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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Emmanuel - Livro Obreiros da Vida Eterna - André Luiz / Chico Xavier - Introdução - Rasgando véus



Emmanuel - Livro Obreiros da Vida Eterna - André Luiz / Chico Xavier - Introdução


Rasgando véus


O homem moderno, pesquisador da estratosfera e do subsolo, esbarra, ante os pórticos do sepulcro, com a mesma aflição dos egípcios, dos gregos e dos romanos de épocas recuadas. Os séculos que varreram civilizações e refundiram povos, não transformaram a misteriosa fisionomia da sepultura.  

Milenário ponto de interrogação, a morte continua ferindo sentimentos e torturando inteligências.

Em todas as escolas religiosas, a Teologia, representando as diretrizes de patriarcas veneráveis da fé, procura controlar o campo emotivo dos crentes, acomodando os interesses imediatistas da alma encarnada. Para isso, criou regiões definidas, tentando padronizar as determinações de Deus pelos decretos dos reis medievais, lavrados à base de audaciosa ingenuidade.

Indubitavelmente, províncias de angústia punitiva e dor reparadora existem nas mais variadas dimensões do Universo, assim como vibram consciências escuras e terríveis nos múltiplos estados sociais; no entanto, o serviço teológico, nesse sentido, não obstante respeitável, atento ao dogmatismo tradicional e aos interesses do sacerdócio, estabelece o “non plus ultra”, que não atende às exigências do cérebro, nem aos anseios do coração.

Como transferir imediatamente para o inferno a mísera criatura que se emaranhou no mal por simples influência da ignorância? Que se dará, em nome da Sabedoria Divina, ao homem primitivo, sedento de dominação e de caça? A maldição ou o alfabeto? Por que processo conduzir ao abismo tenebroso o Espírito menos feliz, que apenas obteve contato com a verdade, no justo momento de abandonar o corpo? 

Dentro das mesmas razões, como promover ao Céu, em caráter definitivo, o discípulo do bem, que apenas se iniciou na prática da virtude? Que gênero de tarefa caracterizará o movimento das almas redimidas, na Corte Celestial? Formar-se-iam apóstolos tão só para a aposentadoria compulsória? Como haver-se, no paraíso, o pai carinhoso cujos filhos fossem entregues a Satã? Que alegria se reservará à esposa dedicada e fiel, que tem o esposo nas chamas consumidoras?

Estaria a Autoridade Divina, perfeita e ilimitada, tão pobre de recursos, a ponto de impedir, além do Plano carnal, o benefício da cooperação legítima, que as autoridades falíveis e deficientes do mundo incentivam e protegem?  

Negar-se-iam possibilidades de evolução aos que atravessam a porta do sepulcro, em plena vida maior, quando na Esfera terrestre, sob limitações de vária ordens, há caminhos evolutivos para todas as formas e todos os seres?  

A palavra “trabalho” seria desconhecida nos Céus, quando a Natureza terrena reparte missões claras de serviço, com todas as criaturas da Crosta Planetária, desde o verme até o homem? 

Como justificar um inferno onde as almas gemessem distantes de qualquer esperança, quando, entre os homens imperfeitos, ao influxo renovador do Evangelho de Jesus Cristo, as penitenciárias são hoje grandes escolas de regeneração e cura psíquica?

E por que meios admitir um Céu, onde o egoísmo recebesse consagração absoluta, no gozo infinito dos contemplados pela graça, sem nenhuma compaixão pelos deserdados do favor, que caíram, ingênuos, nas armadilhas do sofrimento, se, entre as mais remotas coletividades de obscuras zonas carnais, se arregimentam legiões de assistência fraterna amparando ignorantes e infelizes?

São interrogações oportunas para os teólogos sinceros da atualidade. Não, contudo, para os que tentam conjugar esforços na solução do grande e indevassado problema da Humanidade.

O Espiritismo começou o inapreciável trabalho de positivar a continuação da vida além da morte, fenômeno natural do caminho de ascensão. 

Esferas múltiplas de atividade espiritual interpenetram-se nos diversos setores da existência. 

A morte não extingue a colaboração amiga, o amparo mútuo, a intercessão confortadora, o serviço evolutivo. 

As dimensões vibratórias do Universo são infinitas, como infinitos são os mundos que povoam a Imensidade.

Ninguém morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte.

A vida renova, purifica e eleva os quadros múltiplos de seus servidores, conduzindo-os, vitoriosa e bela, à União Suprema com a Divindade.

Apresentando o novo trabalho, em que André Luiz comparece rasgando véus, lembramo-nos de que Allan Kardec, o inesquecível codificador, refere-se várias vezes, em sua obra, à erraticidade, onde estaciona considerável número de criaturas humanas desencarnadas. 

Acresce notar, todavia, que transferir-se alguém da Esfera carnal para a erraticidade não significa, ausentar-se da iniciativa ou da responsabilidade, nem vaguear em turbilhão aéreo, sem diretivas essenciais. 

No mesmo critério, observaríamos os que renascem no Plano denso como pessoas transferidas da vida espiritual à materialidade, não simbolizando semelhante figura qualquer imersão inconsciente e estúpida nas correntes carnais. 

Como acontece aos que chegam à Crosta da Terra, os que saem dela encontram igualmente sociedades e instituições, templos e lares, onde o progresso continua para frente e para o Alto.

No limiar deste livro, portanto, cumpre-nos declarar que André Luiz procurou fornecer algumas notícias das zonas de erraticidade que envolvem a crosta do mundo, em todas as direções, comentando os quadros emocionais que se transportam do ambiente obscuro para as esferas imediatas às cogitações e paixões humanas;  mais uma vez, esclarece que a morte é campo de sequência, sem ser fonte milagreira, que aqui ou além o homem é fruto de si mesmo, e que as leis divinas são eternas organizações de justiça e ordem, equilíbrio e evolução.

Naturalmente, a estranheza visitará os companheiros menos avisados e o sorriso irônico surgirá, sem dúvida, na boca, quase sempre brilhante, dos impenitentes incorrigíveis. Não importa, porém. Jesus, que é o Cristo de Deus, recebeu manifestações de sarcasmo da ignorância e da leviandade… Por que motivo, nós outros, simples cooperadores de “outro mundo”, teríamos de ser intangíveis?

Prossigamos, pois, no serviço da verdade e do bem, cheios de otimismo e bom ânimo, a caminho de Jesus, com Jesus.


Emmanuel


Pedro Leopoldo, 25 de março de 1946.










sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 1 - Convite ao bem



André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 1


Convite ao bem


Antes de iniciar os trabalhos de nossa expedição socorrista, o Assistente Jerônimo conduziu-nos ao Templo da Paz, [1] na zona consagrada ao serviço de auxílio, onde esclarecido instrutor comentaria as necessidades de cooperação junto às entidades infelizes, nos Círculos mais baixos da vida espiritual que rodeiam a Crosta da Terra.

A maravilhosa noite derramava inspirações divinas.

Ao longe, constelações faiscantes semelhavam-se a pérolas caprichosamente dispostas numa colcha de veludo imensamente azul. 

A paisagem lunar oferecia detalhes encantadores. Picos e crateras salientavam-se à nossa vista, embora, a considerável distância, num deslumbramento de filigrana preciosa. 

Fulgurava o Cruzeiro do Sul como símbolo sublime, desenhado ao fundo azul-escuro do firmamento. Canópus, Sírius, Antares brilhavam, infinitamente, figurando-se-nos batizas radiosas e significativas do céu. 

A Via Láctea, dando-nos a impressão de prodigioso ninho de mundos, parecia um dilúvio de moedas resplandecentes a se derramarem de cornucópia gigantesca e invisível, convidando-nos a meditar nos segredos excelsos da Natureza divina. 

E as suaves virações noturnas, osculando-nos a mente em êxtase, passavam apressadas, sussurrando-nos grandiosos pensamentos, antes de se dirigirem às Esferas distantes…

O Templo, edificado no sopé de graciosa colina, apresentava aspecto festivo, em virtude da iluminação feérica a projetar singulares efeitos nos caminhos adjacentes. As torres, à maneira de agulhas brilhantes, alongavam-se pelo céu, contrastando com o indefinível azul da noite clara e, cá em baixo, as flores de variadas figurações eram taças luminosas, servindo luz e perfume, balouçando, de leve, na folhagem, ao sopro incessante do vento.

