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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Cairbar Schutel - Parábolas e Ensinos de Jesus, 2ª Parte - Cap. 38, Pág. 131 - Maria de Magdala



Cairbar Schutel - Parábolas e Ensinos de Jesus, 2ª Parte - Cap. 38, Pág. 131


Maria de Magdala


"Um dos fariseus convidou-o para jantar com ele. E entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. Havia na cidade uma mulher que era pecadora, e esta, sabendo que ele estava jantando na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume e, pondo-se-lhe aos pés, chorando, começou a regá-los com lágrimas, e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava-lhe os pés e ungia-os com perfume. Ao ver isto, o fariseu que o convidara, dizia consigo: se este homem fosse profeta, saberia quem é que o toca e que sorte de mulher é, pois é uma pecadora. Então Jesus disse ao fariseu: Simão, tenho uma coisa para te dizer. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos denários, e o outro cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou a dívida a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? respondeu Simão: suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. E virando-se para a mulher, disse a Simão: vês esta mulher? Entrei na tua casa e não me deste água para os pés, mas esta mos regou com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela porém, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não ungiste a minha cabeça com óleo, mas esta com perfume ungiu os meus pés. Por isso te digo: Perdoados lhe são os seus pecados, que são muitos, porque ela muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. E disse à mulher:· perdoados são os teus pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer consigo mesmos: Quem é este que até perdoa pecados? Mas Jesus disse à mulher: "A tua fé te salvou; vai-te em paz". (Lucas, VII, 36-50.)

"Ora, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, chegou-se a ele uma mulher que trazia um vaso de alabastro com precioso perfume, e lho derramou sobre a cabeça, quando ele estava à mesa. Vendo isto, os seus discípulos indignaram-se e disseram: Para que este desperdício? Pois o perfume podia ser vendido por muito dinheiro e ser dado aos pobre. Mas Jesus percebendo isto, disse-lhes: Por que molestais esta mulher? Pois ela me fez uma boa obra. Porquanto os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes; porque derramando ela este perfume sobre o meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. Em verdade vos digo que onde quer que for pregado em todo o mundo este Evangelho, será também contado para memória sua, o que ela fez". (Mateus, XXVI, 6-13.)

"Quando iam de caminho, entrou ele em uma aldeia; e uma mulher chamada Marta hospedou-o. Esta tinha uma irmã chamada Maria, a qual, sentada aos pés de Jesus, ouvia o seu ensino. Marta, porém, andava preocupada com muito serviço; e chegando-se disse: Senhor, a ti não se te dá que minha irmã me tenha deixado só a servir? Dize-lhe, pois, que me ajude. Mas respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, estás ansiosa e te ocupas com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; porque Maria escolheu a boa parte que não lhe será tirada". (Lucas, X, 38-42.)

"Logo depois andava Jesus pelas cidades e aldeias, pregando e anunciando as boas novas do Reino de Deus, e iam com ele os doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de, espíritos malignos e de enfermidades; Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios, Joana, mulher de Cusa, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais o serviam com os seus bens". (Lucas, VIII, 1-3)

"Era o dia da Parasceve (A sexta-feira, entre os judeus, dia em que eles se preparavam para celebrar o sábado. Na Liturgia Católica é a sexta-feira santa), e ia começar o sábado. E as mulheres que tinham vindo da Galileia com ele, seguindo a José, viram o túmulo e como o corpo de Jesus fora posto nele; voltando depois, prepararam aromas e bálsamos". (Lucas, XXIII, 54-56.)

"Maria, porém, estava junto à entrada do túmulo, chorando. E enquanto chorava, abaixou-se e olhou para dentro do túmulo, e viu dois anjos com vestes brancas, sentados onde o corpo de Jesus fora posto, um à cabeceira, outro aos pés. Eles lhe perguntaram: Mulher, porque choras? Respondeu ela:

Porque tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Tendo dito isto, virou-se para trás e viu a Jesus em pé, mas sem saber que era ele. Perguntou-lhe Jesus: Mulher por que choras? A quem procuras? Ela supondo ser o jardineiro, respondeu: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Disse-lhe Jesus: Maria! Ela virando-se disse-lhe:

Mestre! Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi contar aos discípulos: Vi o Senhor, e ele disse-me estas coisas!" (João, XX, 11- 18.)

Maria Madalena é a mulher de quem Jesus expeliu sete Espíritos maus. Cheia de gratidão pela graça que obtivera, vai à casa de Simão, sabendo que Jesus lá estava; sem se preocupar com a dignidade do fariseu, sem temer escândalos nem preconceitos, lança-se aos pés do divino Mestre e lhe oferece tudo o que tem: perfume, lágrimas, coração e Espírito! A extraordinária mulher não abandona mais o seu salvador: segue-o por toda parte acompanhada daquele préstito de mulheres que, como ela, haviam recebido graças e espalhavam sobre os passos do extraordinário Messias o eterno perfume das suas esperanças.

Lição profunda que precisa tornar-se conhecida para proveito de todos.

Não é só pela inteligência que o homem se eleva a Deus, mas também pelo coração, pelo sentimento.

O sentimento é a alma da virtude, é o motor das grandes ações.

É o sentimento que transforma e modela a alma; é ainda o sentimento que exprime todos os afetos puros, todas as gratidões imorredouras.

Tanto na mulher como no homem, o sentimento é a corda vibrátil das grandes emoções.

Platão, impulsionado pela palavra de Sócrates, põe de lado tudo o que é do mundo e com seu Mestre vai cultivar a beleza e a bondade, que sintetizam a sabedoria universal.

Madalena, arrebatada pelo amor de Jesus, renuncia aos gozos da Terra e segue os passos do galileu humilde, em sua alta missão de regeneração e redenção.

A palavra do moço da Galileia, repassada de doçura, cheia de mansidão, a arrebata, e com ele, inicia sua tarefa de caridade e de amor!

A doutrina Judaica, cheia mulheres, foi esmagada pelo Verbo poderoso de Deus!

Libertador da mulher, Cristo outorgou-lhe a missão de amar e profetizar; revestiu-a das faculdades preciosas do Espírito para a realização do divino desiderato de unir ambos os mundos, ambas as Humanidades: a Humanidade que se arrasta na Terra, e a Humanidade que flutua nos Céus!

