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terça-feira, 26 de setembro de 2023

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 15 - A grande surpresa



Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 15

A grande surpresa


Quem poderia definir a perturbação do desventurado Léo Marcondes, confinado em tenebroso círculo de angústia? Seria difícil relacionar-lhe as lágrimas e padecimentos. Comerciante abastado, no Rio de Janeiro, nos derradeiros anos do século XIX, não pudera furtar-se ao portal escuro do suicídio. Temperamento fogoso e personalista, nunca se acomodara ao benefício da fé religiosa e, atirando-se às teorias do materialismo demolidor, dera-se aos mais estranhos distúrbios ideológicos, como quem se perde na sombra, caminhando a esmo pela noite a dentro. Sempre fizera questão de espalhar os princípios dissolventes. 

Em casa, na rua, nos cafés, tornara-se proverbial sua atitude iconoclasta e desrespeitosa. Saturado de conceitos dos filósofos pessimistas, destacava-se-lhe a palavra pelas afirmativas ingratas e impróprias, a respeito da Providência Divina. Longe de apreender nos escritores cépticos verdadeiros doentes intelectuais, interessados em seduzir atenções alheias ao catre de ideias enfermiças, internava-se, sem maior exame, no cipoal das mentiras brilhantes. Ao seu ver, o mundo era vasta casa de miséria e trevas sem limites. À menor contradita, desmanchava-se ele em considerações amargas e venenosas:

— Valores na Terra? Onde o desgraçado que poderia manter a perigosa ilusão? Não tivessem qualquer dúvida. Se existisse um Criador — e acentuava essas palavras ironicamente — deveria ser expulso da Natureza. Que viam na Humanidade infeliz senão loucura, desolação e sombra impenetrável? Tudo caminhava para a morte, para a eterna extinção. Flores apodrecidas disfarçam os túmulos, que escarnecem da esperança mais pura. A carne moça era fantasia ocultando caveiras de amanhã, nos mais belos rostos. Vemos cadáveres em toda a parte. Raia o dia para transformar-se em noite; cresce a árvore por sepultar-se na terra, ou para queimar-se em terrível desolação. Que é nosso destino senão a cópia burlesca desses movimentos viciosos e destruidores? Que seria a alegria humana senão a luz frágil que se apaga no vendaval das trevas? E que seria a existência senão jornada angustiosa para o continente de cinzas sepulcrais?

Era inútil qualquer esforço por subtraí-lo a semelhante estado mental. Léo reduzira-se à condição de cego voluntário, segregado em sombras, apesar da alvorada permanente de luz. Desprevenido de socorro íntimo, em vista da situação de miséria moral a que se votara, num momento de excitação profunda cometeu incompreensível homicídio, eliminando antigo companheiro da infância. Dominado de cegueira fatal, não resistiu ao remorso incoercível e suicidou-se pouco tempo depois.

Anos amargosos e escuros abateram-se-lhe sobre o espírito desventurado. Embalde chamava familiares queridos, invocando auxílio espiritual. Tinha a impressão de neblinas geladas cercando-lhe o caminho, no meio de trevas indevassáveis, caindo… caindo sempre.

No círculo de angústias em que se via algemado, recordava a Terra, experimentando revolta infinita. Atribuía ao Planeta a causa de todos os fracassos, a fonte de todas as amarguras.

Na sua desdita, jamais pôde, entretanto, esquecer a esposa, alma simples e generosa, inteiramente consagrada ao bem-estar dele, nos mínimos incidentes da jornada humana. Lembrava-lhe a figura humilde e meiga, com verdadeiros transportes de amor e reconhecimento. Essa recordação se convertera na única estrela a lhe brilhar no abismo de sombras indefiníveis.

Mais de cinquenta anos assim decorreram, de padecimentos incalculáveis, quando o mísero foi convocado a reorganizar caminhos, referentemente ao futuro.

Enfrentando o sábio instrutor que o atendia afetuoso, o infeliz exclamava, angustiado:

— Conscientemente, devo dizer que nunca fui homem perverso. A Terra, todavia, deprimiu-me e inutilizou minhas forças, com fatalidades tremendas e paisagens tenebrosas!

— Cala-te, amigo! — observou a entidade generosa — a queixa no serviço divino nem sempre será rogativa honesta. Por vezes, não passa de manifestação de revolta ou indolência de nossa escassa compreensão do dever sagrado. Aqui estou para atender-te, à face do porvir.

— Abomino a Terra!… — soluçou o desventurado.

 — Esclarece teus projetos quanto às oportunidades futuras. Não nos percamos em lamentos ou palavras ociosas.

Após meditar longos minutos; Léo interrogou hesitante:

— Magnânimo instrutor, poderei reencontrar a inolvidável companheira de luta?

— Por que não? Deus nunca nos fechou a porta da bondade infinita.

— Oh! — gemeu o infeliz, quase esmagado por um raio de júbilo — concedei-me a possibilidade de procurá-la no Paraíso que terá merecido pela imensa virtude; dai-me a ventura de esquecer, por momentos, os quadros escuros da Terra, a fim de acariciar a ideia do reencontro… Em que estrela maravilhosa permanecerá minha santa?

O venerável orientador contemplou-o, benigno, e explicou intencionalmente:

— Tua companheira se encontra numa escola de Esperança.

— Ah! informai-me relativamente às grandezas dessa paragem sublime! Poderei penetrar-lhe as estradas formosas?

Depois de um gesto afirmativo, que o desventurado recebeu com transportes de alegria, continuou o bondoso mentor:

— Trata-se de primorosa região de Esperança, onde Nosso Pai tudo preparou, facilitando a edificação das criaturas. Dias deslumbrantes enfeitam-lhe continentes e mares, repletos de vida sublime e vitoriosa. Árvores amigas lá estendem seus ramos pejados de frutos suculentos e saborosos. Água divina corre gratuitamente de mananciais cantantes, e na atmosfera embaladora a claridade e a melodia não encontram obstáculos… Lá se reveste a alma de fluidos adequados ao trabalho, qual operário a receber o traje de serviço, segundo as próprias necessidades, sem preocupação de retribuir a mão dadivosa e oculta que lhe concede o benefício. No aprendizado de todos os dias, ouvem-se risos infantis, observam-se esperanças da juventude, recebem-se bênçãos de anciães coroados de alvinitentes lírios. São manifestações sagradas de companheiros que ali permanecem, prosseguindo na grande romagem para Deus, cada qual representando nota de amor e trabalho no cântico universal…

Em razão da pausa mais ou menos longa que o mentor interpusera nas considerações, Marcondes, enlevado, solicitou, a demonstrar novo brilho nos olhos:

— Falai, falai ainda desse Plano prodigioso!…

— As noites nessa Esfera — continuou o benfeitor — são cariciosas estações, destinadas à prece e ao repouso. Astros luminosos povoam o céu, chamando os Espíritos a meditações divinas. Constelações fulgurantes passam no infinito em sublime silêncio. Luzes brandas dão novo colorido às paisagens. Ainda há, por lá, pobres e sofredores, pois que se trata duma escola de Esperança; ninguém, contudo, está abandonado por Deus, que manda distribuir as lições segundo as necessidades dos filhos bem-amados… Tudo ali é promessa de vida, caminhos de realização, oportunidades sacrossantas!…

— Benfeitor inesquecível, — rogou Léo Marcondes, agora sem lágrimas, — poderei, ao menos, visitar esse Plano divino?

— Não somente visitá-lo como também procurar a companheira, em seus caminhos, e unir-se novamente a ela, no trabalho de Deus, na elevação e resgate justo, — esclareceu o instrutor, mostrando carinhoso sorriso.

O mísero não sabia traduzir o próprio júbilo.