Não éramos os únicos interessados na palestra da noite, porque numerosos grupos de irmãos se dirigiam ao interior, acomodando-se no recinto. Eram entidades de todas as condições, fazendo-nos sentir o geral interesse pelas lições em perspectiva.

Seguíamos, o Assistente Jerônimo, o padre Hipólito, a enfermeira Luciana e eu, constituindo pequena equipe de trabalho, incumbida de operar na Crosta Planetária, durante trinta dias, aproximadamente, em caráter de auxílio e estudo, com vistas ao nosso desenvolvimento espiritual.

Jerônimo, o orientador de nossas atividades pela nobreza de sua posição, percebendo-me a curiosidade perante as movimentadas conversações em derredor, explicou, gentil:

— Muito justa a atenção, em torno do assunto. Admito que a quase totalidade dos interessados e estudiosos que afluem à casa integram comissões e agrupamentos de socorro nas regiões menos evolvidas.

E demorando o olhar nas fileiras de jovens e velhos que demandavam o interior, acrescentou:

— A palavra do Instrutor Albano Metelo merece a consideração excepcional da noite. Trata-se dum campeão das tarefas de auxílio aos ignorantes e sofredores dos Círculos imediatos à Crosta Terrestre. Somos aqui diversos grupos de aprendizes, e a experiência dele nos proporcionará infinito bem.

Breves minutos decorreram e penetramos, por nossa vez, o recinto radioso.

Vagavam no ar suaves melodias, precedendo a palavra orientadora. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsamavam a nave ampla.

Alguns instantes agradabilíssimos de espera e o emissário apareceu na tribuna simples, magnificamente iluminada. Era um ancião de porte respeitável, cujos cabelos lhe teciam uma coroa de neve luminosa. De seus olhos calmos, esplendidamente lúcidos, irradiavam-se forças simpáticas que de súbito nos dominaram os corações. 

Depois de estender sobre nós a mão amiga, num gesto de quem abençoa, ouviu-se o coro do Templo entoando o hino “Glória aos Servos Fiéis”:

Ó Senhor!

Abençoa os teus servos fiéis,

Mensageiros de tua paz,

Semeadores de tua esperança.

Onde haja sombras de dor,

Acende-lhes a lâmpada da alegria;

Onde domine o mal, ameaçando a obra do bem,

Abre-lhes a porta oculta de tua misericórdia;

Onde surjam acúleos do ódio,

Auxilia-nos a cultivar as flores bem-aventuradas de teu sacrossanto amor!

Senhor! São eles

Teus heróis anônimos,

Que removem pântanos e espinheiros,

Cooperando em tua divina semeadura…

Concede-lhes os júbilos interiores,

Da claridade sagrada em que se banham as almas redimidas;

Unge-lhes o coração com a harmonia celeste

Que reservas ao ouvido santificado;

Descortina-lhes as visões gloriosas

Que guardas para os olhos dos justos;

Condecora-lhes o peito com as estrelas da virtude leal…

Enche-lhes as mãos de dádivas benditas

Para que repartam em teu nome

A lei do bem,

A luz da perfeição,

O alimento do amor,

A veste da sabedoria,

A alegria da paz,

A força da fé,

O influxo da coragem,

A graça da esperança,

O remédio retificador!…

Ó Senhor,

Inspiração de nossas vidas,

Mestre de nossos corações,

Refúgio dos séculos terrestres!

Faze brilhar teus divinos lauréis

E teus eternos dons,

Na fronte lúcida dos bons

Os teus servos fiéis!

O Instrutor ouviu, em silêncio, de olhos molhados, deixando transparecer íntimo júbilo, enquanto a maioria da assembleia disfarçava discretamente as lágrimas que os acentos harmoniosos do cântico nos arrancavam do coração.

Em se perdendo no espaço as derradeiras notas da melodia sublime, Metelo, sem qualquer luxo de gesticulação, saudou-nos com expressiva simplicidade, desejando-nos a Paz do Senhor, e prosseguiu:

— Não mereço, amigos, o preito de carinho desta noite. Não tenho servido fielmente Aquele que nos ama desde o princípio e, por isso, vosso hino confunde-me. Mero soldado das lides evangélicas, trabalho ainda no campo da própria redenção.

Fez ligeira pausa, fitou-nos, paternal, e continuou:

— Mas… a minha personalidade não interessa. Venho falar-vos de nossos trabalhos singelos, nas regiões espirituais ligadas à Crosta da Terra. Ó meus irmãos! É necessário apelar para as nossas energias mais recônditas. As zonas purgatoriais multiplicam-se, assustadoramente, em derredor dos homens encarnados. 

À distância dos teatros de angústia, vinculados às realizações edificantes de nossa colônia espiritual, preservando valiosas reservas da vida infinita para essa mesma Humanidade que se debate no sofrimento e nas trevas, nem sempre formulamos uma ideia exata da ignorância e da dor que atormentam a mente humana, quanto aos problemas da morte. 

A felicidade faz que nasçam aqui as fontes inesgotáveis da esperança. Os que se preparam, ante os voos maiores da Eternidade, trazem os olhos voltados para a Esfera Superior, na contemplação do ilimitado porvir, e os que se esforçam por merecer a bênção da reencarnação na Crosta Terrestre, fixam as suas aspirações mais fortes no soberano propósito de redenção, organizando-se perante o futuro, ousados nas solicitações de trabalho e arrojados no bom ânimo. 

Todos os pormenores da vida, nesta cidade, falam alto de nossos objetivos de equilíbrio e elevação. Não longe de nós, começam a brilhar os raios da alvorada radiante dos mundos melhores, convidando-nos à visão beatífica do Universo e à gloriosa união com o Divino. 

Mas… — o orador fez significativo intervalo, parecendo escutar vozes e chamamentos de paisagens distantes, e prosseguiu; — e os nossos irmãos que ainda ignoram a luz? Subiríamos até Deus, num círculo fechado? Como operar o insulamento egoístico e partir a caminho do Pai Amoroso e Leal que acende o Sol para os santos e os criminosos, para os justos e injustos?

Metelo mostrou uma chama de zelo sagrado nos olhos percucientes e exclamou, depois de curta reflexão:

— Nós, que procuramos a santidade e a justiça, alcançaríamos, acaso, semelhante orientação, se outras fossem as circunstâncias que nos regeram até aqui? Construtores de nossos próprios destinos, por delegação natural do Criador, onde permaneceríamos, agora, sem os favores da oportunidade e o obséquio da proteção de benfeitores desvelados? 

Indubitavelmente, os ensejos de elevação felicitam todas as criaturas; no entanto, é imprescindível ponderar que a bênção da fonte pode converter-se em venenosa água estagnada, se a trancamos num poço incomunicável. 

E as dádivas recebidas por nós são inúmeras e os dons que nos foram distribuídos, imensos… Seria completo o nosso regozijo, havendo lágrimas atrás de nossos passos? Como entoar hinos de hosana à felicidade sobre o coro dos soluços? Nobilíssimo, todo impulso de atingir o cume; entretanto, que veremos após a ascensão? Entre os júbilos de alguns, identificaríamos a ruína e a miséria de multidões incalculáveis!…

Nesse momento, envolvido nas vibrações de profundo interesse dos ouvintes, imprimiu novo acento ao verbo luminoso e tornou com indefinível melancolia:

— Também eu tive noutro tempo a obcecação de buscar apressado a montanha. A Luz de cima fascinava-me e rompi todos os laços que me retinham embaixo, encetando dificilmente a jornada. A princípio, feri-me nos espinhos pontiagudos da senda, experimentei atrozes desenganos… 

Consegui, porém, vencer os óbices imediatos e ganhei, jubiloso, pequenina eminência. Em me voltando, todavia, espantou-me a visão terrífica do vale: o sofrimento e a ignorância dominavam em plena treva. 

Desencarnados e encarnados lutavam uns contra os outros, em combates gigantescos, disputando gratificações dos sentidos animalizados. O ódio criava moléstias repugnantes, o egoísmo abafava impulsos nobres, a vaidade operava horrenda cegueira… 

Cheguei a sentir-me feliz, diante da posição que me distanciava de tamanhas angústias. Contudo, quando mais me vangloriava, dentro de mim mesmo, embalado na expectativa de atravessar mais altos cumes, eis que, certa noite, notei que o vale se represava de fulgente luz. 