A história de Maria de Magdala é a história da reabilitação da mulher; para o cumprimento de seus deveres cristãos, Jesus não faz seleção de sexo em seus trabalhos missionários. Ao contrário, acerca-se das mulheres, que, mesmo sem que ele falasse, pressentiam, naquela eminente figura, o Messias prometido.

A intuição lhes dizia, no fundo da alma, que elas estavam diante do Filho de Deus.

Não era preciso que Jesus lhes demonstrasse sua individualidade, que fizesse milagres e prodígios para que cressem: elas adivinhavam. E é sem dúvida por esse motivo que o Mestre, na folga de seus trabalhos missionários, tinha prazer em descansar na Aldeia de Betânia, onde, com especialidade, se hospedava em casa de Marta, Maria e Lázaro. Era ali que ele se abria em suas consolações mais doces e que, em amenas palestras, falava da vida de além-túmulo, cujos ensinos não ousava ainda confiar a seus discípulos.

Nos tempos primitivos havia um grande desprezo pela mulher.

A mulher era um ser secundário, sem primazia intelectual, entretanto, não podiam deixar de reconhecer na mulher um instrumento suscetível às manifestações psíquicas.

Quer da manifestação dos fenômenos de animismo, quer nos fenômenos propriamente espíritas, o sexo feminino sobrepuja o chamado sexo forte; é mais passível, mais dócil, mais dotado de sensibilidade, e, pois, de mediunidade.

Segundo afirmam diversos observadores, dentre estes Pitrés, um terço das mulheres é dotado de mediunidade, ao passo que no sexo masculino só um quinto de homens possui essa faculdade. (Não obstante, cumpre observar que a mediunidade existe em estado latente na quase totalidade das criaturas humanas, de ambos os sexos).

Em 360 pessoas magnetizadas por Bertillon, 265 eram mulheres, 50 homens, e 45 meninos. De um estudo feito em 17.000 indivíduos, a um, a mulher representa percentagem mediúnica de 12 por cento, ao passo que o homem não excede a 7 por cento, quase a metade. Que quer dizer esta estatística, se não que as mulheres são mais suscetíveis às coisas divinas que os homens? Os sacerdotes das antigas religiões, que eram profundos no estudo da alma, compreendiam muito bem o poder da mulher como intermediária entre o mundo visível e o invisível. E tanto isso é verdade que a mulher era escolhida para todos os fins de mediunidade.

O Oráculo de Delfos, tão famoso na História, era dirigido por sacerdotes, por homens, mas o exercício do mediunismo estava afeto às mulheres.

Entre os judeus, segundo refere o Velho Testamento, as mulheres mantinham relações com os Espíritos. Maria, irmã de Moisés, era profetiza, assim como Débora e Holda. No Endor, o Espírito de Samuel é evocado por uma mulher. Vemos no Novo Testamento que a profecia era exercida por mulheres, de preferência a homens.

O apóstolo Paulo chega a desligar e a adormecer a mediunidade de uma moça, que disso tirava proventos para seus senhores.

Na Galileia e na Betânia, as mulheres mereciam mais confiança para a profecia do que os homens.

Por fim, os sacerdotes deliberaram destituir a mulher, privando-as das suas funções proféticas. É possível que daí se originasse o vestuário e a raspagem do rosto dos padres.

O grande criminalista César Lombroso dedica um capítulo do seu livro Espiritismo e Hipnotismo a este fato, em verdade digno de exame.

Por que o padre usa batina? Por que o padre não usa barba e bigode?

Mas não entremos nestas indagações; continuemos com nosso tema, que é a libertação da mulher das peias materiais.

Maria, de Betânia, é uma figura saliente no Evangelho; seu amor acendrado por Jesus faz dela a verdadeira mulher espiritual. Muitos escritores sacros exaltam o nome de Maria

Madalena, e a própria Igreja chegou a santificá-la. São Modesto, grande prelado, diz que Madalena era a cabeça e diretora das pessoas de seu sexo, que iam após Jesus Cristo. No começo do século VIII, as Igrejas do Oriente e do Ocidente estabeleceram o culto a Madalena. Os religiosos gregos tributavam-lhe culto e a consideravam igual aos apóstolos.

De fato, a simpática figura, a quem dedicamos umas páginas do nosso livro, é digna da mais expressiva consideração e do mais acrisolado amor.

Se estudarmos a vida de Maria Madalena, veremos a extrema dedicação que ela votava a Jesus. O amor gentílico foi substituído, naquela criatura, pelo amor divino, e, por toda a parte ela segue, com rara abnegação, o seu salvador!

Em todos os passos dolorosos da vida do redentor, aparece Maria como o símbolo, a personificação da mulher espírita.

Arrastado ao calvário, Maria acompanha a Jesus: pregado este na cruz infamante, ela não o abandona: ajoelhada, de cabelos em desalinho, participa da agonia!

Jesus expira, lançam seu corpo num sepulcro; ela afasta-se, porque a isso é constrangida por soldados pretorianos; mas não se contém; enquanto uns fogem atemorizados e outros se escondem e temem, ela, a mulher extraordinária, não pensa em si mesma, não cogita dos males que lhe poderiam advir, mas prepara bálsamos perfumados e volta ao sepulcro para dar o seu testemunho de amor sincero àquele que lhe dera a vida da alma, deixando ver que, nem mesmo a morte tem poder para extinguir do seu espírito os sinceros afetos que devota a seu Mestre!

E foi então que, caminhando de um lado para outro, no paroxismo de sua dor, Maria é mais uma vez agraciada com a visão do seu Senhor, que, em voz maviosa chama-a pelo seu próprio nome: "Maria!"

Louca de júbilo, precipita-se aos pés de Jesus Espírito, e ele pede-lhe evitar o contato, porque não havia ainda dado conta ao Pai celestial da sua tarefa. Logo após, estando ela com outras santas mulheres, Jesus lhes aparece e dá-lhes a recomendação: "Ide e dizei a meus irmãos que partam para a Galileia, porque será lá que eles me verão".

E na mesma tarde a mensagem tem o seu cumprimento:

"Estando os onze reunidos, com as portas fechadas, viram Jesus entrar. Ele tomou o seu lugar entre eles, falou-lhes com doçura, increpando-os pela sua incredulidade, depois lhes disse: "Ide para Jerusalém, e não vos retireis de lá até que se cumpram os dias em que haveis de receber o Espírito, para depois sairdes por toda a parte a pregar o Evangelho".