Tomando-lhe a destra, o amigo espiritual guiou-o carinhosamente através de sombras e abismos. Daí a algum tempo, divisavam larga Esfera que, embora sem claridade própria, se movimentava num oceano de luz. A essa altura, Marcondes prorrompeu em gritos de alegria:

— Salve planeta celeste, santuário de vida, celeiro das bênçãos de Deus!…

— Definiste com sabedoria, — acrescentou o mentor sorridente.

Mais alguns minutos e penetraram numa cidade alegre e bulhenta. Observou o pobre Léo que o local não lhe era de todo desconhecido. Os morros, o casario, o mar, identificavam a paisagem. Desapontado, hesitante, premiu a mão do generoso amigo e indagou:

— Será que estamos na Terra? Não é esta cidade o Rio de Janeiro?

— Justamente.

— Nunca observei antes tanta magnificência e beleza!…

— Eu bem o sabia, — disse o mentor bondosamente, — mas é que nunca procuraste a escola de Esperança que o Pai oferece às criaturas neste Plano. Escutaste os filósofos pessimistas, mas foste surdo aos cânticos da vida; observaste as letras envenenadas que embriagam o cérebro dos homens de teorias aviltantes, mas foste cego ao traço das charruas no solo. Porque preferias a indolência das almas rebeldes, o frio te incomodava, a chuva aborrecia, o calor sufocava, o trabalho constituía angústia constante. 

Em vez de localizar os próprios males, agradava-te identificar os males alheios. Voluntariamente enceguecido às lições diárias, tropeçaste no crime e na amargura; guardavas conceito irônico para o ignorante, repreensões ásperas para o infeliz, olvidando a disciplina de ti mesmo. À força de viver na contemplação dos defeitos e cicatrizes do próximo, nada mais viste em torno do coração, além de ruínas e trevas. 

Deus, porém, é infinitamente bom e te concede nova oportunidade de elevação no caminho da vida. Outras experiências te aguardam nos dias vindouros. Renascerás no mesmo lugar onde levantaste, inadvertidamente, o braço homicida. Transforma as algemas pesadas em laços de amor. Procura a companheira abnegada, que te seguirá os passos amorosamente, na senda redentora. Não olhes para trás. Acende a lâmpada generosa da fé e não temas o assédio das sombras.

Enquanto o interpelado o observava, reconhecidamente, surpreendido e silencioso, o magnânimo instrutor concluiu batendo-lhe afetuosamente no ombro:

— Vai, Marcondes! Recomeça a viagem, toma novamente o vagão da experiência humana, mas não atires o corpo pela janela do comboio em movimento e espera, resignado, a estação do destino.

O ex-comerciante agradeceu num gesto mudo.

Enquanto o mentor solícito voltava às Esferas elevadas, Léo Marcondes era conduzido por outras mãos a uma singela choupana, modestamente erguida num dos bairros mais pobres.


Humberto de Campos
(Irmão X)













terça-feira, 16 de agosto de 2022

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 32 - A crente interessada



Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 32


A crente interessada


Dona Marcela Fonseca vivia os últimos instantes na Terra.

Não obstante a gravidade do seu estado orgânico, a agonizante mantinha singular lucidez e dirigia-se à família, com voz comovedora:

— A confiança em Deus não me abandonará… A Celeste Misericórdia nunca desatendeu minhas rogativas… O Mestre Divino estará comigo na transição dolorosa…

Alguns parentes choravam, em tom discreto, buscando, em vão, reter as lágrimas, no amarguroso adeus.

— Não chorem, meus amigos — consolava-os Dona Marcela — o Espírito de minha mãe, que tantas vezes há socorrido minh'alma, há de estender-me os braços generosos!… Há mais de trinta dias, sofro neste leito pesado de tormentos físicos. Que representa a morte senão a desejada bênção para mim, que estou ansiosa de liberdade e de novos mundos?!… 

Se me for permitido, voltarei muito breve a confortá-los. Não esquecerei os companheiros em tarefas porvindouras. Creio que a morte não me oferecerá dilacerações, além da saudade natural, por motivo do afastamento… Sempre guardei minha crença em Deus, não só na qualidade de católica e protestante, como também no que se refere ao Espiritismo, que abracei tomada de sincera confiança… com o mesmo fervor de minha assistência às missas e cultos evangélicos, dei-me às nossas sessões esperando assim que nada me falte nos caminhos do Além… Devemos aguardar as esferas felizes, os mundos de repouso e redenção!…

Os familiares presentes choravam comovidíssimos.

Dona Marcela calou-se. Depois de longos minutos de meditação, pediu fossem recitadas súplicas à Providência Divina, acompanhando-as em silêncio. Suor gelado banhava-lhe o corpo emagrecido e, pouco a pouco, perceberam os circunstantes que a agonizante exalava os últimos suspiros.

Qual sucede na maioria dos casos, portas a dentro da sociedade comum, a câmara mortuária transformou-se imediatamente em zona de prantos angustiosos, onde os que não choravam se referiam em voz alta às virtudes da morta, e, em surdina, aos seus defeitos.

A desencarnada, contudo, não mais permanecia no ambiente de velhos desentendimentos e reiteradas dissimulações.

Sentira-se bafejada por sono caricioso e leve, após a crise orgânica destruidora. Branda sensação de repouso adormentara-lhe o coração. Sem poder, todavia, explicar quanto durara aquele estado de tranquilidade espiritual, Dona Marcela despertou num leito muito limpo, mas extremamente desguarnecido de conforto. A seu lado, uma velhinha carinhosa abraçava-a, chorando de júbilo, a exclamar:

— Até que enfim, querida filha! Marcela, minha adorada Marcela, que saudades do teu convívio!…

A filha correspondeu às manifestações afetivas, porém, depois de fixar detidamente a paisagem nova, não disfarçou o desapontamento que lhe dominava o espírito voluntarioso. Já não era a mesma criatura, que revelava tamanha humildade na agonia corporal. Estava agora sem o influxo das dores. Experimentava plena liberdade para respirar e mover-se. Não mais o suor incômodo, nem a martirizante dispneia a lhe torturarem o organismo. Não mais a agonizante vencida, mas a Dona Marcela da estrada comum, atrabiliária, exigente, insatisfeita. Embora o impulso natural de prosseguir beijando a carinhosa mãezinha, não sopitou o orgulho ferido e perguntou:

— Mamãe, explique-me. Por que permanece nesses trajes? Que significa esta choupana sem conforto? Que região de vida é esta, onde a vejo tão fortemente desamparada? Será crível que seja este o seu lugar? Não foi uma crente sincera, no curso das experiências terrestres?

A velhinha, com o olhar sereno de quem não mais teme a verdade, acentuou resignada:

— Estamos no mundo de nossas próprias criações mentais, minha filha. Segundo nossas reminiscências, fui católica fundamente arraigada aos meus velhos princípios; contudo, não podes negar minha antiga preocupação de descansar nos esforços alheios. Recordas como torturava os servidores de nossa casa? Lembras minha tirania no lar, nos serviços de teu pai, nos atos da igreja? Quando acordei aqui, meus sofrimentos foram ilimitados, pois minhas criações individuais eram péssimas. As feras da inquietação, do remorso e do egoísmo observavam-me de todos os lados. Foi quando, então, roguei a Deus me permitisse destruir os trabalhos imperfeitos, para reconstruir conscientemente de novo. E aqui me tens. Tudo pobre, humilde, desvalioso, mas para mim que já desacertei demasiadamente, ferindo o próximo e desprezando as coisas sagradas, esta choupana paupérrima é a bênção do Pai, no recomeço de santas experiências.

A recém-desencarnada contemplou a escassez dos objetos de serviço, fixou a miserabilidade das peças expostas, arregalou os olhos e exclamou:

— Meu Deus! quantas situações estranhas! Mamãe, sempre a julguei nas Esferas felizes!…

— Esses Planos começam em nós mesmos — retrucou a genitora, com a tranquilidade da experiência vivida.

