terça-feira, 21 de abril de 2020

Allan Kardec - Livro Viagem Espírita em 1862 - Pág. 24/32 - Discurso III




Allan Kardec - Livro Viagem Espírita em 1862 - Pág. 24/32


Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux 


Discurso III


Quando se considera o estado atual da socie­dade, é-se tentado a olhar sua transformação como um milagre. Pois bem! Este é o milagre que o Espiritismo pode e deve realizar, porque ele está nos desígnios de Deus, e com o auxílio de sua palavra de ordem: Fora da caridade não há salvação. Que a sociedade tome esta máxima por divisa e a ela con­forme a sua conduta, em vez desta que está na ordem do dia: A caridade bem ordenada começa por ele, e tudo muda. Tudo está em fazer essa máxima aceita.

A palavra caridade, vós o sabeis, Senhores, tem uma acepção muito extensa. Há caridade em pensamentos, em palavras, em ações; ela não é tão somente a esmola. O homem é caridoso em pensa­mentos sendo indulgente para com as faltas do pró­ximo. A caridade em forma de palavra nada diz que possa prejudicar seu próximo. A caridade em ações assiste seu próximo na medida de suas for­ças. O pobre que partilha seu pedaço de pão com um mais pobre do que ele, é mais caridoso e tem mais mérito aos olhos de Deus do que aquele que dá do seu supérfluo sem de nada se privar. Àquele que alimenta contra seu próximo sen­timentos de ódio, de animosidade, de ciúme, de ran­cor, falta caridade. A caridade é a contrapartida do egoísmo; ela é a abnegação da personalidade, o egoísmo é a exaltação da personalidade. A caridade diz: Pa­ra vós, primeiro, para mim, depois; o egoísmo diz: Para mim primeiro, para vós, se sobrar. A pri­meira está toda inteira nesta frase de Cristo: "Fa­zei pelos outros o que quiserdes que vos façam". Em uma palavra, ela se aplica, sem exceção, a todas as relações pes­soais. Concebei que, se todos os membros de uma sociedade agissem segundo este princípio, haveria menos decepções na vida. Desde que dois indivíduos estejam juntos, contratam, por isso mesmo, deveres recíprocos; se querem viver em paz, são obrigados a se fazerem mútuas concessões. Esses deveres aumentam com o número dos indivíduos; as aglomerações constituem-se em todos-coletivos que têm também suas obrigações respectivas. Tendes, além disso, as re­lações de indivíduo a indivíduo, de cida­de a cidade, de Estado a Estado, de país a país. Essas relações podem ter dois móveis que são a negação um do outro: o egoísmo e a caridade, pois há também o egoísmo nacional. Com o egoísmo, o interesse pessoal prevalece acima de tudo. Cada um tira para si, cada um vê no seu semelhante apenas um antagonista, um rival que po­de pisar em seu jardim, que pode nos explorar ou que podemos explorar; a vitória é do mais sagaz, daquele que colocar sob os pés o jardim de seu vizinho, e a sociedade, coisa tris­te de dizer, muitas vezes consagra essa vitória, o que faz que ela se divida em duas classes principais: os exploradores e os explorados. Disso re­sulta um antagonismo perpétuo, que faz da vida um tormento, um verdadeiro inferno. Substitua-se o egoísmo pela caridade e tudo será diferente. Nin­guém procurará fazer mal ao seu vizinho, os ódios e os ciúmes se extinguirão por falta de alimento, e os homens viverão em paz ajudando­-se mutuamente ao invés de se estraçalharem. A caridade substituindo o egoísmo, todas as institui­ções sociais serão fundadas sobre o princí­pio da solidariedade e da reciprocidade; o forte protegerá o fraco em vez de explorá-lo.

É um belo so­nho, dirão alguns; infelizmente é apenas um sonho; o homem é egoísta por natureza, por necessidade, e o será sempre. Se assim fosse, seria muito triste, e então precisaríamos perguntar com que finalidade o Cristo veio pregar a caridade aos homens; tanto teria valido pregar aos animais. Todavia, examinemos a questão.