Enfim, Madalena é o espelho no qual as mulheres cristãs devem mirar-se para serem felizes não só nesta vida como também na outra.

O Espiritismo, salientando o papel que Madalena desempenhou no Cristianismo, vem concorrer para a libertação da mulher, do fardo do mundo e do jugo das religiões sacerdotais. Vem garantir-lhe o direito do estudo, do livre-exame e até do apostolado.

É no trabalho espírita, porque não lhe faltam dons, que a mulher pode progredir com maior facilidade; é pelo estudo e pela instrução que ela se libertará do preconceito e das modas nefastas que a deprimem, tornando-a fator da concupiscência e da sensualidade.

O mundo se transforma; a mulher precisa renovar-se no Espírito do Cristo!

Dotada de sensibilidade e receptividade para as revelações do além, ela deve tornar-se dócil, estudar, instruir-se, para libertar-se do jugo da Igreja, e, consciente de seus deveres e de seus dons, auxiliar a obra de espiritualização, sob o influxo do Espírito da Verdade, encarregado de realizar, na Terra, o Reino de Deus.


Cairbar Schutel










Fonte: Parábolas e Ensinos de Jesus-pdf

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - Cap. 74 - A pluralidade das existências corpóreas



Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - Cap. 74


A pluralidade das existências corpóreas


“Os discípulos dirigem-se a Jesus e perguntam-lhe: Por que dizem os escribas que importa vir Elias primeiro? Jesus lhes responde: Elias certamente há de vir restabelecer todas as coisas. Eu, porém, vos digo que Elias já veio e eles não o conheceram, antes, fizeram dele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer em suas mãos.

Então conheceram seus discípulos que era de João Batista que ele lhes falava." (Mateus 17:10-13.)

A reencarnação é um dos princípios fundamentais do Cristianismo.

A ideia de que João Batista era o Espírito de Elias reencarnado, tornou-se tão firme nos discípulos de Jesus que não admitiam, absolutamente, dúvida a respeito. E é de notar que o Senhor não dissuadiu seus discípulos desse pensamento; ao contrário, confirmou-o categoricamente: “Se vós quereis bem compreender, João Batista é o Elias que há de vir." (Mateus 11:14-15).

E o Mestre acrescenta: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." No tempo de Jesus, como sói acontecer hoje, havia muita gente sem ouvidos para ouvir estas coisas; a Palavra do Nazareno era, pois, dirigida unicamente a quem tinha ouvidos para ouvir.

A reencarnação das almas, dissemos noutro capítulo, é a glorificação da Justiça Divina, ao passo que a doutrina da vida única destrói todos os atributos do Criador.

Além disso, essa doutrina salienta as qualidades boas ou más, como peculiares ao Espírito e não ao corpo e diz que, pelo progresso, os bons ficarão ainda melhores e os maus se tornarão bons, dependendo essas aquisições do trabalho que cada um de nós desenvolva para benefício próprio. O corpo não é mais que um agente, um instrumento para a manifestação dessas qualidades. Ao deixar o corpo, o Espírito leva consigo tudo o que tem de bom ou de mau, e, durante as sucessivas encarnações, ele se depura, expurgando a maldade e aperfeiçoando-se na bondade.

O Espírito é semelhante a um operário que empreita uma obra, e o corpo é o instrumento que ele usa para executar o serviço. Quando perde ou quebra a ferramenta, o operário adquire outra ou outras, até executar a obra; o Espírito, quando o corpo morre, toma outro corpo, ou outros corpos, tantos quantos sejam necessários para terminar a tarefa.

O Supremo Artífice do Universo dá a seus operários tantos instrumentos, tantos corpos quantos sejam necessários para que eles cumpram suas missões.

Bonita doutrina! dirão uns; belos ensinos! dirão outros; mas tudo isso não passa de palavras, palavras que soam bem, mas somente palavras; e perguntarão: “Se assim fosse certamente nos lembraríamos da nossa existência ou das nossas existências passadas.

Responderemos também com uma interrogação: quem pode penetrar nas profundezas do subconsciente?

A faculdade da memória tem sido assunto de estudo dos filósofos de todos os tempos e, atualmente, embora muita luz se tenha feito sobre essas dobras obscuras da consciência, a faculdade da memória tem seus caprichos que só depois de evoluirmos muito poderemos descobrir.

Por exemplo: nesta mesma existência alimentamo-nos no seio materno e não nos recordamos deste ato por nós mesmos praticado.

Mesmo depois de adultos, decoramos um discurso, uma poesia, que recitamos numa reunião, e no correr dos anos esquecemo-nos das palavras, das frases e até do tema sobre que versou aquela dissertação. Há fatos que ocorreram na nossa vida de que não temos a mais leve recordação!

Como lembrar-nos de fatos que se passaram em outras vidas, que tivemos com outros corpos, os quais, certamente, eram diferentes em perfeição dos que temos hoje?

O esquecimento do passado é necessário ao nosso bem-estar presente e ao nosso progresso; permite ação mais livre e nos ajuda a passar mais suavemente pelas provas a que nos submetemos.

Se todos conservassem a lembrança de existências passadas, com a nitidez que se deseja, essa lembrança, como é natural, associar-se-ia à recordação de todas as pessoas com quem vivemos e ficaríamos conhecendo não só a nossa vida anterior como a dos que nos cercam, principalmente se os seres com quem convivemos tivessem convivido conosco na precedente vida.

E o que resultaria daí?

Não é difícil prever a série de perturbações e contrariedades a que ficaríamos submetidos.

A vida de todos ficaria devassada para uns e outros.

Herodes ou Caifás, por exemplo, se estivessem em nosso meio, teria de suportar o desprezo de todos, e quem sabe se não lhes seria negado o pão e a água!

Suponhamos que se desse o caso de o leitor ser a reencarnação de Herodes, e de se recordar de sua existência ao tempo de Jesus. Não seria uma vida de prantos, de humilhação, de desespero que teria o amigo de passar, sem necessidade alguma, prejudicando até seus afazeres atuais e o seu progresso?

O perdão que Deus nos concede, é o esquecimento das faltas; se não houvesse esse esquecimento, viveríamos sob a dor pungitiva dos crimes praticados, pois é certo os praticamos, dada a inferioridade em que todos nos achamos. Não é o remorso que nos dilacera de dor?

Eis por que Deus, em seus altos desígnios, não permite que nos recordemos de nossas existências passadas.