Recordando as inúmeras manifestações religiosas a que emprestara o concurso de sua presença, a senhora Fonseca redarguiu:

— Não me conformo com a miséria a que a senhora parece andar presentemente habituada. E o meu lugar próprio? Visitei milhares de vezes os templos de fé, no mundo. É impossível que esteja esquecida de nossos guias e benfeitores. Onde estão Bernardino e Conrado, os amorosos diretores espirituais de nossas reuniões? Preciso interpelá-los relativamente à minha situação.

A velhinha bondosa sorriu e informou:

— Ambos prosseguem na abençoada faina de orientar, distribuindo benefícios; mas, as reuniões continuam na Esfera do Globo e nós nos achamos em Círculo diferente. Que seria dos trabalhos terrestres, minha filha, se os servos de Deus abandonassem suas tarefas, apenas porque uma de nós fosse chamada a nova expressão de vida?

Marcela entendeu o profundo alcance daquelas palavras e observou:

— Qualquer outra autoridade espiritual pode servir-me. Necessito receber elucidações diretas, a respeito de minha atual posição.

A velhinha carinhosa fixou na filha o olhar afetuoso e compadecido, explicando-lhe prudentemente:

— Poderei conduzir-te à presença do generoso diretor da nossa comunidade espiritual. Da bondade dele, recebi permissão para buscar-te no mundo. Creio, pois, que a sabedoria de nosso benfeitor será bastante aos esclarecimentos desejáveis.

Com efeito, na primeira oportunidade, foi Marcela conduzida por sua mãe à presença do venerável amigo. Recebeu-as o sábio, com espontâneo carinho, o que a Srª Fonseca interpretou como subalternidade, sentindo-se livre de manifestar as mais acerbas reclamações, a lhe explodirem da alma revoltada. Após minuciosa e irritante exposição, concluía lamentando:

— Como sabeis, minha crença foi invariável e sincera: Na igreja católica, no templo evangélico, como no grupo espiritual, fui assídua nas manifestações de fé e nunca olvidei a devoção. Não me conformo, portanto, com este abandono a que me sinto votada.

O orientador solícito, que ouvira pacientemente a relação verbal da interlocutora, acentuou a essa altura:

— Não se encontra, porém, desamparada. Autorizei sua mãe a buscá-la nas zonas inferiores, com o máximo de carinho.

— Mas a própria situação de minha genitora, a meu ver, merece reparos especiais — clamou a Srª Fonseca, intempestivamente.

Sorriu o bondoso mentor ao verificar-lhe o nervosismo e explicou em seguida:

— Já sei. Sente-se ferida no amor à personalidade. Entretanto, talvez esteja enganada.

E, chamando um auxiliar, recomendou:

— Traga as anotações de Marcela Fonseca.

Daí a instantes, o portador reaparecia, sobraçando um livro de proporções enormes. Curiosa e inquieta, a visitante leu o título: — “Pensamentos, palavras e obras de Marcela Fonseca”.

— Quem escreveu esse volume? — perguntou aterrada.

— Não sabe que este livro é de sua autoria? — perguntou o mentor tranquilamente — é um trabalho de substância mental, que sua alma grafou, em cada dia e cada noite da existência terrena, pensando, falando e agindo.

A interessada não sabia disfarçar a surpresa; mas o orientador, abrindo as páginas, acrescentou:

— Não posso ler todo o livro em sua companhia. Vejamos, porém, o resumo de suas atividades religiosas.

Fixando a mão em determinada folha, o sábio esclareceu:

— Conforme se vê, assistiu no mundo a seis mil e setecentas e cinco missas, a duas mil e quinhentas cerimônias do culto protestante e a sete mil e doze sessões espiritistas. No entanto, é curioso notar que seu coração nunca foi a esses lugares para agradecer a Deus ou desenvolver serviços de iluminação interior, ou fora do seu círculo individual. Seu único objetivo foi sempre pedir ou reiterar solicitações, esquecendo que o Pai colocara inúmeras possibilidades e tesouros no seu caminho. Recitando fórmulas, cantando hinos ou concentrando-se na meditação, somente houve um propósito em sua fé — o pedido. Mudou rotulagens, mas não transformou seu íntimo.

Ante o assombro de Marcela, o sábio continuava, delicado:

— É justo pedir; entretanto, é preciso igualmente saber receber as dádivas e distribuí-las. A própria Natureza oferece as mais profundas lições neste sentido. Deus dá sempre. A fonte recebe as águas e espalha os regatos cristalinos. A árvore alcança o benefício da seiva e produz flores e frutos. O mar detém a corrente dos rios e faz a nuvem que fecunda a terra. As montanhas guardam as rochas e estabelecem a segurança dos vales. Somente os homens costumam receber sem dar coisa alguma:

Mas… — concluiu o sábio orientador — não disponho de tempo para prosseguir na leitura. Finda esta, restituirá o volume aos arquivos da casa.

A Srª Fonseca iniciou o serviço de recapitulação das próprias reminiscências e só terminou daí a cinco meses.

Extremamente desapontada, restituiu o livro enorme e, após encorajadora advertência do magnânimo diretor espiritual, explicou-se humilhada:

— Sempre fui sincera em minha crença.

— Sim, minha filha, mas a crença fiel deve ser lição viva do espírito de serviço. Sua convicção é incontestável. Sua ficha, contudo, é a dos crentes interessados.

Com enorme tristeza a lhe transparecer dos olhos, a recém-desencarnada começou a chorar. O dedicado mentor abraçou-a e disse paternalmente:

— Renove suas esperanças. Seu pesar não é único. Existem coletividades numerosas nas suas condições. Além disso, há fichas muito piores que a sua, em matéria de fé religiosa, como, por exemplo, as dos simoníacos, mentirosos e investigadores sem consciência. Anime-se e continue confiando em Deus.

Reconhecendo a própria indigência, Marcela recebeu o acolhimento pobre de sua mãe, como verdadeira bênção celestial.

Todavia, a nota mais interessante foi a sua primeira visita ao círculo dos irmãos encarnados. Em plena sessão, contou a experiência comovedora e relacionou as surpresas que lhe haviam aguardado o coração no plano espiritual. Sua história era palpitante de realidade, mas todos os presentes lembraram a velha Dona Marcela Fonseca e concordaram, entre si, que a manifestação era de um Espírito mistificador.


Humberto de Campos
(Irmão X)












segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 2 - O irmão Severiano

 

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 2


O irmão Severiano


Severiano Fagundes era dos melhores doutrinadores do Espiritismo numa das grandes capitais brasileiras. Sua palavra vibrante era muito admirada nas tribunas doutrinárias; sua presença, um estímulo aos companheiros. Temperamento expansivo, era portador de expressões alegres e vivas. Ótimo organizador dos serviços de intercâmbio com o Invisível, tinha especial aptidão para convencer as entidades recalcitrantes, embora não as convencesse de todo, relativamente aos deveres espirituais. Sabia elucidar os médiuns, formar as sessões práticas, transmitir verbalmente os ensinamentos recebidos. Surgiam obsidiados? Lá estava o Severiano combatendo os agentes da discórdia, esclarecendo obsessores infelizes.

Entretanto, o poderoso doutrinador, além de profundamente arbitrário em seus modos de agir, parecia comprazer-se em certas irregularidades da vida. Se algum companheiro se aproximava, prudentemente, e lhe falava dos perigos que semelhante situação poderia acarretar, Severiano dava de ombros e interrogava: — “Ora, mas que tem isso? São futilidades da existência humana. A verdade é que nunca me viram faltar aos deveres para com a Doutrina. Compareço pontualmente às reuniões, não me furto ao trabalho de esclarecimento dos irmãos perturbados, nem me nego ao concurso fraternal nas atividades mais pesadas do nosso grupo.”

