libertação, pela bênção da recuperação.

Já não se recordava da fulgurante claridade do dia, nem mais percebia na acústica mental o poema das músicas que cantam com a Natureza, que estrugem em todas as gargantas.

Gostaria de falar, de expressar-se, de louvar a vida. No entanto, o tormento se lhe afigurava irreversível. Desanimado, entregara-se à situação, aceitando-a sem mais excogitar sobre suas causas ou suas terapias.

Empurrado na direção do Mestre, ele tropeçou e sentiu o estranho toque daquela mão especial.

Uma corrente de energia poderosa percorreu-lhe o corpo. Ele fremiu e, automaticamente, abriu os olhos. . .

Defrontou as duas fulgurantes estrelas na face do Estranho, sendo tomado de incontida emoção, que o levou a exclamar: - Rabi!

Concomitantemente, ouviu a própria voz, clara e musical.

Estava liberto. Haviam-se-lhe aberto as algemas: romperam-se as tenazes fortes.

Ele estava curado e gritou, feliz, saindo a correr...

Aquela emoção incomum produziu grande impacto na multidão, quando alguém exclamou:

– Não será esse o Filho de Davi?

A inveja, que começara a urdir a sua trama, espocou violenta nos seus cultivadores.

Disfarçados na massa, os fomentadores da intriga e da desdita puseram-se em campo a lançar dúvidas a respeito do que havia acontecido.

– É um charlatão! — Conclamou, áspero, amargo ancião. - Muito hábil, por sinal! - Arrematou uma jovem aturdida.

– Ele cura, sim - estabeleceu um fariseu odiento - porém o faz pela força de Belzebu, Príncipe das Trevas e dos demônios.

As opiniões se multiplicaram, soezes, cavilosas.

Uma onda de agitação percorreu o público, e as murmurações alteraram suas vozes.

O Mestre ergueu os braços e impôs silêncio com a sua autoridade.

Ante a turbação que acometeu aquele corpo inquieto, que é a multidão, o Senhor explicou:

– Se Belzebu expulsa Belzebu, está dividido contra si mesmo. Todo o reino dividido contra si mesmo ficará devastado; e toda a cidade ou casa dividida contra si mesma não poderá subsistir. . . E se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? Eles serão vossos juízes. Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, quer dizer, então, que chegou até vós o reino de Deus...

A lógica dos argumentos encontrou ressonância nos ouvintes, aceitação de conteúdos, desarmando a truculência e a perversidade.

Os adversários do Bem, no entanto, não cessaram a maquiavélica ação e gritaram:
– Dá-nos, então, um sinal!

Sempre se pedirão sinais, que jamais serão aceitos. Haverá, invariavelmente, nova exigência, apoiada em teses absurdas, elaboradas somente para negar.

A negativa ainda é uma atitude cômoda, a mais fácil, porque descomprometida com a responsabilidade e o sacrifício...

Jesus olhou em derredor e compreendeu a ardilosa solicitação, que não serviria, por mais impressionante, para silenciá-los.

Adotando a postura de Educador, que o é, ripostou:

– Esta geração má e adúltera reclama um sinal! Que sinal lhe posso dar?

O sinal pedido é a contradição da verdade, atitude de desrespeito, de indignidade.

Ante o receio e a dúvida estampados nas faces congestionadas, Ele prosseguiu:

– O sinal é o de Jonas, não há outro, mas aqui está alguém que é maior do que Jonas.

Ninguém se adentra na casa de um homem forte para apoderar-se dos seus haveres, sem primeiro o manietar, ou sem que ele anua de próprio alvitre. Só então poderá saquear-lhe a casa.

Assim, quem não é comigo, é contra mim, porque aquele que não ajunta comigo, desperdiça.


Estava lançada a base musical da Sinfonia do amor em tema de fidelidade.

Ninguém poderia estar ao seu lado, preservando dúvidas; caminhar com Ele, permitindo-se delíquios.

Não haveria lugar para aceitação dos seus postulados e negação dos seus feitos.

A contradição da verdade macera os homens de bem, os idealistas, os heróis que estão acima dos biótipos comuns.

Sofismar diante de verdades diamantinas, erguer barreiras ao rio da razão, gerar conflitos no espelho transparente da lealdade, da honestidade, constituem degradação de si mesmo, agressão à vida. Torcedores de palavras, que as ajustam aos seus interesses mesquinhos, refugiam-se em palácios como em casebres, em cenáculos e em templos, em assembleias nobres, assim como em núcleos de malfeitores... Eles têm como tarefa intelectual adulterar, inverter, confundir as mais lúcidas expressões, transformando-as em acusações contra aqueles mesmos que as enunciaram.

Foi por essa razão que Jesus, após contemplar esses desditosos sequazes do Mal, obtemperou:

– Eu sei o que murmuram entre vós...

Ele conhecia as tergiversações e debilidades humanas, os limites que a si impunham as consciências torpes.

Não lhe passavam despercebidos os instigadores profissionais, que se imiscuíam, se misturavam ao povo, espicaçando-o na sua fragilidade moral, na sua ignorância, no seu fragmentário volume.

Por isso, enérgico, elucidou:

– Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada.

Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem será perdoado; mas se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro.

Jesus estava acima das blasfêmias humanas e, por amor, volvia a buscar os que O acusavam, amparando-os, erguendo-os, perdoando-os.

No entanto, a consciência culpada pela agressão ao Espírito de Verdade, às Forças dos Céus, gerava conflitos insanos para si mesmo, que só a reencarnação pode lenir, perdoar...

Não apenas aqueles que combatem o Espírito Santo, mas também aqueloutros que mentem, exploram, enganam e vivem às expensas do seu nome. . .

A sinfonia cresceu, e Ele aduziu:

– Ou admitis que a árvore é boa e o seu fruto, bom, ou admitis que a árvore é má e o seu fruto, mau. Porque pelo fruto se conhece a árvore.

Fez uma pausa para reflexão, amadurecimento e logo deu curso:

– Raça de víboras! Como podeis falar de coisas boas, se sois maus? Porque a boca fala da abundância do coração. O homem bom, do seu coração tira coisas boas e o homem mau, do seu coração tira coisas más. Ora, eu vos digo: de toda palavra ociosa que os homens disserem, prestarão contas no dia do juízo. Porque pelas palavras sereis justificados e pelas palavras sereis condenados.

Era uma patética.

Cada um é autor de sua felicidade e desdita, libertação e escravatura...

Cada um é livre para pensar, falar e agir, porém, é escravo do que haja pensado, falado e feito.

O Filho, todo amor, compreende a deficiência dos seus discípulos e lhes propicia novas oportunidades. Ele não viera para ser entendido, nem para ser amado. Mas, para entender e amar.

Dando-se conta da agressão à verdade, despertando em nível superior de consciência, o acusador insensato necessita reabilitar-se, em face dos danos que se impôs, assim como àqueles que perderam o rumo graças à sua maléfica indução.

O lago imenso e a multidão formavam a primeira página da Sinfonia que Ele viera imprimir nas almas.

Apesar das contradições da verdade e dos seus sequazes, emergia a Era Nova, anunciando o triunfo do amor sobre todos os impedimentos transitórios.

Todos morreram, e a Sinfonia prosseguiu musicando a Terra.

Havia mais para dizer, que seria dito.

Ele fez uma pausa, assinalada por infinita doçura, e cerrou os lábios. Porém, seria por poucos momentos.


Amélia Rodrigues