Entretanto, alguns há que se lembram, não só da sua passada existência, como de diversas vidas que tiveram na Terra. Outros há a quem é revelada a existência anterior.

E não são poucos os que se recordam de sua vida transata. Teófilo Gautier, Alexandre Dumas, afirmaram ter-se recordado de suas existências passadas. Lamartine chegou a descrever lugares, rios, vales e a sua própria casa da Judeia, onde vivera em vida anterior, sem que nesses lugares tivesse estado na sua última existência.

Juliano, o Apóstata, afirmava ter sido Alexandre da Macedônia;

Pitágoras dizia recordar-se de várias existências, citando aquelas em que fora Herneotínio, Eufórbio e por fim um dos argonautas.

Não é preciso citar mais nomes.

Cada um de nós revela o que foi; por isso uns nascem com disposição para o bem, outros para o mal. O “pecado-original" consiste nos erros e faltas de nossa passada encarnação, erros que precisamos corrigir para obtermos a felicidade que desejamos. E Deus nos concede sempre meios e tempo para esse trabalho de aperfeiçoamento. O Senhor não apaga, a quem quer que seja, a lâmpada da esperança; os nossos trabalhos, as nossas dores, as nossas fadigas nunca são esquecidos pelo bom Deus.

Não cabe nesta obra outras considerações ainda mais persuasivas sobre o estudo da reencarnação em face da Ciência, por exemplo, o do Espiritismo Experimental. O leitor estudioso deve, a esse respeito, consultar os livros de Gabriel Dellanne: Evolução Anímica, O Espiritismo Ante a Ciência e A Reencarnação; de Léon Denis: No invisível e O Problema do Ser do Destino e da Dor, e de Rochas: As Vidas Sucessivas e a Exteriorização da Motilidade. 


Cairbar Schutel










quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Pág. 150 - Pobres de espírito e espíritos pobres



Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Pág. 150


Pobres de espírito e espíritos pobres


“Bem-aventurados os pobres de espírito, Reino dos Céus.” (Mateus, V, 3.)


Deus quer Espíritos ricos de amor e pobres de orgulho. Os “pobres de espírito” são os que não têm orgulho, os espíritos ricos são os que acumulam tesouros nos Céus, onde a traça não os rói e os ladrões não os alcançam.

Os “pobres de espírito” sãos os humildes, que nunca mostram saber o que sabem, e nunca dizem ter o que têm; a modéstia é o seu distintivo, porque os verdadeiros sábios são os que sabem que não sabem!

É por isso que a humildade se tornou cartão de ingresso no Reino dos Céus.

Sem a humildade, nenhuma virtude se mantém. A humildade é o propulsor de todas as grandes ações e rasgos de generosidade, seja na

Filosofia, na Arte, na Ciência, na Religião.

Bem-aventurados os humildes; deles é o Reino dos Céus!

Os humildes são simples no falar; sinceros e francos no agir; não fazem ostentação de saber nem de santidade; abominam os bajulados e servis e deles se compadecem.

A humildade é a virgem sem mácula que a todos discerne sem poder ser pelos homens discernida.

Tolerante em sua singeleza, compadece-se dos que pretendem afrontá-la com o seu orgulho; cala-se às palavras loucas dos papalvos; suporta a injustiça, mas folga com a verdade! 

A humildade respeita o homem, não pelos seus haveres, mas por suas virtudes. A pobreza de paixões, de vícios, de baixas condições que prendem ao mundo, e o desapego de efêmeras glórias, de egoísmo, de orgulho, amparam os viajores terrenos que caminham para a perfeição.

Foi esta a pobreza que Jesus proclamou: pobreza de sentimentos baixos, pobreza de caráter deprimido. Quantos pobres de bens terrenos julgam ser dignos do Reino dos Céus, e, entretanto, são almas obstinadas e endurecidas, são seres degradados que, sem coberta e sem pão, repudiam a Jesus e se fecham nos redutos de uma fé bastarda, que, em vez de esclarecer, obscurece, em vez de salvar, condena!

Não é a ignorância e a baixa condição que nos dão o Reino dos Céus, mas, sim, os atos nobres: a caridade, o amor, a aquisição de conhecimentos que nos permitam alargar o plano da vida em busca de mais vastos horizontes, além dos que avistamos!

Se da imbecilidade viesse a “pobreza de espírito” que dá o Reino dos Céus, os néscios, os cretinos, os loucos não seriam fustigados na outra vida, como nos dizem que são, quando de suas relações conosco.

Pobres de espírito são os simples e retos, e não os orgulhosos e velhacos; pobres de espírito são os bons que sabem amar a Deus e ao próximo, tanto quanto amam a si próprios.

Pobres de espírito são os que estudam com humildade, são os que sabem que não sabem, são os que imploram de Deus o amparo indispensável às suas almas.

Para estes é que Jesus disse: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” 


Cairbar Schutel











quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Pág. 146 - Cap. 2 - As Bem-Aventuranças - Um trecho do Sermão do Monte



Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Pág. 146 - Cap. 2 - As Bem-Aventuranças


Um trecho do Sermão do Monte


“Vendo Jesus a multidão, subiu ao monte; e depois de se ter sentado, aproximaram-se seus discípulos; e ele começou a ensiná-los, dizendo:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra.

“Bem-aventurados os que têm fome e sêde de justiça, porque eles serão fartos.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.

“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.

“Bem-aventurados os que têm sido perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.

“Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque grande é o vosso galardão nos Céus; pois assim perseguiram aos profetas que existiram antes de vós.” (Mateus, V, 1-12.)

No mundo há alegrias, porém mais existem dores e tristezas. Jó dizia que “o homem vive pouco tempo na Terra e a sua vida é cheia de tribulações”— Brevi vivens tempore repletur multis miserlis.

A Escritura chama à Terra um Vale de Lágrimas e compara a vida do homem à do operário que apenas à noite come o seu pão banhado de suor.

Sentimo-nos, neste mundo, vergados ao peso da dor; hoje, amanhã ou depois, ela não deixa de visitar-nos. O peso dos infortúnios acompanha a Humanidade em todos os séculos.

O homem vem ao mundo com um grito; um gemido de dor é o seu último suspiro!

Do berço ao túmulo, a estrada da vida está semeada de espinhos e banhada de lágrimas! Quantas ilusões, quantas amarguras, quantas dores passamos neste mundo!