E a vida passava.

O nosso amigo tinha os seus casos tristes, suas situações escabrosas, mas continuava impávido no arrojo da pregação.

Não faltava às sessões, mas esquecia a família; doutrinava os Espíritos mais cruéis, entretanto, alegava não tolerar a esposa que Deus lhe havia confiado, porque não pudera compreender o Espiritismo à sua maneira; preparava bem os médiuns; contudo, não se interessava pelos filhos, como devia.

E era um companheiro valente o Severiano. Sabia animar, corrigir, resolver problemas difíceis, lançar incentivos eficazes.

Os anos passaram sobre o quadro de seus serviços e o ardoroso doutrinador foi chamado à Esfera espiritual.

Em virtude de seus conhecimentos, relativamente à Doutrina, Severiano percebeu que não mais pertencia ao número dos adormecidos na carne. Estava plenamente convencido da transição fenomênica da morte do corpo. No entanto, como no Plano invisível cada criatura somente poderá ver através da luz que acendeu na própria alma, o grande propagandista dos princípios doutrinários, com imensa surpresa, não encontrou os amigos espirituais com que contava, não obstante o esforço de todos em seu favor. 

Viu-se sem rumo, entre sombras e paisagens confusas. Ao contrário de suas ilusões no período de atividades que lhe antecedera ao desprendimento do mundo, começou a refletir mais seriamente na vida particular que a esponja do tempo havia absorvido. Revia, agora, os mínimos detalhes das ocorrências pequeninas. Ter-se-ia portado bem nessa ou naquela circunstância? A consciência dizia-lhe que não, que ficaram muitas tarefas por fazer, em virtude da deficiência de seu esforço, sempre tão pronto para ensinar aos outros.

À medida que se escoavam os dias, observava a multiplicação dos remorsos e dores íntimas. O pobre amigo não sabia como explicar o seu mal-estar, qual o motivo da paisagem escura que o cercava.

Certo dia, Severiano chorou como criança, nas súplicas que procurou elevar a Deus. Lembrou as reuniões em que ensinara austeras disciplinas, via-se à frente das entidades perturbadas que se comunicavam, e recordava as exortações que lhes dirigia corajosamente.

Severiano chorou. É verdade que, como homem, havia errado muito, fugindo aos trabalhos próprios de sua vida; no entanto, devotara-se à doutrina dos Espíritos, espalhara consolações e conselhos. Nesse instante, uma sincera compunção parecia arrebatá-lo a lugar diferente. Viu-se numa paisagem mais leve, à frente de uma entidade de semblante divino, que o contemplava carinhosamente.

— Irmão querido — perguntou o ex-doutrinador, sensibilizado —, por que sofro tanto, em caminhos sem luz?

— É que acendeste muita claridade nos outros, mas esqueceste de ti mesmo — esclareceu a nobre entidade com amoroso sorriso.

Severiano começou a explicar-se: lamentou a sua situação, falou longamente, mas o mensageiro de Jesus interrogou com solicitude fraternal:

— Irmão Severiano, serviste de fato ao Evangelho?

— Sim — replicou o mísero, hesitante —, disciplinei muitos Espíritos perturbadores, fazendo-lhes sentir os deveres que lhes competiam.

A generosa entidade tomou então de um grande volume e afirmou com bondade:

— Temos aqui o Evangelho, tal como o estudaste no mundo. Observemos o que nos diz a lição de Jesus, com respeito à tua primeira alegação.

E o livro abriu-se, automaticamente, impulsionado por energias luminosas, apresentando o versículo 4 do capítulo 23, de Mateus: “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los.” 

Severiano Fagundes ficou muito pálido. Recordou, instintivamente, tudo o que deixara de fazer no círculo de suas obrigações justas. Como o generoso amigo espiritual o contemplava em silêncio, sorrindo com amor, o pobre irmão, que lembrava as lutas da Terra, murmurou:

— Sei que não cuidei de mim, como deveria; entretanto, tive muita fé.

Essas palavras foram proferidas com enorme desapontamento. Mas o emissário do Cristo voltou a dizer:

— Vejamos, então, o que nos diz o Evangelho, relativamente à tua segunda alegação.

E surgiu o versículo 17 do capítulo 2 da Epístola universal de Tiago, em caracteres radiosos: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.”  

Severiano baixou os olhos e começou a chorar amargamente, pois só agora reconhecia que ensinara muito Evangelho aos outros, lendo-o com leviandade; todavia, não aplicara o código divino à própria vida. Nada mais disse ao mentor carinhoso e justo que, abraçando-o fraternalmente, murmurou com bondade infinita:

— Irmão Severiano, levanta os olhos para o Mestre e anima-te! Voltarás à Terra para o serviço redentor; mas, não te esqueças de que, como encarnado, serás também Espírito em doutrinação. É preciso escutar o dever, a luta e o sofrimento… São mensageiros de Jesus os que ensinam o Evangelho na Terra. Precisamos ser canal de verdade para os outros; mas não é só isso, porque é indispensável sejamos canais e reservatórios ao mesmo tempo, a fim de que, como discípulos de um Mestre tão rico de sabedoria e amor, não venhamos a sucumbir pela miséria própria.

A generosa entidade continuou a exaltar a beleza das obrigações cumpridas e, cheio de lágrimas e esperanças novas, Severiano Fagundes começou a preparar-se para recomeçar a lição na vida humana.


Humberto de Campos
(Irmão X)









segunda-feira, 8 de março de 2021

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 5 - O Natal diferente




Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 5


O Natal diferente


Muito raro observar-se temperamento tão apaixonado, quanto o de Emiliano Jardim. No fundo, criatura generosa e sincera, mas as noções materialistas estragavam-lhe os pensamentos. Debalde cooperavam os amigos em renovar-lhe as ideias. O rapaz reportava-se a umas tantas teorias de negação, e a moléstia espiritual prosseguia do mesmo jeito. O casamento, realizado entre pompas familiares, em nada melhorara a situação; quando, porém, Emiliano experimentou a primeira dor da paternidade, ao ver o filho arrebatado pela morte, esse golpe profundo lhe abalou o espírito personalista.

Justamente por essa época, generoso padre meteu-lhe nas mãos um livro de consolação religiosa, à guisa de socorro.

Em semelhante fase do caminho, o contato com os ensinamentos de Jesus lhe encheu a alma de serena doçura. Estava deslumbrado. Como não compreendera antes a beleza da fé? Fez-se católico, sob aplausos gerais. Os afeiçoados se entreolhavam satisfeitos.

Emiliano, contudo, embora seduzido pelas verdades luminosas do Mestre, trazia a sua lição através da vida, como lhe acontecera ao tempo dos antigos postulados negativistas. Acreditando servir ao ideal divino do Evangelho, terçava armas cruéis contra todos os que entendiam Jesus por prismas diferentes. Acusava os protestantes, malsinava os espíritas.

Os anos, porém, correram na sabedoria silenciosa do tempo.

Ralado pelas desilusões de todo homem que procura a felicidade longe da redenção de si mesmo, o nosso amigo, certo dia, passou-se de armas e bagagens para o Protestantismo. Entretanto, por mais que se esforçassem os companheiros, Emiliano não conseguia realizar a visão interna do Cristo, como Divino Amigo de cada instante, através de seus imperecíveis ensinamentos.

Tornou-se anticlerical violento e rude. Esquecera todos os bens que a Igreja Católica lhe proporcionara, para recordar apenas suas deficiências, visíveis na imperfeição da criatura. Alguns amigos menos vigilantes o felicitavam pelo desassombro; todavia, os mais experimentados reconheciam que o novo crente mudara a expressão religiosa exterior, mas não entregara o coração ao Cristo.