Sem a caridade, não há instituição humana es­tável. E não pode haver caridade nem fraternidade, na verdadeira acepção do termo, sem a crença. Aplicai-vos, pois, a desenvolver esses sentimentos que, engrandecendo-se, destruirão o egoísmo que vos des­trói. Quando a caridade tiver penetrado as massas, quando se tiver transformado em fé, a religião da maioria, então vossas instituições se tornarão melhores pela força mesma das coisas. Os abusos, nascidos do sentimento da personalidade, desaparece­rão. Ensinai, pois, a caridade, e, sobretudo pregai pelo exemplo: é a âncora da salvação da sociedade; somente ela pode realizar o reino do bem na Terra, que é o reino de Deus. Sem ela, por mais que façais, não criareis se­não utopias das quais só vos restarão decepções. Se o Espiritismo é uma verdade, se ele deve regenerar o mundo, é porque tem por base a caridade. Ele não vem derrubar o culto nem estabelecer um novo; ele proclama e prova verda­des comuns a todos os cultos, bases de todas as religiões, sem se preocupar com detalhes. Não vêm des­truir senão uma coisa: o materialismo, que é a ne­gação de toda religião; não vem derrubar senão um templo: o do egoísmo e do orgulho, e vem dar uma sanção prática a estas palavras de Cristo, que são toda a sua lei: Amai o vosso pró­ximo como a vós mesmos. Não vos espanteis, pois, que ele tenha por adversários os adorado­res do bezerro de ouro, cujos altares veio lançar por terra. Há, naturalmente, contra ele, aqueles que julgam sua moral incômoda, aqueles que teriam, de boa vontade, pactuado com os Espíritos e suas ma­nifestações, se os Espíritos se contentassem em diverti-Ios; se não tivessem vindo para lhes rebaixar o orgulho, pregar-Ihes a abnegação, o desinteresse e a humildade. Deixai-os dizer e fazer o que quiserem; as coisas não seguirão menos a marcha que está nos desígnios de Deus.

O Espiritismo, por sua poderosa revelação, vem, pois, acelerar a reforma social. Não se limita a provar o mundo invisível. Pelos exemplos que desenrola aos nossos olhos, ele no-lo mostra em sua realida­de, e não tal como a imaginação o havia feito con­ceber. Ele no-lo mostra povoado de seres felizes ou infelizes, mas prova que somente a caridade, a sobe­rana lei do Cristo, pode aí assegurar a felicidade. Por outro lado assistimos a sociedade terrestre se entre-estraçalhar sob o império do egoísmo, enquanto viveria feliz e pacifica sob o da caridade. Com a caridade tudo é, pois, benefício para o homem: felicidade nes­te mundo e felicidade no outro. Não se trata mais, conforme a expressão de um materialista, do sacrifício de pessoas enganadas, mas segundo a expressão do Cristo, do investimento que será centu­plicado. Com o Espiritismo o homem compreende que tem tudo a ganhar fazendo o bem e tudo a perder fazendo pelo mal. A propagação da ideia espírita tende, necessa­riamente, a tornar os homens melhores uns para os outros. O que ele faz hoje sobre os indivíduos, fará amanhã sobre as mas­sas quando estiver difundido de maneira geral. Tra­temos, pois, de torná-lo conhecido no interesse de todos.

O Espiri­tismo levará, por inevitável consequência, à melhoria moral. Essa melhoria conduzirá à prática da caridade, e da caridade nascerá o sen­timento da fraternidade. Quando os homens estiverem imbuídos dessas ideias, conformarão a elas suas instituições e será assim que realizarão, naturalmente e sem agitações, as reformas desejáveis; é a base sobre a qual assentarão o edifício social futuro.         