A dor é uma lei semelhante à da morte; penetra no tugúrio do pobre como no palácio do rico. Neste mundo ainda atrasado, onde viemos progredir, a dor parece ser a sentinela avançada a nos despertar para a perfeição.

Max Nordau dizia: “Ide de cidade em cidade e batei de porta em porta; perguntai se ai está a felicidade, e todos vos responderão. Não; ela está muito longe de nós!”

Mas se é verdade que o Senhor permitiu que os sofrimentos nos assaltassem, não é menos verdade que também nos proporciona a Esperança, com que aguardamos dias melhores. “Bem-aventurados os que sofrem, pois serão consolados.”

A Esperança é a estrela que norteia as nossas mais belas aspirações; é a estrela que ilumina a noite tenebrosa da vida, e nos faz vislumbrar a estância de salvamento. A vida na Terra é um caminho que nos conduz às paragens luminosas da Vida Eterna; não é um repouso, mas uma preparação para 0 repouso.

Paulo, o Apostolo dos Gentios, recordando-nos numa das suas luminosas Epistolas a Vida Real, disse: “Dia virá em que despiremos a veste mortal para vestir a da imortalidade.  

Atravessamos a existência na Terra como o soldado atravessa um campo de fogo e de sangue, e os bravos e os fortes de espírito cravam nas muralhas o seu estandarte e levantam o grito de vitória! 

É isto o que nos ensina o Espiritismo com a sua consoladora Doutrina. 

Tomado de compaixão pelo mundo, o Cristo desce das alturas, senta-se sobre um alto monte, atrai a si multidões de desventurados e começa o seu monumental sermão com as consoladoras promessas:

"Bem-aventurados os pobres, os aflitos, os que choram, porque deles é o Reino dos Céus!” A “palavra boa”, a Esperança, proporciona sempre resignação, coragem e fé aos desiludidos das promessas do mundo

O homem que confia e espera em Deus, vê nos sofrimentos o resgate de suas faltas, o meio de se purificar da corrupção! É preciso ter fé, é preciso ter Esperança. Dizei ao moribundo que, em verdade’ não morrerá, e ele, animado pela vossa palavra, enfrentará a morte e não sofrerá o seu aguilhão!

A Esperança é a consolação dos aflitos, a companheira do exilado, a amiga dos desventurados, a mensageira das promessas do Cristo!

Perca o homem tudo: bens, fortuna, saúde, parentes, amigos, mas se a Esperança, Filha do Céu, o envolve, ele prossegue em sua ascensão para o bem, para a vida, para a Imortalidade!

Do alto do monte, tomado de tristeza pelas desventuras humanas, o Senhor ensinava às multidões os meios de conquistar, com o trabalho por que passavam, o Reino dos Céus. E a todos recomendava resignação na adversidade, mansidão nas lutas da vida, misericórdia no meio da tirania, e higiene de coração para que pudessem ver Deus.

Nessa autêntica oração, o Senhor já previa que seriam injuriados e perseguidos todos aqueles que, crendo na sua Palavra, encontrassem nela o arrimo para suas dores, o lenitivo para seus sofrimentos; mas recomenda, antecipadamente, não nos encolerizarmos com o mel que nos fizerem, para que seja grande o nosso galardão nos Céus. Disse mais: que exemplificássemos a nossa vida como os profetas que nos precederam, porque “bem-aventurados tem sido todos os que são perseguidos por causa da justiça”.

Lutemos contra a dor, aproveitando essa prova que nos foi oferecida, para a vitória do Espírito, liberto dos liames terrenos!

Empunhemos a espada da Fé e o escudo da Caridade, com todos os seus atributos, e o Reino de Deus florescerá em nós, como rogamos diariamente no Pai nosso, a prece que Jesus nos legou.


Cairbar Schutel










quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 1ª Parte - Cap. 31 - Parábola do filho pródigo



Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 1ª Parte - Cap. 31


Parábola do filho pródigo


“Um homem tinha dois filhos. Disse o mais moço a seu pai: Meu pai, dá-me a parte dos bens que me toca. E ele repartiu os seus haveres entre ambos. Poucos dias depois o filho mais moço ajuntando tudo o que era seu, partiu para um país longínquo e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele pais uma grande fome e ele começou a passar necessidades. Então foi encostar-se a um dos cidadãos daquele pais e este o mandou para seus campos a guardar porcos; ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Caindo, porém, em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão com fartura e eu aqui, morrendo de fome! Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros. E levantando-se foi a seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai viu-o e teve compaixão dele, e; correndo, o abraçou e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa e vesti-la, e ponde-lhe o anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também um novilho cevado, matai-o, comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou. E começaram a regozijar-se. Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e, quando voltou e foi chegando à casa, ouviu a música e a dança, e chamando os criados perguntou-lhes o que era aquilo. Um deles respondeu: Chegou teu irmão e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Então ele se indignou, e não queria entrar; e, sabendo disso, seu pai procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; mas, quando veio este teu filho que gastou teus bens com meretrizes, tu mandaste matar o novilho mais gordo. Respondeu-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo que é meu é teu; entretanto, cumpria regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, por que este teu irmão era morto e reviveu, estava perdido e se achou. " (Lucas 15:11-32.)

Esta Parábola imaginosa relatada pelo Evangelista Lucas é a doce e melodiosa Palavra de Jesus, dizendo aos homens da bondade sem limites, da caridade infinita de Deus!

Ambas as individualidades que representam o Filho Obediente e o Filho Desobediente simbolizam a Humanidade Terrestre.

O Pai de ambos aqueles filhos, simboliza Deus.

Uma pequena, pequeníssima parte da Humanidade personificada no Filho Obediente, se esforça por guardar a Lei Divina e permanece, portanto, na Casa do Pai. A outra parte personifica o Filho Desobediente, que, de posse dos haveres celestiais, dissipa todos esses bens e vive dissolutamente, até chegar ao extremo de ter de comer das alfarrobas que os porcos comem. Esse extremo é que o força a voltar à casa paterna, onde, acolhido com benemerência e conforto, volta a participar das regalias concedidas aos outros filhos.

Em resumo: esta simples alegoria, capaz de ser compreendida por uma criança, demonstra o amparo e a proteção que Deus sempre reserva a todos os seus filhos. Nenhum deles é abandonado pelo Pai Celestial, tenha os pecados que tiver, pratique as faltas que praticar, porque se é verdade que o filho chega a perder a condição de filho, o Pai nunca perde a condição de Pai para com todos, porque todos somos criaturas suas.