Depois de longa luta, Emiliano sente-se insatisfeito e ingressa nos arraiais espiritistas.

Emiliano, qual sucede à maioria dos crentes, admite a verdade, mas não dispensa os benefícios imediatos; dedica-se a Jesus, anseia por vê-lo nos outros homens, antes de senti-lo em si próprio. Sua atividade geral transtorna-se. Enfrenta de armas na mão todos os companheiros antigos. Supõe que deve levar a defesa da nova doutrina ao extremo. A bondade dos guias espirituais, que se comunicam nas reuniões, ele a toma por elogio às suas atitudes.

Como, porém, a justiça esclarecida é sempre um credor generoso, que somente reclama pagamento depois de observar o devedor em condições de resgatar os antigos débitos, Emiliano, na posse de numerosos conhecimentos e bafejado de tantas exortações divinas, penetrou no caminho do resgate das velhas dívidas. Tempos difíceis surgiram-lhe no horizonte individual. Enquanto se esforçava para remover alguns obstáculos, outras montanhas de dificuldade apareciam, inesperadamente. A moléstia, a escassez de recursos e a ironia dos ingratos visitaram-lhe a casa honesta. A princípio resignado e forte, acabou desesperando-se. Dizia-se abandonado pelos amigos espirituais e acusava os médiuns, cheios de obrigações sagradas, tão só porque não podiam permanecer em longas concentrações, para solução dos seus casos pessoais. Sentia-se perseguido por maus Espíritos, e, na sua inconformação, magoava companheiros respeitáveis.

A dor, todavia, não interrompeu sua função purificadora. Depois de penosa enfermidade, sua velha genitora partiu para a vida espiritual em condições amargas. Não passou muito tempo e a esposa, perturbada nas faculdades mentais durante três anos, seguia o mesmo caminho. Em seguida, os dois filhos que criara, com excessos de carinho, se voltaram contra o coração paternal, com injustas acusações. Ao ensejo da calúnia, os últimos companheiros fugiram. O nosso amigo, outrora tão discutidor e tão violento, experimentou desânimo invencível. Nunca mais foi visto em rodas doutrinárias, nas tertúlias da inteligência; comumente era encontrado, como vagabundo vulgar, escondendo lágrimas furtivas.

Numa radiosa véspera de Natal, em que o ambiente festivo lhe falava da ventura destruída ao coração, Emiliano chorou mais que de costume e resolveu pôr termo à existência.

À noite, encaminhou-se para a praia, alimentando o sinistro desígnio. Antes, porém, de consumar o erro extremo, pensou naquele Jesus que restituíra a vista aos cegos, que curara os leprosos, que amara os pobres e os desvalidos. Tais lembranças lhe nevoaram os olhos de pranto doloroso, modificando-lhe as disposições mais íntimas.

Foi aí, nessa hora amargurada em que o mísero se dispunha a agravar as próprias angústias, que uma voz suave se fez ouvir no recôndito de seu espírito:

— Emiliano, há quanto tempo eu buscava encontrar-te; mas sempre me chamavas através dos outros, sem jamais procurar-me em ti mesmo! Dá-me a tua dor, reclina a cabeça cansada sobre o meu coração!… Muitas vezes, o meu poder opera na fraqueza humana. Raramente meus discípulos gozam o encontro divino, fora das câmaras do sofrimento. Quase sempre é necessário que percam tudo, a fim de me acharem em si mesmos. Tenho um santuário em cada coração da Terra; mas o homem enche esse templo divino de detritos, ou levanta muralhas de incompreensão entre o seu trabalho e a minha influência… Nessas circunstâncias, em vão me procuram…

Emiliano estava inebriado. Não ouvia propriamente uma voz idêntica à do mundo, mas experimentava o coração tomado por poderosa vibração, sentindo que as palavras lhe chegavam ao íntimo como aragem celestial.

— Volta ao esforço diário e não esqueças que estarei com os meus discípulos sinceros até ao fim dos séculos! Acaso poderias admitir que permaneço em beatitude inerte, quando meu amigos se dilaceram pela vitória de minha causa? Não posso estacionar em vãs disputas, nem nas estéreis lamentações, porque necessitamos cuidar do amoroso esclarecimento das almas. 

É por isso que estou, mais frequentemente, onde estejam os corações quebrantados e os que já tenham compreendido a grandeza do espírito de serviço. Não te rebeles contra o sofrimento que purifica, aprende a deixar os bonecos a quantos ainda não puderam atravessar as fronteiras da infância. Não analises nunca, sem amar. Lembra-te de que, quando criticares teu irmão, também eu sou criticado. Ainda não terminei minha obra terrestre, Emiliano! Ajuda-me, compreendendo a grandeza do seu objetivo e entendendo a fragilidade dos teus irmãos. Dá o bem pelo mal, perdoa sempre! Volta ao teu esforço! Em qualquer posto de trabalho honesto poderás ouvir minha voz, desde que me procures no coração!…

Emiliano Jardim sentiu que as lágrimas agora eram de júbilo e reconhecimento.

Em breves instantes, experimentava radical transformação.

À sua frente via a imensidade do céu e a imensidade do oceano, sentindo-se como num mundo em que o Cristo houvera nascido. Recordou que não tinha senão escórias de miséria para ofertar a Jesus, e que seus sentimentos rudes simbolizavam aqueles animais que foram as primeiras visitas da manjedoura singela.

Deslumbrado, endereçou um pensamento de paz a todos os companheiros do pretérito e começou a compreender que cada um permanecia em sua posição de trabalho, na tarefa que o Senhor lhe designara. Poderosa vibração de amor ligava-o à Criação inteira. Não se torturava em raciocínios. Compreendia e chorava de júbilo. Levantou-se, enxugou as lágrimas e retomou o caminho da cidade barulhenta.

O nosso amigo conhecia de longos anos o Salvador, mas só agora encontrara o Mestre. Emiliano Jardim regressou, renovado, ao labor do Evangelho, depois do Natal diferente.


Humberto de Campos
(Irmão X)





sábado, 13 de fevereiro de 2021

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Prefácio: Do noticiarista desencarnado




Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Prefácio


Do noticiarista desencarnado


A sepultura não é a porta do Céu, nem a passagem para o inferno. É o bangalô subterrâneo das células cansadas — silencioso depósito do vestuário apodrecido.

O homem não encontrará na morte mais do que vida e, no misterioso umbral, a grande surpresa é o encontro de si mesmo.

Falar, pois, de homens e de Espíritos, como se fossem expoentes de duas raças antagônicas, vale por falsa concepção das realidades eternas. As criaturas terrenas são, igualmente, Espíritos revestidos de expressões peculiares ao planeta. Eis a verdade que o Cristianismo restaurado difundirá nos círculos da cultura religiosa.

Quanta gente aguarda a grande transição para regenerar costumes e renovar pensamentos? Entretanto, adiar a realização do bem é, sempre, menosprezar patrimônios divinos, agravando dificuldades futuras.

O deslumbramento que invadiu as zonas de intercâmbio, entre as Esferas visível e invisível, operou singulares atitudes nos aprendizes novos.

Em círculos diversos, companheiros nossos, pelo simples fato de haverem transposto os umbrais do sepulcro, são convertidos, pelos que ficaram na Terra, em oráculos supostamente infalíveis; alguns amigos, porque encontraram benfeitores na zona espiritual, esquecem os serviços que lhes competem no esforço comum; médiuns necessitados de esclarecimentos são transformados em semideuses.

A alegria da imortalidade embriagou a muitos estudiosos imprevidentes. Dorme-se ao longo de trabalhos valiosos e urgentes, à espera de mundos celestiais, como se o orbe terrestre não integrasse a paisagem do Infinito.