Que sol misericordioso visitava o antro sombrio da dor? Seres angélicos desciam, céleres, de radiosos pináculos, acorrendo às zonas mais baixas, obedecendo ao poder de atração da claridade bendita. 

“Que acontecera?” — perguntei ousadamente, interpelando um dos áulicos celestiais. — “O Senhor Jesus visita hoje os que erram nas trevas do mundo, libertando consciências escravizadas”. 

Nem mais uma palavra. O mensageiro do Plano Divino não podia conceder-me mais tempo. Urgia descer para colaborar com o Mestre do Amor, diminuindo os desastres das quedas morais, amenizando padecimentos, pensando feridas, secando lágrimas, atenuando o mal, e, sobretudo, abrindo horizontes novos à Ciência e à Religião, de modo a desfazer a multimilenária noite da ignorância. 

Novamente sozinho, na peregrinação para o Alto, reconsiderei a atitude que me fizera impaciente. Em verdade, para onde marchava meu Espírito, despreocupado da imensa família humana, junto da qual haurira minhas mais ricas aquisições para a vida imortal? Porque enojar-me, ante o vale, se o próprio Jesus, que me centralizava as aspirações, trabalhava, solícito, para que a Luz de Cima penetrasse as entranhas da Terra? Não praticava eu o crime execrável da usura, olvidando aqueles entre os quais adquirira o roteiro destinado à minha própria ascensão? Como subir sozinho, organizando um céu exclusivo para minh'alma, lastimavelmente abstraído dos valores da cooperação que o mundo me prodigalizava com generosidade e abundância?

Mostrava-se o Instrutor intensamente comovido.

— Detive-me, então, — continuou, — e voltei. Efetivamente, o caminho vertical e purificador da superioridade é a sublime destinação de todos. O cume, bafejado de resplendor solar, é sempre um desafio benéfico aos que vagueiam sem rumo, na planície. O alto polariza, naturalmente, as supremas esperanças dos que ainda permanecem em baixo… 

Todavia, à medida que penetramos o domínio da altura, imprimem-se-nos na mente e no coração as leis sublimes de fraternidade e misericórdia. Os grandes orientadores da Humanidade não mediram a própria grandeza senão pela capacidade de regressar aos círculos da ignorância para exemplificarem o amor e a sabedoria, a renúncia e o perdão aos semelhantes. 

É por esse motivo que necessitamos temperar todo impulso de elevação com o sal do entendimento, evitando a precipitação nos despenhadeiros do egoísmo e da vaidade fatais.

Metelo silenciou por instantes e, diante da comoção com que lhe acompanhávamos a palestra, retomou o verbo com outra inflexão de voz:

— Outrora, quando nos envolvíamos ainda nos fluidos da carne terrestre, supúnhamos com desacerto que a vaidade e o egoísmo somente poderiam vitimar os homens encarnados. 

A Teologia, não obstante o ministério respeitável que lhe está afeto, enclausurava-nos a mente em fantasiosas concepções do reino da verdade. Esperávamos um paraíso fácil de ser conquistado pela deficiência humana e temíamos um inferno difícil de regenerar-nos. Nossas ideias alusivas à morte confinavam-se a essas ridículas limitações. 

Hoje, porém, sabemos que, depois do túmulo, há simplesmente continuação da vida. Céu e inferno residem dentro de nós mesmos.

A virtude e o defeito, a manifestação sublime e o impulso animal, o equilíbrio e a desarmonia, o esforço de elevação e a probabilidade da queda perseveram aqui, após o trânsito do sepulcro, compelindo-nos à serenidade e à prudência. 

Não nos encontramos senão em outro campo de matéria variada, noutros domínios vibratórios do próprio Planeta em cuja Crosta tivemos experiências quase inumeráveis. 

Como não equilibrar, portanto, o coração no exercício efetivo da solidariedade? Logicamente não exortamos ninguém a novos mergulhos no lodo antigo, não desejamos que os companheiros previdentes regressem à posição de filhos pródigos, distanciados voluntariamente do Eterno Pai, nem pretendemos interromper a marcha laboriosa dos servidores de boa vontade, a caminho dos Cimos da Vida. 

Apelamos tão só no sentido de cooperardes nos trabalhos de socorro às Esferas escuras. Sois livres e dispondes de tempo, no desempenho dos deveres nobilitantes a que fostes chamados em nossa colônia espiritual. Nada mais razoável que o proveito da oportunidade no planejamento da ascese. 

Entretanto, na qualidade de velho cooperador das tarefas de auxílio, ousamos rogar vosso interesse generalizado pelos que erram “no vale da sombra e da morte”, aguardando a esmola possível de vosso tempo, em favor dos nossos semelhantes, defrontados agora por situações menos felizes, não em virtude dos desígnios divinos, mas em razão da imprevidência deles mesmos. Contudo, qual de nós não foi invigilante algum dia?

Fez o orador uma pausa mais longa e continuou:

— De nossos amigos encarnados não podemos esperar, por enquanto, concurso maior e mais eficiente nesse sentido. Presos nas grades sensoriais, progridem lentamente na aprendizagem das leis que regem a matéria e a energia. 

Quando convidados a visitar nossos Círculos de edificação, fora da instrumentalidade fisiológica, regressam ao corpo assombrados pelas visões rápidas que lhes foi possível arquivar e, em transmitindo suas lembranças aos contemporâneos, operam a coloração da água simples e pura da verdade com os seus “pontos de vista” e predileções pessoais no terreno da Ciência, da Filosofia e da Religião. 

Bernardin de Saint-Pierre, o romancista trazido por amigos a regiões vizinhas da Crosta Planetária, volta ao seu meio de ação e traça aspectos que asseverou pertencerem ao Planeta Vênus. 

Huyghens, o astrônomo, recebe mentalmente algum noticiário de nossas Esferas de luta e ensaia teorias referentes à vida em outros mundos, afirmando que os processos biológicos nos orbes distantes são absolutamente análogos aos da Crosta da Terra. 

Teresa d’Ávila, a religiosa santificada, transporta-se à paisagem de nosso Plano onde se lamentam almas sofredoras, e torna ao corpo carnal, descrevendo o inferno para os seus ouvintes e leitores. 

Swedenborg, o grande médium, percorre alguns trechos de nossas zonas de ação e pinta os costumes das “habitações astrais” como melhor lhe parece, imprimindo às narrações os fortes característicos de suas concepções individuais. 

Quase todos os que vieram momentaneamente ao nosso campo de trabalho voltam ao esforço humano, exibindo a experiência de que foram objeto, pincelando-a com a tinta de suas inclinações e estados psíquicos. 

Porque se encontram fundamente arraigados ao “chão inferior” do próprio “eu”, acreditam enxergar outros mundos em situações iguais à da Terra, nosso maravilhoso templo, cujas dependências não se restringem à Esfera da Crosta sobre a qual os homens de carne pousam os pés. 

A Terra é também nossa grande mãe, cujos braços acolhedores se estendem pelo espaço além, ofertando-nos outros campos de aprimoramento e redenção.

Modificando a inflexão de voz, prosseguiu:

— As criaturas, porém, atravessam breve período de existência no mundo carnal. A maioria demora-se nas estações expiatórias do resgate difícil e confunde-se nas vibrações perturbadoras do sofrimento e do medo. 

Fazem da morte uma deusa sinistra. Apresentam o fenômeno natural da renovação com as mais negras cores. Agarradas às sensações do dia que passa, ignoram como dilatar a esperança e transformam a separação provisória numa terrível noite de amarguroso adeus. 

Vítimas da ignorância em que se comprazem, internam-se em florestas de sombras, onde perdem toda a paz, convertendo-se em presas delirantes dos infernos de horror, criados por elas mesmas nos desvairamentos passionais. 

Como esperar delas a colaboração precisa, com a extensão desejável, se, pela indiferença para com os próprios destinos, mergulham-se diariamente nos rios de treva, desencanto e pavor? Unamo-nos portanto, auxiliando-as, segundo os preceitos evangélicos, descortinando-lhes novos horizontes e aclarando-lhes os caminhos evolutivos.

De olhos fulgurantes e neblinados de lágrimas, pela evocação talvez de quadros das Esferas sombrias, que não nos eram dado conhecer, Metelo manteve-se longos instantes em silêncio, voltando a dizer em tom de súplica:

— Recordemos o Divino Mestre e não desdenhemos a honra de servir, não de acordo com os nossos caprichos pessoais, porém de conformidade com os seus desígnios e suas leis. Campos imensuráveis de trabalho aguardam-nos a cooperação fraterna e a semeadura do bem produzirá nossa felicidade sem fim!…

Falou, comovedoramente, por mais alguns minutos, e, em seguida, invocou as Forças Divinas, arrancando-nos lágrimas de intraduzível alegria.