Estejam eles onde estiverem, quer no Mundo, quer no Espaço; quer neste planeta, quer em país longínquo, ou seja noutro planeta, com um corpo de carne ou com um corpo espiritual, o Pai a nenhum despreza, a nenhum abandona, porque nos criou para gozarmos da sua Luz, da sua Glória, do seu Amor!

O Pai Celestial não é o pai da carne e do sangue, pois como disse o Apóstolo: “a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus"; a carne e o sangue são corruptíveis, só o Espírito é incorruptível, só o Espírito permanece eternamente. O Pai Celestial é Espírito, é Deus de Verdade, Deus Vivo, por isso seus filhos também são Espíritos que permanecem na 1mortalidade.

A Luz, a Verdade, o Amor não foram criados para os corpos, mas sim para as almas.

Como poderia Deus criar um “filho pródigo", a não ser para que ele, depois de passar pela experiência dura do mal que praticou, voltar para o seu Criador, e, arrependido, propor o não mais ser perdulário, mas adaptar-se à Vontade Divina, e caminhar para os destinos felizes que lhe estão reservados!

Como poderia Deus criar uma alma ao lado de um Inferno Eterno!

Que pai é esse que produz filhos para mandá-los atormentar para sempre?

A Parábola do Filho Pródigo é a magnificência de Deus e ao mesmo tempo o solene e categórico protesto de Jesus contra a doutrina blasfema, caduca, irracional das penas eternas do Inferno, inventada pelos homens.

Não há sofrimentos eternos, não há dores infindáveis, não há castigos sem fim, porque se os mesmos fossem eternos, Deus não seria justo, sábio e misericordioso.

Há gozos eternos, há prazeres inextinguíveis, há felicidades indestrutíveis por todo o infinito, esplendores por toda a Criação, Amor por toda a Eternidade!

Erguei as vossas vistas para os céus. O que vedes? Um manto estrelado sobre vossas cabeças, chispas luminosas vos cercam de carícias; fulgurações multicores vos atraem para as regiões da felicidade e da luz!

Olhai para baixo, para a terra, para as águas: o que vedes? Essas chispas, essas luzes, essas estrelas, essas cintilações retratadas no espelho das águas, nas carolas das flores, nos tapetes verdejantes dos campos; porque das luzes nascem as cores, são elas que dão colorido às flores, que iluminam os campos, que agitam as águas!

Ó! homem, onde quer que estejas, se quiseres ver com os olhos do Espírito, verás a bondade e o amor de Deus animando e vivificando o Universo inteiro! Tanto em baixo como em cima, à esquerda como à direita, se abrires os olhos da razão, verás a mesma lei sábia, justa, equitativa, regendo o grão de areia e o gigantesco Sol que se baloiça no Espaço; o infusório que emerge, a gota d’água e o Espírito de Luz, que se eleva sereno às regiões bem-aventuradas da Paz!

A Lei de Deus é igual para todos: não poderia ser boa para o bom e má para o mau; porque tanto o que é bom quanto o que é mau estão sob as vistas do Supremo Criador, que faz do mau bom, e do bom melhor: pois tudo é criado para glorificar o seu Imaculado Nome!

Não há privilégios nem exclusões para Deus; para todos Ele faz nascer o seu Sol, para todos faz brilhar suas estrelas, para todos deu o dia e a noite; para todos faz descer a chuva!

Quando a criatura humana, num momento de irreflexão se afasta de Deus, e, dissipando os bens que o Criador a todos doou, se entrega a toda sorte de dissoluções, a dor e a miséria, esses terríveis aguilhões do Progresso Espiritual ferem rijo a sua alma orgulhosa até que, num momento supremo de angústia, ela possa elevar-se para Deus e deliberar reentrar no caminho da perfectibilidade. É então que, como o Filho Pródigo, o homem transviado, tocado pelo arrependimento, volta-se para o Pai carinhoso e diz: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. . . " E Deus, nosso amoroso Criador, que já o havia visto em caminho para d'Ele se aproximar e rogar, abre àquele filho as portas da regeneração e lhe faculta todas as dádivas, todos os dons necessários para esse grandioso trabalho da perfeição espiritual.

Está escrito no Evangelho que houve um banquete com música e festa à chegada do Filho Pródigo à Casa Paterna. Está escrito mais, que o Pai mandou ver a melhor roupa para vestir o filho que voltou, as melhores sandálias para lhes resguardar os pés e, ainda lhe colocou no dedo um belo anel, tal foi a alegria que teve, e tal é a alegria nos Céus, quando uma alma transviada, para os Céus se volta.

O Pai está sempre pronto a receber o Filho Pródigo, e os Céus estão sempre abertos à sua chegada Não há falta, por maior que seja, que não se possa reparar; assim como não há nódoa, por mais fixa que pareça, que não se possa apagar.

Tudo se retempera, tudo se corrige, tudo se transforma, do pequeno para o grande, do mau para o bom, das trevas para a luz, do erro para a verdade! Tudo limpa, tudo alveja, tudo reluz ao atrito do fogo sagrado do Progresso, tudo se aperfeiçoa, tudo evolui, todas as almas caminham para Deus!

Eis o que diz o Evangelho, mas o Evangelho de Jesus Cristo, o Evangelho do Amor a Deus e ao próximo.

Completando a Parábola, vemos que o Filho Pródigo recebeu os bens, saiu de casa, esbanjou-os dissolutamente numa vida desregrada. E o que não foi Pródigo, o Filho Obediente, por seu turno, enterrou seus bens, como aquele que enterrou o talento da Parábola.

O que diz o Evangelho que o Filho Obediente fez dos bens que possuía?

Ele vivia à custa do Pai, participava de todos os bens que havia em casa, e, com a chegada do irmão, ao ver a festa com que aquele foi recebido, entristeceu-se: cheio de egoísmo, de avareza, revoltou-se contra o Pai!

Infelizmente, é assim esta atrasada Humanidade! Ela se compõe de Filhos Pródigos e de Filhos Obedientes, mas estes parecem ser ainda piores que aqueles!

E tanto é verdade o que nos passa pela mente, que, ao concluir a Parábola, o Mestre exalta os pródigos que voltam e censura os obedientes que ficam, não só com os bens que receberam, como, também, com as paixões más de que não se querem despojar!