É necessário, portanto, recordar que a existência humana é oportunidade preciosa no aprendizado para a vida eterna. 

Ensina-se-nos, aqui, que Espíritos protetores e perturbados, nobres e mesquinhos, podem ser encontrados nos Planos visíveis e invisíveis. 

Cada criatura humana tem a sua cota de deveres e direitos, de compromissos e possibilidades. 

Zonas felizes e desventuradas permanecem nas consciências, na multiplicidade de posições mentais dos Espíritos eternos. Tanto na Terra como no Céu, a responsabilidade é lei.

Neste quadro de observações, o Consolador é a escola divina destinada ao levantamento das almas. 

Urge, pois, que os discípulos se despreocupem do Espiritismo dos mortos, para colocar acima de todas as demonstrações verbalistas o Espiritismo dos vivos na eternidade.

Dentro de cada aprendiz há um mundo a desbravar.

A Terra é também a grande universidade. Ninguém despreze a luta, o sofrimento, a dificuldade, o testemunho próprio. A luz e o bem, a sabedoria e o amor, a compreensão e a fraternidade, o cérebro esclarecido e as mãos generosas dependem do esforço pessoal, antes de tudo.

O Sol ilumina o mundo, a chuva fecunda a terra, a árvore frutifica, as águas suavizam a aridez do deserto, mas o homem deve caminhar por si mesmo. As maravilhas e dádivas da Natureza superior não eximem a criatura da obrigação de seguir com o Cristo, para Deus.

Quando tantos companheiros dormem esquecendo o serviço, ou contendem por ninharias copiando impulsos infantis, trago-te, leitor amigo, estas reportagens despretensiosas — lembrança humilde de humilde noticiarista desencarnado.

As experiências relacionadas, nestas páginas singelas, falam eloquentemente de nossas necessidades individuais. Não devemos continuar na condição de meros beneficiários da Casa de Deus, reincidentes nas dívidas e falhas criminosas. 

A Providência nos oferece tesouros imperecíveis. O Pai repartiu a herança com magnanimidade e justiça. Não há filhos esquecidos e todos somos seus filhos.

Trazendo-te, pois, meu esforço desvalioso, feito de coração para corações, termino afirmando que todas estas reportagens são reais e que, se os nomes das personagens obedecem à convenção da caridade fraternal, aqui não há ficções nem coincidências. Cada história representa um caso individual, no imenso arquivo das experiências humanas, para compreensão da vida eterna.


Humberto de Campos
(Irmão X)




Pedro Leopoldo, 8 de dezembro de 1942.




Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 27 - Dois companheiros




Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 27


Dois companheiros


Leonel e Benjamim, dois velhos amigos do Plano espiritual, mutuamente associados no erro e na reparação, depois de minucioso exame do passado, decidiram-se a pedir concessão de novas experiências no mundo. Esposando opiniões diversas entre si, buscaram o orientador, ansiosos da necessária permissão para pronto regresso à luta humana.

Após anotar-lhes as observações, sorriu o mentor amigo e obtemperou:

— É oportuna a solicitação: Vocês necessitam intensificar o aprendizado, iluminar o entendimento, adquirir sabedoria. Escolheram ambos o mesmo gênero de provas?

Levantou-se Leonel, explicando:

— Estamos acordes no pedido, mas, não temos a mesma preferência no capítulo das tarefas. Por minha parte, desejaria a oportunidade de movimentar patrimônios terrestres, nos círculos da fortuna e da autoridade…

Antes que ele terminasse, Benjamim embargou-lhe a palavra e esclareceu:

— Cá por mim, escolhi a condição de pobreza e sofrimento. Pediria, se possível, a supressão de toda possibilidade de contentamento na Terra. Encareço problemas de penúria e dificuldades, a fim de valorizar o que hei recebido da Providência.

Estampando no semblante o sorriso sereno da sabedoria, o generoso orientador considerou:

— Não posso interferir na liberdade de ambos. Conhecem vocês a extensão dos débitos contraídos. De algum tempo, sou testemunha da luta enorme em que se empenharam para o resgate. Fizeram jus, por isto, a novo ensejo de trabalho e elevação. Devo ponderar, todavia, que, embora divergentes na escolha, ainda não poderão afastar-se um do outro, na próxima experiência de redenção. 

Partilha, no erro, determina partilha de responsabilidades e consequências. Ser-lhes-ão abertas as portas do serviço santificador. Não se desunam, pois; nos caminhos da purificação, jamais desprezem a possibilidade de aprender. Fortuna e pobreza são bancas de provas na escola das experiências terrestres. São continentes da probabilidade. Ambos oferecem horizontes largos e divinas realizações. Que saibam receber as bênçãos de Deus, são os meus votos.

Leonel e Benjamim ouviram os conceitos judiciosos, renovaram promessas e partiram mais tarde. Atendendo a própria escolha, nasceu o primeiro na casa farta de rico proprietário rural, que lhe fora muito amado noutras existências. Daí a dias, velha serva da casa rica era igualmente mãe, fornecendo ao segundo o ensejo de realizar os planos traçados.

Enquanto houve paisagens risonhas de infância, ambos os companheiros, tão unidos pelo coração e tão distantes pelo nascimento, viveram no róseo céu da harmonia; mas, quando Leonel começou a sorver o conteúdo dos livros propriamente do mundo, verificaram-se os primeiros sinais de incompreensão. Cada vez que o jovem bem-nascido regressava ao círculo doméstico em gozo de férias escolares, assinalava-se maior distância entre ele e o camarada da meninice. Quando o anel de grau lhe brilhou nos dedos, estava consumada a separação. Passando a administrar interesses da família nos estabelecimentos do campo e da cidade, era ele o chefe, enquanto Benjamim se classificava no extenso quadro dos servidores.

Nessa zona de testemunho ativo, entenderam que deviam proceder como estranhos, absolutamente separados entre si. No fundo, admiravam-se e amavam-se reciprocamente; contudo, as ilusões terrestres os encegueciam.

Se Leonel se mostrava mais enérgico, atento às responsabilidades de administrador, desfazia-se Benjamim em críticas acerbas e gratuitas, levado pelo despeito. Se Benjamim aumentava, involuntariamente, a lista de necessidades pessoais, multiplicava Leonel o rigor, levado pelo autoritarismo.

A certa altura da experiência, não mais se saudaram um ao outro. Atritaram-se, trocaram acusações mútuas. O servo abandonou o trabalho diversas vezes, desejoso de experimentar a sorte em regiões diferentes; todavia, incapaz de iludir o espírito da Lei, voltava sempre, implorando readmissão. Leonel, por sua vez, renovava a concessão de serviço, embora com agravo crescente de exaspero e tirania recíprocos. Se o empregado solicitava melhoria de salário, o patrão restringia a remuneração e os benefícios.

Embriagado na visão de lucros fabulosos, Leonel pusera a mente no egoísmo total. Desvairado de inconformação, Benjamim concentrava-se na rebeldia, daí resultando aumento intensivo de vaidade, orgulho, presunção, ciúme, despeito e indisciplina no coração de ambos.

A Providência Divina, que jamais deixou criaturas em abandono, enviou-lhes socorro através da assistência religiosa. Mas o patrão, afeiçoado ao Catolicismo Romano, inclinava toda leitura edificante a favor da própria causa, valia-se dos conselhos do sacerdote amigo que o assistia, para justificar os erros e o seu feitio egoístico. Obcecavam-no o apego ao dinheiro e a ideia de lucros fáceis. Quanto ao empregado, tornara-se espiritista convicto, porém, cegavam-no a inconformação e a revolta. Qualquer advertência dos instrutores espirituais era interpretada ao inverso. 