Raios de claridade azul-brilhante choveram no recinto, proporcionando-nos a resposta do Plano Superior.

Transcorridos alguns momentos de meditação, Metelo fez exibir num grande globo de substância leitosa, situado na parte central do Templo, vários quadros vivos do seu campo de ação nas zonas inferiores.

Tratava-se da fotografia animada, com apresentação de todos os sons e minúcias anatômicas inerentes às cenas observadas por ele, em seu ministério de bondade cristã.

Infelizes desencarnados, em despenhadeiros de dor, imploravam piedade. Monstros de variadas espécies, desafiando as antigas descrições mitológicas, compareciam horripilantes, ao pé de vítimas desventuradas.

As paisagens, analisadas de tão perto, através do avançado processo de fixação das imagens, não somente emocionavam: infundiam terror. Na intimidade da massa leitosa, em que eram lançadas, adquiriam expressões de vivacidade indescritível. Apareciam soturnas procissões de seres humanos despojados do corpo, sob céus nevoentos e ameaçadores, cortados de cataclismos de natureza magnética.

Pela primeira vez, contemplava eu semelhante demonstração, sem disfarçar a emoção. Para onde se dirigiam aquelas fileiras imensas de Espíritos sofredores? Como se sustentariam os ajuntamentos de almas desalentadas e semi-inconscientes, que me era dado divisar ali, ante os meus olhos tomados de assombro, atoladas em poços escuros de lama e padecimento?

Em dado instante, a voz do Instrutor quebrou o silêncio. Diante dum quadro extremamente doloroso, exclamou em voz firme:

— Muitos de vós sabeis que tenho nesses centros expiatórios os que me foram pais bem-amados na derradeira experiência vivida na carne, prisioneiros ainda de torturantes recordações; no entanto, crede, não nos move qualquer propósito egoístico nas tarefas de auxílio, porque temos aprendido com o Senhor que a nossa família se encontra em toda parte.

Observei que ninguém ousou voltar-se para Metelo em seu testemunho de humildade. Comovidíssimo, por minha vez, ante a demonstração de entendimento evangélico a que assistia, notei o olhar expressivo que o Assistente Jerônimo me endereçou, ao término do noticiário animado e sonoro e procurei alijar de mim mesmo a preocupação de algo saber, acerca do drama particular do orientador, anulando meus inferiores impulsos de mera curiosidade.

Findos os trabalhos, que ocuparam pouco mais de duas horas, inclusive a palestra instrutiva, vários grupos eram apresentados ao Instrutor, por um dos dirigentes do Templo.

Tive a impressão de que a assembleia em sua feição quase integral era constituída de legítimos interessados nos trabalhos espontâneos de ajuda ao próximo. 

Pelas saudações e pelas frases de que se faziam acompanhar, percebi que se aglomeravam, no recinto, grandes e pequenos conjuntos de servidores, em diversas missões, com objetivos múltiplos. 

Consagravam-se alguns ao amparo de criminosos desencarnados, outros ao socorro de mães aflitas, colhidas inesperadamente pelas renovações da morte, outros, ainda, interessavam-se pelos ateus, pelas consciências encarceradas no remorso, pelos enfermos na carne, pelos agonizantes na Crosta, pelos dementes sem corpo físico, pelas crianças em dificuldade no Plano invisível aos homens, pelas almas desanimadas e tristes, pelos desequilibrados de todos os matizes, pelos missionários perdidos ou desviados, pelas entidades jungidas às vísceras cadavéricas, pelos trabalhadores da Natureza, necessitados de inspiração e carinho.

Para todos, possuía o mentor uma sentença generosa de estímulo e admiração.

Chegada a nossa vez, Jerônimo nos apresentou gentilmente:

— Metelo, temos aqui três companheiros que me seguirão agora, em missão de socorro.

— Muito bem! Muito bem! — Exclamou o interpelado, — que o Divino Servidor os inspire.

Abraçou-nos, com simplicidade, e perguntou:

— Partem com obrigação especializada?

— Sim, — esclareceu nosso orientador, — devemos atender, nos próximos trinta dias, a cinco dedicados colaboradores nossos, prestes a desencarnarem na Crosta. Trabalharam, fiéis à causa do bem, e as nossas autoridades encarregaram-nos de atender-lhes aos casos pessoais.

— Prevejo muito êxito, — comentou Albano Metelo, fixando em nós o olhar sereno.

Revelando espontânea alegria pelas palavras ouvidas, Jerônimo acrescentou, delicado:

— Confio na dedicação dos meus companheiros. Seguem comigo um ex-padre católico, uma enfermeira e um médico. Seremos quatro servos em ação ativa.

— Compreendo, — aduziu o Instrutor.

— Vamos com autorização para efetuar experiências, estudos e auxílios eventuais, de conformidade com as circunstâncias, em vista do caráter de nosso trabalho, que nos prodigalizará ensejo a diferentes observações.

Enviou-nos Metelo reconfortante sorriso de otimismo e confiança, cumprimentou-nos, individualmente, e, depois de abraçar o nosso diretor, com intimidade, exclamou:

— Que o Mestre os ilumine e conduza.

Eram as palavras de despedida. Outro grupo socorrista aproximou-se dele e retiramo-nos do templo da Paz, repletos do pensamento salutar de servir aos semelhantes em nome de Deus.

Lá fora, a noite de maravilhas era bem uma festa silenciosa, em que o aroma das flores convidava para o banquete celeste da luz.


André Luiz


[1] Instituição localizada nas áreas do Ministério do Auxílio em Nosso Lar.



VÍDEO:

Obreiros da Vida Eterna - Cap. 1 - Convite ao Bem
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz




O Espírito da Letra - Obreiros da Vida Eterna - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 

Produção - TV Alvorada Espírita - http://www.tvalvoradaespirita.com.br 

Realização - TV Mundo Maior - http://www.tvmundomaior.com.br


domingo, 20 de outubro de 2024

André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 9 - Louvor e gratidão




André Luiz - Livro Obreiros da Vida Eterna - Chico Xavier - Cap. 9


Louvor e gratidão


Embora os resultados de nossa visita ao abismo fossem aparentemente mínimos, sentíamo-nos confortados e satisfeitos.

De volta, ladeando pântanos e guardando a mesma severa atitude de vigilância, ao considerar possíveis surpresas do caminho, fizemos todo o trajeto em profundo silêncio.

Aproximando-nos, porém, do instituto, após atravessar a zona perigosa, a Irmã Zenóbia tomou a palavra, agradecendo-nos em tom comovedor. Depois de carinhosas expressões de reconhecimento, acentuou, jubilosa:

— Felizmente, nosso trabalho foi abençoado e profícuo. 

Os cooperadores novos estranharão, talvez, a minha afirmativa, lembrando, sem dúvida, que as faixas de salvamento voltaram vazias. No entanto, algo ocorreu de mais importante que a eventualidade de trazermos compulsoriamente conosco alguns irmãos infelizes. Refiro-me à semeadura das verdades eternas nos corações ignorantes, à ministração da esperança aos desalentados e tristes. 

Não somos apologistas da violência, mas semeadores do bem, e a base natural da colheita segura é a sementeira cuidadosa. Os ensinos edificantes lançados ao solo do entendimento abrem horizontes novos e claros à investigação mental dos necessitados e sofredores. Muitos deles, ainda esta noite, cultivarão os princípios renovadores recebidos, em processo intensivo no campo interno, e amanhã, provavelmente, estarão em condições vibratórias adequadas à internação em nosso asilo. 

Mais desejável para nós é que todos caminhem, utilizando os próprios pés, para que, de futuro, em meio dos serviços naturais da regeneração, não se declarem vitimados por ações de arrastamento. Em todos os lugares encontraremos a compaixão e a justiça de Deus.

Sorriu, benevolente, e acrescentou:

— A compaixão, filha do Amor, desejará estender sempre o braço que salva, mas a justiça, filha da Lei, não prescinde da ação que retifica. Haverá recursos da misericórdia para as situações mais deploráveis. Entretanto, a ordem legal do Universo cumprir-se-á, invariavelmente. Em virtude, pois, da realidade, é justo que cada filho de Deus assuma responsabilidades e tome resoluções por si mesmo.