Essa transformação é inevitável, pois é conforme à lei do progresso; todavia, se seguir apenas a marcha natural das coi­sas, sua realização poderá ser demorada. Se acreditarmos na revelação dos Espíri­tos, está nos desígnios de Deus ativá-Ia, e nós estamos nos tempos preditos para isso; a concordância das comunicações a este respeito é um fato digno de nota. Em toda parte diz-se que nós tocamos na era nova e que grandes coisas vão cumprir-se. Seria, entretanto, um erro supor que o mundo está ameaçado por um cataclis­mo material; examinando as palavras do Cristo, tor­na-se evidente que nesta, como em outras muitas circunstâncias, Ele falou de maneira alegórica. A renovação da humanidade, o reino do bem suceden­do ao reino do mal, são grandes coisas que podem se realizar sem que haja necessidade de um naufrágio universal, nem de fazer aparecer fenômenos extraordinários, ou derrogar as leis naturais. É sempre neste sentido que os Espíritos se têm exprimido

Tendo a Terra alcançado o tempo marcado pa­ra se transformar em morada feliz, elevando-se assim na hierarquia dos mundos, basta a Deus não permitir aos Espíritos imperfeitos aqui se reencar­narem, dela afastando aqueles que, por orgulho, incredulidade, maus instintos, possam tornar-se obstáculo ao progresso, perturbando a boa har­monia. Isso porque nas raças, ou melhor - pa­ra nos servir das palavras do Cristo - nas gerações de Espíritos enviados em expiação à Terra, aqueles que se mantiverem incorrigíveis serão substituídos por uma geração de Espíritos mais adian­tados e, para isso, bastará uma geração de homens e a vontade de Deus que pode, por acontecimentos inesperados, embora naturais, apressar-­Ihes a partida da Terra. Se, pois, a maior parte das crianças que hoje nascem pertencem à nova gera­ção de Espíritos melhores, se os demais, que par­tem a cada dia, não mais regressarão, disso resultará uma renovação completa. E o que será fei­to dos Espíritos exilados? Serão encaminhados pa­ra mundos inferiores, expiar seu endurecimento por longos séculos de provas terríveis, pois também eles são anjos rebeldes, porque desprezaram o poder de Deus e se revoltaram contra a lei que Cristo veio Ihes recordar.[1]

Como quer que seja, nada se faz bruscamen­te na natureza. A velha levedura deixará ainda, du­rante algum tempo, traços que só de pouco em pouco se apagarão. Quando os Espíritos nos dizem - e isso eles o fazem por toda a parte - que nos abeiramos desse momento, não creais que sejamos testemunhas de uma transformação exposta à vis­ta. Querem significar que estamos no momento da transição, assistimos à partida dos velhos e à che­gada dos novos, que virão fundar uma nova ordem de coisas, isto é, o reino da justiça e da caridade que é o verdadeiro reino de Deus, predito pelos profetas e do qual o Espiritismo vem preparar os caminhos. 

Vede, senhores, estamos já bem distantes das mesas girantes e, entretanto, apenas alguns anos nos separam do berço do Espiritismo! Quem quer que tivesse sido bastante audacioso para predizer o que hoje se passa, seria levado à conta de insen­sato aos olhos dos seus próprios correligionários. Observando a pequenina semente, quem poderia compreender, se dantes não tivesse assistido ao fe­nômeno, que dali sairia a árvore poderosa? Vendo a criança nascida no estábulo de uma pobre aldeia na Judéia, quem poderia supor que, sem o fausto e o poder material, sua voz singela abalaria o mun­do, reforçada apenas por alguns pescadores igno­rantes e tão pobres quanto ela mesma? Outro tan­to ocorre com o Espiritismo que, saindo de um hu­milde e vulgar fenômeno, já aprofundou suas raízes em todas as direções, e cuja ramalhada bem cedo, abrigará a Terra inteira. As coisas progridem ce­leremente quando Deus assim quer. E considerando que nada ocorre fora de Sua vontade, quem não veria aí o dedo de Deus?