Mas a Humanidade progride, e este mundo passará a hierarquia mais elevada com a vinda de Espíritos melhores, que nos orientarão para o Bem e o Belo, para a realização total dos nossos destinos!


Cairbar Schutel











segunda-feira, 4 de julho de 2022

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Cap. 41 - Salvação pela Fé



Cairbar Schutel - Livro Parábolas e Ensinos de Jesus - 2ª Parte - Cap. 41


Salvação pela Fé
 

“E disseram os Apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé. O Senhor respondeu: se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este sicômoro: arranca-te e transplanta-te ao mar; e ele vos obedeceria. Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou guardando gado, quando ele voltar do campo lhe dirá: Vem já sentar-te à mesa; e que antes não lhe dirá: Prepara-me a ceia e cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo; e depois comerás tu e beberás. Porventura, agradecerá ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado?"
(Lucas 17:5-9.)

A Fé é O maior tesouro da alma.

A Fé é o grande ascensor, é a luz que ilumina os nossos destinos, enriquece a nossa inteligência e exalta o nosso coração. A Fé é o emblema da perfeição, é a insígnia do Poder.

Por isso disse Jesus a seus discípulos: “Se tivésseis Fé do tamanho de uma semente de mostarda, diríeis a este sícômoro: transplanta-te no mar, e ele vos obedeceria. " A Fé transplanta sicômoros e transporta montanhas.

A Fé é um cabedal que valoriza a alma, como o ouro segundo o mundo, valoriza o homem.

Na esfera material o homem vale pelo que tem. Na esfera espiritual cada um vale pela Fé que possui.

Assim como acontece no mundo material, acontece no mundo moral e psíquico.

No mundo terreno aparecem os haveres terrenos; no Mundo dos Espíritos, os haveres intelectuais e espirituais.

Para se possuir legalmente haveres da Terra, é indispensável o trabalho, o raciocínio, o esforço.

Para se adquirir a verdadeira Fé, haver maior que todos os haveres da Terra, também é indispensável o trabalho, o raciocínio, o estudo o esforço.

A prosperidade, quando não vem do latrocínio, do dolo, é produto do esforço do trabalho. A prosperidade espiritual é uma conquista do Espírito humano.

Os haveres materiais se resumem no dinheiro; os haveres espirituais se caracterizam pela firmeza da Fé, que motiva e sustenta a crença.

A Fé, por isso mesmo, é o tesouro que sustenta as finanças da Esperança e da Caridade.

O dinheiro facilita o bem estar físico. A Fé felicita o homem, não só espiritualmente, como também fisicamente.

Mas, assim como o dinheiro não se ganha sem o trabalho honesto, para que ele seja bem ganho, a Fé não se adquire sem grande esforço.

Que disse o Mestre, quando os discípulos lhe pediam lhes aumentasse a Fé? “Eu não posso dizer que vos senteis já à mesa e que comais. Trabalhai primeiramente: preparai a ceia, isto é, trabalhai; cingi-vos, ou seja, ilustraivos; servi-me para aprenderdes a fazer o que eu desejo. " A Fé não se compra nos templos de mercadores, nem nas feiras; não se dá por esmola, nem se adquire por herança.

As Graças caem dos Céus, como as chuvas; a Esperança brilha longínqua como um astro perdido no espaço infinito; a Caridade aquece, vivifica, ilumina e ampara como o Sol, mas a Fé só se obtém pelo cumprimento dos mais sagrados deveres, e, especialmente, pela aquisição de conhecimentos, pois, di-lo Allan Kardec: “Fé verdadeira é a que pode encarar a razão face a face, em qualquer época da Humanidade". É a “Fé racionar que o Espiritismo proporciona.

A Fé é substância, como substância é a semente de mostarda.

Todas as graças tem Deus concedido aos homens menos a Fé! Por isso se vê todas as religiões e todos os religiosos dessas religiões dotados de dons, a nos cativarem pela bondade, nos maravilharem por sua paciência, nos atraírem por sua caridade. Entretanto, em todas as religiões e entre todos os religiosos dessas religiões, notamos logo a ausência de Fé.

E por que assim acontece?

Porque a Fé não se adquire sem estudo, sem trabalho, sem o exame livre, sem o exercício do livre-arbítrio. E as religiões e os religiosos, em matéria de livre-exame, de livre-arbítrio para o estudo, são como os cegos em face da luz, são como os surdos em relação aos sons: por isso não têm Fé.

Quem lhes cega o entendimento?

O dogma, o orgulho de saber, o espírito preconcebido.

Quem lhes aferroa os ouvidos?

Onde há presunção de sabedoria, dogma, não há Fé, porque o dogma se mascara com a túnica da Fé e toma, usurpa o lugar da Fé.

Poderosa é a Fé para combater o dogma, assim como transporta montanhas e transplanta sicômoros; mas a Fé não se impõe pela força, a cada um foi dada a liberdade de abater o dogma, remover essa pedra que sepulta a alma humana.

Quando o Senhor proporcionou a recuperação de Lázaro, fê-lo com “a condição de os homens removerem a pedra do sepulcro.

A Fé não cabe num sepulcro com lápide.

Pediram os Apóstolos ao Senhor: “Aumentar-lhes a Fé" Que fez o Senhor?

Propôs-lhe a parábola: “Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura, ou guardando gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já sentar-te à minha mesa; e que antes não lhe dirá: prepara-me a ceia, cinge-te, serve-me enquanto eu como e bebo; e depois comerás tu e beberás?" A Fé é comida. A Fé é bebida. E assim como o comer e o beber não se obtêm sem o adquirir e o fazer, também a Fé não se conquista sem a aplicação de meios adequados à sua obtenção.

A Fé é a sabedoria consubstanciada no amor que nos conduz a Deus.

Esta é a Fé que salva!