O esclarecimento era lógico e reconfortador. Desejaríamos a continuidade da argumentação; no entanto, acercávamo-nos da Casa Transitória, então à nossa vista. Alcançáramos as vizinhanças do átrio e admirei-me da movimentação em torno.

Entidades numerosas iam e vinham. Quase todas penetravam a organização socorrista ou dela saíam, em grupos reduzidos. Velhos amparavam jovens que me pareciam indecisos, titubeantes. Crianças nimbadas de luz guiavam adultos de rosto sombrio, figurando-se carinhosos e pequeninos condutores de cegos.

O quadro era formoso e enternecedor. Possivelmente, examinando a estranheza que se apossara de mim, adiantou-se a orientadora da instituição, explicando, atenciosa:

— Nossos amigos da Crosta, parcialmente libertos da carne pela atuação do sono, afluem até aqui, todas as noites, trazidos por companheiros espirituais, com o fim de receberem socorros ou avisos necessários. A Casa oferece recursos aos encontros oportunos.

Não consegui disfarçar a surpresa, ante a cena maravilhosa, contemplando, embevecido, o cuidado terno dos benfeitores desencarnados com todos aqueles que vinham dos Círculos terrestres mais densos.

Atravessada a zona magnética de defesa, confundimo-nos com os passantes. Não longe de mim, interessante menino, que aparentava nove a dez anos de idade, revestido de gracioso halo de luz, guiava uma senhora de passos incertos. Parecia enferma, incapaz de autocontrole. O pequeno, porém, segurava-lhe firmemente a destra e, após saudar a Irmã Zenóbia, respeitoso, exclamou para a matrona hesitante:

— Por aqui, mamãe! Por aqui! Venha sem medo.

Ouvindo-o, a interpelada parecia acordar num sonho bom e gritava, semi-inconsciente:

— Meu filhinho, meu filhinho! Não me deixes voltar. Quero-te sempre, sempre!…

As expressões de meiguice misturavam-se a copioso pranto. Fixei-lhe os traços fisionômicos. A pobre mãe não nos enxergava. Seguia, acanhada e insegura de si. Seus olhos, que vertiam grossas lágrimas, permaneciam presos na contemplação da criança, revelando a suprema ternura de mãe, exausta de saudade, a reencontrar o objeto de seu amor, que parecera perdido para sempre.

— Mamãe, caminhe! Não desfaleça! — Clamava o rapazinho, exultando de júbilo.

— Já vou, meu filho! Eu te seguirei, leva-me contigo! — Tornava a palavra maternal, afogada em sublime emoção.

Meus companheiros, habituados talvez, desde muito, ao espetáculo, conversavam, descuidados, entre si; todavia, segui, de olhos umedecidos, a criança carinhosa que amparava a sua mamãe, até que desapareceram através de uma das portas laterais.

Não contive a surpresa que me dominava. Tocando o braço do padre Hipólito, indaguei:

— Meu amigo, com que fim seguiriam a senhora e o menino?

Esboçou ele significativo gesto de espanto e observou:

— Não os vi.

Falei-lhe, então, do quadro que tanto me enternecera, bordando meus informes de considerações afetivas.

O ex-sacerdote sorriu compassivo e acrescentou:

— Ora, André, são tantas mães e tantas crianças a transitarem por aqui!… Certamente, o filhinho, como tantos outros, conduz a genitora a gabinetes de auxílio.

Não tive tempo para emitir novas impressões.

Nosso grupo atingiu a porta de ingresso e dois amigos acercaram-se, solícitos. Tratava-se de Gotuzo e outro irmão com quem não havia entrado em contato pessoal.

Saudaram-nos cortesmente.

Logo após, dirigiu-se Gotuzo à diretora, informando-a de que os serviços de colaboração na Crosta, junto dos técnicos que organizavam algumas reencarnações expiatórias, haviam sido executados satisfatoriamente.

Zenóbia agradeceu e convidou-os a partilhar das orações de louvor e gratidão ao Todo-Poderoso.

Penetramos a Sala Consagrada, onde a orientadora tomou conhecimento das medidas levadas a efeito em sua rápida ausência e certificou-se de que todos os abrigados haviam comparecido à reunião geral de preces e auxílios magnéticos, realizada minutos antes.

Sinais sonoros convocaram colaboradores à ação de graças.

Zenóbia, delicada e ativa, dispôs-nos em torno de vasta mesa, ao fundo da qual se erguia uma tela transparente de grandes proporções.

Admirável a comunhão da casa! Todos os dirigentes das variadas seções em que se subdividiam as atividades do instituto, encontravam-se presentes para a tarefa gratulatória.

A diretora informou-nos, afável, que todas as noites se verificavam trabalhos de oração para os asilados e para o pessoal administrativo, salientando que, nesses últimos, se reunia em pessoa com todos os subchefes da organização que não se encontrassem inibidos por motivos de serviço. Naquela oportunidade, éramos ali trinta e cinco criaturas, presas ao doce magnetismo daquela mulher que tão bem sabia desempenhar a excelsa missão educativa. 

À cabeceira do grande móvel referido, cercado pelas poltronas confortáveis que ocupávamos em duas filas, sentou-se Zenóbia, radiante, mantendo-se de frente para a tela constituída de tecido diáfano, semelhando tenuíssima gaze. Trinta e cinco mentes, interessadas na aquisição de luz divina, uniam-se à dela, para as vibrações de reconhecimento e paz.

Gotuzo, próximo de mim, entregou-se a profunda meditação.

Solicitando-nos acompanhar-lhe mentalmente as palavras, a instrutora iniciou a oração comovente e sublime:

— “Senhor da Vida: nossos corações transbordantes de júbilo te agradecem as bênçãos de cada dia!

“Permite que nos reunamos, em teu nome, nesta noite bendita de felicidade e esperança, para manifestar-te nossa gratidão imperecível.

“Não te rogamos, Senhor, vantagens e benefícios para nós outros, ricos que somos de tua luz e misericórdia, mas suplicamos ao teu coração augusto nos sejam concedidos os dons do equilíbrio e da equidade, para que saibamos distribuir nossa divina herança e não dissipemos, em vão, a glória de tuas dádivas. Fortifica-nos a noção de harmonia para sermos cooperadores leais de teus santos desígnios.

“Erguemo-nos do abismo do passado, por tua bondade vigilante, e aqui nos encontramos para servir-te! Entretanto, Pai, vergados ao peso das inclinações humanas, por nós cultivadas com desvarios emotivos, durante milênios, não prescindimos de tua disciplina e de tua força paternal. Dá-nos o clima sadio da libertação de nós mesmos! Magnetizados pelas nossas recordações do pretérito, nem sempre te compreendemos a vontade soberana e criteriosa. Anula-nos o personalismo inferior para que a consciência do Universo nos esclareça o coração. Levanta-nos o raciocínio para mais alto entendimento; faze-nos vibrar no campo de teus Divinos Pensamentos!

“Puseste em nossa boca o verbo construtivo, encheste-nos a alma de luz e tranquilidade, a fim de colaborarmos em tua obra. Deste-nos, neste pouso de amor fraterno, companheiros dedicados ao bem, e, em torno de nossa tarefa pequenina, colocaste a multidão dos aflitos e sofredores.

“Ó Senhor! Como somos felizes pela possibilidade de ministrar em teu nome consolações e esclarecimentos! Contudo, nós te imploramos inspiração e roteiro, considerando as responsabilidades dos que te recebem a mordomia da salvação! Ensina-nos a agir desapaixonadamente; infunde-nos respeito pela autoridade que nos deste; ajuda-nos a desprender a mente das criações individuais, para que te sintamos mais de perto no esforço coletivo da elevação comum! E toda vez que nossos atos traduzam interferência indébita do livre arbítrio na execução de tuas leis, repreende-nos, severamente, para que não persistamos no desvio impensado. Somos teus filhos frágeis e confiantes! Todas as tuas resoluções, a nosso respeito, são excelentes e belas. Concede-nos, pois, bastante visão, de modo a enxergarmos nossa ventura em teus desígnios, sejam quais forem!

“Somos servos humildes de tua sabedoria gloriosa!

“Neste celeiro de paz consoladora, recebemos a tua presença indireta, através de mil recursos diferentes com que atender os que choram e padecem.