Espíritas, sois os pioneiros dessa grande obra. Tornai-vos dignos da gloriosa missão, cujos primei­ros frutos já recolheis. Pregai por palavras, mas, sobretudo, pregai por exemplos. Comportai-vos de modo a que, em vos vendo, não possam dizer que as máximas que ensinais são palavras vãs em vos­sos lábios. A exemplo dos apóstolos, fazei mila­gres, pois, para isso, Deus concedeu-vos o dom! Não milagres que chocam os sentidos, porém mi­lagres de caridade e de amor. Sede bons para com vossos irmãos, sede bons para com o mundo intei­ro, sede bons para com vossos inimigos! A exem­plo dos apóstolos, expulsai os demônios. Para isso tendes o poder, e eles pululam em torno de vós, os demônios do orgulho, da ambição, da inveja, do ciúme, da cupidez, da sensualidade, que alimen­tam todas as más paixões e semeiam por entre vós os pomos da discórdia. Expulsai-os de vossos co­rações, a fim de que tenhais a força necessária para expulsá-los dos corações alheios. Fazei esses milagres e Deus vos abençoará, as gerações futuras vos abençoarão como as de agora abençoam os primeiros cristãos, dentre os quais, muitos revi­vem entre vós para assistir e concorrer para o co­roamento da obra do Cristo. Fazei esses milagres e vossos nomes serão inscritos gloriosamente nos anais do Espiritismo. Não empanai esse clarão por sentimentos e atos indignos do verdadeiro espírita, do espírita cristão. Libertai-vos, o quanto antes pos­sível, de tudo quanto possa ainda restar em vós do velho levedo. Cuidai que de um momento para o outro, amanhã talvez, o anjo da morte pode vir bater à vossa porta e dizer: Deus vos chama para prestar­des conta do que fizestes de sua palavra, da pala­vra de Seu Filho, que Ele fez repetir pelos bons Espíritos. Estai, pois, sempre prontos a partir e não façais como o viajor imprudente que é surpre­endido desprevenido. Fazei vossas provisões com antecipação, provisões de boas obras e de bons sentimentos, pois infeliz é aquele que o momento fatal surpreende com a ira, a inveja ou o ciúme no coração. Terão por escolta os maus Espíritos, ju­bilosos das desgraças que o esperam, uma vez que essas desgraças serão a sua obra. E vós sabeis, Espíritas, quais são essas desgraças: os que as sofrem chegam até nós, eles próprios, para descrever seus sofrimentos. Àqueles, pelo contrário, que se apresentarem puros, os bons Espíritos virão esten­der a mão, dizendo-Ihes: Irmãos, sede bem-vindos às celestes moradas onde, vos esperam cantos de ale­gria!

Enquanto a oportunidade se apresenta, revesti­-vos do manto branco, abafai as discórdias, pois que as discórdias pertencem ao reino do mal que vai ter fim. Seja-vos possível fundir-vos em uma única e mesma família e dar-vos mutuamente, do fundo do coração e sem pensamento premeditado, o no­me de irmãos. 

Os grupos são indivíduos coletivos que devem viver em paz, como os indivíduos, se, realmente, são espíritas. Eles são os batalhões da grande fa­lange. Ora, o que será feito de uma falange cujos batalhões se dividirem? Aqueles que veem o pró­ximo com olhos ciumentos, provam, só por isso, que estão sob uma ruim influência, pois que o Espírito do bem não pode produzir o mal. Vós o sa­beis: a árvore reconhece-se pelos frutos. Ora, o fruto do orgulho, da inveja e do ciúme é um fruto envenenado que mata quem dele se nutre.

O que digo das dissidências entre grupos vale, igualmente, para as que possam haver entre os in­divíduos. Em semelhante circunstância, a opinião das pessoas imparciais é sempre favorável àquele que dá provas de maior grandeza e de generosida­de. Aqui na Terra, onde ninguém é infalível, a in­dulgência recíproca é uma consequência do prin­cípio da caridade que nos leva a agir para com os outros como quereríamos que os outros agissem para conosco. Ora, sem indulgência não há cari­dade, sem caridade não há verdadeiro Espírita. A moderação é um dos sinais característicos desse sentimento, como a acrimônia e o rancor são sinais da negação. Com acrimônia e espírito vingativo deterioram-se as mais dignas causas, mas com a mo­deração fortalecemo-las, se estamos de seu lado, ou delas passamos a participar, se não o fizemos ainda. Se, pois, eu tivesse de opinar em uma di­vergência, eu me preocuparia menos com as causas e mais com as consequências. As causas, em querelas ocasionadas sobretudo por palavras, po­dem ser o resultado de questões das quais nem sempre somos senhores; a conduta ulterior de dois adversários é o resultado da reflexão; eles agem de sangue frio e é então que o verdadeiro caráter de cada uma das partes se define. Uma ruim ca­beça e um mau coração caminham muitas vezes juntos, porém rancor e bom coração são incompa­tíveis. Minha medida de apreciação seria, então, a caridade, isto é, eu observaria aquele que menos mal diz de seu adversário, aquele que é o mais mo­derado em suas recriminações. É segundo esta me­dida que Deus nos julgará, pois Ele será in­dulgente para quem tiver sido indulgente e será in­flexível para quem tiver sido inflexível.