Se o amigo do outro lado da vida aludia à paciência, não enxergava ele a informação própria e sim o defeito alheio, ou a insuficiência dos outros. Se ouvia dissertações sobre a caridade, lembrava os afortunados do mundo, com ironia. Benjamim era, afinal, desses enfermos que consideram o remédio excelente para outrem, mas, nunca para si mesmos. Enquanto Leonel se valia das consolações da Igreja Católica para consolidar tradições autocráticas, Benjamim esquecia as lições do Espiritismo, para armazenar indisciplinas e difundir desesperações.

Absolutamente envenenados de teorias mentirosas, terminaram ambos a experiência humana, na posição de inimigos irreconciliáveis.

Despertando na vida real, sentiam-se estranhamente algemados um ao outro. Cercavam-nos sombras espessas e tristes; e como se houvessem enlouquecido, perdendo a luz da memória, somente a custo de muitos anos conseguiram fixar recordações das existências obscuras.

Quando a lembrança lhes felicitou o espírito abatido, compreenderam a situação, desolados, e puseram-se à procura daquele mentor generoso que lhes havia banhado o coração de sábios conselhos.

Depois de longo tempo, que lhes marcou angústias dilacerantes, foram readmitidos à presença do carinhoso orientador, que, ante as lágrimas de ambos, exclamou serenamente:

— Não estranho a dor que lhes fere o espírito enfermo, à face do tempo perdido e do ensejo malbaratado. Não lhes faltou inspiração divina para o êxito necessário. Entretanto, esqueceram, mais uma vez, a lei do uso, internando-se no abuso criminoso, olvidando que pobreza e fortuna constituem oportunidades do serviço divino na Terra. 

Os que administram são mordomos, os que obedecem são operários, mas, no coração augusto de Nosso Pai, estamos inscritos indistintamente na categoria de cooperadores de suas obras. Se era justo obter moderação, paciência, confiança, fé e resistência sublime com os valores da pobreza, e ganhar humildade, ponderação, entendimento, autodomínio, bondade e paz com os valores da riqueza, adquiriram vocês desesperação, rebeldia, vaidade e ruína. 

Não posso asseverar que voltaram piores que no passado escabroso, porque ninguém regride na evolução perpétua da vida; mas posso afiançar que voltaram mais sujos. A crise de ambos é de estacionamento complicado. Enquanto outros irmãos nossos costumam deter a marcha em jardins ou florestas, preferiram vocês a parada em lamaçal inconcebível. Valeram-se das sagradas posições de administrar e obedecer, tão só no propósito de oprimir e menosprezar. Esqueceram que todo trabalho honesto, no mundo, é título da Confiança Divina. 

Não observo qualquer traço de superioridade moral entre um e outro. Ambos faliram desastradamente. É a dolorosa experiência dos que prometem sem saberem cumprir, é o fracasso do aprendiz pelo descuido próprio. Não vos declarei que pobreza e riqueza são continentes da probabilidade? Cultivaram, porém, a terra das concessões benditas, enchendo-a de ervas venenosas e povoando-a de monstros e fantasmas. Mascararam-se a si mesmos e caíram no pântano. Que posso fazer, agora, senão lamentar a imprevidência?

Ambos os companheiros de infortúnio ouviam-no em pranto.

Reunindo todo o cabedal de energias próprias, Leonel adquiriu coragem e interrogou:

— Não poderíamos, entretanto, recomeçar juntos a prova da fortuna e da pobreza? Estou convencido de que venceremos agora.

— Sim — respondeu o instrutor sabiamente —, a medida é possível. No entanto, segundo observei, vocês regressaram enlameados. A oportunidade desejável, por enquanto, é a de se lavares convenientemente, a fim de prosseguir caminho.

Calou-se o mentor amigo. Leonel e Benjamim entenderam sem dificuldade. E depois de algum tempo renasciam na Terra, procurando o tanque fundo e vasto do sofrimento.


Humberto de Campos
(Irmão X)







sábado, 2 de janeiro de 2021

Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 10 - O investigador inconsciente




Humberto de Campos - Livro Reportagens de Além-túmulo - Chico Xavier - Cap. 10


O investigador inconsciente


O velho operário, em companhia da filha, identificou a placa brilhante no saguão do enorme edifício e galgou a escada, de olhos serenos e confiantes. Depois de bater respeitosamente à porta, atendido por distinto cavalheiro, apresentou a jovem enferma e explicou:

— Doutor, minha filha há muito vem apresentando sintomas perturbadores. Frequentemente apresenta-se tomada por forças estranhas, absolutamente incompreensíveis. Parece alucinada e, no entanto, patenteia o dom da adivinhação, com elementos irrefutáveis. Uma carta, um cofre fechado, não lhe oferecem segredos. Já procuramos ouvir alguns médicos, que, afinal de contas, apenas me agravaram as preocupações. Soube, porém, que o senhor é espiritista, e como já temos recorrido aos préstimos de alguns vizinhos, estou certo de que a sua ciência nos dará a solução necessária.

O Dr. Matoso Dupont fixou o olhar percuciente na doentinha e apressou-se a esclarecer:

— Não sou propriamente espiritista, mas um observador dos fenômenos comuns; sou metapsiquista…

O consulente, naturalmente acanhado, guardou silêncio, enquanto o médico atacava a enferma numa saraivada de perguntas. E revelava, no olhar, a alegria do pescador quando fisga o peixe inocente, ou do experimentador que encontra uma cobaia preciosa. O pai acompanhava a cena com interesse. O Dr. Dupont esfregava as mãos, visivelmente surpreendido. Após cerrado interrogatório, procedeu a experiências com resultados positivos. Objetos, cartas, livros, foram trazidos à prova. O médico não dissimulava o enorme assombro.

Homem do trabalho e de horas contadas, o velho operário resolveu intervir e perguntou, respeitoso:

— Doutor, que me diz o senhor? Que conselhos nos dá para o caso?

O profissional coçou o queixo e falou solene:

— Sem dúvida, estamos diante de um caso espantoso de criptestesia pragmática.

O cliente esboçou um gesto de timidez, como que a desculpar-se da própria ignorância, e aventurou:

— Não poderá o senhor fornecer-me esclarecimentos mais simples? Leio muito pouco, o trabalho não me dá folgas…

— Trata-se de manifestação metapsíquica.

O pobre homem, diante da complicada terminologia científica, mostrou-se algo desanimado e pediu licença para sair, a fim de trazer um amigo ao consultório. O Valdemar, rapaz inteligente, versado no Espiritismo e empregado na farmácia próxima, ajudá-lo-ia a interpretar os pareceres médicos. Fora tão difícil conseguir ensejo para a consulta ao Dr. Matoso; tão elevado o preço da mesma, que o amoroso pai não hesitou. Não deveria perder a oportunidade. Precisava recolher as opiniões da Ciência. O ensejo era único.

Daí a minutos, regressava ao gabinete, com o amigo prestativo e diligente. O doutor compreendeu as preocupações paternais e passou a esclarecer o assunto com todas as cores científicas da respectiva técnica. Referiu-se aos investigadores do Psiquismo mundialmente consagrados; às experiências europeias; falou do ectoplasma, do magnetismo, do subconsciente desconhecido, dos distúrbios orgânicos, rodando pela neurologia, pela fisiologia, pela psicologia experimental.

Enquanto a jovem conservava uma expressão de idiotismo e o genitor esboçava gestos de justificável assombro, Valdemar aguardou a pausa do falastrão e ponderou com inteligência:

— Doutor, estou convencido de que o senhor tem suas razões; mas, não concordará que estes fenômenos são velhos quanto o mundo? Não admite que o caso da pequena se resuma em simples manifestações de mediunidade?

— Ah! naturalmente deseja aludir às novas descobertas — ao sexto sentido —, tornou o esculápio como quem necessita fazer uma retificação indispensável.