“Ó Pai Compassivo! Que felicidade maior que esta, a de espalhar, com Nosso Senhor Jesus-Cristo, as tuas bênçãos redentoras e carinhosas? Que escola mais rica, além da que se localiza nesta casa, onde aprendemos, jubilosos, a exercer o dom sublime de dar?”

A instrutora interrompeu-se, de voz afogada na emoção com que se dirigia a Deus, e, aludindo à realização particular que efetuara naquela noite, prosseguiu, depois de longa pausa, comovendo-nos a todos:

— “Dilatando-nos a alegria, estimulando-nos a coragem, santificando-nos a esperança, tu permites ainda, Senhor, que possamos atender ao coração interessado em lenir e confortar Espíritos queridos, que se perderam de nossa companhia no curso incessante do tempo!”

Nova pausa da orientadora. Em seguida, imprimindo suave entono às palavras que pronunciava, a Irmã Zenóbia concluiu:

— “De alma voltada para a tua magnanimidade, endereçamos-te reconhecimento sem termo!

“Sê louvado por todos os milênios dos milênios, sê glorificado por todos os seres da Criação! Teus servidores nesta casa de edificação agradecem-te as oportunidades preciosas de trabalho e esperam a continuidade de tuas bênçãos. Que a tua infinita luz seja refletida em todo o Universo Infinito! Assim seja.”

As últimas sentenças da oração inesquecível foram cunhadas em profunda emoção misturada de júbilo. Aquela prece constituía ato de louvor dos mais formosos que eu escutara, até então. Zenóbia regozijava-se pelo ensejo de serviço, pela fortuna de contribuir com alguma coisa de útil, pela ventura de repartir o bem.

Os minutos de adoração elevaram-nos. Suave luz irradiava-se de nossas frontes sincronizadas nos mesmos pensamentos.

Finda a manifestação gratulatória, a diretora recomendou-nos observação e silêncio. Não se passou muito tempo e a tela, desdobrada diante de nós, como se fora instrumento de resposta ao esforço devocional, iluminou-se de súbito, expelindo raios de brilho maravilhosamente azul, que se espargiram sobre a diminuta assembleia, quais minúsculas safiras eterizadas. Davam-me a ideia de energias divinas a eclodirem sobre nós, penetrando-nos o íntimo e revitalizando-nos o ser.

Transcorridos alguns minutos, Zenóbia, agradeceu, sensibilizada, interpretando o sentimento geral.

Nova quietude pairou em toda a sala. Contudo, após longos instantes de expectativa mais intensa, Luciana tomou a palavra e dirigiu-se à Diretora, nestes termos:

— Neste momento, vejo na tela das bênçãos respeitável ancião, cercado de luz verde-prateada. Estende-lhe a destra, abençoando-a, e me recomenda dizer-lhe tratar-se de Bernardino.

— Ah! Já sei, — respondeu, contente, a instrutora, — é mensageiro da Casa Redentora de Fabiano. Que Jesus o recompense pelo contentamento que nos traz.

— Assegura o iluminado visitante, — tornou a clarividente prestimosa, — que as vibrações ambienciais inclinam-se, agora, para as Esferas inferiores e que não conseguirá fazer-se visível a todos, não obstante o seu desejo. Acrescenta que os amigos da instituição velam pela marcha harmoniosa dos serviços e que a fonte da Bondade Divina suprirá sempre de paz e recursos a todos os corações de boa vontade, na semeadura do bem.

Em seguida a ligeiro intervalo, que Luciana parecia aproveitar em meticulosa observação, informou, comovida:

— O emissário contempla-nos, silencioso, e, erguendo os olhos para o Alto, pede para nós a luz da compreensão divina.

Vimos profusa emissão de raios brilhantes de luz verde, por intermédio de diáfana substância, como nova chuva de pequeninas gotas celestes.

Terminada a exteriorização da sublime energia, portadora de bem-estar, e findos alguns minutos de novo silêncio, Luciana voltou a comunicar-se com a diretora:

— Irmã, ilumina-se a tela novamente. Desta vez, temos a visita de uma bem-aventurada celeste. Oh! Sua fisionomia deslumbra! Tem no colo soberbo ramalhete de lírios nevados a exalar inebriante perfume.

A informante não havia completado a notificação e, em meio da alva claridade que se evolava da tela, sentíamos todos o aroma característico das flores mencionadas, envolvendo-nos em ondas de alegria e paz indescritíveis.

Impressionada por sua vez, Luciana prosseguiu:

— A mensageira traja veludosa túnica, talhada em delicado tecido semelhante a escumilha de neve, e parece em oração de agradecimento…

— Agora, fixa-nos, bondosa, — continuou, retomando a palavra, — e atira-nos as flores que traz consigo, revelando inexcedível carinho! Diz alguma coisa… Oh! Sim, com permissão dos nossos Maiores, deseja comunicar-se com o irmão Gotuzo e solicita-nos cooperação!

Não pude ocultar a surpresa, em face do desdobramento dos trabalhos naquele ofício de gratidão e louvor.

A Irmã Zenóbia, naturalmente experimentada nas atividades de intercâmbio, interveio, acrescentando:

— Sim, Luciana, tanto quanto estiver em suas possibilidades, ceda o seu veículo de manifestação, já que o ambiente permanece pesadíssimo. 

Noutras circunstâncias, a providência não seria necessária, mas as substâncias densas do Plano, carregado de forças negativas, incidem sobre o aparelho das bênçãos, forçando-nos ao concurso pessoal mais direto. Estamos prontos para receber a devotada emissária nesta casa de paz. Gotuzo e nós outros colocamo-nos à disposição dela, a fim de ouvir-lhe a mensagem de amor.

A enfermeira, com a possibilidade de quem enxergava mais que nós, observou comovidamente:

— Identifica-se por Letícia, declara que desencarnou há trinta e dois anos e assevera que foi mãe do companheiro referido.

Mais emocionada e reverente, acentuou:

— Ah! Desloca-se agora da tela e vem ao nosso encontro. Adianta-se. De suas mãos desprendem-se raios de sublime luz. Abraça-me! Oh! Como sois generosa, abnegada benfeitora!… Sim! Estou pronta, cederei com prazer!…

Nesse instante, a fisionomia de Luciana transformou-se. Beatífico sorriso estampou-se-lhe nos lábios. De sua fronte irradiava-se formosa luz. Com a voz altamente modificada, começou a exprimir-se a emissária por seu intermédio:

— Irmãos, seja conosco a paz do Cordeiro Divino! Não desejamos perturbar a reunião que vos congrega no serviço impessoal da verdade e do bem; todavia, com a permissão dos nossos Orientadores, venho ao encontro de alguém que nos é muito caro, buscando despertar-lhe a consciência para horizontes mais altos da vida.

Sorriu, benévola, e continuou:

— Relevem-nos, pois, dedicados amigos! Nossas experiências mais elevadas resultam da permuta incessante de valores comuns. 

O coração que ama em Cristo é operosa abelha que recolhe o mel de sabedoria em todas as flores de amor e trabalho. Colherei, contente, na alma fraterna desta assembleia de cooperadores da Vontade Divina, elementos de tolerância e compreensão e sentir-me-ei feliz se puder oferecer-lhes algo do carinho materno que mantenho no coração faminto de vida superior.

Fez reduzido intervalo entre a saudação e o objetivo de sua permanência entre nós. Em seguida, dirigindo-se, em particular, ao colega que lhe recebia a visita, expressou-se com acentuada inflexão de ternura:

— Gotuzo, meu filho, serei breve. Antes de adverti-lo, já roguei ao Senhor o abençoe e inspire sempre. Ouça, desapaixonadamente, a palavra de sua mãe e velha amiga.

Desprenda-se das ideias antigas para compreender melhor. As concepções inferiores de nosso “eu” também se cristalizam, impedindo a penetração da luz em nosso campo interno. 

Escute, filho meu, como pode menosprezar a santa oportunidade de elevação? Como pode permanecer em repouso, perante as necessidades primordiais do espírito? 

O Mestre aproveita as qualidades utilizáveis do discípulo, em determinado setor do aprendizado, adiando, por misericórdia, a melhoria e o aprimoramento de certas zonas obscuras da personalidade. Por vezes, o aprendiz retarda-se meses, anos, séculos… 

Jesus não é senhor da violência e nunca impõe drásticos à obra evolutiva. É cultivador do trabalho, da esperança. Aguardará sempre, compassivo e bondoso, nossas decisões de colaborar no apostolado redentor, suportará nossas faltas muitas vezes; entretanto, em nosso próprio interesse, deveremos atentar, vigilantes, para os seus ensinamentos, com a sincera disposição de aplicá-los. 