A rota traçada pela caridade é clara, infalível e sem equívocos. Poderíamos defini-Ia assim: "Sen­timento de benevolência, de justiça e de indulgên­cia relativamente ao próximo, baseado no que que­reríamos que o próximo nos fizesse". Tomando-a por guia, podemos estar certos de não nos afastar do caminho reto que conduz a Deus. Quem dese­ja, de maneira sincera e séria trabalhar por sua própria melhoria, deve analisar a caridade em seus mínimos detalhes e por ela conformar sua condu­ta, pois ela se aplica a todas as circunstâncias da vida, tanto às mais simples, quanto às mais com­plexas. De cada vez que estivermos incertos quan­to ao partido a tomar, no interesse alheio, basta que interroguemos a caridade e ela responderá, sempre de maneira justa. Infelizmente escuta-se mais frequentemente a voz do egoísmo. 

Sondai, pois, os refolhos de vossa alma, pa­ra dela arrancardes os últimos vestígios das ruins paixões, se delas algo restar ainda. E se experi­mentais algum ressentimento contra alguém, cuidai de abafá-lo e dizei: "Irmão, esqueçamos o passa­do. Os maus Espíritos nos haviam separado, que os bons nos reúnam!" Se ele recusar a mão que lhe estendeis, oh! então, Iamentai-o, pois Deus, por sua vez, lhe dirá: "Por que pedes perdão, tu que não perdoastes?"

Apressai-vos, pois, para que se não vos apli­que esta frase fatal: É tarde demais!

Tais são, queridos irmãos espíritas, os conse­lhos que tenho a vos dar. A confiança que vindes em mim depositar é uma garantia de que eles tra­rão bons frutos. Os Bons Espíritos, que vos assis­tem, dizem-vos a cada dia a mesma coisa, porém julguei um dever apresentar-vos essas advertências em um conjunto, de modo a que suas consequên­cias melhor se destaquem. Venho, pois, em nome deles, lembrar-vos a prática da grande lei do amor e da fraternidade que deverá, em breve, reger o mundo e nele fazer reinar a paz e a concórdia, sob o estandarte dá caridade para com todos, sem exceções de seitas, de castas e nem de cores.

Com este estandarte, o Espiritismo será o tra­ço de união que reunirá os homens divididos pelas crenças e os preconceitos mundanos. Ele fará ruir a mais poderosa barreira que separa os povos: o an­tagonismo nacional. À sombra dessa bandeira, que será o seu ponto de reunião, os homens se habitua­rão a ver irmãos naqueles que viam como inimi­gos. Daqui até lá haverá muitas lutas, pois o mal não liberta facilmente sua presa, e os interesses ma­teriais são tenazes. Sem dúvida não vereis com os olhos do corpo a realização dessa obra, para a qual concorreis, e isso embora esse momento não este­ja remoto. Os anos iniciais do século próximo de­verão prenunciar essa era nova que se prepara ao crepúsculo desta em que vivemos. Mas fruireis, com os olhos do Espírito, o bem que tiverdes fei­to, como os mártires do Cristianismo rejubilaram-se contemplando os frutos de seu sangue derramado. Coragem, pois, e perseverança. Não recueis ante os obstáculos. O campo não se torna fértil sem a dádiva do suor. Assim como o pai, mesmo no ocaso da vida, constrói o lar que irá abrigar seus fi­lhos, crede que construís para as gerações futuras, um templo à fraternidade universal e no qual as únicas vitimas imoladas serão o egoísmo, o orgulho e todas as más paixões que ensanguenta­ram a humanidade.




Allan Kardec






[1] Ver a Revista Espírita, Janeiro de 1862, Ensaio sobre a interpretação da doutrina dos An­jos decaídos.

Fonte: Viagem Espírita em 1862 e Outras Viagens de Kardec - pdf

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