Cairbar Schutel









terça-feira, 5 de outubro de 2021

Cairbar Schutel - Livro Parábolas e ensinos de Jesus - 1ª Parte - Cap. 24 - Parábola do Bom Samaritano




Cairbar Schutel - Livro Parábolas e ensinos de Jesus - 1ª Parte - Cap. 24


Parábola do Bom Samaritano


"Levantando-se um doutor da lei experimentou-o, dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Que é o que está escrito na lei? como lês tu? Respondeu ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda a sua alma, de toda a tua força e de todo o teu entendimento e ao próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: E quem é o meu próximo? Prosseguindo Jesus disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó; e caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despirem e espancarem, se retiraram, deixando-o meio morto. Por uma coincidência descia por aquele caminho um sacerdote; e quando o viu, passou de largo. Do mesmo modo também um levita, chegando ao lugar e vendo-o, passou de largo. Um samaritano, porém, que ia de viagem, aproximou-se do homem, e, vendo-o teve compaixão dele; e chegando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre seu animal, levou-o para uma hospedaria e tratou-o. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse: Trata-o, e quanto gastares de mais, na volta to pagarei. Qual destes três te parece ter sido o próximo da que que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu o doutor da lei: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai e faze tu o mesmo". (Lucas, X, 25-37)


Se examinarmos atentamente a Doutrina de Jesus, veremos em todos os seus princípios a exaltação da humildade e a humilhação do orgulho. 

As personalidades mais impressionantes e significativas de suas parábolas são sempre os pequenos, os humildes, os repudiados pelas seitas dominantes, os excomungados pela fúria e ódio sacerdotal, os acusados pelos doutores da lei. pelos rabinos, pelos fariseus e escribas do povo, em suma, os chamados heréticos e descrentes! Todos estes são os preferidos de Jesus, e julgados mais dignos do Reino dos Céus que os potentados da sua época, que os sacerdotes ministradores da lei, que os grandes, os orgulhosos, os representantes da alta sociedade!

Leiam a passagem da "mulher adúltera", a Parábola do Publicano e do Fariseu, a do Filho Pródigo, a da Ovelha Perdida, a do Administrador Infiel, a do Rico e o Lázaro; veja o encontro de Jesus com Zaqueu, ou com Maria de Betânia, que lhe ungiu os pés; a Parábola do Grão de Mostarda em contraposição à frondosa Figueira sem Frutos, e a do Tesouro Escondido em contraposição à dos tesouros terrenos e das ricas pedrarias que adornavam os sacerdotes! 

Esta afirmação se confirma com esta sentença do Mestre aos fariseus e doutores da lei: "Em verdade vos afirmo que as meretrizes e os pecadores vos precederão no Reino dos Céus."

E para melhor testemunho desta verdade, que aparece aos olhos de todos os que penetram o Evangelho em Espírito, do que esta Parábola do Bom Samaritano? 

Os samaritanos eram considerados heréticos aos olhos do judeus ortodoxos; por isso mesmo eram desprezados, anatematizados e perseguidos. 

Pois bem, esse que, segundo a afirmação dos sacerdotes era um descrente, um condenado, foi justamente o que Jesus escolheu como figura preeminente de sua parábola. O interessante ainda, é que a referida parábola foi proposta a um doutor da lei, a um judeu da alta sociedade que, para tentar o Mestre, foi inquiri-lo a respeito da vida eterna. 

O judeu doutor não ignorava os mandamentos, e como os podia ignorar se era doutor! Mas, com certeza, não os praticava! Conhecia a teoria, mas desconhecia a prática. O amor de toda a alma, de todo o coração, de todo o entendimento e de toda a força que o doutor judeu conhecia, não era ainda bastante para fazê-lo cumprir seus deveres para com Deus e o próximo. 

Amava, como amavam os fariseus, como os escribas amavam e como amam os sacerdotes atuais, os padres contemporâneos e os doutores da lei de nossos dias. Era um amor muito diferente e quiçá oposto ao que preconizou o Filho de Deus.

É o amor do sacerdote, que, vendo o pobre ferido, despido e espancado, quase morto, passou de largo; é o amor do levita (padre também da Tribo de Levi), que, vendo caído, ensanguentado, nu e arquejante à beira do caminho, por onde passava, um pobre homem, também se fez ao largo; é o amor dos egoístas, o amor dos que não compreenderam ainda o que é o amor; é o amor do sectário fanático que ama a abstração mas desama a realidade!

Salientando na sua parábola essas personalidades poderosas da sua época, e cujo exemplo é fielmente imitado pelo sacerdócio atual, quis Jesus fazer ver aos que lessem o seu Evangelho que a santidade dessa gente não chega ao mínimo do Reino dos Céus, ao passo que os excomungados pelas igrejas, que praticam o bem, se acham no caminho da vida eterna. 

De fato, quem é o meu próximo, se não o que necessita de meus serviços, de minha palavra, de meus cuidados, de minha proteção?

Não é preciso ser cristão para se saber isto que o próprio doutor da lei afirmou em resposta à interpretação de Jesus: "O próximo do ferido foi aquele que usou de misericórdia para com ele". Ao que Jesus disse, para lhe ensinar o que precisava fazer a fim de herdar a vida eterna: 

"Vai e faze tu a mesma coisa". 

O equivale a dizer: Não basta, nem é preciso ser doutor da lei, nem sacerdote, nem fariseu, nem católico, nem protestante, nem assistir a cultos ou cumprir mandamentos desta ou daquela igreja, para ter a vida eterna; basta ter coração, alma e cérebro, isto é, ter amor, porque o que verdadeiramente tem amor, há de auxiliar o seu próximo com tudo o que lhe for possível auxiliar: seja com dinheiro, seja moralmente ensinando os que não sabem, espiritualmente prodigalizando afetos e descerrando aos olhos do próximo as cortinas da vida eterna, onde o espírito sobrevive ao corpo, onde a vida sucede à morte, onde a palavra de Jesus triunfa dos preceitos e preconceitos sacerdotais!

Finalmente, a Parábola do Bom Samaritano refere-se verdadeiramente a Jesus; o viajante ferido é a Humanidade saqueada de seus bens espirituais e de sua liberdade, pelos poderosos do mundo; o sacerdote e o levita significam os padres das religiões que, em vez de tratarem dos interesses da coletividade, tratam dos interesses dogmáticos e do culto de suas igrejas; o samaritano que se aproximou e atou as feridas, deitando nelas azeite e vinho, é Jesus Cristo. O azeite é o símbolo da fé, o combustível que deve arder nessa lâmpada que dá claridade para a vida eterna - a sua doutrina; o vinho é o suco da vida, é o Espírito da sua palavra; os dois denários dados ao hospedeiro para tratar do doente, são a caridade e a sabedoria; o mais que o "enfermeiro" gastar, resume-se na abnegação, nas vigílias, na paciência, na dedicação, cujos feitos serão todos recompensados. Enfim, o hospedeiro representa os que receberam os seus ensinos e os "denários" para cuidarem do "viajante ferido e saqueado".


Cairbar Schutel