Sem dúvida, não nos fulminará com raios destruidores pela nossa demora em desculpar alguém; no entanto, recomendou perdoemos setenta vezes sete vezes; naturalmente, não nos perseguirá pela nossa dificuldade em simpatizar com irmãos atualmente menos felizes que nós. Esforçou-se, contudo, para que nos amemos uns aos outros. 

Não virá em pessoa obrigar-nos a assumir determinada atitude evangélica, mas traçou todas as disposições necessárias ao estabelecimento de roteiros para a prática do bem. 

Seu esforço médico, nesta casa, é, de fato, apreciável. Companheiros dignos seguem-no com amizade e admiração. Multiplicam-se os valores que o cercam; amontoa você preciosidades e bênçãos, na parte das aquisições afetivas, porém… e o seu próprio destino? 

Seus amigos, não obstante a luz que lhes brilha no caráter santificado, não podem substituí-lo nas realizações que o esperam. Suas manifestações de natureza exterior instruem e confortam. Seus pensamentos mais íntimos, entretanto, dilaceram-nos o coração. 

Como conduzirá doentes à cura, se prossegue magoado com aqueles que o feriram aparentemente? Como dará lições de bom ânimo aos tristes, se se demora tanto tempo na ilusão do desalento? 

Ó filho amado, ninguém serve à obra do Pai com a mente toldada pelo vinho amargoso das paixões! Abra o entendimento à passagem das bênçãos divinas! Não guarde vermes venenosos no jardim da esperança… Estragariam as mais belas flores, aniquilando a promessa dos frutos…

16 Interrompeu-se a mensageira, por um momento, parecendo coordenar a argumentação, e prosseguiu:

— É razoável que você demore neste asilo de amor, colaborando na cura de desequilibrados mentais, longe dos Círculos mais densos. Contudo, não pretende ganhar o Mais Além? Admite, satisfeito, o cárcere do estacionamento, malgrado o caráter do trabalho edificante? Não desejará libertar-se para libertar, efetivamente, os prisioneiros da ignorância? Não demandará o Plano superior para ser mais útil aos que intentam galgar a escada reveladora da luz imortal? 

Não falo a você, agora, dentro da afetuosa impertinência de mãe. Nossos laços, presentemente, em relação ao passado, são muito diversos. Somos, ambos, filhos do Pai Altíssimo, e creia que minha devoção por você não é menor. 

Não o abandonarei às inclinações menos elevadas, não obstante justificáveis na tabela das convenções puramente humanas. E, em razão disso, venho ouvi-lo sobre os seus propósitos. Você tem cooperado, espontâneo e assíduo, nas tarefas do bem. É um trabalhador com direito a descobrir os próprios erros e a retificar o caminho que lhe compete. 

Ouça, porém, meu filho, e compreenda-me: venho intercedendo, junto às autoridades que nos regem os destinos, para que a sua consciência desperte para a divina luz. O grupo doméstico, amado e inesquecível, espera por você na preparação da felicidade porvindoura!…

As palavras pronunciadas exprimiam enorme bagagem de considerações que ficariam por dizer. Cada conceito envolvia-se em significativa onda de pensamentos, que evidenciavam, de modo indireto, os sagrados fins da visita materna.

Após longa pausa, Letícia indagou delicadamente:

— Que responde, filho meu?

Fez-se comovedor silêncio; percebemos que Gotuzo chorava, entre a respiração opressa e os soluços mal-contidos. Ao termo de alguns instantes, replicou, humilde:

— Minha mãe! Minha boa mãe! Estou pronto!…

A comunicante, cuja presença sentíamos sem ver, tornou, visivelmente emocionada:

— Rendo graças ao Senhor pela sua compreensão. Sim, meu filho, organizaremos todas as medidas indispensáveis. Voltará, em breve, ao agrupamento familiar. Prepare-se, considerando a luta imprescindível à iluminação. 

O instituto doméstico, legitimamente considerado, é celeiro de supremos valores educativos para quantos procurem os interesses divinos, acima das cogitações humanas. 

O lar terrestre é bendita forja de redenção. Reencontrará as simpatias e antipatias de outro tempo, oferecendo possibilidades felizes de reajustamento emocional. 

Recapitule mentalmente as lições aprendidas, peça a inspiração de Jesus e disponha-se a partir, tranquilo. Não desanime diante do serviço a fazer. Somos milhões de criaturas, disputando o ensejo de santificar sentimentos. 

No passado, raras vezes procedíamos em obediência aos ditames da Lei. Se exteriorizávamos estima, perdíamo-nos em excessos de paixão, como perdulários do afeto; se manifestávamos atitudes de corrigenda, cedíamos à cegueira do ódio, como cultores do exclusivismo feroz. É necessário regressar ao curso, para conquistar o equilíbrio espiritual necessário à elevação.

Gotuzo, em lágrimas, não conseguia falar. A ex-genitora, todavia, deixando-nos perceber que lhe captava os mais íntimos pensamentos, acentuou, depois de mais longo interregno:

— A esposa dedicada que deixou na Crosta não poderá servir-lhe de mãe; entretanto, ser-lhe-á carinhosa e experiente avó. 

Seu adversário gratuito, pobre homem que se entregou à inveja e à ambição destruidoras, receberá seus beijos infantis e com eles os eflúvios de seu perdão renovador. 

Que coração enganado pelos maus sentimentos não se dobrará entre as mudanças da vida? O ex-inimigo penetra, agora, no declínio das ilusões. Sua alma atravessa atualmente o pórtico que dá acesso à velhice do corpo temporário. Ao invés de lembranças doces que lhe afaguem o espírito, curtirá aflitivas reminiscências. 

Sua presença atenuar-lhe-á os pesares. Enquanto as doenças do desequilíbrio lhe vergastarem a carne e as recordações penosas lhe castigarem a mente, será você o neto consolador, mensageiro de paz em forma de criança. 

Ajudá-lo-emos a consagrar-lhe atenção e carinho. No desencanto do corpo cansado e na ternura infantil, o Espírito consegue sublimes realizações para a vida eterna.

Novo intervalo da visitante, que continuou, em seguida:

— Seu futuro pai, na efêmera existência humana, coração particularmente amado do seu, receberá concurso amoroso e decisivo dum filho muito caro, elevando-se a nobilitante altura moral, pelo sagrado estímulo de sua companhia. 

Sua volta infundir-lhe-á mais respeito ao mundo e aos semelhantes. Desejará cultivar virtudes e valores, a fim de que você lhe abençoe a paternidade. Chorará com as suas dores, rir-se-á com as suas alegrias. Sentir-se-á novo homem, ao contato de suas mãos pequeninas. 

Seu esforço futuro, após as realizações que vem levando a efeito, beneficiará todo o grupo familiar, em abençoada tarefa que não pôde realizar na condição que passou. Ó meu filho! Haverá ventura maior que a de liquidar nossos débitos e partir unidos para os júbilos do cântico imortal de integração com a Divindade? Outras escolas mais belas esperam por nós, outras glórias nos felicitarão para sempre! Sigamos para Deus!…

Nesse ponto, interrompera-se-lhe a palavra, talvez absorvida pela emoção profunda.

Respeitoso e humilde, Gotuzo rogou à Irmã Zenóbia lhe permitisse aproximar-se. Obtido o consentimento, avançou para a poltrona em que Luciana traduzia a personalidade materna, e ajoelhou-se, beijando-lhe as mãos:

Letícia, bondosa, recomendou:

— Levante-se, meu filho… Sei que você me ama, intensamente. Todavia, há irmãos nossos que lhe esperam a estima e a compreensão. 

Não venho sozinha ao seu encontro. Enquanto me dispunha a visitá-lo, solicitei o comparecimento de alguém dos Círculos mais densos, para colher a certeza de suas disposições. Para a nossa felicidade completa não basta que você me beije e admire. É indispensável que se aproxime fraternalmente daqueles a quem ainda não sabe amar. Alguém confabulará conosco, dentro de minutos breves. Abrir-se-ão as portas desta casa de bênçãos, em benefício de nossa congregação familiar. Espere.

Mantinha-se Gotuzo em ansiosa expectativa, em face das singulares observações.