— Sim, pode ser, referindo-nos à Ciência atual — esclareceu o rapaz serenamente —, todavia, há milhares de anos a Índia e o Egito conheciam os iniciados, os judeus reverenciavam os profetas. Há vinte séculos o mundo assistiu à iluminação do Pentecostes. Não concorda que todas estas manifestações sejam formas diversas da revelação espiritual, espalhando no mundo a luz de Deus?

— Ora — retrucou o metapsiquista contrafeito —, que motivo nos levaria a meter a Religião em problemas desta natureza?

E a palestra animou-se vivamente. Valdemar prosseguia tranquilo, enquanto o Dr. Matoso atingia o auge da exaltação. O primeiro defendia a lógica da fé raciocinada; o segundo acusava os espiritistas de beócios, doentes, histéricos, fanáticos.

Ao terminar a discussão, o velho retirou-se desalentado, levando a menina enferma e resolvido a contentar-se com o processo lento da cura, mediante as instruções evangélicas da água efluviada e dos passes ao alcance da família, no grupo dos vizinhos.

Tal ocorrência constituía, porém, pequenina amostra do investigador renitente. O Dr. Matoso não saía nunca dos seus domínios de experimentador. Visitava núcleos doutrinários, atormentava os médiuns; fazia questão de exibir o cartaz de inimigo declarado de todas as expressões religiosas. Afirmando-se discípulo de Richet, adotava a dúvida com atitude preceitual. Em qualquer observação, preocupava-o a possibilidade da fraude e, fosse onde fosse, preferia comentar a exploração grosseira, o charlatanismo, a má-fé. 

A sociedade o conceituava entre as grandes inteligências do meio e ninguém lhe negava títulos de competência. Entretanto, à força de contato com os detalhes anatômicos, ele enrijara as fibras emotivas. Mero caçador de fenômenos, tratava as mais belas sugestões da Espiritualidade à maneira de fatos banais, sem maior significação. Não suportava as reuniões onde se fizessem rogativas a Deus, e aos companheiros de índole religiosa preferia os amigos levianos, prontos ao comentário científico, entre um sorriso de mulher sem escrúpulos e um trago de vinho capitoso.

Nada obstante, em todos os acontecimentos os homens dispõem o jogo da vida, mas Deus é que distribui as cartas. Ninguém vive sem contas, indefinidamente. Chegou, afinal, o dia em que o Dr. Matoso foi compelido a recolher a bagagem material ao cofre vasto da Terra, entrando em nova modalidade de existência. Achava-se, porém, atônito, estarrecido. Em vez de experimentar, sentia-se agora objeto de observação, por parte de gigantes ocultos e intangíveis. 

Ele que tanto falara de ectoplasma e subconsciente, via formas indescritíveis, completamente estranhas às suas tabelas de classificação. Aqueles fantasmas que despertavam tamanho sensacionalismo, nas sessões de materialização, passavam-lhe ao lado, sorridentes e tranquilos, sem lhe dispensarem a mínima atenção. Estaria louco? 

Que forças misteriosas o haveriam arrebatado àquela região sombria e desconhecida? Perseguira materiais de observação durante a existência inteira, dilacerara instrumentos da verdade, procurara fraudes e proclamara desafios e, agora, ali, sem qualquer intermediário, verificava ele próprio a multiformidade de revelações da vida. Tentava manter a atitude do experimentador que dispensa a cooperação religiosa, mas os reinos psíquicos multiplicavam-se, os materiais novos excediam a qualquer possibilidade de exame. Sozinho, sem o estímulo de companheiros com quem pudesse trocar impressões, o antigo investigador experimentou enorme cansaço. 

Ele que sempre fora avesso a orações andava desejoso de recolher-se ao mundo íntimo, a fim de solicitar a contribuição do Mais Alto. No fundo, admitia que semelhante atitude representava capitulação; entretanto, a seu ver, não rogaria à maneira de outros crentes. Formularia simplesmente um pedido de auxílio; mas… a quem? Na secura das experimentações do mundo, jamais cultivara afeições quaisquer. Agravando-se-lhe, porém, as necessidades no meio de situações que não conseguia definir nem compreender, sentiu-se fraco e implorou a Deus lhe concedesse luz para os enigmas que o cercavam.

Não demorou muito e um orientador generoso fez-se visível, atendendo a súplica:

— Amorável benfeitor — solicitou humilhado —, por quem sois, não me negueis mão amiga no labirinto em que me encontro.

— Escuta, Matoso — respondeu o interlocutor com intimidade —, que fizeste de tanto material precioso concedido à tua alma no mundo?

— A Ciência transformou-me num investigador inconsciente — explicou, evidenciando grande embaraço.

— Não desejo saber que títulos gratuitos te proporcionou a Ciência convencionalista e sim o que fizeste da cultura enorme, e como usaste os patrimônios vultosos que te foram conferidos na Terra.

O interpelado impressionou-se com a profunda observação e, ganhando alguma coragem, relacionou as antigas inquietações, aludindo aos grandes cientistas do século e às rigorosas preocupações que adotara pessoalmente nas pesquisas efetuadas.

Ao termo da longa exposição, o orientador espiritual falou, bondosamente:

— Falas de Crookes, de Flournoy, de De Rochas, de Lombroso, de Richet, mas esqueces que precisas de construção própria. Tanto vacilaste no Planeta, que terminaste a última experiência duvidando de ti mesmo. Quando procuravas ansiosamente a fraude nos outros, não vias que fraudavas a própria alma. Desafiaste médiuns e trabalhadores; entretanto, não atendeste aos desafios que a luta nobre te facultou em cada dia terreno.

— Não, não é bem isto — contestou Dupont, buscando justificar-se —; o que nunca pude tolerar foi a manifestação religiosa.

— Por quê? Detestavas a Religião, malsinavas a prece, zombavas da fé; contudo, em que lugar do Universo a vida não é ato religioso? Considerando-se o laço imperecível que une o Criador às criaturas e às coisas do caminho evolutivo, tudo é permuta e atividade divina. O sapo coaxando no pântano, a estrela enfeitando o céu no deserto, o diamante oculto nas pedras abandonadas não estão à procura de admiração humana, mas de identificação com a Divindade. 

Anotaste, pesaste, classificaste como simples escravo da estatística, mas a cultura espiritual não se constitui apenas de terminologia técnica. A cor é aspecto, nunca o objeto em si mesmo. É incontestável que sabedoria e amor representam as asas sem as quais é impossível ascender aos cumes da perfeição eterna; mas, sabedoria não significa cristalização no círculo individual, antes é penetração no país infinito da verdade divina, cuja luz palpita no maravilhoso plano de unidade, através de todos os seres. Não te detenhas no exterior. Busca o teu mundo de belezas ignoradas e observa a ti mesmo. Meu amigo, meu amigo, Deus é Amor, Vida, Suprema Luz!…

Nesse momento, o benfeitor desapareceu numa torrente de claridades infindas. Sem explicar o que se passara, Dupont achou-se de joelhos, face lavada em lágrimas abundantes. O cérebro febril banhava-se em energias desconhecidas. Pela primeira vez, sentia a grandeza divina e parecia constituir, ele próprio, harmoniosa nota de amor no cântico universal. Por quanto tempo demorou em adoração indefinível? Não poderia responder.

Quando, porém, examinou a necessidade de integração no trabalho redentor, uma voz carinhosa e familiar lhe timbrou brandamente aos ouvidos:

— Vamos, meu filho! o Pai jamais regateia a oportunidade de retificação e serviço. Voltemos para o mundo. Tu que observaste tanto os semelhantes, sem finalidade justa, regressarás agora a fim de seres observado.


Humberto de Campos
(Irmão X)