Surpreendendo-nos a todos, poucos segundos após, duas senhoras penetraram o recinto. A que apresentava maior número de anos, revelava alta posição de orientadora, na luz que a circundava, mas a segunda mostrava a obscura condição de alma encarnada, em temporário afastamento do corpo, através do sono físico. 

Reconheceu Gotuzo, de longe, e, evidenciando incontestável deficiência de disciplina emotiva, estendeu-lhe os braços, descontrolada e inquieta, bradando:

— Gotuzo! Gotuzo! Que felicidade, este reencontro!

Parecendo, porém, perturbada pelo choque das lembranças relativas à diferente situação que o desprendimento do primeiro esposo lhe trouxera, acrescentava, aflita:

— Não me queira mal! Ajude-me por amor de Deus! Não me abandone, não me abandone!…

Dolorosos soluços rebentavam-lhe do peito.

O interpelado quedou silencioso, atendendo, talvez, à íntima angústia que o dominava, mas Letícia interveio, generosa. Erguendo-se, firme, recolheu a nora nos braços e tranquilizou-a:

— Venha, Marília, venha ao meu coração. Sabemos quanto tem sofrido, na silenciosa depuração espiritual. Nunca fomos surdos aos seus rogos e conhecemos, de perto, a extensão das provas amargurosas que lhe colheram a alma sensível.

A visitante da Crosta Terrestre contemplava a benfeitora, enlevada e feliz, sentindo-se na presença dum anjo bom, já que não conseguia coordenar raciocínios para compreender o fenômeno em curso. Através da luminosidade de seu olhar, observávamos a ventura que lhe banhava o Espírito, jubilosa ao contato de tão belo entendimento. 

Depois de acariciá-la com meiguice materna, a venerável amiga dirigiu-se ao nosso companheiro, acentuando:

— Meu filho, não queria você abraçar-me e beijar-me? Acredita que a esposa terrestre mereça menos que eu? Admite, ainda, que a mãe de seus filhinhos estremecidos, saudosa e devotada, tenha sido ingrata ao seu desvelado amor? Continuará esquecido do bem para agravar o mal? 

A viúva, na Crosta, em muitas ocasiões, deve aceitar o segundo matrimônio como sacrifício necessário, por supremo respeito ao consorte que partiu. Retire dos olhos a venda do egoísmo que lhe vem interceptando a visão e interprete com naturalidade as exigências da vida terrena.

Num gesto conciliador, confiou-lhe a esposa, acrescentando:

— Ajude-a para que você possa ser ajudado. Não recuse a lição, porque o futuro virá aclará-la inteiramente.

Magnetizado, talvez, pela carinhosa advertência materna, Gotuzo abriu os braços e recolheu-a, solícito, na atitude de irmão compadecido e desvelado.

Marília observava-o, em êxtase.

— Oh! Que sonho bom! — Exclamou, sob indefinível expressão de ventura.

E, relanceando o olhar pelo salão em luz, dirigia-se a nós outros, comovedoramente:

— Tenho medo de minha velha habitação! Ah! Por favor, enviados divinos, não me deixeis voltar nunca! Nunca mais!…

Compreendendo que a nora, temporariamente liberta do corpo, entrava num domínio vibratório prejudicial à organização psíquica, em virtude dos deveres que lhe cabiam na Esfera carnal, Letícia considerou, retomando-a a si:

— Ouça, filha: é preciso que você não se detenha por mais tempo. Não pode permanecer entre nós, antes que os Eternos Desígnios se manifestem nesse sentido. Volte, porém, ao lar distante, convencida de nossa afeição sem mácula. Nossa tranquilidade seguir-lhe-á os dias terrenos. Não lhe faltará cooperação. 

Se não pode acompanhar o esposo querido, pela inoportunidade de semelhante desejo, alegre-se e confie no Poder Divino, pois Gotuzo irá ao seu encontro. Em breve, Marília, seus beijos orvalharão de amor e ventura um rosto pequenino, que sintetizará, para as suas esperanças de avó, verdadeiro mundo de felicidade redentora.

Emocionada pela alegria, interrogou a pobre alma:

— Gotuzo perdoou-me?

— Ele nunca sofreu ofensa alguma de seu coração dedicado, — adiantou-se Letícia, bondosa, — e lembrar-se-á sempre, com desvelo e ternura, da companheira fiel que lhe amparou os filhinhos amados e lhe honrou o nome, entre renúncias e sacrifícios ignorados.

— Oh! Oh! Que felicidade! — Repetia a interlocutora, afogada em pranto de júbilo e reconhecimento.

Afagando a fronte do filho, que também chorava sob forte emoção, Letícia rogava-lhe:

— Diga-lhe, meu filho, quanto a amamos! Tranquilize-lhe a alma sensível e afetuosa!

Tal como uma criança vencida, nosso irmão assegurou:

— Marília, nunca resgatarei minha dívida para com seu devotamento. Regresse, confiante, enquanto preparo minha própria volta. Brevemente, com o auxílio de Deus e de nossa abençoada mãe, estaremos, de novo, reunidos na Terra! Peça energias para mim, em suas orações de serva incompreendida. 

Está você em vias de terminar dolorosa prova de resgate, ao passo que vou recomeçá-la. Sou eu, portanto, agora, quem suplica auxílio e proteção… Espere-me! Não desfaleça! Aprenderemos a refundir sentimentos, purificar laços afetivos, santificar impulsos e, sobretudo, abençoaremos quem nos feriu aparentemente, amparando suposto inimigo, a fim de que nos convertamos em sinceros irmãos uns dos outros…

Ambos choravam enternecedoramente.

Em seguida, Letícia restituiu a nora aos braços amigos da orientadora que a reconduziu de volta ao corpo físico, no mesmo silêncio dentro do qual se mantivera até então.

A ex-genitora de Gotuzo recomendou-lhe que retomasse o primitivo lugar e, recompondo o ambiente, solicitou o concurso de Zenóbia para a futura realização filial.

A Diretora da Casa, rememorando talvez o esforço que levara a efeito naquela mesma noite, em benefício dum coração que lhe era particularmente amado, acusava funda emoção.

— Gotuzo conta nesta instituição com amigos que lhe são infinitamente reconhecidos, — falou Zenóbia, sensibilizada. — É companheiro a quem devemos muito. Realizaremos, de bom grado, tudo quanto esteja ao nosso alcance para que a experiência nova lhe seja portadora de luzes e bênçãos. 

A felicidade dele, em outro setor, minha irmã, será igualmente a felicidade desta casa. Segui-lo-emos na recapitulação terrestre, atenciosos e vigilantes, não por obséquio, mas em obediência ao preito de gratidão de que somos devedores, pelos vários anos em que cooperou conosco, devotada e assiduamente.

Letícia agradeceu e partiu, deixando-nos preciosos eflúvios de paz e encantamento.

Outro iluminado mentor da organização socorrista, identificado por Luciana, então reintegrada na própria personalidade, ditou-nos, por ela, algumas palavras elevadas e santas de estímulo, endereçando-nos copiosa chuva de raios luminosos através da tela das bênçãos, recomendando a Zenóbia que encerrasse os serviços da prece, na paz do Senhor.

A diretora pronunciou enternecida oração de reconhecimento e júbilo, encerrando a tarefa. Abraçando-nos, esclarecidos e satisfeitos pelo êxito da hora, vimos que a Irmã Zenóbia encaminhou-se para Gotuzo, enlaçando-o maternalmente:

— Oh! Minha venerável irmã! — Disse ele, enternecido, — como é grande o prêmio da Misericórdia Divina!… Não mereço tanto! Auxilie-me a agradecer a Deus!…

— Regozijemo-nos, Gotuzo! — Respondeu a interlocutora, — e louvemos o Pai que tanto nos engrandece o esforço obscuro e pequenino! O agraciado de hoje não foi apenas você. Também eu aumentei, de muito, meus grandes débitos para com o Altíssimo!…

De voz quase embargada pela comoção, concluiu:

— Também eu recebi divina concessão nesta grande noite!


André Luiz







VÍDEO:

Obreiros da Vida Eterna - Cap. 9 - Louvor e gratidão - Parte 1 & 2
O Espírito da Letra

Apresentação: André Luiz Ruiz






O Espírito da Letra - Obreiros da Vida Eterna - Analisando a obra de André Luiz psicografia de Chico Xavier. 

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